dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
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29.11.06
Dezembro está quase aí. É um mês em que, com a excessão dos comerciantes e dos fabricantes de antidepressivos, o mundo parece ficar meio tenso. Eu não sou exceção. E os sintomas, para mim, são traiçoeiros: invariavelmente, eu adquiro a convicção de que, enfim, a doença crônica-galopante (caso único na medicina, afinal, noblesse oblige) que irá abreviar os meus dias finalmente se instalou em meu corpo, ao que definharei a tempo de ver a quarta-feira de cinzas já ao lado de Vinicius de Moraes, Antônio Carlos Jobim e de meu tio Ito. Fora isso, há também uma tendência involuntária, como se fosse um rictus ou uma fibrilação repentina, de fazer balanços -- o que acaba invariavelmente descambando para os resultados entre parênteses, o que eu não fiz, o que eu não ganhei, que fracassos colecionei, como será possível descer mais em 2007 (isso se a misteriosa doença me poupar mais uma vez, como tem feito repetidamente nas últimas décadas). Mais um dia e meus pensamentos não conseguirão mais deixar de pousar sobre a fusão das calotas polares, o desaparecimento da camada de ozônio, o banho de sangue no Iraque, a inevitável invasão do Irã, o desmatamento do Pará. Nada me tirará da cabeça, a partir desta sexta-feira, que a humanidade é mesmo inconciliável, a medicina só evoluirá no que é cosmético, o crescimento econômico parará em 1%, os maus gargalharão, os bons esmorecerão e uma andropausa precoce me tomará de assalto, razão única, determinada pelo destino, para que meu mal crônico-galopante apenas me incomode, mas me deixe viver. Se é que se poderá chamar de viver o que há por vir. Dezembro será apenas o começo de muitos dezembros consecutivos, que testemunharão o meu sísmico ocaso, minha retumbante decadência. Papai Noel virá puxar meus pés todas as noites, com seu iorrorrô me mantendo insone e suas renas urinando nos meus pés (urina de rena causa reumatismo, você não sabia?). O fantasma do Bolinha (Edson Bolinha Cury, para os mais novos, um apresentador de TV dos anos 70, que pesava uns 300 quilos e usava camisas larguíssimas estilo havaiano; ah, e suava) cantará "Adeus ano velho, feliz ano novo" na minha porta, até que depois de uns oito ou nove dezembros, meu corpo finalmente desistirá, do que advirá a paz. Terei direito a discurso e marcha fúnebre. Mas aquele será proferido pelo Lula e esta, cantada pela Xuxa. 28.11.06
Fragmento de "O Preço do Peixe", 25 (mais Itália) Havia um tempo em que, para uma mulher casada viajar sozinha, era preciso mais do que um passaporte e uma passagem. Muitos maridos costumavam esperar até que as esposas chegassem aos 60 para, então, deixá-las sair pelo mundo. Ainda assim, a presença de uma amiga, se possível também sexagenária, era sempre bem-vinda. Quando o Constelation da Real Aerovias pousou, um disfarçado alívio foi seguido de um alegre falatório entre as famílias que esperavam seus alegres viajantes de volta à terra pátria. Era um tempo em que poucos podiam dar aos seus o luxo de uma viagem à Europa, portanto, os que esperavam se conheciam, fazendo do saguão do aeroporto uma alegre reunião social. Malas e malas e mais malas: pelo volume da bagagem, as duas amigas haviam se divertido muito. Alegres, reencontraram os maridos, nem tão alegres, pelo custo que aquela chegada parecia trazer, mas com o alívio de que a gestão da casa, filhos, genros, netos, deveria voltar ao normal. Os dois casais se despediram à saída, com direito a diversos combinados de reuniões futuras promovidas pelas duas, mais do que nunca, eternas amigas. Casa, finalmente. Depois de tudo guardado, ou quase, apenas os presentes na sala, ele, gentil, pergunta: -- E então, meu amor, como foi tudo por lá? Ao que ela se põe a contar Roma, detalhe por detalhe, até que, uns vinte minutos depois, faz uma pausa e, então, continua: -- Bom, e teve aquele rapaz no hotel, sabe?, eu pedi um chá, já perto da hora de irmos dormir, então bateram à porta e, quando eu abri, era um rapagão alto, aquele tipo bem italiano, nariz proeminente, e, imagine, com um sorriso amigável, olhou para mim, que estava de camisola (era hora de dormir, não era?) e era uma daquelas camisolas um pouco mais curtas, você sabe que eu não gosto nem muito comprida nem muito curta, mas um pouco acima do joelho, só um pouco, e não é que o rapaz olhou justamente para a barra da minha camisola e, antes de servir o chá, com o sorriso amigável, me diz "maquebelegambe", deixa o chá ali na mesinha e sai, nem esperou que eu lhe desse um gorjetinha, imagine, e eu estranhando aquilo, tão simpático o rapaz, e então a Marina saiu do banho, ela entende um pouco de italiano, e eu perguntei "o que será que o simpático rapaz quis me dizer, Marina, ele antes de pôr o chá na mesa me disse 'maquebelegambe' e depois foi embora, nem quis gorjeta, sempre rindo, o que ele quis dizer?", e ela então me contou, veja só! Pausa. -- Imagine que era "Ma che belle gambe" o que ele tinha dito! -- E? -- E isso em italiano quer dizer "Mas que belas pernas!" Eu imediatamente liguei lá para baixo, claro. -- E chamou o gerente, claro. -- Chamei, ora se chamei! E perguntei o nome do camareiro e pedi que ele subisse lá na mesma hora. -- ! -- E, dois minutos depois, estavam lá o rapaz e o gerente. -- E você? -- Eu dei 10 dólares ao rapaz e ainda mais 10 para o gerente. -- Mas como? -- Ora, querido, fazia pelo menos uns 30 anos que ninguém elogiava minhas pernas. Ainda em italiano, como é que eu podia não lhe dar uma gorjetinha? -- E o gerente? -- Ora, assim ele aprende... E voltou a contar sobre as incríveis lojas que encontrou, aquelas vias todas, tudo uma maravilha. 27.11.06
Nem tão novidade assim, o blog do Peri S. Coppio está cada vez melhor. Peri junta o talento adquirido nas pranchetas (será ele o alter ego daquele blogueiro que anda atazanando os egos da rua Maranhão?) com o radar que lhe permite ir de Vitruvius a vi-tudo em um piscar de dedos. Leitura/figuratura obrigatória. 24.11.06
Talvez soe um pouco como os heavy causes, light songs dos jamaicanos dos anos 70. Mas de repente achei graça nesse sonetinho achado no fundo de uma pasta de recusados. Esquina Na calçada, o bêbado estava em coma. Acostumado, sobreviveria. Um metro além, no carro junto à guia, o homem reclamava, em sua redoma. Queria chegar logo, mais depressa, e a luz vermelha ali atrapalhava, mera formalidade, meia trava. Pensava: afinal, que lei é essa? Às tantas, o briaco levantou, ressuscitou alegre de seu porre. No carro, o cara aflito dava show. Enquanto, no amarelo, a turma corre, o bêbado, educado, atravessou. De novo, o ser humano pobre morre. 22.11.06
Fragmento de "O Preço do Peixe", 24* Ela estava na Itália, junto da família que conhecera já adulta, mas que deixava claro que portava nas veias o mesmo sangue que corria nas suas. Pela segunda vez ia ver os parentes romanos, mas parecia que sempre tinha morado lá. Era uma emoção especial, podia até forçar um pouco a barra e dizer que só quem descendesse da loba romana sabia o que era sentir aquilo. Desta vez, a família havia arranjado uma viagem para a praia, apenas para incrementar a estadia da já queridíssima prima brasiliana. Iriam rumo ao leste, atravessando a bota até chegar a Pescara, dali a Ancona, depois Rimini, a terra de Federico Fellini. No carro, a prima, o marido da prima e os dois filhos pequenos. Uma viagem não muito longa para quem se acostumara com as extensões brasileiras. Os anfitriões teriam três dias para mostrar à prima querida novos encantos da terra que, afinal, também era dela. Tudo ia bem, até o meio do caminho entre Roma e Pescara. Ali, o movimento foi crescendo, crescendo, a velocidade do carro diminuindo, até que se viram presos em um enorme congestionamento. Bem, fazer o quê? Bolachinha, rádio, soneca, conversa vai, conversa vem, e nada. Não era difícil prever que as crianças sentiriam mais o desconforto. O menino, caçula, que havia conseguido dormir um pouco no colo da prima acordou, ergueu a cabeça até onde pudesse enxergar o pára-brisa e, vendo tudo parado, começou a chorar, irritado, e a gritar: -- Perchè? Perchè? Ante o olhar dos quatro companheiros de viagem, ele continuou, enfurecido, com as duas mãos para a frente, já tão pequeno assumindo a postura de um italiano típico, e completou: -- Perchè il primo non camina? Boa pergunta: por que o primeiro não andava? Seria tudo tão mais simples. O sono venceu-o de novo e acabou não vendo a hora em que o primeiro finalmente resolveu ir em frente. * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, causos mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. 21.11.06
Fico aflito quando alguém puxa o assunto de estabelecimento de cotas para minorias em universidades, concursos públicos etc. Principalmente quando se trata de raça. Outro dia, o jornalista Demétrio Magnoli descreveu, em mais um de seus brilhantes artigos, uma cena em que sua filha foi colocada ante a necessidade de preencher uma ficha para a escola pública em que viria a estudar, na qual se apresentavam cinco opções de raça: branca, parda, negra, índia e amarela. É constrangedor. No entanto, quando olhamos a história do país, vemos lá que durante três séculos (a conta oficial é de 329 anos) o Brasil conviveu com a bizarra situação de ter gente como instrumento de trabalho ou animal de tração e carga. Gente negra. Bóris Fausto, em artigo para a Folha do último domingo, cita o parecer de um jurista do século 19 a discorrer sobre a cidadania dos escravos libertos. É chocante a frieza com que ele parte da premissa de que escravo é por definição apátrida, uma vez que a atribuição de cidadania lhe conferiria, em última análise, a liberdade. Nos quase 120 anos que passaram, da promulgação da Lei Áurea para cá, podemos ver a questão do negro sob dois aspectos: o primeiro é evidente, mostra-o ainda ocupando um papel secundário na vida nacional, pelo menos no que tange às instituições -- quantos são os governadores negros, os empresários negros, os parlamentares negros? O segundo é sua incrível influência na sociedade e na cultura do Brasil. Somos um país em que a comida, a língua, a música são em boa parte negra. Não sou antropólogo para discutir isso com profundidade, mas me parece que, dadas as precaríssimas condições a que foi submetido o negro libertado após 1888, é incrível ver como ele conseguiu se integrar. Os dois aspectos são, então, os óbvios: podemos ver o quanto se andou e o quanto falta andar. Aí entra a questão das cotas. Pelo que se propõe, uma fração, por exemplo, das vagas nas universidades deve caber aos negros. É inevitável a pergunta: quem terá direito ao benefício? Aí, a resposta é: quem se declarar negro. O então candidato Lula mencionou um "examezinho de sangue" em um dos debates surrealistas de que participou em 2002, revelando uma pontinha do fascismo que nos habita a todos, até os que põem estrelinha vermelha na lapela. Seguem as questões óbvias: e se eu me declarar negro? E se negro tem cota, por que não índio? Ou os polacos do Paraná? Ou os vênetos pobres do interior de São Paulo? Ou as mulheres? Ou os gays? Ou as pessoas com necessidades especiais? A questão é muito mais complexa do que a demagogia de gente como Tarso Genro tenta nos colocar. Ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos, a fronteira entre negro e branco no Brasil não é clara. A se incluir os pardos como elegíveis às cotas dos negros, chegamos à condição bizarra de termos cotas para uma maioria. Ao mesmo tempo, o preconceito aqui é velado -- enquanto nos EUA era claro, podia ser combatido à luz do sol. A própria discussão sobre a afirmação da população negra passa por ambigüidades sérias. Ao se ver o negro como "tadinho", se reproduz o senso de superioridade da gente da casa grande ante os amontoados da senzala. No meu modo tosco de entender, se é para haver cotas e outras medidas afirmativas e inclusivas, o caminho mais lógico e justo é que elas tenham um critério sócio-econômico, e não racial. Primeiro, porque, como bem disse o governador Cristovam Buarque, ao se incluir os mais pobres, se estará incluindo os negros, ainda massivamente pertencentes às classes menos favorecidas. Depois, porque reconstruir fronteiras que foram se esfumando com o passar dos anos não desconstrói preconceitos, os acirra. A história e a própria organização das comunidades negras vêm trazendo resultados muito positivos na linha da integração definitiva das diversas raças que compõem este Brasil e lhe dão o que Darcy Ribeiro reconhecia como uma identidade própria, antes brasileira do que branca, negra ou índia. 17.11.06
Evolução O homem primevo era caçador. Caçado, inventou os filhos e os medos, tentando enganar a morte e a dor. Com isso, foi aos netos e a segredos. Nos primórdios, jovem, já copulava, prolificava antes de ser comido ou tragado por chuva, charco ou lava. A prole o tornava sobrevivido. Conquistada, no entanto, a sobrevida, esticando o viver até a centena, surpreso viu que, postergada a ida, a vida reservava-lhe outra pena: além das cãs e da glande caída, a próstata cansada entrou em cena. 16.11.06
Comentava ontem com um amigo querido um acontecimento do mundo empresarial: a demissão em massa e globalizada que a Avon perpetrou em sua estrutura, com a finalidade alegada de modernizar sua operação. O fato é que algo como 30% do corpo de funcionários da empresa foi ou será demitido em curto prazo. Parece que há um programa de compensações, pelo menos para parte das vítimas do passaralho, mas o que fica como repercussão é que a maior empresa de cosméticos do mundo, com faturamento em torno dos 3 bi de reais aqui no Brasil, reviu seu modus operandi à custa do emprego de milhares de profissionais mundo afora. Do outro lado, vemos a Natura, principal concorrente da Avon no Brasil, começando a se espalhar pelo mundo, via América Latina e -- ousadia calculada -- via França. Seu faturamento no Brasil se equipara ao da Avon (se não me engano, já passou). O que você sabe da empresa? Provavelmente, que ela usa insumos naturais, que sua fábrica é ecologicamente correta, que ela se relaciona com as comunidades da floresta, que respeita as belezas individuais, que investe no bem-estar de sua cliente, que respeita profundamente seu corpo de vendas. Você se lembra de demissões em massa na Natura? O fato é que o caminho para progredir depende de escolhas. Nada me convencerá de que não havia outro meio para a Avon entrar no caminho da eficiência e da reestruturação de suas operações (quem entende fala de uma tal "estrutura matricial", seja lá o que isso queira dizer) do que demitir em massa. Nada me convencerá tampouco de que o arranhão na imagem da megaempresa parou por aí. Acho que as demissões provocarão danos econômicos ainda imprevisíveis, mesmo tendo a Avon implementado um plano de compensações dos demitidos que consumiu algo como metade de seus lucros deste ano. Isso é contábil, não se relaciona diretamente com a imagem gerada, que é a do hediondo passaralho. A comparação entre as duas empresas mostra que, na era da informação, não há o que salve uma empresa que diz ser de um jeito na propaganda e age de outro da porta para dentro. Aliás, a Avon, sintomaticamente, planeja dobrar seus investimentos em propaganda. Deveria pedir uns palpites para sua colega Nike, que teve um impacto sério em seu balanço no ano em que se descobriu que um licenciado da marca no Oriente usava trabalho infantil. Deveria também mirar-se no exemplo da concorrente brasileira, que não pára de crescer e já há muito tempo percebeu que não há divisão entre "marketing" e "endomarketing", entre o que se diz e o que se faz, entre o que se impõe como princípio e o que se segue como prática. 13.11.06
Quadras de pouco siso Na minha corte suprema, sou bacharel e juiz. Imponho cela e algema, decido quem é feliz. *** Equilibro-me à balança, pondero meu veredito. Quem espera só alcança contencioso ou delito. *** Julgo a mulher do prefeito, do padre, ouço a versão: daquela, foi ele ao leito para ajudar na oração. *** Se for o réu abastado, julgar não será prudente. Quando o rico é condenado, juiz vira delinqüente. *** Diz-se nalgum versículo que o juiz será julgado. Implacável ou ridículo, sei que serei condenado. *** Condenei e dei sentença: prendo-te a mim todo dia. Mas como obter avença se julguei-te à revelia? 10.11.06
Uma das mais lindas figuras desta rede formada pelos blogs resolveu dar um tempo: Pérola Negra parou. "Parou por quê?", perguntam os fãs. Parou porque cansou, o que é justo e deixa a esperança de que volte. Perolita é uma rara combinação de bom texto com coloquialidade e de boa pauta (vale lembrar a cobertura das manifestações estudantis em Florianópolis) com o traço pessoal típico dos blogs. Acho que ainda vamos ouvir falar muito de seu talento, com ou sem blog. *** O Alex Senna, amigo desta casa, jovem e talentoso artista gráfico que já integrou o plantel da Milk, tem seu blog Macaco Branco como finalista do Prêmio Criatividade Jovem. Vale a pena dar uma olhada lá. Depois, votar no Alexeiev será inevitável. *** Os queridos Caloca Fernandes e Maddalena Stasi estão entre os autores de "Céu da boca - Lembranças de refeições da infância", livro de receitas e reminiscências do paladar, da Editora Ágora, a ser lançado no sábado, 18, em coquetel que vai das 11h às 15h, no Museu da Casa Brasileira (Faria Lima, 2705). O livro ainda traz receitas de gente boa como Bóris Fausto, Antônio Maschio, Hamilton Mellão, Maria Rita Kehl e seu irmão Antônio e outros tantos. 9.11.06
Não sei se é do homem ocidental ou apenas do brasileiro típico, mas o fato é que não sabemos lidar com a morte. Muitos de nós têm um medo incontrolado de morrer, outros se revoltam contra isso -- mesmo que, curiosamente, seja a única certeza que a vida nos dá com relação ao futuro --, outros ainda não pensam no assunto nem dele falam, como se isso evitasse alguma precipitação da sina inexorável. A fé acaba tendo um efeito positivo nessas horas, uma vez que as religiões definem diferentes destinos a quem se vai deste, e quem as pratica, portanto, já sabe o que vem depois. Mas, de fato, são raros aqueles em que a fé suplanta o medo. Penso que esta é uma questão (mais uma) que caracteriza este homem-ocidental-ou-apenas-brasileiro-típico como um ser que congela em um ponto de seu amadurecimento e ali pára. Talvez por já ter passado muito perto da porta de saída, imagino a fobia pela morte como algo pertinente a quem é muito jovem e, portanto, instintivamente avesso ao desfecho final. Quem já viveu o suficiente para completar alguns ciclos da vida tem a chance de começar a entendê-la e a seus limites. No entanto, a maioria de nós pára naquele estágio de não compreensão do ciclo. Talvez por isso, nos homens descritos ali em cima, os ritos que visam justamente fazer o grupo mais próximo do finado entender melhor, refletir e digerir a perda da pessoa querida, transformam-se facilmente em uma espécie de pesadelo, um lembrete estridente daquilo que não se quer lembrar, muito menos elaborar. Daí, veladas reclamações e, aqui e ali, contido incômodo. Em algum canto, uma frase: "Quando for a minha vez, não quero nada disso". A tradução é: "Quando for a minha vez, quero que não seja a minha vez." Ouvi de uma pessoa sábia: "Será que é tão difícil perceber que o fim de uma história é seu coroamento?" É difícil. Mas parece ser muito mais difícil levar a vida sem elaborar essa questão. 8.11.06
Mais um sonetinho de pentassílabos. Alvoreço Sete da manhã, nem sol nem azul, garoa terçã, reclamos do sul. Me estanca o porém, mas manda o juízo que eu siga um também sob chuva ou granizo. Persigo o futuro que foge, lampeiro. O passado duro come o "já" inteiro. O presente, obscuro, some ao travesseiro. 6.11.06
Estive no Rio de Janeiro, cidade que amo. Mas desta vez, fui vê-la com outros olhos, olhos para o passado. Estou participando de um projeto editorial, de cujos detalhes ainda não posso ficar falando abertamente, que envolve um olhar histórico sobre a cidade. É diferente quando se vê a cidade desta forma. Ela continua bela de tirar o fôlego, mas é interessante pensar que essa beleza tem um quê de Miss Venezuela. Explico: quem já viu um concurso de Miss Venezuela sabe que todas aquelas finalistas, ou pelo menos a vencedora, passaram por umas 14 plásticas e lipoaspirações até galgar à condição de rainha da beleza local, leitora-mór de El Pequeño Príncipe, a dedicar su título a mamá. Foram muitas as plásticas pelas quais a cidade passou, e é possível dizer que o Centro, ou melhor, a região que vai do antigo porto até a Urca, depois toda a orla fora da baía de Guanabara, de Copacapana ao Leblon, tem hoje um mapa completamente diferente do que tinha até a década de 20 de século passado. Sucessivos aterramentos foram transformando o desenho da costa, principalmente entre a Glória e a Praça 15, e modificando radicalmente sua ocupação. Não há dúvida de que o maior e mais conhecido deles, o Aterro do Flamengo, é um espetáculo de paisagismo à parte.
Cena da demolição do Morro do Castelo, em foto de A. Malta Mas o que mais me surpreendeu foi conhecer melhor a história da derrubada do morro do Castelo. Desde pequeno sabia dessa façanha, contada aqui em São Paulo com uma ponta de admiração: em algum lugar do passado, o Rio de Janeiro tinha simplesmente arrancado um morro incrustado na cidade e feito ali uma aprazível planície, logo forrada pelo manto do progresso e seus arranha-céus. Confesso que apenas com essa viagem pude vir a saber que o morro do Castelo -- e não era à toa esse nome -- era simplesmente onde o Rio havia começado (ou quase; o lugar onde o Estácio fundara a cidade, o morro Cara de Cão, ali espetado entre o morro da Urca e o Pão de Açúcar, era pequeno demais e foi abandonado um par de anos depois). Sobre o morro do Castelo, pois, cresceu a cidade, e dali foi-se espalhando. Pois em 1920, o presidente Epitácio Pessoa nomeou o prefeito Carlos Sampaio, com a missão de deixar a cidade apresentável para os eventos do centenário da independência. Retomando uma discussão do século anterior, quando um grave desabamento provocado pela chuva levou a um clamor pela retirada de parte do morro, Sampaio propôs o que seria a primeira mega-reforma da cidade*: a pura e simples remoção do morro em que o Rio havia nascido, quase quatro séculos antes. Uma obra devastadora fez com que, em cerca de um ano, todas as edificações fossem demolidas e toda a terra fosse removida, servindo de material para aterros, entre eles o que deu origem ao terreno do Jockey Clube, ao lado da lagoa Rodrigo de Freitas, e os que resultaram no largo da Carioca e no largo do Machado. A história da fundação da cidade virou entulho, que incluía mesmo alguns ossos de seus primeiros habitantes, sepultados nas muitas igrejas da elevação. Confesso que essa revelação me deixou um pouco aliviado (ser desprezível que sou em alguns momentos) por saber que essa sanha demolitória não é só coisa de paulistano. Achava que só aqui se demolia impunemente o local de fundação da cidade. Certo, aqui ainda tentaram reconstruir o Pátio do Colégio, com a grife da construtora Adolfo Lindengerg, para ver se as gerações futuras esqueceriam do desastre e acreditariam que ali estava o núcleo original da cidade. Mas lá na Cidade Maravilhosa, a obra do tal Carlos Sampaio deixa o nosso mal-humorado Prestes Maia no chinelo. Afinal, desfazer o curso de um rio e seus dois maiores afluentes é uma obra civil que não se compara à devastação de todo o centro velho da cidade de uma vez só. Bem, Sampaio e Maia, a estas horas, estão lá discutindo conceitos de urbanismo, cada qual dentro de seu caldeirão. Bem quente, a se avaliar pela obra que perpetraram. * Há aqui uma impropriedade histórica que se pode atribuir à passionalidade açodada do escriba quando se põe a implicar com algo ou alguém. A primeira grande reforma urbana planejada pela qual passou o Rio de Janeiro foi a de Pereira Passos, prefeito do Rio entre 1903 e 1906, que, se não desfez e recriou acidentes geográficos, pôs a cidade abaixo e a reedificou. A marca arquitetônica que, para mim, simboliza a reforma Pereira Passos é o trio de edificações formado pelo Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e a Escola Nacional de Belas Artes, hoje museu. São de uma beleza inegável, ao mesmo tempo em que a caipirice de imitar (ou copiar, no caso do Municipal) prédios europeus é quase constrangedora. Obrigado, Vivien! 1.11.06
Como se vê aqui, tenho uma predileção por sonetos, o que um dia desses vou ter de resolver, seja em terapia, seja com professor particular. Hoje, resolvi escrever sobre o tempo, motivado pela condição de alguém que vive seu ocaso.. Nada como um soneto com versos de cinco sílabas para falar do assunto efemeridade. Aí vai. Temporal Quem sabe viver não conta nos dedos o tempo a correr nem guarda segredos tão só por saber que os momentos ledos e o doce prazer não permitem medos -- nem o de morrer nem o da idade que se pensa ter. Medir a verdade nos faz perceber nossa brevidade. |