dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
28.4.06
Mais um feriado, mais uma cabulação nos escritos deste sítio. Vai, para a fruição de quem aprecia, mais um soneto. Caetano Veloso dizia que a poesia está para a prosa como o amor está para amizade, atribuindo inegável superioridade a esta. Concordo com ele, mas devo dizer que um pouco de poesia pode temperar bastante bem um universo de prosa. Mas é como coentro: não pode pôr demais. Bom feriado. Alzheimer O tempo fez-me a memória difusa, esqueço-me cada vez mais de nomes, números (o que é mesmo hipotenusa?), chamo Castro Alves de Carlos Gomes. Me lembro ainda de algumas marchinhas de letra picante e má melodia. Carl Barks desenhava o Tio Patinhas. "Meu mundo caiu": Antônio Maria. Vão sobrando as lembranças de menino, o nome e o lingerie da professora, Jair, Tostão, Pelé e Rivelino, o pé ferido pela "redentora". Cultivo meu futuro desatino: se bem me lembro, a perda é sedutora. | 27.4.06
Mini 79 Pela fresta da porta, o que se via era um desalinho tal que era quase uniforme. Não se ouvia o barulho do mar -- não se ouvia barulho nenhum, quem berrava era o cheiro de mofo. A porta se abriu, descortinou as estantes lotadas junto às quatro paredes, a pequena mesa e duas cadeiras no meio e livros, muitos livros, pilhas sobre o chão. Sobre uma das pilhas, o homem sentado. Gordo. Sorridente. De cuecas. "Vendo tudo". Dava dó, como vender aquilo, preciosidade empilhada? "Preciosidade nada, precioso é o que tem vossa carteira". Não poderia comprar tudo. "Não posso retalhar, perde o valor". O interesse maior eram os quadrinhos. "O meu também". Oferta feita, aceitaria? "Pode pagar só os quadrinhos, se levar o resto todo". Arrepio: ele parecia se incluir no que chamava resto. | 26.4.06
Canção do Amor Demais, o disco de Elizete (sic) Cardoso de 1958 é uma revolução. É onde a bossa nova veio ao mundo. Talvez seja mais uma prova, ao lado da TV Tupi e de Mané Garrincha, de que a história, no Brasil, segue modelos próprios. Com 13 canções, todas de Tom Jobim e/ou Vinicius de Moraes, o LP traz, desde logo, a novidade de não ter nenhum sucesso conhecido à época. Das 13 canções, 12 eram completamente inéditas. São de Jobim a concepção musical e os arranjos, bastante arrojados -- ele queria que o disco se chamasse "Chega de Saudade", obviamente não só menção à canção de sua autoria. Mas o produtor Irineu Garcia preferiu "Canção do Amor Demais". Garcia era amigo de Vinicius e dono de um pequeno selo, Fiesta, que produzia discos de poesia. O poetinha havia gravado algumas coisas ali e, já havia algum tempo, colecionava canções e tinha no currículo uma parceria com Tom em Orfeu da Conceição, de 56. Juntando tudo e acrescentando generosas doses de uísque no Villarino, bar que teve seus minutos de lenda na Guanabara, Vinicius e Garcia pensaram num disco que pudesse ir além da poesia e mostrar a produção mais avançada da música popular, algo que combinasse letra e música num novo padrão: era o que Vinicius e Tom tinham a contar. A idéia era fazer o disco com Dolores Duran, amiga dos três. Mas ela refugou. Apareceu a chance de fazer com Elizete, já famosa à época. Segundo Ruy Castro, a Odeon, que era a gravadora da cantora, permitiu que ela desse essa pulada de cerca, apenas pedindo que a capa mencionasse seu vínculo. O disco não tem ficha técnica, mas é possível achar uma reconstituição dela aqui. Tom fez os arranjos e o violão era de João Gilberto. As 13 canções mostram um Elizete ora exagerada nos vibratos e maneirismos -- como a tentar compensar o despojamento dos arranjos -- ora a se render à modernidade dos traços simples, com um desempenho notável em "Outra Vez", a única não não inédita -- havia sido gravada por Dick Farney uns anos antes. Não dá para saber, nesta faixa, a melhor do disco, o que é Tom e o que é João, uma vez que este vinha logo com sua harmonias muito próprias no violão -- e são elas que se destacam e parecem induzir uma Elizete mais cool. É um momento em que o jeito bossa nova se mostra inteiro: sintético, harmonicamente ousado e rico e absolutamente sem gorduras ou firulas. Canção do Amor Demais é obrigação para quem gosta de música. | 25.4.06
Sempre tentei me comportar, em relação a política, de forma independente e crítica. Sempre tentei não ser torcedor, o que me faz capaz de, numa mesma eleição, votar em candidatos do PT e do PSDB. Já cheguei a praticar voto útil em eleição que merecia só voto nulo -- Fleury X Maluf, em 1990 -- e já votei em candidato que não era o meu preferido -- Lula contra Montoro, em 82, quando o voto era vinculado e eu não tinha nenhuma vergonha de ter um vistoso e graúdo adesivo do PT no vidro da velha Brasília. Por isso, pelo fato de o PSDB não ser o Santos Futebol Clube, embora seja o partido com cujo discurso eu mais me identifique, eu sou hoje um cidadão cheio de dúvidas. Em tese, deveria votar no Geraldo Alckmin. Além de tucano de primeira hora, ascendeu politicamente pelas mãos de Mário Covas, um dos raros políticos que, além de bom de discurso, era bom também de ação -- reconstruiu as finanças e a capacidade de investir de um São Paulo quebrado pelas gestões Quércia e Fleury. São Paulo hoje levanta as mãos ao céu depois destes 12 anos de PSDB, pensados por Covas e executados, na segunda metade, por seu simpático vice. Ocorre que o simpático vice tem questões sérias não respondidas. Não me refiro a esta bobagem dos vestidos de sua mulher, que é um misto de armação com aparente vendeta do costureiro. Falo de dois problemas objetivos e uma decorrência. Os problemas: o primeiro é aquela história esquisitíssima do tal ônibis metralhado no meio da estrada, com supostos integrantes de uma quadrilha que teria planejado um mega-resgate em um presídio do interior. Tudo indica que foi encenação seguida de chacina. Nunca mais se falou do assunto. O outro problema é o vínculo do candidato à instituição católica fundamentalista Opus Dei. É o que há de mais conservador no catolicismo, não combinando, portanto, com idéias da social-democracia, que devem incluir tolerância a minorias sociais, campanhas pelo sexo seguro, separação de Estado e religião, união civil entre pessoas do mesmo sexo, etc. etc. etc. A decorrência deste segundo ponto é o estranho secretário da Educação, Gabriel Chalita, amigo do casal Alckmin, escritor compulsivo de livros de auto-ajuda (mais de trinta títulos em menos de quarenta anos de vida) e, a se ver pelo que escreve, não exatamente habilitado a comandar a educação em um Estado como São Paulo. Comandará o MEC em um eventual governo Alckmin? Mas qual é a opção no campo social-democrata? À primeira vista, Lula. Pois bem, tentando esquecer o azedume mútuo, Lula poderia ser uma opção. Poderia? A ver: quais serão as alianças para a campanha reeleitoral -- e que deverão refletir-se nas alianças futuras no parlamento, para evitar o desastre quase "collórico" que esse governo viveu por não ter maioria segura? O PMDB é um mistério -- ou melhor, vários. O PSB e o PC do B fecharão com Lula. Sim, que vantagem? E o PT? Bem, o PT deve ter uma queda vertiginosa em sua votação. O futuro próximo mostrará que a decepção coletiva com o mensalão não passa por Lula (de raspão, talvez) mas vai direto ao peito de seu partido. A perda será assustadora. Portanto, com quem Lula, ganhando, vai governar? Com o PL, com o PTB e, principalmente, cruzando todos os nove dedos, com o PMDB. É o velho, bem degradado e, principalmente, grande partido de centro do Brasil que será decisivo para um segundo mandato de Lula. Ou seja: votar no Lula é quase como votar no Quércia. Já votar no Geraldinho é quase como votar no Bento 16. Sobra o quê? Não tem voto útil ou voto nulo que resolva essa eleição. Por isso, resta debater, debater, debater. Fazer um pouco de política, enfim, ouvir e conhecer mais detalhes, distribuí-los, aceitá-los, rejeitá-los. Só resta fazer desse limão uma limonada que refresque este Brasil. E isso não se faz com propostas esdrúxulas que se desviem da democracia (como a tal campanha do voto nulo que os mesmos caras que defendem a posse de armas estão promovendo na internet). Que vença o melhor para o Brasil. Difícil apenas é decidir quem é o melhor. | 24.4.06
Morreu Telê Santana no mesmo 21 de abril em que morreu Tancredo Neves. Telê e Tancredo me deram a mesma lição, mostraram que nem sempre o que parece justo vinga, nem sempre o que deveria ser é. O tetra veio com Parreira e Zagallo, a democracia, com Sarney e Itamar Franco. Admirava tanto o Telê que torci pelo São Paulo quase como se fosse meu time, nas finais que o consagraram, em 92 e 93, campeão das Américas e do mundo. Telê foi um exemplo. No São Paulo, onde chegou para ficar três meses e ficou até o fim da carreira (os "pós-de-arroz", aliás, não o trataram como ele merecia), deu lampejos de craque a jogadores como Ronaldão e Pintado, cuidava pessoalmente do gramado do campo de treinos e, mesmo sendo homem rico e estabelecido, dormia no CT. Perdeu a Copa de 82, o que só contribuiu para o aspecto lendário de sua história -- as verdadeiras lendas não têm final feliz -- e o fez uma espécie de Moisés do futebol, como Tancredo seria da democracia, três anos depois. Telê reergueu a cabeça do futebol brasileiro, devolveu a noção de time e, ao mesmo tempo, de craque, ambas desbotadas ao longo do falso pragmatismo que sucedeu a explosão de 1970. Mais um 21 de abril que nos leva a um herói. Sem solenidade, sem frescura. Um tipo de herói que o Brasil deveria cultivar. *** Ia falar também do Tom Zé. Não preciso mais. | 20.4.06
Para passar o feriado com um pouco mais de wishfull thinking e outro tanto de leveza, lá vai um soneto-passaporte. Semana que vem, tem catilinária, se houver causa a defender ou atacar, ou ficções para pôr a mente a navegar. Bom feriado a todos. Salvadores Eu vou ao Bonfim, não quero voltar, com o que há lá, muita sorte terei. Sei onde está meu verdadeiro lar, meu vatapá, meu caruru, meu hei. Tenho rainha sereia do mar, vou à Bahia com porte de rei, pela riqueza que vou encontrar. Também vou despojado, como frei: como ser devoto, voto-lhe a faixa, sei, como asceta, qual é meu lugar. Sinto o coração bater como caixa, como bom baiano, quero sambar. Sobrevoemos a Cidade Baixa, vejamos a alma jubiabar. | 19.4.06
Píadas Passaram muito além da Taprobana, vieram a disseminar a fé, comer a mameluca e chupar cana, assobiar um fado de marré. Traçaram cá quinze capitanias sobre o mapa, sem nem a terra ver. Machado e faca aos paus e especiarias, voltaram mar adentro até o poder. História do Brasil, primeira parte: depois da geografia nota dez, tome-se o bom, e o resto se descarte. Com séculos de mídia e decibéis, esqueçam-se Camões, engenho e arte -- melhor é garantir os cem mil réis. | 18.4.06
O brasileiro é hipocondríaco e burro -- pelo menos é isso o que parece que pensam as duas grandes revistas semanais do país, a Época, que é a que leio, e a (*)eja, aquela que não dá para ler. Quando há assunto quente, ligado a escândalos, crimes e/ou Brasília, e que pode dar ibope, vem na capa. Quando não há, as semanais colocam um assunto médico ou correlato. O problema não começa e não termina na falta de imaginação da pauta. Qualquer que seja ela, a abordagem é rastaqüera, primária e sensacionalista. Ambas declaram culpados todos aqueles que parecem causar algum clamor popular. Sentença transitada em julgado? Detalhe. Reputação do infeliz em caso de erro? Acidente de percurso. Desinformação para o público? Ora, o público: desde que compre revista, informação equilibrada é problema dele. O que parece acontecer é uma "Istoé-ização" da (*)eja e, por reverberação, da Época. A IstoÉ, quando disputava mercado direto com a (*)eja, passou a esquentar suas capas para buscar superar o rival na venda em banca, aparentemente o primeiro passo para ir-lhe tomando assinantes. Assim, semana sim, semana não, lá vinha uma denúncia. Algumas foram importantes, outras colaram, outras passaram batido. O ápice foi a entrevista do motorista que começou a derrubar Collor. O saldo foi a imagem de uma publicação denuncista -- o que, tal como revista de mulher pelada, ninguém assina, compra-se de acordo com a temperatura da capa. Estranhamente, quando a (*)eja teve seu primeiro adversário poderoso -- a IstoÉ era do simpático ex-colega Domingo Alzugaray, enquanto a Época era das onipresentes organizações Globo --, piscou para o lado do sensacionalismo, o mesmo que a IstoÉ buscava quase de forma pueril, se comparada com o que faz a rival. Hoje, o sensacionalismo de (*)eja, seus editores, redatores e colunistas é digno dos mais prosaicos tablóides ingleses ou do velho Notícias Populares. A se tomar a lição da história, o semanário tomou uma decisão de alto risco. Desde "O Povo na TV" os estudiosos da mídia sabem que o público brasileiro, pelo menos aquele que atrai publicidade, recusa, a longo prazo, uma postura "mondo cane" dos veículos. A pergunta é: estaria a (*)eja queimando seus últimos cartuchos? Estaríamos vendo o crepúsculo de um deus da mídia? Serão estas capas sensacionalistas os estertores de um marco da história do jornalismo brasileiro? Será que o samurai perpetra um haraquiri? Duvido, mas seria uma explicação mais nobre para uma postura editorial tão solerte. | 17.4.06
Aforismos casuais, entre Vico e O Pasquim Sobram sílabas para dizer dor. Já amor, diz-se em no máximo duas. *** Sexo é bom porque acaba onde tudo começa. *** Para lembrar o que nunca se viu, é só esquecer quem contou. *** Um inimigo é para sempre porque dele não se tem de cuidar. *** Vivemos procurando a melhor combinação entre e fertilidade do esterco e a aridez do perfume. *** Saudade é o amor que não se esvai. *** O chato é um psicopata carente. Já o psicopata é um chato que cresceu demais. *** Ao ver os exemplos de W. Bush e Nelson Mandela, a dialética contemporânea cunharia: a história da humanidade está sempre zero a zero. *** Um sábio arquiteto disse: Deus está nos detalhes. De lá para cá, vários outros vêm respondendo: Quem, eu? | 13.4.06
Neste blog, o azedume contra a escrotice é equânime. Poucas coisas são tão escrotas quanto a campanha requentada que se move contra a empresa da qual o filho do presidente Lula, Fábio, é sócio. Por uma dessas coincidências da vida, estive, não próximo, mas walking distance do nascimento desse empreendimento. Primeiro, nunca vi ninguém referir-se a ele como "Lulinha". Era sempre Fábio. Segundo, tudo aconteceu como os acusados descrevem: Fábio cresceu junto com Kalil Bittar, são amigos de infância, poderiam ter sido sócios qualquer que fosse a carreira dos respectivos pais. Antoninho Marmo Trevisan, que conduziu o processo que resultou na entrada da Telemar como sócia e patrocinadora da empresa, é um homem ainda acima de suspeitas. Por fim, a Telemar é escolada o suficiente, e está fazendo um bom negócio. Mais: se quisesse apenas bajular o presidente afagando seu filho, bastava arrumar-lhe um emprego discreto em uma subsidiária pouco conhecida, com um polpudo salário-mesada. Sairia mais barato e não chamaria a atenção. O que irrita é que os "profissionais" da política lá em Brasília não percebem que esta campanha é um bem-calibrado tiro no pé. *** Enquanto isso, mostra-se acertada a decisão de José Serra de concorrer ao governo de São Paulo. *** Itamar Franco acaba de lançar sua candidatura à presidência da República pelo PMDB. Itamar me lembra Forrest Gump, aquele personagem do cinema vivido pelo Tom Hanks. Fica entre o limítrofe, o trapalhão e o autista -- e acaba se dando bem. Foi o presidente que deixou o governo com maior popularidade desde, talvez, o Marechal Dutra. Fez uma lambança no governo de Minas e acabou embaixador na Itália, morando no Palazzo Doria Pamphili, na linda Piazza Navona, resmungando o tempo todo e passando uma quarto do ano em Juiz de Fora. Agora, Gump vem aí rasgar o balão do Garotinho. Vida longa, pois! | 12.4.06
A tal da "mídia exterior" continua se sofisticando em suas maneiras de estragar a cidade. A última façanha desse vale-tudo visual foi a de colocar em um outdoor uma simulação da porta de uma caixa-forte com dois guardas ao lado. Vivos! Sim, gente usada como aplique de outdoor. O anunciante é uma empresa de segurança privada e os figurantes são seus funcionários. O presidente da empresa alegou à Folha de S.Paulo que os funcionários revezam-se de duas em duas horas para, entre outras coisas, fazer suas necessidades fisiológicas, e que a carga de trabalho dos que se propuseram fazer esse papel é "de certa forma mais leve" do que a habitual. Nem por um segundo passa pela cabeça do nobre executivo que ele está submetendo os funcionários a algo degradante. Pior: isso também não passou pela cabeça dos brilhantes rapazes vestidos de preto, os chamados "criativos" da agência de publicidade, todo mundo bem nutrido e bem alfabetizado. Não basta mais a essa gente emporcalhar a paisagem da cidade, eles agora começam a emporcalhar consciências. Um menino que passe pela Avenida JK e veja aquilo tenderá a achar natural ou no mínimo aceitável que se faça esse "uso" do ser humano. Para o publicitário "man in black", tudo bem, porque acima de tudo, é preciso ser diferente, se destacar, custe o que custar. Ele estará em um bar da moda contando aos amigos que passou mais um limite e que, na próxima, vai colocar bebês de verdade nas gôndolas de fraldas dos supermercados ou bundas de verdade no próximo outdoor de Neve. O pior é tentar entender como episódios assim proliferam, e chegar à única resposta sensata: é porque a gente deixa, é porque, no fundo, a gente gosta. Porque se as pessoas ficassem inconformadas da forma que seria de se esperar, tanto o anunciante quanto o publicitário teriam medo do resultado em suas contas bancárias e enfiariam a viola no saco. Mas não: com a nossa condescendência e permissão, eles continuam a enfiar a viola em nossas generosas e tolerantes goelas. Goelas? | 11.4.06
Quadras Cantadas Você já voou, menina? Já viu o chão lá do alto? Como é, então, que me ensina e eu obedeço, incauto? Você, que sorri tão pouco, que prefere ser severa, ensaia a canção do louco, entoa sã primavera. Às vezes é tão menino seu jeito de ser mulher, em outras, é feminino à salve-se quem puder. Menina, mulher, menina, mulher, menina, mulher: você sempre escolhe, ensina e, no fim, faz o que quer. Eu assisto. Visto de longe todo sorriso me encanta. Devoto seu, me fiz monge, você, daqui, vira santa. | 10.4.06
Mini 78 Hélio olha do alto da ponte, Geja o despreza. Ela passa bem na calçada de onde ele tenta, à balaustrada, admirar o rio. Aperta o passo ao passar por ele, que a vê e devolve os olhos à corrente lenta. Ela se sente bem com o desprezo entendido. Dobra a esquina. Sabe-se bem percebida. Um calafrio a domina quando o perde de vista. Volta. Olha. Lá está, apenas desprezado, Hélio a contemplar as águas. Mais um minuto e sai a caminhar. Geja o segue de longe. Espera uma surpresa, quem sabe uma tragédia. O que vê é apenas uma chama, a brasa do cigarro e os desenhos da fumaça que se vai. Ele segue incerto. Ela o segue por quatro horas. Só para ter certeza de que o despreza. Certeza. | 6.4.06
Gente que é o que faz (ou vice-versa) Há tempos eu colecionava nomes de pessoas que se chamam aquilo que fazem, isto é, que trazem em seus nomes a sua profissão. Obviamente, acabei perdendo a lista, mas uma nota no Blue Bus de ontem me fez lembrar do assunto: o veículo dava a notícia da contratação de Cristiano Bock como atendimento da conta da Skol na F/Nazca. Obviamente, a velha lista me veio à memória, tentei lembrar do que pudesse e acabei sendo ajudado por amigos curiosos, o que deu numa nova lista, que compartilho aqui. Além do Cristiano, foram lembrados: Sérgio Dimas Guardado - designer de embalagens Artur de Matos Casas - arquiteto Roberto Ravioli - restaurateur, dono de restaurantes de culinária italiana Lu Caramello - gerente da Kopenhagen Lourenço Loução - diretor da Cerâmica Eliane Dieter Carreira - RH da DM9 Aldo Marchand - dono de galeria de arte Vanya Cançado - médica em Ipanema especializada em estresse João Rua - professor de Geografia na PUC RJ Walter Lencina - professor de idiomas Eduardo Fortuna - autor do livro 'Mercado Financeiro' Armando Nascimento Junior - Obstetra e especialista em fertilização in vitro Marisa Varanda Carpintero ¿ Coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unimep Tiago Vagaroso Monteiro - piloto português de Formula 1 Este sítio aceita e agradece colaborações que aumentem esta lista. Roga, no entanto, fidedignidade da informação. Em tempo: o piloto português Vagaroso de fato existe e, dizem, acelera muito bem. | 5.4.06
Azulices Expliquei pela teoria das cores o brilho intenso que me aparecia. Parecia da Índia, dos Açores, vinha de onde esse raiar do dia? Azul ou verde (cores emitidas)? Pingo de amarelo em cyan seria, se não fossem seus brilhos homicidas do tipo que retinas avaria. Entre seus tons, há um que vem do jade, tisnado por um brilho de ametista rida*, roubada ali do anel do frade, o que resultou um pouco anarquista. Faróis iluminando a liberdade, seus olhos vão ser sempre o riso à vista. (*) Poupe seu tempo: não existe essa linda palavra, "rida", no dicionário. Existe "chorado(a)", "pranteado(a)"; "rido(a)", não. Ridículo. Acabo, pois, de instituí-la, por bela que já era antes mesmo de nascer. | 4.4.06
Vale a pena ler, na página 3 da Folha de hoje, artigo assinado pelo assessor da presidência Luiz Gushiken. Sou antigo admirador desse líder que foi um dos responsáveis pelas mudanças importantes que o movimento sindical brasileiro viveu nos anos 80. Fiquei positivamente surpreso quando Lula o tirou de uma autoimposta aposentadoria e o levou para o governo. Deu no que deu. Mas vale a pena ler o que ele tem a dizer. Se você não tem tempo ou a Folha não está perto, há uma frase que resume bem o conteúdo do artigo: "Quando a luta política se resume ao horizonte da conquista do poder, a esfera pública se torna campo fértil para uma guerra aberta, na qual aniquilar o outro é a primeira e única regra do jogo." Parece ser o que se vê nestas CPIs. Eu acho tudo isso, condenação sem prova, execração pública baseada em achismos e clamores, oportunismo de toda espécie, um horror e um risco delicadíssimo para a própria democracia. No entanto, quando foi que isso começou? Gosto de lembrar de duas coisas que se associam: o insano "Fora FHC", que durou ininterruptamente de 1998 a 2002 e a declaração informal, em papo com amigos, do então candidato Lula, captado pelas câmeras do histórico documentário de João Moreira Salles, em que o futuro presidente declara que o PT havia feito uma opção pela tomada do poder o mais rápido possível, em detrimento de ações que visassem a organização da sociedade. Luta política resumida ao horizonte da conquista do poder. A qualquer custo, como se viu depois e como se verá agora, durante a campanha que está chegando. Em seu texto, Gushiken se defende com maestria e alega, com razão, que "a execração pública é de difícil reparação 'a posteriori'", o que exigiria mais responsabilidade de quem acusa. É verdade. Mas é verdade também que quem abriu essa caixinha de maldades foi a turma que hoje está no poder. Fechá-la agora não adianta mais: os fantasminhas todos já estão à solta. | 3.4.06
Descobertos Acordo. Ela não está a meu lado. Acho-a na sala. Serve-me. Ambígua. Põe-me o desjejum. Sinto-me enganado. Sai. Diz que vai trabalhar. Não sei. Sigo-a. Some na multidão e em meu cansaço. Volto. Ligo. Toca. Ninguém atende. Sei que sei tudo. Não sei o que faço. Ela vai conquistar seu happy end, lá vai ela ficar feliz sem mim. É claro, na cara amarrada. Vê-se logo por que parece triste assim: me enganar é seu único interesse. Finge. Quando me abraça e me diz sim, me aceita como se não me escolhesse. Senta que lá vem soneto. Antes, porém, cabe a advertência: textos na primeira pessoa não se referem necessariamente à vida real do autor. Quem é afeito à poesia e à literatura de ficção está acostumado a isso, mas de qualquer maneira, não custa prevenir: o personagem em questão e eu somos pessoas diferentes. Acho, inclusive, que o narrador sequer existe, é uma invenção dos cantos mais recônditos de minha mente sádica e doentia. No entanto, se de fato existir, precisa de ajuda rápido. | |