dito assim parece à toa

31.3.08

O cantor e o meganha



O Quase Pouco [[http://quasepoucodequasetudo.blogspot.com/]] já falou do assunto, os jornais também, motivados pelo lançamento do documentário "Ninguém sabe o duro que dei", de Cláudio Manoel, sobre a trajetória do cantor Wilson Simonal.

Simonal foi grande nos palcos e em frente a microfones e câmeras de TV. Afinadíssimo, com uma levada rítmica impressionante e uma capacidade incomum de magnetizar uma platéia, foi um dos astros de sua época. Era um artista pronto, não devia nada a popstars americanos, o que pode ser conferido no dueto com Sarah Vaughan [[http://www.youtube.com/watch?v=e1ojNG61wwA]] em "Oh happy day" e "The shadow of your smile" para um programa da antiga TV Tupi.

De uma hora para outra, ele passou de ídolo pop a rejeitado por toda a mídia e pela classe arística. A razão? Simonal foi pilhado como dedo-duro do regime militar, colaborador do antigo DOPS. O ano era 1972. O cantor descobriu (ou suspeitou) que seu contador o havia passado para trás e mandou dar uma surra no sujeito. Dado o estrago acima do esperado, a mulher do sujeito denunciou Simonal à polícia e isso acabou em 5 anos de condenação, cumpridos em liberdade. Em meio ao processo, o já enrolado e quase ex-ídolo confirmou (isso está nas sentenças publicadas, conforme se pode conferir aqui [[http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsma/om3003200803.htm]],só para assinantes da Folha e do UOL) e reiterou sua condição de colaborador da chamada "comunidade de informações".

Hoje, depois de 36 anos, começa um movimento para resgatar Simonal. Finalmente. É um dos melhores. É preciso que seja conhecido e ouvido. Tendo numerário, serei dos primeiros a comprar sua caixa de CDs assim que for lançada.

Mas nem por isso passarei a achar que Simonal foi uma vítima inocente de uma imprensa mal-informada e vingativa. Antes de tudo, porque essa imprensa estava, à época, sob uma severíssima censura, não poderia puvblicar muita coisa sobre o assunto. Depois, porque não foi nenhum jornalista que colocou em Simonal a pecha de alcagüete: ele mesmo declarou ter sido um, em juizo e mais de uma vez. Dizer tal barbaridade e querer que a crítica, cheia de vítimas do regime a seu redor e censurada pelos aparentes chefes do cantor, continuasse a impulsionar sua carreira apenas por "critérios técnicos" seria de um cinismo a toda prova.

O que aconteceu com Simonal foi mais um caso típico de uma situação de guerra: predominam as vítimas injustamente abatidas. No caso de Simonal, a pena parece ter sido maior do que o delito. Tudo indica que suas declarações forma mais fruto de boquirrotice, a fim de intimidar seus acusadores no tal processo, do que um retrato dos fatos. Afinal, não há prova documental que sustente suas atividades de dedo-duro. O fato é que, no tiroteio, o cara se colocou na linha de tiro e foi atingido. Gente dos dois lados o foi. O lado contrário ao que Simonal declarava ser o foi em número bem maior.

A questão é: o cantor era excepcional, a pessoa, nem tanto. É preciso reconhecer ambos os fatos. Afinal, acreditar que heróis sempre cantam bem ou que quem canta bem é sempre herói é uma bobagem. Contradições como a de Simonal acontecem nas melhores famílias, pelo menos naquelas que estão fora dos roteiros das telenovelas mais antigas.

Passados 36 anos da descoberta de seus podres pessoais e 8 anos da sua morte no ostracismo, parece já ser tempo de anistiar o grande cantor e esquecer a pessoa contraditória. Até porque, como sabemos, a obra, ao contrário da pessoa, é imortal. Não é preciso ter vergonha de reconhecer isso. Pode ouvir, que é muito bom [[http://www.youtube.com/watch?v=OyYhqICxyvE]].

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27.3.08

Previsões



Tenho um grande amigo e compadre que é um apontador de tendências. É um desperdício que ele não seja ouvido pela mídia. Quando a Microsoft lançou o Windows, ele, macintosheiro antigo, cunhou a frase: "O Windows está para o System como a Roberta Close está para a Luiza Brunet". Anos depois, a Luiza Brunet já havia sido sucedida pela filha, a modelo do Brasil passara a ser a Gisele Bündchen e a Apple lançou este comercial .

Na mesma época, esse meu amigo dizia que não levava a sério a hipótese de humanóides à maneira descrita Asimov, perfeitos e prontos para nos substituir em tudo. No entanto, apostava que o futuro traria o hábito de homens inserir no corpo chips e outros artefatos eletrônicos ou mesmo mecânicos para conquistar novas capacidades ou melhorar as já existentes. Hoje, o Blue Bus dá conta de que o inventor do celular, Martin Cooper, faz a mesmíssima previsão -- só que uma década atrasado, em relação ao meu amigo.

Há meses que não o vejo. Mandei um email falando sobre as curiosas coincidências e propondo um almoço. Será uma deliciosa oportunidade de colocarmos a conversa em dia e de ouvir mais premonições. O bom é que falaremos de um futuro mais distante, em que talvez, para o bem ou para o mal, já seja irrelevante reclamar dos políticos -- que vivem num mundo em que quem é bom tem QI de mariposa e quem é sacana é duplamente inteligente --, da imprensa, do trânsito ou do lumbago.

Se houver alguma previsão bombástica, eu prometo que conto a todos.

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25.3.08

A nova postura do governante americano



A Folha de ontem publicou uma ótima entrevista com Gay Talese (linque só para quem é assinante da Folha ou do UOL), um dos nomes mais destacados do new journalism americano, junto com Tom Wolfe.

Talese fala da obsessão da mídia americana pela vida sexual dos governantes, e chega a uma curiosa conclusão: os bons presidentes americanos, via-de-regra, tinham uma vida sexual intensa fora do casamento. Cita Roosevelt, Kennedy, Johnson, Eisenhower (para não ficar só nos democratas). Já os presidentes ruins eram monógamos convictos -- cita Nixon e W. Bush. Já sobre Eliot Spizer, o governador de Nova York pego com a boca na botija, "é bom que seja exposto", afirma Talese, por ser do tipo que, publicamente, fechava bordéis e, em privado, os freqüentava alegre e contumaz.

É muito interessante ler a entrevista e observar a atitude pública do sucessor de Spitzer, David Paterson, que deu uma coletiva à imprensa, ao lado da mulher Michelle, admitindo que já havia cheirado cocaína e pulado a cerca mais de uma vez. Às tantas, a mulher também admite candidamente que tinha tido lá seus casos extra-conjugais. Tudo, ao que parece, para esvaziar possíveis futuras manchetes da imprensa sensacionalista, louca por achar a coisa na boca ou a boca na coisa dos políticos de destaque.

É interessante. Se isso vira hábito, já pensou como serão os debates americanos num futuro próximo? A uma confissão direta de Hillary de já ter colocado dólares na sunga de um crioulão forte, McCain retrucará: "Isso é mesmo coisa de democratas fracos. Eu sou um homem de surubas!" Ao que Mrs. Clinton responderá, após ler o bilhetinho apressado de um assessor: "Fraco é o senhor, que precisa desse tipo de recurso para transgredir. Eu mostro, na platéia o Albert, nosso motorista. Dois metros e dois de altura, era ele que eu pegava ali, na garagem de casa, enquanto Bill tomava o café da manhã", ante o assentimento silencioso do chauffeur pegador. Enfurecido, McCain revelaria, para espanto nacional, um caso com um ex-capitão, veterano do Vietnã e treinador de cães em Tucson, Arizona. A esta revelação, a platéia silencia, Hillary fica desorientada e tenta retomar a questão dos direitos civis. Em vão: as pesquisas, na mesma noite, começam a virar em favor do conservador safado confesso.

Aquela América tende a virar uma promissora fonte de diversão para o resto do mundo. Tomara apenas que não comecem a fazer humor nuclear.

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20.3.08

De passagem



Tenho sensações opostas ao comparar a Páscoa cristã e o Pesach judaico. A primeira sempre me trouxe uma incômoda e ligeira depressão, apesar dos coelhos e ovos paganíssimos que nos tomavam os domingos, a celebrar o final feliz que a ressurreição trazia àquela história trágica.

Já o Pessach celebra a fuga do povo judeu do Egito e o chapéu que Moisés aplica no Faraó, depois de uma dezena de pragas que fariam o próprio Fidel tremer. O Pessach representa a redenção de um povo, algo sempre facilmente compreensível para mim, que ouvia essa história fascinante da boca de minha avó, cristã presbiteriana, que lançava mão das histórias do Velho Testamento para me fazer dormir, muito melhores do que as da carochinha, de que eu vim aprender a gostar já na adolescência.

Mesmo tendo o respeito devido à figura do Cristo, nunca consegui me sentir bem com aquelas cenas de tortura, aquela fascinação à redenção pelo sangue, a imagem do cordeiro sacrificado para tornar tolittur pecatta mundi, aquele montão de pecatta que os romanos, fariseus, judeus incréus e outros participantes da turba ignara cometiam a todo instante naqueles dias muito mal denominados de "Paixão".

Hoje, olho tudo isso mais de longe, com menos fascínio e menos incômodo, em proporção semelhante. Sinto que me afasto, mais ou menos na mesma velocidade e simetricamente, tanto do agnostiscismo quanto das figuras divinas antropomorfizadas do cristianismo, notadamente as do catolicismo. Aprendi, meio na marra, que há algo lá. Mas aprendi também que barbas, dedos, mantos, pregos e rios de sangue pertencem a este plano humilde e apequenado em que estamos alojados temporariamente. O plano daquilo que, por falta de critério comparativo, chamamos de divindade prescinde de tais inutilidades.

Até o dia de mudar de plano, vamos por aí tateando e repetindo ao menos o carinho: boa Páscoa, Pessach tov. A todos.

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19.3.08

Soneto ao gênio que estiver passando

Há tempos me dedico a desejar,
já que há os mesmos tempos não logro ter.
Desejos nada simples, bom saber:
talvez o mais chinfrim seja voar,

e aquele inatingível, ter você.
Para isso, eu preciso, desde já,
de toda dádiva que um gênio dá,
desejos qual nas fábulas se lê.

Vidas, que o provedor dê logo duas,
para que eu tenha o tempo necessário,
o tempo para armar mil falcatruas,

posar de padre, agir como corsário,
roubá-la, só que em dobro (ambas nuas,
você e você, meu corpo, solitário).

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18.3.08

Mini 93

Dois problemas afetavam a paisagem: uma rachaduara diagonal em uma das lâminas de vidro da janela e o barulho dos carros, acentuado pela esquina, primeiras e segundas marchas. A poltrona ia bem, há uns quinze anos já se acostumara com a pequena protuberância que lhe alcançava as costas, bem abaixo da omoplata direita. Ao alcance da mão, a Bíblia e as palavras cruzadas, de que sabia quase tudo de cor, o desenlace do livro de Jó, o rio da Europa Central afluente do Danúbio. Mas havia, no fundo da gaveta, um volume escondido. Só o pegava à noite, quando tinha certeza de que todos já dormiam, depois do último gemido da nora e do primeiro ronco do filho. Abria, então, no capítulo 57 do pesado tomo de 600 páginas, e ia até o fim. Em vão. Não entendia por que sua heroína, tão maltratada, ainda morria. Malditos românticos.

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14.3.08

Recenascidos e senterra



Está para ser implementada a nova reforma ortográfica da língua portuguesa, que tem a ótima intenção de unificar a ortografia do nosso idioma, compartilhado por 7 países. Mas essa unificação vem acompanhada de de uma série de novas regras que, se aplicadas, farão do português uma língua mais estranha, pelo menos para aqueles que o têm como língua-mãe.

A primeira delas é o fim do trema e dos acentos diferenciais. A pronúncia correta de "ubiqüidade", por exemplo, vai depender da mais pura tradição oral, por irregistrável que será por escrito. O fim dos acentos diferenciais -- na prática, a eliminação dos que sobraram depois da reforma de 1971 -- é o prenúncio de algumas dificuldades de compreensão insolúveis. "O doutor Silvana não pode ir à reunião" refere-se a um pedido de desculpas ou a um aviso prévio?

Caem também o "p" e o "c" mudos. Para o português do Brasil, pouco problema: teremos as novas gerações malhando o "ténico" da seleção brasileira, mas é parte do jogo. Já os portugueses e boa parcela dos lusófonos de além-mar terão de pensar duas vezes ao ler: "O rapazote, de fato novo, encantou as senhoras do salão". Estava o referido de terno novo ou o facto de ser ele realmente jovem provocaria, por si só, o encantamento?

O outro problema a resolver será o de como diferenciar "ótica" de "óptica". Talvez a tal reforma elimine, junto com o trema, a surdez e a miopia, tornando o problema irrelevante.

Mas o que mais incomoda e intriga é a regra que elimina o hífen nas palavras compostas. A idéia esteticista de que isso torna a nossa escrita mais elegante não tem uma contrapartida funcional. Vamos conferir a tal "elegância":

- Guarda-roupa será guardarroupa.
- Pão-de-ló será pãodeló.
- Recém-nascido será recemnascido ou, pior, recenascido.
- Navio-escola será navioescola.
- Criado-mudo será criadomudo.
- Capitão-de-mar-e-guerra será capitãodemareguerra, assim como major-médico será majormédico e comandante-em-chefe será comandanteenchefe ou comandantenchefe.
- Cara-de-pau será caradepau.
- Vice-presidente, que tanto queria mais, será vicepresidente.
- Primeira-dama, constrangida, será primeiradama.
- Sem-terra vão gritar como senterra.
- Piolho-de-são-josé será piolhodessãojosé.
- Mal-dos-chifres será maldoschifres, assim meio alemão.
- Vovó, moribunda, ficará vainãovái.

E por aí seguirá um aurélio de bobagens. Será possível que nós, usuários da língua, tenhamos de nos submeter a essa viagem de uns poucos intelectuais e diplomatas, em dia de Américo Pisca-Pisca? Aliás, o pobre personagem de Lobato tomará mais essa na cabeça: virá a ser Piscapisca.

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11.3.08

Dois sonetos a partir de um mesmo mote

Leva tempo entender que a vida é curta

1.

Anos a compor um ressentimento,
décadas para bem o cultivar.
Cestas de papel jogadas ao vento,
com praguejos planando pelo ar.

Aos vinte, ter pena de quem inventa;
aos quarenta, encenar autoridade.
Lembrar, no aniversário de setenta,
que a neta não manteve a castidade.

Há quem busque remédio que alivie,
salicilato, sais, casca de murta,
química fina, yoga, zen, tai-chi.

Qualquer que seja o efeito que isso surta,
por mais ponderação que propicie,
leva tempo entender que a vida é curta.


2.

Leva tempo entender que a vida é curta.
Às vezes, leva quase toda a vida.
O vivo, quando entende, agora surta,
busca agarrar a vida já vivida

e perde o pouco tempo que lhe resta
cavando o tempo em busca de si mesmo.
Gastasse as poucas horas numa festa,
evitaria esse final a esmo.

A vida é curta além do que entendemos
porque nenhum de nós foi avisado
do tempo que anda além do que o que vemos.

Se o fôssemos, quem não teria dado
mais tempo ao "meu amor" do que ao "oremus",
mais glórias ao virá do que ao passado?

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7.3.08

Em defesa (infelizmente óbvia) do reitor da UnB


O eterno inspirador: Carlos Lacerda

Um dos ataques recentes do Ministério Público e de parlamentares de oposição mira a residência oficial do reitor da UnB Timothy Mulholland. Alega-se um gasto abusivo com decoração, monta-se com isso a figura de um deslumbrado, corrupto e, assim, se arremata: "Ladrões!", desse jeito, no plural, já dando de lambuja que todos são.

É lamentável, mas isso é tão somente a continuação de uma indigência política que, se tem origem difícil de marcar no tempo do Brasil, é certo que ganhou forma e robustez lá pelos anos 50, com a UDN e seu símbolo Carlos Lacerda.

Da redemocratização para cá, vê-se um preocupante crescimento do lacerdismo, esse monstrinho que acabou ocupando novamente a cena política, depois de ter sido um colaborador importante do golpe de 1964 e seus 21 anos de miséria ética, legal, institucional.

Grassa, pois, o udenismo mais rastaqüera. Entre 1995 e 2002, procuradores, achadores, denunciadores, na falta de substância procurativa, achativa ou denunciativa, iam atrás de bobagens como a fazenda de FHC, o imposto de renda do sobrinho-neto de fulano, a conta do restaurante paga por beltrano.

A partir de 2002, o PSDB na oposição passa a tentar replicar -- com menos profissionalismo -- o jeito dirceu-lacerdista de fazer oposição: achados, denúncias, procuradores ávidos por seus 15 minutos. O udenismo troca de mãos. Aí, surge a denúncia do "escândalo" da casa do reitor. Baseados em tecnicalidades (uma interpretação equivocada das atribuições da Finatec) e valores em dinheiro (sem qualquer preocupação com relativizá-los), os udenistas de hoje criaram um escândalo onde há apenas uma providência institucional.

É ridículo falar de algo tão óbvio: o reitor da UnB tem um papel institucional equivalente ao de um embaixador, de um prefeito de capital, do presidente da Petrobras. Representação é um item importantíssimo de sua função, talvez o central. No entanto, na falta de novas cuecas ou novas mesadas para compor manchetes efusivas, se cria essa premeditada confusão.

Do ponto de vista dos veículos, essa história poderá render umas centenas de exemplares ou umas frações de pontos no ibope a mais. Do ponto de vista da opinião pública, tudo fica empobrecido. O PSDB tenta fazer o que o PT fazia. O PT se defende como o PSDB se defendia, a imagem do reitor vai injustamente para o saco e, o que é pior, a imagem da instituição se desmoraliza. Quem sobrevive? A UDN.

Carlos Lacerda jamais imaginou que seria capaz de tais bruxarias. Ou que teria tantas gerações de sucessores incansáveis.

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6.3.08

Os covardes e os desavisados



Tive estes dias tomados por trabalho, o que me impediu de falar com mais cuidado do assunto que agora eu abordo sem cuidado nenhum, apenas com pressa e impressionismo: não dá para tratar as FARC como outra coisa que não seja banditismo e terrorismo.

A invasão do território equatoriano é uma trapalhada do governo Uribe, assim como a radicalização pode ter posto a perder esforços importantes para a libertação dos reféns seqüestrados pela quadrilha. Mas o chilique exagerado de Chavez -- que, ao contrário de Rafael Correa, não teve seu país invadido -- denota uma perigosa tentativa de transformar uma quadrilha corrupta e sangüinária em interlocutor político legítimo.

Não são. Merecem cadeia.

Esta é uma cena que mostra uma América do Sul politicamente tosca, liderada por um Brasil vacilante e, quanto às FARC, inexplicavelmente em cima do muro, ao não considerá-las abertamente um grupo terrorista. A chance de isso não acabar em pizza, e sim num forno escaldante, cresce.

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3.3.08

Os juizes e os carolas: um embate pelo Brasil



Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal vai julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade, movida pelo ex-procurador geral da República Cláudio Fonteles, contra o artigo da Lei de Biossegurança que regulamenta pesquisas com células-tronco embrionárias.

A ação é mais uma entre as incontáveis demonstrações de como o fundamentalismo católico é capaz de perpetrar crueldades em nome de uma fé que ele reputa ser compulsória a toda a humanidade.

Como todo mundo sabe, esse tipo de pesquisa permite, em tese, desenvolver células diferenciadas -- com as dos tecidos nervosos -- a partir das células indiferenciadas que compõem o embrião humano em sua fase inicial de desenvolvimento.

A lei é clara e cuidadosa. Prevê que só sejam utilizados embriões humanos oriundos de fertilização in vitro e de mais de três anos. São embriões que foram descartados nesse tipo de intervenção e que, sem uso, irão para o lixo.

Mesmo com tudo isso posto, os fundamentalistas católicos, Fonteles à frente, colocam-se numa posição radical de proibir que esse material seja utilizado. Preferem, em nome do que chamam de vida, que o material seja descartado ou abandonado, o que é uma sandice: a se levar a ferro e fogo que aquilo é vida, os carolas propõem eutanásia. Ou será outro o nome a se dar à eliminação de um "ser humano" inviável?

Da mesma forma, a se aceitar a idéia estapafúrdia de que aquelas células são um ser humano, é preciso adotar, por exemplo, a proibição dos transplantes. Afinal, se utilizam ali células vivas de um ser humano. Não são elas, por esse raciocínio torto, seres humanos também? Os católicos deveriam, então, adotar mesmo a proibição de transfusões de sangue. Ou o veto sagrado à própria fertilização in vitro, uma vez que ela pode ser vista como uma usurpação de atribuição exclusiva do Criador.

Em um artigo brilhante, pela simplicidade e clareza com que coloca a questão, o médico Luiz Eugenio Mello, da Unifesp, presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental, coloca o cerne da questão: o que define a vida e a morte? No Japão, só se aceitou que a morte cerebral representa o fim da vida na década de 90. O que determina que um monte de células obtidas em experimentos científicos, fora do corpo humano e sem perspectiva alguma de reproduzir um, sejam consideradas gente?

Na cabeça inflexível de padres e carolas, há uma determinação divina. Problema deles. A questão fica complicada quando eles vêm tentar impor essa posição como se fosse absoluta, buscando determinar à sociedade que siga, como legítima, essa idéia de que é preferível jogar no lixo as células-tronco disponíveis do que utilizá-las para curar males degenerativos terríveis ou reverter, por exemplo, situações de tetraplegia severa.

Essa falsa piedade é tão cruel como a postura dos padres do século 16 de mandar queimar hereges. São posições da mesma lavra. O nosso judiciário há de saber rejeitar as pressões retrógradas dessa turma, que se especializa em atrasar milhões de cordeiros e, feliz, investir-lhes os dízimos. Vade retro.

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