dito assim parece à toa |
|
|
Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Set 2006 Out 2006 Nov 2006 Dez 2006 Jan 2007 Fev 2007 Mar 2007 Abr 2007 Dizem por aí: Dito Assim - O outro Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde Blog da Milk Frankamente Pecus Bilis Navegar Impreciso Muié Pérola Negra Filosoclics Guga Alayon Cyn City A Vida em Palavras Taxitramas Marina W. Terapia Zero Talvez sim, talvez não Alex Senna Drops da Fal Infinito Positivo Zeitgeist Críticas e Reflexões Peri S. Coppio Josimar Melo Lord Broken Pottery Lucia Guanaes, fotos MM Leite, fotos |
29.3.07
Até segunda-feira, quando eu volto a trabalhar
O Terreiro de Jesus, onde o primeiro Jayme Serva estudou São Salvador, Bahia de São Salvador A terra de Nosso Senhor Pedaço de terra que é meu São Salvador, Bahia de São Salvador A terra do branco mulato A terra do preto doutor São Salvador, Bahia de São Salvador A terra do Nosso Senhor Do Nosso Senhor do Bonfim Oh Bahia, Bahia cidade de São Salvador Bahia oh, Bahia, Bahia cidade de São Salvador Grande Caymmi. 28.3.07
Boa notícia de Brasília
Ontem, o Tribunal Superior Eleitoral emitiu parecer em que considera que o mandato parlamentar pertence ao partido do eleito. Ou seja: entrou pelo PSDB ou pelo PT ou pelo PRONA, ou o deputado cumpre o mandato por seu partido de origem ou cede a vaga ao suplente. Isso era uma das medidas mais esperadas da tal reforma política que nunca sai. A dança de legendas, ao sabor dos gostos e interesses do Executivo da vez, vinha tornando impossível desenvolver no Brasil uma das bases de uma democracia moderna: partidos maduros e montados em torno de compromissos ideológicos e políticos claros. Só aqui se vê aberração como "o PMDB da Câmara e o PMDB do Senado", por exemplo. Com o parecer do TSE -- que, a seguir a tradição brasileira, deve ser confirmado pelas instâncias superiores --, a lógica eleitoral passa a prevalecer. Só para lembrar, o que determina a formação das bancadas na Câmara dos Deputados é a proporcionalidade dos votos nos partidos. Assim: número de votos válidos dividido por número de cadeiras dá o quociente eleitoral; número de votos do partido dividido por quociente eleitoral dá o número de cadeiras de cada partido. Aí se toma a lista dos mais votados, que vão ocupar, pela ordem, as cadeiras obtidas pelo partido. Se o ocupante morre, renuncia ou resolve mudar-se para Turks and Caicos, assumirá seu lugar o primeiro suplente do partido. Portanto, quando o sujeito chega lá levado pelos votos do Prona e, ato contínuo, muda para o PAN, ele está perpetrando um pequeno estelionato. Afinal, a vaga não é só sua. No entanto, a tradição de camaradagem e acochambramento, que marca este povo generoso e seus representantes mais generosos ainda, criou o uso e costume de se deixar o parlamentar apropriar-se da cadeira -- que é também do eleitor e do partido -- e fazer dela um gato-sapato eleitoral. A decisão do TSE apressa a retomada de um princípio básico, sem a necessidade de se esperar a reforma política, mortalha de Penélope que os atuais parlamentares tricotam de dia para desfiar à noite. O Tribunal foi pertinente, preciso e justo. Esperemos que o acochambramento não apareça para revogar ou "relativizar" esta sábia decisão, pequeno avanço no amadurecimento de nossa subdesenvolvida e deformada estrutura política. 27.3.07
Taxitramas: veja o filme e leia o livro
Entre as muitas descobertas que os links do querido Observador me propiciaram, há uma especial, que visito sempre, já há um bom par de anos (ou seria um quarteto?): Taxitramas. Taxitramas é o resultado do talento e da disposição do cronista Mauro Castro, gaúcho de Viamão, já virado em décadas (duas) na capital Porto Alegre, sempre trabalhando como taxista. A história de Mauro é uma daquelas típicas, em que a sorte aparece só porque é ajudada por aquele a quem bafeja. Taxista dedicado e atencioso, ele atendeu um dia o editor de um jornal importante da cidade. Conversa vai, conversa vem, contou que escrevia pequenas crônicas sobre o dia-a-dia de seu ofício e, antes que o passageiro fosse tomado pela condescendência da incredulidade, mostrou a cobra, ou melhor, a prova: pôs na mão dele um de seus textos. O jornalista, Cyro Martins, do Diário Gaúcho, achou que ali havia alguma coisa e pediu mais, uma amostra maior. Entusiasmado, Mauro julgou que o que tinha guardado não estava à altura do que havia mostrado ao editor. Por isso, depois de uma jornada cansativa (você sabia que um taxista só tem bons proventos financeiros se trabalhar doze ou mais horas por dia?) sentou-se à frente do computador, escreveu mais umas cinco ou seis crônicas ao longo da madrugada e, no dia seguinte, deixou-as na redação do jornal. O editor gostou do que viu e propôs uma coluna semanal, que veio a ser a "Taxitramas". A partir dela, Mauro resolveu usar a internet para ampliar o acesso às narrativas e foi aí que nos conhecemos -- virtualmente, ainda. Foram dezenas de colunas de lá para cá. Obviamente, alguém teve a idéia de juntar tudo isso em livro. Tratava-se de uma editora local, pequena. Eu, para ter um exemplar, teria de achar um dia em que as circunstâncias me levassem a Porto Alegre para, quem sabe também, cavar um autógrafo do autor. Qual não é minha surpresa quando, fuçando livros na Saraiva* do shopping Villa-Lobos, deparo exatamente com Taxitramas -- o livro. Edição nova, da editora gaúcha Sulina, posta ali, em pé, na estante da tradicional casa que um dia foi gerida com generosidade e sabedoria pelo velho livreiro Saraiva. Ele, que financiava livros para estudantes de direito sem grana, concedendo penduras de até quatro anos, ficaria orgulhoso de ver um talento novo e tão batalhado florescendo ali, numa prateleira de sua casa. Eu, leitor assíduo e contumaz, recomendo a meus conterrâneos: passem em uma loja da Saraiva e peçam pelo nome: Taxitramas. Só tem um e é do amigo Mauro Castro. Garanto que é leitura daquelas que só chegando à contracapa é que se percebe a hora de parar. (*) Assim que publiquei este post, Lord Broken Pottery me lembrou que a livraria do Villa-Lobos não é a Saraiva, mas a Cultura. Independente da admiração que eu tenho pelo Pedro Herz, mantenho o erro, apenas para documentar esta memória decadente e também para conservar a homenagem ao Saraiva. 23.3.07
Oh, vida...
A Folha publica hoje (leia aqui) o que me parece ser uma boa notícia. Uma ação integrada das polícias civil e militar, e de vários estados, resultou na prisão de mais de 600 pessoas ligadas a crimes de seqüestro e tráfico de drogas. Boa notícia? Dos 600, muitos sairão já com pagamento de fiança (o que é legal e legítimo, mas qual será o valor atribuído?). Outros terão suas prisões relaxadas por erros técnicos nos boletins de ocorrência, mandados de prisão e/ou busca ou do que os advogados chamarão de algo como "peça acusatória". Outros ainda comprarão uma fuga. Mais alguns fugirão de fato. Haverá, ainda, os que, mesmo presos, continuarão comandando ações criminosas de dentro da prisão. Os que pagarem fiança responderão em liberdade em julgamentos que podem durar décadas, dependendo da qualidade dos advogados e dos juízes envolvidos. Os que acabarem na cadeia não terão nenhuma condição de ressocialização, ao contrário, aperfeiçoarão muitas de suas táticas e estratégias. Em compensação, serão fartamente contemplados com a progressividade da pena: se não morrerem na prisão, poderão ser contemplados com uma semi-aberta sem nenhum controle. O que será de um país em que nem as boas notícias são boas notícias de fato? Ao reler o que escrevi acima, me senti como o Hardy Har Har dos desenhos animados, que só reclama de tudo o que há em volta. Algo que é o contrário do que eu sou e defendo. Mas haverá outro jeito de encarar este país em que a esperança venceu o medo e o PMDB venceu os dois? 22.3.07
Animal farm
Foto: Sérgio Lima/Folha Imagem "As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara quase impossível distinguir quem era homem, quem era porco." (George Orwell) É clichê, quase brega, mas é inevitável retomar o trecho final de "A Revolução dos Bichos" ao ver a foto e ler a notícia da Folha dando conta da visita do ex-presidente Fernando Collor ao Palácio do Planalto, onde foi recebido com todas as honras pelo presidente Lula, com direito até a amenas comparações da arrumação da sala presidencial sob cada um dos mandatos. É claro que o presidente da República pode e deve receber políticos de sua base aliada. É claro que ele deve fazer isso com cordialidade e até mesmo com mesuras aqui e ali. Mas o que se viu foi uma confraternização que sinalizou, para toda a opinião pública -- e o que são aparições de um presidente senão sinais à opinião pública? --, que o que Collor fez a Lula no passado não teve lá maior importância. Só para lembrar, na última semana da campanha que disputaram, em 1989, o programa político de Collor colocou no ar o depoimento de uma ex-namorada de Lula que, em um tom melodramático e apelativo, dizia que o então candidato teria tentado forçá-la a um aborto, depois de descobrir que ela estava grávida. Uma baixaria sem tamanho. Depois de ter ganho a eleição valendo-se desse tipo de recurso, Collor fez uma administração desastrosa, marcada pelo famoso confisco e por uma onda inigualável de corrupção, comandada por seu ex-tesoureiro de campanha. Impedido pelo Congresso, acabou absolvido no Judiciário muito mais por tecnicalidades do que por pureza ou inocência. Enfim, é um bandido solto. Com tudo isso, o cerimonial do palácio e o próprio presidente se dispõem a armar essa cena ridícula, como se isso fosse uma mensagem de paz e reconciliação. Não, não é admissível a reconciliação com uma canalha, ao menos por parte de gente de bem. Lula, sentado àquela mesa, trocando amenidades com Fernando Collor só é comparável ao clichê orwelliano. Emporcou-se de vez. 20.3.07
Mini 86 Desviou e sentiu um tranco sob a roda traseira direita. Parou para ver o que era, mas a chuva torrencial o desencorajou. Também não quis arrancar e ir embora sem saber se tinha atingido aquela coisa semovente que lhe apareceu à frente e o obrigou a uma manobra arriscada. O tranco parecia indiscutível. O silêncio também. Ouvia o barulho da chuva, o motor em marcha lenta, o limpador de pára-brisa em marcha-rancho piano-piano. Demorou quase cinco minutos para criar coragem. Enfim, abriu a porta e tomou o primeiro borrifo de chuva. A passos largos, foi até onde achava que o choque tinha ocorrido. Nada. Ensopado, voltou ao carro e entrou. Ali achou o sorriso aberto do maluco armado. Correspondeu. Não tinha muito mais o que fazer. Propôs uma cerveja, o que lhe valeu o primeiro tapa. De um jeito ou de outro, tudo acabaria bem. 16.3.07
Fragmento de "O Preço do Peixe", 26*
Já no carro, com a mãe da cliente devidamente a postos e balançando a cabeça com ar de "onde foi que eu errei?", o advogado, com o máximo tato, perguntou à moça desconsolada a seu lado o que realmente havia acontecido. A acusação de arruaça e atentado à ordem pública era séria, ainda mais naqueles tempos bicudos, em que cochichar uma posição de esquerda já era arriscado. Quanto não seria sair pela rua seminua bradando palavras de ordem anarquistas, sem poupar sequer a frente de uma igreja em plena missa? *** Ela havia chegado de Londres há menos de um mês, depois de uma temporada de quase dois anos, em que tinha introjetado quase toda a contracultura e aprendido tudo sobre as liberdades individuais em um mundo civilizado -- e freak. As marcas disso incluíam duas tatuagens e um corte de cabelo curto demais para uma mulher brasileira do fim dos anos 70. Foi sorte ter conseguido alugar uma casinha ali, travessa da Doutor Arnaldo, já na parte em que a pista é única e que a igreja de Nossa Senhora de Fátima reina. A casa era de um parente longe, que acabou não pedindo fiança, por consideração familiar e pelo detonado que o imóvel estava, o que viabilizou seu projeto de morar, na volta a São Paulo, sem ter de passar por um estágio na casa dos pais. Era um sobrado pequeno, mas perfeito para uma mulher sozinha -- quase sozinha: havia o cachorro, um husky siberiano que tinha atravessado o Atlântico com ela e era seu companheiro mais próximo na cidade, natal apesar de agora estranha. Desde os primeiros dias, tentou estabelecer uma rotina muito organizada para manter a casa à moda européia, segundo a qual só ministros, nobres ou marajás tinham empregados domésticos; gente comum cuidava da casa. Em pouco tempo, percebeu que em São Paulo seria mais difícil. Não havia metrô próximo, o que a fazia perder muito tempo entre casa e trabalho, impossibilitava que voltasse para casa no almoço, fazia da volta para casa um inferno. Com o cachorro, o inferno dobrava: deixava toda a comida e água do dia nos devidos recipientes e, quando voltava, tinha muita bolinha esparramada pelo chão para recolher, ele ficava muito excitado para sair e fazer seus cocôs e xixis, àquela altura inadiáveis, enfim, era um malabarismo. Mas ela adorava ter voltado, e o cachorro com nome estranho era um fator desse amor. Não era exatamente fluente nas tarefas do lar, por isso mesmo às vezes quebrava um copo ou esquecia de fechar uma torneira. Nada grave. Pelo menos até o dia em que, ao carregar o lixo até a calçada, deixou o portão aberto apenas o tempo suficiente para que o husky buscasse realizar seu sonho de liberdade e saísse eufórico pela rua, a toda velocidade. Ela vestia apenas uma camisa grande e sandálias de dedo -- era seu traje para tarefas domésticas --, mas assim mesmo saiu correndo e gritando pelo amigão. -- Bakunin! Bakunin! Subiu a rua até a Doutor Arnaldo, na direção em que o cachorro parecia ter ido. Quando passou pela frente da igreja, o primeiro guarda a viu e pediu reforços. Não se sentiu seguro o suficiente para entrar em ação sozinho. Em alguns minutos, a perigosa manifestante anarquista seminua foi dominada. *** A campainha tocou. Ela atendeu com cara de quem não tinha dormido nos últimos dois dias. O que viu transformou seu rosto em pura alegria. Era o guarda da rua ao lado segurando uma guia de nylon. Na outra ponta, Bakunin latiu feliz da vida, ao ver sua dona, que já julgava perdida. * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. 15.3.07
Frase do dia
Outdoor é o spam da rua. Pescada naquela fonte maior de iluminação da humanidade: Catarro Verde. O bonde São Januário...
Se o trabalho dignifica o homem, devo dizer que o desempenho pífio deste sítio, que não publica mais nada sem um intervalo de dois dias, deve ser sinal de que o autor e proprietário é um cidadão prenhe de dignidade. Cacilda! 13.3.07
Tempo zero Às vezes vejo quanto ela está longe apesar do quanto a suponho aqui. Às vezes, faço-a santa, e a mim, monge, Só para poder achar que a servi. Procuro acreditar que o tempo pára, que a imagem, só, existe, não a história, que tudo se abrevia e se repara, o já, mais que o futuro e que a memória. Minha posse, é o lapso que garante: o tempo infinitésimo me dá a ilusão do permanente, do constante. Ao cabo, o infinito enterrará o engano de viver num mero instante, o amor eterno a se medir num já. 8.3.07
Chegou
Deu no jornal: "Comitiva vai mudar trânsito sem informar a paulistanos". A comitiva, é claro, é a do presidente dos EUA. A imagem acima mostra bem do que se trata. Já o sítio linkado aqui mostra que o mundo de hoje não é mais o mesmo de 1938, quando o inspirador da montagem foi "Man of the Year" da revista conservadora americana Time e todo mundo apenas ficava de boca aberta. Os postes de Pinheiros estão dizendo não ao criptoditador. Nós temos de parar de considerá-lo um imbecil. Imbecis são inócuos. 7.3.07
Welcome
Foto de Caio Guatelli publicada na capa da Folha de S.Paulo de hoje Bushinho vai ficar no Hilton. A foto acima, que estampa a primeira página da Folha de hoje, mostra uma face do contraste estúpido que marca o Brasil. Miséria e pompa convivem, separados por blindagens e hipocrisia. É uma boa forma de apresentar o país ao texano que manda hoje no mundo. Mas esse, embora seja gritante e dolorido, não é o único aspecto que poderia ser mostrado ali. A região da avenida Luís Carlos Berrini encerra diversos símbolos do que é o Brasil de hoje. Fruto da mais pura especulação imobiliária, a região se dividia entre terrenos vazios de diversos donos, entre eles alguns fundos de pensão, e casas de classe média-baixa. A infraestrutura e a malha viária, obviamente, eram dimensionadas para esse tipo de ocupação. Com o tempo, a região foi sendo ocupada simultaneamente por favelas e por investidores que planejaram trazer para ali um novo pólo empresarial para a cidade -- que, diga-se, não precisava disso, uma vez que a Paulista e a Faria Lima, além do centro da cidade, tinham ainda disponibilidade de espaços e farta infraestrutura. O resultado foi o caos revestido de vidro espelhado. Com a mesma infraestrutura do tempo das casinholas, torres dos mais variados tamanhos e com os mais bizarros conceitos arquitetônicos -- cujo símbolo é um monstrengo a que a sabedoria popular batizou de "Robocop"-- foram sendo erguidas e ocupadas. Em pouco tempo, a região tornou-se um pesadelo para quem era obrigado a mover-se diariamente até ali e dali para casa. Trabalhei no tal "Robocop". Ali, diariamente havia congestionamento na garagem. Quem quisesse sair do prédio de carro na hora do rush chegava a ficar até uma hora dentro do carro, numa imensa fila para conseguir chegar à rua. Um trajeto Berrini-Pinheiros facilmente levava uma hora e meia -- sem trânsito, leva pouco mais de dez minutos pela Marginal. Outra simpática característica do predião era o abastecimento de energia elétrica. Como o provisionamento de quilovates era proporcional à ocupação quase bucólica de antes, pelo menos duas vezes por semana havia blecaute, quase sempre à tarde. No meio de um texto complicado, simplesmente acabava a luz e assim ficava por duas, até três horas. O curioso é que via-se um movimento estabanado do pobre poder público tentando prover a região com a infraestrutura faltante. Ou seja, além de promover o caos, os "empreendedores" da especulação interferiam nos investimentos públicos, sem antes ter consultado quem quer que fosse. Mas também para quê? Uma cidade que demora décadas tentando elaborar e implementar um plano diretor e não tem competência sequer para terminar o debate na câmara dos vereadores não precisa ser consultada por ninguém para nada. Haverá, pois, lugar mais adequado para hospedar o cardeal do capitalismo selvagem do que o Hilton Hotel da Berrini? Haverá visão melhor do resultado das sucessivas interferências de seu país na nossa região do que a imagem registrada por Caio Guatelli? Pode haver paisagem mais autêntica do Brasil resultante do crescimento a qualquer custo seguido do não crescimento a qualquer prova? Bem-vindo então ao Brasil, senhor presidente. Em tempo: o nome da cidade é São Paulo. 5.3.07
Mais e mais analfabetos
Hoje, a Folha dá conta de que a nota média dos alunos de escola pública no ENEM não chega a 41 pontos (em 100 possíveis). Outro dado, este do SEBRAE, mostra que a escolaridade média do brasileiro é de 6 anos. Se a estatística tomar apenas os pobres, a média é de 3 anos de escolaridade e, tomando os mais ricos, são 10 anos -- tempo suficiente para o ensino fundamental e dois anos no ensino médio. O que é que se pode esperar de um país assim? O que é que falta para que a educação eduque? Daqui do alto da minha burrice intelectual e emocional, posso dizer sem medo de errar que dinheiro é o menor dos problemas. Há uns 20 anos, quando eu tinha acabado de deixar uma carreira de professor justamente buscando ganhar mais, lia-se que mais da metade dos funcionários da secretaria da Educação do Estado de São Paulo não trabalhavam diretamente com escolas. Não tenho nenhum dado Brasil afora, mas duvido que seja muito diferente ou muito mais inteligente do que isso. Entrementes, o que se vê sendo discutido, até com greve de fome, em certos casos, é a tranposição do São Francisco, o problema portuário, a recriação da SUDENE (do jeito que estamos, o governo Lula vai acabar recriando o IAPC e o IAPTEC), o horário ideal para mostrar bunda na TV ou bizarrias como a pena de morte e a maioridade penal aos 13 anos (não digitei errado, não, 13 anos). Não se vê, a não ser isoladamente, ninguém discutir séria e conseqüentemente, a melhoria da educação fundamental (Luiza Erundina, Marta S.V. Suplicy e José Serra foram honrosas exceções municipais). Alckmin colocou um autor de livros de autoajuda para dirigir o setor no Estado. Quando é que as pessoas vão juntar lé com cré e ver que um dos fatores de atração do jovem pela marginalidade é a nenhuma atração que ele tem pela escola? Que, das três oportunidades de conseguir permeabilidade social -- a escola, a indústria do entretenimento ou a marginalidade --, esta última é a única viável? Os poucos exemplos que se tem de investimento conseqüente em educação mostram resultados duradouros e relativamente baratos. As escolas do governador Brizola, nos anos 60, no Rio Grande do Sul são exemplos evidentes. A postura do secretário da segurança pública de Santa Catarina, apoiando iniciativas educacionais e declarando alto e bom som a inutilidade de apenas desenvolver o aparato repressor, é outro desses fatos isolados que precisariam ser sistemáticos. Educação é a única saída para tirar este país da pobreza. Mais: é a única coisa que impedirá uma derrocada inexorável ladeira abaixo na disputa por um lugar ao sol que a globalização anda impondo. Considerando que Índia, China e Rússia educam mais e melhor do que nós, daqui a pouco a profecia de Caetano Veloso se concretizará: o Haiti será aqui. Ou, no mínimo, seremos algo como uma grande Venezuela sem petróleo e sem miss Universo. A pergunta é: como se faz para que quem manda no Brasil enxergue que educação deve ser a primeira prioridade? 2.3.07
Quando chega a sexta-feira começa-se a ouriçar o ser que quis respirar durante a semana inteira. Intensa imaginação lhe traz, por antecipado, o proveito regalado, os dias de fruição. Mas tendo assim tanta escolha tanta mesa a se sentar, tanta cama a se deitar, começa a surgir-lhe a bolha da dúvida: que fazer? Começa de novo a liça consigo mesmo se atiça em busca do bom querer. Quererá piscina ou praia? Beberá cynar ou vinho? Convidará seu vizinho ou a moça pra gandaia? A decisão não se dá, o pensamento viaja; a solução, caso haja, não se sabe se virá. Pensar de modo e maneira a chegar à solução só obtém mais sim que não na nova segunda-feira. 1.3.07
Já se pode fazer um grupo de seres humanos ficar recluso e ter sua vida exposta 24 horas por dia, 7 dias por semana, durante três meses. Inclusive no banheiro e na cama. Já se pode expor esculturas feitas de cadáveres de seres humanos, mostrando formas diversas, que variam do cômico ao terno, caricaturando o ser humano tendo o próprio -- ou alguns de seus corpos -- como suporte. Não cabe discutir aqui se isso é causa ou conseqüência de um planeta que tem Bush e Acari, Etiópia e Pequim, Afeganistão e prostituição infantil. É apenas uma constatação: limites que demoraram séculos para se estabelecer estão sendo rapidamente derrubados. Não me surpreenderá alguma forma de resgate do canibalismo. |