dito assim parece à toa

29.5.07

Amálgama

Não há franqueza mais plena,
não há verdade mais crua
que a dita à boca pequena
por você, quando está nua.

Não há como a sua pele
para pôr tudo tão claro,
nada que o dito revele,
tudo tato, tudo faro.

Tato, faro, fato é
que, quando essa pele toca,
não há razão nem há fé,
apenas o que provoca:

a verdade à flor do toque,
a pura revelação,
o tratamento de choque,
a fusão de sim e não.

Não há palavra cantada,
não há melodia ou verso.
Entre você e eu, nada,
você, o mar; eu, imerso.

25.5.07

A greve da USP: história que se repete ou farsa que se renova?



É raro colocar aqui textos de outras pessoas. Na verdade, acho que, tirando umas duas letras de música e um texto do Jabor, acho que nunca coloquei nada de alguém mais. Mas hoje, gostaria de compartilhar idéias retiradas de um texto que li na Folha de ontem (estou umas 36 horas atrasado, mas já sei que este é o espaço menos quente deste meio fervendo que é a internet), escrito pelo filósofo e cientista social José Arthur Giannotti, um dos intelectuais de referência em sua área de atuação, reconhecido e respeitado em todos os espectros do debate científico e político.

Giannotti comenta a atual greve da USP num artigo chamado "Autonomia universitária ameaçada" (Folha, 24/5, pag. A3, coluna Tendências/Debates). Vale ler uns trechos (os grifos são meus):

A cada dia, as universidades estaduais paulistas perdem um pedaço de sua autonomia. Pois esta configura, antes de tudo, um dos meios mais eficazes para cumprir o mandato -- que o Estado e a sociedade paulista lhes conferiram -- para realizar, da melhor forma possível, pesquisa, ensino e extensão em nível superior. Quando a universidade passa sistematicamente a solapar uma de suas tarefas, deixa de cumprir esse mandato, pondo em risco a autonomia duramente conquistada.

Até quando se pode admitir que uma instituição pública passe a girar em falso a seu bel-prazer? Nos últimos anos, a cada mês de maio, alguns de seus institutos ou algumas de suas categorias entram em greve. Não é toda a universidade que pára, pois muitas escolas continuam a manter a rotina dos trabalhos. No entanto, nas mais "letradas", uma vez os professores, outra, os alunos e, por fim, os funcionários iniciam o movimento. Tomam em geral como bandeira reivindicações salariais, as mais justas, pois, na média, os salários do pessoal universitário estão incrivelmente baixos.


O autor, então, comenta o caráter pequeno-burguês do movimento, a partir do teor de suas reinvindicações, e põe em questão exigências como o aumento da cota de 9,57% da arrecadação do ICMS, recursos a serem geridos pelos próprios universitários, sem que se examine se tal aumento cabe na organização racional e democrática do Orçamento(...)

Giannotti, aí, comenta o rombo criado pelas aposentadorias, estabelecidas sem que para isso se criasse um fundo de pensão que aliviasse a folha de pagamento, comprometendo, com isso, cerca de 30% do orçamento. No dizer do professor, confundem-se verbas com maná que cai do céu. Pensamento mágico: é impressionante como esse fenômeno saudável da infância e desastroso na vida adulta percorre o Brasil e parte significativa de sua esquerda.

Em seu trecho a meu ver mais importante, Giannotti coloca dois problemas simétricos: a falta de disposição da comunidade universitária de discutir os decretos do governador que consideram prejudiciais à sua atividade e a tendência de grupos minoritários mais barulhentos de tecer metas políticas descoladas do real.

Prossegue o professor: No fundo, reside um projeto político antidemocrático que ensina alunos, funcionários e professores a desobedecer toda ordem constituída, a não cumprir contratos, a não ter responsabilidade pelo trabalho que deveriam estar desenvolvendo. Tudo isso sem risco, pois, não tendo sido o direito de greve até agora regulamentado, os salários continuarão sendo pagos. Por sua vez, as aulas perdidas serão repostas, como se um ano letivo truncado pudesse ser refeito em poucos dias e muito pouco trabalho. Mantém-se apenas a tradição de fazer de conta que se trabalha (...)

Giannotti então termina com uma advertência: De fato, tudo me leva a crer que a autonomia universitária está sendo ameaçada, mas, antes de tudo, por esses focos de irracionalidade interna que impedem que a universidade se pense a si mesma e esboce o projeto urgente de sua reforma.

Este é um assunto que me fez pensar naquela velha idéia de que a história se repete apenas como farsa -- quando não como tragédia. Participei do renascer do movimento estudantil depois dos anos de chumbo. Em 1977, pela primeira vez em quase uma década, os estudantes da USP organizaram uma passeata que foi da Cidade Universitária até o Largo de Pinheiros. Era uma manifestação de cerca de 5 mil estudantes, pouco mais talvez, reinvindicando mais verbas para educação. Representou o renascimento do movimento, em plena ditadura. Ajudou a redemocratização, em alguma medida. Levava uma luta justa e clara. Hoje, o que se vê é uma mistura mal-ajambrada de corporativismo e manipulação política. Quem sofre é a própria universidade. De modo mais agudo, a USP.

Antigamente, se esperava que, em um estado democrático, a Universidade produzisse conhecimento e, dentro delas, os estudantes fossem a grande força de inovação. Hoje, cada vez mais se reproduzem clichês e se vê berrar as vanguardas do atraso.

23.5.07

Legado, legal



Antes de entrar, ouço ainda baixo, um som familiar. Seria possível? Araçá Azul? O primeiro disco do Caetano depois da volta do exílio era uma viagem experimental em que se alternavam momentos quase líricos com passeios pela música experimental, de Júlia/Moreno, uma deliciosa canção tentando antecipar quem seria o filho(a) a nascer, a Sugarcane Fields Forever, conjunto de fragmentos de difícil digestão, mas inegável beleza.

Era mesmo Araçá Azul. Mas não estava esgotado, depois do fracasso de vendas lá em 1974? E como ele estava tocando ali, tão fora de contexto? Afinal, quem estava ouvindo aquilo era minha filha, nascida 17 anos depois do lançamento do disco. Entrei, recebido pelo sorriso lindo de sempre.

-- É o Araçá Azul?
-- É.
-- Mas como?
-- Baixei da internet.
-- Mas...
-- Eu adoro esse disco.

Ouvimos juntos até o fim, ela como novidade, eu como resgate. Não resisti à pergunta:

-- Quem te falou de Araçá Azul?
-- Pai, é um mito.
-- Além de tudo tá esgotado.
-- Ora, pai, baixei da internet.

Em alta resolução, como dava para ouvir. Ouvimos mais uma vez o começo do disco, dona Edite do Prato documentada cantando alguma coisa do folclore do Recôncavo.

Ouvi com incontida alegria. Era como se parte do legado que sempre pretendi deixar a ela tivesse ali se materializado.

21.5.07

Do fundo do baú, uma das tentativas de verso livre:

Exercício

Cogite-me pai de seu primeiro filho.
Pense em mim como um guardanapo,
um Torquato Neto
ligeiro, de jogar fora
e gravar
apenas o baton.

Cogite ter em mim
sua próxima parada. Escala,
métrica, medida
limite ou destino,
tino de instante,
insight.

Cogite erguer sumos,
não custa. Quem sabe?
Lamber é sempre âmbar,
é bom. E sabe
àquilo que se supõe
saber a mais.

Cogite gozar, caçoar de mim.
Eu não presto contas,
eu não custo nada,
mas sirvo. E sei que passo
lasso, largo,
rápido.

Cogite-me pai, pau, falo,
fala, princípio, verbo.
Cogite-me evangelho,
velho blasfemo cheio
de hormônios e atos,
de torquatos e netos.

18.5.07

Livre pensar



Uma das razões de ser deste espaço é a discussão desarmada de idéias. Nós passamos parte da vida escolhendo ideais e outra parte defendendo-os, às vezes meio cegamente, como defendemos as qualidades de nossos times de futebol. Dificilmente nos dispomos a pôr em cheque o que pensamos. Eu tenho tentado fazer isso, ao mesmo tempo em que busco manter um entusiasmo pelo novo e uma dose de desconfiança do establishment que, creio, são fatores importantes para se manter uma vida ideologicamente saudável. Mas que dose de descofiança será a mais adequada?

Outro dia, li -- ou ouvi ou o Márcio me contou -- uma frase de um pensador que, em meio a esta grande transição do pensamento e do mundo, declarou que ser de esquerda era, em última análise, ser a favor da justiça, dos mais fracos, da paz. Na verdade, é uma visão idealista -- o que, por si só contraria o pensamento clássico da esquerda, ao menos do marxismo -- mas que cabe para, mais ou menos, definir o campo político-ideológico em que penso caminhar.

Mas não há como negar que o mundo de hoje exige o que eu chamaria de independência de pensamento. É tudo tão complexo, transitório e indefinido, que não há uma corrente de pensamento a adotar, não há mais um time político ideológico pelo qual torcer. É preciso, pois, buscar onde estão os que cabem naquela definição idealista e onde estão os que atrasam o mundo.

Por exemplo: quinze anos atrás, eu provavelmente acharia justa a greve do Ibama. Hoje, tenho dúvidas. Aliás, tenho sérias dúvidas sobre o "progressismo" dos sindicatos de funcionários públicos. Ao mesmo tempo, tenho tido uma impressão cada vez melhor da administração do município de São Paulo -- que, no entanto, tem um prefeito do PFL (atual DEM, que coisa ridícula), partido pelo qual eu tenho repulsa, mas que ajudou a viabilizar a transição democrática em 1984 e 1985. Na mesma linha, tenho percebido que não há gente mais retrógrada do que um certo tipo de ambientalista que propugna a paralisação do mundo. Como também são retrógrados os "progressismos" do PSTU e mais ainda, os do MST, turma que fotografou o mundo em 1950 e ainda transita pelo mesmo mapa -- com o agravante de explorar uma massa de manobra crédula e sem alternativas.

Isso não me coloca a favor de Dubia Bush, dos posseiros latifundiários do Pará, não ameniza o asco que tenho de figuras históricas da direita, como Pinochet, Franco ou Salazar, não me faz gostar do Likud ou de Jarbas Passarinho (este, uma das mais cínicas figuras da República), não me faz acreditar que o Jornal Nacional pratica jornalismo independente, não me torna um admirador do empresariado nacional -- em sua ainda maioria adepto do farinha-pouca-meu-pirão-primeiro.

Mas não posso negar que as teses a favor de energia nuclear para geração de eletricidade, a privatização de setores da economia que não precisam ficar sob a tutela do Estado, a aplicação de critérios de eficiência para a avaliação do funcionário público me soam bastante bem. Da mesma forma que me soa muito mal a idéia de cotas para negros ou mulheres, que me parecem uma falsificação grosseira do que poderia ser uma política social inclusiva -- que deveria, na verdade, classificar para fim de atribuição de cotas e outras medidas inclusivas por níveis de renda, que é onde mora o problema, e não por raça, credo ou sexo.

Livre pensar. Há um certo individualismo nessa idéia, se tomada de forma estrita. Mas não há como negar que, nos tempos em que estamos, com a democratização da informação aflorando como nunca, é quase caricato imaginar que se deva uma obediência moral seja ao socialismo institucionalizado, ao liberalismo acrítico ou mesmo às religiões e, uma vez concedida essa obediência, deva-se manter o pensamento imutável até o fim dos dias do pensante. Não, isso não é o contrário de livre pensar, é o contrário de pensar.

14.5.07

Notinhas bentas




Bento 16 não fala português, pelo menos não com a fluência que procura demonstrar ao ler os discursos e missas. Na conversa corrente, usa um intérprete.

***

Ouvi de uma católica praticante e dedicada: "É muito cômodo para o papa dizer que quer qualidade e não quantidade dos católicos".

***

Bento 16 tem oitenta anos. A última vez em que um papa tão idoso foi eleito, o resultado foi o Concílio Vaticano 2º. O papado de João 23 durou apenas 5 anos, mas mudou a cara da Igreja. Será que Bento 16 veio para desmudar o que João 23 mudou?

***

Os sapatos de Bento 16 são Prada e os óculos escuros, Gucci.

***

O quórum da missa em Aparecida do Norte foi apenas um terço do esperado. A legião de "não-praticantes" aumenta.

***

A "opção pelos pobres" afastou os fiéis da Igreja? Ou será que o afastamento não teria sido maior, com a manutenção da missa em latim, do Index e da evidente opção pelos poderosos, que marcavam a igreja até então (e, cá e lá, ainda marcam)?

***

O papa tem cara de vilão do Batman, mas isso já não é culpa dele.

9.5.07

O rebanho e os que o tratam


Piergiorgio Welby ainda jovem

Em dezembro do ano passado, escrevi o texto que reproduzo abaixo. Creio que é adequado neste momento em que o papa chega ao Brasil e a discussão gira ainda em torno ainda de camisinhas, pílulas, celibato.

No último dia 20 de dezembro, o italiano Piergiorgio Welby morreu de insuficiência respiratória, causada pela evolução de uma distrofia muscular progressiva que já havia causado a perda de seus movimentos e mesmo da capacidade de se comunicar com as outras pessoas por seus próprios meios. O que mantinha Welby vivo era a ação de um aparelho que o fazia respirar. Há anos ele queria que o aparelho fosse desligado para que pudesse morrer em paz e com um mínimo de dignidade.

O médico anestesista Mario Riccio aceitou os apelos do paciente e da família e, depois de sedar Welby, desligou o aparelho que o fazia respirar. Welby, enfim, foi desta para melhor -- no caso dele, a literalidade da expressão é indiscutível.

Pois não é que a carolice hipócrita dos padrecos romanos, que não se avexam em apoiar ou aceitar placidamente a pena de morte quando perpetrada por gente que lhes dá o dízimo, decidiu negar a Welby o direito a um enterro cristão? O Vicariato de Roma negou à família a autorização para que se realizassem exéquias religiosas por ter o italiano manifestado publicamente a vontade de pôr fim à própria vida, o que contrastaria com a doutrina católica.

É de perversão que estamos falando. Em função de ter o paciente exposto sua vontade de morrer, os vigários julgaram que ele merecia uma condenação ao suplício eterno. Morto, mereceu o tratamento dos pagãos, a negação, para quem é católico, da paz.

Como é que essa gente pode vir falar de piedade, tolerância, amor? Como é que esses hipócritas de batina podem vir a público e dizer "amai-vos uns aos outros"? Com que suporte ético podem criticar a intolerância, se alegam coisas como "não podemos saber se o paciente fez o pedido porque recusava um tratamento que, para ele, era insuportável, ou se o paciente fez o pedido para o transformar numa batalha política e, com isso, obter uma lei que abra caminho para a eutanásia", como fez o bispo Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifícia para a Vida (nomezinho não menos hipócrita)? O direito romano prega: in dubio pro reu. Os padrecos de Roma fazem o contrário.

Declaro, pois, não ter nenhuma relação espiritual com gente que impõe a uma mãe a pena de carregar um feto anencéfalo até o fim da gravidez, que apóia assassinos como Costa e Silva e Oliveira Salazar, que prefere a AIDS à camisinha, a multiparidade das mulheres pobres ao uso da pílula. Essa gente não merece o meu respeito. Que me neguem, também, quando chegada a hora, as exéquias que proibiram a Piergiorgio Welby.

Em tempo: quero ver como esses padrecos, tão ciosos da seleção de quem merece ou não ser sepultado seguindo seus ritos, vão lidar com as exéquias a celebrar durante o sepultamento do primeiro coleguinha pedófilo que vier a falecer.

8.5.07

Tintin no país dos niilistas



Na terça-feira, 22/5, a HBO vai exibir o documentário Tintim e Eu, sobre um dos grandes criadores do século 20, o autor e artista gráfico belga Georges Rémy, mais conhecido com Hergé, criador de Tintim, o herói das histórias em quadrinhos que contou um pouco (ou um quase tudo, na fala do trailer promocional da emissora) da história do vingtième siècle.

Entre os leitores de Tintin, há diversas opiniões sobre qual seria o melhor dos álbuns ¿ que eu diria primorosos todos, a partir de "O Loto Azul", o quinto deles. Para alguns, é o duplo formado por "O Segredo do Licorne" e "O Tesouro de Rackham o Terrível", para outros é "Vôo 714 para Sidney", o penúltimo. Muitos vão lembrar de outro duplo, formado por "Rumo à Lua" e "Explorando a Lua", de um Hergé mais Júlio Verne do que nunca. Há ainda quem diga que "Tintim no Tibete" é o insuperável. Eu gosto de lembrar, não sei se como a melhor, mas talvez como o mais original e elegante, de "As Jóias da Castafiore".

O que essa história tem de original é o fato de que os personagens, que conhecemos sempre em aventuras mundo afora, ficam em casa -- na verdade, o Castelo de Moulinsart, comprado pelo Capitão Haddock com os proventos do tal tesouro de Rackham o Terrível. Não só ficam em casa, como nela recebem a soprano Bianca Castafiore, companheira de aventuras de Tintin desde "O Cetro de Otokar", sempre encantando alguns e constrangendo a maioria, com seus trinados líricos, quebrando aqui e ali uma taça de cristal.

A prima donna chega ao castelo com seu assistente e um estojo de jóias valiosíssimas. Às tantas, ela percebe que a mais bela e valiosa de suas jóias havia sumido. A desconfiança, depois de circular sobre as pessoas mais próximas da casa, recai sobre um acampamento de ciganos assentado na estrada que margeia o castelo. No fim, o que se vê é que todos os suspeitos eram inocentes e toda a suspeição era fruto de precipitação ou preconceito.

Me vem à mente, ao lembrar dessa historieta deliciosa e do alerta que Hergé faz piscar, a tendência crescente, em nosso mundo de idéias escassas e, como tal, de preconceitos abundantes, de discriminar minorias, justificando isso com fatos imaginados mais a partir de algo próximo à superstição do que de qualquer evidência consistente.

É preocupante perceber um refluxo da tentação anti-semita que, de tempos em tempos, de crises em crises, acomete o Ocidente. A partir dos fatos que se passam em Israel e microrregião, dos erros políticos históricos e recentes, em relação à ocupação da Palestina, das críticas ao estabelecimento de seu Estado, da simbiose com os Estados Unidos, da tática do ataque como melhor defesa, vemos claramente o aparecimento de uma postura que não se atém à crítica política contextualizada, mas vai à generalização da intolerância, com toda a sua irracionalidade. Há um ovo de serpente sendo chocado.

Tentando olhar à distância, parece claro que, como em "As Jóias da Castafiore", a falta de uma meta a superar -- seja a Lua a ser conquistada pelos heróis destemidos, seja o mundo melhor das utopias do século passado -- leva à auto-referência que exclui o diferente. Como na alegoria do álbum, quem está para lá da nossa cerca não pode senão querer o nosso mal -- ou o nosso butim. Como no caso dos ciganos acampados, o judeu sem terra, mas com barras de ouro no cofre, só pode ser o financiador dos males do mundo, apenas pelo interesse que tem em nosso valioso porta-jóias.

É sempre de se esperar que, como no álbum de Hergé, a página 62 mostre o engano que se ia cometendo. Mas nem sempre a história do mundo tem a lógica da história em quadrinhos.

3.5.07

Propaganda, só para mudar um pouco o foco



Só para falar um pouco do ofício, algumas coisas que, se eu fosse o ministro geral da comunicação ou o santo padroeiro da propaganda, eu colocaria no índex, proibiria sob pena de tortura máxima -- dois anos seguidos ouvindo Marina Lima cantando bossa-nova ou dois meses lendo frases do filho do Ênio Mainardi ou ainda quatro anos ouvindo discursos do Lula -- epa, essa já rola. Vejam abaixo os primeiros delitos que eu combateria:

- Filmes com chuva em câmera lenta.

- Filmes com namorados em câmera lenta.

- Publicidade em banheiros e elevadores, de forma geral (do jeito que está, vão acabar colocando anúncios no banheiro das casas da gente. Ah, já tem?).

- Anúncios com fotos intencionalmente desbotadas e/ou esverdeadas.

- Gritos.

- Sussurros.

- Trocadilhos

- Trocadilhos visuais, notadamente aqueles compondo imagem de coração.

- Anúncios com cheiros, sobretudo os indeléveis.

- Modelos femininos com cara de mau.

- Modelos masculinos com cara de bobo.

- Modelos de ambos os sexos saltando.

- Títulos de anúncios com a estrutura "Não é você que precisa X, é o seu Y", como por exemplo em: Não é você que precisa dar um gás, é o seu fogão.

- Slogans começados por "Porque", como em Papel higiênico Amoreira. Porque de áspera já basta a vida.

Isso sem contar o óbvio: alguém em sã consciência pode admitir propaganda de bebida alcoólica em mídia de massa? Este sítio aceita contribuições para tão nobre causa.

2.5.07

Razão? Que razão?

Procuram-se ideais. Esta deveria ser a placa na porta do mundo do século 21.

Não digo isso tentando apontar uma falta externa a mim, um pecado alheio. Incluo-me nisso e confesso que, em boa parte, o que considerei como evolução da minha forma de pensar, de meu amadurecimento, veio revestido dessa carência.

Durante anos, como todos à minha volta, eu tinha e defendia o ideal de uma sociedade mais justa e igualitária, com a mitigação das injustiças, a reeducação do ser humano ao ponto de voltar à bondade atávica rousseauniana e, com a desambição que dela viria, evoluir à sociedade sem classes e sem desigualdade, a quem Marx havia dado as letras de maior engenho. Na versão extrema do sonho, havia ainda a perspectiva de vê-lo realizado durante os anos que me caberiam por aqui.

O tempo veio mostrando que boa parte desses ideais era fruto de uma imensa e constrangedora ingenuidade, que tornava, a mim e aos como eu, ora de uma imensa inutilidade para a evolução real do mundo, ora simples massa de manobra de manipuladores pragmáticos -- Zé Dirceu talvez seja o exemplo emblemático.

O fato é que a conexão com o mundo real e a preponderância das soluções práticas nos têm feito reféns do tudo-pode. Cada vez menos se vê uma decisão ser tomada em nome do futuro, de um mundo melhor, do próximo. Isso se dá no plano pessoal como no plano institucional. O governo americano decide que não vai impor limites a sua emissão de gás carbônico porque isso atrapalha o balanço das empresas de seu país. Os japoneses buscam manter o direito de exterminar baleias e golfinhos em nome de sua dieta.

O que acontece? Será que o ser humano não percebe que pragmático mesmo é ser idealista, é ter ambição pelo futuro, que paz é sinônimo de conforto e harmonia é fator de bem-estar?

É isso que chamamos racional?