dito assim parece à toa

29.2.08

À moda de Camões, 4 (Descamões)

Poesia não foi feita para heróis.
Versos devem ser pra gente comum
ou mesmo para ser humano nenhum,
sílabas divertidas, letra e voz.

Ronaldos, Tostões, barões, reis, avós
aparecem na Globo e no Cartoon,
no documentário de cada um.
Os versos devem falar mais de nós

comuns, mesmo que nobres ou galãs,
iguais a todo mundo que aparece,
PT, MST ou milionário.

Poesia não foi feita para clãs,
talvez fãs, que o verso puro enaltece,
mas sempre àquele que não ganhe o páreo.

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27.2.08

Meu voto americano



"Meu pai vai votar no Nixon". Me surpreendi com a afirmação do meu amigo, na fila para entrar na sala de aula, rotina diária na escola conservadora em que eu cursava o primário. Descobri que o garoto acreditava piamente que as convicções conservadoras do pai se concretizariam em um voto no ex-vice-presidente e então candidato republicano, que aparecia na frente com larga margem nas pesquisas de opinião, e que viria a ser presidente por dois mandatos seguidos, sendo, no segundo, defenestrado pelo envolvimento no escândalo de espionagem conhecido como "o caso Watergarte". Disse a meu colega que talvez ele estivesse enganado, estávamos no Brasil, seu pai era brasileiríssimo e descendente de árabes, nada a ver com a disputa pela Casa Branca. Mas ele insistiu, com veemência quase ofendida: "Meu pai vai votar no Nixon".

Me lembro dessa história para ilustrar a importância que damos às eleições presidencias americanas por aqui. Todos nós acabamos tomando partido, normalmente os de direita torcendo pelo republicano e os do centro à esquerda torcendo pelo democrata. Neste ano, a coisa começou a se animar mais cedo, já estamos começando a torcer nas prévias. Não é para menos: no lado democrata, há uma mulher disputando com um negro, dois ineditismos incríveis na história americana.

O pai do meu amigo, se estiver vivo, certamente vai votar no senador McCain, mas e eu?

Até ontem, meu voto seria da senadora Hillary Clinton. É um gênio, capacitadíssima, boa articuladora política e, como tal, com dois ou três esqueletinhos no armário, como o voto a favor da estúpida invasão do Iraque. Apesar disso, não parecia haver comparação entre ela e Obama, aparentemente jovem demais (se eleito, será o segundo mais jovem presidente americano, perdendo apenas para Theodore Roosevelt) e sem história alguma que venha dar consistência a seu imenso carisma.

No entanto, desde ontem minha opinião mudou. A causa próxima foi a posição tomada pelos dois candidatos em relação ao embargo a Cuba. Hillary, saboneticamente, disse que o faria de forma gradual. Obama simplesmente assumiu que acabará com essa excrescência. Essa não é a única razão de minha virada de bandeira. Na verdade, cada vez mais acho que a gente deve olhar com bons olhos os mais utópicos, os mais ousados, os que dão espaço e vazão a seus sonhos. Pragmatismo demais brocha. Certo, utopia demais causa ejaculação precoce. Mas entre uma coisa e outra, é possível juntar os sonhos à responsabilidade e levar o mundo para a frente. Não terá sido essa a lição que os 70% de popularidade do presidente Lula nos dão?

Barack, em sua posição relativa a Cuba, mostrou, de uma só vez, coragem e desprendimento. Hillary deixou evidente um olho no gato outro na frigideira, tentando não desagradar liberais ("eu topo") nem conservadores ("mas devagarzinho"). Em outros tempos, talvez eu admirasse essa cautela, esse bom transitar pelo cipoal da política, essa "habilidade". Mas o mundo agora precisa de um pouco mais de graça, de ousadia e -- por que não? -- de coragem.

Se alguém me perguntar na fila, já tenho a resposta pronta: vou votar no Obama.

PS importante, utilidade pública do Dito Assim: Marina W. agora está aqui. Obrigado nada, pode ir lançando o número 2 dos Cadernos de Cinema

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25.2.08

Cuba recomeça



Eleito Raúl Castro, e declarando "de prima" que a economia de Cuba não pára em pé do jeito que está, é inevitável constatar: termina uma era.

Democracia é valor absoluto. Fidel e seu governo, portanto, são um desvio nesse caminho. Mas nada é assim simples. Basta olhar a história de Cuba e das Américas nos últimos 50 anos, basta ver as capas dos principais veículos da imprensa mundial, na última semana, para se constatar que Fidel não é a mesma coisa que Stroessner, Somoza ou Salazar. Sim, ele estourou o tempo admissível para ficar no poder. Reprimiu, transgrediu direitos fundamentais da pessoa humana, foi talvez o mais personalista.

Mas a diferença fica clara ao comparar a Cuba que Fidel pegou com a Cuba que ele larga. Cuba, nos anos 50, era o Café Photo dos Estados Unidos. Sob uma ditadurazinha equivalente à do Haiti -- familiar, corrupta e cruel --, a ilha vivia de cassinos, prostituição e mafiosos se bronzeando. A Máfia, aliás, era o grande ministro de Fulgencio Batista, o ditador de plantão, que havia dado um golpe de Estado em 1951 e trazido os cassinos a Cuba como alternativa econômica para o açúcar. Assim, num país sem classe média, quem não era fazendeiro de cana ou tabaco ou do esquema jogo-hotelaria-sexo, era o resto. Uma massa de trabalhadores braçais analfabetos e miseráveis.

Cuba pré-Fidel tinha índices obscenos de analfabetismo, relações primitivas entre capital e trabalho, além dos então recentes frutos da jogatina: droga, prostituição, banditismo, corrupção.

Em janeiro de 1959, o grupo insurgente de Fidel Castro derrubou Batista, que fugiu, levando uma fortuna para o exílio na Espanha do generalíssimo Franco. Só em 1961 se desenha uma opção mais clara pelo socialismo, e só em 1965 é oficializado o Partido Comunista de Cuba. A pergunta é: havia alternativa? No cenário da Guerra Fria, o alinhamento à URSS foi a única, fora da órbita americana.

A reação dos Estados Unidos foi pesada, eram assim aqueles tempos. Mas, curiosamente, ela foi muito além do fim da Guerra Fria. O império impôs um embargo que simplesmente privou Cuba -- um país sem indústria -- de importar.

Nem é o caso aqui de discutir o modelo soviético de "socialismo". Ele fracassou, antes de tudo, por ser, em sua concepção, retrógrado e conservador: só o mais retrógrado e conservador concebe e tenta implementar um Estado imutável. O stalinismo fracassou por ser de direita. Mereceu cada gota e cada segundo desse fracasso, mereceu ser colocado no mesmo escaninho da história em que se arquivou o nazifascismo.

Mas Cuba não era a Rússia.

Contados todos os (muitos) erros de Fidel e de sua ditadura de 50 anos, não apagarão um mérito: Cuba, hoje, tem um povo, tem uma identidade nacional, tem mantido a tapa seu pequeno território. Somando tudo, Cuba hoje é uma Nação.

Quando o capitalismo chegar -- e isso é questão de meses --, vai encontrar interlocutores alfabetizados, alguns indignados com o antigo regime, outros com o seu fim, vai encontrar uma classe de prestadores de serviço e uma elite burocrática prontas, vai encontrar debate onde só havia massa iletrada e dispersa.

A Cuba que Fidel entrega é infinitamente mais importante do que a Cuba que tomou. Que o digam o Economist, o Time e até a própria (*)eja. Podem até malhar o hoje ex-ditador, mas ninguém fala em "resgate", "retomada". Simplesmente não haveria o que descrever nesses termos.

A Cuba que vem por aí será muito melhor do que a Cuba de hoje. Mas isso será também por causa de Fidel, mais do que apesar dele. Ver seus 50 anos como paralisia ou retrocesso é ver apenas parte da questão. É tão míope quanto defendê-los incondicionalmente.

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22.2.08

Más companhias



Álvaro fez a pergunta que lhe estava cravada na garganta: "Quem é?" Regina sorriu antes de responder: "Você tem uma doença auto-imune". Já na rua, ele tomou-lhe a frente para abrir a porta do carro. Ao dar a volta, ajeitou o colarinho, os olhos cegos pala visão das belas pernas no banco do passageiro. A festa seria seu fim.

No caminho, procurou ser ameno: "Essas festas nos K. são sempre um pouco snobs, não acha?" Ela sorriu: "Eu disse isso no ano passado." Ele não ligou para o sinal amarelo, o que a irritou um pouco. Era o que ele queria. Não falaram mais até a hora de armar o sorriso e descer para a festa. A porta da casa tinha pelo menos meia dúzia de manobristas e um burburinho encenado. Ficou inquieto quando o manobrista alto e forte foi abrir a porta dela, como mandaria o figurino.

Aquelas pernas. Por que aquelas pernas?

Ela desceu sorrindo, esse era o problema além das pernas. Foi encantando cada um até a entrada da casa, e festa adentro. Ali, foi sumindo aos poucos do seu olhar, ele era lento demais para segui-la. Em poucos minutos, desistiu. O primeiro uísque apareceu para acompanhar seus pontos de interrogação. O segundo chegou junto com o casal anfitrião, a quem ele reservou mesuras e inteligências, gesticulando com o copo, à forma de brindes excessivos. Rodopiou aqui e ali, falando com um, apresentando outros dois, mostrando-se solícito, simpático, sedutor. O terceiro uísque veio do lado da bandeja oposto ao que servia a uma bela e curiosa conviva. Apresentaram-se.

Regina chegou sorridente em casa. Álvaro tinha sido uma companhia de risco naquele trajeto. Tinha, como sempre, bebido além da conta. Ela tinha moderado seu riso, agora mais delicado e carinhoso. Ele não lhe abriu a porta do carro, e entrou barulhento em casa. Ela não esperou boas-noites, não viriam, ainda teve disposição para pôr um uísque no copo. "Uísque?", ele balbuciou. "Uísque", ela respondeu, enquanto fixava os olhos nele, sorrindo. "Onde você andou a noite toda?" "Perto de você, bem perto de você", ela respondeu, sem deixar de sorrir, enquanto a ele ia restando só subir a escada conformado e praguejando, praguejando e conformado.

Ele já babava no travesseiro quando ela pegou o telefone. Fazer o quê? Ele a obrigava a isso. Toda vez. Contra sua vontade. Mas fazer o quê?

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19.2.08

Ao justo nome

Ela não tem o nome que merece:
bolsa de guardar rapé ou tabaco.
No engenho, delicado, até parece,
mas na designação geral, que fraco!

Afinal, que tabaco faz tal chama,
que bolsa pode ser assim tão rica?
O fogo dela é água, quando inflama;
a bolsa, quando doa, multiplica.

Mereceria um nome universal,
designação ainda pré-Babel,
talvez um símbolo, só um sinal,

um simples gesto, um apontar o céu,
já que o que traz, longe de ser verbal,
é alma líqüida, um céu de mel.

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18.2.08

Odorânio 2010



A Folha publicou ontem uma longa entrevista com o pré-candidato à presidência da República e ex-ministro Ciro Gomes.

Ciro é uma figura bastante peculiar. Confesso que já tive alguma admiração por ele, nos tempos em que foi prefeito de Fortaleza (pouco mais de um ano) e governador do Ceará. Era uma liderança importante, jovem e com um discurso diferente. Além disso, era parte integrante das mudanças que vinham tendo curso em seu Estado a partir da eleição de Tasso Jereissati, em 1986, que marcou o ocaso dos três coronéis que mandavam por ali.

O tempo foi mostrando que, à maneira de outros tantos midiáticos talentosos, Ciro privilegia o discurso, em detrimento da prática política, o que o tem levado a se encantar com promessas difíceis de levar a cabo e diagnósticos que, embora fluentes, logo se mostram sem conexão clara com o mundo real (você saberia interpretar com clareza o que quer dizer "Advogo que o modelo tributário, o modelo previdenciário, o marco central de economia política e a questão da institucionalidade política devam ser temas que fiquem fora do mundanismo do dia-a-dia do governo governando e oposição oposicionando"?).

Não há dúvida: o deputado segue uma receita que trouxe resultados a muitos políticos na história recente do Brasil. Escolhe um inimigo de fácil leitura e baixa-lhe toda a porrada que puder. Como Collor fez com os "marajás", Jânio com a "bandalheira" ou Brizola com as "forças internacionais". O escolhido de Ciro foi FHC e seu governo. "É um desastre sem precedente na história", exagera, acompanhando seu "diagnóstico" de "dados": "deprimiu a taxa de investimento aos menores valores desde a 2ª Guerra Mundial e levou o país ao colapso".

Ao longo da entrevista, é possível entender que essa verborragia enviesada, meio Jânio Quadros, meio Odorico Paraguassu, é intencional, premeditada: disfarça uma enorme falta de projeto sob uma camuflagem de aparente clarividência. Afinal, quando ele afirma "Esses dois valores, que parecem uma abstração, embrionam um conjunto de valores coerente com o projeto nacional com o qual sonho", quem poder-lhe-á contestar? Em tempo, os tais "dois valores" são "a causa nacional" e "a causa dos mais pobres", o que quer que isso queira dizer.

A impressão que dá é a de que o depútado acredita em suas bravatas e tem certeza de que, com elas, saberá resolver o Brasil, bastando que chegue ao poder. Ali, resistirá às tentações que capturaram gente do mal como FHC ou do bem, mas pouco preparada, como Lula.

Ciro parece ser vítima de uma espécie de megalomania, tão comum em lideranças personalistas, envernizada com uma vivência política mais moderna. Tem chance de realizar seu projeto de poder, sobretudo se tiver o apoio de Lula. Resta saber se, chegando lá, a verborragia dará lugar a realizações e mudanças, aparentemente tão próximas, apenas dependentes dos desígnios de um líder generoso, forte e bem-intencionado. Como só ele, Ciro, será capaz de ser.

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15.2.08

After hours


Terra, Jean-Michel Basquiat


-- Creio que o passar do tempo facilita o misticismo.

-- Por que?

-- É uma combinação: vai sobrando menos tempo, então a gente fica com urgência de entender o que será depois que o tempo acaba. Ao mesmo tempo, a memória se esmaece pelo excesso de carga e pela rarefação do recurso, então tudo vai ficando estilizado e com menos detalhes, o que faz a gente alargar a peneira da lógica. Isso, somado com boa vontade, faz acreditar.

-- Mas se fosse assim não teria tanto garoto religioso.

-- É diferente, aí. O fanatismo é uma das formas de saciar os arroubos do mais jovem. O menino gosta da igreja ou da Glorinha, da capoeira ou da maconha, da anarquia ou do sacrifício. Tudo sempre cem por cento e com um inimigo a ser batido. E vai desembestado até frear aos poucos no areião da idade. Uns nem chegam. Os que passam e sossegam só vão olhar para o céu de novo quando o tempo começar a correr demais.

-- No que você acredita?

-- Acredito em tudo o que não tem exceção. Ademais, acredito também que o homem não se deixa enganar. Também creio que ele procura sempre o que é mais fácil. Daí em diante, eu só tenho dúvida.

-- Sobre o outro lado?

-- Se o outro lado.

-- Como?

-- Só o que não tem excessão é a fatalidade, a morte, o fim, a virada naquela esquina escura. Se o homem -- não eu, não você: a espécie --, se o homem não se deixa enganar e se ele procura sempre o que é mais fácil, me parece que ele sabe que tem alguma coisa a valer a pena nesse trem expresso carregado de tanta coisa difícil. Por isso o esforço, por isso a evolução. Ele busca o prêmio do mais fácil que deve vir a seguir.

-- Você acha? E se fosse o contrário, e se ele soubesse -- ele, a espécie, como você diz -- que é justamente o contrário, que não faz o menor sentido, que é um tremendo acidente químico, uma hecatombe de carbonos que deu nisso tudo e que do jeito que veio vai?

-- Ora, ele trataria de buscar o mais fácil. Uma vida sem depois é difícil demais para um ser que procura o mais fácil. Se ele soubesse que tudo não passa do que a gente já vê agora, ia cuidar de acabar com essa história toda. Ia se auto-destruir. Ia inventar maneiras de ir para a breca.

-- Como o que?

-- O que você imagina?

-- Ora, não sei, como...

-- Como criar explosivos poderosos?

-- Talvez...

-- Venenos mais rápidos e mais letais?

-- Pode ser, mas...

-- Ou como destruir o que o preserva e mantém vivo? Água? Ar?

-- Você quer dizer que...

-- É. Você não acha que ele descobriu?

-- Quem?

-- O homem, não eu ou você mas a espécie. Você não acha?

-- Então...

-- É, ele descobriu tudo.

-- Então...

-- Isso: ele decidiu que não vale a pena. Você não diz que ele procura sempre o mais fácil?

-- Mas então...

-- Então é melhor ficar místico logo de uma vez. Vai ficar mais fácil quando tudo acabar.

-- ...

-- A saideira?

-- Não, acho que já vou indo.

-- Até amanhã, então.

-- Até. É...

-- ?

-- Se Deus quiser?

-- É, parece.

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13.2.08

Dando uma volta por aí

Para ler: Marcelo Coelho (para ter algum conforto, selecione tudo, copie e cole num arquivo de word).

***

Para ouvir: Jamie.

***

Para ver: Joan.

***

Para respirar: ela

***

Para ter em mente: dois

***

Para esquecer: lixo

***

Para lembrar: jóia

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11.2.08

Voltando a um assunto que parece, enfim, evoluir



A historieta das despesas dos cartões corporativos do governo parece evoluir para uma discussão um pouco menos primária, embora saibamos que haverá CPIs de todos os lados, acusações ricas em oratória e paupérrimas em lógica, política ou mesmo em aritmética. Um dos bons comentaristas da Folha de S.Paulo, Fernando de Barros e Silva, coloca com muita clareza e crueza o que anda se passando no que chama de "Fla-Flu imaginário" entre PT e PSDB. Se você é assinante da Folha ou do UOL, clique aqui para ler.

O fato é que os dois partidos que hoje são, no dizer do ex-presidente FHC, as locomotivas das forças do atraso no Brasil, brigam como se fossem ideologicamente opostos, quando o que se vê é uma oposição meramente pragmática e circunstancial. É hilariante ver os argumentos -- tanto contra como a favor -- que circundam a possível coligação PT-PSDB em Belo Horizonte. Qualquer um que acompanhe política com alguma atenção verá que a coligação consolida um entendimento que já vem de muito tempo. Qualquer um que se sente com um petista mais lúcido ou mais coerente com suas próprias idéias obterá, em alguns minutos de conversa, a admissão de que as semelhanças são muito mais significativas do que as diferenças, estas parecendo ser criadas em laboratório.

O que se viu, no episódio dos cartões, é que o PT foi incapaz de defender o que é perfeitamente defensável -- o mecanismo dos cartões corporativos -- e passou a atacar o cartão do adversário mais próximo, o do governo de São Paulo. Como se viu aqui, a média de despesas mensais por cartão, em São Paulo, é de menos de R$ 250,00, o que dá mais ou menos um tanque de gasolina a cada dez dias. O jornais não nos supriram de números suficientes para fazer essa conta no âmbito federal, mas não deve ser nada muito diferente. Não dá para dizer que uma conta de churrascaria é devida ou indevida sem saber por que ela foi realizada. Se foi uma atividade de representação, ela é perfeitamente justificável.

O que se tem visto aqui é uma briga de torcidas onde o que menos importa é o Brasil. Já passou tempo suficiente para que os dois lados se esqueçam de quem eventualmente começou essa briga. O Brasil precisa de que suas melhores idéias caminhem juntas. Hoje, elas continuam no PT e no PSDB. O problema é o quanto ambos os lados insistem em queimar navios, escaleres, salva-vidas de isopor e qualquer outra possibilidade de retomada de um projeto comum (que, não nos esqueçamos, já existiu).

Não há razão para manter por mais tempo essa diáspora ridícula, herança dos tempos do pragmatismo dirceuzista, do projeto de chegar ao poder a qualquer custo. PSDB e PT já chegaram ao poder e nele continuarão, salvo surpresas no estilo Collor, cada vez menos prováveis. Será que não conseguirão se juntar a favor do Brasil e contra o lixo partidário que hoje ajudam a sustentar? Até quando deveremos arrastar, envergonhadamente, o pefelê de um lado e a Arena de outro? Chega, não é?

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8.2.08

Mini 92

Parou à frente do espelho. Palpou o peito por cima do tecido fino. Assestou as armas. Na porta, ainda se lembrou do baton. Evasée, agora à brisa ligeira. À frente do portão, o carro. Nele, o bofe a esperava. Face no beijo, bem evidente, perfil de egípcia, boca longe, só um estalido no ar. Dali ao baile, duas palavras inúteis. Braços dados na entrada, mais duas palavras, ainda menos úteis. A noite estava apenas começando. Ainda conseguiu palpar mais uma vez o peito, aproveitando o sombreado junto à chapelaria. Estava pronta. A orquestra atacou um bolero conveniente. Agora, era procurar. Encontrou um aurélio de palavras inúteis antes de ser capturada pela presa eleita. O primeiro samba-canção sucedeu o primeiro beijo. O primeiro peito. Celebrou o cerco com um olhar de prisioneira. Levar a caça dali seria tarefa fácil. Sabia esperar pelo efeito do veneno. Ainda teve tempo de dizer ao primeiro bofe o quanto ele era charmoso. Então, sumiu, arrastando a presa, que sorria como captor, paralisado como um rato que se imaginasse um gnu.

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7.2.08

Não saia de casa com eles



Deu na Folha: Governo retira cartões de ministros. É uma pena. Cartões corporativos são um instrumento importante para conferir transparência aos gastos de altos funcionários com viagens e representação. Dá agilidade ao funcionário e clareza à instituição e, por extensão, no caso em pauta, ao contribuinte.

O que vem ocorrendo com relação a mais esse escandalozinho parece ser uma combinação lamentável de despreparo dos envolvidos com uma amplificação um tanto descuidada, por parte da imprensa, dos ainda indícios que os números oficiais trazem.

Um executivo de uma grande empresa, com cargo que implique viajar a negócios, pode perfeitamente apresentar despesas de 100 mil reais em um ano. O que importa é saber: 1. Se os gastos são compatíveis com sua alçada. 2. Se as despesas são devidamente comprovadas (inclusive aquelas que impliquem uso de dinheiro vivo, como táxis ou gorjetas, com alguma margem pré-determinada de tolerância, prevendo-se que há pequenos gastos que não poderão ter comprovação documental).

A reação do governo, embora previsível, talvez tenha sido um desastre prático. Voltamos aos antigos, lentos e misteriosos procedimentos que, na realidade, dão muito mais margem a fraude do que o cartão corporativo. O escândalo, aliás, deveria reforçar a necessidade de usar o cartão. Não fosse pela transparência que ele implicou, não haveria escândalo, simplesmente porque ninguém teria notícia dos eventuais abusos. O dinheiro público seria gasto nos mesmos lugares duvidosos e ninguém jamais saberia.

É preciso, de alguma forma, subir um degrau na disputa política brasileira e chegar a um patamar em que o que for patentemente civilizador seja natural e consensualmente aceito. Isso vale tanto para a Lei de Responsabilidade Fiscal, que deveria ter sido aceita com aplausos pelos arautos petistas do bom uso do dinheiro público (não foi, infelizmente), como neste atual caso do cartão corporativo (idem, como se vê, por parte de tucanos e "demos").

O resultado da grita é um retrocesso e a reafirmação de um jeito primitivo e deseducador de se fazer política: mais uma vez, o marido traído prefere tocar fogo no sofá a se separar da mulher ou discutir a relação. Quem perde é o Brasil, não apenas em evolução da eficiência da máquina do Estado, mas, o que é pior, em auto-estima. A mensagem, para o cidadão e para a posteridade, é que os principais executivos do setor público brasileiro não são capazes de usar um instrumento financeiro corriqueiro em qualquer lugar do mundo (recentemente houve uma concorrência comentadíssima para se escolher qual seria o cartão corporativo do governo americano, em que, se bem me lembro, o Visa derrotou o tradicionalíssimo American Express Corporate Card).

Ao que parece, o instinto demagógico do administrador brasileiro volta a destruir algo que é claramente um progresso, por causa de seu mau uso. Mal comparando, é como a decisão do governador da Bahia (mera coincidência o fato de ser do mesmo partido do presidente da República) de dinamitar o estádio da Fonte Nova pelo fato de ele ter sido negligenciado pela administração pública.

Que fique claro. Este não é um problema específico do PT, é da cultura administrativa nacional. O governo do PT apenas perdeu mais uma boa chance de colocar a racionalidade no lugar da demagogia e, assim, melhorar o Brasil. De novo, uma pena.

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1.2.08

Um homem cuidadoso
(parte 3 de 3)



Pareceu um milagre que, em segundos, uma gritaria chegou a seus ouvidos e, pouco depois, uma corda lhe foi jogada. Alguém na beira do rio o havia visto cair e tinha resolvido lhe dar mais um tempo de vida. Quando chegou à margem, encolhido e agarrado à corda, ninguém queria tocá-lo, mas uma pequena multidão se formou a seu redor. Não demorou até que uma perua vermelha e barulhenta do resgate se aproximasse e um dos corajosos homens do fogo se dispusesse a colocá-lo em uma maca, e o recolhesse dali.

Estava aterrorizado. Não conseguia fechar nem mover os olhos, que permaneciam fixos no teto do carro. O motorista puxou assunto com o paramédico. “Tá em estado de choque?” “É.” “Esse nasceu de novo, hem?” “É. Mas nasceu em forma de merda, puta cheiro horrível.” “Será que ele tentou se matar?” “É. Parece. Parece também ser um homem de bem. Você vê? Enquanto um homem de bem como esse tenta se matar, um filho da puta mata uma moça como aquela do Jardim Europa e foge. Deve estar caçando outra gatinha nesse momento. Puta mundo injusto.” “Você acha que foi crime passional?” “É, é o que diz o delegado, mas ele é um cabacinho babaca que nunca viu crime de verdade. Aquilo é coisa de tarado, de psicopata.” “Sério?” “É.”

Chegaram ao hospital, sirene berrando, o médico de plantão perguntou o básico ao paramédico, se era mais um dos muitos casos de tentativa de suicídio no rio Tietê — puta mau gosto —, com o que o homem do fogo concordou, tanto na motivação quanto na avaliação do gosto, e recomendou ao plantonista: “É, eu se fosse o doutor mandava amarrar o cara na cama.” “Não sei não, cara que cai no Tietê chega aqui tão fodido que ou morre de septicemia ou pira. Esse aí é candidato aos dois”. “É.”

***

Uma semana depois, deitado na cama do hospital público, com duas cortininhas finas separando-o de mais sete pacientes em mau estado, resolveu demonstrar reação. Pediu um copo d’água. Os piedosos enfermeiros pareciam associar sua tentativa de suicídio a sua declaração de não ter família. Sabia que ia ter de ficar ali por mais algum tempo. Além dos riscos de infecção, ele agora era um suicida em potencial, era possível até que resolvessem colocá-lo em um hospital psiquiátrico depois do longo processo de limpeza de toda a merda que parecia ainda existir em seu corpo. Tentaria evitar isso com doses cavalares de arrependimento aparente. Esperava que sua suposta tentativa de suicídio evitasse que os policiais revistassem seu carro. Não queria que encontrassem os tranqüilizantes e os saquinhos de luvas cirúrgicas, teria de inventar uma desculpa esfarrapada, o que sempre deixa rastros. Aquela temporada no hospital havia sido a sorte grande e, ao mesmo tempo uma lição, uma segunda chance. Precisava planejar melhor a desova de possíveis provas. Porque o resto, afinal, andava muito bem, da sedução ao arremate.

Estava ansioso pela próxima. Queria alguém do Morumbi ou do Alto de Pinheiros. Tinha gostado da moça chique do Jardim Europa, e só não repetia o bairro porque definitivamente era um homem cuidadoso.

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