dito assim parece à toa

20.11.09

Miséria muita


Cena de "Lula, o filho do Brasil"

Se, para melhorar o Brasil, é preciso seguir o roteiro do lulo-sindicalismo, com o aparelhamento do Estado e a companheirocracia; se é preciso cultivar e louvar um ídolo messiânico, incentivando peças de propaganda barata em longas-metragens caros (qual será a próxima? "Dilma, a mãe do Brasil"? "Dirceu, o bedel do Brasil?" "Zé Eduardo Dutra, o faz-tudo do Brasil?"); se é preciso cooptar a imprensa pela chantagem velada aos pequenos veículos de comunicação ou pela proposição de "órgãos de controle da mídia"; se é preciso ter aversão ao senso crítico das pessoas (óbvio, das que não elogiam); se é preciso tachar de "conspiração das elites" o que quer que denuncie incompetências, desmandos, safadezas ou mesmo enganos da companheirada; se tudo isso é preciso para a redenção dos miseráveis ou a reconciliação da sociedade, estamos condenados, de fato, à miséria mais duradoura, que não é a de pão, mas a de consciência, aquela que leva à doença da dependência de pensamento.

Dependência de pensamento é aquele mal que acomete os religiosos fanáticos, os militantes ortodoxos, as macacas de auditório. Pergunte a um devoto da bispa que contrabandeou dólares na Bíblia se ele considera a tal senhora criminosa. Pergunte a um militante do MNN se ele tem certeza de que a composição de classes é mesmo essa que divide burqueses e trabalhadores. Pergunte a uma fã do Roberto Carlos se ele tem mau hálito. Um dependente de pensamento pensa a partir de regras externas pré-estabelecidas. Não sabe o que pensa até conhecer o que as regras impõem. Jamais as põe em dúvida. É isso o que estamos começando a viver, como nunca antes neste país: devoção, babação, renúncia a pensar, terceirização da crítica.

Começa a virar pecado falar mal do que quer que se faça sob a égide de Lula, e começa a virar ingenuidade ou má-intenção propor qualquer coisa diferente. O que se vê na política partidária é o tudo-pode na candidatura governista e o atordoamento imbecilizado da oposição. Ou seja: todos trabalhando no mesmo sentido, mesmo sem querer. E esse sentido é a miséria de pensamento, é um mundo que misturará a burrice estilo Uniban com a superficialidade estilo Miami e o anestesiamento mental da Roma dos anos 30. Logo depois, isso não falha, uma burocracia de Estado mais mafiosa do que nunca imperará.

São ruins os efeitos colaterais de uma cura que tem a miséria como remédio de si mesma. Alguns deles já se deixam ver.

Comments:
17.11.09

Quadras de pouca serventia

Co'a bochecha rubicunda,
convive a face tão alva,
como a neve que circunda
uma inesperada malva.

Da pele à derme mais funda,
no coração, junto à valva,
a emoção sempre abunda
com o brancor sem ressalva.

Mas o olho esperto circunda
a retaguarda tão calva:
no meio da branca bunda,
a espinha é uma estrela d'alva.

Comments: