dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
31.7.06
Israel perdeu a guerra. Não essa das armas e explosivos. Mas, da mesma forma que o oxigênio em estado cada vez mais puro mata o paciente de enfizema enquanto combate a falta de ar, a violência do exército de Israel leva sua Nação a um caminho sem volta, enquanto traz a ilusão de que combate efetivamente alguma coisa. Daí ao fim da Nação, é uma questão de tempo. Talvez não o fim geográfico, territorial. Mas certamente o fim de uma Nação na qual se possa criar filhos e multiplicar princípios. Israel caminha para ser um Estado militar. A belicosidade, que até a Guerra do Yom Kippur, em 1973, parecia ser justa, por defender um estado democrático de uma perseguição injustificável, por ser a saída heróica de um David civilizado contra um Golias formado por governos autoritários, agora não se justifica mais. O que é incrível é que, olhando friamente, é possível até que algumas justificativas que Israel dá para as ações no Líbano parem em pé. É fato que o Hizbolah se infiltra entre as populações civis, o que inviabiliza as soluções "cirúrgicas" que Israel alega buscar. É fato também que o grupo armado tem presença institucional no Líbano, inclusive fazendo parte do governo daquele país, ao mesmo tempo em que compõe uma incômoda e injustificável força armada que não responde às autoridades libanesas. No entanto, nada disso parece mais justificar, aos olhos do mundo e aos olhos das populações das nações árabes, o uso tão intenso da força por Israel. O dilema é: será que a força, como o oxigênio do paciente, é fator indispensável de sobrevivência? Parece que, nessa analogia, o remédio só tem o efeito de matar o paciente. Talvez por uma cultura da guerra, desenvolvida com as vitórias de 1967 e 1973, Israel tenha se habituado a retaliar para sobreviver. No entanto, o tempo veio transformando as imagens em jogo, e aqueles que atacavam injustamente passaram a ser reprimidos ou atacados injustamente. Ou pelo menos é o que parece ser. O que Irael não percebeu é que, num mundo em que, cada vez mais, o que parece ser é, ele compõe sua própria imagem como a de um vilão intolerante e violento como Átila o rei dos hunos. Ou, por que não?, como o pior vilão de todos, aquele que personificou o flagelo do holocausto. Sim, justificadamente ou não, o mundo enxerga em Israel a espantosa metamorfose que transforma a face serena e bondosa de David Ben-Gurion no rosto intolerante e crispado de Adolph Hitler. Israel perdeu a guerra. | 28.7.06
Fragmento de "O Preço do Peixe", 21* -- Ora essa, imagine, é uma história tão antiga, acho que nem seu pai tinha nascido. -- Mas vovô... -- Tá bem, eu conto. Era em 1954, agosto de 1954. Eu já era oficial, major da Aeronáutica do Brasil, e parecia que o futuro estava querendo me tratar bem. Não sei se você sabe, naquele momento o Brasil vivia um momento de crise... -- Como sempre, vovô. -- Mas essa era pior, o presidente estava cai-não-cai, tinha um monte de acusações contra ele, a coisa estava feia. Pois bem, um dos inimigos mais ferozes do presidente... Você sabe quem era o presidente em 54? -- ... -- Vargas, meu filho, Getúlio Vargas. Como pode um neto meu não saber? Bem, um dos piores inimigos de Vargas era o deputado Carlos Lacerda, um homem enérgico, anticomunista ferrenho, um orador e tanto, cheio de veneno e sempre pronto para jogar esse veneno contra o presidente. Acontece que o Getúlio era muito querido, venerado, mesmo, pelos mais pobres, e, pelo calor dos debates, resolveram lá que o Lacerda precisava de proteção. Tinha sofrido umas ameaças, inventado mais algumas, eu sei que se estabeleceu que um oficial da Aeronáutica faria a segurança do homem sempre que ele estivesse fora da Câmara, que naquele tempo era no Palácio Tiradentes. Um belo dia, o meu superior imediato me chama e diz: "Major, esta noite o senhor está escalado para acompanhar o deputado Carlos Lacerda". Eu fiquei meio chateado, era bem no turno da noite, não tinha muita hora para acabar. Mas, afinal, ia estar ao lado de uma celebridade, o que tinha seu lado bom, rendia umas histórias para contar. -- Mas você não era da Aeronáutica? Por acaso o deputado ia para casa de avião? -- Não deboche! Os oficiais da Aeronáutica eram mais instruídos e muito bem treinados... Bom, é fato que havia muitos deles que queriam ver o Getúlio pelas costas. Fosse por uma coisa, fosse pela outra, acabaram sendo escalados para essa missão. Pois bem: duas horas antes de eu assumir o meu posto, recebo o aviso de que outro oficial ia cumprir a minha escala naquela noite. Até que fiquei contente, não ia precisar entrar na madrugada trabalhando. Mas no dia seguinte, ainda de manhã, o rádio deu uma notícia chocante: um pistoleiro tinha se atocaiado na frente do prédio onde morava o Lacerda, ali na rua Tonelero, em Copacabana, e, quando o carro chegou e o deputado desceu, o facínora abriu fogo. Acertou o homem no pé, mas o major que lhe fazia a segurança não teve a mesma sorte. Tomou um tiro no peito ao tentar agarrar o bandido, e não teve jeito: foi desta para melhor. Justamente o major que me substituiu naquela noite. -- Uau, que sorte a sua! -- É mesmo, muita sorte. Mas... -- Como mas, vovô? -- Se você olhar com cuidado, vai ver que quem ficou famoso nessa história foi o Vaz, o que me substituiu. Saiu fotografia no Cruzeiro, em tudo que era jornal, o rádio deu, a televisão mostrou. Tem até aquele túnel com o nome dele, ali perto de onde foi o atentado. -- Mas se fosse você lá, não tinha chegado a brigadeiro. -- É, brigadeiro sim, mas que brigadeiro? O famoso brigadeiro "Quem?". -- Ora, vovô. -- Já o Vaz... * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, causos mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. | 27.7.06
Helô Helê sabe o que faz. Hoje, a Folha publica um artigo da candidata do PSOL, na seção Tendências/Debates, em que a senadora levanta uma intrincada teoria conspiratória sobre a concorrência do trecho Luz-Butantã-Vila Sônia do metrô de São Paulo. Segundo ela, a concorrência favoreceria "capitalismo sem risco", "investimento privado com capital público" e "ataque à economia popular", mesmo ainda sem que tivessem sido escolhidos os parceiros privados da empreitada. Ou seja: segundo Helô Helê, o governo de São Paulo, na relação com os capitalistas, faz o bem sem olhar a quem. O interessante é que essa "denúncia" vem a público exatamente na semana em que cresce o burburinho, principalmente nas hostes petistas, de que a brava alagoana seria uma quinta-coluna da candidatura Geraldo Alckmin, seria uma tentativa de roubar votos de Lula e provocar um segundo turno. Enfim, a se crer na paranóia do momento, Helô Helê estaria agindo em favor do velho e reacionário grupo que hoje traz a etiqueta pefelê, e de seus parceiros do aristocrático e traiçoeiro tucanato, como se sabe, mais conservador do que a Arena e o general Médici juntos. Marta Suplicy e os irmãos Tatto não fariam melhor. O curioso é que, ao bater forte no governo de São Paulo e num tema tão caro a Alckmin, como são as PPP (parcerias público-privadas), Helô desmonta a teoria conspiratória que exaspera o petismo. Mostra que bate indiscriminadamente. Mais um passinho na candidatura salva-pátria. A senadora parece saber, realmente, o que pavimentará seu caminho: a capacidade de representar a raiva geral e indiscriminada com o Estado e as instituições. Seu conterrâneo Fernando Collor valeu-se do ícone "marajás" para configurar o mal a combater. A candidata do PSOL vai mais simples: combate os malvados, e pronto. Como hoje esta é uma carapuça tamanho único, que tem servido em uma multidão de cabeças coroadas de todos os lados da contenda, Helô Helê vai abrindo uma avenida onde antes só se via uma picada. | 25.7.06
Sem querer parecer gabola, escrevi as maltraçadas que seguem, e publiquei aqui no Dito Assim, no dia 30 de agosto de 2005: (...) Outra surpresa que começa a mostrar as asinhas -- e não é de hoje -- é o PSOL, o micro-partido de alguma coisa parecida com ultra-esquerda-católica (se é que esse cruzamento é possível), fundado por Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro. Heloísa Helena tem, já há alguns meses, algo como 3% das intenções de voto nas pesquisas que a imprensa vem divulgando. Um estoque à primeira vista desprezível, face aos caminhões de porcentagem exibidos por Lula e Serra, por exemplo. Mas alguém lembra quanto tinha FHC na primeira pesquisa em 94? Alguém lembra como foi o crescimento de Lula em 89, passando Brizola por fora e ganhando um lugar no segundo turno? Mais: alguém lembra qual era, então, o discurso de Lula? Neste fim-de-semana, da moleza de minha convalescença, me pus a ler a Revista da Folha que trazia a senadora na capa. Sua entrevista a coloca como um paladino da justiça, com um rigor franciscano com o que quer que pareça ser corrupção. Fala de um sonho de liberdade que ainda é o mesmo dos anos 60 e que não olha para essa coisa conservadora a que chamam cofres públicos ou ainda superávit das contas públicas. Atribui a desigualdade a vilania. Portanto, encontra a solução na qualidade das intenções. Um discurso e uma visão que podem muito bem conquistar multidões. Não sei se Helô Helê terá cacife pessoal para tanto, ela não me parece capaz de magnetizar as massas. Mas é, no mínimo, um ponto dos espectro político que não se pode desprezar. Particularmente, vejo nela, senão um lugar no segundo turno, pelo menos um papel importante em 2006. A conferir. A moça agora tem 10%. E parece poder crescer mais. Vai ser engraçado o pessoal do pefelê chamando voto pro Lula no segundo turno. Se cuida, Geraldinho! | 24.7.06
Do homem (nem tão) bom A lenda da língua diz que saudade não se traduz, usa-se só aqui. Aceita-se também como verdade que o amor flui melhor para um tupi. Se, ao homem bom, corrompe a sociedade, se sua bondade está no pedigree, como se explica a raiva que me invade, tão pouco bom, eu que tão bom nasci? Não sou Rousseau, não sou tampouco bom, sinto saudade em qualquer outra língua, sou reclamão, não sei manter o tom. Queixo-me sempre de viver à míngua, sinto sua falta e digo alto e bom som: se você volta, esqueço a falta, vingo-a. | 19.7.06
Mini 82 Parece não haver mais turbulência. Parou, ainda bem. Mas parou de uma vez, me dá a sensação de estar plantado em pleno mar, incrustado numa pedra d'água. Afundar, não afundo. Ainda dá tempo de tirar a água do fundo do escaler. Agüentou bem, esta casquinha. Não como há dois dias. Mas tenho água. Os excessos da civilização devem me manter vivo pelo menos por mais uns quatro ou cinco dias. Até hoje, não apareceu o sol. Quase nada, aliás, apareceu, só o aguaceiro. As estrelas mostram que amanhã eu posso ter mais um problema, posso torrar. Mas, iluminado pelo sol, posso ser recolhido por algum barco. Parado, com tanta calmaria, talvez possa ser visto de mais longe. Aquela luz, quase na linha do horizonte, é um navio que jamais me verá. A água estará pela metade quando o sol estiver a pino. É muito bom, muito bom não precisar decidir nada. | 18.7.06
| Não gosto de cabular a segunda-feira, mas o dia de ontem não me deixou tempo para escrever algo que valesse a pena (se é que há alguma maltraçada aqui que valha a pena). De fato, a única coisa que me passou pela cabeça, nos segundos em que pensei no que escrever, foi falar mal do governador Lembo. Como se vê, foi melhor ter deixado para hoje. Hoje, o dia amanheceu ensolarado, o inverno paulistano esteve ameno, a água quente do chuveiro e seus vapores, acompanhados de uma performance de barítono que eu mesmo tive de admitir ser quase um Tito Gobbi, me aqueceram e lavaram a alma. Assobiando You do something to me, abri a porta para dar as boas-vindas ao arauto do dia, a Folha de S.Paulo fresquinha. Já na parte acima da dobra vêm as seguintes manchetes: Conflito do Líbano tem mais de 200 mortos, Polícia Civil usa barricadas contra ataques do PCC em SP e Suzane nega em julgamento ter planejado a morte dos pais. A foto é de uma criança de não mais de 5 anos, dentro de um ônibus, em fuga de Beirute. Só para, já na rua e bufando, não resistir à impressão de que esse negócio de cantar no chuveiro, inverno ensolarado, Tito Gobbi, dito blogue, é tudo coisa de veado. Amanhã passa. | 14.7.06
Poucas coisas são mais transformadoras do que a condição de pai, mais precisamente, o momento em que isso se concretiza, o momento em que um filho nasce. Há algo instintivo, irracional, ancestral que nos acende uma luz interna, faz soar um sinal de alerta e nos prende àquela criatura, ao mesmo tempo em que nos faz olhar o mundo a quatro olhos. Depois, ao longo do tempo, a relação com os filhos ensina. É apenas aparente a noção de que os filhos, de forma preponderante, aprendem com os pais. Filhos aprendem com o mundo, muito com os irmãos, com os brinquedos, com os amiguinhos, os inimiguinhos, os tropeços e as transgressões -- estas são uma verdadeira universidade. Sim, aprendem também com os pais, mas olhando essa relação com mais atenção, quando ela é saudável -- e, na maioria dos casos, é -- os pais aprendem mais com os filhos do que o contrário. Ensinamos formalidades, regras básicas, nos deixamos imitar em qualidades que supomos ter, transmitimos idiossincrasias (estas, sem querer), insistimos em algumas coisas inúteis que os filhos fingem aprender para nos agradar. Mas aprendemos a nos transformar, a fazer sacrifícios pessoais inimagináveis, nos descobrimos corajosos, ao mesmo tempo não escondemos mais covardias, volta e meia nos vemos descendo do pedestal e esquecendo dele. Filhos nos transformam, enquanto nós apenas os formamos. Até as rotinas, com os filhos, são marcantes. Mas há alguns momentos especiais. Pais, como se sabe, têm de ser apresentados aos filhos. Entre eles e as mães, a relação é primordial, sempre existiu, física e espiritualmente, não tem marco zero. Já nós, entramos na relação depois dela começada. Assim, temos de conquistar a criaturinha, e o primeiro momento marcante é aquele olhar de estranheza com que o recém-nascido parece que nos fita, como se dissesse "ok, é esquisito, mas parece ser boa gente". A partir daí, os momentos marcantes quase sempre nos pegam no contrapé. Contrapé da masculinidade, quero dizer. Quando se leva a filha para a escola -- raridade nestes tempos de trabalho excessivo e sempre longe -- é inevitável a sensação de falta de jeito. Quando a filha pergunta sobre sexo, quem pode parecer mais trapalhão? Quando, montados em nossa pose, tentamos ensiná-la a ler, ela desmonta o professor ao fazer a pergunta certa e ao ler justamente a palavra que você acharia a mais difícil. Quando, meio constrangida, ela vem contar sobre o primeiro namorado, nós por dentro procuramos desesperadamente pela babá. A nossa babá. Brigas também são marcantes. E, na maioria das vezes, marcam mais ao pai. Marcantes são todas as perguntas, marcantes são os momentos em que se pode ajudar, marcantes são os carinhos, todos os carinhos, que jamais viram rotina. Marcante é ver crescer, como marcante é a sensação de que não percebemos que eles crescem. É óbvio que tudo isso dá muito trabalho. As mudanças que a relação com os filhos provoca nem sempre são tão abrangentes quanto se podia esperar, a transformação muitas vezes não cabe no espaço de uma só vida. Assistir a esse crescimento muitas vezes pode provocar alguma frustração. Quantos de nós não terão ouvido aquela frase, acompanhada de um balançar de cabeça: "Puxa, como é difícil mudar o papai". Mas o bom é que eles seguem tentando. P.S.: Esse texto parece meio diferente do que é normalmente colocado aqui, é meio sentimentalzão. Ocorre que, na mesma semana, uma amiga pediu um texto sobre filhos, um testemunho para uma pesquisa que desenvolve na empresa em que trabalha, e minha filha mais velha foi viajar, deixando a saudade de sempre. Daí, resolvi publicar o que antes tinha apenas um destinatário, e agora deverá ter uma multidão, talvez até mais de 7 leitores. Segunda-feira, volta a esculhambação de hábito. | 12.7.06
O tempo e o tempo Depois do aeroporto, a vida-após: mais que saudade, eu tenho da Bahia lembrar o tom do que você dizia, cantarolar os lás da sua voz. Mais que saudade, eu sinto ecos de nós, certo calor durante a noite fria, certo perfume que aí me aprazia, um vaziozinho, soma de dois sós. O céu, que aí é cinza e aqui é claro, ao contrário do que sempre apresenta, pode estar a mostrar nosso caminho. Nestes dias de tempo assim tão raro, passemos o nosso em câmera lenta e, quadro a quadro, nasça o nosso ninho. | 11.7.06
Há tempos, tive uma idéia para um mini, que era a historieta de uma pessoa que não jogava o lixo fora jamais, que ia acumulando tudo em casa, guardando o que não servia mais. Acabei desistindo desse caminho porque achei que não escaparia de fazer uma metáfora fácil, uma figura que, por exagerada, seria banal. Hoje, ao abrir o jornal, vejo que, em pleno Itaim Bibi, uma senhora guardava em sua casa toneladas de lixo acumulado durante anos, em quantidade tal que ela própria não cabia na casa, tendo de dormir em um carro na garagem. É um pouco assustador ver metáforas banais se materializando assim, sem cerimônia. Elas roubam a cena de escritores de poucos recursos como eu, condenam os poetas de ocasião ao esquecimento definitivo, seqüestram as figuras pobres que, por sobra de espaço, acabavam causando algum impacto e admiração. A democratização do fantástico vai nos obrigar ou a dar um salto de qualidade (impossível, eu, por exemplo, precisaria de três vidas para fazer algo equivalente a um parágrafo de Érico Veríssimo) ou a desistir. Talvez reste a função de escriturário. Mas, com os computadores, talvez nem para isso sobre espaço. Vou abrir o jornal ao longo desta semana e prestar atenção aos cadernos de menos prestígio. É ali que parece morar a nova literatura, que há de ser nada mais que a narrativa dos fatos originais que se espalham por nossas cidades entupidas. Se a freqüência de bizarrices ultrapassar o número de dez por semana, desisto. Nem adianta tentar os textos de humor. Destes, os primeiros cadernos já tomaram posse há tempos. | 10.7.06
Não ia mais falar desse assunto, mas não resisto: Copa do Mundo é uma sucessão de tragédias num palco grande demais, com uma platéia grande demais. A última cena trágica foi a cabeçada de Zidane em Materazzi, que marcou o que seria a festa de encerramento de uma carreira brilhante, transformando-a, em um segundo, numa cena dantesca, na execração universal -- e, pelo momento em que se deu, eterna. Zidane virou um Barbosa sem Gighia, o autor de sua própria sina, um Édipo sem amor. Hoje, saíram notas dizendo que o zagueiro italiano teria ofendido a irmã de Zidane ou ainda o teria chamado de terrorista, invocando sua origem árabe. O consolo, insuficiente e injustificado, foi o prêmio de melhor jogador da Copa. Como o personagem que é desta tragédia, o próprio Zidane declarou que o prêmio era indevido. De fato, seria como se o próprio Sófocles renascesse e, à moda de Geraldo Vietri ou outro noveleiro qualquer, declarasse que Jocasta era, na verdade, uma prima longe e que Édipo teria apenas contraído uma conjuntivite forte. Só o que resta é lembrar e recontar a tragédia, pois escrita, ela já está. Zidane, de agora em diante, acordará toda manhã com um fígado novo, apenas esperando pela águia da memória, que já é sua pena e única redenção. | 7.7.06
Depois de uma rebelião de presos, os encarregados de vigiá-los os confinam em um espaço que acomoda mais ou menos 3 presos por metro quadrado, vão embora e soldam a porta! Depois, jogam comida e remédios por cima do muro e içam os que eventualmente devem ser soltos. Quem cuida dos presos feridos é um preso médico. Isso não acontece na África, mas na chamada "Califórnia brasileira", a rica e próspera Araraquara. E o que é pior, o governador vem e diz que a culpa é dos presos. Uma das obrigações do Estado é vigiar e punir, só que segundo as regras da lei. Isso dá trabalho, exige organização, treinamento de pessoal etc, etc, etc. Coisas que o país vê cada vez menos. De duas uma: ou isso é o mais recente sintoma da ladeira abaixo que vive este país ou o governo de São Paulo inventou o mais revolucionário regime penitenciário do mundo: a auto-gestão. | 6.7.06
Continuando a conversa sobre os símbolos da Pátria e nossa (falta de) intimidade com elas, fiquei pensando naquilo que o Caloca falou sobre o Hino Nacional, trocá-lo, por exemplo, por Aquarela do Brasil. Há, de fato, muitas canções amadas por gerações inteiras e que poderiam simbolizar melhor o Brasil do que o Virundum, com sua melodia até bonita, embora um pouco marcial demais, e sua letra absolutamente inatingível (outro dia ainda fiz o exercício, com a galera do escritório, de colocar o começo do hino na ordem direta: "As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico"). Além dos sambas-exaltação, como a própria Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, Canta Brasil, de Alcir Pires Vermelho, e a releitura do gênero, Nação, de João Bosco e Aldir Blanc, há delícias que poderiam perfeitamente representar o Brasil tanto nos estádios quanto nas embaixadas, consulados e palácios. Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, uma canção de exílio bem apropriada, quando diz, por exemplo: Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/ Não vai ser em vão/ Que fiz tantos planos (...). Outra beleza é Brasil Pandeiro, de Assis Valente. Ele fala claramente: chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. De novo o Chico: não fosse tão comprida a letra, Bye bye Brasil poderia também ser um bom hino, por cantar as partes menos enaltecidas da terra, o Tabariz, o Tocantins, a costeira que se toma em Belém, o Brasil dos novos descobridores. Mas ainda acho que hino tem de ser simples, tem de combinar amor e guerra, tesão e paz. Há uma cançãozinha de autoria desconhecida, folvclore mineiro, regravada alguns anos por Milton Nascimento, que, eu acho, africanizaria um pouco o símbolo melódico da Pátria, além de quase nos forçar a dançar ao tocar do Hino: Quem me ensinou a nadar/ Quem me ensinou a nadar/ Foi, foi, marinheiro/ Foi os peixinhos do mar/ Ei nós que viemos/ De outras terras, de outro mar/ Temos pólvora, chumbo e bala/ Nós queremos é guerrear. Precisamos aprender a nos cantar. | 5.7.06
Sei bem -- e quero -- o que não mereço, e, como não mereço, não o tenho. Ora, já que não tenho, não me empenho e, assim, segue-me a vida pelo avesso. Perdi você, da alma ao endereço; foi sem querer, mas sem franzir o cenho, um traço desta vida sem desenho, em que ter zero é o meu pagar o preço. Com este nada, eu já me conformava, quando, do nada, apareceu você, da forma que eu menos merecia: ia do riso ao ar que eu respirava, à marca sem pele, ao que não se vê, da vida-noite ao meu primeiro dia. | 4.7.06
Pouca gente viu The deadly affair, de Sidney Lumet. É difícil encontrar uma cópia em DVD ou mesmo em VHS. Vi o filme uma única vez, anos atrás, em uma dessas exibições da madrugada, TV Globo -- a grande irmã deve ter comprado uma cópia como parte de algum acordo, um lastro na aquisição de um block buster qualquer. Foi uma surpresa. Me lembro bem, eu tinha uma insônia insistente na época, combatida sem muito sucesso com uísque ou televisão. Liguei o aparelhinho e o filme estava justamente começando. O nome de Sidney Lumet recomendava. Continuei à frente da TV e me surpreendi com o enredo -- baseado, soube depois, em um livro de John Le Carré, aquele que anos mais tarde se descobriu ter sido um espião de verdade --, a fotografia e, mais do que tudo, com a música. O filme, um policial, consegue misturar, bem ao modo dos anos 60, uma trama policial ligada à guerra fria com um drama sentimental. Um detetive (James Mason) é colocado em um caso importante, o assassinato de um diplomata, com os esperados desdobramentos internacionais, enquanto em casa, sua mulher o trai com um colega de trabalho, e ele tem de resolver o que faz. O clima é noir, Mason tem um desempenho acima da média, em um papel que poderia facilmente resvalar para a canastrice, e a trama surpreende, um pouco mais pesada e triste do que um thriller deveria ser para chegar ao sucesso. The deadly affair, de fato, não o foi. Mas a surpresa maior é a trilha sonora. Composta por Quincy Jones, tem como referência o que deveria ser o oposto a film noir e cenário cinza-chuvoso-fossento: bossa-nova. Sim, bossa-nova, e cantada por uma de suas musas, Astrud Gilberto. Jones, já na ascendente de uma carreira que viria a ser estrondosa, mostra uma qualidade dramática impressionante na música, que, ao longo do filme, se vale de entradas incidentais surpreendentes e refinadas como doce sobre pimenta, Astrud cantando pequenos trechos do tema em português (esses trechos infelizmente não aparecem no CD que traz a trilha sonora do filme). A combinação musical que Jones faz não é fiel à bossa-nova, ritmicamente parece demais com rumba e bolero. Mas é justamente esse contraste entre uma batida latina, um pouco ralentada, e o cinza londrino que traz ao filme a atmosfera pretendida por Lumet. O resultado é "imperdível", mas The deadly affair é "inachável". Hollywood aparentemente não comprou a idéia de Lumet, o anti-herói que enfrenta o drama pessoal de um looser e tem de ser o bambambam no trabalho. Não há onde se consiga uma cópia do filme e mesmo notícias e comentários são raros. Lumet teve seus sucessos e fracassos depois, Jones muito mais sucessos do que fracassos. Astrud sumiu. O bonito resultado dessa breve união, ao que parece, ninguém viu. *** Como se vê, mais uma vez a maquininha de mensagens está zoada. Use aquela logo abaixo, onde se lê "Diga assim" com letras maiores. | 3.7.06
Outro dia, conversando com o queridíssimo Caloca Fernandes, fui alertado para uma curiosa e recorrente atitude do brasileiro médio. Todo mundo por aqui acha brega exibir a bandeira do Brasil. Só se faz isso em Copa do Mundo, quando se tem a sensação de uma anistia, um salvo-conduto para exibir, sem provocar nariz torto, o tal pendão da esperança, símbolo augusto da paz, tradução gráfica da pátria em chuteiras. Daqui a dois meses, o Brasil comemora mais um aniversário de sua independência, pintada pelo Pedro Américo com cores de epopéia e narrada pelo Paulo Setúbal com sabores de comédia bufa. Como se a própria história do país repetisse a cultura nacional de dar uma no cravo e outra na ferradura. Certamente, ninguém que não seja obrigado vai sair à rua com bandeiras na antena do carro ou camisetas comemorativas. As razões apontadas serão as de sempre: "o governo isso", "a breguice aquilo", "os políticos aquilo-outro", "tira essa caretice daí". Há quem diga que ninguém gosta do que é imposto, apenas aceita durante o tempo da imposição. Durante o regime militar, o andamento do Hino Nacional foi acelerado, ao modo das marchas militares, e os símbolos da Pátria foram ao mesmo tempo impostos e "protegidos': não se podia, por exemplo, usar a bandeira em uma saia ou mesmo em uma camiseta. Ao mesmo tempo, a bandeira aparecia, marcial, nos vetustos comerciais de TV que derramavam autoelogios ao regime e seus feitos espetaculosos. A bandeira acobertava os doi-codis e impunha silêncio às filas da escola, embalava os militares e refletia a paz de cemitério. Era uma obrigação antipática e extemporânea. Não pertencia a ninguém. Hoje, continua não pertencendo, a não ser quando complementa a camisa canarinho, sempre de todos. Curiosamente, só nos sentimos filhos de uma pátria (ou da Pátria filhos, como versejou dom Pedro I para evitar a releitura que você fez agora) quando isso é intermediado pelo uniforme da seleção brasileira de futebol. Somos patriotas via-CBF. Faça o teste. Ponha uma bandeira do Brasil na janela, na antena do carro ou cole um adesivo no vidro traseiro. Coloque-a em uma camiseta e vá até o Pirajá em um dia de calor. Ninguém vai incomodar você por isso, mas garanto que vão olhar mais do que olham para a bela morena ao lado. Mais talvez não. Mas tanto quanto, e, garanto, com outra energia. Não sou um fanático pela pátria como são aqueles americanos malucos que aparecem nos filmes de Michael Moore. Mas tenho uma pequena inveja daqueles caras que se emocionam com seu hino nacional, que lembram com orgulho de sua origem, nas festas nacionais, que exibem um patriotismo sem intermediários. Aqui, ao que parece, a única pátria que sobrou foi aquela descrita por Nelson Rodrigues, aquela que, de quatro em quatro anos, aparece, montada em onze pares de chuteiras. Parece pouco. Mas, afinal, parece ser o que temos. | Antes de publicar o post do dia: perdemos jogando pior do que a França. Parece bobagem, mas prefiro enxergar, até por uma questão de respeito ao time francês, seu técnico e seu fabuloso e veterano craque Zinedine Zidane, que a França ganhou e jogou melhor do que nós. Me irrita um pouco essa empáfia disfarçada em senso crítico, que os nossos cronistas esportivos insistem em exibir, que os faz jamais reconhecer a qualidade do adversário. O Brasil não foi nenhuma brastemp, o próprio Parreira descreveu bem isso, em um mezzo-mea-culpa. Mas os franceses jogaram um grande futebol, Zidane mais do que todos. Chega de futebol. | |