dito assim parece à toa

26.12.06



Piergiorgio Welby ainda jovem

Na quinta-feira passada, o italiano Piergiorgio Welby morreu de insuficiência respiratória causada pela evolução de uma distrofia muscular progressiva que já havia causado a perda de seus movimentos e mesmo da capacidade de se comunicar com as outras pessoas por seus próprios meios. O que mantinha Welby vivo era a ação de um aparelho que o fazia respirar. Há anos ele queria que o aparelho fosse desligado para que pudesse morrer em paz e com um mínimo de dignidade.

Na quinta-feira, o médico anestesista Mario Riccio aceitou os apelos do paciente e da da família e, depois de sedar Welby, desligou o aparelho. Welby, enfim, foi desta para melhor -- no caso dele, a literalidade da expressão é indiscutível.

Pois não é que a carolice hipócrita dos padrecos romanos, que não se avexam em apoiar ou aceitar placidamente a pena de morte quando perpetrada por gente que lhes dá o dízimo, decidiu negar a Welby o direito a um enterro cristão? O Vicariato de Roma negou à família a autorização para que se realizassem exéquias religiosas por ter o italiano manifestado publicamente a vontade de pôr fim a própria vida, o que contrastaria com a doutrina católica.

É de perversão que estamos falando. Em função de ter o paciente exposto sua vontade de morrer, os vigários julgaram que ele merecia uma condenação ao suplício eterno. Morto, mereceu o tratamento dos pagãos, a negação, para quem é católico, da paz.

Como é que essa gente pode vir falar de piedade, tolerância, amor? Como é que esses hipócritas de batina podem vir a público e dizer "amai-vos uns aos outros"? Com que suporte ético podem criticar a intolerância, se alegam coisas como "não podemos saber se o paciente fez o pedido porque recusava um tratamento que, para ele, era insuportável, ou se o paciente fez o pedido para o transformar numa batalha política e, com isso, obter uma lei que abra caminho para a eutanásia", como fez o bispo Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifícia para a Vida (nomezinho não menos hipócrita)? O direito romano prega: in dubio pro reu. Os padrecos de Roma fazem o contrário.

Declaro, pois, não ter nenhuma relação espiritual com esses porcos de batina que impõem a uma mãe a pena de carregar um feto anencéfalo até o fim da gravidez, que apóiam gente como Costa e Silva e Oliveira Salazar, que preferem a AIDS à camisinha, a multiparidade das mulheres pobres ao uso da pílula. Essa gente não merece o meu respeito. Que me neguem, também, quando chegada a hora, as exéquias que proibiram a Piergiorgio Welby.

Agora, quero ver como esses padrecos, tão ciosos da seleção de quem merece ou não ser sepultado seguindo seus ritos, vão lidar com as exéquias a celebrar durante o sepultamento do primeiro coleguinha pedófilo que vier a falecer.

20.12.06

Post novo no novo Dito Assim. Com foto e tudo, veja só.

19.12.06

Chover no molhado, pode ser. Afinal, só a questão do aumento do subsídio dos parlamentares parece unir a torcida do Coríntians e a do Palmeiras, a do Flamengo e a do Vasco. Todo mundo falou -- mal -- disso.

Mas há algo a observar em mais essa desastrada iniciativa do nosso ineficiente parlamento, que começou a legislatura com a grita das CPIs e vai terminando com os ecos de mansalão, sanguessugas, pizzas para todo lado e, agora, o coroamento do reajuste indecente.

Se formos olhar a origem do aumento de 91%, obviamente vamos enxergar uma vontade latente de muitos parlamenmtares pela equiparação de seus vencimentos aos dos ministros do Supremo (em nome do tal equilíbrio dos poderes -- ninguém, no entanto, cogitou equiparar os vencimentos ao do Executivo, pouco menos de R$ 9 mil por mês). No entanto, assim ela permanecia: uma vontade latente. Até que, belo dia, o PT decide que, para que seu status político, sua representatividade junto aos poderes, sua influência ante um governo que não é mais seu, pudessem ser mantidos, seria necessário tomar a presidência da Câmara, ora em mãos do deputado Aldo Rebelo, alíás, indicação e consenso da situação, e não da oposição. Mas enfim, o PT pensa de uma forma bastante peculiar e consegue fazer oposição sendo situação.

Peculiaridades à parte, o partido da situação lança como candidato de oposição o deputado paulista Arlindo Chinaglia, homem de história no partido e na CUT e, mais engraçado -- se não fosse esquisito -- líder do governo na Câmara (governo que trabalha pela candidatura Aldo).

E o que faz Chinaglia ao enunciar sua primeira promessa de campanha? Resolve encantar o baixo clero, de pouca qualidade mas decisiva quantidade, e lança a proposta do tal aumento de 91%. Com isso, empareda Aldo, que não tem outra saída a não ser encampar a proposta. Isso tudo posto, o que era vontade latente, quase uma daquelas feias de comentar com as crianças na sala, torna-se bandeira, pauta prioritária e, de um dia para o outro, decisão tomada pelo colégio de líderes e implementada.

A grita, obviamente, foi geral, com direito a protestos como a facada nas costas do deputado ACM Neto, o velhinho se acorrentando a uma coluna do prédio do Congresso, o senador Suplicy exibindo sua vivacidade, os abaixo-assinados de maior ou menos bizarria na internet, jornais e jornalistas como pinto no lixo. Com essa grita toda, acende uma lâmpada vermelha ali no forno do PT e alguém logo grita: "Chi, esquecemos do povo!"

Ato contínuo, um imenso coro passa a berrar: "Quem, eu? Aumento, onde? 91%? Que escândalo!" E aí, resta lá o fabuloso senso de oportunidade do aprendiz de feiticeiro Chinaglia, solenemente a segurar a brocha, enquanto os companheiros procuram encostar a escada em muro mais prudente.

A moral dessa história sem moral é, de novo, a que mostra que toda vez que um otário tenta manejar a navalha do malandro, acaba se cortando feio. Se fosse só isso, tudo bem, problema do otário. O duro é ver a lambança aparentemente irreversível que o panaca provocou.

PS: Hoje o artigo está duplicado, aqui e .

18.12.06

Tem post novo hoje lá no novo Dito Assim. Ainda cheirando a tinta, ainda desajeitado, mas pelo menos funcionando e recebendo suas mensagens. Seja bem-vindo.

15.12.06

Bom, como deu para ver, isto aqui ficou às moscas nesta semana. O motivo? O blogger.br negou o acesso a este humilde inquilino e, pelo que eu soube, a mais muitos outros. As mensagens ainda estão zoadas, não sei se voltarão. Por tudo isso, remontei o Dito Assim em outro canto. Agora, você poderá ler as maltraçadas de sempre no http://ditoassim.blig.ig.com.br/. Vou ter saudade deste layout tosco (o outro é ainda mais tosco, posso garantir), mas acho que vou me livrar desses incômodos periódicos que meu lado paranóico garante ser sabotagem proposital do provedor para eliminar os não associados de sua sede social. Bom, nos vemos no outro domicílio.

11.12.06

A coluna deste domingo de Mônica Bergamo, na Folha, mostra cinco fotos de moças de saia, flagradas sem calcinha. Cinco grandes tarjas pretas protegem as respectivas partes capturadas pelos paparazzi. Das flagradas, quatro são brasileiras, e a mais gorducha é americana: Britney Spears. As nossas moças são Adriane Galisteu -- o flagra mais recente --, Juliana Paes, Luana Piovani e a precursora maior do vento a favor, Lilian Ramos, que foi paparazzada no carnaval de 94, ao lado de ninguém menos que o então presidente da República.

Embora haja uma foto famosa de Carmen Miranda na condição calcinhaless, tomada lá pelos anos 40, parece que o movimento sem-calcinha é um fenômeno dos dias que correm. Galisteu atribui o hábito ao zelo pela perfeição da indumentária feminina, que, em certos casos, teria seu desenho irremediavelmente marcado pela presença da peça íntima, o que determinaria sua sumária supressão. Lilian Ramos, de quem nunca mais havíamos ouvido falar, depois dos cinco compassos de marchinha de fama, declara à coluna, indignada: "No Brasil, só querem falar de mim para falar de calcinha! Moro em Roma e aqui sou amiga do premiê!"

Será que chegou a hora das calcinhas? No fim dos anos 60, vimos o Women's Lib queimar sutiãs em praça pública, elegendo a peça íntima como símbolo da opressão (o que nos trouxe, aliás, por meio de uma foto famosa de uma manifestação contra a guerra do Vietnã, a visão indelével de Jane Fonda e sua justíssima camiseta colocando os seios definitivamente no epicentro do debate). Hoje, século 21 em plena marcha, parece que, enquanto designers e cientistas buscam projetar o sutiã perfeito, o objeto a queimar são as calcinhas. E não por protesto, mas por preservação das linhas femininas, que Betty Friedan e suas companheiras consideravam mais um ícone da submissão ao macho.

Qual! Hoje, nós, pobres machos, temos cada vez menos a oprimir. É bom para a humanidade, mas ainda é difícil para esta parcela da população mundial (pouco menos de 50%) entender que seu poder se esvai rapidamente. E que se esvaia! O mundo será melhor quando as mulheres mandarem nele. Haverá mais disciplina, mais atenção ao que importa, mais doçura, mas mais severidade na cobrança de promessas. Será um mundo mais inteligente. Bem mais inteligente.

Mas será que para que esse poder libertador se estabeleça será preciso extinguir elemento tão decisivo para a história da humanidade? É preciso que nos mobilizemos, e rápido. Do jeito que a coisa vai, estamos muito perto de uma nova era, mas e daí? Uma nova era sem calcinhas pode até ser uma nova era mais bem delineada. Mas só da porta para fora, dos vestidos justos para as câmeras insaciáveis. Na hora em que a festa acaba, em que o modelito perde o sentido e que os sentidos passam a prevalecer, a vida será um pouco mais sem-graça, se sem-calcinha.

***

Enquanto isso, no mesmo jornal, no mesmo caderno, na página 3, uma matéria muito mais interessante dá conta do lançamento de Eu sento, rebolo e ainda bato um bolo, de Andréa Cals, a inventora do Banheiro Feminino, e Marcela Catunda.

7.12.06

Acaba de chegar o exemplar que encomendei da última edição do "Primeiras páginas", da Folha de S.Paulo. É muito curioso dar uma passada de olhos sobre a história recente do Brasil. A História é uma peneira, que vai segurando o que é importante demais, dramático demais, lendário demais, enquanto deixa passar pelos vãos da trama o que é comum. O livro mostra a peneira ainda cheia.

Assim, pode-se ver, por exemplo, que, no dia em que se anuncia a entrada dos EUA na guerra da Coréia, a São Paulo Companhia Nacional de Seguros de Vida comemora seus 30 anos; a notícia do lamentado segundo lugar da baiana Marta "Duas Polegadas a Mais" Rocha, no concurso de Miss Universo, ladeia uma notinha dando conta de que Harpo Marx havia sido submetido a uma cirurgia renal; Martin Luther King e Assis Chateaubriand, que nunca se encontraram em vida, têm suas mortes anunciadas lado a lado; Perón ganhou sua eleição pós-exílio no dia em que Mirandinha salvou o São Paulo de uma derrota para o Fluminense em pleno Morumbi.

No dia do assassinato do líder egípcio Anuar el Sadat, o IBGE fixou o INPC, para fins de reajuste de salários, em 40,9%; os Menudos, conjunto portorriquenho de adolescentes-cantores que costumavam torturar os ouvidos das pessoas normais, visitam o Brasil no dia em que José Sarney assume a presidência da República interinamente, substituindo o presidente eleito Tancredo Neves, submetido na véspera a uma cirurgia de emergência; no dia em que, sob a batuta de Clinton, Israel e OLP assinam um acordo de paz, assaltantes simulam uma blitz em Bonsucesso, no Rio, para roubar os incautos (imagine que isso já foi tema de primeira página!); o técnico Candinho, do Palmeiras, perdeu o emprego no dia em que Bento 16 ganhou o seu.

De repente, vem à cabeça a idéia de que a História é, em grande parte, uma falsificação. Quando se conta que Pedro I resolveu dizer o "Fico", não se conta o que o ouvidor ouvia poucos metros ao lado, qual navio havia encalhado no porto ou se o vento noroeste tinha ventilado as enxaquecas das senhoras. A História isola os fatos e, assim, os deifica, traz a eles uma aura de perfeição. O tiro no peito dado por Getúlio, tão recente, já é visto como a ária final de uma ópera longa e triste, não mais como um ato extremo, com um quê de desespero, no meio de uma baita confusão barulhenta e apertada pelo espaço exíguo da rua do Catete.

Seria bom poder ver a história com os agregados de vida comum que o contexto traz e a História lima. Com algum esforço, nos veríamos parte dela e, o que é melhor, motivados a mudá-la novamente.

5.12.06

Recebi de uma pessoa muito querida um email-corrente propondo o boicote ao filme americano "Turistas", distribuído pela Paris Filmes e que estréia em janeiro por aqui. O filme, pelo que se pode ler, é uma historinha de terror "C", na qual jovenzinhos em viagem pelo Brasil passam por maus bocados com todo tipo de bandidos e bandidagens, depois de tomar caipirinhas envenenadas em uma praia carioca na qual todas as mulheres andam com os peitos de fora.

Me parece que a campanha contra é a única ferramenta de propaganda que o filme terá. A se ver pelo trailer, aqui, trata-se de uma bobajada equivalente a tantas outras que já vimos sobre a África, a Índia, a China, sempre mostrando uma visão estereotipada e superior do que eles imaginam ser o lugar que servirá de pano de fundo para um roteiro pueril.

Mas a pergunta é: por que a indignação? Não teremos dado motivos suficientes para que o imaginário popular sobre o Brasil inclua uma mistura de sexo fácil, trânsito difícil e muita, mas muita, malandragem? Não será por aqui que boa parte da população gaba a capacidade de dar jeitinho em tudo, e ainda chama isso de criatividade? Não será aqui que os motoristas dirigem sem respeitar a faixa de pedestres e jogando lixo na rua? Não será aqui que os publicitários fazem biquinho quando o prefeito decide limpar a cidade do lixo que eles produzem? Não será aqui que os que têm dinheiro se mudam para condomínios amuralhados, blindam seus carros, proíbem os filhos de andar de ônibus e xingam o menino que tenta lhes lavar o vidro da BMW? Não será aqui que as cadeias são fábricas ou de bandidos ou de cadáveres? Não será aqui que as duas maiores cidades do país têm mais da metade da população vivendo em cortiço ou favela? Não será aqui que o presidente da República vem a público dizer que não faz a menor idéia do que fazer em seu segundo mandato? Não será aqui que, velada ou explicitamente, divulga-se e estimula-se o turismo sexual, enquanto não se consegue coibir a prostituição infantil?

A questão é: será que se esses produtores de terceira linha pensariam em situar seu roteiro de suspense pueril na Europa ou na Flórida? Seria verossímil? Acho que devemos, mesmo, boicotar o tal filme, não em nome da Pátria enxovalhada, mas em nome do nosso precioso dinheirinho, que pode muito bem comprar duas horas de Almodóvar ou Cao Hamburger com a grana poupada. Mas deveríamos também pensar em fazer algo com o filme Z que são as nossas instituições e o nosso senso do que seja civilização. Deveríamos boicotar o jeitinho, fazer greve contra a malandragem, passeata contra o machismo. Deveríamos nos juntar aos vizinhos e aprender a pressionar a administração regional, depois a prefeitura, depois, quem sabe, os todo-poderosos que não enxergam bem o que se passa aqui embaixo, na chamada terra firme.

Assim poderíamos mais tarde, quem sabe, lançar mão da sociedade organizada para tomar uma posição contra esse tipo de manifestação anti-Brasil. Mas você deve estar fazendo a mesma pergunta que eu: "Que sociedade organizada?"

4.12.06

Em algum momento do dia de hoje, o Dito Assim terá recebido o seu leitor número 100 mil. É um número grande e redondo, mas um tanto ilusório. Pode traduzir, por exemplo, que seus quatro leitores entraram 25 mil vezes cada um. Ou que, sendo mais justo históricamente, com mais ou menos mil dias de instalação do contador no site, o Dito Assim teve mais ou menos 100 acessos por dia. Novamente, daria 25 para cada um dos quatro fiéis leitores.

Mas o bom desses marcos é ter uma pequena noção de história. Em três anos de desposicionamento, este sítio já gerou um pouco de tudo, de humor a mau humor, de poesia a pés quebrados, de comentários a vitupérios, tudo sempre com a companhia paciente e tolerante dos amigos dispostos a dedicar seu tempo a tanta desinformação.

De lá até aqui, aprendi que isto é um ótimo exercício, uma ginástica para a escrita que, se não a torna mais apurada, ao menos a torna mais rápida. Mas o melhor que esta montanha de maltraçadas dá é a coleção de amigos que ela traz e/ou resgata. Minha lista de favoritos cresceu muito. E muitos dos que apareceram virtualmente se transformaram em amigos do mundo analógico, daqueles que juntam chopp aos megabytes.

Não poderia deixar de lembrar dos sítios que me inspiraram e alfabetizaram: Carne Crua, Salón Comedor e Observador, todos com link ao lado e recomendação acima de tudo.

1.12.06

Mais um encontrado no tal baú dos recusados. Talvez por ser dezembro, a tolerância do editor seja maior.

Poeta e manhas

Sonetos soem ser sempre de amores.
Lamentam uns, outros são galanteios,
como galantes são, sempre, os autores
e o fito dos versos, belos ou feios.

Às vezes, fingem tristes estertores,
Vez por outra, por meio de rodeios,
Fazem lá o papel de mandar flores --
Pra ter perdão, não há melhores meios.

Mas se alguém olhar os versos de perto,
ali verá partículas estranhas
no que parece ser um verso certo.

Se vires um tratado em que só ganhas,
que ao riso some o encanto descoberto,
cuidado: é mau poeta e bom de manhas.