dito assim parece à toa

31.3.06

É bom lembrar: hoje é 31 de março. Há 42 anos, o Brasil entrou em seu mais longo período de ditadura, e o mais desastrado. Entre 31 de março e 1o. de abril de 1964, um movimento militar iniciado em Minas Gerais derrubou o governo legalmente instituído de João Goulart e, junto com ele, a jovem democracia brasileira, impedida de completar duas parcas décadas.

A partir daí, ao longo de 21 anos, instalou-se no Brasil um período de arbitrariedades acompanhadas de tragédias, comédias B, corrupçao e emburrecimento. É curioso: quem hoje tem 25 anos não consegue (ainda bem!) imaginar o que é viver em um país sob censura. A sensação é a de que tudo em volta é opressivo, pesado, e ao mesmo tempo ralo. O rádio tocava "Eu te amo meu Brasil", sucesso da dupla Dom e Ravel, e "A nega é minha, ninguém tasca", com alguém igualmente obscuro. As pessoas mais informadas tinham um misto de paranóia e depressão. As menos informadas (a maioria) padeciam de uma angustiante infantilidade. Quem apoiava o regime militar manifestava um orgulho raivoso ou um conformismo cínico. Para estes, torturar, massacrar, exilar, censurar, era o preço a pagar pelo que chamavam de "paz social" e "progresso".

Descrevo essas impressões pessoais apenas para tentar contextualizar um pouco, e à minha maneira desajeitada, a crise que vivemos hoje. Não há nada como a democracia. As alternativas a ela sempre se mostraram desastrosas. Muitas das queixas que temos hoje da vida cotidiana vêm de heranças malditas do tempo dos
militares -- da concentração de renda imoral à despolitização da classe média, da corrupção desmedida ao "você sabe com quem está falando?". Democracia, eu repito arremedando Churchill, é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros.

Por isso me arrepia ver, como resultado dos fatos recentes ligados às burradas do governo petista, tanta gente à minha volta falar de voto nulo, demonstrar profundo niilismo e ter sempre um "foda-se" nas entrelinhas de sua fala.

Estamos construindo uma democracia que apenas acaba de completar 20 anos. Passamos maus bocados, a morte de Tancredo, a transição com Sarney, a tragédia Collor, o risco Itamar, o início de um projeto com FHC e sua continuidade, ainda que atabalhoada, com Lula. Se pensarmos com frieza e algum distanciamento, o saldo do governo Lula é positivo, como foi também, e sobejamente, o dos governosFHC.

Precisamos hoje ter essa cabeça fria, essa avaliação clara do que conquistamos. O Brasil vive hoje uma democracia de um alcance e de uma qualidade que nunca antes o país experimentou. As instituições funcionam cada vez melhor e é possível pensar juntos como melhorá-las e como fazê-lo mais rápido. Temos um país melhor do que tínhamos, e tendendo a ficar ainda melhor. Temos um caminhão de problemas, e temos talento para resolvê-los.

Por isso tudo, torço, neste dia em que se celebra uma tragédia, que possamos refletir, olhar o passado e, nem que seja em segredo com o travesseiro, pensar que precisamos trilhar esse caminho juntos e deixar os rancores no acostamento. Neste 31 de março, que sejamos todos democratas, seja com bico amarelo, seja com cinco pontas, seja da forma que for possível.

Por paradoxal que pareça, hoje é dia de comemorar. Comemorar o que conseguimos superar juntos. Talvez também seja dia de esquecer falsas diferenças e olhar o tucano ao lado, escutar o petista ali perto e lembrar, também e ainda mais juntos, os motivos comuns de orgulho. Não são poucos. Não são para ser esquecidos.

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Soneto adiado para segunda-feira.



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30.3.06

Sala de leitura

Ando muito a pé pelo bairro. Gosto de olhar em volta, ver os andantes apressados, as passantes espevitadas, a disposição geral. Talvez me alimente, talvez me compense o combalir que a primeira hora da manhã inicia todo dia. Fiz de caminhar uma câmera, abstraí a musculatura, sou todo olhos.

Acho que hoje sei ler as fisionomias com surpreendente fluência. É como ser alfabetizado; no começo, lê-se o vovô e a uva, pinta-se a contragosto uma bolinha de vermelho. Com o tempo, supera-se a decifração, as coisas começam a fazer sentido, o sentido se multiplica em outros e nos traz vontade de ler mais e mais.

Passei hoje por uns oitenta rostos com significado (sim, há muitos que não querem dizer nada, como folhas preenchidas com body-type, aquele texto falso que se usa para simular uma página). Em um ponto de ônibus, duas mulheres disputavam uma batalha com suas expressões. Não se olhavam, miravam o mesmo ponto no infinito de onde surgiria o coletivo. Mas lutavam para expressar algo a quem passasse, por mera coincidência, eu. A blasée vestia laranja, a compenetrada, preto. Esta usava óculos, o que facilitava a leitura de sua expressão, enquanto aquela trocava a perna em que se apoiava e mirava mais longe, como se isso fosse possível. Passei com a certeza de que manteriam o texto até a chegada do próximo leitor.

Não havia nada a ser lido no rosto da mulher muito velha que passou em seguida, passos muito lentos, apoiada em uma bengala que mais parecia um cajado, jeito de mendiga de novela, quase um clichê a caminhar, mas com um enorme potencial, poderia trazer um Guerra e Paz só nas rugas sob o olho. No entanto, nada. Já na barraca da calçada, a mocinha mulata de colant preto e toda enfeitada era uma enciclopédia, emitindo dois capítulos entre cada piscada, indo de Jean Genet a Lewis Carrol, dominando a ciência de despistar. Poderia perfeitamente tomar posse do subgerente em frente, se ele não fosse tão repetitivo.

O fiscal de trânsito guardava uma tragédia. Curioso ver como, mesmo em frenética atividade, gesticulando, sacando bloco e caneta, telepunindo os incautos, ele deixava transparecer uma personagem ricamente torturada. Estava ali em uma pausa de seu dilema. Devia deixar o esconderijo de sua roupa marron com a angústia de se expor a um sentimento predador. Preenchia cada multa com o furor de uma autobiografia.

Há, em uma esquina, uma vitrine. Com fundo escuro, em dias nublados parece um espelho. Não posso descrever sem angústia o que vi hoje refletido. Os capítulos em mim pareceram mais curtos. Foi só um relance, mas foi sem defesa, por imprevisível. Pela manhã, enquanto faço a barba, sei como não me ler. Mas desavisado, não pude evitar, parecia outra pessoa, mais uma página. Tenho certeza de que havia mais espaços em branco, menos ordem, falhas no alinhamento, duas ou três letras faltando. Preciso mudar o trajeto ou ficar mais atento.



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29.3.06

É bom tomarmos cuidado. Lá em Brasília, sai o vaselina e entra o Mantega.



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28.3.06

Empresas café-com-leite: é isso o que, de tempos em tempos, parece que setores do empresariado tentam implementar no Brasil. Já se viu isso na suderurgia, nos computadores, nas agências de propaganda. Agora, quem quer pôr a mão no pique são os livreiros. Uma certa ANL -- Associação Nacional das Livrarias -- quer fazer passar um projeto-de-lei que regulamente os preços dos livros no varejo. Na prática, os livros teriam um preço fixo, a ser praticado por todas as livrarias, sem direito a dar descontos -- ou com um padrão de descontos pré-determinado -- durante os dois primeiros anos a contar do lançamento da publicação.

É engraçado ver como o capitalismo tem um discurso pendular por aqui. Qualquer ação do Estado que pareça atrapalhar seus negócios -- das cotas para filmes nacionais nos cinemas à concessão de horários gratuitos na TV -- merece indignação, manifestos, defesas apaixonadas da livre-concorrência e do Estado mínimo. Basta, porém, que a livre-concorrência ameace suas lojinhas para que logo clamem pela proteção do Estado-máximo-possível e rezem a ladainha do oprimido pelo capital -- como se suas empresas fossem ONGs e as grandes redes fossem fábricas de motosserra.

Dói no coração ver fechar a livraria do bairro, enquanto a Barnes & Noble ou, no nosso caso, a FNAC passeiam em céu de brigadeiro. Agora, por que as gigantes prosperam e as pequenas fecham? Porque atendem melhor ao consumidor no quesito preço e variedade. Já se viu a mesma coisa acontecer com os armazéns, empórios e vendas de bairro. Foram superados pelas redes de auto-serviço. Fico imaginando se, lá pelos anos 60, o congresso fizesse passar um projeto-de-lei fixando o preço do arroz, da vassoura de piaçava, do xampu ou do pão de fôrma para preservar os pequenos estabelecimentos da sanha predatória do Pão de Açúcar.

Não há dúvuda de que a prática de dumping deve ser coibida, bem como a excessiva concentração da atividade econômica em poucos agentes. Já há leis e instituições para isso. Há, por outro lado, uma evolução inexorável do mercado, que força quem empreende a se refazer dia a dia -- é este o preço que se paga para obter lucro no capitalismo que hoje se desenha à nossa volta. Fazer leis para blindar um determinado setor dos efeitos de sua própria evolução é proteger a ineficiência e, mais grave, é cobrar do consumidor um sobrepreço que ele não merece pagar.

Estarão, então, as livrarias de bairro entre a cruz e a caldeirinha? Só restará às que não são gigantes deixar um bilhete sobre a mesa e abrir o gás? A experiência tem mostrado que não necessariamente. Quem agrega valor ao que vende pode subir o preço de capa. É o caso da Livraria da Vila que, a 200 metros da FNAC vai bem, obrigado, mantendo seu horário normal de funcionamento (fecha mais cedo que a gigante e não abre aos domingos com faz a outra) e não entra na guerra de preços de lançamentos.

O segredo? Começa pela Cida, que gerencia a loja e sabe receber o cliente, fazê-lo sentir-se em casa e responder suas questões. Segue pela arquitetura, pela seleção dos funcionários, pela escala de eventos, pelo pequenno auditório, pelo micro-bar. É um lugar que presta serviços em troca dos parcos reais que eventualmente cobra a mais pelos livros. Por isso, é competitivo sem ser mais barato.

Fixar preços via tabelamento por lei é, além de oficializar a prática de cartel, estabelecer um pacto de mediocridade. Todo mundo passa a se equivaler comercialmente, às custas do bolso do consumidor. Isso até o momento em que ele, então escolha lugares com serviço agregado, como a Livraria da Vila. Aí então, possivelmente a ANL proporá uma nova lei proibindo tratar bem o cliente e determinando que todas as livrarias do país tenham a mesma arquitetura, os mesmos títulos, expostos da mesma forma e que, em cada loja, os vendedores sejam obrigados a dar a mesma resposta a qualquer pergunta: "Sei lá, se vira aí e passa no caixa depois."

Afinal, que história é essa de de ser criativo e prestativo para conquistar o cliente? Concorrência desleal, ora essa!



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27.3.06

Eu juro: ia falar de livros por aqui, um pouco cansado dessa cena política à Vicente Celestino (ou seria Jerry Lewis? Ou ainda Bela Lugosi? Ou então Ed Wood?), mas vem o Palocci e cai. Dá para falar de outro assunto? Aí, eu tento me informar e vejo, no Josias de Souza , que o cara foi, na verdade, demitido por Lula, uma vez que o ora defenestrado presidente da Caixa, Jorge Matoso, abriu o bico e disse que deu o tal extrato do tal garoto do tal casarão diretamente para o agora ex-ministro. Não deu pra segurar, Lula acabou de empurrar. É assim a vida real.

O que parece acontecer com a economia é que nada muito importante vai acontecer. Já na política, poucas vezes se viu um ventilador tão feroz. Pegaram tudo o que era possível (jamais saberemos o que era fato, o que era exagero e o que era simplesmente armação) para derrubar o ministro, último anteparo do presidente, que agora vai começar a receber diretamente os borrifos.

Quem comemora é o Geraldinho, que acaba de ganhar o apoio (argh) do governador de Brasília (bglh) Joaquim R-rrlhhaffshuasp (desculpem, não agüentei e golfei) Roriz e vê a aparente fortaleza de Lula começar a trincar. Mas a dele também começa a dar cupim. Já requentaram e puseram fermento ontem em uma pendenga do governo de São Paulo com agências de publicidade, algo ridículo, mas que pode ser transformado em escândalo se for bem trabalhado pelos produtores de escrotice -- ofício, aliás, que prospera como poucos em 2006.

Os sinais são enjoativos mesmo. A campanha mal começou e o que se vê já de cara são surubas de um lado, favorecimentos ilegais de outro, maracutaias de todos os tipos, tudo ilustrado alegremente por uma parlamentar imbecil que sai dançando feito uma baleia limítrofe, para comemorar a grande escapada de seu coleguinha que, como um hiena, ria sem saber bem que cargo ocupa -- e sem saberem, os dois, que estão fazendo provocação a uma sociedade que está de saco cheio deles e já está quase a ponto de cagar para a democracia. O problema é que, quando der merda na democracia, vai espirrar em mim, em você, em gente comum, que tem maior dificuldade de obter asilo e ir rebolar as banhas como mártir.

O que sobra para quem queria falar apenas e candidamente da política comercial das livrarias? Sobra o consolo de vomitar e ir para casa dormir, cantarolando bichos escrotos saiam dos esgotos/ bichos escrotos, venham enfeitar meu lar, meu jantar, meu nobre paladar.

Este post ridículo não durará além do meio-dia de amanhã, ok?



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24.3.06

Não costumo publicar textos que não são meus por aqui. Resolvi fazer uma exceção (Zubas, desta vez eu acertei, não é?) para o que segue. O autor é um gerador de polêmica talvez hoje único na imprensa brasileira. Eu o acho um dos caras mais lúcidos da atualidade, um pensador independente neste mundo de cardumes em que estamos submersos, uma das pessoas mais cultas com quem já tive oportunidade de conversar. Polêmico, é óbvio que o texto abaixo vai gerar rangeres de dentes e discordâncias. Há de haver até quem diga que ele é um agente da reação a serviço da direita sórdida ou da CIA. A esses, eu recomendo que releiam. Ao contrário de gente cínica como Olavo de Carvalho ou o filho do Ênio Mainardi, gente que faz ilusionismo para fabricar ibope, Jabor expõe seus pontos cutucando feridas reais e esbanjando lucidez. Se exagera, às vezes, na retórica, é o sal com que tempera o fino biscoito que oferece. Não concordo com algumas coisas que ele coloca aí. Poucas. Mas considero que, apesar delas, estamos diante de uma das figuras mais destacadas entre os colunistas disponíveis nas bancas de jornais nos últimos anos.

As pérolas pescadas no excremento
Arnaldo Jabor, no Globo, 14.3.06

Toda hora ouço esta pergunta nas ruas e botequins: "E aí, seu Jabor, como é que fica?". "Não fica -- respondo --, nada se fecha na História...", declaro gravemente para boquiabertos negões que não tiveram a fortuna de estudar dialética na USP. No entanto, estamos num momento histórico importantíssimo no Brasil. Sinto uma bruta indigestão diante de tudo que comi no ano de 2005, com o maior escândalo de nossa História. Ando com vontade de vomitar, diante de fatos como o daquelas vagabundas do MST destruindo 20 anos de pesquisas da Aracruz, com o suíno barbudo do Stédile dizendo que são heroínas, ele, criado pelos bispos ignorantes da Pastoral da Terra (aliás, ninguém vai prender esse cara?).

Tenho ganas de assassino ao ver o Pf. Luizinho saltitante na Câmara, o Janene armando fuga com aposentadoria, enquanto o Lula faz cara de lorde que nada sabia, ao lado da rainha da Inglaterra. O Brasil esta virando um bolo fecal... (desculpem as imagens intestinais, mas é o que me resta, caros leitores). Mas sejamos "dialéticos": vem aí uma nova fase. Não acabou em pizza. De novo me desculpem, mas a merda foi-nos utilíssima. Gosto muito da expressão do Oswald de Andrade "a contribuição milionária de todos os erros", que descreve, em outro contexto, a forma fortuita, volúvel de o país progredir. Nunca nossos vícios ficaram tão explícitos quanto nos últimos meses. Aprendemos a dura verdade num congestionamento de descobertas, como um rio sem foz, onde as sujeiras se acumulam sem escoamento. Finalmente, nossa crise endêmica está sujamente clara, em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha.

Assim, tento fazer a lista das vantagens do esterquilínio, das belezas do excremento, das pérolas que a lama podre revela. O Brasil evolui de marcha a ré. Mas esta diarréia esfuziante que temos visto grava na consciência nacional alguns insights novos que, pelo avesso, ajudam a nos esclarecer. Vamos lá. A primeira conquista da merda é que já aprendemos que a corrupção e a sordidez no país não são um "desvio" da norma, não são pecados ou crimes casuais. Já sabemos que o crime "é" a norma, que está tudo entranhado na nacionalidade, nos códigos jurídicos, nas leis, nas almas.

Outro avanço é que também aprendemos a mecânica da escrotidão: a técnica de roubar o Estado para fins políticos, como os fundos de pensão perdem de propósito no mercado financeiro, como desviam 400 milhões para bancos fajutos em troca de maracutaias, como se faz superfaturamento em publicidade estatal, como se monta um esquema "revolucionário" de mensalão, como se nega tudo sempre, como nada prova nada e como depois os advogados oficiais desculpam tudo como "caixa de campanha". Creio que os mecanismos de controle vão se aperfeiçoar, junto com nosso des-asnamento .

Outro grande avanço é vermos, como disse Bobbio, que nada une tanto a esquerda atrasada e a direita visceral como o ódio à democracia. Mais uma pérola: acabou o mito do "iluminismo proletário", acabou a idéia de que o "povo" encerraria uma mensagem de sabedoria e pureza. Descobrimos com dor (uivem, populistas...) que o "povo" é fraco, doente, ignorante e que só a educação e saúde no crescimento podem criar o progresso. Foi importante descobrirmos que Lula, o messias dos intelectuais, revelou-se apenas um alpinista social bem-sucedido, competentíssimo em cinismo político e gênio do marketing popular -- o que deve reelegê-lo, já que a "economia, estúpidos!" foi a única coisa que funcionou, surrupiada do governo anterior, graças a Deus.

Outra pérola foi a indigência prática de tantos intelectuais medalhões, sua falta de contato com a realidade, sua erudição vazia, quase criminosa.

Outro bem que a bosta nos fez (o principal) foi a expulsão dos bolchevistas desse governo e vermos que seus fins ridículos e seus meios vagabundos não vão enganar mais tão facilmente as pessoas. Constatamos que não foi o PT que destruiu a "esquerda", foram as velhas idéias de "esquerda" que destruíram o PT.

Claro que os cassados serão poucos, mas a perda de poder do José Dirceu foi o fato histórico mais importante, pois ele era o único líder antigo que ainda comandava a dialética da estupidez. A permanência de Dirceu, Genoino e outros bolchevistas sem causa podia pôr em risco as conquistas da democracia dos últimos 20 anos e arrasar o sistema atual -- sem dúvida excludente e injusto -- em nome de um "frankenstein" maluco feito de teorias do século XIX. Em 2010, poderíamos estar diante do caos de 30 anos atrás, se o Bob Jefferson não tivesse nos "salvado" -- espero em Deus.

Aprendemos também que não há "futuro" -- só uma sucessão de "presentes" que têm de ser permanentemente enfrentados e corrigidos. Aprendemos que "utopia" é uma palavra ridícula, e que o certo é "planejamento", administração do possível, projetos democráticos e realistas.

Outra pérola tirada da bosta é a clareza de que o Estado patrimonialista, inchado, burocrático é que nos come a vida. Todos os críticos da economia sabem disso: enxugar os gastos públicos. Mas ninguém consegue. Ao menos, já conhecemos melhor o "inimigo principal", como diziam os maoístas.

A descoberta que mais me chocou pessoalmente é que não havia um mínimo de candura, de romantismo nos petistas que eu mesmo imaginava "éticos". Nunca pensei que casos tenebrosos como o massacre de Toninho do PT e Celso Daniel seriam ocultados com empáfia, depois de reuniões leninistas nas longas noites da Executiva.

Aprendemos, creio, que agora a modernização do país tem de ir muito mais fundo, além da estabilidade monetária conseguida pelos tucanos, que precisa ser formulada uma nova plataforma que dê conta da paralisia ibérica que nos assola. Um projeto democrático mais militante e social, com muito mais coragem para contrariar interesses, isso, se os tucanos forem eleitos e conseguirem acabar com o Hamlet que lhes vai na alma.

E se Lula for reeleito, só resta rezar para que não venha aí um populismo devastador para alegrar o Chávez e ocultar sua incompetência.




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22.3.06

Soneto do samba

Um samba antigo é pra comemorar,
seja a mulher que um bilhete deixou
e se foi, seja seu louco a andar
por ela que já o abandonou.

Um gato lá no morro não é caro
mas não merece a cruz do sofrimento.
O tamborim de samba, eu toco e paro.
Do gato, apenas provo o esquecimento.

Com samba, não tem escuro nem treva.
Se o amor que não esqueço corrói,
o bonde São Januário me leva

(e eu nem sou daqui, sou de Niterói).
Meu mensageiro, que meu samba eleva,
canta notícias de onde nada dói.



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21.3.06

Elas

Uma das coisas memoráveis que vi na TV -- no tempo em que a TV ainda trazia coisas memoráveis, antes dos Big Brothers e Lucianos Hucks -- foi um especial que a Bandeirantes levou ao ar com ninguém mais que Chico Buarque de Holanda. Como aquela era uma época em que o improviso era valorizado -- talvez por ser inevitável -- muitas das cenas fugiam de qualquer premeditação do diretor. O programa foi gravado ao longo de todo um dia, com direito a futebol no Colégio Santa Cruz, conversas com amigos antigos, obviamente, canções e, mais obviamente ainda, uísque. Bebia-se muito naquela época, e Chico, hoje abstêmio de carteirinha, entornava quase tão bem quanto rimava.

Às tantas, vê-se que a gravação já está sendo feita à noite, o repórter aproxima-se de Chico e comenta: "Que beleza sua canção Passaredo, você revelou todo seu amor pelos pássaros ali." Ao que a já bem alegre unanimidade nacional responde: "Não foi amor, não, eu peguei o Aurélio, fui procurando tudo o que era nome de passarinho e depois juntei." "Mas aquilo é um poema!" "Imagine!" -- e rindo muito -- "Além de tudo, eu acho passarinho um saco."

Tudo isso para dizer que uma das canções de que mais gosto -- e que é obra de um dos compositores de que mais gosto -- é Águas de Março, de Antônio Carlos Jobim. Jobim era um compositor inspiradíssimo, encantado, de forma quase ingênua, pelas coisas da Natureza. Com o tempo, a formação e o talento, somados à convivência com diversos craques de seu tempo, tornou-se um letrista de mão cheia, a ponto de ter com Carlos Drummond de Andrade o seguinte diálogo: "Meu poeta, eu estou querendo um dicionário de rimas, você me recomenda algum?" "Ora essa, Tom, quem fez Águas de Março lá precisa de dicionário de rimas?"

A canção é mesmo linda. E você aí, a ler esse texto pacientemente, vá até a janela e olhe aquela coisa telúrica, aquele fenômeno da mãe primordial, aquelas nuvens que de algodão não têm mais nada, parecem mais uma imensa massa de bom-bril molhado e grosso, ameaçadora, quase negra, pronta a despencar sobre nossas cabeças e levar com elas a luz, o asfalto e outras conquistas tão suadas da civilização, agora transformadas em enxurrada.

Molhado, reflito. Com o perdão do eterno Tom, não consigo esquecer o Chico: a canção, eu adoro, mas essas tais águas de março são mesmo um saco.



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20.3.06

Helô-Helê

Quem vê o Datafolha de ontem descobre o que já era esperado: lançada a candidatura de Geraldo Alckmin, o tucano sobe (vai de 17%, no levantamento dos dias 20 e 21/2, a 23% neste, realizado em 16 e 17/2) acima da margem de erro de 2%, enquanto Lula oscila dentro dela (de 43% a 42%).

Não é exatamente uma surpresa, embora os que torciam o nariz para Alckmin desejassem, no fundo, que ele tivesse uma largada mais difícil. Atrás dos dois, vem o famigerado Garotinho, estancado nos 12% que parecem ser o seu eleitorado cativo. Logo abaixo, já naquele grupo que merece apenas menção, o dos nanicos de um só dígito, está uma candidata que deveria merecer maior atenção dos analistas: a senadora Heloísa Helena, do PSOL de Alagoas. O quarto lugar que ela ocupa está a um palmo de ser terceiro, uma vez que é grande a chance de o PMDB melar Garotinho e não lançar candidato.
Helô-Helê tem algo entre 6 e 7%. Não é pouco para alguém que representa um partido nanico e radical. Outro fato a notar é que ela tinha em torno de 4% quando Lula estava no auge da popularidade (44% em 12/2004), e chegou a 7% quando o presidente obteve seu pior desempenho, 30% de aprovação (12/2005). Ela cresceu claramente na queda de Lula e do PT. Só que não encolheu depois que o presidente recuperou sua popularidade, apenas oscilando dentro da margem de erro. Com seus índices atuais de intenções de voto, a senadora já pode ser vista como a se descolar do patamar dos microcandidatos, aqueles inviáveis que recheiam o horário político de impropérios e bravatas mal pensadas.

Se Garotinho desaparece e Lula sofre qualquer incidente de percurso -- a mansão de Ribeirão Preto já dá um trailer do que serão as dificuldades da campanha reeleitoral --, o beneficiário óbvio é Alckmin. Mas o cenário político não permite apostar todas as fichas no óbvio.

Os mensalões, os delúbios, as CPIs, os escândalos berrantes dos últimos meses parecem ter sido absorvidos pelo eleitor de forma muito amarga. O niilismo é bem visível, o cinismo idem, talvez dois dos mais malignos sintomas que sobrevêm da queda de credibilidade nas instituições democráticas. Este quadro, aparentemente favorável à oposição mais destacada representada por Geraldo Alckmin, pode mostrar outro desenho.

A história é recente o suficiente para puxarmos apenas pela memória: Collor era um personalista surgido do nada, com um discurso microscópico, maniqueísta e recheado de clichês, amplificado por uma publicidade bem montada e uma estética fascistóide muito eficiente em tempos de crise. A Globo chegou no fim para ajudar (muito). Esta é uma das mostras de que o eleitor brasileiro é sensível a bons slogans, a traduções de soluções mágicas. Do "varrer a bandalheira" ao "vencer o medo", exemplos não faltam.

É justamente por isso que a mídia não pode se distrair tanto no caso de Heloísa Helena. Se Lula cai em nova desgraça, quem mais pode pegar, com autoridade, o discurso de esquerda que trampolinou o petista a Brasília? Quem garante que a desilusão popular com o PT devolverá a classe média ao PSDB? E o fator Garotinho? Os eleitores do populista fluminense vêm das classes que hoje mais apóiam Lula. Migrariam para Alckmin, no caso de uma rasteira peemedebista no bufão? Ou seriam sensíveis a um apelo moralista-popular-nacionalista? E se a campanha consegue pespegar em Alckmin o rótulo de conservador, o que de resto ele parece mesmo ser?

O fato é que tem bola quicando no meio e a mídia não está enxergando a quadra toda. Vamos ouvir falar muito da baixinha e façanhuda enfermeira alagoana, de brava cara e belas pernas. A imprensa deveria tomar cuidado para não ser auto-furada.



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17.3.06

Mini 77

Pisou no livro. Primeiro, hesitante, buscando coragem no fundo do estômago acovardado pela gastrite. Depois, um pisão decidido. O terceiro já foi quarto, quinto, sexto, acesso. Parou para olhar. Não havia sido tão destrutivo quanto a cena poderia fazer supor. Chutou-o, então, contra a parede. Aí, a coisa pareceu funcionar. Já no primeiro choque, um caderno se soltou. Em minutos, o chão já estava forrado de papel, o livro desfeito folha por folha. Levou mais meia hora procurando entre a papelada até achar a página certa. 136. Havia ali uma citação que ele havia escolhido com todo cuidado. Cuidado demais: era a única coisa que fazia sentido em tudo aquilo que havia escrito. Dobrou a folha, pôs no bolso e saiu, deixando a sujeira para o próximo.



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15.3.06

Mais quadras, ora ao gosto copular

Ela: "Me chamo Maria."
Ele: "Encantado: Morais."
Ela se apaixonaria.
Ele é bem claro: "Jamais."

Ela entende, então, e muda.
O falastrão vai atrás,
mas não acha, pede ajuda;
não tem, não sabe o que faz.

Tenta pose de galã,
ela vê, sorri, mas segue.
Dá sua face cristã,
ela hoje é tuareg.

Ele simula um infarto,
quase acredita na dor,
quando ela irrompe no quarto,
só pra deixar uma flor.

Quem sabe uma serenata?
Arma-se de um violão,
lembra de samba e sonata,
canta sua melhor canção.

Espera junto à janela.
Nada. Então, canta mais.
Enfim, a luz! Será ela?
"Maria, vem, onde estás?"

Quem aparece ao balcão,
em vez da doce Maria,
é um guapo rapagão --
nem as partes escondia!

Cheio de brios, o Morais
ensaia um bom assobio,
finge não ser nada mais
que um passante ao meio-fio.

O rapagão lá no alto
ouve chamar a amiga:
"Por que tanto sobressalto?
Vem me aquecer a barriga!"

Fingindo ser o passante,
o pobre Morais ouviu
Maria chamar o amante
e saciar o seu cio.

Pensou ter ouvido tudo,
mas veio a voz de Maria
segui-lo, agora mudo:
era claro, ela gemia.

Ele então, desconsolado,
soprou: "será que eu errei?"
Passava um mendigo ao lado:
"Ajuda um pobre, meu Rei."

Quando o andarilho mirou
e viu o pobre Morais,
olhou pra cima e pensou:
"Esse não sabe o que faz."

Chamou pelo preterido
e deu-lhe o melhor conselho:
"Já que não foste querido,
é melhor não ser pentelho."

Foi-se o outro, arrependido,
tentou esquecer Maria,
lembrando, desenxabido,
do corno que se sentia.



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14.3.06

O Dito Assim se atrasou um pouco, à espera da decisão do PSDB. Ela acaba de chegar: o candidato tucano à presidência da República é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Alckmin é um desses caras aparentemente bafejados pela sorte. Eu tinha um amigo, dos tempos em que me atrevia ainda a jogar futebol, que tinha uma curiosa peculiaridade em campo: parecia meio desinteressado, displicente, mesmo, mas a bola sempre acabava chegando até ele. Uma vez que ele a dominava, parecia que avançava atabalhoadamente, mas a bola batia na sua canela, no seu joelho, na sua barriga, e seguia ali, a um palmo de seu pé. Tomava tranco, passa-pé, cotovelada, quase caía, mas continuava a avançar aos tropeções. Aí, por milagre, ou ficava na frente do gol ou dava um passe na medida para alguém mais bem colocado. Era um inferno jogar contra ele e essa sorte que não o deixava.

Alckmin me parece esse cara: tem a sorte de saber onde a sorte vai estar. É um craque na sua forma de jogar, e pode dar trabalho a Lula. Mas o ponto que me aflige é o tal "picolé de chuchu". Todo mundo interpreta o apelido inventado por José Simão como a síntese de um político que não toma posição alguma, que é tímido e inexpressivo. O governador não me parece nada disso. Seu jeito de falar, seu discurso de fazedor, no fundo uma exaltação da "desideologia", sua postura de bom moço são claramente ensaiados, premeditados, respondem a um país e a um mundo que acreditam cada vez menos em ideais e cada vez mais no "quanto eu levo nisso". O pragmatismo que se lê em seu discurso curto e simples, em sua coloquialidade de capataz, longe de ser "desideológico", traz em si a mais nova forma do conservadorismo, que não usa mais a arrogância de ACM e Sarney, a violência dos coronéis do nordeste, a caudilhice sulina. O chuchu parece ser método, e não limitação. Alckmin parece ser um conservador comportado, um homem da nova direita alojado no PSDB por força das circunstâncias que definem os caminhos partidários nos interiores do Brasil.

Alckmin é herdeiro político de uma família católica do Vale do Paraíba, que mantém laços com as correntes mais conservadoras de sua religião. Por sua vez, tem como herdeiro seu secretário da educação, Gabriel Chalita, um ex-menino-prodígio, compulsivo escritor de bobajadas de auto-ajuda (sabe aqueles textos cheios de adjetivos, verbos no imperativo e reticências? Pois é), carola confesso. Do herdeiro, também infere-se como é o testador.

O governador poderá ser um bom candidato, pode ser eleito, mais ou menos como meu amigo fazia gols, pode ser um presidente realizador, dependendo do ponto de vista. Mas não parece ser o homem capaz de propor e implementar as mudanças profundas de que o país precisa, e que demandam ousadia, coragem e, acima de tudo, compreensão profunda do país. Isso, Alckmin não tem, embora seja um operador eficiente e um homem prudente no trato da coisa pública. É pouco para o Brasil.

Mas que ele sabe jogar no meio da confusão, isso ele já mostrou que sabe. Onde essa bola vai parar, só o tempo dirá.



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13.3.06

Três matérias da Época desta semana, se combinadas, dão um certo arrepio na cacunda.

Uma fala do descrédito da representação democrática no Brasil da pizza e menciona fenômeno semelhante em todo o mundo civilizado. A outra descreve a expansão da internet na China e o desenvolvimento do país, mesmo sob um regime autoritário. Logo depois, o colunista americano Fareed Zakaria versa sobre os erros da tentativa canhestra do EUA de implementar uma democracia formal num Iraque idealizado.

A leitura das três mostra uma fragilidade crescente do regime democrático em todo o mundo, pela rarefação da credibilidade, que é o ar que mantém esse regime vivo. Quando as pessoas deixam de acreditar que seu voto faz diferença (e é quase um milagre que elas ainda acreditem em algo tão improvável) e que quem governa as representa, democracia passa a ser um supérfluo abstrato e caro.

No caso iraquiano, comentado por Zakaria, o desastre previsível da democracia ready-made imaginada pelos neoconservadores do ciclo Dubya Bush dá a noção do ponto a que chegou a desmoralização deste que Churchill dizia ser "o pior regime político, com exceção de todos os outros". Quando o Estado americano, um dos pais da democracia liberal, deixa de vê-la como conquista e obra de um povo e passa a considerá-la um produto de prateleira, tamanho único e unissex, que veste bem o Mississipi, o Afeganistão ou o Iraque, vê-se que os fundamentos do regime foram completamente esquecidos.

Preocupa mais a matéria que fala da China, se vista à luz das duas outras. A abertura econômica de Deng Hsiao Ping não foi seguida por uma abertura política, como esperava o Ocidente. Quem se lembra do massacre de Tian Am Men viu uma tomada de posição dura, inflexível, pela manutenção da rigidez autocrática do regime e de seu controle sobre a vida pessoal do cidadão. No entanto, o país vem crescendo e aumentando sua influência no mundo numa velocidade imprevisível dez anos atrás. Já é a sétima economia do mundo, compra quase a metade da matéria-prima negociada no mercado internacional, e faz duas décadas que ninguém cresce mais do que a China.

A matéria de Época fala do crescimento da internet naquele país e das restrições orwelianas que o governo impõe à liberdade de expressão, com uma polícia especializada no controle e punição do que o regime considere excessos. A revista vê a internet como fator de uma inexorável democratização do país.

No entanto, olhando o declínio da democracia como a conhecemos, a ascensão da China como possível terceira força econômica do mundo em dez ou quinze anos, e colocando tudo isso sob uma visão histórica, a sensação inevitável é o tal arrepio na cacunda.

A China já tem mais de cem milhões de pessoas com acesso à internet, que é o grande canal para quem busca lutar por liberdades democráticas por ali. O regime chinês tem instrumentos de vigilância e leis rígidas para quem transgride suas regras. Até hoje, parece ter conseguido manter o controle. O tempo deve trazer algum arejamento à censura e alguma liberalização ao próprio regime.

No entanto, o que aterroriza é imaginar que, dialeticamente, uma situação de declínio da democracia, concomitante à elevação a um estágio hegemônico da China e seu regime ditatorial, pode levar a um novo padrão de legitimação do poder, mais afeito à "velocidade" e à "eficiência" a que os novos tempos aparentemente obrigam.

É de se imaginar que a síntese disso seja uma democracia deformada, uma mistura escabrosa dos ideários de Condoleeza e do finado Deng. Algo que George Orwell acharia exagerado. Vem aí o Grande Irmão. Só falta um pouco mais de tecnologia.



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11.3.06

Dito Assim de plantão

Vim trabalhar neste sábado e ouvi um trecho de reportagem da rádio CBN, na qual um porta-voz do exército declara que "é uma questão de honra" recuperar os fuzis roubados por marginais de um arsenal da corporação, dias atrás. A entrevista era parte da cobertura da invasão da favela do Morro da Providência, área urbana, civil, de moradia. Números: 1.500 soldados participam da invasão. Prazo da operação: ninguém sabe, ninguém diz. Custo: ninguém conta.

Só para lembrar: dez armas foram roubadas do quartel do Estabelecimento Central de Transportes (ECT) do Exército, em São Cristóvão, por não mais que uma dezena de homens armados e vestidos com uniformes camuflados. Não encontraram nenhuma resistência significativa.

O que isso quer dizer? Que a instituição militar estava inteiramente despreparada para lidar com sua própria segurança. Agora, sai à rua, fora de suas atribuições legais, com 1.500 soldados (é o mesmo número de soldados que o Brasil mandou ao Haiti), gastando os tubos e desgastando a lei, para recuperar algo que jamais poderia ter sido roubado da forma que foi.

O grande perigo que pode ser visto nesta sucessão de trapalhadas não é a falta de competência, uma obviedade sem discussão. É a falta de comando. Comando para pensar estrategicamente a operação de um arsenal, comando para conter a revolta infantilóide que acometeu a hierarquia mais alta da força no Rio de Janeiro, comando para demitir e deslocar uns, promover e destacar outros, a fim de restabelecer a competência da arma para suas funções precípuas: a manutenção da segurança e da soberania nacionais, a defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais -- bem diferentes, como se vê, das atribuições reservadas à polícia.

Enquanto isso, o Judiciário "afina", negando liminares contra a atuação militar, o Executivo sente-se em Buckingham e finge que não vê o Morro da Providência, o ministro da defesa pede todo dia para sair, e as balas zunem entre os civis que insistem em ficar justamente na linha de tiro que separa traficantes defendendo seu negócio sujo e soldados do Exército resolvendo uma "questão de honra" (o Duque de Caxias, mais uma vez, deve estar se revirando de desgosto em seu honorável túmulo).

É uma situação grave demais para ser considerada tragicômica. Mas em pouco tempo, é capaz de haver alguém que a ache tragicômica demais para ser considerada grave. É isso que o Brasil está virando: uma terra de cínicos em que metade finge que não vê e metade finge que não faz.

E hoje ainda é sábado.



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10.3.06

Sexta-feira, dia de menos rigor, fim de ciclo, dia propício para colocar alguma coisa mais leve. Aproveito para mais uma incursão no verso livre, baseado apenas na cadência e na intuição, algo a que não me atrevo entre segunda e quinta.

Pelo menos

Em compensação,
tem Jards Macalé,
tem Pelé,
tem firula para contar.

Em compensação,
teve Betinho,
tem carinho,
tem greve de fome e vatapá.

Em compensação,
tem caros amigos,
tem queridos,
atrevidos, torquatos novos.

Em compensação,
tem Gil,
tem choro e vela,
tem cinema transcendental.

Em compensação,
teve jeito,
teve peito,
faltou proveito, presente.

Em compensção,
tem ciência,
tem adolescência,
tem sábio a dizer "não sei".

Em compensação,
quem sabe?
quem responde?
quem tanta interrogação?

Em compensação,
é por enquanto,
é só agora,
enquanto seu lobo não vem.



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9.3.06

Ostealgias

Os ossos, quando doem, lembram erros,
arrependem-se pelo renitente.
Uma artrite pode vir dos enterros
não chorados. Gota é amor pendente,

daqueles que o orgulho faz segredo.
Ofício mal-escolhido provoca
um reumatismo que chega mais cedo.
Ostealgias, em geral, vêm em troca

daquilo que não sai da nossa boca,
de uma declaração que não se dá.
Dói mais se comportar que dar a louca,

lateja não ter feito um bafafá.
Para um beijo adiado, a dor é pouca;
lancina, o lábio que já não está.



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8.3.06

Quem trabalha é que tem razão, eu digo e não tenho medo de errar.
O bonde São Januário leva mais um operário, sou eu que vou trabalhar.


Minha avó materna, que em agosto completaria 106 anos, dizia sabiamente que a melhor terapia era um bom tanque de roupa. À minha maneira, estou areando os lençóis, com o que mantenho a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. Deixei por terminar um poemazinho que pode melhorar o repertório para amanhã.

Até lá, vamos nos lembrar de Wilson Batista .



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6.3.06

Oscar: eu não vi.

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Santos: eu vi.

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(*)eja: eu não li.

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Época: eu li. A matéria de capa fala do desenvolvimento brasileiro (2,3%), aquém do que seria esperado para um país emergente, compara com o crescimento médio mundial (4,3%), faz o inevitável cotejo com o Haiti (o único com crescimento menor do que o Brasil na América Latina). Chama um monte de economistas que dizem que está tudo errado ou moderadamente errado, ultraconservador. No meu bolso, juros como os brasileiros têm feito um strike doído. No bolso dos bancos, nem tanto. Mas o que me pergunto é: dá para fazer muito diferente? Alguém seria burro o suficiente para imprimir uma política como a palocciana, se houvesse outra trilha segura? Palocci é um cara importante na esquerda brasileira, parte de uma geração de trotskistas que resolveu colocar seu pensamento, digamos, heterodoxo a serviço de partidos maiores do que os seus "partidos-boutique" históricos e de discurso e prática limitantes ("contra burguês, vote dezesseis"). Está longe de ser um caipira boboca e neófito como parte da imprensa quer fazer crer. Por outro lado, todos os planos econômicos "defte paíf", exceto o Cruzado, foram majoritariamente malhados pelos economistas de fora do governo, mesmo o Plano Real, que não só arrumou a moeda como começou a arrumar o Brasil. Sou eleitor da oposição, sofro no bolso o problema dos juros, sei que a administração Serra será mais bem-sucedida na macroeconomia do que a de Lula, mas fico sempre com um pé atrás na malhação absoluta que se faz à política econômica. Não se pode errar tanto estando num ponto de observação tão privilegiado e contando com tantos recursos para intervir. Por isso, acho que essa história ainda demora uns 50 anos para ser bem-contada e, quando o for, colocará Lula e Fernando Henrique no mesmo capítulo.

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Bahia: eu quero ir.



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3.3.06

Ontem, parei para ouvir o CD Iaiá, de Mônica Salmaso. Ela é uma grande cantora, mas não é só isso que faz este disco ser uma peça que não se pode deixar de ouvir -- e de ter, para ouvir muito. O produtor Rodolfo Stroeter faz um trabalho magnífico, arregimentando uma elite heterogênea da música popular brasileira, que inclui bambas como o percussionista Robertinho Silva, o violonista Paulo Belinatti, o saxofonista e clarinetista Nailor Azevedo, antes conhecido como Provetinha, Toninho Ferraguti, Luca Raele e mais uma meia dúzia de craques, entre os quais o próprio Stroeter.

Mônica transita por um campo já bastante explorado, o da pesquisa e releitura de canções com alguma história na música popular brasileira. Gente fina como Ana Caram, Luciana Souza, Olívia Byington e Astrud Gilberto já percorre esse território há tempos. Mesmo assim, Iaiá inova e surpreende. Não só pelos arranjos, mas pela diversidade que se vê no repertório. O resultado final é que o incauto ouvinte vai chegar atrasado ao trabalho no dia seguinte.

Detalhe desabonador: o projeto gráfico da capa. É clichê, na tentativa de mostrar um design moderninho (manja estilização de datilografia?), e não dá para ler, o que, até onde aprendi, contraria a função básica de um projeto gráfico (ou será que as coisas mudaram tanto?). Ou seja: o pior de dois mundos. Mas é só a capa, você tira da frente rápido, ouve as delícias que a moça canta e, se quiser, anota as letras em outro papel.

Os destaques: Menina amanhã de manhã, de Tom Zé e Pena, com arranjo de Benjamin Taubkin; Cidade Lagoa, um samba-choro de Sebastião Fonseca e Cícero Nunes, já revisitado antes por Jards Macalé, agora com um arranjo delicioso de Luca Raele para três clarinetes e dois clarones; e Sinhazinha, de Chico Buarque, voz com uma levada de piano craquérrima, conduzida por André Mermari -- o ponto mais sofisticado do disco.

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O melhor foi ter ganho esta preciosidade de quem ganhei.



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2.3.06

Fosse eu

Se eu fosse um grande arquiteto,
o meu primeiro projeto
seria a sala da casa
à qual eu te levaria:
paredes todas em branco,
um canto de alvenaria,
antigüidades e um banco,
pra côrte de todo dia.

Já se eu fosse o delegado,
deixava tudo lavrado
para pôr-te atrás das grades
em uma cela dourada
com almofadas de seda,
cadeirinha laqueada,
pra que, prisioneira leda,
te confessasses amada.

Médico ou bom enfermeiro,
te atenderia primeiro
pra garantir-te a saúde.
Só depois eu pensaria
em descobrir o que falta
pra te manter mais um dia,
para adiar tua alta
e ser eu tua terapia.

Mas sendo só o que sou,
misto de Moe, Larry e Joe,
nem sei se me reconheces --
ou mesmo se gostarias.
Afinal, um perdedor
não pode ter fantasias,
pendores, seja o que for,
pelo amor que não darias.



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1.3.06

Decassílaba fábula

O rato sai do lixo e vai à fresca;
encontra uma barata a passear,
a apreciar visão tão pitoresca,
sorver a fedentina que há no ar.

Às tantas, cumprimentam-se, educados:
-- Boa tarde, roedor, o que me contas?
-- Cascuda amiga, conto só bons fados,
aqui as alegrias já vêm prontas.

-- Ah, amigo dentuço, não sei não.
Sempre que achamos um lugar bacana,
temos de enfrentar aquele furão
tão repugnante: o da espécie humana.

Imagina só que não há veneno
ou praga para esse bicho daninho!
-- Cara, pois acha-se esperto o ingênuo:
ele ainda vai se acabar sozinho.

--Acreditas nisso, meu caro? -- Sim,
estimada. Procura observá-los:
que outra espécie, a não ser já no fim,
deixa os seus à fome e nutre cavalos?

Que outro bicho é tão imprevidente?
Me diz: quem mais empesteia água e ar?
Acalma-te, barata. A tal gente,
não demora muito, vai nos deixar.

-- Rato amigo, é assim que te parece?
Não crês tu que eles são uma ameaça,
que a cada ser humano que aparece,
maior risco à tua e à minha raça?

-- Acalma-te, ora pois, estão no fim!
Devastam-se a si mesmos, são suicidas.
Logo mais, a continuar assim,
salvarão, sem querer, as nossas vidas.

-- Oh!.. Diz, rato, não sentes algo estranho?!
-- Ora essa... Mas... Espera! O quê?!
Sinto sim! Um gosto de água do banho!
Estou tonto... Já sei: é o DDD!

-- O que é isso? -- Veneno de barata!
-- De barata?! -- E de rato também!
-- Mas como? Essa coisa então nos mata?
-- Sim! E eu que estava a viver tão bem...

-- Mas tu disseste há pouco que eram eles,
os seres que estariam por morrer.
Tu crês (embora agora te assemelhes
a um incréu) que lhes vais sobreviver?

-- Nem eu nem tu, insolente barata.
Como é que pude crer em tal discurso
e achar que tal falácia era sensata?
Caí no engodo de um amigo-urso.

-- Caíste tu, levaste-me contigo!
Agora, que vou desta pra melhor,
não é outro, mas tu, o urso-amigo.
Em ti fiei-me, levei a pior.

Um homem que passava ali os viu,
ela falecida, ele moribundo.
Balançou a cabeça, então seguiu:
-- Que nojo! Isso é mesmo o fim do mundo.

Moral da história: Mata quem pode, falece quem não tem juízo.



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