dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. ![]()
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Set 2006 Out 2006 Nov 2006 Dez 2006 Jan 2007 Fev 2007 Mar 2007 Abr 2007 Mai 2007 Jun 2007 Jul 2007 Ago 2007 Set 2007 Out 2007 Nov 2007 Dez 2007 Jan 2008 Fev 2008 Mar 2008 Abr 2008 Mai 2008 Jun 2008 Jul 2008 Dizem por aí: Alex Senna Anna V. Anunciação Beatriz de Carvalho Blog da Milk Carne Crua Catarro Verde Cristiana Críticas e Reflexões Cyn City Drops da Fal Filosoclics Frankamente Guga Alayon Idelber Avelar Imprensa Marrom Infinito Positivo Josimar Melo Ledusha Lord Broken Pottery Lucia Guanaes, fotos Marina W. Meg (Sub Rosa) MM Leite, fotos Muié Nóvoa em Folha Observador Pecus Bilis Pérola Negra Perplexo Inside Peri S. Coppio Quase Pouco Ricardo Hida Salón Comedor Talvez sim, talvez não Taxitramas Terapia Zero A Vida em Palavras Zeitgeist |
30.6.08
Mini 94 Escrevia no quadro, pela décima vez, a definição de crase. Já não se importava mais com o cochicho incessante que vinha das duas meninas ao fundo. Sabia que não ia conseguir. Faltava colocar o til na palavra "contração", quando o servente entrou pela porta entreaberta para trazer uma nova caixa de giz e uma circular da diretoria. Perdeu a concentração. Completamente. Contração. Acompanhou com os olhos a saída do homem. A caixa de giz. Secura. A contração perdeu-a por um segundo. Demorou a seguir. Traçou então "preposição". Posição. Lembrou-se de que faltava algo. O giz grunhiu ao traçar o til atrás. A porta se fechou, o que aumentou o volume da conversa ao fundo. Pensou em dar um tapa na mesa e acabar com aquele incômodo. Conteve-se. Embrenhou-se pelo "artigo definido". 26.6.08
Ruth Cardoso
Ruth Correia Leite Cardoso foi aquilo que muita gente chamaria de uma grande mulher. Foi também aquilo que muita gente que não concorda com a muita gente citada também chamaria de uma grande mulher. Sob o ponto-de-vista de quem acha que a mulher deve ser autônoma intelectual, emocional e economicamente, Ruth não deixou dúvidas: doutora em Antropologia pela FFLCH da USP, exerceu a atividade acadêmica em várias instituições internacionais, como a FLACSO (Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais, ligada à Unesco), a UC (Universidade do Chile), Berkeley (Califórnia), Columbia University (Nova York) e Maison des Sciences de L'Homme (Paris). Uma carreira acadêmica de causar inveja. Para quem acha que a mulher deve ser apoio, esteio, ela tampouco deixou por menos. Acompanhou o marido, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, em toda a sua espetacular ascenção profissional, que o levou rapidamente a ser um dos mais jovens catedráticos (o equivalente aos livres-docentes de hoje) da Universidade de São Paulo, depois cassado pelo regime militar e obrigado a sair do país para seguir sua carreira acadêmica. O mapa que mostra a trajetória de ambos é o mesmo. Nem por isso, a de Ruth foi menos significativa. O clichê aplicado ao casal Cardoso poderia ser: "por trás de certos grandes homens há duas grandes mulheres". Ruth era uma pessoa encantadora e uma profissional brilhante e aplicada. Embora menos visível, sua obra acadêmica foi mais extensa do que a do marido e, há quem diga, intelectualmente mais refinada. Faz sentido, uma vez que Fernando Henrique deixou a atividade intelectual já no fim dos anos 70, quando, à época da abertura lenta e gradual dos generais Geisel e Golbery, passou a dedicar-se integralmente à atuação política. Em 79 tornou-se suplente do senador Franco Montoro, em 83 assumiu a vaga e, daí em diante, todo mundo conhece a trajetória que fez do sociólogo o presidente. Ao longo dessa história, Ruth jamais escondeu um certo desconforto com o tipo de notoriedade que a vida pública do marido lhe traria. Ao mesmo tempo, jamais deixou de cumprir seu papel protocolar com inédita elegância.Mas sempre se manteve a um passo crítico de distância, o que a livrou do deslumbramento. Do limão de ser "primeira-dama" -- termo que odiava tanto quanto ser chamada pela imprensa de "dona Ruth" -- fez a limonada do Comunidade Solidária, que sobreviveu ao governo do marido e, agora, a ela própria. A emoção do presidente Lula junto ao corpo de Ruth é apenas uma pequena mostra do quanto ela era uma pessoa aglutinadora. Em sua casa, era possível encontrar, na mesma sala, o filósofo José Artur Gianotti e o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, a atriz Ruth Escobar e o engenheiro e empresário Sérgio Motta, o cientista político Francisco Weffort e o economista e professor Eduardo Matarazzo Suplicy. Em sua vida pública, que ela buscava levar da forma mais discreta possível, manteve a mesma disposição de agregar. O Comunidade Solidária virou Comunitas, sua atuação multiplicou-se. Hoje, programas como o Alfabetização Solidária e o Artesanato Solidário juntam-se ao Universidade Solidária, que busca resgatar a interação entre o universitário e a sociedade, o Capacitação Solidária, que prepara jovens para o mercado de trabalho, e outras frentes de atuação, mobilizando mais de 200 mil educadores e agentes de desenvolvimento em todo o Brasil. Quieta e eloqüente: assim foi a atuação de Ruth Cardoso, que, a essa altura, lega exemplo, uma matéria-prima importantíssima para que fabriquemos o Brasil. 24.6.08
Pipocas
Descoberta científica recente mostra: efeito-pipoca do telefone celular, na verdade, não atinge o cerealzinho amarelo. Colocado estrategicamente nos bolsos das calças, um par de telefones celulares é capaz de atuar com rapidez, transformando em pipoca os testículos do usuário. A cena ainda não foi mostrada no You Tube porque não houve japonês com peito de botar o saco na mesa. 20.6.08
Professores ensinando o quê? Robson Fernandes/Agência Estado
Antes de desagradar completamente a uma porção significativa dos leitores deste espaço, devo dizer que fui professor durante alguns anos de minha vida, e que tenho uma noção do quanto é dura e ao mesmo tempo fundamental essa profissão. Isso posto, digo que me vira o estômago a atual greve dos professores e os argumentos de suas lideranças. A imposição de limites às transferências de professores de um canto para o outro do Estado era uma medida tão óbvia, que custa a crer que um secretário de educação não a tivesse tomado antes. Uma das condições básicas para a eficiência do trabalho em sala de aula é a continuidade. Se a transferência é livre, um professor pode perfeitamente deixar sua classe no meio do ano letivo para assumir outra do outro lado do Estado -- e isso acontece o tempo todo, mais precisamente, neste ano, em 40% dos casos, 51 mil dos 130 mil docentes aprovados em concurso público. Se a relação entre aluno e professor se constrói a partir de vínculo, a limitação é algo feito em nome do interesse dos alunos e da necessidade urgente de melhorar seu nível de educação. Isso começa melhorando os professores, o que, por sua vez, começa da disposição deles de ser avaliados e eventualmente mudar. Mas parece que é impossível mexer no sólido pacto de mediocridade que se estabeleceu na relação governo-professorado. Palavras como eficiência são ouvidas como ofensa, idéias como remuneração variável são vistas como sacrilégio. E o aluno com isso? Parece ser apenas um detalhe. Já é hora de alguém pegar esse touro pelo chifre e mudar o padrão de educação que se vê em nosso estado. Para isso, é preciso investir no professor. Mas é preciso investir certo, no que o melhora como profissional e como ser humano, e não no que apenas serve para adequar-se a pequenas espertezas, como prestar concurso em São Paulo e pedir transferência para Catanduva ao seu bel-prazer. Outro motivo de protesto dos grevistas é a exigência de uma prova de avaliação para que um professor temporário assuma uma classe. Até agora, o tempo de serviço bastava como critério. Como se vê, qualificação profissional não é prioridade entre os grevistas -- ao contrário, sua aferição é raivosamente rejeitada. Essas exigências do Estado favorecem o aluno e, por conseqüência, a comunidade. Parece que são entendidas pela maioria dos docentes, que não aderiram à greve. Em nome de quem quer educação para os filhos e de quem leva o trabalho de educar a sério, esperamos que a secretaria de educação e o governo de São Paulo não recuem neste momento que é crítico, mas decisivo. Voltar atrás será o primeiro passo para a manutenção do estado de indigência a que se reduziu a educação pública nos últimos 40 anos. Culpa de um pacto de mediocridade entre governantes e sindicatos igualmente desinteressados em educar. 18.6.08
Aberração
É absolutamente inacreditável. Um juiz eleitoral de São Paulo considerou que duas entrevistas que Marta Suplicy deu, uma à Vejinha e outra à Folha, são "propaganda eleitoral antecipada", multando a candidata e os veículos. Existe alguma coisa de muito estranha no ar. Tomara que seja apenas uma combinação de burrice com falta de formação. Em toda democracia, candidatos dão entrevistas, sem que por isso o veículo seja acusado de fazer "propaganda" -- mesmo quando as entrevistas são favoráveis. O que esse juiz estabelece é que um cidadão brasileiro, uma vez aventado como candidato, não pode falar à imprensa sobre sua candidatura. Isso é uma monstruosidade jurídica e ética. Salvo por um certo espírito de corpo, qualquer promotor ou juiz há de concordar que essa decisão é uma aberração e uma afronta à Constituição brasileira. Mas o que acontece? Esse juiz continuará proferindo esse tipo de barbaridade até se aposentar, sem que ninguém possa fazer nada a respeito. Não será hora de se estabelecer algum "controle de qualidade" para o poder judiciário? 16.6.08
Tem Brasileiros nas bancas
Chegou às bancas o número 11 de Brasileiros, com que eu tenho a satisfação de colaborar. Traz na capa o provável blockbuster dos livros deste ano, Fernando Morais, com sua temperadíssima biografia de Paulo Coelho. Uma das qualidades de Brasileiros é a quantidade. Há mais matérias que mereceriam chamada de capa do que capa para comportá-las. Além de Fernando Morais, estão lá: Muhammad Yunus, o prêmio Nobel da paz de 2006 e fundador do Grameen Bank, a instituição que criou o microcrédito; o capitão da copa de 58 Bellini, em uma longa conversa com Ruy Castro; as tensões de Roraima e a fabricação artesanal de carros de boi no interior de São Paulo, ambas assinadas por Ricardo Kotscho (que, como se vê, voltou à ativa com muito apetite). Acabaram por ficar fora da capa matérias como a da jornalizata Simone Duarte que, de Nova York, conta a história da professora brasileira Silvana Vasconcelos, responsável pelo maior programa de alfabetização de adultos dos Estados Unidos. O trabalho de Silvana tem como foco a família do imigrante que busca se integrar à nova terra. Hoje, atende a cerca de 300 famílias por ano -- curiosamente, nenhuma brasileira. Se você preferir ler antes as matérias de capa que estão na capa, experimente a entrevista de Muhammad Yunus. O autor de O Banqueiro dos Pobres, que narra a história do Grameen Bank, conta a Brasileiros como tem sido possível levar milhões de famílias a superar a pobreza absoluta apenas por meio do microcrédito. Ou vá logo à grande matéria da capa, a que fala de e com Fernando Morais e seu mergulho na vida de Paulo Coelho. Lendo, dá para sentir o que foram os 4 anos em que Morais submergiu na inusual história do menino-problema que virou o maior vendedor de livros do mundo. Há muito mais o que ler em Brasileiros. A revista entendeu o que uma revista mensal pode oferecer ao leitor, combinando matérias mais extensas e aprofundadas com textos mais ágeis, espaços generosos para a opinião do leitor e muita imagem boa. Uma boa surpresa a cada número. 13.6.08
Sexta-feira, 13
Conversa entreouvida na hora do almoço numa das mesonas do refeitório do SESC Pinheiros: -- Não é motoboy, é motorista de moto. -- É que não existe essa categoria, motoboy. -- Depende da moto. Não ouvi o resto, mas parecia ser muito edificante. 11.6.08
Um pós-moderno avant-la-lètre
Cobertura do Edifício Bretagne, em Higienópolis João Artacho Jurado foi uma das figuras mais controvertidas da arquitetura paulistana dos anos 40 e 50. Projetou e construiu alguns dos prédios mais malhados e mais adorados da cidade. São exemplos vivos e conhecidos os edifícios Bretagne e Cinderela, em Higienópolis, e Viadutos, no centro, junto ao viaduto Maria Paula. Em tempos dominados pela arquitetura moderna, pela idéia de forma vinculada a função, pelo acalorado debate em torno da monumentalidade, Artacho projetou e construiu prédios completamente enfeitados e coloridos, cheios de linhas voluntariosas, um perdulário da forma. Causou ira entre os arquitetos da época. Alguns, como Eduardo Corona, punham a boca no trombone, outros o malhavam apenas nos encontros no IAB ou na rua Maranhão. Era tido como um aproveitador dos tempos de especulação imobiliária por que passava São Paulo, e seus prédios eram tão mal vistos pela intelligentsia como são hoje os horrorosos neoclássicos. Mas, ao contrário destes, os projetos de Artacho eram irresistivelmente originais, uma mistura embasbacante de estilos que, ao fim, gerava um conjunto coerente e atraente aos olhos do homem comum. Vale o atrevimento de dizer que ele era um pós-moderno avant-la-lètre.
João Artacho Jurado E de onde veio esse sujeito esquisito? Era 100% autodidata, salvo por um curso de desenho em perspectiva que fez em algum momento da juventude. Teve de abandonar o curso primário antes do fim, por imposição do pai. Anarquista, o velho Ramón Artacho não admitia que o filho jurasse à bandeira, como era usual nas formaturas do primário à época. Começou a carreira como pintor-letrista, depois montou uma fabriquinha de luminosos de néon. Essa atividade o aproximou de realizadores de grandes feiras internacionais que aconteciam em São Paulo no começo dos anos 30, e ele então começou a projetar e construir pavilhões para esses eventos. Com o tempo, empreendedor que era, passou a construir casas, prédios comerciais e conjuntos habitacionais. Usava o CREA de funcionários para validar os projetos e assim começou a fazer construções cada vez maiores, chegando aos controvertidos prédios dos anos 40 e 50. É também de sua construtora o bairro de Cidade Monções, que leva o nome de sua empresa. Artacho morreu sem ter reconhecida sua importância para a arquitetura da cidade. Hoje, seus projetos geram ainda muita controvérsia entre os arquitetos -- há realmente questões de volumetria em alguns deles que deixam à mostra o fazedor de stands se pondo a fazer prédios -- mas não se vê mais a raiva que havia antes. Já junto ao olhar leigo, ele é um sucesso. Talvez porque o homem comum goste do que é divertido. É uma questão que a arquitetura moderna não incorporou -- e de onde pode ter vindo o seu abandono. 9.6.08
Hipocrisias
Outro dia o presidente Lula reclamou das restrições que o TSE faz à atividade administrativa nos meses que antecedem a eleição. O presidente do tribunal, do alto de seus datavênias, respondeu que aquilo asseguraria uma eleição mais livre. Deixou sem resposta uma questão fundamental: o governo deve ficar sem governar, ao longo de um ano eleitoral, ou mesmo dos três meses que antecedem a eleição? É incrível como nós nos acostumamos ao que o falecido Roberto Campos -- um ultraliberal com quem qualquer pessoa mais humanista não conseguiria concordar, mas um frasista brilhante -- chamava de "fúria legiferante". No caso da lei eleitoral, a idéia do legislador foi a de coibir, por decreto, a atuação ilegal ou ilegítima dos governos no sentido de influenciar o eleitorado em favor de sua permanência no poder. Assim, proíba-se a ação de governo logo antes da eleição e, como decorrência, não se inauguram obras eleitoreiras. O problema é que tampouco se inauguram as não-eleitoreiras. Mas aí o legislador responderá: "Será que eu tenho de pensar em tudo?" Uma dessas leis proíbe que parentes de governantes se candidatem à sucessão destes. Isso significa que o petista Vladimir Palmeira não poderia ser candidato a governador de Alagoas sucedendo seu irmão Guilherme, pefelê de primeira hora. Se opõem, mas não poderiam se candidatar a sucessor um do outro. E assim vai. Em São Paulo, um deputado estadual, de cujo nome felizmente não me lembro, propõe que se proíba a contratação de parentes de até oitavo grau! Oitavo! Como se calcula se uma pessoa é parente de oitavo grau da outra? É preciso descobrir quem é o octavô do nobre deputado. Eu, particularmente, não conheço nenhum primo de oitavo grau. O que se conclui disso tudo é que nada melhor do que uma massaroca cheia de leis para fazer com que lei nenhuma valha. Certamente o código civil e o código penal já têm leis que, bem aplicadas, coibiriam ilícitos administrativos como o favorecimento de parentes. A questão é que, além de faltar em nossa cultura uma maior firmeza ética, parece faltar também senso de ridículo. Em tempo: alguém é capaz de me dizer quantos casos de favorecimento ilícito nossa lei eleitoral coibiu? 6.6.08
Pela rua
- É, meu caro, semana passada meu carro ficou no congestionamento. - Como? Só agora? O meu está no congestionamento já faz quatro meses. - É que eu pegava umas quebradas, sabe? Conseguia ir de casa para o trabalho em menos de cinco horas, dava pra trabalhar dia sim, dia não. Um record, fui até promovido. Mas aí quebrou uma Kombi numa vielinha maneira que eu usava e pronto: tive que cair na Faria Lima. De ré, ainda por cima. - Ah, você tem sorte, eu tô na Paulista. Quatro meses. De vez em quando eu vou lá, dou partida no carro, vejo se os pneus não estão murchando, tiro um pouco da poeira. Outro dia me deu uma saudade, fui lá às sete da matina só pra ouvir a CBN no rádio do carro. Quase acabei com a bateria. - Ah, eu tento não me envolver tanto. Só fui lá uma vez, quando me avisaram que eu tinha que andar. Foi anteontem. Andei um metro e meio, os caras em volta tavam eufóricos. Disseram que o trânsito não andava ali há dois meses. - Na Paulista andou uma vez só nesse tempo todo que o meu carro tá lá, e não foi nem um metro. - É, ali a coisa pega. - E como. O Serjão, lembra dele? Perdeu a sogra por causa do congestionamento. A dona teve um treco, chamaram a ambulância, o motorista era esperto, chegou em menos de oito horas. Mas na hora de ir pro hospital, o cara vacilou e caiu na Paulista. Ah, a coitadinha não agüentou. - Morreu do coração? - Não, não, morreu de sede. Cinco dias no trânsito, sem água, a coitada apitou. Sequinha. - Quando ainda dava pra usar a mobilete, eu tinha uma alternativa, agora nem isso. - É, aquele vãozinho entre os carros travou feio. Também, todo mundo resolveu andar de bicicleta, de moto, bastou a primeira gordinha entalar entre dois carros que a coisa pegou. - Agora, só na calçada. - Mas é uma canseira, aquela coisa de todo mundo espremido, se encostando. Outro dia, uma velha fez um escândalo, me cobriu de bolsada berrando que eu tava encoxando ela. Depois ainda me pediu o telefone. - Eu tô tentando trabalhar de madrugada quando o congestionamento na calçada é menor. Mas não tá fácil. Eu saio de casa em Pinheiros, à uma da manhã, e tento chegar antes do rush das seis horas na Consolação. Mas tá todo mundo descobrindo essa alternativa, tá congestionando a madrugada. - Bom, pelo menos tem o celular, né? - É, mas também tá congestionado. Essa semana eu só consegui completar cinco ligações. - Puxa, cinco? Vou mudar para a sua operadora. - Não adianta, eles tão fechando. - Por que? - Ninguém tá pagando a conta. Você sabe, é o congestionamento. Congestionou também o atendimento deles, milhares de pessoas ligando para pedir prorrogação do vencimento. Ninguém consegue receber o salário, aí ninguém paga conta nenhuma. - Falando em conta, eu preciso ir embora, faz uma semana que eu não vejo a minha mulher. Cê vai também? - Não, não, eu me mudei. - Pra onde? - Aqui pro boteco, mesmo. A Estela e as crianças também vieram pra cá. Foi o jeito que eu achei pra ir acertando o pendura e pagar menos aluguel. É bom, viu? É quentinho. - Mas se você tá nessa situação, vende o carro. - Ninguém compra, tá travado lá há quatro meses. Mas talvez eu consiga uma outra coisa. - O quê? - Botei uma faixa na janela: "Aluga-se". Já recebi três propostas. - Puxa, boa sorte. - Pra nós. Dois meses depois. - E aí, como é que vão as coisas? - Nada bem, nada bem. - O que houve. - Eu tinha quase conseguido alugar o meu carro para um casalzinho novo, recém-casados. Caminhamos até a Paulista para eles conhecerem o novo lar. Quando eu cheguei, foi um banho de água fria. - Por que, o carro não tava mais lá? - Tava sim, mas já tinha uma família de sem-teto morando nele. 4.6.08
Os sargentos gays Apu Gomes/Folha Imagem
Sargentos Fernando de Alcântara de Figueiredo e Laci Marinho de Araújo O dia vai terminando com a prisão dos sargentos gays como seu assunto. Sargento Gay não parece personagem do Jô Soares? Ou então nome de grupo de rock de vanguarda dos anos 80? Não perca "Os Mulheres Negras" e "Os Sargentos Gays" nesta sexta-feira no Radar Tan Tan. É fácil entender por que o assunto causa tanta espécie: o Exército representa o contrário do que o estilo gay sugere. É viril por obrigação, deve externar força, não delicadeza, certeza, não ambigüidade, conservadorismo, não tentativas. No entanto, é uma instituição que agrega milhares de seres humanos e, assim, uma amostra do Brasil. É estatisticamente improvável que deixe de ter gays, como deve ter também gênios, vascaínos ou descendentes de poloneses em uma proporção semelhante ao do resto da população masculina do país. O problema não é esse. O caso dos sargentos mostra uma enorme fragilidade do Exército Brasileiro na administração de algo que hoje é muito mais complexo e cheio de armadilhas do que a invasão de uma cidadela inimiga fortemente armada: a administração da imagem pública. A operação de hoje, o cerco da Rede TV para a captura dos dois militares traz um dano para a imagem da corporação que nem a notícia de 50 coronéis gays traria. A partir desse cerco, não se fala de outra coisa. Cruéis estes dias, devem pensar os responsáveis pela operação. Há quarenta ou cinqüenta anos, bastaria uma pisada forte de um oficial graduado para acabar com qualquer sinal do que fosse diferente. Hoje, quanto mais pesado é o golpe, mais ecoa, chama a atenção e acaba batendo de volta na imagem de quem bateu. Mas fazer o quê? O mundo mudou. Viva o mundo. 2.6.08
Haiti, 2 Os olhos se levantam, que horizonte? Existe alguma linha mais além, mas longe. Não há leste que se aponte, nem bússola, nem norte, nem um bem. A vida não vai muito além do monte, não chega o ser humano a ser alguém, não justifica que se eleve a fronte em busca de um virá que nunca vem. O tempo é resto pra quem quer que nasça; nascendo, sobra apenas não morrer: não há como entender o que se passa. Olhar aqui de longe o desviver é ver dentro de nós o que fracassa, fumaça onde havia antes poder. |