dito assim parece à toa

30.8.06

Os últimos fatos no Oriente Médio têm-me levado a constatar algo bastante preocupante: cada vez mais gente não-radical, não-religiosa-fundamentalista, não-anti-semita, enfim, cada vez mais gente razoável tem questionado a legitimidade do Estado de Israel e, em conseqüência, sua própria existência.

"Sou contra o Estado de Israel." Ouvi esta frase de um amigo querido. Outro, um estudioso do assunto, enviou-me um calhamaço de textos sobre a história de Israel e como ela poderia justificar os ódios em torno daquele país. E o que é pior, por extensão, daquele povo.

Os fatos históricos em torno da criação do Estado de Israel são, de fato, bastante provocantes. Em 1947, a ONU aprovou a demarcação, para o ano seguinte, de um território de pouco mais de 15 mil quilômetros quadrados, ou 56% da província britânica da Palestina, território que era ocupado por árabes cristãos e muçulmanos e colonos israelitas. A resolução reservou ainda 43% da região para os árabes e 1% foi declarado área de administração internacional, justamente o território que abrangia a cidade de Jerusalém. Esse foi o aparente desfecho de um movimento iniciado pelo jornalista Theodor Herzl no fim do século 19, à época do rumoroso Julgamento Dreyfuss. Chamado Sionismo (referência a um dos nomes da cidade de Jerusalém ou ao local onde ela se encontra), o movimento aos poucos arrebatou judeus de todo o mundo com a idéia de que, tendo um país, aquele povo poderia não apenas compor finalmente uma nação mas também fazer-se proteger dos ciclos de perseguição anti-semita que se repetiam ao longo dos séculos.

O ápice destas perseguições, o Holocausto, cujas dimensões foram descobertas apenas depois da tomada da Alemanha pelos aliados, ao fim da 2a. Grande Guerra, acelerou o movimento sionista, que já vinha há quase meio século, incentivando e financiando a compra de terras na região da Palestina, muitas delas transformadas em kibutzim, fazendas administradas em regime coletivista e tidas como uma das experiências pioneiras de implementação de um socialismo real.

É aí que a porca começa a torcer o rabo. Os críticos do Estado de Israel alegam que a aprovação, pela ONU, da demarcação do território palestino, com a criação de dois novos Estados e a internacionalização de Jerusalém, teria sido obtida com procedimentos duvidosos, para não dizer escusos, junto aos votantes. Mais grave, a divisão teria sido feita totalmente à revelia dos habitantes da região, impondo-lhes migrar e deixar seus lares e terras para trás. Até hoje as famílias palestinas têm o hábito de guardar a chave de suas casas a cada vez que são obrigadas a se mudar pelas sucessivas ocupações que Israel lhes impõe. A chave é um frágil mas persistente símbolo de sua identidade.

Já os israelenses alegam que a decisão da ONU, na prática, consagrou um fato, que seria a já ocupação, pela via da aquisição de terras, implantação de kibutzim e estabelecimento nas cidades da região, como Tel-Aviv. Os judeus da Palestina já tinham, inclusive, desde 1921, o germe do que viria a ser seu poderoso e eficiente exército, o grupo armado Haganá, alegadamente formado para defender os assentamentos judaicos de ataques árabes. A formação do grupo teria sido motivada pelo massacre de Hebron, no qual dezenas de idosos judeus morreram em um ataque árabe.

Do Haganá, surgiram grupos guerrilheiros mais violentos, iniciando-se uma situação de permanente estado de guerra não-declarada entre não-nações. Pode-se dizer que desde então as tensões se estabeleceram na região. A implantação e o reconhecimento internacional do Estado de Israel apenas recrudesceram os conflitos, sendo que a primeira guerra entre Israel e os vizinhos árabes se dá já no primeiro ano de existência do novo país -- e já altera significativamente a demarcação de territórios acordada na ONU.

Os dez anos seguintes são marcados pelo resgate de quase um milhão de judeus mundo afora, que se encontravam sob ameaça em seus países de origem. De lugares tão diversos como o Iêmen, a Hungria, a Líbia e a Polônia, chegaram aqueles que seriam os novos habitantes da Palestina.

Não há dúvida sobre as qualidades do Estado de Israel no que se refere ao desenvolvimento que o povo daquele país conseguiu imprimir àquele lugar inóspito do mundo. Mas não há dúvida, também, de que o custo disso tem sido cada vez mais alto, em vidas humanas. A ascensão ao poder do Likud, depois de décadas de comando dos trabalhistas parece ter destampado o lado mais agressivo do sionismo, aproximando muito a forma do Estado de Israel de lidar com os não-judeus às formas de que, ironicamente, os judeus foram vítimas em tantos momentos da história.

Do jeito que a coisa vai, Israel está se aproximando de um momento em que, mesmo que seja invencível militarmente -- com o farto e inesgotável apoio dos EUA -- tornará a vida cotidiana de seus cidadãos cada vez menos viável -- coisa que parece já estar conseguindo com a vida de palestinos e agora, de novo, dos libaneses.

Não cabe aqui pôr em discussão o direito do Estado de Israel de existir. Isso é fato consumado. Israel é hoje um país com 7 milhões de habitantes, uma produção tecnológica que vem se tornando referência (se você já fez uma ressonãncia magnética ou se trabalha com produção gráfica, certamente já teve contato com softwares ou equipamentos de alta tecnologia produzidos em Israel) e uma impressionante herança de produção agrícola no deserto, com soluções agrotécnicas hoje exportadas para todo o mundo. Da porta para dentro, é uma democracia firmemente constituída e pluralista. Da porta para fora, no entanto, age com uma arrogância e uma violência fascistas, inaceitáveis e desproporcionais.

Já se perderam muitas chances de buscar soluções que levassem à paz na região. No entanto, pode-se ver que isso ainda é possível, desde que se restabeleçam pontes entre os contendores, pontes essas que forma incendiadas na duas pontas, precisando portanto, de um apoio diplomático internacional efetivo. O que já se tornou insuportável é a escalada de violência que, se há uns anos atrás, poderia ser atribuída aos dois lados, num infernal "chicken-egg problem", hoje vem das mãos e decisões do Estado de Israel. E isso não é dito por "radicais islâmicos" ou "homens-bomba fanáticos". É dito por gente lúcida e serena dos quatro cantos do mundo -- muitos judeus entre eles.

Se, de um lado, é cruel pensar em uma solução que passe pelo fim do Estado de Israel, é preciso alertar seus governantes de que eles estão no caminho que os levará à autodissolução.

Que o Deus das três religiões se apiede de seus povos.



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29.8.06

Hoje, tomei um táxi para ir a uma reunião no Itaim-Bibi. No trajeto, a conversa com o motorista trilhou o caminho previsível: o frio, depois o mal que ele faz à saúde e, em seguida, as eleições.

É claro, rapaz informado que penso ser, pus-me logo a fazer proselitismo tucano e a delicadamente advertir o bom velhinho -- o motorista aparentava ir lá pela casa dos 70 -- para as armadilhas provenientes de um voto mal pensado. Falei, falei, falei e, quando já estávamos quase chegando a meu destino, ele disse, como se não tivesse ouvido nada do que eu disse: "Moço, eu não gosto de política, não gosto nem de votar, quase sempre voto em branco. Mas dessa vez, eu vou votar mesmo é no Lula." Nem precisei perguntar por que. "Até que enfim alguém está fazendo alguma coisa pelo pobre", ele concluiu. Logo tive de descer, o que evitou que eu precisasse mudar de assunto.

Entre pagar o táxi e entrar na reunião, fiquei matutando: Lula conseguiu construir uma imagem de pai dos pobres tão forte quanto a de Getúlio Vargas. O taxista é certamente um homem afetado negativamente pela política econômica atual, que pauperiza a classe média e dificulta a obtenção de crédito, fundamental para proprietários de táxis. No entanto, para ele, Lula está fazendo muito pelos mais pobres. Entre tudo o que isso parece revelar, há algo de alentador: o homem de classe média baixa, que provavelmente está trabalhando para completar uma aposentadoria minguada e caminha para um down grade de classe, consegue ainda ter solidariedade em relação aos mais pobres.

Mas o que também se revela é o quanto Lula conseguiu administrar a própria imagem. Passará para a história, caso não faça nenhuma grande bobagem no segundo mandato. Quem haveria de dizer?



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28.8.06

Poeta de segunda

Sonetos soem ser sempre de amores.
Lamentam uns, outros são galanteios,
como galantes são, sempre, os autores,
e o fito dos versos, belos ou feios.

Às vezes, fingem tristes estertores.
Vez por outra, por meio de rodeios,
fazem lá o papel de mandar flores --
pra ter perdão, não há melhores meios.

Mas se alguém olhar as sílabas de perto,
poderá ver partículas estranhas
no que parece ser um verso certo.

Se vires um tratado em que só ganhas,
que ao riso some o encanto descoberto,
cuidado: é mau poeta e boas manhas.



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26.8.06

Vereadores aprovam em primeira votação o projeto Cidade Limpa. Assunto do blog da Milk.



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25.8.06

cinco andorinhas
muda escala sob o sol
staccatos nos fios



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24.8.06

Poetas, seresteiros, namorados, correi!
É chegada a hora de escrever e cantar
talvez as derradeiras noites de luar


Não pude deixar de me lembrar da letra de Gilberto Gil depois de ler hoje a nota do Washington Post online dando conta de que Plutão não é mais planeta.

Cassaram o menor e mais distante planeta do sistema solar. Pelo que entendi, usaram critérios de tamanho e trajetória da órbita. Pelo que eu havia lido uns dias antes, havia também o problema de que, a rigor, se Plutão fosse considerado planeta, haveria uma dezena de asteróides com características semelhantes aoa quais caberia a mesma classificação, o que bagunçaria nosso até então organizadíssimo sistema solar, com a inclusão de planetas nunca dantes imaginados. Até ontem, a discussão já falava em apenas 12, ou seja, o recredenciamento de Plutão obrigaria a se reconhecer como planetas apenas mais 3 corpos celestes que orbitam nosso Sol.

Hoje, no entanto, a notícia caiu como um saco de areia no chão da sala: Plutão estava fora, rebaixado para a condição de asteróide ou equivalente. E como fica agora a cantilena, a musiquinha alegre que aprendemos no ginásio, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão? Minha sensação é mais ou menos como se tivéssemos agora de cantar dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada e ponto final, assim, sem o Brasil no fim.

A única coisa parecida de que me lembro, em meu breve e profícuo tempo de vida, foi quando o papa (acho que era ainda o Paulo VI) resolveu fazer uma depuração na lista de santos e cassou uns tantos. Entre eles, pasmei, São Jorge e Santa Filomena. Como ficaria a Lua a partir daquele dia, sem seu protetor, ou o protetor sem sua santidade, tão importante para proteger? E minha querida tia Maria Filomena, que passara anos elaborando o fato de ter aquele nome para, então, chegar à conclusão de que era um nome de ninguém?

Não, decisões assim não podem ser tomadas dessa forma, apenas com um pequeno grupo de iniciados. Isso deveria ter uma consulta popular, uma reunião extraordinária da ONU, uma rede nacional de TV com 0800, como o "Você Decide" da Globo, ou esse horroroso "Big Brother". Já pensou? Um "Big Brother" sideral?Democratizaria o sistema solar e ainda bateria todos os recordes de audiência, sem que fosse necessário humilhar seres humanos (ainda não há nada que indique características como brio e amor próprio em corpos celestes).

Enfim, acordamos sem Plutão. Devemos ficar alerta. Afinal, desse jeito é bem possível que, ao tentar adivinhar a sorte consultando um mapa astral, o horoscopista lhe diga, assim na lata: "Desculpe, meu querido, mas Sagitário foi descontinuado e Libra agora, só como ascendente." Já pensou?



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23.8.06

Datafolha confirma o Ibope e coloca Lula na frente. Parece mesmo que a fatura será liqüidada no primeiro turno.

Merece reflexão, o fenômeno Lula. Abrindo o guarda-chuva para me proteger dos ovos e tomates, afirmo que, no essencial, o governo Lula é uma continuação do governo FHC e, juntos, ambos representam a consolidação das instituições democráticas no Brasil, depois de 21 anos de uma ditadura burra, emburrecedora e corruptora e mais uns anos em que o país tirou a ferrugem da democracia. Só o distanciamento no tempo é que permitirá ver isso com a poeira da paixão devidamente baixada.

Por que Lula apaixona o eleitorado? Por que Lula, ao mesmo tempo, provoca ódio de tanta gente da parte de cima da pirâmide social? Esta me parece fácil: acho que existe, sim, um preconceito de classe que, no dizer de Darcy Ribeiro, nos faz querer "um monte de advogadozinhos" no poder. Não me lembro de Collor ter produzido tantos xingamentos quanto Lula, embora fosse um criminoso comum, ele sim totalmente despreparado para o cargo que ocupou. Mas existe também, e aí me parece estar um fator importante da ira, uma sensação de traição. Lula seria o agente de uma nova forma de fazer política e acabou se mostrando mais do mesmo, no que se refere a sua relação com o poder.

Quanto à paixão que provoca, o presidente me parece ter conseguido constituir um símbolo, alguém que significa os benefícios que traz à população, assistencialistas ou não. FHC não conseguiu significar, embora tenha montado todas as bases dos programas que hoje Lula entrega ao povo.

É curioso que, nesse processo de significar, os mais raivosos críticos do presidente parecem ver nele o empregado que ousou tomar lugar na sala e sentar à mesa. Já os apaixonados enxergam o final feliz de um conto de fadas ou de uma fábula moralista: o menino fraco e oprimido vence todos os obstáculos que os mais fortes colocaram à sua frente e toma-lhes o lugar e a princesa.

Eu tenho caminhões de críticas ao governo Lula, como já se viu por aqui. Mas também como já se viu por aqui, acho fascinante ser testemunha desse momento histórico em que, pela primeiríssima vez, um homem do povo chega ao poder no Brasil, e nele é mantido pela maioria inconteste desse mesmo povo. Não vou votar nele, não acho que seja a melhor opção para governar o Brasil, acho seu governo bem médio, e com um potencial desperdiçado. Mas isso é mera racionalização, como a lição das urnas mostrará logo mais.



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21.8.06

Mais aforismos de segunda

* Quanto mais crise, mais budistas aparecem.

* Bons tempos em que a gente acreditava que o fundo do poço era o Japão.

* Calma, menino. Um dia, saudade vai ser só um sentimento cafona.

* Quanto mais a ciência avança, mais ela endossa o imprevisível.

* Para quem tem dinheiro, tempo é tão inexorável quanto o bisturi.

* O carente mais chato é o que tem tudo.

* Se vivemos no presente e o Brasil é o país do futuro, estamos todos no exílio.

* A mistificação é a menor distância entre duas ditaduras.

* O homem é o único animal que prescinde do instinto de sobrevivência.



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18.8.06

Cristovam Buarque parece ser um sujeito pouco talhado para a atividade política. Tem a voz acanhada, uma expressão que parece de tristeza, é baixo e não tem o traço "bold" que caracteriza os políticos de forma geral. Some-se a isso o fato de que ele parece ter um só assunto e pronto: eis aí o anticandidato.

Mas pensando um pouco melhor: será que não é exatamente de um anticandidato como Cristovam de que estamos precisando? Os falantes e abraçantes homens públicos que temos têm sido um fiasco no objetivo de fazer o Brasil um país melhor, de forma sustentada. São ótimos de discurso, falam sobre qualquer assunto (quem se lembra do presidente Lula palpitando sobre cotas raciais em um dos debates de 2002, quando cunhou a pérola de que se poderia aferir a raça de uma pessoa "com um exame de sangue"?), são de uma assertividade impressionante, mas empurram o Brasil com a barriga.

Cristovam Buarque tem uma história de realizações nos dois cargos que ocupou com autonomia de vôo, a reitoria da UnB e o governo do Distrito Federal. Brasília -- quem morou lá no período sabe bem -- mudou, civilizou-se na gestão de Cristovam. Se não foi reeleito, deve-se considerar a conjuntura política da época, em que a já renhida briga PT-PSDB forçou a unção de FHC a Roriz (Horroriz seria mais adequado), o que foi decisivo.

O "monotema" de Cristovam é talvez o único que tem potencial de mudar a cara do país em 20 ou 30 anos. Educação é o que pode tornar o Brasil competitivo, civilizado, evoluído, generoso. Um povo educado não precisa de transposição do São Francisco, astronauta de carona, ambulância de deputado, bolsa-esmola. Um povo educado não se torna refém de populista nem se deixa dominar fácil por aventuras autoritárias. Um povo educado não reclama, cobra. Um povo educado não torce, escolhe. Um povo educado pode.

Pergunto eu: esse "monotema" não é mais do que suficiente para começar a mudar o Brasil?



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16.8.06

Soneto de não ver

São sinais, pontos de luz, são faróis.
são os graus para onde a agulha aponta.
São ímãs, são o norte, são anzóis,
são a destruição do faz-de-conta.

Se querem, desmoralizam heróis
ou encantam a barata tonta.
Se assestam a mira, nenhum de nós
escapa do curare à sua ponta.

Parecem jóias, todo mundo vê.
Mas é tão bobo descrever assim,
é qual postal com quadro de Monet,

pôr-do-sol quando o filme chega ao fim.
Não dá pra contar, quem ouve não crê,
quem fala não diz, quem diz só diz sim.



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15.8.06

Poucas coisas são mais prejudiciais à inspiração do que a economia doméstica.

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Alguém viu o debate da Bandeirantes? Eu vi. É óbvio: quem ganhou foi a candidata do PSOL, senadora Heloísa Helena. Helô Helê demonstrou a calma de quem não tem nada a perder, mas sabe que agora tem uma chance de chegar muito perto do segundo turno. Mais: sabe que, se perder, ainda assim será admirada por todos. Pode chegar forte a eleição para a prefeitura de Maceió, por exemplo, em 2008. Ela sabe falar para a TV e é capaz de convencer muita gente de que a história da carochinha que repete é mesmo a vida como ela é. Bom, não somos a Suécia.

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Christovam Buarque foi, como diz a mídia, o homem do samba de uma nota só: educação. Os comentaristas políticos diziam que "isso não ganha eleição" mas reconstruiria o país. É, parece que todo mundo já viu que este é um país que não se interessa pela própria reconstrução.

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Apesar do pessimismo dos comentaristas, começo a ver mais gente disposta a considerar o Christovam. Será pouco para que ele cresça significativamente, mas pode ajudar para levá-lo de volta ao Senado, em 2010, ou à eleição para o governo (difícil prever, mas igualmente difícil ganhar do José Roberto Arruda, a não ser que a reeleição caia no ano que vem).

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Geraldinho foi o de sempre. O mérito dele é que não muda a aposta no meio do jogo. Acredita que vai ganhar usando o mesmo tipo de imagem que o fez vencer a eleição para o governo de São Paulo em 2002. Hoje, com o começo da propaganda eleitoral, é que vai dar para ver o efeito das diversas lengalengas. Poderá ser divertido.

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Dia seguinte de debater, véspera de me abater.



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14.8.06

Hoje à noite tem o lançamento do livro do "seu" Frias no Instituto Tomie Ohtake. "Seu" Frias é o empresário Octávio Frias de Oliveira, publisher da Folha de S.Paulo, soi disant o maior jornal do Brasil.

Por que isso é pauta aqui? Pouco a ver com a trajetória vencedora e, aparentemente, cheia de contradições, do "seu" Frias -- dizem que a Folha, nos tempos do golpe de 64, emprestava caminhonetes ao aparato repressivo; ao mesmo tempo, uns anos depois, a Folha contratou dezenas de jornalistas que o golpe tinha colocado no ostracismo, como o Jânio de Freitas, o Cláudio Abramo e até o Samuel Wainer.

Pouco a ver também com o projeto Folha, escrito por seu filho Otávio, que acabou marcando o jornalismo brasileiro com a idéia de apartidarismo, pluralismo e precisão da notícia. Tenha ou não cumprido à risca esses objetivos (há muita discordância a respeito), a Folha sem dúvida os tem como a lanterna à frente.

Não, essa é a pauta de hoje por uma razão mais simples e, a meu ver, mais nobre: o lançamento mereceu uma matéria de página inteira... no Estadão. Isso pode ser considerado um fiozinho de exemplo para o mundo. Alguns anos atrás, houve quem achasse mais fácil Golda Meir beijar Gamal Abdel Nasser na boca do que o Estadão falar bem da Folha e vice-versa (quem não se lembra do jornalista de rádio da Ilustrada, demitido no começo dos anos 80, por falar bem da rádio Eldorado, dos Mesquita?).

Pois bem, israelenses e árabes: o Estadão deu uma página pro "seu" Frias. Será que vocês não podem dar duas ou três linhas para a paz?



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11.8.06

Inteligência inglesa consegue barrar atentados em aviões com destino aos EUA. A tônica do século 21, que começou no 11 de setembro, tem sido a guerra santa. Depois da Guerra Fria, era só o que faltava.

Não é difícil projetar o que pode acontecer. Antigamente, durante a disputa entre o bloco soviético e o "ocidente", se um líder dissesse a um general: "Vai morrer gente!", o general responderia :"Foda-se!" Hoje, se um general disser a uma liderança: "Vai morrer gente", a liderança responderá: "Foda-me!".

A racionalidade foi definitivamente para o saco, pelo menos como tendência preponderante. Momentos eventuais de lucidez, como o artigo assinado por Abram Szajman e Paulo Skaf na Folha de 10/8, são apenas regurgitos de um tempo em que o predomínio do bem parecia ser a finalidade, apesar das interpretações do que fossem bem e mal. Hoje, parece que a finalidade é o predomínio do santo, o que torna tudo completamente fora do que se possa esperar como razoável. Bush e os líderes muçulmanos são fanáticos religiosos, bem como boa parte da direita israelense (quem mesmo está no poder por lá?). O que se pode argumentar contra quem acha que o bom vai estar lá no céu, e só para quem destruir o mal? Sejam cem virgens, sejam auréolas, seja um bom papo com Abraão, o prêmio parece valer a pena.

Nos dias que correm, ainda não vimos o pior. O mundo não está mudando, está acabando. Pelo menos da forma como nos acostumamos a vê-lo, com aviões, olimpíadas, mini-séries ou liberdades civis. Vem aí uma idade média perto da qual a original vai parecer história da carochinha.



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9.8.06

Quadras do Largo da Batata

A moça com muita pressa
atravessa a avenida.
Parece que fez promessa
atrás de vencer na vida.

***

A peça de carne verga
o dorso que veste a capa.
O homem já não enxerga
a perna que quase escapa.

***

A saia é muito mais curta
do que permite a manhã.
O olhar que a perna me furta
Ocupa-me a vista sã.

***

Na calçada feita cama,
quis o homem se deitar.
Desmaiado se esparrama,
sonha jamais acordar.

***

A fila do coletivo
às vezes parece festa.
O vendedor, muito vivo,
sorri pra moça modesta.

***

As putas, não dá para ver.
Dá só pra ver as escadas
por onde sobe o querer
e desce o gosto dos nadas.



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8.8.06

Está já em fase de soft-opening o blog da Milk Comunicação Integral. Pode visitar. Lá, você vai achar textos sobre comunicação escritos por gente da Milk, eventualmente eu mesmo. Se você se interessa por comunicação e acha que propaganda é um porre mas pode ter salvação, faça uma visita. Se gostar, volte. Se voltar, indique a um amigo. Se indicar e o amigo achar um saco, ponha a culpa em mim. Se o amigo gostar, peça a ele, com jeito, para ficar em pé e fazer o quatro.



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7.8.06

Pesquisa do instituto Interscience dá conta de que 36% dos brasileiros entre 6 e 15 anos usam celulares, sendo que, na Classe A, essa taxa sobe para 91%. Noventa e um por cento.

Aparentemente, a razão dessa febre telecomunicativa é a segurança. Com celular na mão, os filhos são facilmente localizáveis. Tenho dúvida tanto sobre esse generoso atributo da aparelhinho como sobre a própria socialização das crianças com esse novo instrumento. Adianto logo que o que vou falar aqui vai ser contrariado pelos fatos e tudo correrá bem com o ser humano de qualquer forma.

Mas é muito aflitivo imaginar esse monte de microgente circulando para lá e para cá de celular na mão. É meio neurotizante para nós, adultos, essa nova condição de nunca estar fora do alcance das pessoas. Mais estranho ainda será ver essa geração crescer sem ter esta estranheza, tendo certeza de que é parte do dia a dia achar e ser achado em qualquer lugar, a qualquer hora.

Mas o pior é o estímulo ao ensimesmamento. Videogames já causavam esta preocupação. Acreditávamos que as crianças, com esses joguinhos tecnológicos, ficariam verdes e solitárias, ao contrário dos corados e enturmados meninos da geração nascida antes de 1960, acostumados a guerra de mamona e pelada na rua. Não chegou a acontecer, mas e agora que o videogame sai à rua com a molecada? O mundo caminha para a pelada do eu-sozinho, com essa invasão dos telefones-fliperama.

O mais aflitivo é que tudo isso pode ser descrito como facilitador da comunicação entre pais e filhos, maridos e mulheres, patrões e empregados. O que, no entanto, se vê, é o contrário. Todos se queixam de que falta proximidade entre as pessoas, que ninguém mais conversa na hora do jantar, que até o romance caiu de moda. Que comunicação é essa?

Como sempre, se busca aqui o lado bom e otimista das coisas, a solução para o problema aparentemente insolúvel. Pois bem: a proposta do Dito Assim é que as famílias tenham um celular para cada membro, tenha a idade que tiver, cada um deles com viva-voz. Na hora do jantar, em que a família deve se reunir e cada um contar como foi o dia, todos fazem um conference call, usando seus aparelhos e o viva-voz. Com o tempo, a conversa se institucionaliza e, de alguma forma, se incorpora à rotina familiar. O passar dos anos trará novas soluções, skype, yahoo! messenger com voz, telefonia embutida no corpo e, por fim, telepatia. Sem dúvida será um luxo papai colocando o indicador sobre a testa, bem no meio, no lugar do terceiro olho, levantar a outra mão e não-falar: "Passe o purê de batata".



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4.8.06

Sou admirador da colunista Barbara Gancia, da Folha. Ela é uma pessoa controvertida, tida como porra-louca por alguns, reacionária por outros, menina gatée por mais uns tantos.

Eu acho que Barbara é das poucas pessoas que conseguem manter um pensamento independente e idéias proprias nesse mundo de cardumes em que estamos vivendo. Diversas vezes tive vontade de lhe escrever uns impropérios, outras de aplaudi-la de pé. O fato é que a mulher é culta, informada, articulada, escreve bem e, sobretudo, tem uma imensa capacidade de dizer "pera lá" a qualquer aparente unanimidade que vá surgindo pelo caminho.

Em sua coluna de hoje, ela resvala em duas questões controvertidas, que tendem a ter multidões de um lado da controvérsia e dois gatos pingados do outro. Uma é a questão do Oriente Médio, já discutida aqui. Outra é a proposta de colocar câmeras de vigilância pelo centro de São Paulo. Todo mundo acaba achando que isso é uma afronta às liberdades individuais, que o Grande Irmão se concretiza, que Mussolini venceu 60 anos depois e por aí afora. Mas é o caso de pensar. Será que não há um lado bom em saber que traficantes de crack podem ser pegos com a boca na botija e batedores de carteira podem ser identificados com mais facilidade? Será que não é uma boa maneira de tomar conta da rua? Em que uma câmera é diferente de um guarda a pé, a não ser na eficiência da vigilância? Mas e a intimidade eventualmente devassada? Ora, um guarda a pé também pode flagar momentos de intimidade, é questão da acurácia da vigilância. No entanto, ele não poderá criminalizar o fato ou mesmo usá-lo contra quem quer que seja, porque isso seria contra a lei.

Parar e pensar. Por que será que é tão difícil fazer isso sem ter que olhar sempre para o vizinho?



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2.8.06

Uma depois da outra. Reuniões são uma óbvia manifestação da gregariedade do ser humano -- fator preponderante na evolução e sobrevivência da espécie.

Talvez seja por isso que elas sejam mais freqüentes e mais longas do que o que pareceria razoável. Seres humanos se sentem mais protegidos, quando agrupados. Nestes dias de estresse e pressão constantes, talvez as reuniões funcionem como um modorrento ansiolítico. As pessoas entram nas reuniões e, ao mesmo tempo em que se sentem protegidas pelo grupo, se vêem atávica e instintivamente obrigadas a se colocar, seja para sentir de perto a presença no/do grupo, seja para se destacar e exercer uma também instintiva liderança.

O que acontece é que raramente as reuniões se dão em torno do tema previamente pautado e quase sempre elas duram bem mais do que o previsto. Aliás, anote aí: quando alguém chamar você para uma "reuniãozinha de 15 minutos", não acerte sua agenda por isso: não existem reuniões de 15 minutos. Se o número de participantes for igual ou maior a três, o mínimo que se consegue são 40 minutos.

Coisas do instinto, o mesmo que fez com que este ser sem pelos, sem velocidade e sem garras conseguisse dominar o mundo (ok, mais ou menos como um surto de micose domina a pele de um ser humano saudável, mas isso é outra história). Mas eu tenho lutado para que consigamos vencer esse instinto. Afinal, o tempo nos ensinou a não agarrar a moça bonita que passa à nossa frente pela rua, mesmo que estejamos completamente tomados pelo impulso de perpetuar a espécie. Da mesma forma, não comemos mais bichos vivos com as mãos, não fazemos xixi na sala, não rugimos para o chato ao lado, pelo menos não muito alto.

Por isso, imagino, não deve ser tão difícil para o homo sapiens sapiens sublimar esse instinto básico de se reunir. Poderíamos fazer aos poucos, como os adictos de heroína, que têm de ir compensando passo a passo a dependência: faríamos reuniões todo dia, mas iríamos encurtando um minuto por dia. Depois do quinto dia, tiraríamos o cafezinho da sala. Mas cinco dias, tiraríamos as cadeiras. Outros tantos cinco dias nos levariam à decisão mais difícil: com caixas de lenços de papel e copos de água com açúcar bem distribuídos, tiraríamos a mesa da sala de reunião. Por fim, decretaríamos alta para todos aqueles que ficassem sem tremer, chorar ou ter urticária. Estes, estariam livres do vício atávico, precisando apenas da eterna vigilância a que alguém atribuiu a liberdade.

Proponho mesmo a criação de um grupo de ajuda mútua, para quem já podemos anunciar um slogan: Se você quer fazer reuniões, o problema é seu. Se você quer parar de fazer reuniões, o problema é nosso. Há, pois, salvação.



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1.8.06

O novo nome do Américo Pisca-Pisca é Aldo Rebelo. Depois de ter ganho notoriedade como Policarpo Quaresma, tendo sido autor da lei que proíbe o uso de anglicismos no português escrito no Brasil, o nobre deputado apresentou, em 2001, um projeto de lei propondo que toda a farinha de trigo produzida no Brasil deva, obrigatoriamente, ser adicionada de um mínimo de 10% de farinha de mandioca.

De tão obviamente esdrúxulo, o projeto ficou em banho-maria durante quatro anos, até que o nobre deputado foi guindado à presidência da Câmara e, do alto de sua autoridade renovada, conseguiu colocar o projeto novamente em pauta.

A quem Aldo procura beneficiar, é algo que ainda está por ser descoberto. Não parece que sejam as criancinhas desnutridas do Brasil. A adição de farinha de mandioca empobrece nutricionalmente a farinha de trigo, por ser aquela composta de puro amido, enquanto esta tem outros componentes nutricionais, incluindo até proteína. Seria o consumidor, beneficiado por uma farinha mais barata? A adição de farinha de mandioca gera problemas industriais à produção de farinha de trigo que certamente trarão impacto a preço, ou pelo menos serão um bom pretexto para que os preços não caiam.

Ao que parece, Rebelo está tão somente atendendo a um lobby dos produtores de mandioca, visando, por decreto, incrementar a produção da tão brasileira euforbiácea. Agora, o mais engraçado é que, se os produtores brasileiros de farinha de mandioca dobrarem sua produção em um ano, ainda assim, a indústria de farinha de trigo teria de importar algo como 100 mil toneladas do produto (provavelmente da Malásia, onde mais haverá farinha de mandioca neste mundo?) para cumprir a lei.

Enquanto isso, as reformas tantas de que esse país precisa continuam esperando na fila, que é sempre furada pelo patriotismo -- ou o senso de humor, não se sabe -- de homens públicos como Aldo.



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