dito assim parece à toa

30.8.07

Luto e desamparo: o caso do promotor impune



Poucos fatos públicos me deram engrulhos tantos como a decisão do Órgão Especial do Ministério Público de São Paulo de manter no cargo o promotor Thales Ferri Schoedl, assassino confesso do jovem Diego Mendes Mondanez, de 20 anos.

Em 2004, Schoedl matou Diego e feriu Felipe Siqueira Cunha de Souza com tiros de pistola. Sete tiros atingiram as vítimas. O promotor alega ter sido ameaçado de agressão pelos jovens, que teriam também feito insinuações sobre sua namorada. Todos participavam de um luau na praia de São Lourenço, onde fica o condomínio de alto padrão e gosto duvidoso Riviera de São Lourenço. As oito testemunhas ouvidas pela polícia declararam que o promotor iniciou uma discussão com os rapazes por achar que eles olhavam para sua namorada. Todas disseram que não houve abordagem dos jovens à moça. Depois de iniciada a discussão, o promotor teria sacado sua pistola e atirado primeiro no chão, depois em Diego e Felipe.

A decisão do Órgão Especial não apenas recoloca Schoedl na ativa (ele estava afastado, embora ganhasse seu salário de mais de 10 mil reais normalmente) como evita que ele seja submetido a um júri popular, por ter agora direito a foro privilegiado. O mais bizarro: o promotor recobrou seu direito a porte de arma.

O que se vê aí é uma inacreditável decisão corporativista, como outras tantas que já haviam sido tomadas nesse caso. Enquanto o país discute o papel do judiciário, frente ao megajulgamento de Brasília, o Órgão Especial do Ministério Público toma uma decisão típica de quadrilha: protege os seus, bem na linha do "aos amigos tudo, aos inimigos, a lei".

O que nos resta, fora a certeza de que nossa relação com segurança e justiça é pautada fundamentalmente pela sorte? Com que energia se ensina a um filho o que é justiça, se os responsáveis pela justiça real são os primeiros a vilipendiá-la? Como se pode imaginar que há uma instância que protege os nossos direitos se essa mesma instância contraria os mais comezinhos princípios do direito ao proteger, acima da lei e dos fatos, um dos seus? Como acreditar que o crime não compensa?

Ainda resta -- ou deveria restar -- a nós, cidadãos, a capacidade de indignação. De minha parte, fiz o que pude (bem pouco, aliás): mandei um email ao Ministério Público na véspera da decisão do Órgão Especial manifestando minha preocupação com a impunidade do jovem promotor. Agora parece que a preocupação vem se tornando realidade. Gostaria de pedir, então, aos amigos deste minúsculo espaço que também manifestassem, pelo email orgaoespecial@mp.sp.gov.br suas impressões sobre esta decisão absurda. Não sei se adianta para alguma coisa, mas pelo menos podemos fazer esses senhores entenderem o que significa a palavra "pública" a designar o tipo de serviço que prestam ou deveriam prestar.

De resto, sobram o luto e o completo desamparo.

Comments:
29.8.07

Tudo normal

Ph.: Sergio Alberti/Folha Imagem


O dono do Bahamas vai pedir asilo político. Como este é o país da piada pronta, ele quer ir para a Suécia, Dinamarca ou Holanda. Isso acontece na mesma semana em que vários ex-exilados políticos estão na berlinda do Supremo, acusados de diversos delitos, entre eles corrupção ativa e passiva e formação de quadrilha.

A continuar essa troca de papéis, logo veremos como normais cenas até ontem inimagináveis. Não vou me surpreender quando Marco Maciel renunciar a seu mandato e se engajar na trupe do Teatro Oficina, exibindo o esguio corpinho nu em uma nova versão de Os Sertões. Na mesma semana, o pastor Zé Celso assumirá a frente de seu programa na TV Record, o Oficina de Almas, devidamente convertido à doutrina de Edir Macedo, que comprará, com a fortuna adquirida de seus até então fiéis, a Christian Dior, dedicando-se a revolucionar o estilo das passarelas.

Veremos o senador ACM Júnior bradar na tribuna do Senado "Eu sou Neguinha!", apenas para ouvir seu colega paulista Eduardo Suplicy pedir-lhe um aparte para anunciar sua renúncia devido à herança que finalmente terá recebido da família Matarazzo, o que o levará a trocar essa frescura de renda mínima pelo usufruto da renda máxima em uma fazenda em Trancoso.

Hebe Camargo e Paulo Maluf se associarão em uma comunidade nudista, na qual os habitantes renunciarão a todos os bens materiais, vivendo apenas de esmolas e donativos de caridade. Frei Betto descobrirá seus talentos de cantor e venderá um milhão de discos a fiéis -- do Candomblé. O deputado Clodovil será condenado a pagar mesada pelos filhos gêmeos que nascerão de seu ruidoso relacionamento com Bruna Surfistinha, no qual ela dirá que o sexo com o parlamentar não foi consentido, ela é que não conseguiu conter os impulsos do neo-heterossexual quando ele invadiu seu quartinho no convento marista.

Finalmente, veremos, via satélite, o exilado político do início desta conversa anunciar que vendeu seu negócio, agora reaberto, à comunidade de meninas animadas comandada pelo padre Marcelo. Mas falirá rápido: todos os maridos ricos do Brasil terão aderido à onda da monogamia, depois que seus filhos solteiros resolveram guardar castidade até o casamento.

O que mais se pode esperar?

Comments:
28.8.07

Soneto da mulher bonita

Discreta e atraente, a transeunte
apenas passa, sem saber que é bela.
Poucos notam, mas desde que se junte
o olhar à alma, ela se revela.

Emerge, então, a beleza primal,
sem olhos azuis ou pernas compridas
mas com viço, visgo, vapor ancestral;
uma beleza vinda de mil vidas.

Beleza diferente a cada dia,
exibe esse fascínio sem motivo,
provoca uma atração sem primazia.

Embora traga o mesmo olhar altivo,
das musas, não tem a fotogenia:
como um pôr-do-sol, só é bela ao vivo.

Comments:
24.8.07

Mais quadras paulistanas

São Paulo ficou vazia.
De um dia para o seguinte,
voltou ao século vinte
e às coisas que não havia.

O que ontem era presente
hoje voltou ao futuro.
O relógio que eu procuro
deveria andar pra frente.

No cruzamento, o menino
quer lavar o pára-brisa.
Não ouve a voz que o avisa:
"Nem tente, turvo é o destino."

Encolhem as avenidas,
fica mais cinzento o céu.
Nas ruas, de um ser ao léu,
a chuva lava as feridas.

São Paulo ficou vazia.
De volta ao século vinte,
longe do dia seguinte,
Sumiu o que já não via.

Comments:
22.8.07

Soneto da hora marcada

Há lá na Polinésia um povo ilhéu
que, por hábito, nunca diz bom dia
nem boa tarde, ningúem quebra o chapéu.
Não se acha lá nisso antipatia.

Dizem que, lá em Caracas, as agendas
marcam só períodos, não marcam horas.
São manhãs, tardes, noites -- ou calendas.
Ninguém por lá se queixa das demoras.

Por que reclamo então de seu atraso,
nessa hora que nem foi combinada?
Em que cultura baseio meu prazo?

Há sempre uma demora assinalada,
segundos, dois minutos, um acaso:
três tempos para que eu me vire em nada.

Comments:
20.8.07

Caeiro*



Leio a prosa poetizada de Alberto Caeiro, temas tomados emprestados do arcadismo, ou pelo menos de um seguro anti-barroco, seguramente um não-poesia, uma escrita metrificada apenas pela fala, que comandará a quebra de cada verso, verso-frase, verso-fôlego, a métrica estritamente da natureza da expressão, não-métrica, de resto.

Quem não deifica a poesia, ritualização da palavra, não coloca divindades por trás da vida. Caeiro é mais do que agnosticismo, é de um naturalismo radical, bestificante de tão simples. Como tudo em poesia ocidental, é desequilibradamente auto-referente e/ou metalingüístico. Nada que empane a beleza e o arrepio que sobe à leitura de versos tão belos e tão crus. Tão belos e tão crus que parecem ser os primeiros a serem imitados pela vulgaridade, ela também crua, afinal. Caeiro é uma espécie de Miró escrito. O mais raro, o mais precioso, tanto quanto o mais imitado e mais vulgarizado.

Caeiro é o fim exuberante da poesia, é uma supernova. Depois dele, uma massaroca escura, uma volta ao passado ou um desvio de foco.

(*) Como muitos, a legenda da ilustração coloca um "i" a mais no nome do maior dos heterônimos, escrevendo "Caieiro", como brejeiramente pronuncia o português de Portugal ao dizer "Caeiro".

Comments:
17.8.07

Mini 88

Com a pedra na mão, entre o polegar esticado e indicador e médio dobrados, preparou o ataque. O alvo era o pássaro preto sobre o muro. Olhou-o com atenção e, então, viu que estava às voltas com o que parecia ser uma semente. Virava-a para um lado e para o outro com o bico, às vezes ajudando com uma pata. Ficou mais de meia hora nisso. O menino, então, deu dois passos para trás e ganhou a calçada. A pedra queimava na mão. Pouco antes da esquina, fitou a janela reluzente. Respirou, entortou a boca e lançou. O vidro do canto superior esquerdo se partiu em mil cacos. Ele correu muito, só parou em casa. Ninguém veio atrás. No bolso, outra pedra garantia o sucesso da empreitada.

Comments:
16.8.07

(apenas uma reflexão recorrente)

os vírus vivem
remontando-se renascem
nanoeternos

Comments:
14.8.07

Separados no nascimento

Voltei de férias. Achei uma revista Época em casa com a capa virada para mim. De repente, eu vi: separados no nascimento. Ou não?





Vale checar os anais. Ou a minha mente.

Comments:
3.8.07

Té já



Este blog entra em férias hoje, retornando aos leitores de boa vontade no próximo dia 13/8*.
(*) Corrigido remotamente após o alerta dos amigos.

Comments:
2.8.07

O ovo da serpente trinca



Como se não bastasse a tragédia do tamanho que é, ainda temos de encarar as hienas e os abutres vivendo eufóricos minutos de um macabro festim.

Ontem a Folha noticiou o vazamento do conteúdo da gravação de som da caixa preta do Airbus da TAM. O inconfidente foi um deputado cujo nome não foi revelado. O tal deputado ainda fez cena de chocado ao dizer que omitiria o que ouviu no final da gravação -- quanto senso de ética!

Os jornais de hoje trazem chamadas de primeira página remetendo à transcrição da fita -- agora completa, com o "Meu Deus!" pronunciado por uma voz feminina, que tanto havia impressionado o deputado inconfidente. Neste dia 2 de agosto, o Brasil se regala com o mais recente reality-show, mais reality e mais show do que qualquer outro.

Jim Burin, um dirigente da Flight Safety Foundation, deplorou, surpreso, a divulgação de material dessa espécie. Veja aqui. Não seria necessário. A olho nu é deplorável ver tal exploração, seja política, seja meramente mercantil, de um fato tão trágico. É inútil lembrar a situação das famílias dos pilotos e tripulantes ao ver escancarado o desespero deles. É deplorável constatar a falta de limite dos parlamentares que forçaram essa situação (afinal, em que os engravatados de Brasília podem contribuir com as investigações tendo acesso a esse tipo de informação?).

Big Brothers e quetais são o ovo da serpente. O que vimos nos jornais de ontem e hoje é sua casca começando a trincar.

Comments: