dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
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28.11.07
Condenando a vítima
Se há alguma coisa democraticamente espalhada neste Brasil, é a enorme capacidade de seus dirigentes de, sob aperto, apelar para a mais escancarada demagogia. É o caso do governador da Bahia Jaques Wagner. Ontem, Wagner declarou alto e bom som, com cara de bravo e tudo, que vai mandar demolir o estádio da Fonte Nova, onde dias atrás uma tragédia matou sete pessoas e feriu mais de 80. O desabamento de um pedaço da arquibancada fez com que várias pessoas caíssem de uma altura de cerca de 20 metros. Há anos é sabido que o estádio anda em situação deplorável de manutenção, o que fez do acidente a crônica de uma morte anunciada. É inexplicável apenas como algo assim grave não tivesse acontecido antes. Sem embargo da gravidade do fato, responder a ele com a demolição é uma vergonhosa mistura de demagogia, oportunismo e falta total de compromisso com a história de Salvador e da Bahia. A Fonte Nova é um dos marcos da arquitetura moderna em Salvador. O projeto, executado em 1951, é do arquiteto Diógenes Rebouças, que teria até, segundo se conta, tido umas dicas de Oscar Niemeyer e Rino Levi. O próprio Rebouças fez o projeto de ampliação, em 1971. Na hora em que Jaques Wagner propõe que a resposta ao desastre é a demolição do patrimônio histórico representado pelo estádio, assume uma posição contra todos os baianos -- mesmo que pesquisas de opinião o acabem apoiando, pelo impacto emocional da tragédia recente. Qualquer governante equilibrado procuraria, ao mesmo tempo, resgatar a Fonte Nova a partir da intervenção de arquitetos sérios -- há dúzias deles em Salvador -- e buscar os responsáveis pelo abandono, inclusive assumindo publicamente sua parte na culpa -- pequena e justificável, mas existente. Há a esperança sempre de que a reação da sociedade civil impeça esse crime. Caso não consiga, Wagner passará à história como uma espécie de Taliban-do-eu-sozinho. Caso consiga, o governador deverá agradecer essa segunda chance à sua reputação. 26.11.07
Cosecha
O capacho felpudo na porta da importadora tinha uma beiradinha levantada. O suficiente para que eu e a sacola com quatro garrafas de Don Melchór nos estatelássemos no chão. Don Melchór 96. Que vontade de chorar. Tinha prometido ao pai de Vera que levaria os vinhos. Agora, estava ali, atrasado, aturdido e observado por uma dezena de sádicos com suas sacolas intactas na mão. O chão parecia o oceano de Moby Dick tingido de sangue. Rapidamente apareceu um funcionário, com seu avental listradinho, solícito. Tentou ajudar-me a levantar, o que acabou de me matar de vergonha. A loja era chique e eles também não deviam se sentir bem com aquela cena. Problema deles. Em pé, comecei a recobrar a confiança. Pedi o gerente. Não estava. Quem, então, responderia pelo prejuízo? "Olhe, moço, o senhor caiu já do lado de fora", defendeu o rapaz. Argumentei que não teria caído se o imenso capacho estivesse esticado. "Olhe, moço, desculpe, o senhor não teria caído se olhasse onde pisa." Que sujeitinho atrevido. Pedi o seu superior imediato, já que o gerente não estava. "Olhe, moço, quando não está o seu Osvaldo, fica o seu Chico. Só que hoje não veio nenhum dos dois, então não tem superior hoje não." Mas alguém teria de assumir o prejuízo. "Olhe, moço, acho que é o senhor mesmo, o vinho que o senhor derrubou era seu, era não?" Crueza. E eu atrasado no plano de fazer sucesso com o pai de Vera. O rei da pontualidade. O chato de galocha. O entendido de vinhos. Ponderei ainda que tudo tinha começado por uma falha da casa, o capacho mal colocado. "Moço, a gente coloca o capacho assim todo dia e nunca que caiu ninguém." Nunca que caiu. No seu português particular, ele dizia que nunca que eles iam me devolver o vinho derramado. Aquilo não ia andar e eu já estava mais de meia hora atrasado para o almoço, além de falido na conta corrente, depois de quatro Don Melchór 96. Só tinha um jeito: voltar lá e comprar quatro argentinos baratinhos e tentar levar o velho no bico. Entre os argentinos, havia um de seis reais a garrafa, Marqués de qualquer coisa. Comprei quatro. Já estava uma hora atrasado. Senti um certo desprezo da moça do caixa ao registrar os meus vinhos. A essa hora, Vera já devia estar me matando à distância. Uma hora e quinze de atraso. Entrei com a majestosa sacola na mão, as quatro garrafas dentro. O pai de Vera não perdoou: "A sacola é bacana, mas o vinho deve ser o Marqués de qualquer coisa", brincou, para meu desespero. Sacola na mão, foi decidido em direção à cozinha e, na presença de todos os meus santos, escorregou no ladrilho e caiu de costas, inundando a cozinha com o vinho vagabundo. As empregadas em segundos limparam tudo, a mãe de Vera prestou um socorro rápido ao chato e em menos de dez minutos, tudo estava restabelecido. A começar por minha reputação. Já com roupa trocada, o velho lamentou. "Que pena. Deu ainda para sentir o bouquet do Don Melchór. Inconfundível." Não pude deixar de consolá-lo: "Não se preocupe, de onde saiu isso tem muito mais. Não sei se 96." 23.11.07
Na capital
Lucio Costa, o arquiteto que projetou Brasília Uma das coisas de que mais gosto é viajar. Tenho um prazer especial quando viajo a trabalho, me dá a sensação de fazer parte da cena que, no caso do turismo, fica numa espécie de grande monitor, uma vitrine de 360 graus. O trabalho me levou hoje a passar quatro horas em Brasília. Cada vez mais acho que a capital da República é um fenômeno. Ao contrário de outras cidades planejadas sob os princípios da arquitetura moderna, Brasília desenvolveu uma personalidade própria, uma identidade muito peculiar que vai muito além do que nosso preconceito vê daqui das franjas da mata atlântica. É óbvio que são pertinentes as críticas que dão conta de que a capital, que em tese abrigaria o povo todo, da zeladora ao presidente, hoje é um núcleo de classe média cercado de cidades satélites miseráveis por todos os lados. É também óbvio que um lugar que abriga tantas maracutaias e tantos picaretas seja olhado de soslaio pelo resto da Nação. Mas é inegável que o projeto de Lucio Costa vingou, amadureceu e hoje é uma cidade. Uma comparação recorrente é com Chandigarh, a capital do estado do Punjab, na Índia, projetada por Le Corbusier no começo dos anos 50, e que até hoje parece uma vasta estátua. Lucio Costa é uma dessas tantas figuras da história menos reconhecidas do que merecem. Foi, entre os arquitetos brasileiros de sua geração, o mais internacional de todos, o que mais colaborou para estabelecer uma conexão com o melhor da arquitetura do mundo, na época. Sua participação nos CIAMs e outros eventos internacionais, sua obra escrita e, por fim, seu projeto maior -- que 10 entre 10 brasileiros atribuem a Oscar Niemeyer, na verdade, autor dos projetos dos palácios e de alguns monumentos -- faz dele o verdadeiro embaixador da arquitetura moderna brasileira. Morreu sem esse reconhecimento (a não ser, claro, entre os iniciados), mas pelo que se vê em suas últimas entrevistas, satisfeito com a obra que legou. Ir a Brasília é ver um pouco de tudo isso, já com as marcas do atrito dos anos, a única prova que faz de uma cidade um ente vivo. 21.11.07
Os argentinos comentam o Brasil
O Blue Bus achou e eu linko aqui uma matéria do La Nación falando do Brasil. É um pouco longa para internet, mas vale a pena ler inteira. O articulista faz uma comparação entre o Brasil e a Argentina, mostrando a posição de cada um hoje no cenário internacional e um pouco da trajetória de ambos. Lembra que, em 1940, era preciso somar todos os PIBs da América do Sul -- incluindo o do Brasil -- para se chegar ao argentino. Hoje, o PIB do Brasil é cerca de 5 vezes maior do que o dos nossos hermanos. É interessante o diagnóstico, são inteligentes as previsões, mas, mais do que tudo, é delicioso ver o Brasil observado de longe. Algumas passagens para refletir: - (...) la puerta al éxito tendría tres P: Políticas de Estado, Perseverancia y Paciencia. - Las tres "P" guiaron los pasos de dirigentes políticos tan opuestos como Fernando Enrique Cardoso (sic) y Lula da Silva, en un camino que terminó llevando a Brasil a jugar en primera. - (...) tuvieron un Estado que preservó y ayudó a la readaptación de los agentes económicos en los 80 y 90. - (...) destaca la "visión de largo plazo del vecino país". - A nuestra burguesía le gustó adoptar el estilo de especulación financiera; mientras que en Brasil fueron productivistas. O texto fala também das mazelas da terra, a começar da concentração de renda. Mas é interessante ver que, à distância, o cenário parece bem favorável. Óbvio: o texto vê FHC e Lula como duas fases de um único processo. É só por aqui que essa comparação evidente gera crises existenciais, chiliques de lá e cá, um fingindo que é mais progressista que o outro, a torcida cantando que está fazendo a revolução que o antecessor nos negou. É só aqui que esse quadro político parece mais uma discussão entre torcedores do Boca e do River Plate. De longe, essa pataquada é completamente irrelevante. 17.11.07
Antes do filme
A pé, a caminho de uma sala de cinema, em uma dessas estranhas e tortuosas avenidas de fundo de vale que hoje marcam a cidade de Salvador, de repente me peguei cantarolando uma das primeiras canções gravadas por Caetano Veloso, acho que ainda naquele primeiro LP, gravado com Gal Costa. É uma canção de que falou aqui, recentemente, miLord Broken Pottery: "O dia que eu vim-me embora". Naquela pequena ladeira que liga a Graça ao Vale do Canela -- hoje tomado pela tal avenida -- me dei conta da importância imensa de Caetano Veloso, Gilberto Gil e do movimento tropicalista para o nosso jeito de pensar, olhar e cantar. É algo comparável ao que fez a Bossa Nova, no fim dos anos 50 -- há até de se perguntar se teria havido a Tropicália sem a Bossa Nova. Apenas um sinal da influência dos baianos no jeito de ser do Brasil: de repente, todos os cantores populares novos do Brasil, a partir de 68 ou 69, começaram a pronunciar a palavra "coração" com a primeira sílaba aberta, "có-ração". Fosse carioca, gaúcho, paranaense ou paulista de São João da Boa Vista, o cantor não se inibia. Pintando a palavra "coração", lá vinha aquele "có" no começo, à moda de Caetano Veloso ao tocar "no có-ração do Brasil". Ele nem sabe, até pensei em cantar na televisão, mas foi só um sonho fugaz que encadeou uma curta carreira de músico de bar em São Paulo -- cantando muito Caetano Veloso. Caetano foi ficando chato. Mas, ora essa, a vida faz dessas coisas. Beethoven foi ficando surdo, Stephen Hawking, tetraplégico, Walter Carlos mudou de sexo, Baden Powell virou crente, Aracy de Almeida acabou no júri do Sílvio Santos. Legal ficou mesmo só Noel, que morreu antes que desse tempo de se tornar chefe de estação ou gerente de banco. O fato é que Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé foram mais do que compositores geniais -- isso, Chico Buarque também foi ou é, bem como uma fila de outros tantos. Eles nos mudaram um pouco. Mais ou menos como os poetas do passado, como e. e. cummings, como Ezra Pound, mudaram os que os cercavam. A diferença é que, neste Brasil desavisado, a cultura de massa incipiente descuidou e colocou os tropicalistas e suas ousadias estéticas à mesa do povo. Hoje, parece normal nos entendermos como parte do mundo. Hoje nos parece normal ouvir sem estranheza dissonâncias as mais variadas. Hoje, parece que nosso bonito renovado sempre esteve aqui. Hoje, João Gilberto -- outro bahiano, mas carioca no marco artísico -- é aceito e ouvido com naturalidade e merecida reverência. Quem o trouxe de volta à tona foi a Topicália, só depois a TV Globo entrou na onda. A pé, a caminho de uma sala de cinema em Salvador, entendi a diferença. 14.11.07
Soteropolitanas Como ela sobe a ladeira, tenho de desviar: ocupa a calçada inteira. Mas é leve como o ar. Nesta cidade-subida, de pedra e de maresia, sabe-se levar a vida, por qualquer que seja a via. Quando a pequena reclama no colo em que é transportada, não sabe que a mãe e ama é criança -- e é levada. Sempre que se ganha a rua, provoca-se o Salvador. Ele vinga a escrava nua por não mitigar-lhe a dor. 11.11.07
Mini 91 Dobrou o papel bem no meio e manteve-o assim por um segundo, só para ver a perfeição fugaz da dobra, feita apenas para marcar a linha do meio. A partir daí, dobra após dobra, construiu mais um avião. Como com os outros, o pôs de lado, sem tentar fazê-lo voar. Partiu para o próximo. Dobra, desdobra, dobra de novo, formando o primeiro triângulo, depois o outro, simétrico, espelhado, depois o seguinte, mais estreito, sobreposto ao primeiro, então seu gêmeo cis-trans e, de dobra em dobra, mais uma nave. Colocou-a delicadamente sobre as outras e começou o trabalho novamente, cada jatinho mais perfeito que o outro. Já havia um pequeno monte deles sobre o chão, dando forma, a sábia esquadra, à sua medida edificante: para cada aeronave a mais, um poema a menos. Até o nascer do sol estaria livre daquele peso. 8.11.07
Um reino por uma pedra no caminho
A Folha de hoje destaca um fato à primeira vista surpreendente: há cargos vagos aos borbotões em setores da economia que demandam certos tipos de mão-de-obra qualificada. Pensando um pouco, surpresa nenhuma. A leitura de apenas 2 livros de sucesso já ajuda a explicar este país: Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais, e 1808, o recém-lançado (já) best-seller do jornalista Laurentino Gomes sobre a mudança da família real portuguesa para o Brasil. Neste último, se vê a origem de algo que se estendeu pelos séculos seguintes: desde o reinado de dona Maria Louca e seu filho prognata João, a educação foi sempre relegada a segundo plano, ora confiada aos padres, ora tratada burocraticamente e a contragosto pelos governantes de plantão. Exceções como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro são apenas isso: exceções. Em Chatô, se vê um outro fenômeno interessante: o país que se move à frente tropeçando. Assis Chateaubriand foi apenas uma dessas pedras que se puseram no caminho do preguiçoso gigante e o fizeram andar dois ou três passos depois de tropeçar sem saber no quê. O mercado editorial brasileiro, as agências de publicidade, a modernização da mídia brasileira -- incluindo aí a instalação da quarta emissora de TV do mundo, em 1950, e a profissionalização da propaganda -- se devem à psicopatia do empresário nordestino que um dia saiu do Recife querendo arrumar inimigos onde eles realmente faziam vista, no sul maravilha, na então capital da República. O Brasil apenas herdou o legado do peculiar banditismo de Chatô. Como até hoje não houve nenhum interesse escuso ou nenhuma loucura que justificasse o desenvolvimento de uma infraestrutura decente na área educacional, não houve príncipe ou insano que dedicasse sua sanha a fazer escolas. Como parece, mesmo pensando horas a fio, que escola não resulta em nenhum ganho absurdo por parte de quem quer que seja, a impressão que dá é de que ficaremos no pântano cívico-político-cultural em que nos encontramos hoje. Assim esfarrapados, ainda temos a pachorra de esnobar o roto Hugo Chávez. Deveríamos, isso sim, tentar aprender algo com os argentinos ou os uruguiaos que, mesmo tendo estados tão caricatos quanto o nosso, ao menos souberam alfabetizar seus povos. Mas não: nós -- e aí inclua-se o presidente da República e seus repentismos -- nos contentamos em ganhar deles correndo feito bobos atrás de uma bola. 6.11.07
Eufemismos baratos
Você já se deu conta do fenômeno da substituição de palavrões? Preste atenção. Antigamente, você dizia "Gosto pra caralho do som do Focus". Hoje, ao ouvir semelhante comentário, é enorme a probabilidade de se defrontar com algo como: "O INXS é legal pra caramba". Ou então: "Coitado do Mirandinha, quebrou a perna em dois lugares. Está fodido". Hoje, o cronista esportivo do escritório dirá: "O Kaká tá com o joelho ferrado". Não se trata de construir as frases de forma a escapar do palavrão, mas simplesmente substituir o palavrão por uma palavra semelhante. Portanto, há duas questões nesse fenômeno: pobreza lingüística, na medida em que não se faz nenhuma ginástica para desviar do termo a evitar, e uma certa pusilanimidade. Como sempre, este espaço pensa no futuro, o que nos faz antever o que virá. "Que merda" virará "Que meta!". "Quero ver se ele tem colhão para encarar essa" vai se transformar em "Esse tem colchão". Haverá gente que nasceu com o Itu para a Lua, chefes que demonstrarão ter xícara grossa, subordinado que não passa de um rumba mole, enquanto seu colega põe o P.A.S na mesa. Se até a inocente bunda já virou bumbum, o que esperar das inevitáveis designações do ato sexual? "Nestor, ontem dei uma impetrada com a Dagmar inesquecível". "Você não sabe, amiga, na hora H, o Alfredão bromatou". E por aí haverá um desfile de neologismos comportados, até o dia em que a menininha perguntará: "Mamãe, o que é cu?" "Ahahah, filhinha, é como o vovô chamava o... é... você sabe, né?" "O que mamãe?" " O sul, filhinha, o sul". "Puxa, mamãe, como você é boca suja!" 1.11.07
Duas marcas, duas atitudes, duas instituições Há algumas semanas podemos observar que o Banco Itaú vem fazendo uma campanha que tem a própria marca como tema. Na série de anúncios que a instituição tem veiculado na mídia impressa, o nome do banco é omitido e a parte gráfica da marca -- o quadrilátero azul de pontas arredondadas e o fundo laranja, resgatado do antigo projeto de Francesc Petit e Alexandre Wollner -- toma diversas formas, como baloons de pensamento, carrinhos e outras. Na assinatura, a marca do banco sem o nome, vem acompanhada da frase "Você sabe pela cor, você sabe de cor quem foi feito para você."
"Pensou em financiamento, consórcio ou seguro de veículos, pensou nele"
"Quando você pensa em banco, cartão de crédito, seguros, financiamento, investimentos e previdência, você lembra de quem?" A algumas milhas dali, um concorrente do Itaú, o Banco Real ABN Amro, vem veiculando campanhas em que toma posições institucionais claras, definindo-se como um banco em busca de sustentabilidade ambiental, voltado para as necessidades do cliente e disposto a apoiar, por meio da seleção de seus tomadores de crédito, empresas que tenham uma atuação social e ambientalmente correta.
"Convidamos todos a usar a água de maneira consciente. E depois, a garrafa."
"Sonho não tem prazo de validade" Comparando as duas, vemos dois dos cinco maiores bancos do país, um brasileiro, outro hispano-holandês, os dois com desempenho espetacular para seus acionistas. Um busca uma estratégia de fixação da marca por insistência, mal comparando, algo na linha daquela loja de relógios Top Time, que veiculava spots de rádio em que repetia seu nome como se fosse um tique-taque de relógio, aparafusando sua marca na memória do ouvinte. É fato, ninguém esquece. O outro parece partir da idéia de que uma empresa deve cumprir um papel na comunidade em que se estabelece e ser lembrada pela relevância que vai conquistando na vida dessa comunidade. Assim, aposta que oferecer conta corrente e serviços bancários para estudantes ou parar de empurrar ao cliente serviços que ele não quer e não pediu, mudando inclusive a cultura interna de comercialização, vai trazer sucesso comercial e, ao fim e ao cabo, um espaço na memória das pessoas -- o mesmo resultado buscado pelo primeiro banco. Há quem considere tudo a mesma coisa. Esse jeito meio "Natura" do Banco Real fazer propaganda seria mais uma estratégia publicitária sem maior consistência, portanto ele e o Itaú se equivaleriam. Outros dirão que tanto faz o que um e outro dizem, o que importa é o que se consegue na negociação com o gerente. Particularmente, eu tenho a sensação de que quem vem a público refazer tratos que seu segmento econômico há muito já havia estabelecido, assumindo um compromisso com o futuro e com uma atuação mais harmônica com a sociedade e o ambiente, sinaliza uma evolução. Mesmo que toda a comunicação do Real fosse balela -- e parece que, pelo menos em boa parte, não é -- o simples fato de uma instituição com esse peso reconhecer que é preciso repactuar as relações entre empresas e sociedade e entre sociedades e mundo já abre um caminho. De resto, é alentador ver que instituições que podem mudar o mundo estão dispostas a fazê-lo. Talvez elas sejam capazes de gerar uma reação em cadeia, levando junto consigo aquelas que apenas pretendem mudar seu balanço. Talvez não sejam. Nesse caso, terão pelo menos rompido a monotonia do mundo dos espertos. |