dito assim parece à toa

30.7.07

Roberto Fontanarrosa (1944-2007)



Morreu Roberto Fontanarrosa, na quinta-feira, 19 de julho. Eu soube apenas ontem, por um amigo que chegava de Buenos Aires. Não sei se é desatenção da mídia brasileira para o que é importante no subcontinente ou desatenção minha para a mídia. O fato é que, mesmo com atraso, é preciso comentar.

Fontanarrosa foi um dos grandes artistas da HQ argentina, junto com Quino, Hugo Pratt ou Horacio Altuna. Em sua obra se destacam dois personagens definitivos. Um é o "gaucho" Inodoro Pereyra, homem dos pampas que, ao lado de seu fiel cãozinho Mendietta, comenta o dia a dia de sua Argentina, vista pelo lado mais pobre -- algo como o Bode Orelana, Zeferino e a Graúna, do Henfil, que muitas vezes aparentavam influência dos personagens do colega argentino. Suas histórias começaram a ser publicadas em 1972, chegando à grande imprensa junto com a ditadura de Jorge Videla e seus asseclas, em 1976. Com picardia, Don Inodoro era capaz de frases hilárias, como o modo com que respondia a um "Como estás, Inodoro?" "Mal, pero acostumbráu".



O outro personagem mais conhecido do autor era Boogie El Aceitoso, a figura mais politicamente incorreta jamais concebida pelo mundo dos quadrinhos. Boogie era um veterano do Vietnã, misto de guarda-costas e mercenário, sempre a serviço das piores causas, a defendê-las com uma pistola na mão e um único neurônio. Bastante adequado no cenário que a Argentina vivia naqueles tempos.



Boogie e Inodoro, embora não fossem especificamente peças de resistência à ditadura argentina -- seriam mais chatos se tivesses apenas esse fim --, eram um contraponto importante naquele cenário sombrio.

Em janeiro último, Fontanarrosa anunciou que iria parar de desenhar, em função dos efeitos da esclerose lateral amiotrófica que já lhe paralisava os braços e acabaria por matá-lo. Vale o clichê: ele vai e sua criação fica.

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26.7.07

Ficos e ramosos



Recebo um desses emails do tipo "espalhe e ajude a salvar o Brasil". Desta vez, reproduzia uma nota do Terra Magazine sobre um movimento chamado "Cansei", liderado por empresários indignados com a situação atual do país.

A nota dá conta de que os ricaços agora vão se mobilizar e bancar uma campanha publicitária de rádio e TV para manifestar publicamente o seu "não gostei". O jornalista Bob Fernandes (um craque, diga-se de passagem), que assina a nota, tentou entrevistar os supostos líderes do movimento. Não conseguiu falar com ninguém, a não ser o presidente da OAB, que parece não saber bem do que se trata. Envolvidos com negócios milionários com o governo, os corajosos rebelados mandam dizer que não estão*, que não é com eles, que "cuma?".

Gostaria de saber de cada um desses caras qual foi a última vez que qualquer um deles colocou a mão no bolso para contribuir com o desenvolvimento do país. Quem se dispõe a bancar uma escola, um museu, um hospital? "Geramos empregos", dirão. Sim, geram, e é louvável que gerem. No entanto, vivem montados na pior distribuição de renda do mundo e lixam-se para isso. Seu lema é "farinha pouca, foda-se o pirão, que eu tenho um almoço com o João Dória".

Nós temos a pior elite do mundo. Veja isso. Não há nada mais cínico. O bom e o ruim disso é que é fogo de palha, logo acaba. Enquanto isso, em Porto Alegre, aquelas senhorinhas tricotando nos dão um fio de esperança de que é possível ver a sociedade se organizar de verdade e se tornar capaz de ver seus verdadeiros interesses defendidos. Até lá, teremos de agüentar o cinismo prosperar.

(*)Atualizando: a mídia hoje mostra os caras falando, manifestando sua indignação. Contra quem? Ah, contra a conjuntura. Mas contra o governo? Não eles se declaram "apolíticos". E tem mais: diz um dos janotinhas que "se alguém fizer uso político da campanha, nós tiramos do ar". Você reparou que coisa consistente? É um movimento não político. É muita inovação para mim. Como é um movimento não político? Seria mais ou menos como uma trepada assexuada? Uma corrida sem velocidade? Será que esses janotinhas realmente acham que estão fazendo alguma coisa pelo Brasil?

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23.7.07

Chove, chuva, chove



Chove muito em São Paulo, desde cedo. Eu tenho uma relação imatura, desinteligente e infantilóide com chuva. Numa palavra: detesto.

Com o tempo, fui compensando, com muletas racionais, minha natural falta de inteligência emocional. Vejamos quanto progresso.

A chuva ajuda muito o estado geral do meu olho esquerdo, muito sensível à seca que o outono e o inverno trazem a São Paulo.

A chuva é a parte mais bonita do ciclo da água, quando vemos, depois de mais uma rodada do milagre da natureza, a água voltar à terra, precipitando-se em fertilidade, em exuberância, em vida.

A chuva é a repetição do milagre que fez, bilhões de anos atrás, que os ciclos deste planeta quente e inóspito pudessem começar a se transformar em generosidade e fecundidade.

A chuva é a manifestação cotidiana do nosso planeta água.

Basta olhar pela janela e ver: a chuva é um pé no saco.

Ao mesmo tempo, imagino que morar no Saara Ocidental, como já cogitei, pode me trazer mais problemas do que soluções, até porque não sei o que um redator mediano em língua portuguesa pode fazer naquelas paragens do noroeste da África. Talvez dar aulas de mímica, mas não sei se é um mercado promissor.

Enquanto isso, tento outros métodos para superar minha burrice. Como a chuva me impediu de almoçar e colocou mais de uma hora de demora aos deliveries próximos, resolvi me testar e ver quantas rosquinhas de leite Santa Marta (uma delícia, recomendo) eu consigo comer até me saciar ou até enjoar. Este é outro ponto da observação científica: quanto um organismo humano suporta de rosquinhas? Enquanto escrevo, mastigo. Afinal, posso me tornar a Mme. Curie das rosquinhas.

Mais um olhar para fora: anoitece às 16h22. Piorou. Vou precisar de algo mais forte do que rosquinhas. Alguém conhece alguma marca de rosquinha com tarja preta?

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20.7.07

À moda de Camões, 3

Guardo os afetos, me lembro de pelos,
embora não me esqueça dos carinhos,
de aromas, de bouquets, passados vinhos,
a língua lembra logo de sabê-los.

Sabores de mamilos, regos, grelos
me lembram dos primeiros desalinhos,
amassos em espaços comezinhos,
miragens sob a sêde de comê-los.

Se os pelos e os peitos chegavam perto,
não era por ação ágil do macho,
mas por iniciativa da mulher

que, dona disso tudo e do que é certo,
soube sempre dar certa luz ao facho
e, como sempre, ter o que bem quer.

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19.7.07

De tragédias e aproveitadores



É um direito do ser humano desabafar. Já desabafar em público tem outras decorrências, entre elas a de que o desabafo passa a ser declaração.

O psicanalista Francisco Daudt, em artigo assinado na Folha de S.Paulo de hoje, afirma, sobre a tragédia de Congonhas: "O que ocorreu não foi acidente, foi crime". Ao longo do texto, desfia todo seu ressentimento contra o governo e o presidente. Chama-os de assassinos ou coniventes, mistura desastre aéreo com mensalão, mensalão com bolsa-família, bolsa-família com Marta Suplicy, enfim, coloca todos os lugares-comuns de quem não gosta do governo em um balaio só e toma isso por base na hora de fazer uma acusação séria: o que houve em Congonhas foi crime cometido com o dolo da omissão.

Quem sou eu para negar mensalão, escândalo da cueca, land-rovers generosos ou TVs a cabo de milhares de reais? No entanto, colocar isso como base de uma acusação pública de assassinato é algo irresponsável e leviano. Eu poderia dizer, com a mesma autoridade que Daudt tem para julgar um desastre aéreo -- ou seja, nenhuma --, que o psicanalista parece estar em um surto histérico. Mas as aparências muitas vezes enganam, e eu seria tão leviano quanto ele se apenas me fiasse nelas e em meu parco discernimento para julgá-las.

O que se vê ali não é um desabafo, apesar do autor querer que pareça um. É a exploração de uma tragédia por parte de alguém que tem raiva do governo. Raiva, diga-se, muito comum e pouco racional. Objetivamente, o governo Lula não é nem muito pior nem muito melhor do que o de seus antecessores. É, inclusive, um governo de continuidade -- continuidade até no encolhimento da fatia do orçamento disponível para investimentos, um mal que já vai para duas décadas e que tem impacto direto na crise dos transportes, o aéreo entre eles.

Não sou governista, petista ou lulista. Votei em José Serra em 2002 e em Cristovam Buarque em 2006. Não há aqui uma questão partidária ou ideológica. Há uma questão quem sabe moral, quem sabe ética. Aproveitar uma tragédia para destilar ressentimentos ou ódios político-partidários é condenável tanto num campo quanto no outro. Ceder espaço no maior jornal do país para isso é inadvertência ou sensacionalismo.

Que o passar dos dias possa colocar as coisas em seus devidos lugares.

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17.7.07

Longo ocaso



ACM está nas últimas. Embora fosse conhecido por quem acompanhasse política como um caudilho local, ganhou notoriedade nacional quando peitou o brigadeiro Délio Jardim de Matos, ministro da Aeronáutica do general Figueiredo, que havia feito um duro discurso na Bahia, em 1984, contra os dissidentes do regime militar que viriam a apoiar Tancredo Neves. Recém-saído de seu segundo mandato de governador da Bahia, vislumbrou a oportunidade de saltar de uma barca que começava a fazer água e pular para uma lancha que tinha a simpatia de Roberto Marinho. Não hesitou. Acabou ministro.

Em 1989, teve um grave infarto do miocárdio, que acabou provocando uma vasta necrose em seu coração. Operado pelo cardiologista Adib Jatene para a colocação de quatro implantes para revascularização -- dois de safena e dois de mamária -- acabou recebendo uma membrana retirada de um coração bovino para ajudar o músculo cardíaco a suportar as suturas dos implantes. Anos depois, Jatene diria que duvidava do sucesso do inédito procedimento, mas foi a única solução encontrada. Tem durado já dezoito anos.

Parece história de algum antigo moralista: ACM sobreviveu de forma inexplicável para, nove anos depois, assistir à morte de seu filho predileto e herdeiro político -- além de tido como principal presidenciável governista à época -- depois de um infarto fulminante.

Castigo de tal ordem pode ajudar a retratar um pouco o que foi ACM politicamente: autoritário, maquiavélico, com raro senso de oportunidade, consta que liderava com tal mão de ferro que fazia questão de atos de reverência de seus liderados em qualquer situação. O exemplo conhecido era o almoço semanal em um restaurante de Salvador, na porta do qual todos ficavam esperando sua chegada em pé na calçada (isso incluía, eventualmente, o governador da Bahia, o prefeito de Salvador, senadores da República, deputados), só entrando no salão e se sentando à mesa depois que ele os cumprimentasse e os convidasse a entrar.

Dizia que o apelido Toninho Malvadeza lhe tinha sido cunhado pelo general Golbery do Couto e Silva, eminência parda do governo Geisel. Na verdade, valorizava o passe. O fato é que a alcunha vinha mesmo da Bahia, designação anônima de seus notórios atributos.

Dizem que, no Brasil, um hospital atenua e uma morgue elimina temporariamente as maldades do passado. O enfermo e o defunto têm seus dias de compreensão ou mesmo de perdão. Não parece ser o caso de ACM. Não há cardiopatia, falência renal ou óbito que atenue sua memória. Parece que o amam em Salvador. Duvido. Ele é um homem temido e será lembrado com cochichos e lendas. Quem sabe alguma mãe jovem ninará o filho renitente ao embarcar no sono, ameaçando com um ACM embaixo da cama.

Não sei se é o outono do patriarca ou a seca do bem-amado. Entre García-Marquez e Dias Gomes, o fato é que vai se encerrando uma história que poderá dar uma ou outra crônica política, uma biografia semiautorizada e um capítulo ralo em um livro de história da Bahia. O fato é que morre um homem com um perfil mais ou menos comum: a história o considerará muito menos importante do que ele morrerá se considerando.

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11.7.07

Uns dias para trás para que se possa olhar à frente



Outro dia, o Ruy Castro escreveu um artigo na página 3 da Folha comentando o fenômeno do "eu era feliz e não sabia". Falava especificamente do fascínio que as pessoas tinham pelo Rio dos anos 50 e colocava dados objetivos que punham um pouco de areia naquele brilho todo. Citava coisas básicas, como a diferenciação entre "moças de família" e "galinhas", o provincianismo, a falta de comunicação rápida com o mundo, a ausência de recursos de odontologia, com metade da população de mais de 40 anos exibindo alvas dentaduras, o analfabetismo epidêmico, a pobreza democraticamente generalizada, enfim, alguns degraus abaixo no que se pode chamar de desenvolvimento humano.

Acho que vivemos algo parecido hoje ao ver como o fim do mundo a proliferação de escândalos de corrupção, assunto diário e farto de toda a mídia. Renans sucedem mensaleiros e são sucedidos por Horrorizes e outros monstrengos. Ah, mas antigamente não era assim. Não era? Ora essa, não se via, apenas isso.

Quem viveu e prestou atenção viu. O grande boom da corrupção no Brasil veio com o desairoso golpe de Estado de 1964. Imprensa e oposição amordaçados, os novos donos do poder recentemente usurpado se lambuzaram de over-prices, comissões ilegais e afins, cujas escalas subiram enormemente. Paulo Maluf remonta a essa época. Conta-se também que a ponte Rio-Niterói custou o dobro do que foi orçado para ela, uma espécie de Jacu-Pêssego avant-la-lètre e em atacado. O ministro dos transportes de então, um coronel da reserva, teria sido o humilde destinatário das benesses, que viriam bem a calhar para sua pretendida campanha presidencial (indireta, o que criaria o recorde do voto mais caro do planeta, mais uma vez o mundo se curvando ante o Brasil), melada pelo supracitado ex-governador, mais versado do que o cintura-dura nos meneios da política de gabinetes exercida à época. De resto, o homem sempre mostrou saber quem presentear e quando.

Agora, quando a coisa começa a ser tirada debaixo do tapete, é claro que o mau-cheiro fica insuportável. Mas é importante que se diga: o que se está pegando hoje começou a galgar essa escala há quarenta e tantos anos. É alvissareiro que comecem a cair feito garrafas de boliche todos esses falsos líderes, esses aproveitadores sem escrúpulos. É aritmético: quanto mais deles caírem, maior será o peso relativo dos Gabeiras que sobreviverão.

É hora de tapar o nariz e levantar a cabeça. O Brasil que emergirá dessa fossa será um Brasil melhor. Tomara que tudo isso traga como efeito colateral uma vontade maior de todos nós de participar desse processo. É o único jeito de impedir que a canalhada que hoje agoniza ressuscite em um baile de horrores.

Vamos lá. O mau-cheiro é um ótimo sinal.

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6.7.07

Já vai tarde



Mais um crocodilo chorou. Desta vez foi o senador Joaquim Roriz, pego com a boca na botija em um crime rasteiro de corrupção, destes dignos de fiscal do Detran do Haiti. Renunciou. Deve se eleger deputado com uma imensa votação em 2010.

Roriz é um tipo de político que mostra a mais antiga tradição de clientelismo. Ganhou a eleição de 1998 contra o então governador Cristovam Buarque, por uma diferença reduzida e sob suspeitas diversas. O contraste entre as duas gestões logo se fez sentir. Cristovam foi um civilizador da capital do Brasil, enquanto Roriz a reduziu a um curral eleitoral construído a partir do apoio velado às invasões de terrenos na periferia e o estímulo à migração desordenada.

Mostrou-se hábil no apego ao poder, quando reverteu uma situação delicada, no início de seu segundo mandato, que esteve prestes a perder sob acusações de sérias fraudes eleitorais. Quem se lembrar da época da primeira eleição de Lula deve recordar a frase do então presidente eleito, algo como "se houver justiça neste país, o companheiro Magela é o próximo governador de Brasília". Pois Roriz resistiu e acabou contando com o apoio velado do presidente -- ou ao menos a conveniente omissão -- para permanecer no cargo até se desincompatibilizar para concorrer ao Senado.

Agora, pegaram o homem com a boca na botija. É deprimente, mas não deixa de ser um bom sinal. Ou dois. O primeiro é o sinal que indica que a casa começa a cair para essa turma acostumada a todo tipo de negociata. O segundo é a constatação de que o problema não está no Senado, mas além dele. Essa idéia de que a chamada câmara alta é inútil e supérflua é apenas parte da decadência da representatividade do parlamento no Brasil. Ninguém mais sabe sequer em quem vota, quanto mais no que representam os cargos votados.

Na origem, a Câmara representa o povo e o Senado, as unidades da Federação, compensando as diferenças de tamanho entre as bancadas em função das diferenças de população. No entanto, os governantes da ditadura refizeram a composição da Câmara, estabelecendo bancadas mínimas e bancadas máximas, fazendo com que uma cadeira do Acre valha apenas um sexto dos votos que uma cadeira de São Paulo.

A desmoralização do Parlamento vem, antes, dos sucessivos governos. A medida provisória substituiu os decretos-lei do regime militar. Tudo isso afastou de vez a população de seus supostos representantes. Sem ter de dar satisfação a ninguém, o congresso foi tomado por rorizes de todas as espécies. Agora, parece que a coisa está ficando um pouco mais difícil para eles.

Que se vão. Só assim as casas do Legislativo terão alguma chance de ser devolvidas a nós, seus verdadeiros donos. Talvez seja a hora de resgatar algum otimismo.

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4.7.07

Apagões



A primeira página da Folha estampa a imagem recorrente de pessoas esperando por um vôo atrasado em um aeroporto brasileiro. A manchete dá conta de que o governo e as empresas vivem um impasse: aquele propõe que as empresas mudem seus horários de vôo para distribuir melhor o tráfego aéreo, estas reclamam que isso não é solução, pois apenas aumentaria o número de cadeiras vazias, podendo até impactar para cima os preços das passagens,

Por trás de tudo isso, me parece haver algo que fica cada vez mais claro: dos recursos obtidos pelo governo por meio dos impostos que todos nós pagamos, há um aparente desequilíbrio entre o que é gasto com investimento e o que é gasto com custeio. O governo não tem investido em infraestrutura. Na área de transportes, já se via o problema no escoamento da produção agrícola, todo ele feito em caminhões rodando em estradas precárias, implicando perdas inaceitávies. Agora, o apagão aéreo, precipitado pelo acidente do Boeing da Gol e as manifestações dos controladores de vôo, mostra que a demanda por infraestrutura aeroportuária também está longe de ser suprida.

Me parece óbvio: se o cobertor é curto, será razoável imaginar os gastos do governo com folha de pagamento subirem constantemente acima da inflação enquanto os investimentos em infraestrutura se resumem a tapa-buracos e assemelhados? É fácil aceitar a criação de mais de 600 novas vagas em cargos de confiança e aumentos de até 140% para certos cargos públicos quando se sabe que apenas 3% das despesas não financeiras estão disponíveis para investimentos?

A arrecadação aumenta acima da inflação, mas o gasto com pessoal aumenta na mesma proporção, o que significa que nada muda na expectativa de que o Estado investirá mais no apoio concreto (adjetivo tão caro ao presidente) ao crescimento do país. A sensação é a de que existe mais um ciclo vicioso em formação. Sem infraestrutura o país não pode crescer, sem crescimento não se combate pobreza nem desemprego, sem combater pobreza e desemprego não se cria mercado e assim por diante.

Há quem possa torcer o nariz e dizer que aeroporto é coisa de classe média ou mesmo "de burguês". Curiosamente são os mesmos que não admitem o enxugamento do Estado, mais ou menos pela mesma razão. Assim, em nome de uma obscura e mal-definida questão ideológica, fica travada a solução de uma questão aritmética. O problema é que, se a conta não fechar, uma hora o país pára, sob um apagão generalizado.

Haverá saída?

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2.7.07

F for fake



Outro dia, fuçando no Orkut, achei, em uma comunidade de língua portuguesa, uma menção a um texto que eu havia postado aqui no Dito Assim, muito tempo atrás, falando da manipulação da etimologia, de acordo com as conveniências de pseudofilósofos e auto-ajudantes em geral. O texto era um glossário etimológico inteiramente falso, escancaradamente forjado, como me parecem ser a etimologia de conveniência. Pois não é que a tal moça do Orkut levou a sério, comentando ter visto em um blog que "geladeira" vinha de "gê" e "ladeira"?

Bom, republico aqui, agora com a advertência: DITO ASSIM ADVERTE: O QUE VOCÊ VAI LER ABAIXO É INTEIRAMENTE FALSO, FANTASIOSO E SEM NENHUMA FUNDAMENTAÇÃO FILOLÓGICA.


É engraçado como até a etimologia das palavras é manipulada. Ex-alunos do versátil mistificador Olavo de Carvalho costumavam ficar fascinados com o que descobriam sobre os desígnios da língua. Um deles, amigo e inteligente, me dizia que tinha ficado muito impressionado ao descobrir a origem da palavra doente: "Do mais ente", ele me dizia entusiasmado, "'do próprio ser'. Não é genial? Significa que a moléstia, na verdade, vem da própria vítima, nasce dela." Fiquei aflito, tentei lembrar-lhe a conexão mais óbvia com a palavra "dor" é o verbo "doer", tentei fazer ver que, se a origem fosse mesmo essa, teríamos essa pista em outras línguas, algo como "fromthebeeing" ou "duêtre" ou ainda "delente". Não. Nada arrefeceu seu entusiasmo filológico.

Fiquei a matutar: as pessoas constróem a história mais ou menos do jeito que lhes parece fazer mais sentido, de forma a se encaminhar ou para um final feliz ou a partir de um início coerente. Em plena distração, pilhei-me a construir minha própria etimologia. E, feito o Américo Pisca-Pisca do Lobato, compus uma pequena natureza lingüística, tomando o exemplo do "do-ente". Vejamos como as palavras traduzem as coisas. Ou poderiam traduzir:

Alameda: origem bem clara, vem de Ala e Mêda, lugar por onde as pessoas passavam com apreensão, devido à sombra das árvores.

Atenção: também bastante evidente: vem de À e tensão, refere-se a um momento em que, da tranqüilidade que vem de estar distraído (ver verbete abaixo), movemo-nos à tensão de estar alerta.

Bebedouro: há controvérsias, mas a versão mais aceita pela medicina alternativa é a de uma louvação à hidratação: Beber+d'ouro.

Confiar: significa construir juntos, tecer juntos, con-fiar.

Desafiar: significa multiplicar a fiação supracitada por dez, daí o senso de dificuldade e superação embutido na palavra.

Distraído: significa o estado da mente em que tudo é confiança e o ser humano sente o oposto do que sentiria se traído.

Equânime: de Equus, cavalo, e anima, alma, com alma de cavalo, lembrando o fato pouco conhecido de que o cavalo é o mais equilibrado dos seres.

Filiação: refere-se à ação dos filhos, por analogia, tomado o partido político como pai, seus membros tornam-se filhos, filiam-se.

Geladeira: refere-se aos primeiros comerciantes de gelo no Brasil, mais precisamente na capital paulista, os índios da tribo Gê. Com sua topografia irregular, São Paulo exigia sacrifícios de seus comerciantes, como por exemplo, transportar enormes blocos de gelo ladeira acima. Daí, Gê-ladeira (N. do A.: não resisto a dizer que este verbete ombreia o do-ente acima citado).

Intervalo: refere-se à separação de dois terrenos ou mesmo duas casas, por um sulco profundo na terra, donde inter-valo.

Jaleco: traje, espécie de sobrecasaca leve, inventado na cidade de Jales.

Lamentar: refere-se a uma desconexão entre a mente e o inconsciente; o indivíduo que reclama lá menta, usa a mente deslocada de seu próprio eu interior individual íntimo.

Minuta: feminino de minuto. Como se sabe, a mulher é mais demorada do que o homem, daí a idéia de que o feminino de minuto seja usado para designar uma peça que normalmente é burocrática, por vezes imprecisa e demorada, além de sempre demandar correção.

Notário: que ou aquele que registra notas em um cartório ou repartição. A origem da palavra é obscura, mas designa aquele que evita que um cidadão sofra um estelionato: Não-otário, por redução, N'otário e notário.

Ônus: Despesa cuja paga é muitas vezes dolorosa.

Padaria: Lugar onde se vendem ou se fabricam pães. Panifício, panificadora. O nome em pauta vem das primeiras panificadoras; atribui-se a uma discussão entre sócios da primeira de todas, na qual um deles reclama que o estoque nunca dá para suprir toda a demanda, ao que o outro argumentaria: Se pá, daria.

Remédio: os homeopatas decifraram a etimologia. Re-médio, aquilo que se toma e no máximo nos devolve a mediocridade.

Tortura: refere-se à deformação da personalidade de quem a perpetra: Tortura, de torto.

Universo: o que deve ser traduzido em uma só palavra, na palavra primal: Uni mais verso.

Enfim, como se vê, nos dias que correm, tudo é possível. Acredite: há diversas opções no mercado para viver esta experiência.


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