dito assim parece à toa

29.12.08

Pelo Vado e por todos os demais amigos que moram fora do Brasil



2009 vem chegando, aparentemente com tudo indo mais ou menos, nota acima de 5 para o mundo, quando aparece a manchete dos jornais mostrando a barbaridade que os cínicos chamam de política externa do Estado de Israel. Trata-se de uma política deliberada de extermínio do povo palestino. Com declarações orwellianas como "O objetivo é estabelecer uma nova realidade", assustadora frase da ministra das relações exteriores de Israel, Tzipi Livni, o estado israelense prepara a solução final para o complicado conflito em que se meteu há quarenta anos -- e que o mundo pensava que seria resolvido de forma justa, com o estabelecimento de um estado palestino autônomo. Não é o que o novo ano dá a vislumbrar. Num primeiro momento, a única coisa que vem à mente é a idéia de que a vilania prevalecerá -- ou serão de outra ordem os desígnios dos coleguinhas da senhora Livni? Mas sempre é possível acreditar que haverá outra forma.

Como se fosse, ainda não sei, um baseado ou um hino, assisti a este vídeo, que me fez acreditar que pode haver jeito para o mundo.

Por nós todos, e especialmente pelos amigos queridos que estão um pouco além do Atlântico e da barra da saia auriverde, esta mensagem fora de hora de feliz ano novo vem combinar duas outras de esperança: a de que a paz e a terra merecidas cheguem aos palestinos, e que Israel renuncie aos métodos fascistas de que contraditoriamente tem lançado mão. Israel não tem o direito de passar de vítima a agente de um holocausto em menos de um século.

Novamente, feliz 2009 para todos nós.

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24.12.08

Poesia de um mestre





Pouquíssimas vezes fiz isso aqui: copipeistar um texto. Bobagem: há textos que, copiados e colados onde quer que seja, fazem bem a quem o tenha feito, por fazer bem a quem os venha ler. Assim, copy-paste. Presto! Uma das grandes belezas da poesia em língua portuguesa: "Liberdade", de Fernando Pessoa.

Ai que prazer
não cumprir um dever,
ter um livro p'ra ler e não o fazer.
Ler é maçada,
estudar é nada,
o sol doira sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
sem edição original,
e a brisa, essa,
de tão naturalmente matinal,
como tem tempo, não tem pressa.
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
a distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor quando há bruma,
esperar por Dom Sebastião,
quer venha ou não.
Grande é a poesia, a bondade e as danças,
mas o melhor do mundo são as crianças,
flores, música, o luar e o sol, que peca
só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
é Jesus Cristo,
que não sabia nada de finanças,
nem consta que tivesse biblioteca.


Esse é um dos pouquíssimos poemas que sei de cor (há mais dois, creio, um de Caetano Veloso, "Acrilírico", e um meu mesmo -- ainda assim, um haikai, convenhamos, mais fácil de decorar do que um soneto). Assim, eu o transcrevi com a divisão de versos que me pareceu mais adequada ao recitamento da minha memória. Também não a dividi em estrofes -- não saberia, e não acho necessário, a leitura do poema o mostra.

É como comprar um cartão de natal da Unicef: não é seu, mas é bacana. Que a ele se acresça o meu beijo carinhoso a todos que têm a paciência de ver esta coleção ciclotímica de textos. Seria uma boa promessa de ano novo melhorar isso. Mas me atenho apenas a desejar o melhor para todos.

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22.12.08

Fagulha

Um fio, apenas, de cabelo branco,
ali na têmpora a me distrair,
uma fração de tempo. Logo estanco
o que vaza. Você volta a sorrir.

Isso, então, domina todo o lugar.
Não há pé que narre, não há poesia.
Cinema, talvez, porque luz. Ou ar.
Todos em volta somem. Some o dia.

Então, aparece outra luz, de flanco,
como uma supernova a explodir --
vê-se a luz, não se sente o solavanco.

Percebo, aos poucos, que não sei medir
um fio, apenas, de cabelo branco,
ali na têmpora a me distrair.

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18.12.08

Made in Brazil



Conversava com um amigo outro dia, falando da tal crise e suas conseqüências, quando ele comentou algo que me espantou, por parecer, ao mesmo tempo, jurassicamente antiquado e absolutamente inovador. "Você reparou que, passados já 50 anos, o Brasil não desenvolveu sua indústria automobilística?" Estranhei: e a Ford, a GM, a Volkswagen, a Fiat? Aí caiu a ficha: nenhuma é brasileira. Romi, Gurgel, FNM, as marcas nacionais morreram pelo caminho, ao longo dos anos. "Nós somos o único país do 'BRIC' que não tem indústria automobilística própria. China, Rússia e Índia têm, e os indianos agora compraram linhas que eram da Ford, indianizaram americanos e ingleses".

O que isso pode significar, do ponto de vista prático? A visão liberal propugnaria que tanto faz onde o carro é feito, desde que renda lucro para os acionistas, empregos e impostos para o país fabricante. Será? É certo que, nos tempos de globalização, um carro pode ser feito em 15 países diferentes, com uma lâmpada chinesa, um circuito integrado indiano, estofamento argentino, tinta européia. Mas e a velha discussão sobre os ganhos de um país que exporta bens manufaturados, em relação aos de quem exporta commodities? E as remessas de lucro? O que aconteceria se esses lucros ficassem aqui? Será que isso é puro nacionalismo pueril? O problema é que não se consegue achar quem faça essas contas de uma forma definitiva, mas não parece lógico que os indianos da Tata, quando compraram as tradicionalíssimas marcas Jaguar e Land Rover, que estavam de posse da Ford Motor Company, estivessem apenas exercitando seu orgulho nacional. Parece lógico, sim, que vender bolo pronto dá mais lucro que vender farinha, uma vez que se estabelecem margens sobre insumos imateriais, como inteligência e força de trabalho. Parece óbvio que a cadeia produtiva do bolo emprega muito mais gente -- e gente mais heterogênea -- do que a da farinha.

Essa é uma discussão interminável, mas, diferente do que parece à primeira vista, está longe de ser extemporânea. Ao contrário, é atualíssima. Daí a necessidade de ir além das piadinhas no canto da sala, ao ler a notícia de que Lula recusa a compra de um submarino nuclear francês, priorizando a fabricação aqui mesmo de artefato bélico semelhante, em parceria com país que tenha know-how suficiente e disposição para se associar a nós.

Não digo que não devamos contar a piada, mas devemos ver se estamos contando a piada certa. A piada não é fazer um submarino nuclear aqui, mas fazer um submarino nuclear, ponto. Agora, se tem graça fazer, que se leve a sério a possibilidade de fazer aqui.

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17.12.08

Ê, gingoubéu



Todo ano, sem falta, pelo oitavo consecutivo, uma mensagem coroa o espírito natalino, simples, singela, sintética, ali colocada com a sabedoria de quem sabe o que diz, e com a humildade de quem conhece o leitor e seus anseios. Uma mensagem profunda, para quem vive este momento em que os sinos bimbalham. Se você sente a angústia do ano que se acaba, se a harpa paraguaia devasta seus ouvidos, clique aqui e domine o zeitgeist de mais este Natal.

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14.12.08

Criacionismo. Acredite, ele já chegou à universidade



Deu no jornal: uma das mais importantes universidades privadas do Brasil colocou em seu currículo o criacionismo. Para quem não se lembra, essa é uma das doenças espalhadas pelo mundo junto com o tsunami dos telepastores americanos e sua invasão da mídia. Esses fanáticos religiosos defendem, no que parece ser uma mistura de torcida de futebol com programa infantil de TV, que seja ensinada nas escolas uma "teoria" que se contraponha ao evolucionismo, o modelo científico que tem como origem o trabalho do naturalista inglês Charles Darwin.

Darwin compôs uma das mais consistentes teorias da ciência moderna -- talvez a mais fascinante. Como toda boa tese científica, foi construída a partir de uma hipótese, devidamente colocada à surra das evidências. A comparação de diferentes espécies em diferentes nichos, a descrição de adaptações diversas de uma mesma espécie em ambientes diferentes, a presença de espécies novas de um mesmo gênero, em nichos específicos, a análise morfológica de fósseis, tudo obtido a partir da constatação física de cada evento, deram subsídio a uma teoria que, por sua abrangência, ganhou a mesma importância das leis da gravitação universal, de Isaac Newton, que foram a base da física clássica.

Agora, em nome de uma interpretação mal-intencionada do que vem a ser liberdade de expressão, os pastores que mandam na tal universidade paulistana -- repito, uma das mais importantes da cidade -- determinam que uma visão que não tem absolutamente nada de científica, a não ser, aqui e ali, o arremedo da terminologia, deva ser colocada no currículo como se ciência fosse.

Para ser mais claro: os criacionistas defendem a tese de que o mundo não tem mais do que 5 mil anos, o tempo suficiente para que passe na tela o roteiro dos dois testamentos que compõem o seu livro sagrado. A vida se teria composto como execução do projeto de um ser superior, portanto em algo próximo, em ordem de grandeza, aos sete dias descritos pela Bíblia. O universo seria também obra desse mesmo ser.

Seria um bom embate científico, se os tais pastores ou seus alunos ou seus professores tivessem achado evidências científicas claras que lhes dessem algum apoio. Por exemplo, a explicação (ou a negação com fundamento científico) da existência de fósseis de centenas de milhares de anos. Ou a contestação fundamentada dos instrumentos de medição da idade de fósseis, como o carbono 14. Ou ainda a descontrução embasada de todo o trabalho dos arqueólogos, antropólogos e historiadores que vêm reconstruindo, a partir de pistas fósseis, a história da humanidade.

Os pastores e seus fiéis têm todo o direito de acreditar no que quiserem. Têm ainda o direito de ensinar seus versículos, suas orações e seus hinos a quem os quiser decorar. Podem mesmo berrar pelas ruas que acreditam que tudo aquilo é verdade. O que não podem -- ou não deveriam poder -- é tentar colocar sua fé como verdade científica. No momento em que fazem isso, cometem dois pecados: dessacralizam seus próprios ritos, à medida em que os confrontam em pé de igualdade com algo que não é sagrado, a metodologia científica, e põem em risco um saber que, ancestral e sabiamente, o próprio cristianismo soube preservar, postos os momentos de maior obscurantismo.

Parece ser um deles que a turma do megaevangelho está semeando. Deus nos livre.

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6.12.08

A sina da princesa em febre

Havia uma princesa linda e casta,
a quem acometeu uma doença
do espírito -- ao menos, era a crença.
O fato é que a moléstia, tão nefasta,

sem dó, lhe consumiu toda a pureza.
O vírus trouxe a febre da libido:
tremia pelo que não tinha tido,
queria se ferir onde era ilesa.

O rei, ao ver a filha tão febril,
correu a arrumar-lhe casamento.
Mas ela, fogo só, não resistiu

aos dotes de um cocheiro corpulento.
Urrou o rei: "Às freiras, o xibiu!"
'Squeceu-se dos cocheiros do convento.

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2.12.08

Meus fatores de pobreza


The Poor Poet, de Carl Spitzweg (1808-1885)

Um dia alguém me disse que quem trabalha não tem tempo de ficar rico. Mais tarde, outro sábio me contou que ninguém fica rico escrevendo. Agora, estes dias estão me dizendo que eu estou sendo bafejado pela lei das compensações. Tenho trabalhado além da conta, o que me tira qualquer chance de acender charutos com notas de cem dólares, mas em compensação, a trabalheira é tanta e tão caoticamente distribuída, que tem me tomado o tempo que antes eu usava para escrever. Assim, escrevo pouco. Afasto-me, portanto, de um dos fatores de pobreza. Já tenho, como se vê, meio caminho andado para a fortuna. Falta só parar de trabalhar. Falta também um terceiro alguém que me diga como é que eu devo me sustentar ao longo do lapso de tempo que deve haver entre o momento em que eu pare e a chegada da fortuna. Ou será instantâneo? Por alguma razão que ainda não sei como se explica, prefiro não arriscar. E assim, vou seguindo meio pobre, fazer o quê?

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