dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. ![]()
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29.5.08
Brasileiros
A revista Brasileiros, concebida e editada por Hélio Campos Mello, e com que eu tenho agora a honra de colaborar, publica na capa de seu número 10, que acaba de chegar às bancas, uma matéria sobre travestis que não vivem no submundo da prostituição. É uma pauta que mostra como faz diferença a disposição de fazer um veículo de comunicação na contramão do sensacionalismo. O tema, depois do episódio Ronaldo, se prestaria a todo tipo de manchete garrafal, tentando ressuscitar o factóide e tirar mais uma casquinha dos maus dias do craque em crise. Brasileiros aborda o assunto com a elegância de alguém que, numa sala, pega um assunto cabeludo e muda sua ótica com um simples "falando nisso". O resultado é uma matéria bem escrita e bem produzida, que mostra a vida real de pessoas que optaram por viver o sexo que lhes parece ser o seu, apesar dos desígnios do corpo. Há uma funcionária pública, uma empresária, uma webdesigner e até a vice-prefeita de uma cidade do interior do Piauí. Todas domando a vida, da mesma forma que todos nós tentamos fazer a cada dia. A matéria remete a uma discussão que é absolutamente atual neste Brasil que se transforma: o que é civilização? Quais são seus indicadores? Um dos mais importantes é a capacidade que uma sociedade tem de integrar as diferenças e conviver com elas. No Brasil de hoje convivem o atraso, que rejeita o diferente, e o civilizado, que o integra. Este, para o bem de nossos netos, é o que deverá prevalecer. 26.5.08
Chega!
Chato de falar aqui, espaço de sonetos de pé quebrado e comentários de consistência idem. Mas não dá para deixar passar a aflição que se renova a cada segunda-feira com o noticiário implacável que dá a conta de jovens morrendo em acidentes de automóvel, brigas e outras decorrências do consumo descontrolado de drogas e álcool. Como esta é a droga legalizada, é preciso ter um olhar a mais para ela. Bebe-se muito no Brasil, e cada vez mais cedo. 42,7% das mortes no trânsito em São Paulo estão diretamente ligadas ao consumo de álcool. Entre os adolescentes, as duas principais causas de morte são: 1: homicídio; 2: acidentes no trânsito. É ou não é uma selvageria? Aí lemos nos jornais que a volta da proibição de venda de bebidas alcoólicas nas estradas foi derrubada. Vemos um anúncio de uma instituição que representa as agências de publicidade no Brasil -- no passado tão envolvidas em ações de interesse coletivo -- fazendo uma defesa canhestra da liberdade de se veicular propaganda de cerveja a qualquer hora e em qualquer lugar, como se a propaganda não tivesse qualquer influência sobre os hábitos dos jovens e a culpa fosse dos garçons ou dos donos dos botecos que lhes servem a bebida. O que nos resta fazer? Do jeito que as coisas andam, torcer, rezar, enfiar a cabeça no travesseiro e implorar à Providência que faça nossos jovens, filhos, sobrinhos, filhos de amigos, vizinhos, escaparem ilesos de mais um fim de semana de guerra. Como reagir? Sobre o que reagir? A quem pedir que essa guerra pare? É terrível, é cruel. Quem ganha com isso? Quem quer que seja, arderá no fogo do inferno, caso esse estranho lugar exista. Mas até lá, tanta gente já terá partido mais cedo, que nem duas eternidades na mais quente das labaredas compensarão o dano. 21.5.08
Um mundo perfeito
Foto tirada daqui. Deu hoje no Blue Bus: a vodka Absolut fez um evento chamado "In an Absolut World", que buscava representar um mundo perfeito. A estrela da festa era um caixa eletrônico que distribuía dinheiro a quem chegasse à sua frente. 20 euros (pouco menos de 60 reais). Formou-se uma fila quilométrica, e foram distribuídos 12 mil euros (seiscentos felizardos, pelas minhas contas). Nestes tempos em que se discute a adequação da propaganda de bebidas alcoólicas, é surpreendente ver a leitura que uma bebida (e uma marca) muito forte como Absolut faz do que seria o sonho do homem comum -- e, por decorrência, o que pensa do homem comum. Não que uma fantasia como essa não passe pela cabeça de qualquer um de nós: os tempos bicudos tornam a idéia muito apetitosa. Se é de se esperar que alguém imagine que o sonho de um ser humano se limite a isso, fica mais difícil aceitar que uma marca importante, bem construída, segundo os engenheiros da publicidade, coloque isso como o máximo a se atingir, em um suposto "Absolut World". Para mim, ficou uma irremovível impressão de escárnio. Basta olhar a foto e comparar as expressões dos populares na fila e da modelo em frente à máquina. Nada me tira da cabeça uma imagem de dois engravatados em um andar alto da avenida Madison combinando: "Vamos tripudiar daquele bando de pobres beberrões, depois a gente tira toda a grana deles de volta!" Depois essa gente se queixa quando vem alguém à TV pedindo o banimento de suas ações publicitárias. 19.5.08
Mais quadras em busca do gosto popular Por melhor que seja o verso, aqui não tem melodia. O lá se mantém submerso, espera o sol da Bahia. *** Vou um dia a Cabo Verde, lá ao meio do caminho. Tão longe, hei de fazer de uma sílaba um carinho. *** À montanha, ver Belinha, com Belinha respirar o ar que eu aqui não tinha, memória minha de lar. *** À rima que se repete, sucede uma rima nova. A poesia e a coquete 'stão sempre a nos pôr à prova 16.5.08
Propaganda é assim: se a dengue é inevitável, relaxa e veicula.
Vejo menos TV do que o dever de ofício imporia. Ontem à noite, liguei o aparelhinho e pus a necessária atenção aos intervalos comerciais. Às tantas, lá vem mais um dos muitos filmes de medicamentos, com suas habituais animações pseudo-científicas, a mostrar o corpo humano e a anatomia do aparelho respiratório, arrematando com o testemunho de uma atriz famosa. Nada de novo, não fosse o texto: "Os sintomas da gripe comum e da dengue são muito parecidos. Por isso, prefira X." A simpática global sorri, embalagem do produto na mão, pack-shot, assinatura, fim. O que há de novo? Na verdade, nada. O brasileiro incorpora a tragédia inevitável de uma forma muito peculiar: vira piada. Depois, como todo publicitário se acha engraçado, vira propaganda. Qual é o limite? É de se supor que ninguém terá o mau gosto de fazer um anúncio de oportunidade para um restaurante chinês com o título "Nosso cardápio não treme." Mas incorporar a dengue pode? O tal remédio para gripe, feito sem o ácido acetil-salicílico, princípio ativo potencialmente desastroso para quem tem dengue hemorrágica, a colocou como diferencial competitivo. Fica num limite perigoso. Posso estar enganado, mas, até onde me lembro, esse filme inverte a ordem natural das coisas. Afinal, ainda não ouvi nenhuma piada sobre dengue. 14.5.08
Marina Silva: pena
O jornal à porta, pela manhã, traz rasgada em 6 colunas a demissão da ministra Marina Silva. Era previsível: Marina teve diversas trombadas com outras áreas do governo, notadamente a agricultura do ministro Reinhold Stephanes. É uma pena, por um lado. Marina é um caso impressionante de coragem. Nascida e criada em um seringal muito pobre no interior do Acre, onde trabalhava na coleta de látex, aprendeu a ler só na adolescência. Conseguiu chegar à Universidade, onde militou no movimento estudantil. De formação cristã, chegou a entrar para um convento e, mais tarde, tornou-se evangélica. Foi uma das fundadoras, junto com Chico Mendes, da regional da CUT no Acre. Esteve em todas as campanhas presidenciais de Lula, ao mesmo tempo em que liderava movimentos ambientalistas em seu Estado. Foi reconhecida internacionalmente como líder ambientalista e, quando Lula finalmente se elegeu presidente, a pasta do meio-ambiente não teve surpresas: foi dada a ela, que foi celebrada nos quatro cantos não só por sua história como por representar uma postura de defesa do meio-ambiente por parte do novo presidente. O que se viu depois -- e isso não foi só na área do meio-ambiente -- foi uma guinada do governo Lula para o centro. Com isso, compôs-se um ministério que juntava antigos militantes de esquerda com empresários e conservadores dos mais variado smatizes. O tempo foi fazendo com que Marina se isolasse, na defesa de um controle mais eficiente e rigoroso do patrimônio ecológico do Brasil, e entrasse em confronto com seus colegas ligados ao agronegócio. A capacidade exportadora do setor e a necessidade urgente de ampliar a oferta de energia jogaram a ministra para a margem do processo. Sua saída dá uma inevitável impressão de capitulação. Sob outro ângulo, mostra que os compromissos ambientais do governo mudaram e o que antes era regra agora se relativiza. Mais uma curva à direita. 12.5.08
Cotas para negros: um debate delicado
Amanhã, a Lei Áurea completa 120 anos. Nessa data controvertida e simbólica, dois abaixo-assinados serão protocolados no Supremo Tribunal Federal. A suprema corte do Brasil está julgando a constitucionalidade dos sistemas de cotas para negros nas universidades e no ProUni. Os tais abaixo-assinados assumem posições opostas sobre a questão, e ambos trazem uma penca de celebridades a subscrevê-las. Fui convidado a assinar uma delas. Aceitei, depois de muita reflexão, debate interior e conversas com pessoas muito próximas. Vou pôr meu nome no abaixo-assinado que defende a legitimidade e constitucionalidade do regime de cotas. Até uns meses atrás, eu tinha uma posição semelhante aos que defendem o contrário: achava que o problema, no Brasil, não era relacionado a raça, mas a condição econômica. É também. Mas olhando a fria realidade dos números, chegamos a uma conclusão chocante: depois de 120 anos, as diferenças de oportunidades entre os pobres negros e os pobres brancos são gritantes. Alguns dados que devem ser levados em conta: - Em 1992, 10,6% dos brancos, 28,7% dos pretos e 25,2% dos pardos eram analfabetos. Em 1999, os percentuais mudaram para 8,3% dos brancos, 21% dos pretos e 19,6% dos pardos (dados obtidos na revista Espaço Acadêmico). Os dados mostram com clareza que o fosso que separa negros de brancos permanece. A seguir apenas o "curso natural das coisas", levaremos algumas décadas para que haja alguma equiparação entre o desempenho -- e, portanto, as oportunidades -- de negros e brancos. - Em 2003, 97% dos estudantes universitários eram brancos, contra 2% de negros e mulatos (autodeclarados), segundo estudo do antropólogo Kabengele Munanga, da FFLCH-USP. - Os negros formam 46% da população brasileira e, ao mesmo tempo, representam 61% dos pobres (Secretaria do Desenvolvimento Trabalho e Solidariedade do município de São Paulo). - Em 2002, o rendimento médio mensal da população preta e parda chegava a R$ 409, enquanto o da população branca era de R$ 812 (IBGE). - Pouco mais de 3% dos cargos de alta gerência e direção nas empresas do Brasil são exercidos por negros (Folha de S.Paulo do último domingo). Por que as cotas? Quem se opõe às cotas baseia sua posição em três pontos: a meritocracia como fator de seleção para a universidade, o critério sócio-econômico, e não racial, para ações afirmativas e a idéia da manutenção de uma pretensa democracia racial no Brasil, baseada na história de mestiçagem que marca o nosso povo. Há argumentos consistentes na proposta dos que defendem a inconstitucionalidade das cotas. Há também estrelas de primeira grandeza do mundo intelectual e artísitico, como Ruth Corrêa Leite Cardoso, Demétrio Magnoli, Antônio Cícero, Caetano Veloso e outros. No entanto, sua tese passa a sensação, já emersa em outras ocasiões, de que estamos tratando de um país abstrato, ideal e cuja evolução histórica se dá em laboratórios ou páginas de livros. A proposta das cotas é uma proposta emergencial. É óbvio que é mais saudável para um indivíduo cuidar de sua alimentação, manter o peso, fazer ginástica e ler um bom livro antes de dormir. No entanto, se ele tem uma meningite ou um linfoma, vai precisar de tratamentos emergenciais fortes e até com possíveis seqüelas. O que acontece com os negros do Brasil, na prática, é que eles vivem ainda uma patologia social, uma situação concreta de discriminação. O ciclo vicioso que conecta o desempenho escolar ao desempenho econômico no caso dos pretos precisa ser rompido, e a curto prazo. Não se pode mais negar a um jovem negro -- e tentar prometer a seu bisneto -- uma chance de ascensão social objetiva. Não se pode mais manter, sob o manto de uma pretensa democracia racial, uma segregação surda. O sistema de cotas, com coragem para implementar e hora para acabar, pode ser um encurtamento no caminho da igualdade de oportunidades e, portanto, do próprio desenvolvimento do Brasil. 8.5.08
Valeu, dona Dilma.
Poucas coisas me lavaram a alma como a enquadrada que a ministra Dilma deu ontem no senador Agripino Maia. É muito importante que os crimes da ditadura sejam lembrados como o que são: crimes. Isso é suprapartidário. Maia foi perigosamente leviano. Está devendo uma retratação pública e clara. A resposta pronta que recebeu ajuda a manter os valores em ordem. Valeu, dona Dilma. 6.5.08
Da malignidade de ser caipira
Edifício Caramuru, Salvador, Bahia. Foto obtida aqui. Somos caipiras. Isso começa e se perpetua em nossa elite. Não falo do caipira idealizado, aquele que não somos, aquele bonitinho dos quadros de Almeida Júnior. Falo do ser provinciano, daquele que leva sua vidinha tosca no fundo do mato e que acha que bom é o que vem da cidade, mantendo uma certa vergonha do que tem, pensa ou produz. Em Salvador, Bahia, a caipiríssima elite local anda fascinada com algo que se concebeu lá nos maravilhosos Estados Unidos da América no começo do século 20: arranha-céus. Em todo canto sobem esquisitíssimos -- e altíssimos -- espigões, tomando conta da paisagem. Para dar uma cor mais forte à tendência, outro dia um importante empresário do setor imobiliário anunciava orgulhoso que, no lugar em que ficava um tradicional clube da cidade, iriam subir 3 torres (!) de 50 andares (!!). Agora, dois grupos espanhóis -- os espanhóis estão nadando de braçada na permissividade com que a elite baiana e seus governos tratam sua própria cidade -- compraram um prédio que é um marco da arquitetura moderna em Salvador, o edifício Caramuru, projeto de 1946 do arquiteto Paulo Antunes Ribeiro, localizado na Cidade Baixa. Premiado na Primeira Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, tema de diversos artigos em revistas especializadas internacionais, o Caramuru é um dos mais importantes projetos de seu estilo fora do eixo Rio-São Paulo. É aí que entra um aspecto adicional à caipirice que se fascina com imensos espigões aos quais falta estilo e sobra vidro: há um aparente sadismo dos empreendedores na hora de escolher onde vão empreender. Os imensos prédios do Corredor da Vitória detonaram a paisagem de Salvador, depois de derrubar alguns dos mais belos casarões da cidade. Agora, os "empreendedores" querem pôr abaixo um marco histórico da arquitetura da Bahia (será que, na cabecinha desses caras, histórico é só aquilo que tem cara de Pelourinho?). Não haverá, na Cidade Baixa, áreas que poderiam receber um novo prédio sem destruir a história, integrando-se à paisagem? Até quando esse instinto destrutivo prevalecerá, somando-se pervertidamente à ganância? A não ser por uma intensa, longa -- e improvável -- mobilização social, o destino do Caramuru será o chão, e o da Cidade Baixa, uma deformação indelével. Parece que ainda vivemos nos tempos das capitanias hereditárias, em que os donos da terra não se preocupavam com ela, afinal, voltariam um dia a Portugal. O que espanta é que, para essa elite maligna, não há Portugal para onde voltar. O que eles querem, então, para seus netos? Miami? Atraso Trabalho em quantidade fora do comum. Hoje à noite, postarei algo sobre a devastação do patrimônio histórico do Brasil pelos herdeiros das capitanias hereditárias. |