dito assim parece à toa

30.10.07

Mais um papa fascista



Dias de trabalho a mais tornaram impossível postar qualquer coisa ontem. Hoje, apenas reverbero o que o Marcio comenta e que a Folha deu sobre a beatificação de centenas de padres mortos durante a revolução espanhola, um dos conflitos mais sangrentos da história recente, que resultou na vitória de um regime fascista que durou até 1975.

Não é o caso de dizer aqui que os mortos de um lado do conflito são melhores do que os outros. Mas beatificar padres pelo simples fato de terem morrido no conflito, abatidos pelo outro lado -- que também perdeu milhares dos seus, seguramente muitos mais do que os católicos -- é uma tomada de posição política de Bento 16, nada tendo a ver com doutrina e religião. Morrer a bala na guerra é triste, mas está a anos-luz de ser milagre ou "martírio".

Tempos atrás, escrevi aqui uma nota sobre a hipocrisia dessa instituição político-econômica sediada no Vaticano. Sob Bento 16, parece que esta característica se profissionaliza. Deus me livre desses sujeitos.

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26.10.07

Mini 90

Óculos novos. Camisa branca Novo Mundo. Calças novas de nycron. Sapato novo Vulcabrás. A mala já estava no compartimento de baixo do ônibus pesado e mal lavado, além de velho -- o pai dizia que era de 55 ou 56. O pai, aliás, não tinha vindo se despedir dele, preferiu dizer um até logo sofrido em casa mesmo. Ambos sabiam que o caminho do menino era o Rio, mas a separação era dura, para o velho era só deixar o coração suplantar o cérebro que a partida teimava em pousar no limite da traição. O garoto olhou para trás, sem querer ver nada, voltou-se para a porta do coletivo, procurou o bilhete amarfanhado no bolso e o entregou ao baixinho de gravata que conduziria o coletivo dali até a capital. As quatro horas seriam suficientes para ele virar homem definitivamente? Na dúvida, pediu ao motorista para pegar algo esquecido na mala. Havia ganho o livro na véspera. A mulher mais velha, ainda nua, lhe dissera que aquilo o faria pensar, "agora feito homem". Que homem, meu Deus, que homem?

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24.10.07

Fragmento de "O Preço do Peixe", #29



A carta do Ministério da Guerra chegou bem na hora em que a família se preparava para almoçar. O carteiro não escondia sua apreensão e demorou para se afastar do portão, na expectativa de ver o envelope ser aberto. Não viu. Mas ouviu de longe o choro e as lamúrias.

O texto era curto e não deixava dúvidas: o filho mais velho da casa havia morrido em combate nos campos da Itália. Nunca tinha esperado ir tão longe, aquele menino. Na escola era bom aluno, tinha especial predileção pela língua portuguesa. Mas no convívio, era arredio. Não tinha sido sempre assim, mas no começo da adolescência, seu rosto tinha sido tomado de tal forma pela acne que não era possível passar por ele sem olhar. Isso, no ambiente escolar, facilmente se transformava em estigma. O número de amigos era inversamente proporcional ao de apelidos: aqueles eram cada vez menos, estes iam chegando às dezenas. Mais ele se afastava dos colegas, mais se amplificava a zombaria.

Tudo isso havia feito a convocação para a guerra ser recebida pelo rapaz quase com festa. Sem pagar nada, com sustento garantido pelo Estado, ganhava uma temporada fora da cidadezinha que para ele era só humilhação e menosprezo. No dia da partida, seu sorriso contrastava com as lágrimas profusas dos pais e dos irmãos. Embarcou sem saber se voltaria, mas não queria mesmo saber.

Pouco mais de um ano depois da morte do rapaz, a família já tinha engaiolado a dor. De vez em quando, a mãe era pilhada chorando num canto, mas os gritos mais intensos haviam cessado. No entanto, o anúncio do fim da guerra na Europa trouxe de volta a emoção. Ninguém conseguiu conter as lágrimas diante da voz empostada que vinha do rádio anunciando que os bravos soldados de dezenas de países voltariam para casa. O menino deles não voltaria.

-- Ele voltou! Ele voltou! -- o carteiro entrou esbaforido sem sequer bater palmas. -- Olha aqui, olha aqui! Brandia um jornal da capital que trazia uma nota sobre sobreviventes que haviam sido dados como mortos e agora desembarcavam no Rio de Janeiro. Na lista dos nomes, o do rapaz parecia brilhar e piscar.

Dez dias depois, ele chegava à cidade cercado de glória. Era a primeira vez que aquela terra via um dos seus ser consagrado como herói de guerra. Ainda usando uma bengala para compensar as seqüelas de um ferimento grave, foi recebido pelo prefeito e desfilou em carro aberto, fazendo jus até a papel picado. A única rádio local apressou-se em entrevistá-lo. Depois, o orgulhoso locutor, após traçar a biografia do herói da Pátria, cheia de brilhos, inflada acima do que seus pouco mais de dezoito anos de vida permitiriam, lembrou-lhe os atos em batalha:

-- Honrou sua família e nossa cidade. Ferido quase mortalmente, teve fibra para resistir. Traz as marcas da glória e também suas cicatrizes. Mas o petardo que lhe marcou a perna direita e os estilhaços que lhe marcaram o rosto não foram suficientes para que se lhe esmorecesse o brilho.

Ao ouvir aquilo o rapaz percebeu que a guerra não havia apenas lhe resgatado o apreço dos concidadãos. Havia também lhe curado as marcas da acne -- agora, transfiguradas em heroísmo. Bendita guerra.

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22.10.07

Tragédia e bufonice


Polícia em ação na favela da Coréia, zona oeste do Rio

O Jornal Nacional mostrou, na quinta-feira passada, duas cenas que mostram o embrulho em que se encontra o Brasil. Na primeira, um helicóptero da PM carioca metralha dois supostos bandidos, numa seqüência que parece uma caçada macabra, os dois rapazes de calção e camiseta correndo morro abaixo tentando escapar e o helicóptero mandando uma chuva de balas na direção deles. De acordo com o secretário de segurança do Rio, os dois faziam parte de um grupo armado que havia cercado um carro da polícia e estava prestes a matar seus ocupantes. A ação, portanto, seria de legítima defesa de terceiros, por assim dizer.

Alegue-se o que for -- e eu não duvido que os dois mortos fossem mesmo bandidos perigosos -- a cena mostra um helicóptero armado de metralhadora fuzilando dois moleques magros de calças curtas, correndo como animais para salvar as próprias vidas. Não há alegação que apague essa imagem. Há gente que a louvará, há gente que a repudiará. Nunca, porém, dando crédito à alegação de que aquilo defendia alguém. O que se viu era uma caçada. A caça era gente. Os bem-sucedidos caçadores, homens da lei. Nada parecido com o que um dia imaginamos ser o estado de direito. As culpas são difusas. Não há mocinhos nessa história.


Ministro da defesa Nelson Jobim desafiando o perigo

A segunda cena marcante da noite vem na mesma matéria, na repercussão dos fatos. O ministro da defesa do Brasil, Nelson Jobim, dá entrevista vestido com fardamento camuflado do exército, aquele usado pelos agrupamentos de combate na selva. Jobim claramente é um político em campanha. No entanto, isso não deveria autorizá-lo a tomar atitudes que joguem contra suas funções institucionais. A idéia básica de um ministério da defesa é colocar uma visão civil sobre os atos e decisões das forças armadas em tempo de paz. O ministro da defesa, assim, deve pairar -- e demonstrar que paira -- acima e equidistante das três armas. Brincar de soldadinho a uma hora dessas é muito mais nocivo à Nação do que parece à primeira vista. Seria apenas uma bufonice se não fosse um caso de mau uso do poder concedido.

Tanto num caso como no outro parece que se vê o que há de mais perigoso no Brasil hoje: ninguém liga e a vida continua. O preço será alto demais. Mas ninguém liga. E a vida continua.

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19.10.07

Aura afora

Não é. Só parece. Mas e se fosse?
E se houvesse um corpo dentro da aura?
Se, ao pé do conceito, um só beijo doce?
No imaginar que o abstrato restaura,

cabe um palmo de pele, a que se roce
de leve, antes que a sensação se exaura
e a pura lógica retome a posse.
Antes do sopro, o numeral se instaura.

Há uma luta renhida na memória
entre o mero sentido e a sensatez,
entre o fazer do amor e o ser da história.

O poro transpira os fatos da tez,
a córtex os reconta como glória.
Num bulbo, fica o amor que não se fez.

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17.10.07

História pouca

Filipe Redondo/Folha Imagem


A Folha de hoje traz uma matéria sobre um caso sórdido de chantagem. Conta que, ao longo dos últimos 3 anos, o padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua, vinha sendo extorquido por um ex-interno da Febem e três asseclas. Chegou a pagar as prestações de um carro importado para o rapaz. Denunciou o caso à polícia quando percebeu que havia perdido totalmente o controle -- e suas parcas economias.

A matéria deixa sem resposta uma pergunta crucial: por que o padre deu tanto dinheiro por tanto tempo a esse bando? Ele não dá uma resposta convincente. É impossível ler a entrevista que acompanha a reportagem sem ficar com a impressão de que há algo a ser escondido.

O padre Júlio sempre foi um defensor eloqüente dos moradores de rua. Em certos momentos, chegava a parecer que defendia, mais do que a eles, o próprio morar na rua, tais as críticas que fazia a ações do Estado que visassem tirar as pessoas das calçadas e viadutos, conduzindo-as a albergues ou a projetos de assistência social. Chamava a tudo isso de "higienismo", comparando, com intencional distorção, essas iniciativas aos atos de "limpeza étnica" dos regimes fascistas.

Sempre achei que isso se explicava por um dilema simples: o que faria da vida um homem que sempre defendeu os moradores de rua, se uma dia deixasse de haver moradores de rua? Pelo que lutaria, se seu motivo de vida tivesse, pelo sucesso da ação de estado, deixado de existir?

Agora, essa história suja desconstrói a imagem do padre, e o que é pior: não coloca outra no lugar. Se essa fosse uma grande história suja, o enredo transformaria o defensor dos fracos em um ser maligno, um vilão solerte. O médico que vira monstro constrói tanto quanto a vitória do herói sobre o criminoso. O que se vê no jornal de hoje é que o defensor dos fracos é muito mais fraco do que aqueles que defendia. Dependia dos desvalidos mais do que os desvalidos dependiam dele.

No fundo, essa história nem mesmo suja é. Nem triste chega a ser. É apenas e profundamente deprimente no que revela do gênero humano.

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15.10.07

Das calçadas

Quando o sol nasce, o povo do Brasil
já vai cumprindo seu triste destino:
cada vez mais cultuar o que é vil,
ao justo, preferir o fescenino.

Nossas cidades têm cheiro de urina,
nossas mulheres, pro mundo, são putas.
Ver um velhaco vencer nos fascina --
e faz-se assim nossa história de lutas.

O que é mais rico mija no mais pobre,
o que é mais pobre mija na calçada.
E vai-se então seguindo, até que sobre

um cheiro de amoníaco, mais nada.
O rico acha que sana isso no cobre,
o pobre -- que fazer? -- no mijo nada.

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11.10.07

Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 28



O jovem casal ia pela estrada afora em busca de um paraíso próprio, distante da cidade grande, barulhenta e opressiva. Ele era mais vivido do que ela, mais viajado, mais de dez anos mais velho. Ela era uma moça linda, a quem ele sempre queria impressionar, como que sempre em busca de fazer uma imagem melhor de si.

A paisagem ia ficando mais e mais bonita à medida em que se afastavam da cidade e iam ganhando o campo, percorrendo a distância que ainda faltava para chegar a seu destino, uma fazendola charmosíssima que ele havia encasquetado de comprar, mas não sem antes consultá-la. Como se vê, a busca pela melhor impressão não cessava.

O sol a pino e a fome impunham a primeira parada. Mais uns poucos quilômetros e viram, à beira da estrada, um posto de gasolina meio surrado pela poeira. Mais ao fundo, uma placa apontava o restaurante. Pararam, desceram, esticaram pernas e braços e caminharam até o salão de pé direito alto e telha vã, a trazer o frescor que a arquitetura intuitiva trazia desde sempre às casas caipiras.

Não demorou para que um garçom simpático e prestimoso sugerisse uma mesa e logo se postasse com bloquinho e caneta à espera dos pedidos. O homem do casal se antecipou:

-- Posso sugerir?
-- Claro -- ela respondeu, entre confiante e sem alternativa.

Ele dirigiu-se ao garçon e perguntou:

-- Você tem presunto cru?

O moço pensou um segundo antes de responder:

-- É, tem sim.
-- E figos?
-- Tem, sim senhor.
-- Então, por favor, prepare uma entrada de figos com presunto.
-- Ih, senhor, a gente aqui nunca fez isso.
-- Ora, é simples.

Didaticamente se pôs a explicar como deveriam ser os dois pratos idênticos que iniciariam a primeira refeição da viagem.

-- Primeiro, você coloca as fatias de presunto, uma a uma, forrando o prato. Depois, descasca os figos, uns quatro por prato, e coloca sobre o presunto. Não é simples?

O garçon manteve uma expressão interrogativa. O homem repetiu a pergunta:

-- É simples, não é?
-- É, é "simpre". Eu só acho que quatro figo por prato é muito figo.
-- Bom, se vocês estão sem figos, pode colocar uns dois por prato. Você descasca e serve.
-- Ih, moço, vou ser sincero c'o senhor: nunca vi 'cascar figo de boi.

Acabaram optando pela sugestão do chefe, um delicioso viradinho de feijão. Sem entrada.

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9.10.07

Mais um ato de inteligência do serviço público federal



O MAM do Rio de Janeiro vinha há algum tempo anunciando uma exposição das famosas fotos de Marilyn Monroe clicadas por Bert Stern em 1962, 6 semanas antes da morte da atriz. Hoje seria a abertura da mostra.

No entanto, a exposição precisou ser adiada. Talvez comece na quinta-feira, dia 11, mas ainda não há nada certo, tudo depende de o poder judiciário acatar uma liminar dos organizadores do evento. A razão? Um burocrata da alfândega do aeroporto de Guarulhos considerou, do alto de sua vasta cultura humanista, que as fotos não são obras de arte, como estava registrado na documentação.

É de se perguntar como é que um remanescente do Febeapá -- o saudoso Festival da Besteira que Assola o País, obra-prima de Stanislaw Ponte Preta que simplesmente colecionava esse tipo de burrada perpetrada pelos milicos do golpe de 64 -- pode ser entronizado como funcionário público, com o nível de responsabilidade exigido pela alfândega do maior aeroporto do país, e comete uma asneira como essa. Pior: a tal sandice não pode ser revertida, por mais óbvio que seja o engano do chupa-lápis. É preciso recorrer à justiça e torcer para que quem esteja lá julgando tenha lido alguma coisa mais do que José Mauro de Vasconcelos e livros jurídicos.

São esses caras que tomam conta deste país. São esses caras que o presidente da República quer multiplicar, com o pretexto de que servir bem ao público é uma questão de quantidade. Não é, a não ser que se acredite que dois desses sujeitos da alfândega dobrem a eficiência da repartição que comandam com o dobro de decisões estapafúrdias. Gente assim, quanto menas melhor. Depois vem dona Dilma chamar quem propõe uma requalificação do serviço público de "neoliberal". Eu, particularmente, estou de saco neocheio dessa gente.

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5.10.07

Mini 89

Alexandre é que era o grande. Agüentou tudo o que a vida lhe impôs e ainda procurou outros desafios. Entre os mais heróicos, a conquista de Helena. Território inóspito e bem defendido por uma legião de generais armados e fortes, era guerra perdida, rendição na certa, sem prisioneiros. No entanto, um ano de cerco, táticas de guerrilha e pelo menos duas caixas de vinho francês o levaram à vitória. Conquistada a cidadela, o general esmoreceu. Queria mesmo era conquistar o mundo, esse era seu desígnio. Não que não amasse Helena, amava-a como nem a si mesmo. Mas impunha-se-lhe a sina. Só lhe restou afiar de novo a espada e partir. Intimamente, dedicaria a Helena o próximo cerco.

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4.10.07
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3.10.07

Faces -- ou angel faces -- do armagedon



O mundo vai mesmo acabar. Pelo menos é o que indicam as famosas "tendências de mercado". Uma delas é o chamado "downsizing", que propugna que uma empresa deve ir eliminando os cargos de média gerência. Assim, a tendência é a de que se mantenham apenas diretores e staff. Em português claro e chauvinista, os fodões e as menininhas.

Recebi dois emails nas últimas 24 horas que ilustram perigosamente esse processo. O primeiro veio de um antigo colega de trabalho, lendário produtor gráfico, com passagem por algumas das maiores agências de publicidade do Brasil. Queixava-se de, aos cinqüenta e tantos anos, não encontrar emprego, depois de ter se aventurado em um vôo solo empresarial mal-sucedido. Embora (ou por ser) capacitadíssimo, é sempre considerado over-qualified para os postos que pleiteia.

O outro email era de uma jovem funcionária de uma empresa para a qual nós aqui na agência fizemos um pequeno projeto. Ela se queixava especificamente de um folheto que havíamos apresentado: "O texto não está bom, não é acertivo." Isso mesmo, com c. Depois, listava algumas tecnicalidades que deveriam ser reparadas na proposta. Essa moça responde diretamente ao diretor de marketing da grande empresa, que lida com planos de previdência e tem alguns milhões de reais em sua verba de marketing. Ela não tem mais de 23 anos de idade. Avalia textos. No entanto, jamais ouviu ou leu a palavra "asserção", que origina o substantivo derivado "assertividade" e o adjetivo "assertivo". Certamente é capaz de jurar que o apelo do professor da faculdade para que ela e colegas fossem mais assertivas referia-se à necessidade de dar respostas certas, e não respostas convictas.

O produtor gráfico talvez não saiba tampouco o que é uma asserção ou uma assertiva. No entanto, não lhe escapa aos olhos um moiré, não demora mais do que 5 minutos para identificar os defeitos e qualidades de uma prova, buscando a perfeição de um produto final, sabe como ninguém recomendar os recursos gráficos mais adequados a uma demanda do diretor de arte. Exerce suas atribuições como ninguém.

Já à menininha, são delegadas atribuições que ela claramente não é capaz de exercer. No entanto, lhe é pago um salário ridículo, certamente menos da metade do que ganhava seu superior mais capacitado cujo cargo foi extinto. Como compensação, lhe é concedido o direito de ser arrogante e autoritária. O resultado, na visão dos gestores, é bom, provavelmente a empresa vai fechar o ano no azul. Mas quantos anos mais fechará no azul uma empresa que prescinde de seus bons profissionais de nível médio, rachando suas atribuições entre os diretores e as menininhas? Será que ninguém percebe que, em alguns anos, o resultado das deficiências destas e da falta de tempo daqueles resultará em uma empresa pior, menos competitiva, menos competente?

Cada vez mais acredito que o fim dos tempos, o armagedon, o apocalipse não terá nada de épico ou trágico. O mundo, com seus bushes como governantes e suas reengenharias como conduta, cada vez mais dá mostras de que acabará não numa bola de fogo, mas na poça de água parada da sua mediocridade.

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1.10.07

Piauí seja aqui

A Revista piauí tem uma espécie de concurso literário que consiste no seguinte: eles propões uma frase e, em torno dela, deve-se escrever um conto de 2.500 toques. O melhor conto é publicado pela revista. A frase proposta para a revista que acabou de ir para as bancas era: O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora. Escrevi, me inscrevi e não ganhei, o vencedor foi um cearense que escreveu uma história muito melhor do que a minha. Mas já que a minha não perdeu o himeneu do ineditismo, compartilho-a abaixo com vocês:

Desatenção

Olhando o espelho com alguma piedade, até que o que via não era mau. Umas rugas a mais, a expressão endurecida pelos fatos da vida, uma brancura credencial pelas têmporas. Ainda estava ali a feição do estadista, a memória dos grandes feitos. Teimavam, no entanto, em só lembrar de uns certos deslizes, coisa pouca e passageira, que de uns anos para ali uma certa imprensa havia revelado. Fatos que, nem tanto tempo antes, sequer se atreveriam a pautar.

Achava que tudo terminaria na memória curta, ofuscada pelos novos triunfos que não lhe haviam de faltar e pela contraluz de seu passado, as duas fontes luminosas compondo um brilho irresistível. A sombra seria reservada a seus detratores.

Mas não: aproveitando-se de sua velhice, as hienas da mídia não o deixavam em paz. Todo dia encontravam um contraponto para seus feitos. Ora um dinheirinho a mais que havia melhorado a qualidade de seu teto, ora uma polaca de quem ele nem mais se lembrava, ali um rapaz a se fiar numa fisionomia familiar para arvorar-se herdeiro, acolá um apoio parlamentar mal explicado.

Tudo havia começado com uma simples desatenção, coisa de dois anos antes. Uma câmera que ele não sabia ligada havia captado uma confidência a um governador, durante a inauguração de uma escola: “Eu tenho horror de criança!” Nunca se recobrou do eco daquele horror dito entre dentes. A partir daí, parecia que a imprensa só vivia de lhe escarafunchar os escondidos. Não tinha mais paz, e o prestígio se mantinha ainda fragilmente dependurado nas glórias do passado.

O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora. Restava agora a questão do que fazer consigo mesmo, o original. Sumindo, faria a memória dos bons tempos prevalecer. Havia dois problemas: como faria isso ser indolor e como conseguiria fruir da cena de sua redenção, eternizado em cera.


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