dito assim parece à toa

31.5.06

Chega, Lembo

O que me dá vontade de dizer ao sobrancelhudo governador interino de São Paulo é um pouco mais chulo do que isso, mas vá lá, os leitores aqui não são muitos, mas são da melhor qualidade, merecem ser poupados de uma baixada de nível.

Vamos ao ponto, sem firulas: Lembo é um subalterno nato, carola, nascido com vocação de plano B. Sempre viveu a reboque dos conservadores de São Paulo. Na única eleição importante de que participou, a de 78 para senador, a que concorreu pelo PDS, partido dos militares, tomou uma tunda inesquecível, chegando atrás do eleito, Franco Montoro, e de Fernando Henrique Cardoso, um estreante em eleições, que concorria numa sublegenda do PMDB (havia isso no tempo da ditadura) apenas para marcar uma posição dos autênticos do partido.

Agora que lhe deram microfone, o sujeito vem se lambuzar. "Consumismo estraga o país", "Nós nos tornamos povos subservientes", "A inquisição enfraqueceu nossas mentes". É de um cinismo tão patente, que nem parece intencional. Em outro momento, diz: "Dentro da Arena, fui sempre um rebelde sem causa". Sem causa, parece claro, sua história comprova, mas rebelde? Mordomo político da ditadura, mordomo partidário do senador Marco Maciel, mordomo jurídico do Banco Itaú, coadjuvante B da Arena, do PDS e depois do PFL, Lembo mostra coerência quando se vê de que lado esteve sempre -- e não foi jamais do que atacou a "burguesia branca", o que quer que ele queira dizer com isso.

Agora, acidentalmente governador, vem fazer pose de bonzinho, dizer que não era com ele, que foi "o primeiro a pregar junto ao governo militar a anistia". No começo, a piada foi engraçada, um contraponto à tragédia do PCC, mas agora já perdeu a graça. O governador parece mesmo é com o personagem da comédia "Johnny English", um agente secreto que assume um caso somente porque os outros colegas de espionagem morreram, mas passa o filme todo posando de James Bond e fazendo cagadas. A diferença é que, no caso do Johnny English, a gente pagou entrada para vê-lo fazer cagada. No caso do governador, a gente pagou justamente para o contrário.



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30.5.06

Pulp Fiction, Tempo de Violência. O nome em português e o nome em inglês do filme de Quentin Tarantino se completam para descrever o que se passa no Brasil hoje. A violência emerge ciclicamente e segue um roteiro de ficção barata, dessas impressas em papel jornal, que vendem em banca e trazem na capa foto de mulher seminua segurando uma lugger.

O pior de tudo é que não há quem confira racionalidade a tudo isso, quem proponha uma reestruturação -- que não parece objetivamente tão difícil assim, mas que é virtualmente impossível, diante da imensidão formada pelo acúmulo de interesses pequenos em jogo.

O Brasil às vezes parece funcionar por pura sorte. Tudo pode, por aqui. Um grande advogado que conheço dá o retrato do que acontece: "Com algum dinheiro, você pode até matar uma vez na vida e não ser punido." Outro dia, passou mais uma lei daquelas fadadas a "não pegar": donos de cães de raças mais agressivas, como pitbull, bull terrier, rotweiller e mascotes semelhantes, são obrigados a usar coleira curta e focinheira em seus bichinhos. Só vi uma pessoa cumprindo a lei até hoje.

E nós, o que fazemos? Reclamamos muito, e só. Sequer reclamamos para quem possa ajudar a resolver, ou no mínimo, se incomodar com a reclamação. Não, reclamamos para nossa família, nossos colegas de trabalho e para o William Bonner e a Fátima Bernardes, ali dentro da caixinha.

Daí a nos surpreendermos com Marcola e companhia, é ridículo. Eles sabem reclamar para as pessoas certas e pressionar com os recursos de que dispõem. E convenhamos, são escassos e, na maioria, cedidos pela incompetência do poder público. Será que nem nessa hora somos capazes de aprender alguma coisa com a história à nossa frente?

É incrível, mas para melhorarmos um pouco, bastava que o cidadão comum olhasse um pouco mais para o Marcola e aprendesse. Não tudo, apenas o básico.



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29.5.06

Tenho colocado mais poesia do que o normal por aqui. Você, que lê, pode reclamar se achar que é o caso.
A que segue, para variar um pouco, não é metrificada, traz verso livre, com uma tentativa de obter ritmo sem rigor.
Talvez consiga apenas ser sem rigor.


sem poesia

sente-se o mundo esponjoso
plástico mole e molhado
com pedregulho e limalha incrustados
mundo de arame e de escarro

vê-se o mundo, real e só
polaróide tremida e equilíbrio
côr terciária descombinada
pedrinha de falso brilho

o mundo que se cheira
é pura prosa grossa, óbvio
nem perfume nem bosta
nem mesmo alérgico é

paladares de mármore
nem gelo nem quente
cristal sem vinho
gosto de vidro lambido

o que se entoa é uníssono
sem eco, sem sequer sibilo
às vezes martelo, sempre clique
ouve-se o mundo desmelodia

um sempre hoje
sem poesia



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25.5.06

Mini 81

Desde que Gardênia assumira a gerência, dois ou três marmanjos haviam ficado enciumados. O mais incomodado era Tales, um mulato escuro de pouco mais de 20 anos, bem mais novo do que ela, e que já tinha se achado seu marido, pobrezinho. Depois do descarte, ela tinha decidido que, pelo menos como chefe da segurança, ele podia ficar. O tamanho do garoto compensava sua aparente inexperiência e o fazia se impor aos outros. Tudo foi bem até o dia em que a casa admitiu shows mais explícitos em sua programação. Assim talvez estancasse a enxurrada de clientes desleais escorrendo para a concorrência. Tales achou aquilo tudo inaceitável. Desistiu do trabalho e de Gardênia. Mudou para Santos, para uma casa de mais classe -- sua musculatura o credenciava. Demorou um ano para saber que Gardênia, com as agruras, agora precisava subir ao palco. Usaria sua arma, assim que descobrisse com quem.



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24.5.06

Soneto da troca

É: pode parecer indelicado
propor a você que faça uma troca,
que pense na lógica do mercado.
Mas quanto custa e vale o que lhe toca?

Eu sei que isso não é mercadoria
e que você nem mesmo dá valor.
No fundo, se livrar preferiria:
pra que manter o que provoca dor?

Por isso, considere o que a impede
e o que também impele-a a aceitar
a troca, que eu faria sem spread.

Proponho dar-lhe tudo, até meu ar;
contrapartida simples, você cede
a mim o que há de triste em seu olhar.



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23.5.06

Todo mundo está esperando ansiosamente que a Copa comece. Eu estou esperando que ela não acabe. Depois dos últimos dias, da tragédia anunciada do PCC e das reações estranhas, da inação ao oportunismo, do pânico ao escárnio, a impressão que se tem é a de que, no evento seguinte à Copa, a campanha eleitoral, o jogo será uma baixaria só, envolvendo a todos -- candidatos da situação, candidatos da oposição, e, pela primeira vez, eleitores baixarizando junto. Explico: enquanto o Aloísio se aproveita do PCC para fustigar Serra e este se vale do mensalão para pisar no Aloísio, o eleitor vai votando nulo -- e fazendo campanha, com marketing viral e tudo, como já se vê na internet. Ao que parece, vai ser um campo de batalha sem sobreviventes.

O que fazer nesta hora? A primeira coisa é conversar, principalmente com os filhos, sobrinhos, seus e dos vizinhos, enfim, todos os jovens que houver por perto, para contar que o voto nulo tem um papel igualmente nulo na construção da democracia que queremos -- e que, infelizmente, ainda vai levar algumas décadas para chegar, isso se nós soubermos aproveitar o começo de democracia que já temos. A segunda é tapar o nariz e votar. Tem, sim, muito candidato bom no meio do aparente bando que parece ser o coletivo dos políticos. É importante cada um achar o seu e votar. Mais importante é lembrar depois em quem votou e cobrar o cara: nunca foi tão fácil cobrar seu representante. Todos os parlamentares têm e-mail, todos têm telefone divulgado na internet, todos (ou quase) têm um nome a zelar, o que os faz atender com mais freqüência do que a gente imagina. Cobrar, fazer pressão pode aproximar nossa ação, que geralmente é zero, a algo cada vez mais próximo de democracia direta.

Como democracia 100% direta é inviável, nossa pressão sobre o parlamento é que vai fazer com que ele trabalhe cada vez mais diretamente ligado aos interesses daqueles que eles têm a incumbência de representar.

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A propósito: dos 55 emails que enviei aos vereadores da cidade de São Paulo, pedindo atenção e voto favorável ao projeto da prefeitura de acabar com os outdoors e outras excrescências denominadas eufemisticamente de "mídia exterior", recebi 8 respostas. Manifestaram-se os vereadores Aurélio Miguel (PL), Carlos Giannazi (PSOL), Edivaldo Estima (PPS), Paulo Frange (PTB), Donato (PT), Dalton Silvano (PSDB), Mário Dias e Domingos Dissei (ambos do PFL). Acredito que esses e-mails que constam do site da Câmara talvez não sejam o melhor canal para falar com os vereadores, uma vez que não obtive resposta de dois deles, com quem já mantive contato anteriormente, por meio de outros canais: Ricardo Montoro (PSDB) e Soninha (PT). De qualquer maneira o sinal de vida já está dado, o que faz do site da Câmara Municipal um dos possíveis canais para cobrar nossos parlamentares. Vou continuar nesse movimento aporrinhatório assim que o projeto do prefeito chegar de fato à Câmara.



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22.5.06

Soneto à moda dos tempos em que havia mote e glosa

O mote:

amor
humor

A glosa:

É moderno demais, mas é antigo,
parece arquitetura mas é samba.
É ótimo, quando a coisa descamba
e vai-se dormir na casa do amigo.

Requer, talvez, olhar o próprio umbigo,
um vento de imodéstia, é bom que o lamba.
Mas deve-se saber: a corda é bamba
e a vida o aproxima do perigo.

O procedimento é caro a alguns;
a outros, é castigo e penitência,
sem que haja remédio pra tanta dor --

nem a cana consola seus bebuns.
Mas para quem sabe e tem ciência,
a cura está em fazer, do amor, humor.



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19.5.06

Mini 80

Celina ria quando se assustava. Era um ríctus, uma contração involuntária, no entanto, simétrica, harmônica e, ao fim, linda para quem via. Para ela, era um certo incômodo, pela falta de controle, mas era também uma espécie de proteção. O riso desarmava, criava uma barreira e um desconflito. Serafim preferia não ser visto. Suava, ao se apresentar, sofria por entender o que despertava nas pessoas. Preferia lugares vazios. Assim, encontrou Celina por acaso, no portão dos fundos de um lugar-comum. Ela não conteve o riso. Ele se encantou. Ela teve pena, ele jurou tudo. Entenderam-se. Mas com o passar dos anos, por amar mais ela ia rindo menos. Ele foi perdendo o encantamento. Não se comoveu: parecia até bonito quando ela, de joelhos, pediu-lhe que ficasse.



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18.5.06

Fragmento de "O Preço do Peixe", 20

Depois de dezesseis dias de viagem por mar, mais uma cansativa jornada por terra, Paris parecia mesmo uma festa. Para quem havia saído do interior de São Paulo, daquele fazendão de terra vermelha, silêncio e uma fortuna a colher todos os anos dos quietos e fiéis pés de café, a grande metrópole era um tanto barulhenta e agitada. Tudo o que ele queria.

Já na segunda noite, l'Opera. O grande e copiado teatro estava em sua melhor forma, em noite de Puccini e casa cheia. O fazendeiro entrou, acompanhado de um pequeno grupo de amigos, sabendo que o único inconveniente seria ver a ópera longe deles, não haviam feito uma reserva para o brasileiro porque não sabiam que ele viria. Problema nenhum. Quando soou o primeiro sinal, separaram-se e ele, paramentado de acordo com a ocasião e a época, entrou pela platéia, até a fileira onde estaria seu assento. Foi se esgueirando por ele rumo à cadeira quando, inadvertidamente, pisou no pé de uma senhora, que não conteve um grito estridente.

-- Oh, excusez moi, madame, je suis vraiment desolé! -- e malandramente, sorriu largo e acrescentou, em fluente ituano: -- Mas pé de velha não dói, não é?

-- Se for o da sua mãe, seu desaforado! -- rebateu a madame, indignada e inesperadamente brasileira.

Mudo, o fazendeiro fugiu o mais rápido que pôde até sua cadeira, onde se encolheu até o final do primeiro ato. Luzes acesas, ainda pôde ouvir a conterrânea comentar com alguém ao lado:

-- Só porque é Amaral pensa que pode ser abusado?

Não se levantou mais até a peça acabar. Pensou seriamente em não se levantar até o sábado seguinte.



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16.5.06

Fragmento de "O Preço do Peixe", 19

Num sábado ensolarado, belo como só os sábados ensolarados de Santiago, o exilado lia o jornal da véspera à sombra da sala, sempre esperando o sol do Brasil, de que a ditadura o havia privado. Toca a campainha. Ué, não era hora. Ao abrir a porta, depara com uma senhora nem das mais bonitas, nem das mais elegantes, menos ainda das mais esbeltas.

-- O senhor não imagina o prazer que eu tenho em revê-lo -- disse ela, em bom português, para aflição do anfitrião acidental, que não fazia idéia de quem fosse.

-- Como vai a senhora? -- perguntou por trás de um riso amarelo, sem que a memória trouxesse uma pista sequer.

Ela percebeu logo que não estava sendo reconhecida. Identificou-se, nome e sobrenome, este inconfundível, de um velho companheiro de lutas, ex-deputado, como ele, mas vivendo no Brasil. Armou-se de seu melhor sorriso e abriu os braços para recebê-la.

-- Seu filho é um grande amigo, minha casa é sua casa!

Ela não escondeu o constrangimento:

-- Desculpe, ele é meu marido.

Puro rubor.

-- Meu Deus, me perdoe, é tanto tempo longe, tanta preocupação. Me perdoe, vamos entrar.

Ainda vermelho, conduziu a robusta senhora à sala, oferecendo-lhe um lugar de honra, a antiga cadeira de cana-da-índia. Foram dois segundos: após um estalo seco, a cadeira abriu os quatro pés e ruiu. A mulher estatelou-se, de pernas para o ar, ante o anfitrião estupefato.

-- Oh, não! Esses móveis velhos! Deixe-me ajudá-la. -- E pôs-se a tentar levantar a gordota, tarefa impossível para quem não fosse um guindaste.

Depois de aboletá-la no sofá, mortificou-se:

-- Eu não sei como me desculpar, essas velharias... Olhe, deixe-me servir-lhe um licor, aí vamos conversar, quero saber do Brasil, de seu fi-hmm-marido.

Já bastante incomodada, ela acabou aceitando, e ele trouxe-lhe um calicezinho com um licor bem claro, transparente, mesmo. Seria Cointreau? Ela levou o copo aos lábios e "puá!"

-- É água!

Até aquela altura, o pobre exilado não sabia que sua empregada chilena gostava além da conta de beber, e aplacava sua sede ali mesmo no bar da casa, colocando água nas garrafas vazias para disfarçar.

A visita não durou mais dez minutos, a senhora, assim que viu uma chance, abriu fuga. O anfitrião, depois de alguns minutos, consolou-se. A gordota, em poucas horas, estaria no Brasil. Já ele, teria sabe-se lá que tempo para pagar mais este pecadilho.



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Balanço até agora:

Quatro dos 55 vereadores de São Paulo responderam ao e-mail: Aurélio Miguel (PL), Carlos Giannazi (PSOL), Edivaldo Estima (PPS) e Paulo Frange (PTB), este último apenas com uma resposta automática. Vamos ver se alguém mais aparece. Aproveito para sugerir que você que está lendo essa semi-escrita que produzo também escreva para nossos bravos edis.

Atualização: O vereador Donato, do PT, respondeu hoje às 13h40, mencionando seu trabalho já realizado sobre a questão (obrigado, vereador).



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15.5.06

É inacreditável o que está acontecendo em São Paulo. É difícil explicar o nível de organização a que chegou o banditismo por aqui. Dói ouvir as pessoas em volta falarem de soluções como o assassinato de prisioneiros. Ao mesmo tempo, é de enfurecer ver que quem deveria fazer as reformas no código de processo penal, nos códigos civil e penal, na legislação ordinária estupidamente contraditória e inchada, enfim, conferir mais agilidade e eficácia ao arcabouço legal, é um grupo inepto e completamente entregue aos mais comezinhos interesses pessoais e imediatos. Corrupção, burocracia e inépcia são ingredientes da mesma panela, que agora está fervendo sem controle e fazendo entornar o caldo. Será que esse momento é extremo o suficiente para despertar um mínimo de espírito público?

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Apesar do luto a que esta situação extrema obriga e da preocupação de todos com a família e os amigos nas ruas, quero fazer o registro de que mandei mensagem a todos os vereadores da Cidade de São Paulo pedindo uma posição favorável ao projeto do Executivo restringindo a chamada "mídia exterior". Até agora, dois deles, apenas, me responderam: os vereadores Aurélio Miguel, do PL, e Carlos Gianazzi, do PSOL. Gianazzi manifestou apoio, de forma genérica (obrigado, vereador). Já Miguel pareceu mais receptivo, inclusive iniciando a resposta com um mea culpa relacionado ao uso de faixas na época da eleição. Ao fim, ofereceu-se para uma conversa pessoal (obrigado duplamente, vereador). Espero ter mais respostas amanhã. O fato de ser uma segunda-feira, dia que tradicionalmente os parlamentares usam para estar com suas bases, e ainda com tanta confusão a acontecer pela cidade, talvez explique o retorno rarefeito. Considero um micro-início de participação. Pretendo continuar a aprender o que é ser cidadão e fazer algo mais efetivo do que apenas reclamar, coisa que tenho feito em excesso.

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Quem quiser ler as respostas, manifeste-se enviando um endereço de e-mail.

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Atualização: às 10h59, o vereador Edivaldo Estima, do PPS, respondeu, apoiando a tese de forma genérica (obrigado, vereador).
-- Às 15h30 de segunda-feira, o gabinete do vereador Paulo Frange (PTB) enviou uma resposta automática (mesmo assim, obrigado, vereador).



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12.5.06

Quero voltar a essa questão dos outdoors e demais peças de publicidade expostas na cidade de São Paulo. Talvez muitos de nós já estejamos anestesiados, como quando entramos em uma sala com cheiro de cocô: se conseguirmos suportar aquilo por alguns minutos, o tempo vai amenizando o desconforto até que praticamente não se sinta mais nada.

Acho que, independente do prefeito mandar seja o que for para a Câmara Municipal, pode ser um bom começo para pararmos de atuar como torcedores e começarmos a entrar em campo (de leve), enviar aos vereadores nossa opinião a respeito do caos. Eu vou escrever para quantos puder e ver o que respondem.

Vamos sair da arquibancada reclamona, experimentar o esporte da cidadania e ver no que dá, independente das diferenças socialdemocráticas que possamos ter?



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11.5.06

(...) Basta de filosofia. A mim bastaria que um prefeito desse um jeito na cidade da Bahia.
(Caetano Veloso, em "Ele me deu um beijo na boca")

Tive uma agradável surpresa ao ler hoje na primeira página do caderno Cidades, da Folha, que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, está encaminhando um projeto de lei à Câmara dos Vereadores proibindo quase tudo o que se conhece como "mídia exterior". Outdoors, backlights, propaganda em empenas cegas de prédios, faixas, banners, enfim, todo esse lixo que emporcalha a paisagem urbana da maior cidade do Brasil.

Kassab corre o saudável risco de se consagrar como um prefeito que resolveu um dos problemas mais antigos da cidade. É claro que a proposta já vinha sendo discutida no tempo do Serra -- é um dos assuntos prediletos do ex-prefeito -- mas é interessante ver o pefelista assinar e levar em frente uma proposta ousada, polêmica -- e progressista -- como essa.

No imbroglio político-ideológico em que vivemos hoje, dá uma certa tentação de cantarolar a canção do Caetano, com um backing vocal pronunciando "tanto faz, contanto que resolva".

É óbvio que a tentação logo passa.



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9.5.06

Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 18

O homem saiu pela rua, como todo dia costumava fazer depois de almoçar em casa, hábito de lugares ou tempos longe. Andava a pé até a avenida larga, não mais do que meia dúzia de quadras, onde esperaria o ônibus. Um muro de uns dois metros e meio de altura, e cinza, decorava a primeira esquina. Atravessou na direção dele e foi seguindo o contorno que ele delineava, quando ouviu, vindo do outro lado, o latido alto e grosso. Assustou-se -- poucas coisas na vida o aterrorizavam mais do que cachorro, qualquer cachorro --, mas o muro o sossegou. Um segundo depois, ele viu surgir no alto a cabeçorra de um pastor alemão. Novo susto, mas parecia impossível o cão transpor aquela altura toda. Porém, o impossível acontece, como dizia a revista velha: do alto da muralha eleva-se o bicho peludo e cai bem à sua frente. Ele estanca, gela, então começa a tremer, esperando o ataque devastador. Mas não é o que acontece.

Na verdade, parecia que o cachorro, à sua maneira, sorria. Aos pulos, parecia ter encontrado seu dono depois de meses ou anos sem vê-lo. O homem, se manteve o terror, ao menos venceu a paralisia e, seguindo uma velha instrução, começou a caminhar, tentando manter passos firmes e regulares e uma feição de não-é-comigo. Assim que o animal o viu se afastando, foi atrás dele, para seu desespero crescente. Apertou o passo. O pastor alemão logo o alcançou. O trãnsito, então, de repente pareceu ser sua salvação. Atravessou a rua atabalhoadamente, ouviu pelo menos um ruído de freada e um impropério indistinto. Olhou rapidamente para trás, dobrou mais uma esquina, virou-se mais demoradamente e -- alívio -- viu que havia despistado seu perseguidor.

Essa agora, ser adotado por animal horroroso daqueles. Tirou o lenço do bolso e enxugou o suor frio da testa. Acalmou o passo e seguiu em direção ao ponto de ônibus, agora a apenas meio quarteirão. De repente, algo o tocou na barriga da perna: do nada, o saltitante pastor alemão mostrava toda a alegria por tê-lo encontrado novamente. Voltou a segui-lo, gaio como um garotinho que tivesse achado o próprio pai. Já o homem sentiu que não conteria mais o pânico. Tinha certeza: não ia se segurar, ia sair correndo e, então, a fera em fúria o destroçaria e o reduziria a duas linhas no pasquim popularesco: "Tragédia nas ruas: pastor alemão esquarteja trabalhador inocente". Já ia começar a cumprir a sina, suor profuso já encharcando seu pescoço, quando viu uma nova tábua de salvação: o cinema. Correu até lá a toda
velocidade e entrou. Entre a porta e a bilheteria, havia uma ante-sala. O pobre cão, agora já afeiçoado ao novo amigo, tentou entrar também, no que foi barrado por um segurança. O homem comprou a entrada e entrou sem olhar para trás.

Rangeu os dentes quando viu que o filme exibido era Lassie, mas agüentou firme. Teria de estar calmo o bastante para explicar ao chefe por que chegar do almoço às quatro da tarde. Isso se o novo amigo não estivesse esperando por ele na saída.

* "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais.



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8.5.06

Desde sua defesa apaixonada do direito do cidadão andar armado, deixei de ler o semanário sensacionalista da Editora Abril, (*)eja. No entanto, é impossível não ver suas capas. A desta semana traz uma montagem tosca em que, sobre uma foto do presidente Lula, de costas, foi aplicada a imagem de uma sola de sapato, uma pegada, bem sobre o dérrière do primeiro mandatário da Nação, uma marca preta da qual parece escorrer um líqüido também preto, alusão ao petróleo, embora o assunto da semana não seja petróleo, seja gás. Em suma, um pé na bunda do presidente da República.

Quem visita esta biboca virtual em que cometo textos sabe em que tom é feita a crítica ao governo Lula e, mais do que a ele, à postura "anestesia geral e o melhor do carnaval" do partido do presidente. É por isso mesmo que este sítio se sente à vontade na hora de manifestar repulsa a mais essa inacreditável falta de respeito com a figura de um presidente. A Folha de S.Paulo do sábado publicou uma entrevista do Chico Buarque em que ele descreve uma postura da imprensa e das classes dominantes querendo devolver o operário à senzala. Parece, mesmo, o caso.

Nunca a imprensa bateu tão forte em um presidente do Brasil. Mas o problema não é esse, o problema é: batendo ou não, a imprensa sempre seguiu limites, teve uma certa compostura ao tratar e retratar homens públicos. Collor de Melo, o maior impostor da história republicana, apesar da farsa corrupta que conduziu, do banditismo barato (embora milionário) que acobertou, jamais foi tratado com desrespeito pela grande mídia, aí incluído o semanário sensacionalista da Editora Abril, (*)eja. Houve sempre um protocolo, uma assunção de limites, mesmo tácitos.

O que o semanário sensacionalista da Editora Abril, (*)eja, faz ao colocar uma grosseria como essa na capa é mais ou menos o que o MST fez quando invadiu a fazenda dos filhos do presidente FHC, em nome do que o movimento acreditava ser "justiça" ou "democracia". São dois golpes baixos injustificáveis. Simetricamente, ambos dizem: "Eu não devo respeito ao presidente da República". A subleitura remete ao mais funesto lacerdismo: quem não deve respeito ao presidente da República, não o deve à democracia e, por extensão, à própria República. Aliás, foi o que a mesma (*)eja disse quando da invasão dos sem-terra. Agora, é ela que transpõe esse limite perigoso.

Numa democracia consolidada, deve haver lugar para todos, inclusive para a imprensa marrom, para blogs como este, para Caras, para o Raul Gil. O que choca é ver um semanário que é o quinto em circulação no mundo, primeiro no Brasil, esquecer o inevitável papel institucional que seu tamanho lhe dá, e se comportar como um veículo de mimeógrafo.

Há carradas de razão para se criticar o presidente Lula. Mas há dez carradas para fazê-lo no limite do respeito. A razão principal é a manutenção e o conseqüente amadurecimento dos ritos democráticos. O Brasil precisa disso como nunca.



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5.5.06

Agora que o bom nome deste sítio saiu daquela listinha do Blogger.br, que traz audiência mas tolhe a intimidade, lá vai mais um soneto. Segue a estrutura de rimas usada por Camões (ABBA, ABBA, CDE, CDE), com a qual tenho gostado muito de escrever, pois dá uma melodia diferente à leitura. Acho que é uma utilização mais adequada do espaço, nesta semana tão dedicada às politiquices que nos cercam. Pausa, pois.

À vida curta

Morreu Camões com menos de sessenta,
Noel Rosa, mal feitos vinte e sete;
Castro Alves, então, era um pivete.
Morrer, pois, centenário, a quem lhe tenta?

Quem vive muito tempo a vida agüenta
porque passa por ela e não se mete
com vinho, poeta, puta, réu, coquete.
Promete ser fiel e se apacenta.

Vivente candidato a centenário,
se põe o pé na areia, logo espirra,
se posto ante a sereia, vai correr.

Quem joga e põe o coração no páreo,
quem ama e a elas dá incenso e mirra
tem vida e meia no curto viver.



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4.5.06

Pensando bem, tem lá Paulinho da Viola, tem Roberto Silva, tem Jamelão. Pensando bem, tem o Paulo Salvador, o Bruno Fiorentini, o Gustavo Dias Leite, tem Deyse, Pedro e Babi, tem Carlos Pinto, Lalu, tem Ana Maria Martins, tem Serginho Pacheco tem Agenor, sempre Castro, nem por isso sempre casto, e tantos outros temporariamente fora de lá. Pensando bem, só de Fonseca tem Zé Rubem e Zé Henrique, só de Morelenbaum, tem Jacques e Paula, só de Caymmi, tem Nana e Dory. Pensando bem, só de compositor, já teve Ary Barroso, Tom, Noël, Donga, até Villa Lobos já teve, sem falar de Chiquinha Gonzaga, essa multidão de mulher. Pensando bem, Oscar Niemeyer, Lucio Costa, os irmãos Roberto: teve gente de primeira ajudando o Criador a projetar. Pensando bem, tem Marina, Marisa, Marias. Pensando bem, tem gente de primeira sobrando, e os que estão vivos alimentam-se bem.
Pensando bem, foda-se o Garotinho.

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Mais uma do valoroso e destemido companheiro Berzoini, referindo-se ao fato de que os advogados do PT agora rechaçam a versão de que a grana de caixa dois teria vindo de empréstimo tomado ao BMG: "Temos de separar o que é lide judicial do que é pensamento político". É fabuloso o que esses caras estão conseguindo em termos de desenvolvimento da novilíngua. A tradução para o português é: "Isso é coisa que os advogados inventaram para ver se a gente escapa."



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3.5.06

O tal do Garotinho faz greve de fome para dizer que é bonzinho. O cara conseguiu desmoralizar uma prática que era o último recurso de gente oprimida, um símbolo histórico de protesto contra injustiças extremas. Transformou drama em piada suja. Eu só posso copiar o Kibe Loco e dar todo o meu apoio: não desista, Garotinho, leve essa manifestação até o fim.



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1.5.06

Falando em primeiro de maio.

O 13o. Encontro Nacional do PT, o primeiro depois da descoberta dos atos de corrupção e malversação de bens, mal-denominados escândalo do mensalão, aprovou moção em que aceita e aprova alianças "exclusivamente em compromissos programáticos e participação nos governos" com quem quer que tope, de qualquer tonalidade ideológica ou coloração política, exceto o PSDB e o PFL. Se quiser -- e, claro, se tiver votos --, pode vir até o PRONA (o PP, antiga Arena, já veio).

O resultado do encontro evidencia uma situação lastimosa do, até alguns meses atrás, guardião alvar da ética e patrono solitário da liberdade. O que se viu foi mais ou menos aquela cena do advogadão católico e moralista flagrado fazendo sexo com um traveco de madrugada na rua General Jardim. Ao voltar para casa de manhã, B.O. na mão, sai dando esporro na família toda, onde já se viu a minissaia da filha, sem nem lembrar de limpar a mancha de baton ainda no pescoço.

Esquecendo as marcas na cueca, o PT engrossa a voz e brada, em seqüência: "O povo, unido a nós, jamais será vencido", "Se houver polêmica, quem manda aqui é o Diretório Nacional, ora essa!" e "Desculpa aí, presidente, se o senhor espirrar no primeiro de maio, saúde, companheiro!". O presidente do PT, aquele machão exemplar, Ricardo Berzoini, em mais um rompante de coragem, proclama: "Teremos alianças programáticas, e não políticas", o que quer que isso signifique, completando: "A aprovação fortalece a posição da direção do PT no sentido de conversar com todos."

Todos parece significar todos mesmo, desde que topem o barco reeleitoral. Pode ser latifundiário, senhor de engenho, Mário Amato, banqueiro, todo mundo que o altivo Diretório Nacional aceite -- o que significará tudo o que seu Lula mandar. Para quem esperava algum tipo de autocrítica, alguma moção que sinalizasse ou um movimento depuratório ou o reconhecimento da guinada à social-democracia, nada. Um show de pragmatismo -- ou de cinismo, de acordo com o ângulo do qual se observe.

O que isso indica é o que já se vem esperando há algum tempo -- na verdade, desde o momento em que o PT decidiu privilegiar a tomada do poder a qualquer custo, inclusive ao custo de se descaracterizar e virar alternativa dentro da mesma velha estrutura que antes combatia. Vem por aí, de duas, uma: a "peemedebização" do PT, com o pragmatismo puro ocupando o lugar dos projetos ideológicos que convivem hoje na agremiação, ou a pura e simples decadência do partido, com Lula criando novos e mais dóceis pontos de apoio, com a extrema e ainda remota possibilidade de formação de uma nova agremiação em torno dele, se reeleito.

Lula está aí para ganhar, e isto não é condenável, é o papel dele. Tem-se mostrado um político hábil, liso e astuto, de uma resistência inacreditável a todo tipo de intempérie -- talvez nem o velho Getúlio tenha tomado tanta porrada de tantos lados diferentes -- e um impressionante apelo popular. Quer ficar no poder mais quatro anos e, se possível fazer seu sucessor. Grife-se a palavra seu.

O que não parece aceitável é o PT embarcar incondicionalmente, e de forma tão submissa, nesse passeio. Talvez aceitável não seja a palavra -- afinal, o partido é uma instituição privada e faz o que quiserem seus associados, não cabendo a sapo de fora chiar. A palavra mais apropriada é feio. É feio que dói ver a vestalada toda de nariz em pé e bunda de fora, tentando pôr um verniz de dignidade e independência na óbvia submissão que lhe foi imposta. É feio que nem bater na mãe ver os condenadores de plantão, os primeiros da classe do colégio da coerência, ouvirem seu líder, o destemido Berzoini, afirmar que sim, o PP do companheiro Janene é amigão desde os tempos da vovó, e o companheiro Delfim vai mostrar a todos o sucesso da administração do companheiro Lula.

Pobre PT. Está indo desta para melhor. Desta, aí, significando a redoma moralista em que morava, e melhor, a deliciosa e amoral tigela do poder. A putrefação é o efeito colateral mais comum em mudanças abruptas como essa.



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