dito assim parece à toa

28.3.09

O temerário circo da Justiça


Eliana Tranchesi

Tenho uma especial antipatia pela figura de Eliana Tranchesi e o que ela representa. A idéia da lojinha feita para vender roupinhas caras a mulheres ricas e indolentes, prontas a passar uma tarde provando peças variadas e jogando sua rala conversa fora, ao sabor de chazinhos -- peças e chazinhos produzidos por diligentes mucamas a serviço do gastar tempo de suas patroas e das clientes delas -- é algo próximo da imagem das sinhás esperando o tempo passar enquanto os maridos faziam dinheiro com o trabalho forçado de seus escravos africanos. A mega-Daslu, hoje, vende artigos importados, jóias, flores, badulaques, além das roupinhas, agora não mais costuradas no fundo da loja, mas no fundo do mundo, na China, que é de onde vêm os artigos das melhores marcas de Paris, Londres, Roma e Nova York. As griffes que levam o preço a Marte e a mega-loja com todos os clichês de demonstração de riqueza atraem também um batalhão de jovens wannabes a macaquear o que a sociedade brasileira produziu de pior. Tudo num prédio que é o marco do lixo da arquitetura recente de São Paulo.

Acho que isso basta para mostrar que o que vou dizer a seguir não é fruto de nenhuma afetividade arranhada.

A prisão de Eliana Tranchesi, baseada em uma lei feita em 1995 sob medida para assaltantes de bancos, e sua condenação a 94 anos de cadeia são um dos capítulos mais asquerosos da história da Justiça no Brasil. Por que? Porque é tudo, menos Justiça. É show-off, exploração da imagem alheia para auto-promoção, linchamento, interpretação viciada da Lei e tentativa de armar um espetáculo a partir de uma situação jurídica conhecida e corriqueira.

A Justiça no Brasil chegou a tal grau de incapacidade que precisa apelar ao espetáculo para tentar mostrar ao público que serve para alguma coisa, que é cega, que é expedita, que cumpre sua atribuição institucional. Uma juiza inexpressiva de primeira instância vê sua chance de aparecer para a posteridade e, se idealista, vê ainda a chance de mostrar ao mundo que rico, com ela, não tem vez. Pronto: lá vem o espetáculo, sem nenhuma relação razoável entre a pena e o delito, mas com todos os requisitos para atrair câmeras e microfones.

A Justiça deve ser eficiente, rápida e equilibrada. Quando profere uma sentença de 94 anos a uma figura que é cúmplice de contrabando, e deixa solto um assassino confesso e covarde como o jornalista Pimenta Neves, condena traficantes barr-pesada a 15 ou 20 anos, demora trinta anos para fazer pagar indenizações como as do Palace 2, ou ainda parece incapaz de frear a corrupção nos seus próprios quadros, a Justiça provoca um imenso descrédito na sociedade. Mas vai ser pior: quando, nas próximas instâncias, os juizes diminuírem a pena de Eliana a algo razoável ou ainda a absolverem (é uma possibilidade), a turba que se regozijou com a condenação vai ficar sem entender nada, agravando o descrédito que já acomete a instituição.

Do jeito que a coisa vai, estamos chegando muito próximos a instituições como os tribunais populares do Iraque pré-Saddam, dos linchamentos do faroeste americano ou dos tiros na nuca dos chineses. Justiça funcionando como circo. A história tem mostrado que isso e civilização jamais aparecem na mesma foto.

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23.3.09

Ô, boca...



Não gosto da pintura de Marc Chagal, não tenho Drummond como um de meus poetas prediletos e o teatro brasileiro me desapontou em pelo menos sete de cada dez peças que vi. O problema é que confesso largamente tudo isso.

Tenho ouvido novamente Caetano Veloso. Brilhante. Só que em não mais do que trinta por cento de suas canções. Os outros setenta e poucos variam entre uma babação egóica (como naquela em que ele repete algo como 60 vezes as palavras "e eu") e uma poética apenas auto-complacente ("você é linda/ mais que demais..."). Ouvidas com atenção, não resistem a meia faixa.

Wilson Simonal é um dos maiores cantores que o Brasil já produziu. Uma besta quadrada, cheio de amizades suspeitas, mas um cantor espetacular. Não há o que justifique mantê-lo no ostracismo.

E Ferreira Gullar? Quem já leu, me diga: o que justificará o quase endeusamento que se faz de uma poesia tão mediana e de uma prosa tão diminuta?

Tudo isso para dizer que eu cometi mais um ato de bocamolice, quando deveria era ter ficado de boca fechada: manifestei minha descrença no MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Por quê? Porque tornar com-terra os trabalhadores rurais deixou de ser a preocupação primordial do movimento. Ok, até aí, ingenuidade política minha, o buraco das lutas sociais é mais embaixo, não se conquista a libertação dos povos do campo apenas com terra concedida, esse discurso é o das classes dominantes etc. etc. etc. Mas o que explica a invasão de uma área pertencente ao remanescente da Real Fábrica de Ferros de São João de Ipanema, em Iperó-SP, uma das primeiras siderúrgicas do Brasil, do começo do século 19, tombada pelo patrimônio histórico? O que vão produzir ali? Frutas? Hortaliças? Ou apenas chantagem? O que explica a morte de quatro seguranças da fazenda Jabuticaba, em Pernambuco, invadida, depois desocupada por ordem judicial e então invadida novamente, desta vez com bala na agulha? O que explica a invasão de áreas de floresta em Rondônia para posterior retirada de madeira, em espantosa parceria com madeireiros clandestinos da região?

A resposta é simples: quem não respeita a lei, mesmo em nome de uma causa justa, logo a estará desrespeitando em nome de uma causa própria, seja justa ou não. Enquanto a mesma lei que serve para mim não servir tanto para o Sarney quanto para o MST, nem o Sarney nem o MST terão o devido respeito em relação a ela. A idéia de que há a contravenção boazinha e o crime justo ou é romântica ou apenas malandra.

Mas há certas coisas que não se deve dizer, sob pena de aquecer demasiado as próprias orelhas.

***

Em tempo: o Infinito Positivo mudou de endereço.

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13.3.09

Filme triste, 2



Um corretor de imóveis oferece apartamentos a uma executiva, que quer comprá-lo para se casar com o namorado indolente, banido do exército por uma razão grave que não se revela, que afoga suas mágoas no bar de um hotel, cujo bar-man mora com o pai doente, permanentemente acamado, cujo único gosto é aterrorizar suas enfermeiras, que jamais permanecem na função, até que aparece por lá uma voluntária, que se dedica por sacrifício a atender o velho ao longo das madrugadas, mas que, durante o dia, é a aplicada secretária protestante do escritório do corretor de imóveis, que tem uma quedinha por ela e é irmão de uma trintona solteira que, por meio de um desses sites de encontros, acaba por conhecer e encantar o ex-soldado beberrão.

Essa corrente, que pode parecer um tanto bizarra da forma como é aqui descrita, flui com perfeição quando o narrador é competente como o diretor francês Alain Resnais (de "Hiroshima Mon Amour", "O Ano Passado em Mariembad" e mais uma portentosa filmografia). "Medos Privados em Lugares Públicos" ("Coeurs") é a versão para cinema de uma peça do inglês Alan Ayckbourn, em que o recurso dramatúrgico de se montar uma corrente de personagens que se conectam indefinidamente é usada à farta, com mais de 50 personagens. Resnais os reduz a seis e leva a narrativa de Londres a Paris.

Mas mantém a abordagem teatral. Não nenhuma cena em qualquer dos lugares monumentais da capital francesa. Quase tudo é cenário, e o que é locação é em lugar corriqueiro e em plano fechado.

Se a estrutura -- a composição de uma corrente casual -- não é nova, tampouco o tema o é: a dificuldade do relacionamento entre pessoas em geral, homens e mulheres em particular. Mas o tratamento que Resnais dá ao filme destaca as sutilezas, dissolve as obviedades e surpreende no comum. A corrente que se monta é esperada, o desfecho, tão pouco esperado como pouco esperada é a vida real com suas armadilhas.

Meu amigo Zé Octávio diz que todo mundo deveria assistir, ao menos uma vez por ano, a "Hiroshima Mon Amour", um filme triste. Depois de ver, com mais de um ano de atraso, "Medos Privados em Lugares Públicos", acrescentaria à recomendação do Zé o conselho de que se assista a pelo menos mais um Resnais a cada ano.

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9.3.09

Eu não gosto de padre, eu não gosto de frade, eu não gosto de frei


Não é necessária uma legenda

Já escrevi aqui sobre a asquerosa recusa da igreja católica de dar as exéquias post-mortem ao cidadão católico italiano Piergiorgio Welby, vítima de doença degenerativa que lhe tirou todos os movimentos do corpo, inclusive os da respiração, por ele ter declarado, por meio de um código baseado no movimento de seus olhos, que queria ter desligada a máquina que o fazia respirar.

Cruel a atitude da igreja, mas atenuada por ter sido perpetrada contra um morto. Agora, o que estes fundamentalistas fizeram com a mãe da menina pernambucana de 9 anos -- violentada pelo pai desde os 6, e engravidada em um destes atos de horror -- e os médicos que decidiram interromper a gestação (que, além de tudo, era de gêmeos), é dantesco. O cínico bispo de Olinda e Recife excomungou a mãe e os médicos, alegando que a interrupção da gravidez da menina (9 anos de idade, 1,30 metro de altura, 30kg de peso, estrutura genital de criança) atentava contra a vida. Para esse padreco de merda, a vida da menina não vale nada, a ponto de ele defender que essa gravidez devesse ser mantida até o fim (ou seja, a morte da menina e dos dois fetos). Nenhum segundo de reflexão sobre o sofrimento da menina e da mãe, nenhuma generosidade, nenhum espírito cristão -- pelo menos, não aquele que me ensinaram na escola.

Quando os padrecos de merda de Roma excomungaram, na prática, o pobre Welby, eu disse aqui que, a partir de então, rejeitava qualquer rito católico. Vou a missas de sétimo dia e a casamentos, por respeito ou por carinho, mas não participo do rito. Deixei escrito ali que recuso ter qualquer ritual católico depois de morrer.

Hoje, mais do que manter essa rejeição, considero-me voluntariamente excomungado. Não tenho mais nenhum vínculo com esta seita malévola. Entre os padres de anelzinho de ouro (uuiii!) e os médicos de Pernambuco, que tomaram a decisão pela vida de uma criança, creio que o próprio Cristo, se desse um pulo por aqui, não hesitaria sobre quem escolher para ter em seu rebanho.

Eu não gosto de padre, eu não gosto de frade, eu não gosto de frei.

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