dito assim parece à toa

24.2.06

F for fake

É engraçado como até a etimologia das palavras é manipulada. Ex-alunos do versátil mistificador Olavo de Carvalho costumavam ficar fascinados com o que descobriam sobre os desígnios da língua. Um deles, amigo e inteligente, me dizia que tinha ficado muito impressionado ao descobrir a origem da palavra doente: "Do mais ente", ele me dizia entusiasmado, "do próprio ser. Não é genial? Significa que a moléstia, na verdade, vem da própria vítima, nasce dela." Fiquei aflito, tentei lembrar-lhe a conexão mais óbvia com a palavra dor e o verbo doer, tentei fazer ver que, se a origem fosse mesmo essa, teríamos essa pista em outras línguas, algo como fromthebeeing ou duêtre ou ainda delente. Não. Nada arrefeceu seu entusiasmo filológico.

Fiquei a matutar: as pessoas constróem a história mais ou menos do jeito que lhes parece fazer mais sentido, de forma a se encaminhar ou para um final feliz ou a partir de um início coerente. Em plena distração, pilhei-me a construir minha própria etimologia. E feito o Américo Pisca-Pisca do Lobato, compus uma pequena natureza lingüística, tomando o exemplo do "do-ente". Vejamos como as palavras traduzem as coisas. Ou poderiam traduzir:

Alameda: origem bem clara, vem de Ala e Mêda, lugar por onde as pessoas passavam com apreensão, devido à sombra das árvores.

Atenção: também bastante evidente: vem de À e tensão, refere-se a um momento em que, da tranqüilidade que vem de estar distraído (ver verbete abaixo), movemo-nos à tensão de estar alerta.

Bebedouro: há controvérsias, mas a versão mais aceita pela medicina alternativa é a de uma louvação à hidratação: Beber+d'ouro.

Confiar: significa construir juntos, tecer juntos, con-fiar.

Desafiar: significa multiplicar a fiação supracitada por dez, daí o senso de dificuldade e superação embutido na palavra.

Distraído: significa o estado da mente em que tudo é confiança e o ser humano sente o oposto do que sentiria se traído.

Equânime: de Equus, cavalo, e anima, alma, com alma de cavalo, lembrando o fato pouco conhecido de que o cavalo é o mais equilibrado dos seres.

Filiação: refere-se à ação dos filhos, por analogia, tomado o partido político como pai, seus membros tornam-se filhos, filiam-se.

Geladeira: refere-se aos primeiros comerciantes de gelo no Brasil, mais precisamente na capital paulista, os índios da tribo Gê. Com sua topografia irregular, São Paulo exigia sacrifícios de seus comerciantes, como por exemplo, transportar enormes blocos de gelo ladeira acima. Daí, Gê-ladeira (N. do A.: não resisto a dizer que este verbete ombreia o do-ente acima citado).

Intervalo: refere-se à separação de dois terrenos ou mesmo duas casas, por um sulco profundo na terra, donde inter-valo.

Jaleco: traje, espécie de sobrecasaca leve, inventado na cidade de Jales.

Lamentar: refere-se a uma desconexão entre a mente e o inconsciente; o indivíduo que reclama lá menta, usa a mente deslocada de seu próprio eu interior individual íntimo.

Minuta: feminino de minuto. Como se sabe, a mulher é mais demorada do que o homem, daí a idéia de que o feminino de minuto seja usado para designar uma peça que normalmente é burocrática, por vezes imprecisa e demorada, além de sempre demandar correção.

Notário: que ou aquele que registra notas em um cartório ou repartição. A origem da palavra é obscura, mas designa aquele que evita que um cidadão sofra um estelionato: Não-otário, por redução, N'otário e notário.

Ônus: Despesa cuja paga é muitas vezes dolorosa.

Padaria: Lugar onde se vendem ou se fabricam pães. Panifício, panificadora. O nome em pauta vem das primeiras panificadoras; atribui-se a uma discussão entre sócios da primeira de todas, na qual um deles reclama que o estoque nunca dá para suprir toda a demanda, ao que o outro argumentaria: Se pá, daria.

Remédio: os homeopatas decifraram a etimologia. Re-médio, aquilo que se toma e no máximo nos devolve a mediocridade.

Tortura: refere-se à deformação da personalidade de quem a perpetra: Tortura, de torto.

Universo: o que deve ser traduzido em uma só palavra, na palavra primal: Uni mais verso.

Enfim, como se vê, nos dias que correm, tudo é possível. Acredite: há diversas opções no mercado para viver esta experiência.



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23.2.06

Haiti

Um negro sangra na fotografia.
Se esvai, sabe que vai esvaziar,
vazar até recobrar a alegria,
sofrer só enquanto não sobe ao ar.

Agora, alguns segundos o separam
da vida em uma cena toda branca.
No ouvido, os tiquetaques já pararam;
no chão marrom, a hemorragia estanca.

Na foto, só se vê o agonizante,
não se percebe seu preparativo,
só a curiosidade do passante

a ver o negro que virou um crivo.
Ninguém se dá conta: está radiante,
prestes a, finalmente, ver-se vivo.



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22.2.06

Entreveros

Ofega, queixa-se dos cotovelos.
Ela apenas assente, concentrada:
o que lê tem menos ossos, mais pelos.
Quer manter-se a flutuar feito fada.

Ele, no entanto, reclama outra vez.
É azia, prenúncio de gastrite,
é certo que não dura mais um mês.
Ela lê peles chegando ao limite,

líqüidos secretados, profusão;
as linhas narram a melhor refrega.
Ao lado, ele suspeita do pulmão,

há algo na respiração que pega.
Ela, menos contida, mais pulsão,
nem ouve, nem ouvida, enquanto ofega.



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20.2.06

Como se faz terrorismo informativo? Basta estudar os métodos do PT para aprender.

Hoje de manhã, recebi um e-mail alarmado de um amigo querido, dando conta de que o jornalista Pedro Alexandre Sanches havia denunciado, em seu blog, uma desumana truculência da prefeitura de São Paulo contra uma velhinha, arrimo de família, mãe de 14 filhos naturais, dois deles maiores de idade, e mais dois adotivos. Os homens de preto (provavelmente era assim a imagem pretendida pela nota) tiravam a mulher de sua casa, sob um viaduto qualquer do centro e a deixavam sem eira nem beira, não sem antes rosnar para as crianças e pisotear sua TV.

Fui ver. No blog do PAS, não há nada a respeito, pelo menos depois de 22 de setembro de 2005. No Yahoo! e no Altavista, nada se encontra ao se buscar o texto por um de seus trechos. Nada também nos outros sites de busca.

Pode ser que o jornalista tenha mesmo escrito o que o e-mail cita, e tenha apagado do blog depois (eu teria vergonha de um texto como o que foi atribuído a ele), mas o problema não está aí. Está nas técnicas de des-informação que o PT aplica, tendo como destinatários seus simpatizantes e os incautos em geral, tentando fazer grudar na vítima da ocasião -- no caso, o prefeito José Serra -- uma pecha de vilão. O que ocorre é que, de fato, a prefeitura, o governo do estado e até, quando dá, o Lula, buscam tirar mendigos das ruas. É obrigação deles.

No entanto, apenas para embarcar na lógica dos terroristas da informação, vamos raciocinar por absurdo: a solução por acaso estaria no inverso? Incorporar os viadutos à política habitacional? Ou seria melhor esperar a distribuição sueca de renda para, então, tirar os mendigos das ruas? Tirar mendigos das ruas é o que se faz em Paris, Nova York, Moscou ou Praga (até para safá-los do frio). E é o que não se faz em Porto Príncipe, Monróvia, Maputo ou Luanda. Onde fica São Paulo?

O fato é: viaduto não é política habitacional e cata-lixo não é política de integração social. Os dois são soluções que os mais desvalidos acharam para sobreviver. O Estado deve achar as verdadeiras soluções, e não incorporar a mendicância. Mas embora isso seja o óbvio, lá vem o petismo, agora em plena convalescença, de novo se arrogar de apontador de iniqüidades onde há apenas ação de Estado, governo cumprindo dever de governo. Dá nojo ver de novo esta "novilíngua" traiçoeira fazendo politiquinha populista. Apenas espero que o pessoal respeitável do PT -- conheço muitos e privo da amizade de outros tantos -- não caia na tentação de fazer eco a isso que, nas mãos de quem manipula é uma tremenda sacanagem, e nas mãos de quem se deixa manipular é de uma preocupante infantilidade.



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17.2.06

Desconfio que os Estados Unidos da América estejam sendo governados por crianças. A Folha de hoje estampa lá no alto: Condoleeza propõe frente internacional contra Chávez. No texto da chamada, a secretária de Estado fala de "desafio à democracia" e "perigo para a região", e diz ter falado com os chanceleres do Brasil, da Áustria e da Espanha para que "prestem atenção no que se passa na Venezuela".

O Brasil e a Venezuela são países amigos, como o são o Brasil e os Estados Unidos da América. A Venezuela tem lá um bufão a conduzir seu país e seu povo, mas um bufão eleito democraticamente e com ampla maioria no congresso. Se mudou a constituição, foi porque teve todo o suporte que a democracia e seus mecanismos prevêem e pregam. Se os Estados Unidos têm uma caricatura de presidente conservador no poder, esta é uma caricatura eleita -- e isso já é motivo bastante para que seu poder seja legítimo. Lá onde moram seus eleitores, é claro.

Durante décadas, os Estados Unidos exerceram seu poder político, derivado de seu poder econômico, com muita objetividade, truculência em certos momentos, civilidade, em outros raros, mas sempre com cara de ação de profissionais. Desta vez, Condinha diz "Se você brincar com Huguinho, Condinha leva a bola embora." Georginho diz: "Condinha, por que o Sadanzinho não quer brincar de democracia com a gente?" "Eu vou tirar a bola dele, Georginho", responde Condinha, pisando duro. Enquanto isso, Dickinho Chenney brinca de bangue-bangue com o amiguinho e enche o coitado de chumbo.

O ponto é: tudo isso não é ridículo: é trágico. Afinal, os brinquedinhos que essa turma tem no armário são bastante destrutivos. E agora, o que é que o mundo faz quando eles ensaiam uma ludoterapia e nos convidam para ela?



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16.2.06

Apenas como exercício proto-intelectual, de vez em quando me ponho a imaginar o que é de esquerda e o que é de direita. Meio listinha mesmo. É uma experiência interessante, algo entre o sudoku e as palavras cruzadas sem esquema d'A Recreativa.

É claro que eu me considero um cara de esquerda. Mas eu não acredito em estado que gaste mais do que arrecada, acho saudável, dentro de limites disciplinadores, que a competição entre empresas aprimore seus produtos e aumente a oferta, não acredito mais na igualdade simplista entre os homens -- acho que há os que têm a vocação de liderança e os que não têm, há os que são menos conformados, há os que são mais incansáveis --, acho os Estados Unidos da América uma nação admirável.

Por outro lado, sou a favor das liberdades civis na forma como são traçadas hoje nos países mais civilizados, sou a favor da divisão entre religião e estado, sou completamente avesso a fundamentalismos -- a não ser o que reza que a razão deve imperar sempre --, tenho náuseas ante qualquer sinal de racismo, acho que deve-se discutir e encontrar ponderadamente os limites adequados ao direito de propriedade, acredito no papel do estado como formulador de estratégias econômicas.

Acho que a ditadura do proletariado é um mito como a volta de Dom Sebastião. Acho que falta senso de ridículo à senadora Heloísa Helena. Acho um desserviço ao país fazer crer que há um paraíso de mel, maná, ouro e orgasmos múltiplos, ocultado apenas pela malevolência de uma elite vilã.

No entanto, acho que há vilãos na elite. Eu mesmo conheço, vi com meus próprios olhos, gente que tem poder e não só comete como arrota vilanias. Mas já vi isso, também, entre companheiros. A vilania não é atributo de classe.

Continuo achando (deve ser imaturidade e idealização, confesso) Fidel Castro diferente -- e melhor -- do que Trujillo, Stroessner e Pinochet. Mas acho Stalin e Hitler farinha do mesmo saco de veneno.

Chego à conclusão de que não distingo bem o que é de direita ou de esquerda. Minha única convicção é mesmo a de que Olavo de Carvalho é um escroto. Será pouco?



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15.2.06

Pausa para uma beleza: é hoje o vernissage da exposição de Pierre Verger no MAM. É ali no Parque do Ibirapuera, você sabe, embaixo da marquise para a qual Oscar Niemeyer torce o nariz, junto ao Pavilhão da Bienal, bem nas costas da aranha portentosa de Louise Bourgeois, a partir das 19 horas



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14.2.06

Recomendo a todos a leitura da matéria de capa da Ilustrada de ontem, A culpa é nossa, um perfil e uma entrevista com o historiador João Fragoso, professor titular da UFRJ. Como sei que é difícil recomendar matéria de jornal velho, passo aqui um link onde quem tem acesso ao UOL poderá encontrá-la.

O entrevistado é autor de Homens de Grossa Aventura (editado pela Civilização Brasileira) e O Arcaísmo como Projeto (também da Civlização Brasileira, co-autoria de Manolo Florentino). Fragoso expõe uma visão nova da história do Brasil, rompendo com as chamadas "teorias da dependência", que têm em Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Novais alguns de seus principais expoentes.

Com os limites da superficialidade que uma entrevista de jornal impõe, é possível ver algo enfim novo no pensamento brasileiro de origem marxista. Fragoso ataca um dos pilares da nossa historiografia da segunda metade do século 20 para cá, que é a visão de que a sociedade brasileira como a conhecemos é reflexo e arremedo da sociedade européia, e fruto da espoliação imposta pela metrópole. Fragoso coloca que esta visão é simplista e que, dentro da estrutura de dominação, formou-se no Brasil colonial uma sociedade que desenvolve sua própria lógica econômica, suas estruturas peculiares de poder, e que chega à independência com suas elites consolidadas e as particularidades da sociedade bem definidas.

O bottom-line disso é algo que há tempos já me aperta o sapato, e de que já falei aqui: de certa forma, a teoria da dependência e seus filhos teóricos trazem a idéia de que todas as mazelas da sociedade brasileira vêm de um opressor eterno -- e externo. Se antes era a metrópole, que impunha a escravatura e a espoliação, o que veio depois foi fruto disso, com elites que reproduziriam a dominação do "antigo regime" e oprimidos que, simetricamente, reproduziriam seu próprio jugo.

Simplificando, tudo culpa das elites, e de elites alienígenas. O mais esquizofrênico é que mesmo membros dessa elite atribuem à outra parte o problema, gerando uma estranha divisão entre elite vilã e elite boazinha. As teses de Fragoso parecem romper com essa lógica e nos colocam em discussão algo mais afeito a uma sociedade que quer e precisa crescer: se há um ente responsável pelas mazelas que afligem a sociedade brasileira, este ente é, antes de tudo, ela própria. Como diz o título da matéria da Ilustrada, A culpa é nossa. Ou, nas palavras da historiadora e professora emérita da UFRJ, Maria Yedda Linhares, citada na matéria da Folha: O Brasil se tornou independente em 1822. Depois disso, é falta de vergonha.



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13.2.06

Fazer poema, lá na Vila, é um brinquedo, já dizia o poeta maior da Vila Isabel, o Castro Alves do samba, Noel Rosa. Tempos atrás, cometi um deles e, quando acabei, o severo superego que às vezes dá ponto ali a meu lado me olhou de cima a baixo e, só com o olhar, me disse: "Isso é brincadeira." Após uma pausa, mais suplicante, continuou: "Espero". Passado o tempo, depois de anos de autopsicanálise, o superego foi-se relativizando, e eu pude responder a esta porção tão mal-humorada de mim mesmo: "É brincadeira, sim, e daí? Por que não posso usar uma palavra desse jeito?". Ele apenas balançou a cabeça, como se estivesse em frente a uma causa perdida. Só para desdenhar esse barbudo que mora em mim e não cansa de exibir seu atributo de super, publico aí embaixo o poemete da discórdia. Tomou, papudo?

Não

Não sei se plácido ou viking,
não sei se tímido ou dândi,
não sei se há gafes que expliquem:
não entendo um não tão grande.

Não há razão aparente,
não há hiato ou ditongo --
não a mais do que se sente.
Não entendo um não tão longo.

Não há história que negue,
não falta história que conte.
Não só eu, mas eu entregue,
não entendo o que me aponte:

não sou mais que mero amante,
não me pus a duvidar,
não se vê quem tanto a cante,
não sei mais o que cantar.

Não nego que sou meloso,
não acho que sou galã,
não prezo o pouco que ouso,
não sei se sei seu afã.

Não verso ao amor sincero,
não trato nem de tesão,
Não nego: é você que eu quero,
não quero, de novo, não.



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10.2.06

Caro Professor Pasquale,

Estou sofrendo. Não tomaria seu precioso tempo e seu disputado espaço na caixa de e-mail, não fosse por isso. A razão do meu penar é o uso do gerúndio.

Explico-me: há coisa de uns dez anos, como você bem sabe, espalhou-se uma daquelas febres, tão comuns no Brasil, cujo sintoma visível era o uso compulsivo de locuções verbais compostas do verbo auxiliar "estar" e qualquer outro verbo no gerúndio. Ficou, pois, célebre a figura das operadoras de telemarketing a prometer mundos e fundos, sempre com algo como "eu vou estar falando com meu chefe", "nós vamos estar resolvendo seu problema", e por aí afora.

Quando tudo parecia perdido, quando já considerávamos que mais este "americanismo" tomaria conta da nossa língua portuguesa, uma reação popular, iniciada em colunas como a sua, sobre a nossa flor do Lácio, conteve a febre, não sem antes batizá-la de "gerundismo".

Pois é, caro professor, sanado um mal, nasceu dele outro. Agora, a moda é condenar os gerúndios, sejam eles quais forem. É incrível como qualquer palavra terminada em "ndo" é mal falada. A pobre forma nominal, singela, de uso corrente no português do Brasil, é hoje vista como a Geni da língua. Não há gerente de marketing que não olhe com espanto, piedade ou raiva um texto onde apareça um verbo no gerúndio. Grandes redatores têm ficado mal-falados. Revisores consagrados são objetos de comentários maldosos nos corredores. Peças magistrais têm ido para o lixo por causa do simples uso de um gerúndio.

Sem ter a quem mais apelar, professor, resolvi desabafar consigo, um consagrado guardião do idioma de Camões, e pedir-lhe orientação. É como redator que busco o sustento de duas filhas lindas. É deste ofício que obtive a parca mas digna reputação de que me orgulho. Agora me vejo proibido pelos fatos de usar instrumento tão singelo e útil como é o verbo no gerúndio.

Que devo fazer? A forma usada em Portugal, com a preposição "a" e o verbo no infinitivo, é igualmente rejeitada, por estranha que é. Penso já em mudar de profissão. Tentei mesmo um emprego de corretor de imóveis, mas quando abri o coração para o dono da imobiliária e disse "Seu Sidnei, estou precisando de um emprego", ele respondeu "Emprego não, meu filho, você precisa de um professor de português".

À espera de um pouco luz, agradeço

atenciosamente,

Jayme Serva

PS: Quase escrevi "Esperando", logo acima, mas me contive a tempo.



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9.2.06

Enquanto o Márcio não vem (questão de tempo), deixo por um instante de lado a discussão da política local para tocar em outro assunto, talvez mais delicado, certamente mais complexo. A Folha ontem publicou a carta de um leitor, que reproduzo aqui: Duvidar do holocausto? Não pode. Menosprezar negro? Não pode. Ridicularizar homossexual? Não pode. Diminuir as mulheres? Não pode. Caricaturar o profeta e ofender muçulmanos? Sim, sim, claro, afinal temos de defender a liberdade de expressão.

Por mais que a primeira leitura dê um certo arrepio e pareça comparar coisas desproporcionais, uma reflexão cuidadosa coloca de fato uma questão: pode-se caçoar de uma religião a partir de seus princípios mais sagrados? Será que o jornal que caricaturizou Maomé faria uma caricatura de Jesus Cristo, digamos, dizendo a um padre pedófilo que "vinde a mim as criancinhas" tem, na verdade, outro sentido?

Padres pedófilos são exceções, aberrações do cristianismo, como me parecem ser os homens-bomba para o Islã. Mas o que se discute vai um pouco além: o que se deve respeitar em jornalismo? Quais os limites entre o exercício da legítima liberdade de expressão e uma postura editorial correta e respeitosa? Confesso que, quando vi a caricatura reproduzida na Folha, me pareceu mais desinformação do chargista e de seu editor do que uma tentativa deliberada de ofender o islamismo e seus praticantes. Mas acredito que cabia, por parte do jornal que publicou a piada, um pedido de desculpas, depois da grita inesperada. O que se viu foi, em nome da liberdade de expressão, uma postura arrogante e auto-suficiente, um déja-vu dos tempos em que o sol nunca se punha sobre os impérios europeus.

Manuais de redação e ombudsmen servem justamente para isso: para mostrar onde o jornal pode ir -- e quando tem de voltar. Isso não é auto-censura, é postura editorial responsável. Se, de um lado, os atentados a embaixadas dinamarquesas perpetrados por muçulmanos são deploráveis, o episódio todo suscita uma discussão que deve ser levada adiante: até quando o mundo ocidental, nascido dos impérios europeus, vai olhar o islamismo como uma esquisitice desprezível?



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8.2.06

Ia colocar um sonetinho por aqui, mas lá vem o PT botar areia. Pois bom: diz lá a Folha de ontem que, sob orientação do presidente Lula, o partido vai processar o presidente Fernando Henrique por declarações feitas à revista IstoÉ, dizendo coisas como "no governo Lula a corrupção tem organicidade" e que, de certa forma, os fins justificariam e perdoariam os meios, no leninismo revisitado da turma.

FHC foi bombardeado impiedosa e incessantemente pelo PT ao longo de todo o seu governo. "Fora FHC" foi a palavra de ordem do partido nos quatro anos do segundo mandato. O ex-secretário Eduardo Jorge foi um dos judas da malhação petista. Nada se provou. Nada. Já me manifestei aqui contra -- e mantenho e manterei essa posição pessoal -- a cassação do deputado José Dirceu porque simplesmente não há provas que a embasem. Não pode haver condenação sem prova, muito menos baseada nos desejos e idiosincrasias de um partido.

Já no caso do PT, diferente dos dois citados, basta ver seu ex-tesoureiro confirmando pateticamente seus deslizes, defendendo-se apenas quando chama o caixa 2 pelo eufemismo "receitas não contabilizadas". As provas são incontestáveis, até porque algumas delas saíram da boca de quem cometeu o delito.

Pois é exatamente essa agremiação, que deveria estar com o rabo entre as pernas e o cilício amarrado em uma delas, que agora vem, a pedido e orientação de seu líder maior, se ofender com a entrevista de um homem que é filiado a um partido, é dele uma importante liderança e, nessa condição, deu o tom da oposição a ser feita. O PT deveria achar isso um afago, perto do que fez até chegar ao poder. Fazer beicinho e ir à Justiça nessa altura é de um cinismo sem par.

O pior de tudo é que o cinismo ali se revela como a nata que sobe do leite: tem menos volume mas mais substância e, quando vem ao alto, deixa o que fica embaixo esquálido. No caso do PT, o nutriente sobre o qual o cinismo flutua é uma bem-intencionada mas desnatada ingenuidade. É ela que vai servir -- como sempre serviu no passado -- de massa de manobra, de bucha de canhão na sangrenta batalha que se desenha para 2006.

Quando a poeira baixar e a ficha cair, sobrará o PSOL ou o niilismo. O que é quase a mesma coisa.



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6.2.06

A semana começa com duas boas notícias para São Paulo, uma vinda do Peri S. Coppio, atento amigo da cidade, dá conta de que a prefeitura vai retomar a idéia de um concurso público de projetos de arquitetura voltados ao que fazer com o Minhocão. Meu projeto é simples demais para ser escolhido: dinamitação.

A outra boa nova vem do Blue Bus, e conta que o prefeito Serra e o subprefeito Andrea Matarazzo pretendem incentivar as agências de propaganda a se instalar no Centro. Bom para a cidade e bom para as agências, que talvez saindo das torres de vidro preto da Berrini, voltem a falar a mesma língua do resto do país e parem de fazer piadinhas de publicitário para publicitário. Isso, aliás, parece ser uma perigosa doença que se adquire ali às bordas do rio Pinheiros, talvez pela quantidade de cocô-liformes, talvez pela proximidade do córrego da Traição.

Vamos ver no que isso vai dar. A cidade seria muito mais agradável se recuperasse seu centro, e remover o monstruoso elevado (que ironicamente tem o nome do ditador que assinou o AI-5) e promover a reocupação da região pela indústria de serviços são caminhos excelentes para chegar a isso. Se convocada, a Milk vai para lá.



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3.2.06

Fragmento de "O Preço do Peixe", 17

O bar era o Pari Bar, ali perto da Praça da República. Os tempos eram aqueles em que Paulo Maluf ainda não tinha inventado o minhocão e a cracolândia. Os dois amigos saíram, depois de pagar a conta e dizer "até amanhã" ao garçom, e seguiram a rotina daqueles happy hours de antigamente, que começavam lá pelas 5 da tarde e terminavam a tempo de pegar o jantar com a mulher e as crianças.

Seguiram a rotina de usar sempre um carro só. Moravam perto, cada vez um se dignava a tirar o carro da garagem. Naquele dia, o amigo mais extrovertido e mais forte é que estava ao volante. Subia tranqüilo a General Jardim quando, ao passar pela praça Rotary, em frente ao prédio da Norton, viu uma cena dantesca: um mendigo estava dando uns bofetões em uma mulher, aparentemente tão pobre quanto ele, em plena calçada.

O amigo ao volante avisou o outro que ia parar e intervir. Estacionou meio torto, desceu, agarrou o indigente e lhe deu uns dois ou três tabefes, poucos, mas fortes o suficiente para amansar o agressor. Ia começar a lição de moral quando ouviu um urro atrás de si. Não teve tempo de se virar, recebeu uma porretada na nuca, desferida pela até então vítima, que trazia à mão um pedaço de caibro de mais de meio metro. Caiu no chão apenas para tomar uma saraivada de pancadas fortes.

Depois da interferência do amigo mais contido, a mulher parou. O fortão ainda teve disposição de dizer:

-- Mas eu estava defendendo você!
-- Moço, quem me defende é ele, quem defende ele sou eu. Já é tarde. Por que o senhor não vai defender sua mulher?

Amparado pelo amigo, o fortão voltou ao carro e acelerou para casa. Não sem antes ajeitar o retrato da mulher na carteira.



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2.2.06

Mini 76

De duas, uma: era feliz e não sabia ou era corno. Encontraram-se para uma conversa definitiva. Era para ser um lugar mais romântico, mas acabou sendo ali, atrás da igreja da Consolação, a meia distância de onde ele ia parar e carro e ela, descer do trólebus. A praça Roosevelt era ainda um grade estacionamento cimentado, nada romântico, bom mesmo para acabar romance. Ela chegou pronta, ele também. Ali, em pé, ao pé da nave, aos pés da santa cruz, se entenderam. Ou melhor: ele entendeu: era feliz, era corno e finalmente sabia. Ela caminhou uma quadra grande e pegou o trólebus que subia a rua Augusta. Ele foi sozinho no carro até o lugar onde se encontrariam, ali pelo Trianon, talvez para um chá, talvez para conversar e discutir.



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