dito assim parece à toa |
|
|
Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. ![]()
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Set 2006 Out 2006 Nov 2006 Dez 2006 Jan 2007 Fev 2007 Mar 2007 Abr 2007 Mai 2007 Jun 2007 Jul 2007 Ago 2007 Set 2007 Out 2007 Nov 2007 Dez 2007 Jan 2008 Fev 2008 Mar 2008 Abr 2008 Mai 2008 Jun 2008 Jul 2008 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde Blog da Milk Frankamente Pecus Bilis Nóvoa em Folha Quase Pouco Beatriz de Carvalho Idelber Avelar Ledusha Muié Pérola Negra Filosoclics Guga Alayon Cyn City Perplexo Inside A Vida em Palavras Taxitramas Marina W. Terapia Zero Talvez sim, talvez não Alex Senna Drops da Fal Infinito Positivo Zeitgeist Anunciação Cristiana Críticas e Reflexões Peri S. Coppio Josimar Melo Lord Broken Pottery Meg (Sub Rosa) Imprensa Marrom Lucia Guanaes, fotos MM Leite, fotos |
30.4.08
Alckmin: 10 lembrancinhas para o caso de dúvida
1. Padre Marcelo Rossi 2. Dona Lu 3. Daslu 4. Rottweilers 5. Opus Dei 6. Saulo de Castro Abreu Filho 7. Gabriel Chalita 8. Discurso anestésico 9. Missas demais 10. Idéias de menos 28.4.08
Uma biografia a não se perder
Nunca pensei em recomendar aqui um livro que não considerasse bem escrito. Pois recomendo, com gosto, a leitura de João Saldanha - Uma Vida em Jogo, do jornalista carioca André Iki Siqueira. Siqueira não exibe nem de longe a maestria de memorialistas como Pedro Nava e Fernando Morais. Sequer tinha, inicialmente, a intenção de escrever um livro, seu projeto era rodar um documentário. Daí, as esperadas vacilações de estilo -- ora romanceado, ora jornalístico, ora coloquial, ora laudatório. No entanto, as deficiências do texto final não são suficientes para se sobrepor ao imenso trabalho de pesquisa realizado pelo autor. Os fatos narrados ali superam a forma com que foram contados. Com isso, é possível, dados os devidos descontos, desenhar um retrato detalhado, e jamais visto até então, de uma das figuras mais fascinantes do jornalismo, da vida política e do futebol do Brasil. João Saldanha foi, antes de tudo, um aventureiro que levava a aventura a sério e um contador de inesgotáveis histórias. Boa parte dos seus amigos achava que quase tudo era mitomania. O livro, no entanto, vai mostrando que ele era mesmo muito parecido com o mito que se desenhava. Tudo indica que falava mesmo as línguas que dizia falar, entre elas o mandarim -- não se sabe bem com que proficiência. Conhecia Paris e outras cidades da Europa quase tão bem quanto seu Rio de adoção. Era filho de uma família do Alegrete, RS, que se mudou para a então capital, com a Revolução de 30. O velho Gaspar Saldanha, pai de João, tinha lá suas conexões com Getúlio Vargas, e acabou sendo contemplado com um cartório, o que garantiu vida boa à família. João tornou-se um jovem de praia, carioca típico, bem-falante, inteligente, fazedor de amigos e contador de histórias. Apaixonado pelo Botafogo, jogou no juvenil do clube e no do arqui-rival Flamengo, chegando a fazer parte de uma seleção brasileira de sua categoria. Ainda jovem, se apaixonou pela causa comunista e filiou-se ao PCB -- então Partido Comunista do Brasil. Foi um militante dedicado, disciplinado e envolvido, chegando a passar uns três ou quatro anos na clandestinidade e a amargar não só algumas temporadas na cadeia como umas sessões de porrada e, mais grave, um tiro no peito que deixou seqüelas para toda a vida. João também deu lá seus tirinhos e suas porradas -- não era de levar desaforo para casa e, segundo ele mesmo, não conseguia contar até 10, partia para a briga antes de chegar no 3 --, o que lhe valeu mais tarde o cognome, usado por Nelson Rodrigues, de "João Sem-Medo", que Siqueira utiliza fartamente no livro. Era impulsivo como todo apaixonado, ambíguo como todo grande personagem, controvertido como todo corajoso. Coragem, aliás, e no limite da porra-louquice, era o grande traço da personalidade de João Saldanha. Herdeiro de cartório, jornalista tardio, futebolista profissionalmente diletante, comunista renitente e fiel, conseguiu dois feitos inacreditáveis no futebol, para um homem que não era exatamente um profissional do esporte: o primeiro foi vencer o campeonato carioca de 1957 como técnico do Botafogo, posição que só assumiu porque não havia outro, e sem ganhar um tostão. O segundo foi ser chamado, em plena ditadura militar, para ocupar o lugar de técnico da seleção brasileira que disputaria, em 1969, as eliminatórias para a Copa do México do ano seguinte. Montou um time exuberante, lembrado até hoje como "as feras do Saldanha", classificou o Brasil no que foi considerado o melhor desempenho entre todas as eliminatórias disputadas para a Copa de 70, e depois foi descartado por razões que jamais serão inteiramente explicadas -- o livro procura abordar equilibradamente todas as hipóteses. O fato é que o time que levou o tricampeonato no México era o time de Saldanha, com retoques. Até na hora de morrer, João criou um grande caso: resolveu que seria durante uma copa do mundo, e lá se foi, de cadeira de rodas, balão de oxigênio e quase sem respirar, comentar a copa da Itália, de onde não voltou. A personagem que André Iki Siqueira redescobriu, ao longo de mais de 4 anos de pesquisa, é um Dom Quixote que demoliu uns dois outrês moinhos no tapa. É um herói verdadeiro, o que aparece em diversos episódios de sua vida de militante. Foi um ídolo nacional, e é, até hoje, um ídolo nas terras do Maracanã, na velha Guanabara, no Rio que o adotou. O mérito do autor é dar luz a aspectos até aqui desconhecidos de João Saldanha, um homem que já há tempos merecia ter sua história conhecida e publicada. Siqueira o fez com mais méritos do que deficiências. 25.4.08
Mais uma oportunidade perdida
Há tempos política não era assunto por aqui. Mas não dá para evitar o tema depois da decisão da Executiva Nacional do PT de proibir qualquer coligação do partido com o PSDB. A medida visa implodir a costura em torno da candidatura de Márcio Lacerda, do PSB, para a prefeitura de Belo Horizonte. Ali, o prefeito petista Fernando Pimentel, o governador tucano Aécio Neves e as bases dos partidos de ambos haviam se entendido e chegado a uma candidatura de consenso. PT e PSDB têm basicamente a mesma origem política: a ala "autêntica" do antigo MDB e de seu sucedâneo PMDB. O discurso de ambos os partidos, hoje, é basicamente o mesmo. A administração federal segue, em seus fundamentos, exatamente as linhas percorridas pela gestão do PSDB, a ponto do governador de Minas declarar, recentemente, que as gestões FHC e Lula passarão à história com sendo uma só. As diferenças cada vez mais mostram ser as mesmas que existem entre os torcedores do Flamengo e os do Vasco: uns torcem para o Flamengo, outros para o Vasco. É inegável a confluência dos projetos dos dois partidos, apesar do fato de terem se distanciado progressivamente desde as eleições municipais de 85. Esse distanciamento fez parte de um projeto de poder, por parte do PT, mais exatamente da linha ligada ao ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, que, por algum tempo, se sobrepôs a qualquer projeto de Nação. Isso passava, obviamente, por se opor a qualquer custo a quem quer que estivesse no poder. Como era o PSDB, este virou o inimigo número 1. Ocorre que o projeto de poder já deu certo, e o próximo passo deveria ser o projeto de país. Isso deveria significar uma aproximação entre os semelhantes, e não há como negar que o PSDB pensa mais parecido com a ala social-democrata do PT do que com o PFL. O PT, por sua vez, pensa mais parecido com o PSDB do que com o PR (antigo PL) ou o PP (antiga Arena e partido de Paulo Maluf), seus aliados de ocasião. O movimento de Aécio e Pimentel viria a ser o primeiro passo dessa aproximação. No entanto, a brilhante decisão desse personagem Ricardo Berzoini e de seus pares na Executiva Nacional, contrariando o próprio presidente Lula, ofuscou o que seria o começo de uma evolução política bastante importante para o Brasil. Agora, resta, mais uma vez, a discussão no melhor estilo arquibancada, com tucanos recosturando suas alianças com o DEM/PFL e os petistas se pondo aos beijos com Paulo Maluf, Pedro Henry e Vadão Gomes. E o Brasil, nessa, continua sendo prioridade 2. Mais uma boa oportunidade perdida. 23.4.08
O padre voador
O padre no céu sumiu. O que será que lhe passava pela cabeça ao planejar bater o tal recorde de permanência no ar sustentado por bexigas de festa de criança? Qual era o sonho desse homem? O fato é que parece que foi mesmo para o céu, uma espécie de Ícaro, com sua viagem derretida pelo ar, suas asas seduzidas pelo vento, a trair seu dono e criador. Deixou sua estranha marca, o padre. Será difícil que esqueçamos dele e seus balões coloridos. Não lhe vimos o rosto, apenas é de se supor uma fisionomia gaia, um sorriso ingênuo. Quando ele confessou pelo rádio que não sabia ler o GPS, já devia estar certo de que o céu não esperaria mais. Foi voando encontrar sua estranha fé esterilizante. Quem o receberá? 22.4.08
Soneto com mote e glosa Tu choraste em presença da morte? Em presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte, Tu, cobarde, meu filho não és. Segredo bom, não há um que se guarde: a despeito de tua graça, teu porte, perguntam todos se foste covarde, se tu choraste em presença da morte. Usa-se responder com emoção. Terás te irritado ao pedir que baste a insistência da turba na questão: tu, em presença de estranhos, choraste? Não deve ser isso o que te dê norte, quem, afinal, nunca teve um revés? Se não descende o covarde do forte, como explicar sermos tantos manés? Acalma-te, olha bem a tua sorte: tu, nem covarde nem filho meu és. 17.4.08
A sina e a lida Sempre parece que o caminho vira para o lado contrário do esperado, a reta entorta, a curvatura estira, a espinha quebra no trocar de lado. Quem desce, às tantas, vê-se na subida, quem voa, já no alto, se estatela. A queda é a filha grata da partida, sai roxa a que, na prece, era amarela. Se a vida é o coletivo de imprevisto, se planos são os pais da frustração, melhor é planejar caxumba ou cisto e pôr-se a esperar a decepção, que há de vir na forma do benquisto, burlando a sina, dando o sim por não. 15.4.08
Aforismos, 5 O ser humano seria mais feliz se descobrisse que, toda vez que mata alguém, está atirando no espelho. *** O conservador é um daltônico dos costumes. *** Não há nada mais presente do que amores do passado. *** Não adianta ser auto-suficiente: a imaginação é independente. *** Se a verdade é dura, a falsidade cura? *** A grande vantagem da solidão é não trazer a ameaça da perda. *** Viver é suportar o que nos é negado. 11.4.08
Redes
Há alguns conceitos da contemporaneidade que, vistos com alguma atenção, são um tanto difíceis de engolir, embora mais ou menos fáceis de entender. Um deles é o tão difundido networking. Não, não me refiro a NBC, TV Globo ou Al Jazeera. Tampouco falo das façanhas da internet. O assunto aqui é o tal networking pessoal. A definição -- se é que há uma -- pode ser "aquele grupo de pessoas que você conhece e com quem mantém contatos regulares, de preferência em uma mesa de restaurante ou em um happy-hour num bar, cuja função precípua é, em caso de necessidade, arrumar ou indicar você para um emprego ou cargo". Em um estágio mais evoluído, o networking transcende os estabelecimentos etílico-alimentares e vai também a quadras de squash ou a grupos de jogging. Atenção: para os adeptos do conceito, existe uma diferença abismal entre networking e amizade. Amigos, uns têm mais, outros têm menos. Networking, todos têm. Amigos, os caras às vezes passam um tempo grande sem ver, meses, anos. O networking, é preciso manter em contato constante e regular, sob pena de não resistir à primeira vez que se pergunte: "Lembra do Fulano?" Se o networking não é mantido com regularidade, a resposta vai ser necessariamente: "Qual Fulano?" ou, no máximo, "Quem, aquele do Citibank?", quando a resposta certa seria "Não, aquele da Gessy Lever", ou pior, "Aquele que entrou no corte da MPM". Para jovens executivos de grandes empresas, esse é um conceito visto com cada vez mais naturalidade. O curioso é que se aceitam distorções incríveis, como conviver semanalmente com gente abnegadamente chata, com alguém que é favorável ao apartheid ou ainda com pessoas a quem você não dirige uma palavra além do cumprimento da chegada e o da saída -- sempre calorosos, claro. Tudo em troca da proximidade de quem possa trazer uma indicação ou recomendação no mercado de trabalho. Não é difícil reconhecer grupos assim. Habitam os restaurantes no início da faixa dos caros, são compostos de pelo menos 6 pessoas, normalmente estão todos engravatados, falam alto, demonstram constante alegria, salvo em momentos em que alguém tenha um segredo profissional a contar, e o mais interessante: não há mulheres. Isso, embora estranho, é alentador. Você não vê com freqüência mulheres "networkando", muito menos mesas de networking mistas. O que será que isso significa? As mulheres são muito desatentas, dirão os rapazes bem-sucedidos. Já um observador mais calejado dirá que, uma vez que as mulheres preferem usar a hora do almoço para atividades mais úteis, não perdem tempo em longos convescotes, portanto são mais eficientes no trabalho, donde não precisam inventar essa história de networking para justificar a chegada às 3 da tarde no escritório ou o atraso no relatório tão caro para o chefe. Mais uma prova de que o mundo é das mulheres. Falta apenas pôr em ordem os últimos detalhes da transmissão do cargo. 10.4.08
Soneto da concórdia A Dimitri Lee e Vado Mesquita Sampaio Por que revelar o que não se via, se todo mundo segue assim feliz? A nada serviu a nova harmonia, ao se integrar ao som dos imbecis. Pouca poesia se vê nos papéis, com seus quilômetros de mera escrita. Nem prosa sobra, escreve-se em mil-réis; qualquer metáfora, a planilha evita. Na carta que se escrevia ao amigo, havia tudo, de lamento a lema, nos livros, os prazeres do perigo. Penduremos na árvore um poema, vamos ler o caderno do mendigo antes que a concórdia extinga o dilema. 8.4.08
A tragédia e sua platéia
Me ausentei do blog por motivos de força muito maior, mas agora volto a importunar os amigos. Nada me assusta tanto quanto a combinação de um voyeurismo neurótico do público em geral e um sensacionalismo despudorado dos meios de comunicação. É o que vemos agora no caso da menina morta em um prédio da Vila Mazzei, bairro de classe média de São Paulo. Todos os dias os jornais inventam temperatura para manter essa história, como se fosse um folhetim dantesco, uma reificação de um livro de suspense mal escrito. A questão não é a eventual injustiça contra o pai e a madrasta -- que, de resto, é uma gravíssima possibilidade. É a mercantilização da imagem, da memória, do nome, da alma da menina morta. O que a mídia está fazendo equivale a pedofilia, à exploração mais desavergonhada de uma menina submetida a um sofrimento extremo. Conta, para isso, com a colaboração dos vaidosos de sempre: é o promotor que de repente vê a chance de seus 15 dias de fama, é o delegado, que declara para lá e declara para cá, é a delegada que acusa aos brados, são os parentes a fazer da tragédia um corso carnavalesco. Tudo monta um quadro de diversão pública a partir de uma tragédia. Garante aos pauteiros dos cadernos de Local pelo menos 6 meses de vida boa. Coloca famílias inteiras a tentar deslindar a trama e descobrir o assassino, a eleger a nova celebridade do almoço de domingo: "Tia Ernestina é que estava certa: o assassino era o mordomo do prédio." "É, mas aquela madrasta nunca me enganou." E assim vai, até que sobre somente o bagaço. De tudo: do fato, das famílias, da memória da morta, do tema, de seus coadjuvantes. Fim da sessão, o público esperará até a próxima tragédia para pôr a pipoca no microondas e exercer seu sadismo compungido. Falta alguém criar uma competição sobre a melhor história do ano ou da década, com direito a estatueta e cerimônia de premiação. O nome brilharia piscante na porta do grande auditório: "É tudo uma merda". 4.4.08
Façavor, Gafanhoto!
Mais uma daquelas notas baseadas inteiramente nas impressões do autor do blogue, portanto com altíssima probabilidade de cometer uma injustiça. O fato é que, na minha modesta, o Dalai Lama reagiu de forma decepcionante ante os fatos ocorridos em sua terra. Os protestos dos tibetanos contra a invasão chinesa mereciam de seu suposto líder religioso máximo um apoio mais claro, efetivo e corajoso. Feito uma vestal incomodada, a fala mais contundente de sua dalaiência foi ameaçar renunciar caso os conterrâneos usassem de violência. Na minha modesta opinião, esse José Mauro de Vasconcelos da espiritualidade pouco representa seu povo ou sua religião. Em uma fase crítica de minha vida, ganhei de um amigo um livro escrito (ou assinado) pelo Dalai Lama. Agradeci, meio comovido, meio constrangido. Capa e título típicos de livro de auto-ajuda. Tentei ler. Não conheço Zibia Gaspareto, mas perto daquilo deve ser um Dostoiévski. A história mostra que os líderes verdadeiros aparecem na hora da crise. O primeiro exemplo de que me lembro é Winston Churchill. Um exemplo doméstico é o presidente Itamar Franco. Foi decisivo na consolidação da transição após a crise que se impôs com o impeachment de seu antecessor. Seja por porralouquice, seja por consciência de seu papel histórico, um líder assume riscos e grandes gestos. Ameaçar renunciar se seus compatriotas partirem para a porrada não me parece grandioso. Permanecer em Dharamsala, falando por intermédio de um porta-voz é muito pouco. O mundo precisa de exemplos mais edificantes de coragem e espírito de sacrifício. 2.4.08
Fragmento de "O Preço do Peixe", 32
Há quem diga que é uma prova de amor ocupar a cama de acompanhante em um quarto de hospital. Normalmente, são de material plástico, imposição da assepsia, e muito pequenos, imperativo da escassez de metros quadrados. Dois atributos que tornam muito difícil permanecer sobre a cama, quanto mais dormir. Para ela, no entanto, poderia ser uma cama de pregos quentes. No leito ao lado, cheio de tecnologia, estava seu irmão mais novo e mais querido, por quem ela daria talvez um braço. Dar noites de sono quantas fossem necessárias não era sacrifício algum. Desde que ele havia recebido o diagnóstico, ela é que tinha tomado para si a ordenação da nova vida do irmão. A diferença de idade entre eles -- ele com 30, ela com 35 -- já não os distanciava, como na infância, mas dava a ela, ainda, certos direitos. Como o de ralhar pelo cumprimento estrito das prescrições médicas ou alertar para o desalinho na roupa de festa. Eram os dois casados, felizes em seus relacionamentos, mas de certa forma eram mais fiéis um ao outro do que aos consortes -- que entendiam e aceitavam. A doença, traiçoeira, já lhe havia levado a tantas cirurgias e intervenções invasivas, que ambos pareciam passar mais tempo juntos do que com seus pares. Daquela vez, o quadro parecia mais grave. Pelo menos para ela e os médicos, já que ele ou desdenhava os diagnósticos ou tinha uma maneira muito pessoal de interpretá-los. De qualquer forma, já havia passado por várias operações e sempre surpreendera a todos com os resultados. O mal, no entanto, era renitente. Ali, de novo, ele havia passado por horas de anestesia e invasões. Agora, parecia dormir sereno, o que a fez ressonar por uns minutos. Os barulhinhos das máquinas, o lençol escorregadio sobre o plástico, os presságios compunham um sonho mal parado, em que imagens da infância se sobrepunham a outras de morte e dor, ele chamando “mana, mana, mana”. -- Mana! Ela acordou com o chamado mais alto. Ele a olhava com ar de preocupação, o que a fez ficar imediatamente desperta. -- Quando vou ter alta? -- perguntou. -- Eu não tenho certeza, meu amor. -- Não me esconda nada. -- Você sabe que eu não escondo. -- Eu sei. Mas eu preciso saber da alta. Quando eu vou ter alta? Ela entendeu: ele estava tentando tomar pé de sua real situação, que ela sabia muito grave. Sentia-se mal com aquela conversa, mas precisava continuar, mesmo sabendo qual seria o fim, mesmo sabendo que ia sofrer com o que diria. -- Você sabe, meu amor... -- O que, mana? -- Você sabe, é coisa de dez dias, duas semanas, até. Não dá para ser mais rápido. Ele então sorriu, com ar de alívio. -- Ufa! Que bom. Ela quis entender. -- Que bom -- ele continuou. Depois da outra cirurgia, eu comprei duas passagens, mais hotel e tudo, para o Peru. Preço imbatível, ondas perfeitas, mais barato que Trancoso. Só que eu tenho que viajar daqui a no máximo um mês. Um mês seria suficiente, ele teria alta a tempo de não perder a viagem. Para ela, seria um pouco sofrido, o tempo dele fora seria um tempo a menos de convívio, agora que tempo era o que se esvaía. Mas ela havia entendido o que ele dizia nas entrelinhas, o tempo todo: não viver era muito perigoso. |