dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
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30.1.07
Mais aforismos, desta vez sobre o que se sente A fé é a negação da negação. *** A inveja é a saudade do que não se viveu. *** A maldade é como o veneno: bem aplicada, às vezes cura. *** Depressão é a incapacidade de distinguir o fato da má notícia. *** Pena é um sentimento injustiçado: quem a tem não confessa, quem a declara o faz como pejorativo. No entanto, é humano sentir pena, e isso só é condenável se fator de auto-afirmação de quem a sente. A pena é, pois, o equivalente moral da esmola. *** Ciúme é como alcoolismo: não tem cura, mas pode ser vencido pela vontade. *** A vaidade é fator de beleza, e não o contrário, como nossa moral propõe. *** A franqueza evolui de forma inversa à do desejo sexual: aquela, se tem quando criança, se perde com a maturidade e se recupera com a velhice. É por isso que se é melhor amante aos 20 e aos 45, quando as duas curvas se encontram. 29.1.07
Eu sou avesso a teorias conspiratórias, acho que, na maioria das vezes, elas são fruto e fator de uma mentalidade tacanha e dependente, exceção feita aos casos em que se prestam ao puro entretenimento. No entanto, teima em amadurecer em mim uma delas: jamais vi tanta gente, de tão diversas correntes de pensamento -- até alguns adeptos do não-pensamento -- falar tão mal do parlamento brasileiro. Certo, não temos lá um parlamento que chegue a causar inveja às grandes democracias representativas do planeta. Mas não há democracia representativa que não traga mazelas semelhantes às que muitos de nossos parlamentares apresentam, mesmo porque ninguém se submete a uma eleição, a tal grau de exposição pública, se não tiver um componente de vaidade próximo à patologia. Logo, a possibilidade de um parlamentar pensar demais no próprio umbigo e no próprio bolso é algo que já está na própria natureza de sua empreitada. É para isso que existem mecanismos de controle externos, e a opinião pública, via imprensa e entidades organizadas, acaba sendo o mais eficaz. Mas o que se passa no Brasil hoje é um ataque cotidiano, não aos maus parlamentares ou às falhas nos mecanismos de controle, mas à instituição. Todo dia coloca-se a democracia representativa como algo que não cumpre mais sua função, sendo, em última análise, um luxo supérfluo, uma tradição sem mais nenhum sentido prático, uma versão sem charme da rainha da Inglaterra, uma gangue de indolentes. Daí, o pensamento seguinte será: então por que mantemos e sustentamos essa excrescência? Que diferença fará para o país seu desaparecimento? Ou, mais diretamente, por que não acabamos logo com isso e entregamos o manejo das leis e as propostas para o andamento do país a profissionais? Adoro ser repetitivo e citar uma frase que é atribuída a pelo menos uns cinco personagens históricos. Eu a credito a Winston Churchill porque foi como sendo dele que a aprendi quando ainda era criança: "A democracia é o pior regime político, à exceção de todos os outros." E a democracia se faz apenas de duas formas: diretamente e por meio da representação. Normalmente, as democracias mais evoluídas mesclam ambas, de forma a ampliar as formas de consulta direta até o limite da operacionalidade de um sistema complexo, como é uma nação com alguns milhões de habitantes e algumas centenas de questões a resolver por dia. O Brasil ainda tem muito a evoluir em sua democracia, seja a direta, seja a representativa. Passamos 21 anos sob uma ditadura estúpida, caipira e presunçosa, à qual não reagimos por sermos uma sociedade completamente desorganizada, com uma elite tosca voltada para o próprio umbigo, sem nenhum interesse no desenvolvimento de uma Nação, e, à época do golpe militar de 1964, uma democracia infantil, de menos de 20 anos, por sua vez precedida de outra ditadura, personalista, de 15 anos. É isso o que temos hoje: um regime democrático que vem de uma transição dolorosa, conduzida por um prócer do regime autoritário, José Sarney, tiranete de província e intelectual diletante, que foi sucedido por um outro tiranete de província, mais jovem, Fernando Collor, a figura acabada do galo novo da anedota, que, por fim, democraticamente deposto (Deus é mesmo brasileiro), teve de entregar o mandato a um vice tido como louco, que acabou engendrando a mais efetiva reforma econômica do Brasil recente. Seu ministro da fazenda e sucessor é que acabou concluindo a transição democrática, entregando em paz a faixa presidencial a um ex-operário e candidato do maior partido de esquerda das Américas -- talvez a maior lição de democracia a que o mundo moderno tenha assistido nos últimos 50 anos (Lech Walessa não conta). O papel do parlamento brasileiro no processo de redemocratização foi vital. Da chamada "anti-candidatura" de Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho à emenda Dante de Oliveira, que desaguou na campanha cívica mais importante da história republicana do Brasil, a "Diretas Já", o que vimos foi um bando de gente insistente em meio a um deserto institucional, tirando leite de pedra. Imagine-se ainda o que era o baixo clero antes, nos tempos em que havia censura total à imprensa e qualquer denúncia às instituições era considerada subversão. Mesmo ali, tivemos deputados como Mário Covas e Márcio Moreira Alves que, sob todo tipo de ameaça, mantiveram posições que eram melhores para o país, a ponto de perder o mandato e, com ele, até mesmo garantias básicas da pessoa humana, para as quais a ditadura não dava uma casca de amendoim. O que temos hoje é um saudável processo de transição em que todas as mazelas -- que lá estão há décadas -- estão sendo postas à mesa. A impressionante reação da sociedade civil à proposta oportunista do candidato Chinaglia de aumento do salário dos parlamentares mostra que queremos mais -- e não menos -- do nosso parlamento. A adesão precipitada à tese por parte do até então predileto Aldo Rebelo e seu recuo mostraram que é preciso repensar. O lançamento da candidatura Fruet pelo chamado "Grupo dos 30" trouxe à tona a ação exaustiva de parlamentares de diversos partidos, liderados pelo deputado Fernando Gabeira, rumo a uma depuração do parlamento brasileiro. Há uma imagem de que me lembro sempre que leio textos espinafrando a Câmara e o Senado de forma generalizada: é o dedo em riste de Fernando Gabeira apontando o então presidente da Casa, Severino Cavalcânti, e declarando: "Nós vamos derrubar vossa excelência". Gabeira ali fez o que todos esperamos de um deputado: ele nos representou. Foi o Márcio Moreira Alves dos nossos tempos. É isso o que precisamos tentar enxergar no nosso parlamento: há ali gente que efetivamente nos representa. Mas, para que o trabalho dessa gente tenha resultado, é preciso que mais um passo seja dado nessa evolução histórica que o Brasil vive. É preciso que quem reclama se organize. O Brasil não tem bairros, o Brasil não tem cidadezinhas, o Brasil não tem municípios. Ou melhor: os tem anônimos. O que precisamos é que eles apareçam e se façam representar. E isso passa, necessariamente, pelo parlamento. Só temos a evoluir se reforçarmos nossa democracia representativa. Só temos a perder se a esquecermos. 23.1.07
Novas quadras a mais Posso virar milionário ou posso morrer à míngua: dou tudo mais um salário pra ter seu beijo de língua. *** Me lembro de mais de um cheiro, todos eu quero sorver: as flores do dia inteiro, seu corpo ao anoitecer. *** Depois que quis e ganhei acedência como a sua, que graça mais pedirei, senão a que leve à Lua? *** O toque da sua pele balança, é enlevo e enjôo, como se eu, cinto e nacele, e você, hélice e vôo. *** De quadra em quadra, eu aprendo seu jeito de ser feliz. Sílaba e tom, me arrependo de todo o nada que fiz. *** Quando vejo seu sorriso, vejo nele um traço triste, expressão de tanto siso que a gargalhar não resiste. *** Eu amo seu passo atrás como venero seus quases. Oro à espera de seus jás, de tempos sempre fugazes *** Você me diz companheiro, eu quero ouvir "meu amor". Eu quero seu corpo inteiro, você me diz "por favor!" *** Chegou a hora de ir? Ora, fique um pouco mais, fixe-se em nosso luzir, largue-me em seu tanto-faz. 22.1.07
Mini 84 Não sei mais escrever. Não sei mais beijar de língua, não sei mais recitar as capitais da Europa. É pouco o que ainda sei. Mal manejo o leite em pó, tenho dificuldade com as meias e sei ainda fazer o pelo-sinal. Tal seria se não soubesse. Não sei (não quero) com quem ela se casou depois, faz muito tempo. Já soube, felizmente esqueci (esqueceu-me: me lembro ser assim a forma do Machado) qual era seu prato predileto. Não sei bem onde fica a rua Boa Vista, onde achar o tal guichet. Seria mais fácil se esquecesse-me tudo. 19.1.07
Primeiro soneto do ano
Ciganice Transito entre mortais e outros nem tanto bailando a cada passo, a seduzir o transeunte, a provocar-lhe espanto, a roubar seu direito de ir e vir Mortal como sereia quando canto, para almas e altos tons atingir, seduzo, bebo, sugo, lambo e janto Durmo, então, por ter o que digerir. Não sei se sou prazer ou sou deveres, vario, ora espírito, ora mula, vou só ou incorporo muitos seres. Me deixo alçar ao vento que circula, devoto meu amor e meus prazeres a qualquer ser humano que me bula. 17.1.07
The red tucano
Há tempos sou eleitor do PSDB e, antes, do grupo que o veio a compor dentro do PMDB. Antes ainda, votei com fé no PT, ao qual abandonei, como eleitor, na época do expurgo dos parlamentares Bete Mendes e Aírton Soares pelo fato de ambos terem votado em Tancredo Neves na eleição indireta de 1985. Não significa que não admire muitos filiados ao PT -- cheguei a votar em candidatos petistas em algumas ocasiões. Há muita gente de primeira qualidade ali, mas a meu ver, tomando parte de um projeto político autoritário, mais voltado a seus próprios interesses do que aos interesse do país. O que me admira -- e é a razão deste textículo sobre tema tão surrado -- é a proximidade aflitiva entre o que o PT realiza no governo e o que o PSDB propõe e realizou nos governos FHC, obviamente, com sutis diferenças de estilo e intensidade. Hoje, a Folha traz o que será o projeto de Lula para "destravar" a economia e obter um crescimento próximo dos 4% em 2007: o PAC, Programa de Aceleração do Crescimento. A fórmula é baseada em três pontos: cortar R$ 6 bi em tributos, cortar despesas do governo em R$ 16 bi e investir em obras de infraestrutura para dar suporte ao crescimento. Não parece nada muito diferente do que o discurso tucano propõe. Até aí, aparentemente, nenhum problema, a convergência é positiva para o país. Mas o problema é de ordem política, e é sério. O presidente Lula se elegeu batendo forte no governo tucano, com um discurso de oposição. Ao chegar ao poder e fazer basicamente o que já vinha sido feito, com alguma renovação de estilo e tonalidade, Lula contribui para agravar a despolitização geral. Agora, propondo algo que poderia ser proposto por, sei lá, Cássio Cunha Lima, ele aprofunda essa contradição e o abismo entre política e população. Lula está disseminando a idéia de que tanto faz. Mais ou menos, é bom que se diga, o mesmo erro cometido pelo deputado tucano Jutahy Júnior, ao anunciar o apoio da bancada do PSDB ao petista Chinaglia na corrida à presudência da Casa. Lula deveria, por dever de cidadania, assumir sua guinada política e consolidá-la das duas formas possíveis: ou impondo a seu partido a mesma guinada ou mudando de partido. Enquanto ele disser de manhã que pertence a um partido de esquerda e, à noite, cantarolar de sereia de centro, o amadurecimento da consiência política da nação incrua. No longo prazo, isso é ruim para todos. Inclusive para o presidente e sua tão prezada biografia. 15.1.07
Quando vejo Chico Buarque de Holanda no YouTube, fico pensando nas decisões que tomamos na vida. Uma delas se refere a envelhecer. Olhando Chico, me lembro do depoimento dele no filme Vinicius, em que ele diz que hoje não haveria espaço para uma personalidade como a do poeta, generoso e porra-louca, brilhante e viajante. Me lembro disso não pela comparação da genialidade de ambos, mas pela diferença de trato do próprio corpo: Chico pode ser visto regularmente correndo no Leblon (na calçada oposta à da praia, para conseguir correr sem ter o calçao arrancado por uma fã), joga bola toda semana, tem um corpo de menino. Já Vinicius não fazia nenhum tipo de exercício físico convencional. Levantava copos e mais copos e namorava apaixonadamente (o que gera endorfinas e musculatura, mas não é totalmente admitido nos manuais das academias). No entanto, envelheceu lindamente bem, sem o mesmo corpo que o Chico, mas também incansável. Sempre quero crer que existe um componente de decisão pessoal que acaba sendo determinante na velhice que enfrentaremos todos um dia. Cada vez mais acredito que, em condições normais de temperatura e pressão, é possível decidir entre encolher e continuar crescendo. Não me refiro a Viagras e tinturas de cabelos, a Pitanguys e lipoaspirações (não os condeno, veja bem, apenas não os acho suficientes ou mesmo necessários). Falo de uma curiosidade incessante, uma inquietação obsessiva e uma inquebrantável disposição a rir, quando se é de rir, que são capazes de conservar qualquer um com a dimensão adequada de um adulto. Isso não significa nem de longe ser eternamente jovem, o que, de resto, beira a debilidade mental. A dimensão adequada de um adulto é a que permite pensar, duvidar, querer ver, querer prover, rir mais que chorar, mas também chorar e, acima de tudo, ter, seja literal, seja sublimado, sejam ambos, tesão. Será que se tem tudo isso sem querer? 12.1.07
Há alguns anos, o arquiteto João Paulo Beugger cunhou um termo que definia um fenômeno ainda embrionário, mais tarde verificado como um robusto adulto: Moemização. O arquiteto referia-se a uma perigosa transformação da sociedade brasileira, que mais e mais assumia características afeitas ao bairro de Moema -- mais um dos nomes inventados pela especulação imobiliária para designar a região da zona sul, em torno da avenida Ibirapuera, em São Paulo, identificada por nomes de índios ou de plantas brasileiras. Moema, em 30 anos, se transformou no bairro dos sonhos da classe média emergente e de uma certa fração da classe alta recém-chegada a essa condição. Com o tempo, mesmo ricos não tão novos foram se encantando com a topografia e a infraestrutura do bairro e se mudando para lá. A curiosa combinação desfigurou uma região ocupada por casas e sobrados de famílias de classe média, transformando-a em uma floresta de prédios em apenas trinta anos -- pouco mais que o tempo convencionado de uma geração. O mais curioso é que essa característica de bairro novo -- 30 anos não são nada na história de uma cidade -- e sua nenhuma memória histórica -- nada no novo bairro lembra, muito menos registra, o que a região antes era -- trouxe a Moema uma certa autonomia para construir-se a si mesma, do ponto de vista cultural e estético. Com isso, o bairro passou a ser uma extensíssima imitação. Ou melhor, um mosaico de imitações, nas quais predominam as características miameses, mas não faltam também referências neoclássicas, barrocas, modernóides ou até vanguardistas. Mas tudo sob a leitura ingênua de quem teve essas referências sempre intermediadas pela mídia de massa. Ou seja, Moema mais parece ser do que é de fato. No entanto, é um bairro com uma das maiores rendas per capita do país, ativo, pela riqueza que detém e de certa forma produz, e cada vez mais influente. Não é um lugar de nouveaux riches, é, de fato, uma nouvelle cité, com uma novíssima história, novíssima a ponto de não ter história e, assim, precisar se valer de fatias finas da história alheia para construir algum conforto no capítulo passado. Mas por que o termo de Beugger é tão cabível e adequado? Porque esse é um fenômeno que percorre as cidades do Brasil, um país cuja população, em 30 anos, transferiu-se do campo para a cidade, e cuja riqueza cresceu e mudou de mãos, em um certo momento, para depois se concentrar doentiamente. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa da classe média se viu empobrecer. Tudo isso junto fez nascer milhares de favelas pelo Brasil, mas também resultou em inúmeras Moemas. Não é um fenômeno geográfico, embora isso possa estar na sua origem primeira. É um fenômeno acima de tudo cultural. A moemização invadiu, por exemplo, lugares tão insupeitos quanto Ipanema ou Vila Madalena. Basta olhar os carros, as roupas, os berros, os gestos, os sotaques, o vocabulário, as posturas de homens e mulheres que passeiam pelos espaços públicos (ou semi-públicos?) dessas microcidades. Alguns sinais mostram mais claramente a incidência do fenômeno, tais como "champanherias", cheeseburger-champignon, neoclássico, um certo tipo de comida fast-french com slow american, Alexandre Acioly, comédia do Miguel Falabella, o Miguel Falabella, vidro fumé no apartamento, filho no Graded, o livro do Roberto Justus, festa com prosecco e beaujolais nouveau, fondues bizarros, catupiry fora do café da manhã e, principalmente, mais do que tudo, mandar beijo no coração. Preste atenção, onde quer que você esteja, desde que seja em uma cidade brasileira com mais de 750 mil habitantes. Se você estiver em um bairro de classe média para cima e olhar em volta, não vai esperar cinco minutos para ver: estamos todos nos moemizando. Pudera: olhando em volta outra vez, você não reconhecerá nada que lhe conte mais do que uma geração de idade ou uma década de história. * Desta vez, coloquei um post em cada Dito Assim. Visite essa nova experiência. Críticas serão bem-vindas, principalmente os elogios. 11.1.07
Um sujeito ganhou 51 milhões na mega-sena. Toda vez que aparece uma notícia como essa, a gente pensa: "esse nasceu de cu pra lua" ou talvez algo menos chulo. Mas, de uns tempos para cá, eu fico tentando pensar no contexto. Outro dia, um cara ganhou na mega-sena e foi assassinado no mesmo dia. Esse que ganhou agora, como será o resto da vida dele? E se o cara tem um mau-hálito tão infernal que ninguém consegue ficar perto dele? Imagine, ficando milionário, a coisa piora, ninguém terá coragem de avisar e o novíssimo rico ou novo riquíssimo estará fadado a ser mal-amado por dez entre dez portadores do sentido do olfato. Por outro lado, é possível que ele não tenha noção de como gastar tanta grana e, assim, seja enganado por espertinhos ou guarde tudo no colchão, alimentando as traças e ficando sem nada no fim da vida. E se ele pertence a uma religião que não permite riqueza? Pense só, será obrigado a doar tudo aos sacerdotes de sua seita, que construirão um enorme e inútil monumento no Planalto Central. Pode ser também que o cara seja um bandido procurado, que não possa aparecer em lugar nenhum sob pena de ser preso e passar o resto dos dias na cadeia. Já pensou? Aquele bilhetinho na mão valendo milhões, e nada a fazer a respeito? Mas há uma situação pior. O cara pode ter conferido o bilhete enquanto fazia xixi em um sórdido banheiro público. Com o impacto da emoção, pode ter largado o papelzinho, que terá caído no vaso imundo. Como suas únicas alternativas terão sido perder o papelzinho ou pôr a mão literalmente na merda, o resultado terá sido uma tremenda hepatite. O que é ter 50 bi, se você não puder se levantar da cama? Isso tudo sem falar no cara que vai ser enganado pelo primo, o que gastará tudo com a namorada, que o bandonará quando a grana acabar, o outro, drogado, que será vítima de uma overdose motivada só pela repentina fartura. Não. É mesmo muito perigoso esse negócio de ganhar 50 bilhões. Preciso comemorar mais essa semana sem ter tido esse destino cruel. 9.1.07
Tiros em Higienópolis Odeio a frase "Não falei?" Pois não há outra para ser dita agora. Na semana passada, um empresário (no caso, um eufemismo para herdeiro) chamado Caio Sérgio Vicente de Azevedo Toledo foi à casa da ex-mulher, junto com a atual namorada. Ao chegar, encontrou a vaga na garagem do apartamento ocupada por um carro que não era o da ex-mulher -- ela estava de férias -- mas sim do atual namorado dela. O homem se enfureceu e tentou atear fogo ao carro. Foi convencido pelo porteiro e pela namorada de que talvez não fosse a melhor maneira de resolver a pendenga. Nesse instante, apareceu o dono do carro, o comerciante Eduardo Forte Braitt. O ainda irritado empresário sacou de uma arma, deu-lhe uma coronhada e, aos berros o ameaçou. O sujeito correu, foi perseguido pelo empresário e, finalmente, morto com um tiro no rosto. Um filho da puta, você dirá. Ou um louco, débil mental. Ou ainda um quatrocentão mimado que não gosta de ser contrariado. Tudo bem, tendo a concordar com as três possibilidades e mais algumas. Mas o fato é que, se esse filho da puta mimado, arrogante, irresponsável, mal-formado ou o que for, não estivesse armado, o máximo que poderia ter acontecido seria um boletim de ocorrência com acusações mútuas de agressões e umas tantas escoriações constatadas no exame de corpo de delito. A questão, já falada aqui na época do plebiscito, é, em bom português: paisano armado só faz cagada. Ou se fere sozinho ou fere inocentes. Na maior parte das vezes, fere inocentes, incluindo aí namoradas, amigos, ex-amigos, ex-namoradas, filhos, mulheres, parentes, transeuntes. O bandido é mais preparado, mais corajoso e mais determinado. Os Caios são sempre manés, por mais que pareçam príncipes, lutadores de jiu-jitsu ou de sumô, como é na maioria das vezes. O caso desse quatrocentão não vai comover ninguém a melhorar a legislação, a buscar civilizar um pouco mais nossa sociedade malformada. Outros imbecis como ele continuarão armados, sempre achando que, na hora H eles resolvem, só para repetir o que é infalível: ou sujam as cuecas de cocô ou sujam a própria história de sangue alheio. Não resta colocar aqui nenhuma filosofia. Apenas dizer que vai acontecer outra vez, e outra, e outra. Tanto os quatrocentôes quanto os imigrantões que derem os tiros continuarão achando que a culpa é do outro. Ou do governo. E na próxima eleição, se houver, toparão a maioridade penal de 14 anos. E continuarão falando mal do outro e do político. Nós nos merecemos, e às balas que disparamos. 5.1.07
Vou que vou Lá no alto O sol quente me leva num salto Pro lado contrário do asfalto Pro lado contrário da dor É, seu Chico... 4.1.07
O primeiro texto de 2007 deve, antes de tudo, desejar feliz 2007. Depois, só para estalar as juntas e começar de novo, vale comentar mais um capítulo de uma guinada histórica que está por vir: o mundo parece mesmo caminhar para o fim da democracia como a conhecemos. Basta ver os telejornais para ter certeza disso. Pegando o Jornal da Globo de ontem e tomando temas aleatoriamente, vemos que o mais destacado foi a filmagem clandestina do enforcamento de Saddam Hussein. Pouco se fala de que este foi uma ato arbitrário e um aleijão jurídico, além da óbvia transgressão aos mais comezinhos direitos da pessoa humana, mesmo considerando que a vítima atentava de forma contumaz contra eles.Um dos princípios da Justiça como a conhecemos hoje é o de que ela substitui a vingança pelo cumprimento da Lei. Mas o grande destaque é para o fato de alguém ter filmado as barbaridades cometidas e ditas ali, aparentemente com um celular. Ora essa, alguém duvidava de que isso ocorreria? Alguém ainda acha que no mundo atual é possível guardar segredos? Ao fim, prenderam um policial de baixa patente e pronto. A partir de agora, Saddam virará herói, mártir, e todas as barbaridades que cometeu estão, no imaginário popular, zeradas pela barbaridade cometida contra ele, que, aliás, soube zelar pela própria imagem em seus segundos finais -- habilidade macabra, coisa de psicopata, mas sem dúvida, uma performance de mestre. Em todas as filmagens tremidas, a única figura digna é a dele. Em seguida, a TV mostrou os protestos dos sunitas e deu mais um balanço do número de mortos na guerra cada vez mais fora de controle. Em contrapartida mostra Bush acenando a seus eleitores com a mesma cara de débil mental de sempre e cita declarações anônimas de autoridades americanas que vão na linha do "Pô, mas eles não vêem o que o cara fez em 25 anos, só vêem o que fizeram com ele em dez minutos?" "Puxa, olha só, não foi a gente que fez isso, foram os iraquianos, esses brutamontes, que mataram lá um deles, com os métodos deles". Esses caras não vêem que o império deles está chegando a fim. E o pior: por culpa deles. E, pior ainda, o que vem é ainda pior. O império americano, neste começo de século, conseguiu fazer aquela profecia, atribuída a Marx ou um de seus discípulos -- "o mundo caminha para o socialismo ou para a barbárie" --, finalmente decidir para que lado vai -- e, definitivamente, não é o do socialismo. Hoje, isso já pode ser visto na TV. A Globo mostra também os suplentes de deputados, que vão assumir o lugar de colegas que foram para os governos recém-empossados, diplomados em pleno recesso -- ou seja, sem nenhum trabalho a fazer, com o Congresso fechado. Estes caras vão ganhar não apenas o salário de deputado -- o que até pode soar justo -- como também as verbas extras, que não têm como ser usadas. O resultado é um só: o parlamento vai aos poucos cultivando sua própria imagem de instituição cara e dispensável. Por fim, os atentados no Rio: há mostra maior de que este ano poderá até ser feliz, mas de novo não tem nada? |