dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. ![]()
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30.7.08
Palíndromos Acho que todo mundo que escreve tem a tentação de compor palíndromos, aqueles escritos que podem ser lidos de trás para a frente, como os conhecidos e anônimos "Roma me tem amor" ou "Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos" e o célebre "Até Reagan, sibarita, atira bisnaga ereta", do malabarista das palavras Chico Buarque de Holanda. É algo como a pelada de férias para o jogador de futebol ou o kart para o corredor de automóvel: um exercício lúdico de malabarismo, que, se não tem maior significado literário, traz a satisfação interna de pôr à prova uma habilidade. Um jogo, enfim, coisa de criança. Abaixo, uns de minha lavra: É, AMAMOS A MODA SADOMASÔ, MAMÃE. ELA, SE TOMA TODAS, ADOTA MOTE "SALE". OXE! SÓ DÁ SÓROR, AGORA, A ROGAR O ROSADO SEXO. A GENEROSO, O SÓ RENEGA. ROLAVA DEMAIS AMAR: AMÁSIA ME DÁ VALOR. A DOMADA GRASSA: PASSÁRGADA MODA. MECENAS AMÁLIA, LADRA MÁ: A AMAR DALAI LAMA, SANE CEM! 21.7.08
Sorry A freqüência com que novos posts chegarão a este espaço já esquálido deve diminuir bastante entre hoje e o dia 15 de novembro. A razão é: estou empenhado em uma tarefa hercúlea, que é a de ajudar a eleger um importante executivo para a administração pública desta nossa terra descoberta pelo conde Chiquinho. Não sumirei de vez, não agüento. Mas acho que mais de uma vez por semana, não conseguirei colocar nada por aqui. Bom, é mais ou menos o que eu vinha colocando nos últimos 5 anos (aliás, a serem completados em outubro; aceito velinhas e mimos). 14.7.08
Nossa nova Parece que foi ainda outro dia. Parece que existia, sem começo, sem fim. Parece que sempre se ouvia o dissonar que nos virou do avesso. Fez-se, de desafinado, harmonia, dissolveram-se as imagens de gesso, virou história o que ainda não havia, virou amor o que era mero apreço. Se comove lembrar o tempo e o som, ter nos dedos o acorde dissonante, tocamos, desde sempre, o que era bom. Se chega de saudade, o realizante é que aprendemos qual é o nosso tom, o seu, o meu -- o que quer que se cante. 11.7.08
Vendetta e deseducação
O jornalista Luiz Carlos Azenha, em seu blog "Vi o Mundo", faz coro à grita geral que malha a decisão do STF de conceder habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas (em seguida, preso outra vez sob sentença proferida pelo mesmo juiz Fausto de Sanctis, por outro delito, a suposta tentativa de subornar um delegado). De fato, a velocidade com que o tribunal tomou a decisão foi surpreendente, equiparável apenas à contra-decisão do juiz de Sanctis. É uma questão que deve ser clareada pelos jornalistas e pela sociedade. Mas a decisão em si mesma é perfeitamente justificável e embasada na lei. Há um ponto nessa discussão toda que merece reflexão. O primeiro é o da (evidente) espetacularização das prisões de gente a quem se atribuem crimes financeiros. É como se a PF -- e por conseqüência o governo -- quisesse mostrar que o crime não compensa para ninguém. De fato, deveria não compensar, mas essa discussão é pueril e midiática, na medida em que, ao contrário do que berra a mídia justiceira, o crime compensa para os ricos e também para os pobres -- pelo menos para aqueles que não são pegos, e que são a grande maioria (menos de 10% dos homicídios, por exemplo, são esclarecidos no Brasil e têm seus autores punidos). No caso dos ricos, compensa mais: é mais difícil prendê-los mesmo quando são pegos com a boca na botija, o que não ocorre com os pobres, que, nesse caso, vão diretamente para o inferno das cadeias, que faz o de Dante parecer o Ibirapuera. Mas a imensa maioria de quem comete crimes neste país não vai em cana. O circo em torno de Dantas não vai mudar, sequer arranhar, isso. O espetáculo do crescimento das capturas tem um aroma inconfundível de vendetta concedida à turba. As pessoas se sentem vingadas ao ver o asqueroso Celso Pitta e o biliardário Nagi Nahas algemados, e a PF é o provedor desse sentimento catártico. Mas alto lá: passado o regozijo, será que não é hora de refletir e lembrar qual é o sentido das instituições justiça e polícia, no contexto da construção das civilizações? Não é hora de parar de deseducar? Justiça e polícia servem para aplicar a lei, que, por sua vez, serve para impessoalizar a contrapartida a um crime ou contravenção. A idéia de que todos somos iguais perante a lei traz em si a noção de que as punições a crimes análogos devem ser análogas. Traz também regras que definem o que os agentes aplicadores da lei -- justiça e polícia -- devem e podem fazer no exercício de suas funções. Essas regras devem simplesmente ser seguidas. A pergunta que se faz é: independente do prazer que nos traga a imagem de Celso Pitta algemado, há justificativa para que o agente da Lei se deixe acompanhar pela maior emissora de TV do país na hora de prendê-lo? Justifica-se, na frieza da lei, a algema? A resposta é não. Feliz ou infelizmente: esses advérbios de modo não fazem parte das nossas bases legais. O que se vê, infelizmente, é: já que fracassamos na disseminação da lei e da ordem, vamos fazer um cenário e colocar na frente da barbárie. Quem sabe assim a platéia se distrai entre uma bala perdida e outra? Enquanto isso, ocupamos a arquibancada desse imenso tele-Coliseu e nos limitamos a levantar e abaixar o polegar, conforme a pinta do próximo acorrentado. 8.7.08
A paz e a bossa
"Não agüento mais ouvir falar de bossa nova. O que eu faço é jazz." Essa frase, dita por um precursor das dissonâncias que anteciparam algumas copas do mundo na revelação do Brasil ao planeta, é surpreendente. Mas é explicável por um verso de outro precursor. "As notas dissonantes se integraram ao som dos imbecis", disse Caetano Veloso em "Saudosismo". O autor da primeira frase é João Donato, um desses músicos que nunca pararam, e por isso nunca deram tempo para a cola do rótulo secar. Nasceu no Acre e, embora tenha se mudado ainda criança para o Rio, nunca se desfez da influência caribenha que até hoje marca a canção popular produzida lá pelo norte (já dançou com Teixeira de Manaus?). A fusão samba-jazz que explodiu a canção popular nos anos 50 teve seu epicentro no Rio de Janeiro, a capital federal, o ponto de encontro de tudo o que queria ser novo no Brasil e do que chegava lá de fora. O Rio era o porto cultural, enquanto Santos era o porto mercantil. Começou como jazz: Dick Farney e Johnny Alf estavam mais para Califórnia do que para os arcos da Lapa. Farnésio e Alfredo mimetizavam Sinatras e Porters da mesma forma que os pré-impressionistas caprichavam nas naturezas mortas florais. Fizeram um belo trabalho, mas pré. Abriram o caminho para Tom Jobim, João Gilberto, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e mais uma leva de Renoirs que fizeram o que se chamou de bossa nova. O Rio recebeu os talentos da província, e lá estavam eles na formação da bossa nova. João Gilberto era baiano de Juazeiro, Walter Santos e Chico Feitosa, improváveis paulistas. Mas o outsider era o acreano João Donato, que fez rigorosamente o que quis. Foi além -- ou ao largo -- da fusão do samba com o jazz, cujo construtor maior foi João Gilberto, ao juntar no violão a harmonia dissonante e sofisticada de Cole Porter à partitura do tamborim. Donato trouxe a influência caribenha. De samba, quase nada. De jazz, quase tudo. De Brasil, o sotaque de cada composição. Donato é deliciosamente estrangeiro, desses que causam excitação em um iraniano, um belga, um japonês ou um manauara. Isso é jazz. Pixinguinha que o diga, lá do céu. PS: na busca de uma foto para ilustrar o texto, achei este site 7.7.08
Notícias correm, costumes também
Mídia é tudo. Essa é a explicação para a draconiana Lei Seca promulgada pelo governo. É de se supor que seria muito mais eficiente manter a lei como era e quintuplicar a fiscalização. Ledo engano. Uma medida como essa não daria primeira página nem no jornal da Polícia Rodoviária. Sem a repercussão na mídia, a redução dos acidentes causados por motoristas alcoolizados seria nenhuma, corresponderia apenas ao números de beberrões efetivamente pegos nas blitze -- rigirosamente nada, em percentual. Com a nova lei, o custo do governo praticamente não sobe, enquanto o motorista, que não é bobo nem nada, não arrisca perder sua carta ou ver o sol nascer quadrado -- mesmo sabendo que a probabilidade de cruzar uma blitz no caminho é cada vez mais reduzida. É assim que o mundo funciona. É por isso que Barak Obama será o próximo presidente dos Estados Unidos (ainda bem!), é por isso que as pessoas acreditam que celular frita o cérebro, é por isso que se acredita que o final será feliz. É por isso que, você já deve ter notado, a gestualidade de parte da nossa juventude parece com a que se vê no cinema popular dos Estados Unidos. É por isso que engordamos -- e depois emagrecemos, paramos de fumar, engordamos de novo e emagrecemos outra vez. Está na mídia. No caso da tolerância zero, o pânico causado foi positivo. Mais ou menos 20% a menos de gente morreu no primeiro fim-de-semana. As famílias da molecada agradecem. O único problema é que esse medo deveria ser mantido permanentemente -- o que só será possível se a fiscalização não amolecer e um jovem continuar contando a outro que o filho da vizinha perdeu a carta ou o sogro da prima gramou uma semana na delegacia. A ver. 4.7.08
Historiografia Do que é história, o que fica, o que sobra é o trauma. A ele, chamam fato. A partir do machucado da obra, conta-se um conto, com dor, sem recato. O gabinete era o ninho da cobra, imperador era o nome do rato, é só metade o que o número dobra. Assim, a fábula vira relato. O saqueador é o autor da versão, ao saqueado, nem pingos nos "is": se tiver sorte, um papel de vilão. Depois de usar fartamente os fuzis, a quem sobrou dá-se conciliação. Às normalistas, se ensina um país. 2.7.08
Aparecer Quando eu crescer, quero ser arquiteto, governador, senador, capitão. Hei de levar a Paris meu projeto, Vou reformar os jardins do Japão. Quando eu chegar à altura do teto, vou ser capaz de falar alemão, vou escrever e aprovar um decreto que obrigará o planeta a ser são. Quando eu crescer, quero ser importante, não para a imprensa, os jornais, a tevê. Quero que o mundo me ache brilhante, não por vaidade (vaidade de quê?), não por orgulho (não tenho o bastante), só por supor que é você quem me vê. |