dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Set 2006 Out 2006 Nov 2006 Dez 2006 Jan 2007 Fev 2007 Mar 2007 Abr 2007 Mai 2007 Jun 2007 Jul 2007 Ago 2007 Set 2007 Out 2007 Nov 2007 Dez 2007 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde Blog da Milk Frankamente Pecus Bilis Quase Pouco Navegar Impreciso Ledusha Muié Pérola Negra Filosoclics Guga Alayon Cyn City Perplexo Inside A Vida em Palavras Taxitramas Marina W. Terapia Zero Talvez sim, talvez não Alex Senna Drops da Fal Infinito Positivo Zeitgeist Anunciação Cristiana Críticas e Reflexões Peri S. Coppio Josimar Melo Lord Broken Pottery Meg (Sub Rosa) Imprensa Marrom Lucia Guanaes, fotos MM Leite, fotos |
26.12.07
O velho e o novo -- Pai, você perdeu a cabeça, enlouqueceu? Desça daí! O velho olhou o filho mais velho com uma expressão de enfado, olhou em volta e parou os olhos na única nuvem que se via, longe, dando o toque de imperfeição que faltava para o céu azul ficar perfeitamente belo. Balançou a cabeça e decidiu tentar mais uma vez fazer-se entender. Com agilidade rara para sua idade, pôs-se sentado na mureta do viaduto, com a naturalidade de quem estivesse num banco de praça. -- Pai, para que isso? -- Filho, você acompanhou meus últimos anos, deve saber tão bem quanto eu. -- Mas você não vê que tudo o que aconteceu fez a gente amar você ainda mais? Não tem cabimento isso que você está fazendo agora, pense na mamãe! -- Amar ainda mais é uma afirmação duvidosa, mas vá lá: quem ama quer que o amado se sinta melhor, não é? Que o amado se livre de seus pesos, tenha a paz de espírito como prêmio por tudo o que fez, o que sofreu. O que eu busco é paz, filho, e é isso que eu vou encontrar lá embaixo. -- Pai, que horror! Há tantas outras formas de procurar a paz. Se você não acha que a família é suficiente, que o convívio com a gente não te dá essa tal paz, busque os amigos... -- Quais restaram, filho? -- ... vai pra Europa, torra o dinheiro que você guardou, a gente se vira, vai pra psicanálise! -- Gastar meus pouco prováveis próximos 20 anos num divã, lembrando da sua avó? -- Pai, você tem muitos jeitos de se divertir. -- Eu sei o que eu quero. -- Cinema,... -- Eu decidi. -- ... cassino,... -- Filho. -- ... Fernando de Noronha,... -- Você... -- ...puteiro, pai! -- ...não entende mesmo. Colocou-se de novo em pé no muro do viaduto, a fisionomia serena. Vestia uma camiseta de malha, uma calça de moleton e um par de tênis ainda novos. O filho não acreditava no que via, paralisado. Tentou ainda argumentar. -- Pai, eu sei, foi modo de dizer, mas você não precisa fazer isso, não é papel para um homem com seu nome, com a sua história. -- Estou pronto! -- o velho gritou. -- Mas pai, você venceu um câncer! O burburinho no pequeno agrupamento próximo à cerca do viaduto aumentou. Como sempre, havia os que estavam tensos, alguns apenas observavam, pares ou grupinhos comentavam, sussurrando, a cena insólita, até que o inevitável grito se ouviu. -- Pula! O velho olhou com ar repreensivo e não mudou em nada sua postura. -- Pai! Respirou fundo, pés juntos e, antes que o filho fizesse um movimento em sua direção, pulou. Silêncio. Segundos de silêncio. -- Aêêêê! -- a mesma voz que gritara "pula!" iniciou o berreiro junto à mureta. Lá embaixo, o velho abria os braços, enquanto percorria, virado de cabeça para baixo, um movimento pendular, preso pela forte correia de borracha que o atava, pelo tornozelo esquerdo, a um suporte firme colocado no alto do viaduto. Lá embaixo, alguns carros chegaram a parar para ver a curiosidade. Daquela distância, mal dava para ver que o homem que saltava do bungie-jump já ia lá pelos quase 80 anos de idade e exultava, em seu vôo, o começo de sua vida. O filho, a essa altura, tentava escapar dos olhares diagonais que passavam por ele, expressando algo entra o "tadinho" e o "mané". O pior era tentar acompanhar o velho e perceber que o mais novo era ele. 21.12.07
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19.12.07
Lula, a imprensa e a mulher-robô
Desde que deixei de ler o semanário conservador sensacionalista *eja (continuo com a política de não escrever certas coisas por aqui que possam ofender o leitor), passei a ler, sem assinar, a concorrente Época, da Editora Globo. De santa não tem nada, mas compôs uma redação de primeira linha (Paulo Moreira Leite e Marcelo Musa Cavallari são apenas dois exemplos, um passado e um atual), com colunistas de melhor nível que os da concorrente e um corpo de editores muito mais consistente. Mas é interessante como o mercado acaba impondo o estilo de algumas pautas. A capa desta semana, reproduzida acima, dá a sensação de que a estrela do Lula desceu ao telhado, e que a crise está a um passo de se generalizar. "E agora, Lula?" é o título, acompanhado da foto que mostra um homem isolado e meditabundo. Dentro, o que se vê é um Lula desenvolto como nunca, duas entrevistas exclusivas em um número só da revista (algo inédito, até onde eu me lembre), uma no Aerolula em pleno vôo e outra no Planalto, e uma reportagem equilibrada sobre a queda da CPMF, com repercussões dos lados interessados e interessantes, e nada que se pareça com o que a capa sugeriria -- um repentino abalo sísmico trincando as fundações do governo e do Estado brasileiros. O próprio Lula tem acalmado seus pares, com a experiência de quem acompanha o Brasil e suas crises há pelo menos 20 anos e o imenso crédito de popularidade que exibe. Lula sabe que toda crise de caixa do governo tem uma face percebida e outra oculta. Mexendo na sintonia fina da responsabilidade fiscal, poderá ampliar o tapete que cobrirá os eventuais problemas e ainda jogar o passivo que sobre no colo da oposição, do "quanto pior melhor", que ele sempre praticou, mas sabe como ninguém fazer colar no lado adversário. Não será ainda desta vez que a crise se abaterá sobre a gestão Lula. Ao que tudo indica, o mapa astral do presidente é daqueles reforçados e sua habilidade em controlar os auxiliares vem se revelando com o passar dos anos, sendo maior do que nosso senso comum imagina. Vale a pena ler a Época desta semana para que se veja, no espaço exíguo entre uma capa e uma contracapa, o dilema que se abate sobre boa parte da sociedade civil, imprensa incluída: até onde ser crítico, até onde ser laudatório. A figura pública de Lula, o já clichê do operário que chegou ao poder, dá a ele imunidades que nenhum outro presidente do Brasil jamais teve. Curiosamente, bater no Lula é mais ou menos como bater no bêbado bonzinho: ninguém se atreve porque, se ganhar, será visto como covarde e desleal -- vilão, em suma; se apanhar, será visto como incapaz -- perdedor irremediável. Lula é desses que ninguém pega, Pedro Malasartes no poder. Vai dar certo ainda por muito tempo, é parte do amadurecimento da nossa democracia -- em curso, ainda, como o próprio presidente reconhece em uma das entrevistas. Enfim, a capa não reflete a temperatura do miolo. Tanto que a matéria mais instigante da revista é a entrevista com um cientista americano que jura que, daqui a 40 anos, os homens transarão preferencialmente com mulheres-robô. Até lá, Lula, FHC e muitos de nós já teremos preocupações mais elevadas com que lidar. Ou estaremos trocando tudo por um extintor de incêndio. Que a dezembrite nos seja leve. 16.12.07
A epidemia volta
Dezembrite: é esse o nome que, já há alguns anos, dei a essa sensação meio indefinida que nos acomete -- a alguns mais intensamente, a outros de forma mais amena -- todos os anos, quando seu fim se aproxima. A dezembrite tem sintomas que são comuns a todos os enfermos, outros que variam de caso para caso. Uma forma leve de depressão, que faz com que uma típica irritabilidade e um banzo indefinido tornem os dias mais arrastados e o atrito com a superfície do relógio mais intenso, parece ser largamente descrita por quem investiga a moléstia. Uma repentina falta de saco inicia-se lá pela última sexta-feira de novembro, paralisa a todos, faz com que a freqüência das visitas aos blogues caia pela metade e tem como compensação uma compulsão à idéia de compras, presentes, lembranças. Alguns dos contaminados apresentam reações autoimunes bastante perigosas. Por exemplo, há uma alergia aguda a qualquer som que apresente o timbre de uma harpa paraguaia. A combinação de notas musicais que venha a compor qualquer coisa parecida com "hoje a noite é bela" traz tremores involuntários, sudorese e, em certos casos, queda de cabelo -- de resto, também verificada por origem mecânica, pela ação de mãos em fúria pela inutilidade de levá-las aos ouvidos. Sininhos, imitações de neve feitas de qualquer material, garrafas que se assemelhem à de champanha, de espumante, de cidra Sereser, tudo isso provoca reações semelhantes. Com isso, há uma queda brutal de produtividade, o país, já em crise crônica, sofre com o choque surdo, apenas disfarçado pela explosão do consumo de presentes, espécie de Prozac ou Pamelor da dezembrite. Qual a solução? Não há. Pensei em propor ao parlamento, ao Lula ou ao Renato Aragão -- o rei das criancinhas pobres do mundo -- que se dividisse o país em 12 e cada grupo resultante dessa divisão comemorasse seus Natais em um mês do ano. Desisti: se uma das causas da dezembrite é o barulho, a doença se tornaria uma epidemia crônica, com um Natal permanente, mesmo que segmentado. Outra idéia, mais radical, seria espalhar boatos sobre o Papai Noel. Não seria difícil fazer pespegar-lhe a suspeita de pedofilia ou mesmo de zoofilia, com aquelas bundas de rena balouçando à sua frente o tempo todo. Considerando o número de chaminés pelo planeta, quem negaria que o outrora bom velhinho estaria vendendo preferências, cobrando propina de famílias mais abastadas para visitá-las com hora marcada? "Papai Noel desceu exatamente à meia-noite pela chaminé dos Melo Peixoto da Silveira Dantas", espalhariam os agentes bem treinados pelos heróicos detratores do insistente Nicolau. Mais simples e mais barato seria distribuir adesivos para carro com os dizeres "Natal é coisa de viado". Mas a chance de um justo processo por discriminação afastaria os eventuais patrocinadores. Como se vê, dezembrite é como dente do siso. É inexorável, e arrancar dói. Portanto, resta procurar alguma resignação. Neste ano, penso em tentar uma hibernação. A idéia é dormir no dia 21, uma sexta-feira, e colocar o despertador para as 7 da manhã do dia 3 de janeiro. Será que funciona? 12.12.07
O glorioso pé na bunda
-- Ela era uma mulher paradisíaca. Tio Plauto sempre conseguia surpreender com a originalidade com que usava o léxico. E costumava explicar: -- Sim, porque como mais chamar um corpo como aquele, que o envolve todo, que o faz sumir, pela pequeneza, em tão vasto e expandente território? Às vezes mesmo ampliava o léxico. -- Uma representação do Paraíso, ora essa. Esta era uma mulher com quem havia vivido em Madrid, nos anos 60, uma jovem argelina que ele fazia questão de descrever com malícia e nostalgia. Mas era uma entre tantas, tantas mesmo, a ponto de, a se tentar fazer uma cronologia, não caberem todas no espaço daquela vida, mesmo tendo ela começado pouco depois do fim da primeira grande guerra. -- Mas Madrid não é cidade para o amor, meu filho. O tempo todo se sente ao lado a presença do ditador, a tristeza da opressão. Ninguém trepa bem com esse olhar ao lado. Ditador por ditador, melhores os nossos, esculhambados como tudo por aqui, tiranetes sem competência para invadir os nossos quartos, como fazia o Franco e descrevia o Orwell. O Rio sim, esse era lugar para se ter uma mulher e perder a cabeça por ela. Perde-se até uma fortuna, por um grande amor no Rio. Você já agradeceu um pé na bunda? Balancei apenas a cabeça, nada em minha vida havia sido intenso a ponto de ser descrito como "um pé na bunda". Alícia desistira, Vera um dia sumiu e, com Lenira, apenas combinamos: um para lá, um para cá. -- Pois é uma experiência inigualável, um grande pé na bunda. Na hora, é terrível, você acha que aquilo vai dar cabo de você, a dor imensa se empapa com o ódio que ainda não deixou de ser amor, a imagem da pérfida não sai de seu campo de visão nem na hora da primeira trepada com outra, aquela tentativa vã de cura. Mas o tempo é um escultor brilhante, e é capaz de transformar um matacão pesado desses em uma forma delicada, adelgaçada, sensual. A memória distante de um pé na bunda é a de uma obra de arte, é como lembrar de seu primeiro Wagner, da primeira ostra engolida obrigada, da ejaculação precoce do primeiro baile. Pois o problema, o único talvez, é que se demora tanto a perceber o valor da experiência que não dá mais tempo de agradecer. Aquela conclusão o pôs em silêncio por alguns segundos. -- Plautôôô! -- até ele se assustou com o berro fundo. -- Também tive na vida que deixar amores contra suas vontades. Mas nunca perpetrei um verdadeiro pé na bunda. Nenhuma das mulheres que tive mereceria isso. Sempre esperei até a hora em que elas o fizessem, mas nem todas souberam perceber a oportunidade de me abandonar com eloqüência, aurizando-se, monumentalizando seu próprio papel como capítulo da história. Aí então, para as desavisadas, eu simplesmente avisava: "Acabou". Muitas vezes vi cenas de desconsolo longo, de raiva desmedida. Mas acabava tudo em compreensão, mais cedo ou mais tarde. Belo Horizonte, 1948... Ele jamais tinha vivido em Belo Horizonte, mas certamente havia um amor por lá. -- Você alcança minha carteira? Estiquei a mão até o criado-mudo e dei-lhe a carteira. Havia algumas dezenas de papeizinhos velhos por ali, cuja idade mal e mal se deixava entrever pelos diferentes tons do amarelecido de cada um. Apanhou um deles. Trazia ali um nome e um telefone. "Elisa. 51-0371". -- Por favor, avise-a. Mas... -- Por favor, avise-a! -- seu tom de voz subiu acima do meu limite de enfrentamento. Não adiantaria eu considerar a possibilidade de aquele número não mais existir. Tentei ainda perguntar o sobrenome de Elisa. -- Não, meu filho, não me pergunte, nem eu mesmo perguntei a ela quando nos apaixonamos feito onças. Não me cabia saber. Por favor, avise-a. Assenti e saí. Naquele momento, pensei que seria melhor que ele não passasse daquela noite. Ele ficaria muito desapontado com meu insucesso em avisar Elisa, e eu acho que não suportaria as manifestações duras desse desapontamento. -- Elisa! Com "S" -- ele ainda gritou quando eu já ganhava a porta da frente. Amassei e joguei fora o papelzinho. Pensei que talvez pudesse contratar alguém que garantisse a ele ser Elisa, Elisa De Quê. Talvez ele acreditasse e agradecesse o pé na bunda. Talvez -- quem sabe? -- ele lhe desse uma fortuna. Talvez morresse de emoção. Sim, me pareceu enfim ter tido alguma presença de espírito. Em outra condição, talvez tio Plauto se orgulhasse desse feito e, afinal, de mim. 10.12.07
Soneto do que é meu Busco cada gota de sua memória, tento represar o tempo que flui, ter só para mim toda a sua história, o usucapião do que não fui. Quero tomar posse de suas imagens, ser o Stálin de suas fotografias. Quero ter ensinado suas bobagens, ter encampado todos os seus dias. Quero que sejam meus, no seu sorriso, todos os motivos, toda a razão. Terei sido sua falta de juizo, o seu primeiro sim e cada não, o gozo largado, o gesto preciso, seu fui, seu sou, seu vou ser, seu então. 4.12.07
Ida e volta
O post abaixo é tão velho que a Fonte nem é mais Nova. Pois é, trabalho, trabalho, trabalho e eis que o dezembro deste sítio está deixando a desejar. Estive até há pouco na parte mais esquisita do Rio de Janeiro, a Barra da Tijuca. Do Rio de verdade, só peguei o trânsito, além de alguns segundos daquela paisagem estonteante, já no Aterro. Na ida, ontem à noite, o taxista reclamava da morosidade com que a prefeitura ia restaurando o centro do Rio. Ao lado, a Candelária, exibindo todo o seu porte, bem cuidada como há anos não ficava. Concluí que somos mesmo reclamões, na saúde ou na doença. A gente sempre tem um dorzinha no lado que responde na cacunda, como dizia o Tom Jobim. Reclamar é parte da cena que não muda. |