dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Set 2006 Out 2006 Nov 2006 Dez 2006 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde Blog da Milk Frankamente Pecus Bilis Navegar Impreciso Muié Pérola Negra Filosoclics Guga Alayon Cyn City A Vida em Palavras Taxitramas Marina W. Terapia Zero Talvez sim, talvez não Alex Senna Drops da Fal Infinito Positivo Zeitgeist Críticas e Reflexões Josimar Melo Lucia Guanaes, fotos MM Leite, fotos |
29.9.06
Na boca da urna: * O debate de ontem da Globo mostrou: Helô Helê é Enéias, Cravo e Canela. * Lula não foi. Medo de mulé. * Geraldinho perdeu a chance de se soltar um pouco e mostrar algo mais empolgante do que seu discurso Excel. * Cristóvam Buarque anda com a fala rala, melíflua, não sei quem o anda assessorando. Destaque: foi o único dos três a cumprir o tempo à risca, parecia um profissional de TV. * Debate de anteontem dos candidatos a governador de São Paulo: o Serra, com 58% dos votos válidos na pesquisa, foi ao debate. Tomou porrada de todos os lados, muitas desleais. Foi. Ganhou o debate por isso. * Já o Lula, medo de mulé. * Debate de anteontem: Aloísio Mercadante foi patético. Tentou, no início, justificar-se quanto ao episódio dos dossiês, sem ter sido perguntado a respeito. Depois, travestiu-se de Paulo Maluf em bigodes e só faltou dizer que bandido bom é bandido morto. * Quércia chegou a ser cômico, de tão a sério que se queria levar. * O Aloísio não sabia de nada. O comprador do dossiê era o seu principal assessor de campanha. Ou é um cínico condecorável ou não pode ser nem vice-prefeito de Arraial da Ajuda. * Bons votos a todos. | 28.9.06
Freud explica: o PT, no fundo, quer perder a eleição. Só isso permite entender o ato falho tremendo que petistas cometeram, com o episódio da compra do dossiê. Sem contar o nome de um dos membros da trupe, Freud (isso, talvez, só Jung explique), o que se viu foi a manifestação autodestrutiva de um inconsciente facilmente descritível a partir dos fatos concretos. Gedivan, no divã (oops, que riqueza!) ou talvez sob hipnose, revelaria, tenho certeza, o que se passa nessa cabeça confusa, da jovem instituição exposta a tão duro stress como é o da chegada ao poder. Nós todos já vivemos, com maior ou menor intensidade, mais ou menos gravidade, momentos de transição em certa escala traumáticos. É de se acreditar que o do PT tenha sido mais traumático do que a média. Primeiro, foram vinte anos de adolescência, rica, criativa, relevante para a os habitantes da casa à sua volta, que acabavam mudando certos hábitos, ou no mínimo refletindo sobre eles, amadurecendo junto com o menino questionador e radicalmente humanista. Depois, veio o inexorável momento de transição. O adolescente precisaria ser posto à prova, ir para a rua, enfrentar a vida real, testar suas verdades absolutas ante a imensa e milenar relatividade da convivência humana. O resultado era previsível, mas tão diferente e talentoso era aquele menino, que por uns instantes pensou-se que ele se manteria assim: adolescente. O tempo mostrou que a pureza não era a única característica do menino, humano que era, complexo, portanto. O menino tinha curiosidade pelo que o mundo oferecia, dinheiro, gravatas Hermès, vinhos Romanée-Conti, namoros, novos e diferentes amigos, jardins e, por que não?, luxúria. É humano, tudo isso, e sobre-humana a expectativa de que, feito homem, o menino continuasse a só ver seu mundo de adolescente, cheio de vontade de mudar o mundo e de receitas infalíveis para isso. Pois o menino caiu na vida, experimentou tudo aquilo que criticava nos tios adultos, foi a puteiros, fez rachas de automóvel na madrugada, bebeu demais vez ou outra, divertiu-se, permitiu-se, enfim, experimentar a vida adulta. Tão distante era dela, que o fez de forma acrítica -- como um menino superprotegido ante sua primeira bandeja de brigadeiros. Veio, então a azia. Um lado do menino não conseguiu se livrar da culpa, esse bichinho traiçoeiro que, qual ova de verme, se aloja em nossa carne e fica. Pois, lá no inconsciente, se alojou essa culpa e o impulso pela punição. Não demoraria, como não demorou: assim que as circunstâncias se colocaram favoráveis, o ato falho emergiu. É a manifestação mais concreta, a exteriorização do conflito interno. É como a criança que, ao agredir a mãe, a chama para pegá-la no colo, querendo voltar ao útero. A neurose coletiva do partido do governo tem sua raiz exatamente na culpa de ser o partido do governo. Isso é um pecado inadmissível para quem tinha introjetados tabus tão absolutos, que não lhe permitiriam ousar a lascívia da vida real. O Freud do PT apenas mostrou o que estava oculto abaixo do estado de consciência. O episódio do dossiê é tão somente um surto histérico, uma neurose típica de quem não soubre crescer e lidar com sua própria libido, enfrentando a sutiliza da ética verdadeira e pertinente ao mundo real. O PT quer perder para ser PT de novo. Freud explica. | 27.9.06
Só dói quando o tempo muda, só arde no coração. Qual gota, chico, sezão, a dor sempre vem aguda. Engana só no intervalo, parece, então, superada -- é cura, a mulher amada. Mas o mal volta a cavalo, castiga o novo infeliz, que troca a felicidade, ainda de pouca idade, por más idéias, e vis, como fazer do passado território a tomar posse e, da história mais próxi- ma, mato escuro, fechado. Inverte-se o rio das horas, acende o farol escuro, na popa fica o futuro, distantes vão-se os agoras. Vai lá longe a luz do lume, ver, quase já não se deixa, quando ecoa o som da queixa e emerge, então, o ciúme. | 25.9.06
Se eu tivesse 16 anos, estaria agora entusiasmado com a perspectiva de votar pela primeira vez. Mas estaria, também, bastante cheio de dúvidas que não tinha à época em que estreei nas urnas -- com título de eleitor ainda datilografado, com foto na frente e uma área quadriculada atrás que ia recebendo carimbos a cada eleição. Quando dei meu primeiro voto, já com quase vinte anos, todos sabíamos em quem votar: ou se estava do lado da ditadura ou contra ela. Votei no MDB, em Fernando Henrique Cardoso para senador, Fernando Morais para deputado estadual e, confesso, não me lembro mais quem foi meu candidato a deputado federal. Provavelmente o Flavio Bierrembach, mas realmente não me lembro. Hoje, esta "concertação" forçada pela ditadura não existe mais, e a estrutura partidária no Brasil é tudo menos uma estrutura. Em compensação, vive-se uma democracia plena, madura e em crescimento -- inclusive padecendo de algumas dores desse processo --, o que é uma boa surpresa, se olharmos com tolerância e distanciamento: são apenas 21 anos desde que a ditadura acabou, com o último general saindo pela porta dos fundos do Palácio do Planalto e da História, e apenas 17 anos da primeira eleição direta depois da ditadura. Mas isso não refresca a dificuldade que eu teria, tendo hoje 16. É uma eleição que, ao contrário da de 1989, que tinha muitos candidatos representativos -- de memória: Ulysses, Aureliano Chaves, Mário Covas, Lula, Maluf, Brizola, além do canastrão vencedor, Collor de Melo --, tem apenas quatro (ou três, se nos basearmos nas intenções de voto detectadas nas pesquisas). O candidato do governo é um homem admirável, por sua trajetória pessoal, alguém que saiu do pau-de-arara para o operariado do ABC e, de lá, à presidência da República. Mas traz no currículo recente um pau-de-galinheiro, além de ser o chefe de um governo que se dividiu entre a mediocridade e o assistencialismo. O principal candidato de oposição é um sujeito que não se sabe bem quem é, apesar de ter governado o maior estado da Nação por 6 anos. Traz números expressivos de sucesso, mas também parece ter uns esqueletos no armário -- ou no pedágio, como você preferir -- e um desempenho na educação que está no limite de virar motivo de chacota. Ou de chalita. Atrás dos dois, uma candidata que vive de um discurso velho e mistificador, a ponto de não surpreender se chegar a hora em que ela vai olhar para a câmera com o dedo em riste e exigir: "CRUSP a 6 cruzeiros!". Dura escolha. Mas ter 16 parece ser a compensação a esta encruzilhada aparentemente sem saída. Se eu tivesse 16, olharia com cuidado as propostas dos candidatos e me daria ao luxo -- ou ao dever -- de só dar meu voto a quem satisfizesse a minha visão do Brasil. Mesmo que eu tivesse uma visão ainda incipiente. Se eu tivesse 16, depositaria minhas esperanças nas eleições futuras, e entraria nesta com a pompa de uma estréia, preenchendo todos os campos, como que respondendo à falta de opções com o espírito de fazer do limão uma limonada, escolhendo bem onde há candidatos do bem, escolhendo o possível se só ele estiver à disposição. Se eu tivesse 16, estaria feliz como uma criança de 6 indo à escola pela primeira vez, com um friozinho na barriga acompanhado de uma incontível alegria por entrar numa nova etapa da vida. Se eu tivesse 16, estaria com meu título de eleitor na mão dizendo a mim mesmo: "Vou usar isso para o resto da vida como se tivesse sempre 16." Não parece que, se todo mundo pensasse assim, teríamos um Brasil melhor daqui a algumas décadas? | 21.9.06
Será-o-benedito? Foi só eu falar aqui do Demétrio Magnoli, que o cara saiu da Folha de S.Paulo. O melhor articulista da página 2 -- talvez só o João Sayad chegasse perto da fina mistura entre erudição, cultura e verve, mesmo assim, com vantagem indiscutível para Demétrio -- escreveu hoje seu último texto. Não diz o que fará, não diz parou-por-quê. Só parou. É uma pena para o leitor da Folha, que aprenderá menos, exercitará menos o seu senso crítico e, ainda por cima poderá ser surpreendido por algum tipo novo de José Sarney ou Delfim Neto, a dupla que representa a ala filhotes-da-ditadura nas colunas de opinião do jornal. | 20.9.06
Estes ares de Agosto (o do Rubem Fonseca) vêm tornando este fim de campanha eleitoral mais tenso. Mas também vêm mostrando a repetição do cacoete "vitimista" que assola o PT. Li, por recomendação de um site amigo, um artigo de Marco Aurélio Weissheimer, do site Novae, onde ele desfia mais uma teoria conspiratória, na linha de dizer que a imprensa vem invertendo o rumo do escândalo mais recente estrelado por gente do antigo partido-integridade-a-todo-custo. Segundo ele, colocar as vítimas como vítimas é parte de uma conspiração da imprensa para decompor a imagem do PT, e que os escândalos no Brasil só são denunciados quando os governos têm uma propensão popular. Cita Getúlio e Jango, além de Lula. Convenientemente, esqueceu do Collor. É impressionante como esse comportamento se disseminou, e continua sendo a atitude política mais corrente no petismo dos tempos de rei peladão. Falou mal, denunciou o PT, suspeitou de seus membros, não falha: é conspiração das elites. Só para lembrar, tivemos o Paulo Betti, a Marilena Chauí, a Soninha, até o Zé Dirceu e o próprio Lula, todo mundo fazendo biquinho e se dizendo chocado com a crueldade imensa dessa burguesia mal-intencionada, incapaz de reconhecer a vocação inexorável do PT de fazer o bem, sempre e somente. Agora, é a imprensa malvada, que combinou, provavelmente no fim-de-semana, em uma reunião secreta entre todos os donos de jornais, que repetiria um discurso falso apenas para desestabilizar a campanha do inocente candidato do inocente Partido dos Trabalhadores. Ora, sem muito enfeite, vão todos catar coquinho, este escriba já está de saco cheio dessa choradeirinha cínica. Vítima é quem é obrigado a viver sob este governo médio-B, nascido e cevado de uma mistura de boas intenções com intenções inconfessáveis, temperada por uma tremenda falta de criatividade e de capacidade de gestão. Chega de enrolação chorosa: uns caras foram pegos com muita grana para comprar um dossiê, outros com um dossiê para trocar por muita grana. É esse o assunto. Chamar isso de perseguição das elites malvadas já foi um bom truque, agora é patético, deplorável. Espanta ver que ainda há quem arregale os olhos com esse discurso e fique com pena dos pobres companheiros perseguidos. Alguém precisa avisar os companheiros perseguidos de que ou eles se reconstroem em bases mais consistentes -- e verossímeis -- ou vão se esvair pelo mesmo ralo que já leva os antigos companheiros. O eleitor não é obrigado a adivinhar a diferença entre o bonzinho e o Silvinho, hoje habitando o mesmo saco. | 19.9.06
São Paulo e sua perdição, minha cidade de berço, cínica consolação a cada conta do terço. Negação do que é paisagem, verso do cartão postal, quantos a ela viajem amarão respirar mal. São Paulo é seu monumento, pintura de seu fracasso, retrato de seu portento, catedral de sangue e aço. Cidade que traz odores de gás carbônico e zinco, que, à falta de certas flores, traz chanéis número cinco. Pendurados lá no alto, procuramos na cidade a rede onde dar o salto protegido da verdade. Às vezes com dois andares, às vezes só com dois enes, imensos prédios vulgares ou leves azuis perenes, vicejam, piratiningos, cor-de-cinza na epiderme, seus canteiros sem domingos, sem humus, sem mancha ou germe. | 18.9.06
Pequena elegia Vejo de longe o jovem que ali jaz composto e meio exposto sob as flores. Vê-se o rosto, renitência ora em paz; não se vê quase nada de suas dores. Vejo de longe do que foi capaz (de longe, meus padrões são inferiores). Ele, que se foi, soube viver mais, muitos anos mais, por serem melhores. Quando me acerco dele, o vejo altivo e busco em mim soerguer-me também, como ele, mesmo inerte, assertivo: pode ainda ensinar que viver bem não é viver mais tempo, é ser mais vivo, é viver mais o tempo que se tem. | 15.9.06
A marca que distingue o estadista do líder político comum não é uma menor propensão ao erro, mas a capacidade de elevar-se acima da conjuntura e expressar o interesse público de longo prazo. Os estadistas revelam-se quando se encontram fora do poder e, para mudar o rumo das coisas, aceitam a solidão política momentânea. A carta de 7 de setembro é um gesto de estadista. A citação acima refere-se à carta aberta que Fernado Henrique Cardoso fez publicar no último dia 7 de setembro. O autor não é um tucano, longe disso: o geógrafo e cientista social Demétrio Magnoli tem uma longa história na militância de esquerda, mais precisamente naquela inspirada pelo pensamento de Leon Trotsky. Quem costuma ler o que ele escreve há de reconhecer ali, primeiro, erudição, segundo, uma inequívoca posição de esquerda, quando trata de assuntos da fronteira para dentro (normalmente sua coluna fala de política internacional). É por esse lado que conduz suas críticas ao PT. Ao analisar o texto de FHC e suas razões, Demétrio decifra uma charada que gente com padrão mediano de inteligência, como eu, demoraria uma semana ou mais para resolver. O que o ex-presidente faz ali é um claro "devagar com o andor". Não tem como foco a eleição, mas o quadro político que se desenhará no Brasil, depois de uma quase certa re-posse, em torno do presidente: um arremedo de PT, a "banda podre" do PMDB e, suprema glória para Lula, algo que se pode chamar de os "não-paulistas" do PSDB. Com isso, seria composta uma maioria capaz de fazer o segundo mandato, nas palavras de Magnoli, não ser toldado por essa inconveniência da democracia, que é a existência de oposição. Tudo indica que o projeto reeleitoral de Lula não é feito por amadores. Tudo indica, também, que não é feito por petistas, mas por lulistas. A ressaca moral que vive o país reconstrói a fé em pessoas como solução para sanear instituições. A vida tem mostrado que, toda vez que isso acontece, a tal pessoa, depois de ungida, começa a passar por um lento processo de desconstrução, com a ação abrasiva da realidade limando a casca milagreira e expondo as carnes comuns que recheiam o salvador da pátria. O que FHC parece ter feito é tentar conter sua gente, neste momento em que, no meio do deserto, ela parece se deixar seduzir por um Baal barbudo e tentador. Algo como aquilo que os comentários mais maldosos dizem que Mário Covas fez com o próprio FHC no governo Collor. | 13.9.06
Atrevimento, eu sei, mas há dias em que a auto-severidade dorme no ponto. Lá vão uns versos livres, para variar. poema quadrado vértice lá de novo vértice cá de novo vértice ver que ponta vem de lá vértice li de novo vértice vi de novo verbice, vertice, tolice de novo noventa a noventa volta tudo como vai repete-se pronto tanto tolo | 12.9.06
Tive uma sensação muito esquisita ao ver ontem, nos jornais, a notícia do assassinato do coronel Ubiratan Guimarães, deputado estadual em São Paulo, que tinha o hábito de colocar como seu número de candidato, o 111, o número de prisioneiros mortos, no massacre do Carandiru, por policiais militares comandados por ele. Destino curioso, para um homem afeito a armas e cavalos, morrer com uma bala no peito, solitária, anticlimática, vestindo apenas uma toalha de banho atada à cintura. Fala-se em alguém motivado por ciúme ou um dos outros transtornos causados pelas distorções advindas do amor. O coronel foi condenado a mais de 600 anos de prisão, depois foi absolvido em recurso e, agora, esperava por outros enfrentamentos na justiça, enquanto circulava por aí, armado e dentro de um carro blindado. Sempre me fica a impressão de que gente assim acaba se enredando mais e mais na violência que costuma banalizar e, um belo dia, a empáfia ricocheteia. De certa forma, foi um anticlímax. Para quem esperava por uma condenação, a bala no peito foi quase um perdão. Para quem torcia por ele ser absolvido, foi um fim prosaico demais, indigno de alguém que buscava vestir um figurino de herói, com a mística de matador de bandidos, portanto, digno de homenagens ou epopéias, beijos ou rajadas, jamais essa balinha caseira e solitária, jamais jazer sobre um carpete ou, pior, sobre o taco frio com sinteko já velho. Ante a foto do sepultamento, nos jornais de hoje, era quase inevitável dizer: "Pô, coronel, vai sair assim?" Que descanse em paz. Ou leve bastante protetor solar para onde há de ir. | 11.9.06
O século 21 completa hoje 5 anos. Os atentados de 11 de setembro quebraram a casca do ovo da serpente. Em apenas uma manhã, a mente do mundo mudou. A resposta à barbaridade foi a barbárie. O menu das coisas que causam indignação na opinião pública encolheu, e o que conhecíamos como direito, ética, princípios se relativizou. Tudo de um dia para o outro. Há uma grita -- minoritária -- com as arbitrariedades que o império americano tem perpetrado -- chacinas, prisões ilegais, invasões de território estrangeiro sem guerra declarada, censura à imprensa. Mas o que muda é que não há mais indignação. É como se o mundo achasse que a política Bush é uma espécie de mal necessário e, por isso, aceitável. O que é mais assustador é que, se o século 20 foi marcado por 3 guerras mundiais (aí incluída a Guerra Fria, disputada em métodos diferentes de belicismo) e outra tantas "locais", todas de fundo político mais ou menos identificável, o século 21 promete uma só guerra, longa e cruenta, de padrões diversos dos que o mundo se acostumou a ver como guerra -- homens de capacetes diferentes se bombardeando até o esgotamento de um dos lados -- e, o que é mais incrível, com toda a irracionalidade e imprudência de uma guerra santa. Hoje, a doutrina Bush parece partir do princípio que reza serem o cristianismo e a cristandade, travestidos de democracia formal à la Washington DC, o destino inexorável da humanidade. Quem estiver no caminho é infiel e, pior, menos humano, podendo, portanto, ser torturado, seqüestrado, detido sem base legal e sem direito de defesa. Os donos do mundo jogam para o alto, em nome da fé, princípios que os pais de sua pátria ofereceram ao mundo 330 anos atrás. Em nome de uma certeza santa, a democracia, que é o abrigo da dúvida, deixa de ser valor absoluto e, mero instrumento, se esvai. Oprimido pelo medo, o mundo ocidental desistiu definitivamente da idéia de compor um mundo só -- curiosamente, talvez a única utopia comum entre os socialistas e os liberais. O ideal da aldeia global, como conceituado por McLuhan, perdeu sua beleza naïf e traz agora o desenho de um muro. Do outro lado, ficam todos aqueles que nos são difíceis de entender. Meu pai costumava dizer que era só uma questão de tempo: "O mundo caminha para o socialismo." Mais tarde, eu já na universidade, o amigo trotskista completava: "O mundo caminha para o socialismo ou para a barbárie." O século 21 parece ter resolvido esse dilema, para o pior lado. | 6.9.06
Para o bem ou para o mal, deu Lula. O Datafolha de 5/9 coloca uma pedra sobre as últimas esperanças que os 3 pontos a mais no IBOPE haviam trazido ao candidato do PSDB. O que resta agora, além de desejar boa sorte ao novo-velho governo -- e antes de tudo a nós, governados --, é tentar ver o que pode ser do Brasil no segundo mandato. A mim, parece que as coisas vão ser mais difíceis. Alguns palpites, impressões e obviedades inúteis, leigos e diletantes: * O PT foi a grande vítima do embate encarniçado que se deu com a crise do Mensalão. Foi o escudo do presidente Lula e saiu muito machucado. Sua bancada, apesar das esperanças renovadas que as pesquisas no Nordeste despertam, deve cair para três quartos do que tem hoje, algo em torno de 60 deputados. * O PMDB é a única saída de Lula, no segundo mandato, para garantir alguma governabilidade. Deve mesmo emplacar uns quatro ou cinco ministérios. Ah, e se cuide, Aldo Rebelo. * Exatamente pela necessidade de acomodar aliados (e neo-aliados), o número de ministérios não deve cair. * O mundo será menos generoso ao longo do segundo mandato, o que exigirá algo mais do que os aplicados burocratas de Lula estão conseguindo oferecer. * FHC perdeu definitivamente sua condição de mediador. O ex-presidente passou do tom em seu discurso de oposição, não deu para entender bem por quê. Afinal, ele não é (e já não era) candidato a mais nada, podia bem ter feito o papel de velho sábio. Uma pena, sua biografia podia passar sem essa. * Começam os movimentos de aproximação do governo com o PSDB, mais precisamente Aécio e Serra (este se emplacar o governo de SP). O mineiro já mantém os canais há tempos. É habilíssimo, não se esperava tanto traquejo político dele até aquela vitória surpreendente na eleição para presidente da Câmara. É um craque digno do sobrenome e uma aposta que o avô, postumamente, ganhou. * Lula não tem sucessor. Pelo menos, não no PT. Dirceu, Palocci, Aloizio, todos foram caindo pelas tabelas. Esta semana, o presidente lançou uma cortina de fumaça, mencionando o nome de Marta Suplicy. Faz isso apenas para justificar sua opção por Ciro Gomes na reta final. Ou ainda por uma coligação de salvação nacional com Serra ou Aécio, sem reeleição e com mandato de 5 anos -- adivinhe só quem seria o candidato em 2015. * A crise parece ter acordado um pouco o Brasil. Nada me tira da cabeça que o Brasil de 2010 vai ser melhor do que o Brasil de agora. Não por Lula, não pela composição nova do parlamento, não pelos governadores. Há sinais ainda tênues de que o grande gigante adormecido desta história toda -- o povo do Brasil -- vai levantar para fazer xixi. * Que a democracia permaneça como valor absoluto. | 5.9.06
Depois do dia em que o colunista José Simão, da Folha de S.Paulo tornou famoso o aviso que enfeitava o muro do cemitério da Consolação, junto às vagas de estacionamento -- "Exclusivo para usuários" --, achei que dificilmente uma instituição superaria tamanha qualidade de fazer piada involuntária consigo mesma. Ledo engano. Parece que uma das coisas que as autoridades estão tentando fazer com a nossa polícia é levá-la a endurecer a ação nas ruas, mas parecendo que não perde a ternura jamais -- desafio de comunicação que eu não gostaria de pegar aqui na Milk. Hoje de manhã, toca o telefone, era o Zé Alberto, amigo velho e grande redator. -- Jaymão, estou aqui no trânsito e acabou de passar um camburão daqueles escabrosos, preto, de sirene ligada e cantando pneu. -- Ué, e desde quando camburão faz você rir? -- Imagina só que ele passou fazendo aquela barulheira toda, um dos soldados com meio corpo para fora, arma na mão... -- E? -- E na traseira da barca tinha um texto assim: "Incentive a doação de órgãos." É, não deixa de ser sugestivo. Achei que pelo menos o redator que fez aquilo poderia ter ido um pouco além: "Nós fazemos a nossa parte." Ou, pelo menos, completado com o clássico "Ligue já!" | 4.9.06
Que dia! Hoje não consegui pensar no que postar aqui porque acabei postando ali. O tempo anda escasso e eu descobri que não sei mais como tomar conta das duas tartarugas, uma sempre acaba escapando. E o pior é que eu coloquei um comprimido de Mogadon na comida de cada uma. Para passar o tempo, dê uma olhadinha no texto novo dali. É uma espécie de Preço do Peixe, embora esteja em um contexto mais atual, o da discussão do projeto que bane os outdoors e a mídia exterior em São Paulo. Amanhã tem mais por aqui. Sorry. | 1.9.06
Limiar O velho traz algo de novo no olhar: o medo. Não o medo que acovarda, mas o medo do alpinista a galgar, um medo que o projeta, ao que o resguarda. O velho traz no olhar, além do medo, o brilho de quem soube revelar aos seus, de cada um, o próprio enredo e o melhor: o segredo de o mudar. No velho, o olhar de medo juvenesce, parece até olhar de zombaria (nem velho, olhando bem, ele parece). Ouvindo-o falar de um novo dia como se mais um século tivesse, descobre-se o nascer em quem já ia. | |