dito assim parece à toa

27.6.07

Papagaiadas



Existe um fenômeno curioso, aparentemente fruto do subdesenvolvimento ou de algum complexo de inferioridade, que acomete boa parte das elites deste país. Trata-se da tendência incorrigível de se adotar supostas traduções de termos estrangeiros -- americanos, no caso dos citados aqui -- às vezes sem uma idéia clara do que se está traduzindo, às vezes com a compreensão errada do significado ou ainda caindo na armadilha dos falsos cognatos. Neste último caso, os exemplos mais comuns são industry, que significa no original setor da economia, tipo de atividade econômica e é traduzido como indústria, produzindo bizarrias como "A indústria de serviços no Brasil segue a pleno vapor", e realize, perceber em inglês, que é usado no lugar do seu falso cognato em português: "Eu realizei que uma fêmea indomada morava em mim".

Quem já não ouviu aquele marketeiro empolado, olhando de cima o passante, proferir: "Essa é a diferença entre eficiência e eficácia". Bom, em português não há diferença -- por enquanto, porque a bobagem tomou tais dimensões que, daqui a pouco, a tal diferença acaba sendo dicionarizada, não sei bem com que definições. O que ocorre é que, em algum momento, algum aluno distraído da GV ou similar pegou um texto americano desses autores que ganham fortunas ensinando o mundo fazer gestão, mas que nunca foram testados gerindo, e viu lá: "The difference between effectiveness and efficiency". Basta ver essa comparação e a anterior para se ver que o tradutor fez lambança ("lickance"?) e verteu o original como bem quis, ou como bem pôde, trocando as palavras e convocando a estudantada a encontrar a diferença entre seis e meia-dúzia.

Da mesma forma, o pessoal do marketing -- sempre eles -- que, já no passado distante, havia "traduzido" billboard por outdoor para designar a tabuleta gigante com seus anúncios de mau gosto colados (do inglês certo para o inglês errado, só mesmo o povo mais criativo do mundo inventaria), lascou uma mais recente: folheto promocional agora é folder. Isso mesmo: folder. Não é preciso ser tradutor juramentado, basta usar um MacIntosh ou mesmo o bom e velho Windows para saber que folder quer dizer pasta em inglês, mais precisamente as pastas de cartolina ou plástico, como as que se usam penduradas em arquivos. Pois bem, como to fold quer dizer dobrar, algum infeliz sapecou ao pobre e honrado folhetinho com dobra o nome bretão da pasta.

Há até casos de palavras em inglês genuinamente criadas no Brasil e jamais utilizadas na terra de tantos Bushes. Um americano com quem trabalhei aqui em São Paulo divertia-se muito com duas palavrinhas em inglês que, dizia, iria levar daqui a seu país: motoboy e datashow.

Dá até para entender por que os desenhistas de Walt Disney desenharam o Zé Carioca da forma como desenharam.

25.6.07

Grafitti, pichação e viadutos



Qual é a diferença entre pixação e grafitti? Qual é a diferença entre sujar e enfeitar?

A Folha de ontem traz uma manifestação de desagrado de grafiteiros paulistanos contra a iniciativa da prefeitura de pintar viadutos do centro da cidade onde havia desenhos deles. É legítimo que a prefeitura interfira nesses espaços?

A discussão se parece levemente com a do Cidade Limpa. O ponto é: a cidade está visualmente emporcalhada. Os principais fatores são a propaganda (aí incluídos os outdoors e as sinalizaçãoes de comércio, ambos sendo domados a duras penas pela administração da cidade), os fios suspensos, o lixo e as pichações.

Hoje de manhã, passei em frente a um prédio da Teodoro Sampaio que está inteiro pichado, de cima a baixo. Nessa rua importante de Pinheiros, no trecho entre a Faria Lima e a Pedroso de Moraes, acham-se pouquíssimas paredes e portas que não tenham sido rabiscadas com sinais incompreensíveis com spray de tinta no mais das vezes preta. O resultado é medonho.

Mas e os grafittis? É óbvio que há uma diferença, é óbvio que há coisas bem bonitas, é óbvio que não são sabotagem ou sujeira. Mas onde fica mesmo a diferença? E se o grafitti for cafona? Se combinar xadrez com listrado, pode? Se tiver o símbolo do Coríntians? E o da CBF?

Pintar por cima dos grafittis é atentar contra a liberdade de expressão? E pintar sobre pichações, então, também é? E se a pintura for um segundo grafitti, pode? E se, sobre o grafitti se pichar, ou vice-versa? As pessoas podem se expressar livremente, escolhendo livremente o suporte? Eu devo aceitar que um pichador piche meu carro? E um grafiteiro, pode grafittar o carro ao lado? Ah, carro não? E casa? Sei, casa, não, mas viaduto sim?

Existe uma discussão na origem de tudo isso que é: a quem pertence o que é público? No Brasil, pertence a alguém mais, nunca a nós, nunca ao cidadão e à sociedade. Por isso, não só se pinta ou picha, como ninguém se importa com isso, ninguém sai em defesa do que é seu, seja grafitado ou seja pintado, simplesmente porque aquilo não pertence a ninguém.
No dia em que o cidadão for mesmo um cidadão e se apropriar daquilo que lhe pertence, em sociedade com o resto dos cidadãos, defendendo a integridade do que é público, será possível ver grafittis autorizados e viadutos sem grafitti, de acordo com o que for decidido por quem de direito: a população e seus representantes.

Enquanto isso não acontece, defendo aqui também a liberdade de expressão da administração da cidade, que acha lindos os viadutos quando pintados de cinza. Interferência no espaço urbano. Pode, não pode?

21.6.07

Brasil, mais do mesmo



ACM está nas últimas. Como, aliás, tem estado, vez por outra, desde 1989, quando foi salvo pelas mãos milagrosas do cardiologista Adib Jatene, das conseqüências de um infarto avassalador. Dizem que, durante a cirurgia de implante de safenas e mamárias, o tecido do músculo cardíaco do senador estava tão prejudicado que foi necessário reforçá-lo com tecido de um coração bovino.

Com seu fade-out coincidindo com a derrota de seu afilhado Paulo Souto para o petista Jaques Wagner, parece encerrar-se mais um dos ciclos de caudilhismo do Brasil agrário-extrativista. Seu neto e herdeiro do nome, esforçado e posudo sobre a sola falsa do sapato, que busca lhe dar dois ou três centímetros a mais, não parece ser o herdeiro do avô. Nem a Bahia, de resto, parece disposta a entronizá-lo. Sobram muitos "coronéis", ainda, a começar do amigo Sarney, dono do Maranhão.
O que se pergunta é: o que virá no lugar? É irrespondível. O Maranhão tem mostrado que apenas trocou as moscas. A Bahia tem uma chance. O nordeste ainda pena sob as mãos dos eternos cultivadores da pobreza, como Collor e o agora enrascado pecuarista Renan Calheiros.

O Brasil não consegue se desenredar dos fatores crônicos de seu subdesenvolvimento. Ao que parece, entre os principais está a combinação insolúvel da falta de senso de coletivo das elites com a absoluta desarticulação de quem está fora do poder. Só se mexe o lumpesinato articulado pelo MST e assemelhados. Serão eles alternativa saudável de poder? Haverá alternativa? O caso Renan tem mostrado que demora. Mas se demorar demais, a pressa hipócrita de quem quer ver as instituições darem lugar a mais um ciclo autoritário pode ecoar nas elites adormecidas e, aí, volta tudo à era Passarinho et caterva, com aves novas e a mesma gaiola suja.

Será que meus bisnetos vão ver o que eu tinha certeza de que veria e, agora, percebo que não vou ver mais?

18.6.07

Autopsicopatia

O poeta é um psicopata.
Finge tão gelidamente
que chega a fingir que mata
a quem marca a ferro quente.

Quando escreve "o coração",
dando a impressão de figura,
literalmente alemão,
fala de carne e gordura.

Os que lêem o que escreve
só percebem o veneno
quando o corpo fica leve
e o cérebro, sereno.

Aí, então, já é tarde,
mais uma vítima cai
no poço em que a brasa arde
e a metáfora se esvai.

Fingindo-se fingidor,
o poeta então se esconde.
Sabe provocar a dor
e pôr a culpa no bonde.

15.6.07

Lamarca e a Anistia



Este parece -- e é -- um assunto sombrio. A discussão da semana é a concessão de indenizações à família de Carlos Lamarca e sua promoção post-mortem a coronel. Os militares não gostaram, a começar pelo coronel da reserva Jarbas Passarinho, ex-ministro dos ditadores Costa e Silva, Médici e Figueiredo e do controvertido governo Collor.

Alega-se que Lamarca desertou e teria cometido crimes monstruosos depois disso. O ponto é: quem melou, a mão armada, as instituições foram os grupos que, de dentro das Forças Armadas, derrubaram o presidente João Goulart e tomaram o poder. A partir daí, dizer que Lamarca agiu contra os preceitos do Exército ou da República é cinismo: os golpistas de 64 se insurgiram contra seu superior hierárquico (o presidente da República era, como é, o comandante supremo das Forças Armadas) e contra a instituição republicana, vigente e dentro da lei. Portanto, quem foi contra o Exército e a República foram eles, os auto-proclamados "revolucionários" de primeiro de abril de 1964. A partir daí, porteira aberta, ganha quem pode mais -- como, de fato, ganharam os militares, trucidando seus pouquíssimos contendores, Lamarca entre eles.

No entanto, colocada a anistia de 1979, tão aclamada por Passarinho como ato de pacificação pelo esquecimento, não se pode esquecer só aquilo que os amigos da ave rara fizeram. É preciso esquecer e recompor tudo o que for possível de 64 para a frente. Entre o que havia a recompor, estavam a carreira e a família de Lamarca, que, até janeiro de 1969, era considerado um militar exemplar. Se vale o princípio do esquecimento e da recomposição das carreiras truncadas pela ditadura e os conflitos que ela provocou ou catalisou, a família e a memória de Lamarca merecem o que lhes foi agora concedido. Independente do quão equivocada tenha sido sua conduta de reação ao regime militar -- este, desde logo, um equívoco maiúsculo na História do Brasil.

14.6.07

Da parede



Trabalho num mundo que é auto-referente. Talvez por isso dedique uma parte boa do meu tempo rarefeito a escrever aqui. Pode ser uma forma de entrar em contato. Como nos filmes em que o personagem principal está numa caverna, no quarto de um castelo ou numa floresta densa e às tantas pára e diz para o amigo(a): "Ouça!" "O quê?" "Você não ouviu esse barulho? Parece código Morse. Parece que há alguém escondido atrás dessas rochas (ou paredes ou árvores)." "Ora, Jack, é sua imaginação." "Não é não, Melinda (ou Frank). Parece que diz... 'tipo assim...', 'tipo assim merece broa', hmmm, ouça bem." E depois de horas de tentativa, já com os nós dos dedos em carne viva, o ser atrás das rochas/paredes/árvores consegue estabelecer um contato muito tênue. A partir daí, os heróis tentarão descobrir de onde exatamente vêm os sinais, mas percebem, ao longo do filme que tudo será em vão. O pobre coitado que emitia aqueles barulhos suplicantes já não se manifesta mais. O que teria acontecido com ele? Duas noites depois, ao longo das quais a caverna/castelo/floresta enfrentou temporais e a ameaça de morcegos/fantasmas/feras, os sinais reaparecem. Continuam fracos, quase inaudíveis. Mas com redobrada atenção, Jack consegue decifrar um pouco mais: "Melinda (ou Frank), não é 'tipo', é 'dito'." Mas, no segundo seguinte, a comunicação cessa de novo. No entanto, desta vez, Melissa (ou Frank) consegue entreouvir uma voz muito baixa, que, embora tivesse a entonação de um berro, soava mais ou menos como um quinto de sussurro. "Jack, acho que ouvi algo. Um pequeno sussurro, parecia uma despedida, Jack. 'Fruta que partiu, fruta que partiu!' Que quererá o pobre diabo dizer, Jack?" "Não sei, Melinda (ou Frank). Na verdade, acho que o coitado já perdeu a razão. Acho melhor irmos embora." Talvez Melinda (ou Frank) concorde, talvez prefira salvar o dono da voz. Mas o mais provável é que apenas mantenha contato com os sinais telegráficos batucados na rocha/parede/árvore, até perceber um último gemido, quase um ganido do misterioso vivente. "Baraaaaalho!", ao que os heróis entenderão como um desvio final do ser que, então, silenciará. Salvo por um pum aqui e ali.

11.6.07

Mini 87

Depois de desistir, Ivana voltou atrás. Desistiu de desistir. Não agüentava mais a cidade grande, mas não se via mais sem tantos cinemas. Não queria mais o barulho e a fuligem, mas já lhe era revelada a farsa do azul puro e do desafinado desruído.

Em vez de voltar a casa, Ivana parou no caminho. Da São João foi a Pinheiros, pouco mais de oito quilômetros, talvez uma primeira prestação paga no preço do retorno -- uma de mais ou menos 36. Não sabia que ia ficar devendo, mas de Pinheiros foi a Londres, de lá foi ao cartório, à lua-de-mel e três vezes às parteiras. Três pares de olhos verdes para sempre, treze quilos a mais, passageiros. Acabou voltando, mas nunca fez o trajeto todo. A filha mais velha ria-se: mamãe não desiste.

6.6.07

Almejo

Meu amor, que utopia nós teremos
se o mundo insiste em dar toda resposta?
Que morto anônimo lamentaremos
se a cada corpo cabe a placa posta?

Que utopia almejamos, meu amor,
se o mundo não mais aventa, detesta?
Que vida nós queremos recompor
se a vida afora é sempre tão funesta?

Essa utopia é terra de ninguém,
sonho cubículo em que não cabemos,
mesmo o bem feito sem olhar a quem.

A utopia pouca que vivemos
pode ser lida sem muito porém,
é bem simples: utópicos, nos temos.

4.6.07

Um pouquinho de mau-humor


Paris Hilton foi em cana. Três semanas. A razão: foi flagrada dirigindo alcoolizada, foi condenada por isso, teve a pena transformada em condicional e não cumpriu as regras. Aí, o resultado foi cana fechada, com uniforme e tudo. Três semanas. Não serão suficientes para corromper a moça ou transformá-la numa criminosa. Afinal, ela não vai cumprir a pena em Bangu 1. Mas darão uma lição simples: impunidade não é parte das privilégios que a riqueza traz ao cidadão de seu país.

+ Renan Calheiros continua presidente do Senado.

+ Os presídios do Brasil não são capazes de controlar o uso de telefones celulares. E o que é incrível: nem de bloqueá-los pelo lado de fora.

+ O jogo do bicho,apesar de ilegal, foi "legalizado" em pelo menos dois estados do Brasil.

+ No Brasil, um despachante é capaz de desentravar qualquer processo burocrático por uma módica quantia em dinheiro. Um cidadão comum é incapaz de fazê-lo pelos processos normais.

+ No Brasil, há invasões e invasões. Dependendo da sigla do invasor, são crimes passíveis de prisão ou movimentos sociais legítimos passíveis de subsídio.

+ Menos de 5% dos crimes de assassinato não apanhados em flagrante são resolvidos no Brasil.

+ Permanece em liberdade o nobre jornalista Pimenta Neves, que matou a ex-namorada Sandra Gomide a tiros por não concordar com a posição dela em relação ao namoro.

+ Há uma frase célebre entre advogados criminalistas no Brasil: "Com dinheiro, você pode matar alguém uma vez na vida permanecer livre."

Paris Hilton foi em cana.

1.6.07

Saudade



Saudade. Talvez pelo fato de poder mitigá-la daqui a algumas horas, me pus hoje a pensar nesse sentimento que, por certo, deve ser explicado por algum cientista moderno como mais um fator evolutivo de sobrevivência. Independente de termos a glória de descobrir que o homem primitivo desenvolveu a saudade como forma de defesa da espécie contra algum malvado tigre de dente de sabre, o que acho curioso na minha experiência com esse sentimento (que os ufanistas da brasilidade adoram fazer crer "não há tradução para saudade em nenhuma outra língua", esquecendo que o que não se traduz em nenhuma outra língua é a palavra "despachante" ou no mínimo a sua atribuição) é que tenho muito pouca saudade dos tempos que já vivi. Tenho saudade das pessoas amadas quando elas estão longe, e só.

Mas há um outro curioso sentimento que, se não é saudade, é primo dela, que me acomete em relação a tempos que eu não vivi. Sim, isso mesmo: tenho saudade de tempos anteriores a meu nascimento. Assim, volta e meia me ponho nostálgico a sentir uma pontuda saudade do set de filmagens de High Society. Ou do Vogue, na avenida Princesa Isabel pré-Meridien, destruído por um incêndio em 1955, um ano antes da realização do filme de Charles Walters. Tenho uma imensa saudade da avenida Paulista antes da construção do Conjunto Nacional, como tenho saudade das harmonias vocais de The Cordettes, a pedir ao Mister Sandman um sonho. Mário Reis e Chico Alves, nem pensar: me torço de saudade daqueles tempos em que a oleosa brilhantina era apenas uma das dificuldades que os homens criavam para si mesmos. Tenho certeza de que as conversas com Fernando Lobo, Nelson Rodrigues, Antônio Maria e Vinicius de Moraes, ainda de gravata, não terão paralelo hoje.

É realmente estranho, até um pouco bizarro. Idealização pura, claro. Mas o fato é que, apesar de todas as coisas boas que fiz, todas as pessoas geniais que conheci, os amores, os desamores (igualmente intensos, ambos), as emoções, as dores, as realizações, os fiascos, enfim, toda essa vida de momentos intensos (outros nem tanto) me traz diversos e variados sentimentos -- inclusive inabaláveis otimismo e esperança. Mas não me ponho a louvar ou lamentar o passado que vivi. Acho mesmo que é para dar mais tempo aos sentimentos relativos ao futuro. No entanto, basta falar de Orlando Silva que já brota na ponta da língua alguma frase nostálgica. Estranha mente, estranho coração.