dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
30.6.06
Comentários: por alguma razão inexplicável, os comentários novos a este post não estão aparecendo. Se quiser falar de Brasil, Copa do Mundo etc, use o link de comentários do Haloscan, logo abaixo, mal diagramado, parecendo parte do post anterior. *** Hoje, sairemos errantes aqui do escritório atrás de uma TV (é incrível, emprestamos a nossa a um cliente, isso é que é customer service de verdade) que mostre Alemanha X Argentina. Tem tudo para ser um jogo tão emocionante quanto Portugal X Holanda. *** Deu na Folha: a maioria dos participantes de uma pesquisa do Datafolha consideram Ronaldinho carioca o melhor jogador do Brasil. O que achariam os jornalistas? Provavelmente que não há melhor jogador no Brasil. *** Por quem torcer hoje? Meu amigo Amaury Cacciacarro vai torcer pelos cartões e fraturas expostas. Não deixa de ser um ponto de vista a considerar. | 27.6.06
Antes de tudo, mil desculpas pela recorrência do tema. Mas é quase inevitável. Cada vez me convenço mais de que os comentaristas esportivos são faladores de bobagens profissionais. Não sou nenhum expert no esporte bretão, talvez nem saiba dizer de sopetão a atual escalação do glorioso Santos Futebol Clube. Mas eu não diria jamais coisas como "o Parreira deveria mudar o esquema e sair com o Ronaldinho gaúcho mais avançado" ou "o Ronaldo está acabado, é melancólico ver o fim de um craque como esse, o Parreira deveria colocar..." Ainda mais ganhando milhares de reais para isso. O Parreira demorou três anos para montar esse time e seu esquema tático. Bom ou mau, é ridículo olhar para a câmera e dizer que ele é um técnico ruim por manter o que construiu -- e que inclui o Ronaldinho armando -- ou que seria um técnico bom e sábio se mudasse seu esquema no meio da Copa. Dizer que o Brasil foi um horror só porque não goleou os africanos de Gana hoje, só porque não jogou 100% do tempo no campo deles e com 98% de posse de bola, é antes de tudo um baita desrespeito pelo melhor time da África. Mas o pior é que essa fúria reclamatória impede de ver que, num jogo difícil, o Brasil mandou na partida, mesmo jogando boa parte do tempo na defesa -- o que o time só fez depois de assegurado o 1 a zero, é bom que se note -- contra um adversário veloz e de bons recursos no ataque -- entre os quais, graças aos deuses do futebol, não se inclui a capacidade de finalizar. A dar-se crédito a Galvão, Falcão e Casão, o Brasil fez três gols e não tomou nenhum por pura sorte. Não foi. Teve time, teve goleiro, teve dois zagueiros estupendos, teve banco, teve esquema tático e teve, sim, ataque. Faltou aos caras ver o jogo todo, faltou tomar certa distância da pesquisa do ibope que dava 80% das opiniões contra a escalação feita pelo Parreira. Se torcida escalasse time, a seleção estaria hoje com dez atacantes e o goleiro do Coríntians. Ou talvez jogando no 4-2-4 bicampeão do mundo em 1962. Modestamente, acho que o Brasil tem estatura para ganhar essa Copa. Perder é do jogo, mesmo para um time vencedor como foi o de 82. Mas dá para ver na seleção do Parreira um time também vencedor, embora de outro estilo. Vencedor, apesar das chorumelas de Galvão, Falcão, Casão e companhia. | 26.6.06
Heróis do mar, nobre povo Finalmente uma partida histórica nesta Copa do Mundo. Portugal 1, Holanda 0 foi um jogo que, se no lugar dos irmãos lusitanos estivesse o escrete canarinho, faria Nelson Rodrigues descer do céu e reencarnar em si mesmo, apenas para poder falar da batalha que se viu ali. Comandados por um Brancaleone que logo se transformou no próprio dom Sebastião redivivo, a esquadra portuguesa viveu uma epopéia digna dos mais emocionados decassílabos de Camões, tudo com os ingredientes de um romance épico: um dos cavaleiros é, ainda no início da batalha, traiçoeiramente ferido pelo inimigo desleal, sendo que a deusa da Justiça, momentaneamente ofuscada pelos senhores do mal, não vê a ignomínia. O campo vai se cobrindo de sangue, com os navegadores lusitanos resistindo, apesar da inferioridade numérica, ao cerco impiedoso a que é submetida sua cidadela. Em maior número, os bárbaros valem-se de escudos de metal, armaduras reluzentes, espadas de duplo fio, enquanto os súditos de D. João III, em armas de madeira e trajos de coiro, resistem até a victória. D'ora em diante, torço por Portugal, até que os devamos enfrentar. Será uma honra vencer tão bravo contendor. | 22.6.06
Tudo ia bem por ali, afinal, era o céu. O silêncio trazido pela paz era apenas levemente afetado pela chegada de alguma celebridade, coroada por auréola ou simplesmente pela fama terrena. Naquele dia, todos ficaram especialmente atentos. Mesmo sendo o firmamento, os boatos também costumavam chegar antes dos fatos. "Será?" "Não, é muito cedo." "Ora, mas há muitos habitantes precoces por aqui, só de Mamonas, há meia dúzia." Pouco depois, abre-se o portal e entra o sujeito meio gordo, camiseta amarela um tanto curta, umbigo de fora e calça larga. Como quem chega num colégio novo, pôs-se a caminhar entre os que já estavam ali, à procura de alguém conhecido ou ao menos familiar. Não demorou muito para que se aproximasse dele um sujeito mais velho, com uma cara conhecida e engraçada. O sorriso entortava-lhe a boca e, sobre os olhos quase serenos, levantavam-se muito as sobrancelhas, produzindo na testa um ondulado de rugas interrogativas. Ante a mudez quase tímida do recém-chegado, ele puxou o assunto: -- Ôoo-cê não é o Bundeta? -- Bussunda, amigo, Bussunda. E você, puxa vida, você é o... -- Carlo Bronco Dinossauro. -- Golias! -- É, se ocê prefere... -- Pô, eu sempre fui seu fã! Eu era moleque e via a Família Trapo, era muito gozado. -- Ô, Bundêta, ocê é muito novo e além disso é carioca! -- É Bussunda... Mas eu lembro de você, passavam os videoteipes lá no Rio, "Ocridê!". O que é que você conta, mermão? Meio sossegadão por aqui, né não? Logo agora que o Brasil tá cada vez mais engraçado e me chamam pra cá. O que é que a gente faz aqui além de tocar essas harpinhas? -- Ói, aqui é mêi paradão. O pobrêma é que tem muito humorista, mas não tem quase ninguém de quem fazê piada. Ocê pega o Castelo Branco, o Costa e Silva, o Frávio Cavalcânti, tá tudo lá embaixo cozinhâno. -- Ah, eles são cozinheiros? -- Não, mané, eles são cozido. -- Ôpa, desculpe, acho que a subida me deixou meio lerdo. Mas então, como é que a gente faz? -- A gente conta piada pra quem tá aqui em cima. O pobrêma é que é tudo piada véia. Ninguém güenta mais, a mais nova que eu contei foi do Figueiredo, que aliás, tá cozinhando lá embaixo também. -- Ora essa, mas eu tenho muitas novas pra contar, olhaí! -- Oba, vô chamar tudumundo! Uma pequena multidão começa a chegar por ali, o novo integrante da turma do céu pigarreia e começa: -- Sabe a do presidente que só falava merda e... -- Ôôô, buu, essa é muito velha -- a platéia inquietou-se. -- Mas... tá bom, então. Sabe aquela da loura que... -- Ê, de novo não... -- Pô, tem a do português que... -- Ó, pá, conta outra... -- Ih, mermão, peralá, então chega de piada. Onde tem uma TV, que eu quero ver o Parreira ser campeão? A multidão, então cai na gargalhada, o Golias abraça o Bussunda, comovido: -- Eu sabia que sem uma piadinha pelo menos ocê num ia deixar a gente. Ruinzinha, mas pelo menos é nova, né? | 21.6.06
Lá vem José Trajano: "Para o Brasil, não basta ganhar a Copa, é preciso mostrar como se joga futebol". Lá vem Juca Kfouri: "Eu preferia ser argentino". Considerando que o Galvão Bueno é inassistível e que a TV Tupi não transmite mais Copa do Mundo, o melhor talvez fosse ver o campeonato com a TV muda e um CD do Paulinho da Viola na vitrola. *** Não vi as homenagens a Bussunda na TV. Não teria suportado a musiquinha de fundo que eles certamente colocaram. Como quando morreram os mamonas, e eles puseram arranjos melosos de "mina, teus cabelo é da hora, teu corpão violão". *** Entra Robinho, sai Adriano. | 19.6.06
Perda forte, a do Bussunda. Amigo de amigos, não cheguei a conhecer de fato, apenas fui apresentado umas duas ou três vezes (gente famosa é assim, você é sempre apresentado quando encontra). Mas era inevitável saber histórias hilárias do cara. Como aquela em que, num fusca para lá de velho, tempos de estudante, ele foi parado na estrada pela polícia rodoviária. O guarda achou tudo ali muito suspeito, mas não encontrou nada fora da lei. Aí, resolveu sondar o estranho e robusto cabeludo: -- Você está indo para onde? -- Petrópolis. -- O que vai fazer lá? -- Vou ver se arranjo uma carinha de fumo. -- Como?? -- É, vou ver se arrumo um pouco de maconha. -- Mas... mas.. isso é um absurdo! -- Por que? -- Isso é ilegal, não pode! -- Ah, não pode? Então não vou. E já com os documentos na mão, devolvidos por um atônito guarda, deu partida no fusca, fez meia volta ali mesmo e voltou para o Rio. Sem maconha, mas para que, afinal? | 15.6.06
Yo no creo en Porras Copa do Mundo é sempre uma ocasião para se assistir, paralelamente aos eventos principais -- os jogos --, à comédia leve encenada pelos cronistas esportivos. Ufanismo patriótico, desinformação empostada, improvisações de todo tipo sempre marcam a atuação daqueles que são uma categoria à parte dentro do jornalismo. Do comentarista da Copa de 70, berrando que "Félix está se consagrando como um dos maiores goleiros do mundo" ao Galvão Bueno, professoral, ensinando a torcida que "lá na Croácia, o 'c' se pronuncia sempre como 'tch'", as Copas são um febeapá quatrienal. A versão alemã já mostrou sua piada pronta: o goleiro da Costa Rica se chama Porras. Assim mesmo: Porras. Obviamente, isso trouxe sérios problemas aos nossos zelosos locutores. Como narrar o jogo sem ferir os brios da família brasileira? O aprendiz de poliglota Galvão Bueno achou uma solução radical: durante todo o primeiro tempo de Costa Rica e Alemanha, ele simplesmente não citou o nome do goleiro. Na segunda etapa, o fez um par de vezes, visivelmente constrangido. Já o locutor da ESPN Brasil, Everaldo Marques, durante o jogo Costa Rica e Equador, achou uma solução mais criativa. Chamou o jogador o tempo todo pelo nome, apenas com uma pequena modificação: pronunciou "pórras", assim, com o "ó" aberto, não usual nas diversas pronúncias da língua de Cervantes, mas aparentemente providencial para evitar o que seria um festival de Porras na TV. Isso lembra um outro dilema famoso do jornalismo falado brasileiro. No começo dos anos 70, veio parar no Rio um mafioso da pesada chamado Tommaso Buscetta (pronuncia-se "bushêta"). A certa altura, o italiano acabou sendo descoberto e preso, e, por sua importância no crime, virou notícia. Aí, instalou-se o dilema: como os jornais do rádio e da TV pronunciariam o nome do infeliz? A resposta veio do folclórico cronista social Ibrahim Sued que, em sua coluna no jornal da noite da TV Globo, pespegou: "Preso no Rio o italiano Tommaso 'Busquêta'". A partir daí, o mafioso foi rebatizado por toda a aliviada mídia nacional. Coisa dos tempos em que mafioso era pauta de colunista social. Nada a ver com o Brasil de hoje. Nada. | 13.6.06
Eu confesso: Copa do Mundo me deixa tenso, atento, desatencioso. Pode ter capitão com ordem de prisão, reservas goleando no coletivo, atacante gordo, placar magro, mercantilização dos ídolos, mercenários frios e calculistas cercados de louras interesseiras, treinador tecnocrata malhado pela crítica sábia, urucubacas mil. Nessa hora, a pátria sobe mesmo nas chuteiras. Por isso, visto um gorro "manobrown" verde e amarelo e espero. Com Zagallo, duas vezes, o Capitão Coutinho e o Lazaroni uma cada um, foi duro perder. O futebol era feio, a derrota parecia quase justa. Já com Telê, foi mais triste, porém épico. Perder em 82 e 86 foi trágico, a derrota do que era justo, o bom não sendo suficiente para derrotar o destino, os céus mostrando quem é que mandava, os Prometeus amargando para sempre as estocadas diárias e perpétuas em seus fígados. Quando o pragmatismo de Parreira foi vitorioso, o gosto foi aquele de ganhar de meio a zero, mas ganhar, fruir a vitória do mais esperto, quase um ganhar a qualquer custo. A objetividade dos campeões afrontava a nobreza dos cavaleiros de Telê. Curiosa reprodução da "Morte de Arthur". Por fim, Felipão deixou claro o valor do médio esforçado. Ganhou de novo. Hoje começa o que pode ser mais uma epopéia. Meio a zero, com a mão, sete vezes, já será muito bom. Nota: como se vê, o link dos comentários está zoado. Se quiser comentar, use o Haloscan, logo abaixo. | 9.6.06
Bom, aqui vai. Mandei a carta que segue abaixo ao secretário da segurança de São Paulo. É óbvio que não tenho a ilusão de que ele a leia. Mas tenho a ilusão de que um dia vamos conseguir abarrotar esses caras de cartinhas, de forma mais organizada e com instrumentos de pressão mais claros e palpáveis. O que não dá é para ver tanta arrogância na atitude de alguém que, na prática, mostra tanta incompetência. É preciso dizer isso a ele. Por enquanto, o canal é este aqui, o site da secretaria. Caro secretário, recentemente, vivemos momentos de verdadeiro pânico na cidade de São Paulo, por obra das ações coordenadas do crime organizado que, a partir do interior das cadeias do Estado, incitou uma série de odiosos atentados contra policiais e, de resto, contra a sociedade. São Paulo parou, e fomos todos obrigados a refletir. Em meio a esse clima sombrio, vossa excelência é chamado a falar à Assembléia Legislativa, o que, em qualquer democracia medianamente desenvolvida, é fato corriqueiro. Em momentos graves, um braço do poder executivo é sempre chamado a relatar os fatos à população. Esta, até onde se sabe, é representada por seus parlamentares, que têm o direito e o dever de ouvir o governante. O que foi relatado, no entanto, pela imprensa, foi um show de escárnio, no qual prevaleceram a ironia e a agressividade. Desrespeito, em suma. E qual é o problema? Afinal, sabemos que a qualidade do nosso parlamento está aquém das necessidades de nossa sociedade, e que os parlamentares de oposição querem não mais do que fustigar o representante do governo, sempre que lhes é dada a oportunidade, seja qual for o assunto em pauta. Vista assim, a situação de quem está ali na berlinda é extremamente desconfortável, e a sujeição ao desrespeito é realmente exasperante. Contudo, secretário, esses são alguns dos ossos do ofício de ser governo. Existe uma liturgia que a democracia impõe a seus agentes. Isso, desde logo, já tornaria sua atuação ali um desastre. Mas esse, a meu ver, não é o problema mais grave de seu comportamento na Assembléia. Autoridade é, antes de tudo, exemplo. E que exemplo vossa excelência deu ali? Desrespeito, incitamento à violência, ainda que verbal, desprezo pelas instituições. Pense bem: esse tipo de atitude não veste exatamente o manequim do banditismo? Se a idéia é a de que atitudes de alguém no seu posto são referência para a sociedade -- que vossa excelência afinal co-lidera --, o resultado de sua intervenção está longe de ser o zero que à primeira vista aparenta. É muito pior. Ali, secretário, vossa excelência disseminou justamente o que é sua obrigação combater. Fosse isto aqui uma Escandinávia, um cidadão como eu provavelmente lhe pediria que renunciasse. Sendo o nosso Brasil aprendiz, com nossa democracia ainda na escola, e eu, um cidadão esperançoso, peço apenas que vossa excelência reflita. Pode ser um bom exercício em direção a uma atitude de estadista. É pedir demais? Respeitosamente, Jayme Serva Cidadão de São Paulo PS: Antes que isto se interprete como politiquice, declaro que sou eleitor do PSDB, tendo votado no governo de que vossa excelência faz parte. | | 7.6.06
A doença avança. Depois do vandalismo cometido pela quadrilha auto-intitulada MLST (quadrilha, sim, grupo organizado a cometer crime de forma coordenada, é assim que se deve denominar) o que se está vendo é um surdo regozijo geral. Todo mundo se sentiu um pouco vingado. Isso se chama cuspir para cima. O grande problema de nós todos é o de ver política como se fôssemos torcedores, e não cidadãos. O dia-a-dia não nos interessa, só a hora do jogo. Só que o dia-a-dia da política é o que decide o que nos vai afetar no ano seguinte -- às vezes até no dia seguinte. O que leva à atuação tacanha, ridícula do parlamento é a atuação tacanha, ridícula de quem se faz representar ali. Por fim, vem a gente mais à direita, mais conservadora e truculenta e se mela de satisfação com uma barbaridade como a que vimos ontem. Vão adorar, também, a onda de votos nulos que virá em outubro. O fato é: quantos telegramas, cartas ou telefonemas cada um de nós mandou para o seu deputado cobrando-o? Aliás, quem é o seu deputado? Aliás, ainda, em quem votamos na eleição passada para o parlamento? Se ficamos putos com os deputados, deveríamos ficar antes putos com nós mesmos, que deixamos pacatamente que façam o que querem e não façam o que devem. E não é por falta de instrumentos, afinal, se você consegue ler estas bobagens que eu escrevo, tem um instrumento imediato para pressionar. O próximo passo é tentar fazer isso organizadamente. Cadeia para todos esses caras do MLST é o que devemos esperar da Justiça, com a mesma intensidade com que esperamos cadeia para os que desviaram verbas de ambulâncias. Uns são tão criminosos quanto os outros. | 6.6.06
Um dos haicais mais conhecidos é aquele com que Bashô começa a narrativa de "Sendas de Oku" ("Oku no hosomichi", que quer dizer algo como "Caminhos do extremo norte"; Octavio Paz, autor da tradução em espanhol das "Sendas", da qual vem a primeira tradução em português, de Olga Savary*, preferiu não traduzir a palavra "Oku"). O poema diz, na tradução de Paz/Savary: Vai-se a primavera, queixas de pássaros, lágrimas nos olhos dos peixes. Paulo Leminski traduziu, do japonês, mais ou menos da seguinte forma (na verdade, o editor de texto do blogger alinha tudo à esquerda, e o poema, na versão de Leminski, tem um alinhamento diferente): primavera, não nos deixe pássaros choram lágrimas no olho do peixe Eu me atrevi, a partir de Paz/Savary, a: vai a primavera o pássaro gralha; lágrima no olho do peixe Roubei aí uma aliteração, achando mais um sabor nesse poema tão belo. Aliás, poucas figuras são tão bem apanhadas com a da lágrima no olho do peixe. (*) 1983, Roswitha Kempf Editores. Existe uma tradução mais recente, de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano, publicada pela Iluminuras em 97, com o título "Trilha estreita ao confim." | 5.6.06
O personagem da semana em que começa a Copa do Mundo só poderia ser Carlos Alberto Parreira, que hoje busca ser o segundo técnico da história a ganhar duas copas pela mesma seleção. Parreira pode ser visto como uma espécie de Gentil Cardoso cyber. Cardoso foi um dos grandes técnicos do futebol carioca, tendo treinado todos os grandes times do Rio. Era um frasista do óbvio, cunhando ditos como "quem se desloca recebe, quem pede tem preferência" e "A bola é de couro, o couro vem da vaca, a vaca gosta de grama, então joga rasteiro." Pois há um lado de Parreira que lembra Gentil Cardoso. Resume sua filosofia de trabalho em dois conceitos, que são, em tradução livre: "Se o Brasil tem os melhores atacantes do mundo, é só montar bem a defesa que se ganha tudo" e "Para ganhar, é só não perder a bola nunca". São verdadeiros postulados. Com eles, ganhou o tetra e pretende ganhar o hexa. Parece preparado para isso. Juntou a simplicidade de objetivos com uma obsessão por estar preparado sempre. Estudou educação física e, fato raro em sua geração e origem -- Parreira é um bangüense de 62 anos --, aprendeu inglês ainda jovem, o que lhe permitiu, com 25 anos de idade, trabalhar fora do Brasil, para o governo de Gana. Quando, em 1970, os militares resolveram intervir na seleção canarinho, e o (brilhante) comunista João Saldanha foi defenestrado, colocaram um triunvirato na preparação da equipe que disputaria o tri no México. Zagallo, bi-campeão do mundo, ponta-esquerda recuado, moderno para alguns, retranqueiro para outros, assumiu o lugar de técnico. Para cuidar da preparação física da equipe, foram chamados o capitão do exército Cláudio Coutinho e Parreira -- a experiência militar e a experiência internacional uniam-se para fazer, dos mais talentosos jogadores do mundo, atletas. E se possível, outdoors do regime. O tri veio, a ditadura o festejou, o povo, por motivos diversos, também. Parreira teve seu primeiro ponto marcado na carreira internacional. Foi técnico vitorioso no Fluminense e nas Arábias, muitas Arábias. Aprendeu futebol à distância, sem nunca ter sido jogador, compensando isso com um imenso conhecimento teórico e, ao que tudo indica, uma grande capacidade de convencer. Entre a vitória de 70 e a de 94, esteve em três copas do mundo treinando suas Arábias, a Saudita, o Kwait e os Emirados. Em 94, cumpriu seus postulados à risca, inclusive às custas de transformar o craque Zinho naquilo que a crônica, burra e vendo o jogo só pelo enquadramento da TV, sem olhar o campo todo, chamaria de "enceradeira", por ficar girando com a bola nos pés esperando que o time se colocasse de forma adequada para receber os passes com segurança. A paciência faria o resto. Daquele vez, o resto foi o tetra, e o Brasil saiu vencedor. Hoje, o novo Gentil Cardoso evoluiu, já está na era do laptop. Parece ter tudo para chegar lá. A única dúvida é: será que um time de tantas estrelas milionárias conseguirá escapar da fogueira das vaidades e ter enceradeira e paciência suficientes? *** De haicai a futebol. Este sítio anda mesmo um esculacho. | 2.6.06
Falando em haicai, reza a lenda que, em uma roda de haicaizeiros japoneses, um deles mandou, em uma espécie de repentismo minimalista, com uma roda de poetas mandando os seus versos econômicos, um sobre o verso do outro: libélula vermelha tirem-se-lhe as asas uma pimenta Ao que o grande mestre Matsuó Bashô teria respondido: uma pimenta dêem-se-lhe as asas libélula vermelha | 1.6.06
cimento e lama a tempestade passa caudalosa e vã Haicais são micropoemas cuja origem remonta ao Japão do século 16. Parecem fotografias faladas. Aliás, era comum vê-las completando ou acompanhando desenhos, numa bacanal de significados facilitada pela escrita ideográfica. O haicai não procura ter metáforas. Formalmente, obedece a estrutura de terceto, com versos de 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente (usa-se contar todas as sílabas, e não até a sílaba tônica, como é a praxe da poesia em língua portuguesa). Não se usa (e para alguns haicaizistas, é até feio) rima, embora um dos grande haicaizistas brasileiros, Millôr Fernandes, as usasse sempre, no primeiro e no terceiro versos. Da mesma forma que não são metafóricos, não versam sobre sentimentos ou qualquer abstração. Simplesmente fotografam um fato. Os haicaizistas radicais (bobocas, na minha opinião) dizem que só temas da natureza devem ser usados em um haicai. Daí a sensação de que haicai está sempre falando de gafanhoto. Para entender e gostar dessa forma especialíssima de poesia, recomendo a leitura dos poetas paranaenses Paulo Leminski e Alice Ruiz . Haicai é a forma de poema que mais escrevi até hoje. Nunca coloquei haicais no blog, acho que por preguiça de escrever a explicação que ora termino. | |