dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
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30.1.08
Um homem cuidadoso (parte 2 de 3)
Foi uma eternidade o tempo que gastou dando voltas, primeiro de carro, depois a pé, depois de carro de novo, depois outra vez a pé, e novamente de carro, e a pé. Não queria levantar suspeitas. Mais de doze horas depois de ter começado, resolveu terminar o passeio no alto da ponte do Piqueri. Antes, parou na Marginal, na beira do rio, perto das obras, e, com facilidade, coletou pedras suficientes para fazer chegar até o fundo da água suja as duas luvas delicadas. Arrancou, logo buscando a pista interna para poder tomar a alça de acesso à ponte. Estava tudo vazio, duas da manhã, e ele, mesmo assim, tomou todos os cuidados. Parou pouco antes de chegar ao meio da ponte e não ligou o pisca-alerta, apesar da tremenda aflição que lhe dava não cumprir uma regra como essa. Olhou para todos os lados enquanto abria a porta e descia do carro em câmera lenta, uma luva em cada mão, ambas agora deformadas pelas pedras. Chegou junto à grade e olhou o rio lá embaixo. Era perto o suficiente para perceber-lhe o cheiro e enxergar coisas que, de dentro do carro, não se viam. O movimento lento mas contínuo da água, a cor entre barro e excremento, objetos variados boiando: pensando bem, não haveria lugar melhor para jogar as luvas. Jogou a primeira e esperou até ouvir o tchibum abafado lá embaixo. Jogou a segunda. Silêncio. Não quis acreditar. Seria por causa da altura? Não, não teria ouvido a primeira cair, se fosse pela altura. A segunda luva não tinha caído. Mas como era possível? Chegou próximo à grade, debruçou-se, tomado de aflição pela altura e pelo cheiro, mais forte que o do lixão, embora menos adocicado. Curvou-se um pouco e viu o que já imaginava: a luva balançava, dependurada em uma saliência de metal que parecia ser uma barra exposta da estrutura de concreto mal-conservada. O peso das pedras havia feito a fina borracha esticar, aumentando a deformidade daquele penduricalho esquisito, com cinco dedinhos salientes. Ficou desesperado, aquilo poderia ser a prova cabal contra ele, a pista que levaria fatalmente a seu nome e seus atos das últimas vinte e quatro horas. Por um segundo teve a sensação de que o motorista do caminhão que passava naquele instante pela Marginal havia visto o pêndulo e estranhado. Cortou a paranóia no momento em que ela já o fazia imaginar o caminhoneiro de celular na mão, ligando 190 e contando tudo, quem sabe até ligando-o às recentes notícias policiais da madrugada no rádio, que, a essa altura, já devia falar do corpo que se havia encontrado no Jardim Europa, a pobre jovem seminua seviciada. Tinha de resolver aquilo rapidamente, e o único jeito era passar para o outro lado da grade, desenganchar a luva do lugar onde ela estava presa e jogá-la de vez no esgoto a céu aberto. Tinha muito medo de altura, mas o pavor de ser descoberto e preso era maior, e o enchia de uma coragem anestésica. Não havia ninguém por perto. A grade era bem mais alta do que parecia ser, vista do carro, e ele teve de se esforçar para passar primeiro uma perna, depois a outra e se segurar do outro lado, com aquele lamaçal fétido a correr embaixo, separado dele apenas por alguns metros de ar mal-cheiroso. Podia enxergar o vergalhão enferrujado meio metro abaixo de seu pé e, nele, dependurado, aquele estranho objeto a balançar. Segurou firme a grade com a mão esquerda e, se acocorando com os pés entre as barras de ferro, esticou o quanto pôde o braço direito. Inútil. Faltava pouco menos de um palmo. Esticou-se mais. Estava quase alcançando. Mais um pouquinho e conseguiu agarrar a luva, bem junto ao ponto onde estava presa, com a ponta dos dedos. O alívio durou só o tempo do vacilo da mão esquerda, que se soltou e, no instante seguinte, o fez ver-se atravessando o ar fedorento em câmera lenta, desespero crescente, o saco de pedras cheio de dedos em uma mão, a outra crispada de horror até o encontro inexorável com a merda. Veio à tona depois de uma eternidade imerso naquela coisa turva e densa. Não sentia mais cheiro algum, nenhum frio, apenas olhava a ponte lá no alto. 29.1.08
Um homem cuidadoso (parte 1 de 3)
Sol ardente diretamente sobre o crânio. Ele caminhava sobre os detritos, flutuava sobre o mau cheiro, buscava o melhor lugar para atirar as luvas de modo a que sumissem para sempre. Para ele, não bastava jogá-las em uma boca-de-lobo, era preciso mesmo dar um sumiço definitivo, mesmo que parecesse exagerado ou até dramático. Jogou-as, mas com alguma suavidade, quase como se estivesse pousando, sobre um dos montes de lixo, como se quisesse a memória de um troféu pessoal, ao se livrar de uma das possíveis provas contra si. Mirou-as por uns vinte segundos, o suficiente para que, depois de dar meia volta para ir embora, já não precisasse mais olhar para trás. Foi descendo pelo mesmo caminho por que chegara, para baixo todo santo ajuda, até o mau cheiro parecer menos intenso. Parou junto à cerca ao escutar a vozinha. “Moço!” Olhou para trás. Um garotinho magro, de camiseta e calção rotos, que um dia foram respectivamente branco e preto, e agora eram quase cinza., olhava para ele, com as mãos estendidas. Cada uma segurava uma das luvas. “Posso ficar com elas?” “Pra que, menino?” “Pra brincar.” “Mas não se brinca com isso.” “Deixa, vai, o senhor ia jogar fora.” “Venha cá.” O garoto se aproximou. “Me dê essas luvas que eu te dou um par de outras novinhas para você brincar.” Tirou um saco plástico fechado do bolso e estendeu para o garoto ver. Ele se aproximou com os olhos brilhando, mas parou a dois passos do homem. “Venha, não tenha medo.” “Por que o senhor está me dando as novas em troca dessas que ia jogar no lixo?” “É pra você não correr o risco de se infectar.” “Com a luva?”, perguntou o menino, genuinamente surpreso. “É, você sabe o que é septicemia?” “Não sei não, mas não é mais perigoso que rato grande. Ói!” E apontou para um lugar onde uma enorme ratazana apareceu, mostrou a cara e, de poucos amigos, partiu. O garoto topou a troca. Ele, então, pulou a cerca de arame farpado, que já ia sendo soterrada pelos transbordamentos do lixão, e foi voltando para o carro, com aquele mico devolvido às suas mãos. Pensou em ir mais longe, jogar as luvas em alguma curva distante do rio Tietê, já fora do perímetro urbano de São Paulo. Mas isso era muito longe, qualquer que fosse o lado escolhido para sair. E não era seguro. Rio só esconde o que afunda. Decidiu colocar umas pedras nas luvas e jogá-las do alto de uma das pontes do Tietê, mas dentro da cidade, mesmo, na parte mais feia. Mas as pontes eram cheias de carros durante o dia. (Continua) 26.1.08
Longe Longe é o lugar em que as quimeras nascem, crescem e copulam a fantasia. Como evitar que as más idéias grassem se, longe, amadurecem dia a dia? Lá longe, em se plantando, tudo dá: dragões, quiabo, papagaios, vagem, pragas, ervilha, saúvas, jabá, a tiririca a matar a coragem. A quem está longe, o monstro cochicha, pouco elucida, mas fala de perto: sabe (é esperto) dos medos que espicha. De longe, o vulgar parece tão certo que o certo, com o vulgar, se enrabicha. De longe, o mundo é um deserto. 22.1.08
O bom menino e o pipi na calça
Vem aí a eleição para a prefeitura de São Paulo, com pelo menos um candidato natural: o atual prefeito da cidade Gilberto Kassab. O que o credencia não é só o cargo. Kassab é parte da coligação PSDB-PFL, que ganhou a prefeitura de São Paulo. A aliança, agora, quer disputar a reeleição. Até aí, nada mais natural. No entanto, no meio do caminho, aparece uma pedra, com ares de pepita: o ex-governador Geraldo Alckmin, invenção do saudoso Mário Covas, chega e diz que quer ser o candidato a prefeito, independente de qualquer acordo firmado anteriormente. Alega estar na defesa do PSDB. Alckmin vem embalado pelas pesquisas, que até um mês e meio atrás lhe davam a liderança, e pela suposição de que ganhar a prefeitura de São Paulo lhe reaviva a projeção que a eleição presidencial trouxe, e o tempo insiste em apagar. E a Marta com isso? Marta Suplicy, diferentemente de Alckmin, é candidata natural. Embora tenha perdido a reeleição, tem bases eleitorais e políticas sólidas na Capital, suficientes para colocá-la na disputa -- e largando na frente. Para ela, tanto faz quem será o candidato do outro lado. O melhor é que sejam os dois, Alckmin e Kassab, dividindo o eleitorado contrário à ex-prefeita. Como se vê, Alckmin está, mais do que nunca, Geraldinho. Força o rompimento de uma coalizão, em nome de si mesmo. Compromete, com isso, o futuro próximo do PSDB e põe o seu próprio em risco. Afinal, se as previsões mais óbvias se confirmarem e Serra sair candidato a presidente em 2010, o ex-governador seria o nome natural dos tucanos para o governo do Estado -- com o apoio do DEM. Efetivado o racha que Alckmin insufla, a coalizão vira pó e, dentro do PSDB, sua candidatura deixa de ser consenso, tornando-se inexoravelmente objeto de disputa. Quão renhida, só o tempo dirá. Mas o saldo final desse entusiasmo alckminiano, se bem-sucedido, será um PSDB isolado e uma candidatura a governador seriamente comprometida em 2010, inclusive com respingos na eleição presidencial. Geraldinho está rasgando o balão. Não é preciso ser mestre em política para ver que o risco de queimar a mão ou fazer pipi na calça é enorme. Ministra Marta, penhorada, agradece. 21.1.08
Falastranhos Nesta terra em que quem possui trepa e aquele que trepa consuma o ato, buscar a palavra de boa cepa nem sempre é pra gente de fino trato. Quem chama boceta de perseguida e seu perseguidor de membro ereto, quem diz que beijo é o motor de partida e apelida seu pau de predileto é um tipo especial de trovador: meio poeta, meio canastrão, sempre uma analogia a seu dispor, inventa o cunidioma, a linguação, e, achando que é, do ato, professor, só goza quando deita a falação. 17.1.08
Fragmento de "O Preço do Peixe", #31
Aquilo não só era, como parecia mesmo ser o outro lado do mundo. Para ela, dançar era a vocação, desde menina, desde sempre, e a tinha levado a muitos palcos, dos palcos pretensos da escola aos de verdade, de linóleo, de xises de marcação, de diretor, iluminador e platéias. De muitos em muitos, foi atravessando fronteiras, primeiro as suas, do corpo, dos movimentos obrigatórios e os limites do bem-feito, depois os movimentos criados e os limites a recriar. Havia construído um espaço próprio e reconhecido. E ali, o Japão. Algo lhe tirava a calma, e não era o muito diferente, era a pouca verba. Seu grupo havia saído do Brasil com o dobro de participantes e nenhum acréscimo ao já modesto provisionamento financeiro. E eram duas as cidades a visitar. Num lugar em que nem mesmo o trem era barato, o cenário era de provação. Mas como tudo depende de postura, ela foi resolvendo. Desceu do trem na nova cidade como se a privação de uma refeição diária fosse conceito: cabeça erguida, foco no esterno e mãos ao céu. Uma pessoa os recebeu na estação – quase uma surpresa, naquele lugar de não contato – e os conduziu a uma grande van, que acomodava os bailarinos todos e ainda o guia e o motorista. Sentiu pela primeira vez, naquele país, algum tratamento de artista. Pouco menos de meia hora depois, o grupo já entrava no grande salão em que seria visto o mestre. Outros grupos foram chegando e se postando de modo a que, sem que ninguém precisasse sinalizar, se formasse uma grande roda. Em seguida, um homem de roupas comuns caminhou até o centro dela e quebrou o silêncio, anunciando a chegada daquele que todos esperavam. Foi então que se viu entrar por um dos lados do grande salão, rompendo a roda, um grupo de quatro homens segurando uma espécie de liteira, na qual se via sentado o mestre. Ele já passava dos 90 anos, mas o fato de não entrar andando no salão causou um desconforto na bailarina que atravessara o mundo com outra expectativa. Em seguida, seus temores se confirmaram: ele teve de ser amparado para dar os dois passos que separaram a liteira de uma cadeira de espaldar alto colocada bem no centro do recinto. Acomodado ali, perpassou o olhar pelos que estavam ao alcance de sua vista. O rosto era bem sulcado pela história e, de fato, não mostrava a serenidade dos velhinhos quites, mas um perguntar de quem quer mais, uma prospecção de minerador jovem. Buscava outro brilho. Outro brilho, ela recuou quase meio metro, embora mantivesse os pés colados ao chão. Foi em seus olhos que a procura do velho bailarino pousou. Chamou-a com um gesto rebuscado da mão direita. Ela nada decidiu, apenas obedeceu e se aproximou. Postou-se a um passo da cadeira. Ele a mediu com olhar severo e, então, fez um gesto que era mais que uma ordem, era uma condução. Ela girou suavemente em torno de si mesma e fez o olhar voltar a ele. Um novo gesto a fez mover o braço direito para o alto, o que recebeu dele um olhar de clara reprovação. Sem abrir a boca, com um gesto vigoroso, ele a fez refazer o movimento. Ela refez. Ele queria mais. Um novo gesto, um novo olhar, e ela fez um movimento novo, diferente do que sempre havia aprendido, desarticulado mesmo. Ele assentiu, com expressão de até-que-enfim. Ela ensaiou um novo gesto, ele a olhou e parou. Fez um meneio de cabeça e ela recomeçou. Com as mãos ao ar, ele conduziu um duplo giro e a trouxe de volta. Tocaram-se, dedos. Mais um giro e ela se sentiu conduzida à queda segura, como num átimo de tango. Viu-se, então, recostada no colo do velho, os braços dele segurando sua cabeça, os olhos, fundos nos seus. Depois de uma pausa longa, ele aproximou seus lábios dos dela e deu-lhe um longo beijo. Ato contínuo, ela estava em pé. Ainda mereceu uns segundos do olhar severo, que logo escolheu outro discípulo. Levou algum tempo tentando lembrar onde havia se livrado de sua vontade. 15.1.08
Soneto temporal Lá vem de novo o tempo pregar peça: um sábado que dura duas semanas, um mês que corre muito mais depressa, na marca de um relógio doidivanas. No ritmo eufórico de um filme mudo, passa o tempo em que você está comigo. Mas a câmera lenta invade tudo, se você não está. E assim, eu sigo: tudo vai devagar enquanto espero e acelera bem na hora em que alcanço. Tão rápido passa aquilo que quero que até parece que já não avanço. O ponteiro da vida está no zero, voa lá para trás tudo o que lanço. 11.1.08
Fragmento de "O Preço do Peixe", #30
Quando o carteiro chegou, não gritou nome nenhum. Não seria prudente, ante a severidade do destinatário, e, de qualquer modo, não saberia pronunciar o que estava sobrescrito no envelope. Apenas entrou na casa, um híbrido tão comum de armazém de secos e molhados e botequim, e foi até o homem no balcão. Ao cumprimentá-lo, chamou-o pelo nome corrente, nada a ver com a confusão de letras escrita acima do endereço. -- Bom dia, seu Sabino. Tem carta pro senhor. E vem de longe. O homem agradeceu com um aceno de cabeça e apanhou o envelope. Logo viu: carta internacional. Devia receber uma a cada três ou quatro meses, mais ou menos, de uma das irmãs que haviam ficado no Líbano. Na verdade, da irmã, tinha uma lembrança muito vaga, tanto da fisionomia quanto da voz, que, ao passar das décadas de separação, tinha se tornado apenas uma caligrafia carinhosa. Sabino havia chegado ao Brasil ainda jovem, vinte e poucos anos, pelo porto de Santos. Sem parentes e sem capital, teve de exercer seu talento comercial de forma diferente da lendária figura do mascate que termina capitão de empresa. Por ser um homem forte e disposto, conseguiu uma oportunidade na estiva, outra como faz-tudo, mais uma em um barco e, com o pouco dinheirinho economizado, foi tentar o comércio em uma cidadezinha menor, também à beira do mar. Ali, de uma banquinha de badulaques e da disposição para serviços gerais, foi se estabelecendo até conseguir montar seu armazém e, depois, comprar a casa onde se instalara. Estava bom para ele. A cidadezinha era calma, de ruas de terra, e recebia os visitantes habituais, tanto no verão como nas férias de julho, quando ele conseguia engordar sua receita. No resto do ano, ia levando, atendendo a parte não flutuante da população, mais pobre mas mais fiel. O armazém era sua realização, de resto um bom resultado para quem havia começado do zero. Havia também construído uma família. Já trintão, conhecera uma caiçara bonita, que lhe dera quatro filhos. No entanto, uma doença dessas de mulher, avassaladora, a tinha levado antes da hora. Mas os rapazes superaram a perda da mãe e cresceram bem, três deles constituindo família e seguindo a trilha da bela mestiçagem sírio-cafusa. O caçula seguira solteirão. Todos tinham o pai e seu armazém como norte. Aquela carta estava diferente das outras. A irmã, embora azul e bem-traçada, estava menor, um pouco mais inclinada e visivelmente mais tensa -- um ou outro pequeno borrão e um certo desalinho indicavam isso. Sabino foi lendo linha a linha e entendeu a irmã: era caso de morte. Um tio deles havia falecido semanas antes da carta e, em seguida, abriram seu testamento. Para surpresa geral, um quinhão generoso estava lá legado ao sobrinho distante. Ao ler isso, Sabino decidiu convocar a família: a fração do patrimônio do tio resolveria a vida de todos eles por umas três gerações. Com a vida pacata e barata da vila praiana, talvez umas cinco. No fim da tarde do dia seguinte, fechou mais cedo o armazém, sem dar muita satisfação aos bebedores de sempre. Juntou duas mesas e oito cadeiras e esperou a chegada dos filhos e noras. Os netos não viriam. Aos poucos, foram aparecendo, todos de banho tomado e roupa de missa, como se houvesse ali uma solenidade -- na verdade, havia. Sentaram-se à mesa assim que o oitavo ocupante, o irmão mais novo sempre atrasado, chegou ao salão. Em um português ainda tosco -- Sabino não tinha perdido o forte sotaque nem ganho muito vocabulário neste lado do mundo, mas insistia em falar aos filhos na língua da terra --, explicou o que havia: o tio-avô deles havia morrido e deixara uma pequena fortuna em dinheiro ao ramo sul-americano da família, nada mais que ele mesmo e os filhos. Queria, então, escolher um deles, que tomaria o navio até o Líbano para acertar a papelada e trazer o dinheiro. O velho tinha umas economias suficientes para bancar a viagem e a estadia em Beirute de uma só pessoa. Como ele já não tinha idade nem disposição para tal jornada, achava que cabia a um dos filhos levá-la a cabo. Nem terminou de expor o caso, o caçula se adiantou: -- Pai, eu vou. Não tenho família, ninguém para sentir falta de mim, deixe comigo. Ao que o segundo filho, o único formado, farmacêutico, logo rebateu: -- De forma alguma. É uma viagem internacional, o único aqui que tem formação para essa jornada sou eu. As mulheres permaneciam mudas, o terceiro filho também. Logo o mais velho tomou a palavra: -- Eu nem discuto. Sou o mais velho, quem vai sou eu. -- Porra nenhuma! -- o terceiro rompeu o mutismo, tomou coragem e ainda botou banca -- O único que fala um pouco de árabe aqui sou eu. Diga a verdade, baba (era assim que chamava o velho pai), eu é que devo ir e falar com os parentes, sempre me interessei pela família, o único aliás. -- Puxa-saco, isso sim! -- subiu o tom o caçula, ao que o mais velho não deixou barato: -- Respeito, moleque! -- Quem é moleque, ora essa? -- colocou o segundo -- Você só fez cagada na vida, agora o mano é que é moleque? -- E você, com esse negócio de roupinha branca, nunca me enganou -- emendou o terceiro. O caçula já ia falar, quando se ouviu um estrondo. O velho Sabino havia dado um tapa na mesa, com sua mão de quase um metro quadrado, que calou a todos. O velho levantou, olhou fundo nos olhos de cada um dos quatro filhos e sentenciou: -- Butaquebariu herança! Os filhos se entreolharam, as mulheres permaneciam congeladas. O pai, então, fez um aceno de cabeça, deu um boa-noite coletivo e curto, e foi dormir. Em silêncio, os filhos foram se levantando e, dois minutos depois, a casa estava vazia. O sol nasceu quando o velho Sabino abria a primeira das duas portas do armazém-botequim. Pediu desculpas ao primeiro freguês por ter fechado mais cedo na véspera e tocou a vida. Nunca se soube o que foi feito da pequena fortuna deixada no Líbano. Ninguém jamais perguntou. 9.1.08
A cidade um pouco mais limpa
Há um ano, São Paulo está sob a vigência da Lei Cidade Limpa. Muita gente já se acostumou, é humano esquecer mazelas do passado e se acostumar com qualquer melhoria, adotando-a como padrão. Eu me lembro, por exemplo, que, por força de um acidente, fiquei um ano e meio sem enxergar com o olho esquerdo. No dia em que pude ver de novo, a sensação foi espetacular. Hoje, é novamente o padrão. É por isso que é importante lembrar o quanto essa iniciativa tem sido valiosa para amenizar a paisagem tão surrada de São Paulo. É possível ver, nos pontos que eram mais críticos (alguns trechos da 23 de Maio e a avenida Juscelino Kubitschek, por exemplo), o quanto a cidade ficou melhor. Ainda há carradas de problemas, caçambas, barulho, buracos. Mas é começando que se tem uma chance de terminar. Agora, é esperar que São Paulo um dia tenha recursos para aterrar a fiação, demolir o Minhocão e, quem sabe, um dia milionária, a cidade esbanje uma grana desapropriando e implodindo três ou quatro neoclássicos horrorosos. Só para marcar posição. Bom, sonhar não paga imposto, não é? 7.1.08
De volta Para começar o ano, primeiro um soneto, depois um comentário. Dose dupla para compensar a ausência prolongada. Soneto sentado Não sei se a mim foi dado querer musas ou ser querido por alguma delas -- Não sou clássico assim. Mesmo as cafusas, mais a meu jeito, passavam, tão belas, e, ainda que me olhando, não me viam. É o tempo, que me deixa transparente. A côr, enquanto as cores existiam, era a de uma memória renitente. Ao longo de três vezes sete anos, servi a um anônimo Labão -- que, para mim, não teve lá maus planos: não tinha, de fato, ovelhas ou chão; prendia-me sem perdas e sem danos; no lugar de Raquel, uma razão. Da Bahia
Um contraponto: no mesmo 3 de janeiro em que o ministro Mantega metia os pés pela boca ao justificar seu mais-do-mesmo tributário, o ministro Gilberto Gil assinava convênio com o governo do Estado da Bahia para a concessão de verbas para diversos projetos, entre eles a ampliação do número de Pontos de Cultura no Estado e a revitalização da Feira de São Joaquim. É mais uma boa mostra de que o governo Lula é mesmo algo a ser entendido ou decifrado mais adiante pela história -- a visão presente não é suficiente para dar conta do que se passa, tão contraditório é o que se vê. Gil é um político de primeira grandeza. O que anuncia para a Bahia é algo fundamentado em uma política cultural pensada e clara, que visa a democratização do acesso à produção cultural e, na volta, o incentivo às manifestações locais, até hoje sobrevivendo por puro heroísmo. A revitalização da Feira de São Joaquim é um exemplo a examinar. A feira é uma espécie de CEASA portuário e popular. Ali se vendem desde produtos agrícolas variados em atacado até os "insumos" para os ritos afro-brasileiros, passando por pescados e manufaturados tradicionais. Há uns 50 anos a feira está no mesmo lugar, na Cidade Baixa, junto à enseada de São Joaquim. Sucedeu à feira de Água de Meninos, incendiada em 1964, e que, por sua vez, era a consolidação de uma feira móvel, de origem bem mais antiga. O projeto do MinC visa não apenas a requalificação da Feira, a cargo do escritório de arquitetura de Naia Alban, como sua preservação como patrimônio cultural imaterial, em processo junto ao IPHAN. O projeto em andamento busca trazer condições ideais para seu funcionamento e atendimento ao público.
Um canto da Feira de São Joaquim O ministro Gil é um das boas descobertas da política brasileira recente, e um exemplo para quem acha que não se pode ou não se deve "sujar as mãos" no lodaçal da nossa realpolitik. Tem uma postura civilizadíssima, por exemplo quando reconhece o papel de seus colaboradores técnicos e os realça, como faz no caso de seu secretário-executivo Juca Ferreira, o homem que opera as políticas da pasta (o que faz lembrar Salvador Allende, que não apenas admitia abertamente que seus discursos eram escritos por ghost-writers, como até citava-lhes os nomes e elogiava seus talentos). Seu ministério mostra ter metas e propósitos claros -- uma política, o que vai muito além de boa técnica administrativa, aquilo que a visão ultraliberal finge considerar suficiente para bem-administrar. A condução que o ministério tem dado ao Projeto Monumenta e a implantação dos Pontos de Cultura são dois exemplos interessantes a dar sobre a gestão Gil: o primeiro dá continuidade e força a um bom trabalho originário da gestão Weffort. O segundo é inovador em relação ao que o antigo ministro fazia. Vê-se um compromisso antes com a cultura brasileira, depois com os meandros da política -- com os quais, aliás, Gil tem lidado com maestria. O ministro mostra-se assim um político moderno, um dos poucos preparados para superar o rame-rame dos discursos que transformam a atividade de representação pública numa briga de torcidas. Longa vida ao ministro das tranças, das danças e suas sábias articulações. |