dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Set 2006 Out 2006 Nov 2006 Dez 2006 Dizem por aí: Dito Assim - O outro Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde Blog da Milk Frankamente Pecus Bilis Navegar Impreciso Muié Pérola Negra Filosoclics Guga Alayon Cyn City A Vida em Palavras Taxitramas Marina W. Terapia Zero Talvez sim, talvez não Alex Senna Drops da Fal Infinito Positivo Zeitgeist Críticas e Reflexões Peri S. Coppio Josimar Melo Lucia Guanaes, fotos MM Leite, fotos |
31.10.06
Fragmento de "O Preço do Peixe", 23 Atrasado -- de novo. Mas ela haveria de entender; o carro, afinal, era importante para a noite deles, e só havia sido emprestado por seu pai às quinze para as dez, quarenta e cinco minutos depois do horário em que ele havia combinado encontrá-la. Chegou apenas dois minutos antes dela sair com as amigas e deixá-lo para trás -- pelo menos foi o que ela lhe disse, rosto voltado para a rua além da janela, alternando um dez segundos de silêncio com um murmúrio que comunicava algo entre o arrependimento e a irritação. Só podia ser algo passageiro. Por isso, seguiu o caminho combinado desde a semana anterior. Em pouco mais de dez minutos, ligou o pisca-pisca e entrou numa travessa da Marginal Pinheiros, para, logo em seguida, embicar em uma entrada claramente identificada pelo neon vermelho: Motel. Ela fez uma cara de ultraje e virou o rosto para o vidro, enquanto ele escolhia o quarto e entregava os documentos de ambos à sonolenta mocinha da portaria. Deixou o carro morrer uma vez antes de trilhar o caminho das diversas portinhas de garagem e encontrar a sua. Entraram no quarto, depois de um giro apertado pela escadinha em espiral entre o carro e a porta. Ela sentou-se na cama e fechou a cara. Inúteis os esforços dele para agradá-la. Carinhos, argumentos, suspiros, nada conseguiu mudar-lhe o bico. -- Quem disse que eu queria vir aqui? -- Ô, minha gata, a gente tinha combinado, eu ia pegar o carro do papai e a gente viria para cá. Mas o velho atrasou, que é que eu posso fazer? -- Você reparou que não pára um minuto para pensar em mim? É o papai, é o carro do papai, é o motel... E eu? -- Minha gata, eu só penso em você. -- O Felipe chama a Camila de "meu amor" na frente de todo mundo. E você? -- Pô, eu não sou o Felipe. -- Bem se vê! E por aí foram, entrando pelo labirinto da conversa a dois, tão perigoso para quem não é versado. Em meia hora, impasse. -- Acho melhor a gente ir embora. -- Eu também -- ela ainda lançou um olhar quase imperceptível de "tem certeza?" Duros na queda, os dois foram, contra a vontade, saindo do quarto e entrando no carro. À saída, ele estacionou ao lado da portaria e desceu para acertar as contas. Ela ficou no seu lugar, já com cinto de segurança afivelado. Ligou o rádio e esperou. Esperou. A ponto de ouvir um Felipe Dilon, um reggae, dois sambões não identificados, uma cantora de voz grossa e língua estranha e pelo menos uma má notícia. Estava mais ou menos no quarto intervalo comercial quando ele apareceu. -- Poxa, eu achei que você tinha morrido lá dentro. -- É que a moça não queria entender. -- Entender o quê? -- Que não era para cobrar. -- Como assim? -- Que não era para cobrar, ora essa, afinal a gente nem transou. -- Você... Você... Você ficou quase uma hora contando que a gente não transou? -- Ué... -- Eu fico aqui mesmo! Conseguiu com muito esforço deixá-la em casa. Ela saiu do carro sem dizer uma palavra, bateu a porta e o deixou pensando no que teria feito de errado. Talvez devesse conversar com seu pai sobre o assunto, o velho entendia muito de mulher. Duas semanas depois, resoveu levar-lhe flores. As mulheres, dizia o pai, tinham uma enorme capacidade de perdoar. -- Que rosas lindas! Não precisava, devem ter custado uma fortuna. -- Imagine, minha gata, nas barraquinhas do Araçá é tudo uma pechincha. Nunca mais a viu, depois daquela noite, apesar do mês de saudade que ela teve antes de esquecê-lo por completo. 30.10.06
Lula ganhou com folga. É preciso fazer uma leitura otimista disso. A derrota do PSDB deve ser lida à luz dos resultados do segundo turno, muito diferentes do que se poderia imaginar uns meses atrás. O PT acabou elegendo uma bancada equivalente à que já tinha e, de quebra, elegeu os governadores da Bahia e do Pará, superando sua próprias expectativas. Avalia-se em 18 o número de governadores com os quais Lula poderá contar como aliados a partir de janeiro. Os números da vitória, ao contrário do que o primeiro turno sinalizava, não desenharam um Brasil dividido entre sul e norte: Lula avançou sobre mais da metade do território que havia perdido em 1 de outubro. Sua vitória é incontestável. O que isso significa? Há várias leituras possíveis. A primeira e mais fácil é a de que a estratégia de comunicação da campanha do petista foi mais competente e fez colar no adversário a pecha de "de direita" e "privatista". Alckmin reagiu de forma sofrível, acusando ambos os golpes. A assinatura da declaração passada pelo garotinho no interior do país só foi menos patética do que a foto com o Garotinho do Rio e família. Este foi o abraço do afogado. Houve também equívocos típicos de quem considera que política se resume a um marqueteiro atento. Uma boa pista do equívoco que isso consiste é dada pela frase do embaixador Andrea Matarazzo: Esconder FHC significa ignorar o trabalho e o avanço feito pelo PSDB no Brasil. Além dos oito anos de governo dele, dois mandatos vencidos no 1º turno, o que mais o partido tem a mostrar? Não é uma resposta fácil, mas o resultado de Alckmin, que teve menos votos no segundo turno do que no primeiro, mostra que pior do que ser picolé de chuchu é tentar colocar flavorizante artificial na mistura. O povo logo vê o engodo. O fato é que, usando mais uma metáfora dessas que o presidente gosta, Lula ganhou por W.O. Seu adversário foi fraco e seu desempenho deixou a impressão de que teria pouco a fazer pelo Brasil. E, por falar nisso, e o Brasil? Há dois jeitos de ver a coisa: o pessimista dirá que teremos mais quatro anos de mediocridade, agravados por uma retomada de CPIs, denúncias e assemelhados. O otimista dirá que as lições do passado recente e a votação consagradora farão de Lula finalmente um estadista. Acho que os tempos imporão uma realidade entre as duas. Já na retomada das atividades do Congresso, terá início a investida da oposição mais raivosa -- ACM e seu neto à frente. Em compensação, Lula deverá conseguir avançar no seu pacto com os governadores e montar uma bancada mais ou menos segura. Só lhe restará, então, implementar as reformas já tão atrasadas -- tributária, política e, se os céus permitirem, a do judiciário. Tem um imenso cacife político para fazê-lo, e rápido. A partir daí, é torcer para que a confiança dos tais mercados se consolide e que o cenário econômico internacional permaneça favorável. Isso permitirá que, com um mínimo de competência, o governo consiga fazer a sua parte na retomada do crescimento. Findo tudo isso, a história começará a mostrar que o ciclo FHC-Lula terá mudado o Brasil. Resta apenas esperar que o caminho óbvio pelo entendimento entre petistas e tucanos -- pelo menos os segmentos inteligentes e comprometidos com o Brasil, dos dois partidos -- seja trilhado a tempo. 27.10.06
É inevitável falar do assunto. Afinal, no domingo o Brasil vai reconduzir Lula à presidência da República. Quando o presidente foi eleito pela primeira vez, uma pessoa muito querida e próxima me disse: "Eu não posso deixar de me orgulhar e me alegrar profundamente com um operário na presidência do Brasil." Era, de fato, notável, em uma república cujo comando fora sempre dividido basicamente entre advogadozinhos, generais e assemelhados. Lula é, de fato, a demonstração viva de que a democracia amadurece neste país. Encantou a população (em pelo menos dois sentidos da palavra "encantar"), será presidente de novo pela vontade soberana e entusiasmada do povo brasileiro -- e as pesquisas mostram que não mais somente do povo dos grotões -- e pode sair em 2010 como um personagem histórico tão importante quanto Getúlio Vargas ou Pedro I. No entanto, Lula revive uma ambigüidade que sempre marcou os políticos mais importante do Brasil: sempre fomos reféns do malvado que realiza (como Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul) ou do que rouba mas faz (como Ademar de Barros em São Paulo) ou ainda do que suprime os direitos do povo mas compensa-o com benesses (caso do velho Getúlio). O atual e futuro presidente teve muitos de seus segredos, se não revelados, ao menos insinuados ao longo dos últimos quatro anos. O aparelhamento do estado, os atos de corrupção em seu governo, o assistencialismo ao velho estilo clientelista que parece implementar, tudo isso faz dele um ser ambíguo, a partir de 2010 à mercê da história. E por que essa consagração? Lula sabe compensar sua falta de preparo formal com um enorme talento de comunicação e uma surpreendente capacidade de convencer --ou de se impor, como preferem alguns dos que o conhecem. Pudera, ninguém fica por 3 décadas à frente de uma instituição partidária onde a fúria e a rebeldia sempre predominaram. É preciso ser forte. E é preciso ser convincente também. É óbvio que Lula é um craque. Mas é óbvio também que seu oponente não era páreo para ele, e até eleitores mais convencidos da opção Alckmin têm mudado seu voto nos últimos dias. O que se pode esperar para o Brasil é que Lula continue administrando mais ou menos como fez até aqui, sem grandes solavancos. Isso lhe conferirá uma consagração popular em 2010 que passará para a história, escondendo por algum tempo a mediocridade de sua gestão. A mesma história será capaz de reconhecer o papel essencial para o desenvolvimento do Brasil que exerceu o presidente FHC, notadamente no primeiro mandato. Esperemos, para o bem do Brasil, que, em termos de segundo mandato, Lula tenha melhor sorte que seu antecessor. PS: Bons votos a todos os amigos desta cabana 26.10.06
Fragmento de O Preço do Peixe, 22* Só quem tem enxaqueca sabe: é um suplício que a Natureza guarda para uns poucos, a quem, em outras qualidades, até que premia com alguma liberalidade. Talvez uma compensação congênita. Ele sofria muito esporadicamente das crises -- que, ao contrário do que pensa a maioria, não se resumem a uma dor de cabeça de um lado só do crânio, têm sintomas paralelos piores do que a própria dor, como a cegueira parcial, visões de formas brilhantes esquisitíssimas, uma vontade irresistível de vomitar, amortecimento dos dedos de uma das mãos, normalmente o mínimo e o anular, às vezes a mão inteira, e sempre do lado oposto ao da dor de cabeça. Os primeiros sintomas apareceram em plena avenida Paulista, ele à direção de seu carro, uma relíquia de família, um DKW beige tão novo quanto só uma máquina do tempo geraria. Imediatamente ele pensou: "tenho de ir para casa já", o que implicava sair da pista da direita, de onde ele iria descer a rua Augusta, e passar para a da esquerda, chegar ao túnel que leva à avenida Rebouças e acelerar o carrinho rumo ao quarto escuro, única terapêutica possível. Pisca-pisca para a esquerda, mudando de rumo ajudado por motoristas gentis, até que, já na boca do túnel, passa um desses meninos mimados e vitaminados, carro zero, muita musculatura e nenhuma solidariedade. Colisão. O carrão espaçoso pegou o pára-lama dianteiro esquerdo daquele até então imaculado carrinho. E seu dono naquela terrível fase inicial da enxaqueca. Logo, segue o ritual dos carros que batem. Descem os dois motoristas para, como no samba de Noel Rosa, conversar e discutir. Um, boyzinho. O outro, um cara zen, com enxaqueca. O boy, musculoso como seu carro, toma a iniciativa da palestra, com tom e maneira típicos: "Tira essa lacraia da rua, meu, cê tá pensando que" etcétera e tal. "Mas eu tava dando sinal" etcétera e tal. O menino musculoso chega perto demais da enxaqueca do outro, que só queria ir logo para casa. Encara-o, superior, rosto muito próximo. "Bundão!" "Mas..." "Seu bosta." "Mas..." "Como é que você faz isso com essa lata velha?" "Olha, desculpe, mas eu..." "Eu o cacete!" E o cara a dois palmos. Enxaqueca. Estrelas em frente aos olhos. Cegueira parcial. Vomitar era questão de minutos. "Seu bos..." -- não terminou a frase. O murro veio firme, rápido seco. Para evitar de vomitar em público, o enxaquecoso fechou a mão e desferiu um golpe só, que pôs o fortinho a dormir. Hesitou por um segundo, o macistezinho ali no chão como um bebê no berço, gente juntando em volta. Preferiu logo embarcar na relíquia devassada, acelerou o motor de dois tempos e se foi, com a pressa de chegar ao quarto escuro tão necessário. No sinal da Oscar Freire, ele se deu conta: a enxaqueca tinha ido embora. Não mais estrelinhas, não mais enjôo, não mais amortecimento dos dedos, não mais dor na metade da cabeça. Só um ligeiro incômodo nos nós dos dedos da implacável mão direita. O sinal abriu junto com a tomada de consciência: ele tinha descoberto a cura da enxaqueca. Já na avenida Brasil, ponderou: era melhor, para a manutenção da paz no planeta, guardar para si a descoberta. Em casa, procurou alguma arnica para aplicar na mão. * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, causos mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. 24.10.06
Duas marcas do dia de ontem: mais um debate entre os candidatos à presidência e o centenário do primeiro vôo do 14-Bis. A TV Record mostrou mais uma "Sessão Bi-Lhão", com os candidatos repetindo a cachoeira de números, aqui e ali temperada por alguma acusação insossa. No quesito palco, Lula deu show num Alckmin repetitivo e pouco convincente. Debate é show e Lula é show-man. No de ontem, estava na ponta dos cascos. A marca contrastante vem dos 100 anos do primeiro vôo do 14-Bis, 60 metros que mudaram a história da tecnologia. É curioso: este é um país que tem heróis de papelão e anti-heróis maravilhosos. Alberto Santos-Dumont era uma figura completamente fora do physique-du-rôle de um herói nacional. Tinha cerca de um metro e meio de altura e usava botas de salto para tentar amenizar isso. Sofria de algo que hoje se supõe ter sido uma severa psicose maníaco-depressiva. Estabeleceu-se em Paris depois que o pai, Henrique Dumont, já sofrendo das seqüelas de uma queda de cavalo, legou ao jovem Alberto, ainda com 17 anos, dois terços de sua (imensa) fortuna e sua emancipação. Henrique Dumont era o mais produtivo plantador de café do Brasil, e valia-se de diversos recursos tecnológicos para isso, como uma pequena ferrovia circundando o cafezal, o que facilitava e tornava mais ágil a colheita. Alberto era uma espécie de fiho de peixe: ainda criança, punha-se na ponta dos pés para conduzir o trem de carga. A única recomendação de Henrique ao filho foi que desse atenção ao estudo de mecânica, pois ali estaria o futuro. Alberto passou ao largo da universidade, mas procurou obter toda a informação que pudesse sobre o tema. Tinha verdadeiro fascínio pelo motor a explosão. Mas sua maior fixação era a idéia de voar. Desenhou e produziu balões que revolucionaram as técnicas de vôo da época. Em 1901, ganhou o prêmio Deutsch, oferecido por um mlionário alemão a quem conseguisse conduzir um balão dirigível de forma a sair de Saint-Cloud, dar a volta na Torre Eiffel e voltar, em 30 minutos. Transitava por Paris de balão, como se fosse uma bicicleta. Em 1906, realizou o sonho de fazer voar um mais pesado que o ar. O irmãos Wright já haviam conseguido isso, mas com um aeroplano que decolava com o impulso de uma catapulta. O primeiro mais pesado que o ar a decolar com seus próprios meios de tração foi o 14-Bis. À luz dessa memória, foi quase patético ver o debate. Lula faz acrobacias, loopings e rasantes de dar inveja a qualquer piloto, mas o problema é que promete um Jumbo com motor de Concorde e entrega um avião da esquadrilha da fumaça -- um Tucano. Já Alckmin mostra uma triste realidade: é, sem dúvida, mais pesado que o ar e, pelo que se vê do que mostrou como asas, suas chances de sair do chão são bastante remotas. Que Santos-Dumont inspire nosso próximo presidente. 22.10.06
Depois de mais uma semana falando da mundanidade política, eu ia colocar mais um post aqui, agora falando da *eja, aquele semanário sensacionalista e sua mais recente capa apelativa. Mas deixe para lá, o encalhe dará a resposta a esses imbecis. Hoje é dia de poesia, e esta abaixo tem duas coisas de que eu gosto: o tema do espelho, esse momento de esquizofrenia que temos sobre a pia, e que serviu para que se gerassem obras primas da literatura, inclusive pelos dois pólos da literatura brasileira, Machado e Guimarães Rosa; e a métrica, coisa que me traz o desafio formal da poesia, o exercício, a gincana. Para este poemete abaixo, criei uma estrutura em quadras, nas quais o primeiro e o quarto versos têm sete sílabas e os do meio, seis. Os de sete mantêm um estrutura de rima pela qual os primeiros versos das quadras rimam entre si, sempre com a mesma rima, bem como os últimos, também sempre com a mesma rima; os versos do meio rimam entre si, mas a cada estrofe com rimas diferentes. O ritmo buscado com essa alternância de número de sílabas foi alguma coisa como o que se ouve em "Three to get ready", de Dave Brubeck, em que se alternam, do início ao fim, dois compassos ternários e dois quaternários, no que se obtém algo como uma respiração. Aí está: Conversa à frente do espelho Que você acha que houve entre você e eu? O que aconteceu? Que você diz quando acorda ou, insone, tanto ouve? E antes de dormir, gargalhar ou carpir, que veleidades aborda? Há entre nós o que louve termos sido só um -- pelo tempo de um zum, fomos mais, quase uma horda. Grossos como pintura fauve ou faces de Soutine, traço que nos define, somos dueto de corda. Somos costeleta e couve num um só diferente, alguém que veja a gente não vê limites nem borda. Nós sabemos o que houve: o "nós" nunca se deu. O que o espelho inverteu, cis, trans, sou eu. E calhorda. 19.10.06
Lula reina soberano na Bahia. Ao longo de seis dias em Salvador, vi apenas dois carros com adesivo do tucano Geraldo Alckmin. Na boa terra, todo mundo é Lula, os meus inclusive. Não há como negar: é bonito ver a alegria. Jaques Wagner, o governador eleito no primeiro turno, é um homem de militância histórica. Líder estudantil no Rio de Janeiro, sua terra natal, foi obrigado a se refugiar na Bahia, depois de perseguido pelo regime militar. Ali foi trabalhar na indústria petroquímica e, nela, iniciou sua vida sindical. Daí ao PT e ao governo Lula, é história contada. Uma história que agora começa a mudar a Bahia. Salvo por um pequeno hiato, entre 1987 e 1989, o estado vem sendo governado, nas últimas três décadas, pela mesma turma: aquela que gira em torno do senador Antônio Carlos Magalhães. ACM é um desses homens talhados para o poder. Soube como conquistá-lo no limite da psicopatia, e sabe exercê-lo de forma plena -- e crua. Construiu, ao longo da vida, uma imagem de pai da Bahia. Pai mítico, daqueles que destróem o próprio pai (no caso, o aristocrático Luís Viana Filho), submetem alguns filhos (quem não se lembra do conformado senador César Borges ou do filho de verdade, o esquálido ACM Filho?) ou acabam parindo pelo crânio (ou não seria Luís Eduardo a Palas Atena do Olimpo baiano, a sabedoria a rachar a cabeça do pai para renová-la?). Por ser personalista, o coronelismo, engravatado ou não, tende a durar o mesmo que a vida útil de seu chefe. Quando o coronel fica velho, seu poder decai paulatinamente, até que outro o tome. É a metáfora do galo no galinheiro. Foi assim de Vitorino Freire para Sarney, no Maranhão, de Silvestre Péricles de Góes Monteiro para Arnon de Mello em Alagoas, para citar dois exemplos conhecidos. Às vezes, duas famílias se alternam na gestação do galo, ao longo de décadas, como no Rio Grande do Norte. O que se passa agora na Bahia, portanto, parece ser realmente o começo de uma mudança. Não para o paraíso, para uma sociedade mais justa ou para a redenção dos oprimidos. Mas, ao menos, vê-se o deslocamento do poder de um grupo apoiado pelos setores mais conservadores -- uma elite rural hoje decadente, industriais, empreiteiros, banqueiros e parte da máquina do Estado -- para outra emergente e soi-disant progressista -- funcionários públicos, grandes parcelas da classe média, esta de tão difícil definição de contornos, trabalhadores sindicalizados e outra parte da máquina pública, pelo trabalho dos militantes. Parece ser o começo de um novo tempo. Ao contrário de 1986, quando Waldir Pires foi eleito governador na esteira do sucesso do Plano Cruzado, derrotando Josaphat Marinho, o candidato de ACM, mas nem de longe arranhando o poder de seu padrinho poderoso, agora parece que as mudanças vieram para durar. Jaques Wagner não é fruto de um momento de euforia, de um fenômeno eleitoral atípico, como foi Fernando Collor em 89, como foi o próprio Waldir. Sua candidatura teve uma base consistente, fortemente fundada nos setores mais organizados do funcionalismo público, dos sindicatos e de boa parte da sociedade civil (aí incluídos CUT e MST) e, longe de ser uma explosão, impôs-se passo a passo, dia após dia, ao oponente chapa-branca, o atual governador Paulo Souto. Isso não significa que o castelo do poder carlista tenha virado pó. É estruturado, aparelhado, tem base social, tem herdeiro e tem poder -- cada vez menos hegemônico, mas ainda enorme -- e não vai desistir fácil. Não é por outra razão que o governador eleito diz que só com Lula reeleito é que poderá governar a Bahia. Visto pelo ângulo baiano, a opção óbvia é votar em Lula e torcer por ele. A poucos metros do pouso no aeroporto André Franco Montoro, as razões para votar contra Lula são claras e inequívocas. Como nunca, desde que eu me lembro, o Brasil são dois Brasis. Em torno de que ideal conseguirá ser um? 18.10.06
Que engano terá cometido Geraldo Alckmin para cair pelas tabelas de forma tão acelerada? Simples: ele deixou de ser Geraldo Alckmin. Da mesma forma que Lula deixou de ser Lula quando começou a enrolar a galera e posar de monsieur le président, acabando por faltar ao debate, Geraldinho deixou de ser o certinho em dois momentos de altíssima visibilidade: na foto posada com o casal Garotinho e no debate da Band, em que se entusiasmou com o resultado do primeiro turno e com a pressão equivocada do pefelê e subiu nas tamancas, assumindo uma arrogância que soou falsa, forçada. O próprio Lula, ainda que acuado, percebeu e externou isso no meio do debate. O que se passa não é um perdão a Lula do povo que havia refluído para o tucano no fim do primeiro turno, pelos fatos negativos daquelas semanas. Alckmin está perdendo votos até onde sempre esteve à frente, como o estado de São Paulo ou o público mais instruído. Sinal de que errou feio na sua estratégia de mudar de cara. O que mostra de novo uma verdade universal, que há pouco fez Delfim Neto ser jogado no limbo da política: ninguém muda de cara impunemente. Ao contrário do que os pefelistas açodados queriam fazer crer, o povo tinha votado, no primeiro turno, no picolé de chuchu. Quando ele tentou virar espetinho de pimentão, quebrou o encanto e a credibilidade. Vai passar para a memória, quem sabe se candidate a prefeito de São Paulo em 2008, quem sabe a deputado em 2010. Ou ainda pode aproveitar o vácuo do PSDB local e tentar chegar antes de Serra à liderança do partido em SP, buscando o senado ou outra vez o governo. Duvido. Da mesma forma que foi Lula o responsável por sua derrapada no primeiro turno, terá sido Alckmin o responsável pela derrota que se avizinha. O que confirma o que se via nesta eleição: a escolha tem sido sempre pelo menos pior, pelo que fará menos estrago, pelo que não trará más surpresas. O Brasil está escolhendo, entre dois medíocres, qual será o mais capaz de levar o barco até uma segunda (ou terceira ou quarta ou quinta) chance. É pouco, mas talvez seja esse o nosso destino e a nossa pedagogia. P.S.: Ia falar da Bahia, mas já virei paulistano de novo. 17.10.06
Escrevi mais detalhadamente sobre o assunto, mas não vou publicar hoje, que acabo de chegar de viagem e tenho muito trabalho antes de passar manuscritos a limpo. O governador eleito da Bahia, Jaques Wagner, afirmou, logo depois de sua vitória, que seria imprescindível para seu governo que o presidente Lula fosse reeleito. Me parece que uma boa razão para votar no Geraldinho é justamente o fato dele não ser imprescindível. Mas há boas razões também para pensar que há boas razões para votar no Lula (epa, esta parece discurso do presidente). O fato é que a Bahia me provocou muitas reflexões sobre essa eleição sem graça que se nos aproxima. Vou tentar dividi-las amanhã. 14.10.06
"Bonequinha de Luxo" (Breakfast at Tiffany's, 1961, direção de Blake Edwards, com Audrey Hebpurn, George Peppard e uma participação especial e esquisita de Mickey Rooney) é um dos filmes que cultuo. Apesar disso, nunca tinha lido o livro de mesmo nome, de Truman Capote (1958, com edição brasileira da Companhia das Letras, 2006, tradução de Samuel Titan Jr.), que inspirou Edwards a compor esta homenagem a Nova York, ao mesmo tempo sofisticadíssima -- pela própria figura de Hepburn vestida por Givenchy, transbordando elegância na cena famosa que abre o filme, em que ela, ao alvorecer, com um saco de papel na mão, toma um precário café da manhã em frente à vitrine da Tiffany's -- e irônica com a fronteira entre o sofisticado e a farsa, cujos cinzas se fazem ver nas festinhas na casa de Holly Golightly, a personagem-título. À primeira vista, o livro parece fiel ao filme (desculpe a inversão, mas a sensação é essa, que fazer?), mas logo a leitura vai mostrando uma riqueza que o filme não tem (tem outras), como se Blake Edwards tivesse peneirado ali apenas a magia da cidade e a relação que pessoas comuns viessem a ter (ou pensar ter) com ela. Capote parece mais preocupado em fazer um retrato justamente dessa América que, como Holly Golightly, tenta se entronizar no papel de centro do mundo (a história se passa em 1943, bem no momento em que os Estados Unidos entram no esforço de guerra), mas precisa lidar com o fato de que nasceu sabe-se onde e, órfã, casou-se com um caipira do Texas, até se encantar com o mundo da fantasia de Hollywood e, em seguida, tentar realizar a fantasia do mundo em Nova York, de resto, ainda hoje o lugar ideal para buscar tal fantasia. Holly Golightly é uma metáfora escancarada da América "amadurescente" que veio à tona nos anos 50, da gente caipira a quem caberá conquistar o mundo, lidando com a amoralidade necessária para isso (como Holly lida, aceitando ser "avião" de um mafioso em cana, mas jamais deixando de considerá-lo uma cara legal), escondendo, mas não renegando seu passado caipira (como se vê com o carinho com que a moça recebe e rapidamente despacha o primeiro marido, que veio do interior do Texas ver se ela não estaria magra demais, sem, aliáqs, nunca deixar de usar-lhe o sobrenome), apropriando-se da sofisticação européia, mas de forma ambígua, dando-lhe os traços do pragmatismo cotidiano, e sempre considerando-a uma estranha, passível de compra mas não de incorporação (a vitrine da Tiffany's funcionando como antidepressivo, algo claro no livro e sutil no filme). A "Bonequinha de Luxo" de Capote e a de Blake Edwards parecem descrever dois momentos diferentes e subseqüentes de uma história. Com o mesmo argumento, o livro nos mostra os Estados Unidos se preparando para ser a cultura predominante no mundo ocidental, com todos os medos que isso pode trazer, com toda a nudez que não se consegue esconder, com todos os mitos que uma transição provoca, enquanto o filme já mostra o caminho mais ou menos traçado, o luxo devidamente apropriado, Nova York tendo apagado a memória do Texas e vice-versa, Givenchy já circulando pela Quinta Avenida com toda a naturalidade usando o corpo de Hepburn para superar o estágio fraude de sua personagem. 10.10.06
* Há um tom de ameaça, no que se ouve do PT e coligados, em relação à eventual vitória de Geraldo Alckmin dia 29. * Há um tom de ameaça também da parte da direita enferrujada que não apóia Lula, diante de uma eventual reeleição do presidente. * Há um tom de desilusão na maior parte das pessoas com quem converso sobre eleições, política etc. * Tudo isso significa que o que está posto à nossa frente é, de certa forma, novo na jovem democracia brasileira. Democracias passam por processos eleitorais cujos atores estão longe do ideal. Estamos passando por isso. * Escolher o menos ruim é chato, mas não é o fim do mundo. O fim do mundo, agora, é não escolher. * Por que chegamos a esse ponto, de escolher o menos ruim? Não há nehuma teoria conspiratória nisso. O governo do PT repetiu diversos métodos da velha política brasileira. Já o PSDB escalou o reserva para o jogo principal, e um reserva que parece ter um traço conservador um tanto mais forte do que boa parte do eleitorado tucano costuma considerar confortável. * Se o presidente Lula for reeleito, o Brasil deverá dar-lhe uma trégua para que o trepidar da carruagem cesse até 2010. * Se o governador Alckmin for eleito, tenho certeza, infelizmente, de que não haverá um só parlamentar petista a propor algo semelhante pelo bem do Brasil. É só por isso que cada vez mais tenho engrulhos com a prática política desses caras. * Esse blog permanecerá inativo (ou, na melhor das hipóteses, pouco ativo) até a terça-feira que vem, posto que toda a valorosa equipe que o põe no ar estará fora de São Paulo durante o período supracitado. Data venia. 9.10.06
Melhores momentos da primeira partida do embate Lulinha Paz e Amor X Geraldinho Ação Gestão, exibida ontem à noite na TV Bandeirantes, e que terminou 0X0. Alckmin- Presidente, e os milhões, presidente, e os milhões? Lula- Bilhões, governador, bilhões. Alckmin- Parece com quatrilhões, sextilhões, quiça. Lula- Ora, o governador está cansado de saber que foram 100 bilhões contra 2 trilhões. Alckmin- O presidente parece que esquece, telespectador. 3 bi-lhões. 3 bi-lhões. Lula- Cento e oito por cento, governador. Alckmin- Cento e nove, Lula! Lula- Ora, mas você esquece os oito bilhões, parece que está em outro mundo. Alckmin- Desculpe, mas quem esquece oito bi-lhões é você. Lula- E você queria o que com dois décimos? Uma quarta parte? Alckmin- Vinte e três por cento! Vinte e três por cento! Lula- E no dezenove vírgula oito, não vai nada? Alckmin- Quatro quintos! Lula- Mil e doze! Alckmin- Opa! Mil e doze não, sem ofensas. Cento e seis. Bi-lhões! Lula- Me respeite! Setecentos e vinte e seis! Alckmin- Assim não dá. Catorze. Lula- Catorze pra você também. Mediador- Boa noite. (entra musiquinha) 6.10.06
Inútil niilista O Brasil tinha um desenho melhor: nem fazia vista no mapa-múndi, nem se fazia recitar de cor. Cor, ele tinha, e o primeiro desbunde. Havia paixão, mas Carlos Lacerda, trocávamos sambas e dissonâncias, nossa rima era capaz de ser lerda, eram heróis mesmo donos de estâncias. Deu-se do Brasil -- e ao desenho melhor -- uma escovada da mais grossa cerda, histamina e Festival da Record. Fez-se do filho morto o que se herda para obter dos males o menor: olhos abertos e mortos, vida esquerda. 4.10.06
"Dr. Roni e Mr. Quito", de Scarlet Moon de Chevalier, é uma biografia do lendário boêmio carioca Ronald Chevalier, o Roniquito, irmão de Scarlet e personagem de uma história contada e recontada, como uma epopéia moderna, que é a saga da boemia carioca dos anos 70. Roniquito, de quem o Pasquim e alguns amigos de meus pais e de minhas irmãs falavam, parecia ser uma dessas figuras coadjuvantes dessa história, que tinha tantas estrelas, de Tom Jobim a Jaguar, de Otto Lara Rezende a Nana Caymmi, de Mário Henrique Simonsen a Ferreira Gullar, de Walter Clark a Wanda Sá. A partir do livro "Ela é Carioca", de Ruy Castro, entendi que, ao contrário, talvez Roniquito fosse o personagem principal, por mais presente e mais radicalmente boêmio e etílico de todos os seus companheiros de mesa e balcão. Ronald Chevalier era um homem de inteligência e cultura incomuns, capaz de citar páginas de William Faulkner sem errar um artigo sequer ou de assoviar árias inteiras de Wagner sem desafinar uma nota. Economista, foi um aluno brilhante, orador de sua turma na antiga Universidade do Brasil. Começou a beber mais ou menos aos 10 anos de idade, e lá pelos 15, já era um copo e tanto. Passou toda a vida adulta sem conseguir se livrar da adicção por álcool. Morreu aos 45 anos, vítima de uma parada cardíaca, depois de quase dois anos padecendo das seqüelas de um grave atropelamento sofrido em frente ao Antonio's, o grande bar do Rio de Janeiro dos anos de chumbo. O livro de Scarlet Moon é mais ou menos como a maioria dos filmes nacionais: você precisa dar um desconto e achar pretextos para gostar de algo que, na verdade, é fraco. Dá a impressão de que ela até que começou bem, entrevistando gente, buscando os arquivos dos jornais. Mas o resultado final é uma grande lista de nomes cercada por narrativas burocráticas de fatos diversos da vida de Roniquito -- Scarlet não consegue, por exemplo, compor um ambiente, mostrar a cara do Rio dos anos 70, já a se entristecer pelas mãos da ditadura e se euforizar pela mistura de uísque e cocaína -- tudo recheado de citações literais dos depoimentos dos entrevistados, alguns com meia dúzia de páginas. Mas, de qualquer forma, é interessante, se o leitor conseguir cruzar os fatos que ela descreve com a ambientação do Rio que há em outros livros, como o citado "Ela é Carioca" e outros de Ruy Castro, a autobiografia de Danuza Leão, a biografia de Nara escrita por Sérgio Cabral, a vida de João Saldanha narrada por Renato Sérgio, enfim cenários que possam ser aplicados atrás das peças recolhidas por Scarlet. Dessa forma, poderemos enxergar Roniquito como uma espécie de Dom Quixote, tentando cravar o peito dos monstros suscitados pela vivência amarga e tola de uma ditadura, seara maior da burrice e da submissão, berrando sandices aos quatro ventos, encarando, completamente bêbado, o marechal-presidente, em pleno restaurante do MAM, para perguntar, enrolando a língua: "O senhor tem fogo?" A fragilidade do livro de Scarlet Moon contribui para um aspecto interessante de sua leitura: ao final, é difícil resistir à pergunta: "E daí?" A vida de Ronald Chevalier, embora tenha servido para rechear o folclore do "planeta Ipanema", dá a impressão de uma angustiante inutilidade, de uma história que ficou sem desfecho. Mas basta refletir um pouco para perceber o engano. Roniquito, na verdade, talvez seja o retrato mais eloqüente do que foi a angústia daqueles tempos e seus escapes. Sem disfarces, sem pretextos. Roniquito jamais deixou uma obra escrita, jamais registrou em papel, fita ou qualquer outro meio sua imensa capacidade intelectual, apenas relembrada, na melhor tradição oral, pela memória de gente capaz de avaliá-la com critério. Herói dos anti-heróis, jamais perpetrou uma obra para camuflar sua porra-louquice. Tinha-a, sim, em estado puro, como a demonstrar, com seu queixo em riste, o que era a verdadeira inutilidade de todos ali diante de uma ditadura burra e sangrenta. Não era como tantos, sobre quem se ouvia "Bebe aos baldes, mas olha só que disco lindo", "cheira sem parar, mas olha só que televisão." Com Roniquito, era "bebe pra cacete, mas em compensação, bebe pra cacete." Se havia em "Dr. Roni e Mr. Quito" qualquer intenção de dourar a imagem de Ronald Chevalier, malogrou. Mas esse malogro, na verdade, é o que o livro tem de melhor. É ele que compõe o retrato de uma época capaz de transformar sabiás em cigarras. Era isso, Roniquito: uma cigarra. 3.10.06
O post de hoje está lá no Blog da Milk, pelo fato de tratar de um assunto que tem a ver com aquelas plagas (comunicação, propaganda) e com estas (política, eleições). 2.10.06
Há quem diga que a imprensa manipulou, há quem se queixe de perseguição, há quem reconheça que a coisa está seguindo a lógica mudando de figura. O fato é que o Brasil que amanheceu hoje é diferente do Brasil da sexta-feira. Teremos segundo turno. Alckmin rompeu a barreira dos 40% e vem subindo. Lula, ao contrário, vem descendo, embora ainda tenha um caminhão de votos.A novidade é que jamais, desde a redemocratização, uma eleição presidencial dividiu tanto o Brasil. O Nordeste vota em Lula, o Sul vota em Alckmin. O Brasil mais rico vota no ex-governador e o Brasil mais pobre vota no presidente. Para se ter uma idéia, o governador Blairo Maggi, reeleito com mais de 60% dos votos, apoiou Lula, mas seu estado, o Mato Grosso, terra da agroindústria, votou em Alckmin. Uma leitura possível -- e fácil -- disso é a de que os programas de transferência de renda chamam votos para o presidente nas regiões mais pobres do Brasil. Mas isso não parece ser suficiente. Quem conhece Salvador, por exemplo, vê que há uma adesão a Lula que perpassa classes sociais de cima a baixo. A classe média soteropolitana é Lula, de forma calorosa e envolvida. Basta comparar a comemoração da vitória de Jaques Wagner ontem com a de José Serra aqui. O fato é que essa divisão pode ter conseqüências até certo ponto graves para o Brasil. Um presidente eleito com os votos do sul ou um eleito preponderantemente pelo nordeste podem tomar posse em uma situação de questionamento de meio Brasil. É algo inédito, talvez parecido com a revolta contra a eleição de Júlio Prestes em 1930. Alckmin será um presidente do Brasil mais rico, enquanto Lula será o presidente dos grotões. O primeiro, se eleito, enfrentará, desde o primeiro dia de governo, a fúria oposicionista do PT, mais ou menos nos moldes do famigerado "Fora FHC", mas com um apoio popular inédito, vindo do norte e do nordeste do país. O segundo enfrentará a continuação das pressões e cobranças relativas aos escândalos de seu governo e de seu partido. Quem quer que ganhe, passará a ter a oposição severa, raivosa de metade do país. Isso, desde logo, não é bom. A solução possível seria a tal "concertação" do ministro Tarso Genro, algo que dificilmente pára em pé, seja quem for o vencedor, até pela radicalização -- previsível e prevista -- que os rumos da política brasileira tomaram, principalmente de Collor para cá. O próximo presidente do Brasil precisará ser um gênio da política e um homem aglutinador acima de tudo, com imensa capacidade de renúncia e uma paciência de santo. Não se vê, por enquanto, tais talentos em um ou outro candidato. Ambos são fazedores, tarefeiros. Lula, por seus próprios limites pessoais, que não lhe permitem grande criatividade ou ousadia. Alckmin por sua personalidade -- sua história é a do político que angaria aliados por fazer o que deve ser feito com afinco e dedicação. Não é homem de soluções novas. O Brasil vai passar por uma prova dura nos primeiros meses de 2007. Pede um amadurecimento muito rápido da Nação. |