dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
31.1.06
Novo BBB Brasil O Frankamente começa hoje uma campanha cívica que poderá revolucionar a mídia e as relações do brasileiro com seus espetáculos cada vez mais reality. A proposta é justamente essa: dar um choque de reality em um lugar que está muito ligado à fantasy. A proposta é que se crie já um novo reality show que tenha a relevância que o tal Big Brother Brasil não tem: o Bam Bam Bam Brasil. O novo programa seria estruturado a partir de câmeras estrategicamente colocadas nos palácios, nos escritórios e nas autarquias onde os bam-bam-bans estão. A idéia é segui-los 24 horas. Vê-los acordar de manhã, escovar os dentes, fazer seu pipizinho e o que mais tiverem de fazer, ver se usam ou não o bidê. É claro que esta parte íntima seria o condimento do programa, mas a parte mais relevante do enredo seriam as reuniões e os telefonemas. O primeiro Bam Bam Bam Brasil seria realizado já com o grande bam-bam-bam: o presidente Lula. Durante o que resta de seu mandato, veríamos, 24 horas por dia, tudo o que o primeiro mandatário faz, seus hábitos rotineiros, seus pequenos cacoetes, seus telefonemas, seus e-mails, suas reuniões. Cheguei a pensar que talvez a cama do primeiro casal pudesse ficar de fora do campo de visão das câmeras. Mas logo imaginei o que poderia acontecer: calada da noite, vemos, naquele tom de verde das luzes apagadas, câmera plongé, grande-angular, para pegar o quarto todo, ficando apenas a cama preservada por uma grossa cortina, ou mesmo uma vedação de compensado, dona Marisa se preparando para ir dormir. Depois de escovar os dentes, ajeitar a camisola, ela vai até o leito presidencial. Sai da visão das câmeras e, ato contínuo, ouvimos um grito de terror. -- Aaaaaaaahhhh! O que o Palocci está fazendo na minha cama?? Logo a voz rouca do primeiro marido tenta aquietá-la. -- Calma, Marisa! Onde mais você queria que a gente conversasse a sós? Como se vê, o Bam Bam Bam Brasil pode ser o grande sucesso da temporada. Só falta levar a idéia à TV Globo. Quem se habilita? | 30.1.06
Semana passada, estive fora de São Paulo -- e do blog -- por dois dias. Fui a Salvador para uma reunião na Fundação Pierre Verger. Verger, depois de ter fotografado o mundo todo, parou no Rio de Janeiro, lá por 1946. Ali na capital federal, conseguiu um contato com Leão Gondim de Oliveira, homem dos Diários Associados, editor da revista "O Cruzeiro", que se encantou com suas fotos. Reza a lenda que outro fotógrafo francês, Jean Manzon, o homem por trás das melhores fotos da revista de Chatô, teria sentido o potencial do conterrâneo e, com zelo por sua própria carreira, teria sugerido a Gondim que Verger fosse fazer uma fotos na Bahia. Verger se apaixonou pelo que viu por lá e fez algumas séries de fotos para "O Cruzeiro" em Salvador e no Recife. A Bahia conquistou o francês, que ali se estabeleceu. "Depois de 14 anos, agora já posso receber cartas, já tenho endereço", brincava. Não que tenha parado de viajar, dois anos depois de chegar à Bahia fez uma de suas mais frutíferas viagens à África. Mas a boa terra o havia conquistado, a ponto de fazê-lo assumi-la por completo, não com uma naturalização, mas com uma conversão: Verger adotou a religião afrobrasileira e, no Candomblé, mudou seu nome para Fatumbi. A casa simples onde fica a sede da Fundação Pierre Verger, no bairro do Engenho Novo de Brotas, dentro da antiga favela de Vila América, era a residência de Verger. Quando morreu, em 1996, deixou como legado a Fundação e algo como 60 mil negativos em perfeito estado de conservação. A Fundação hoje é presidida por Gilberto Sá, homem de fala mansa, sorriso aberto e olhos verdes que contrastam com a atmosfera meio africana do lugar. Membro de uma das mais tradicionais famílias da Bahia, Sá foi amigo pessoal de Verger e já há seis anos está à frente da instituição que viu nascer. A suavidade que traz na voz contrasta com a firmeza com que defende os interesses da Fundação. Ao mesmo tempo, é notável como ele se sente à vontade ali, sem tentar disfarçar sua origem de classe, mas absolutamente integrado ao lugar e às pessoas. Coisas da Bahia. A partir de 15 de fevereiro, uma quarta-feira, o MAM inaugura uma grande exposição com mais de 300 fotos de Verger. Para quem ainda não conhece, é uma chance de ver uma obra que tem a mesma magnitude que se vê em Cartier-Bresson ou Robert Doisneau. Para quem é iniciado, será interessante ver ver fotos pouquíssimo conhecidas ou mesmo inéditas, jamais ampliadas antes. Um evento para não perder. Como "teaser", visite o site da Fundação Pierre Verger, conheça sua biografia e passeie pelo acervo. Você verá mais uma vez que a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem. Agora pelos olhos de um francês chamado Fatumbi. | 27.1.06
Os dois dias sem escrever nada por aqui têm uma razão que os justifica: estive a trabalho na cidade da Bahia, também conhecida como Salvador. Lá, tive uma agradabilíssima surpresa ao conhecer in loco a Fundação Pierre Verger. O lugar e seu inspirador merecerão um texto mais longo por aqui, já concebido em seu esqueleto, à espera apenas do devido fornimento. Pude também ver o eterno processo de restauro do Terreiro de Jesus. A Bahia, embora em golfadas, preserva seu patrimônio histórico de forma mais apaixonada do que Rio e São Paulo. Bom para eles. | 24.1.06
Mini 75 Não tão velha, apesar dos cabelos brancos, levantou os peitos quase em ordem quando o rapaz apareceu logo atrás dela, na fila do caixa do supermercado. Usava uma saia curta e uma blusinha leve, sem mangas. O garoto fixou os olhos nos mamilos que apontavam de sob o tecido leve. Ela riu para o homem do caixa e fez um comentário sobre a demora no processamento do cartão. Não deu mostras de entender o que o rapaz cobiçou. Não tão jovem, ele pensou ter escapado. Encontraram-se uns dias depois. Nada. Ela sorriu. Ia vê-lo logo, na esquina, um quarteirão mais tarde. Veneno posto, o resto era tempo. Prudência, apenas, manter os peitos em ordem. | 23.1.06
Depois de ler o mini abaixo, dê uma olhada neste ponderado texto do Reinaldo Azevedo, do Primeira Leitura. | Mini 74 Nunca tinha se visto no espelho -- pelo menos, não daquele jeito. Tomou um susto, na primeira vez. Sorriu. Viu um sorriso de TV. Virou o rosto para um lado e para o outro. Era uma foto da Contigo. Gargalhou. O cinema por certo era assim. Sua mãe interrompeu a fruição da descoberta. Mas agora, ela já sabia de tudo. Desceu para a cidade cheia de espelhos, logo de manhã cedinho. Descobriu mais: peitos, barriga, pernas; pescoço, esterno, umbigo; poses, pulos, acenos. Nunca tinha visto tudo junto, apenas partes da rotina, dentes, cabelos, remelas, mais recentemente, sovaco, penugens, pelos. O todo se revelou depois do beijo que o moleque lhe roubou quase a força. Ainda o sentia nos lábios quando olhou o espelho. Que pena: tinha de dizer a ele obrigada, desculpe e nunca mais com você. | 20.1.06
Deu hoje no Blue Bus que a mais nova pesquisa encomendada pela revista IstoÉ sobre as tendências do eleitorado na eleição presidencial apontam reação do presidente Lula: 35 a 31%, se o adversário for José Serra, e 38 a 17%, se for o governador Alckmin. Isto tem, para mim, três possíveis -- e não excludentes -- leituras. A primeira é que esse resultado joga um balde de água fria na tese que Alckmin e seus seguidores tentavam passar aos tucanos e demais possíveis aliados, a de que a derrota de Lula era fava contada, o presidente vinha numa ladeira abaixo sem fim e, portanto, qualquer candidato tucano levaria a eleição com facilidade. O ibope mostra que não é bem assim: apenas começou a exibição de obras e intenções do governo federal, e as posições já oscilam a favor do petista. Mais uma vez, fica claro que um certo pendor assistencialista gera reação positiva da população carente do Brasil -- sua absolutíssima maioria. A segunda leitura é a de que o açodamento por ter o nome indicado do lado tucano pode ser uma faca de dois gumes (a expressão mais desgastada da língua portuguesa, depois de "atendimento personalizado"). Se, de um lado, a possibilidade real da vitória de Lula pode assustar aos dois pré-candidatos, ela tem dois efeitos na pré-candidatura Alckmin. O primeiro é positivo, embora paradoxal: quanto maiores as chances de Lula, maiores os riscos de Serra ficar sem a presidência depois de ter jogado fora três anos como prefeito de São Paulo. Como Alckmin não tem nada a perder -- não pode mais se reeleger governador, e teria um fortíssimo Suplicy como adversário se se candidatasse ao Senado --, um eventual favoritismo de Lula não tiraria sua disposição de disputar. O segundo efeito é negativo: se antes alguns tucanos achavam que, mais dia, menos dia, Alckmin teria um desempenho nas pesquisas que viabilizaria sua candidatura, agora passam a ver em Serra a chance única de uma eleição segura. O que era uma disputa interna passa a virar consenso. O terceiro ponto que se vê é mais singelo, e talvez seja aquele a se prestar mais atenção. Meu amigo Ricardo Santos costuma contar uma historinha sobre o imperador romano Júlio César. Diz ela que, a cada vez que César voltava vitorioso de uma batalha, ao entrar em Roma conduzindo sua biga, era ovacionado, ao longo de todo o trajeto, por uma multidão que o considerava um semideus. Reza a lenda que o imperador trazia, oculto na biga, um anãozinho, cuja tarefa era a de dizer a ele, sem parar: "Você é feio e careca, você está ficando velho, lembra da artrite, seu nariz é muito grande" e outras coisinhas mais que lhe davam a dimensão de seus reais limites e lembravam-lhe sua condição humana. Com isso, César considerava que manteria a razão e resistiria às tentações traiçoeiras da vaidade. Mal sabem o Ibope e a IstoÉ, mas eles agora são os anõezinhos na biga dos tucanos. | 19.1.06
Futura Na TV, a nave vai a Plutão; a mão ao lado escreve sem papel; no céu, a onda, o samba, o avião. Tudo existe, voa, vai-vem ao léu. Passa o tempo zunindo, supersom, passa, trêmula, a vida no varal, a secar até o verdadeiro tom enxuto e limpo que tinge o final. Vi tudo a passar rápido demais. No entanto, vejo-a jovem como antes, jovem como -- bem sei -- não fui jamais. Quando nos amamos feito imigrantes, sua face apaziguada, seus sinais indicam futuro, não doravantes. | 17.1.06
Há músicas melhores, há músicas piores. Mas há algumas que são especialmente lindas de se ouvir -- e isso é totalmente pessoal e intransferível. Estão, entre as minhas, selecionando aqui apenas aquelas do universo popular, não erudito, cantadas ou tocadas por brasileiros (nenhuma exacerbação de nacionalismo, apenas economia de espaço e pretexto para um segundo post) e, à exceção (obrigado, Marcio!) de uma apenas, não compostas por quem as interpreta: Marina (Dorival Caymmi), com Gilberto Gil, Izaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti), com João Gilberto, Folha Morta (Ary Barroso), com Cauby Peixoto, A Rã (João Donato e Caetano Veloso), com Caetano Veloso, Chove Lá Fora (Tito Madi), com Milton Nascimento, Volta (Lupicínio Rodrigues), com Gal Costa, Você (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli), com Dick Farney e Norma Bengell, Tarzan, o Filho do Alfaiate (Vadico e Noel Rosa), com Djavan (cantor que normalmente eu acho um pé no saco), Arrastão (Edu Lobo), com Elis Regina, E o 56 Não Veio (Wilson Batista), com Paulinho da Viola e Roberto Silva, Canção que Morre no Ar (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli), com Sylvia Telles, Surfboard (Antônio Carlos Jobim), com Roberto Menescal, Recado à Solidão (Chico Feitosa), com Maysa, A Voz do Morro (Zé Ketty), com Luiz Melodia e a Orquestra Tabajara, Fascinating Rithm (George e Ira Gershwin), com Antônio Carlos Jobim, Valsa de uma Cidade (Ismael Netto e Antônio Maria), com Lúcio Alves, Astronauta (Baden Powell e Vinicius de Moraes), com Cyro Monteiro. Desculpem pelo ar estudantil deste post, mas não resisti. | 16.1.06
Michelle Bachelet foi eleita ontem presidente do Chile. É a primeira mulher a assumir esse cargo na história do país. Bachelet é do Partido Socialista, e teve algo como 53% dos votos válidos dos chilenos, contra o candidato conservador Sebastián Piñera. Com isso, a Concertación, coligação de centro-esquerda que governa o Chile desde 1989, completará, ao fim de seu mandato, 20 anos no poder. E nós com isso? Bom, em 1989, o Chile vivia um momento crucial de sua história. Depois de quase 17 anos de uma ditadura sangrenta e radical, comandada pelo general Augusto Pinochet, que matou, segundo dados conservadores, algo como 4 mil cidadãos chilenos, uma eleição livre escolheria o novo presidente do país. Um ano antes, os chilenos haviam dado prova de uma inesperada consciência política, ao dizer "não" em plebiscito que visava referendar mais oito anos de poder para Pinochet. A oposição ao ditador havia conseguido essa proeza sob todo tipo de dificuldade, a começar pelo cerceamento do direito à livre informação. E o que era essa oposição? Era composta de todas as forças democráticas atuando no Chile, dos socialistas aos democratas cristãos, todos com um objetivo comum: a redemocratização do país. A vitória do "não" levou à convocação de eleições presidenciais no ano seguinte. Pinochet lançou como candidato seu ministro da economia, Hernan Büchi, um jovem cabeludo, descendente de alemães, com formação nos Estados Unidos e fama de ter acertado a economia do país. Büchi parecia um contraponto moderno à figura soturna do General. Com a liberdade de expressão cerceada, suas chances pareciam grandes. Contando com a eterna divisão das oposições, era fava contada. No entanto, a oposição entendeu o momento histórico que vivia e seus líderes praticaram a difícil arte de engolir sapos em nome de um futuro. A Concertación, formada para apoiar um fácil e óbvio "não", manteve-se, agora para fazer uma transição delicada e complexa. Juntos, esquerda e direita democrática -- leia-se democratas-cristãos, os arrependidos do golpe de 73 -- lançaram e sustentaram a candidatura de Patrício Aylwin, um parlamentar democrata-cristão a quem as más (e algumas boas) línguas acusavam de alegre conivência com os primeiros tempos do golpe. Unidos, ganharam, "don Pato" Aylwin assumiu e conduziu os primeiros anos da transição. A Concertación havia feito um acordo pelo qual, nos dois primeiros mandatos, a presidência caberia aos democratas-cristãos e, em seguida, aos socialistas. Assim foi: depois de Aylwin, Frei, depois Lagos e, agora, Bachelet. Essa transição termina com a eleição da primeira presidente mulher da história do Chile. É provável que os partidos da Concertación sigam sozinhos a partir de 2010. O fato é que o Chile conseguiu ter projeto e implantação de uma transição democrática de forma muito bem sucedida. Já aqui, PT e centro-esquerda (leia-se PMDB de Tancredo, Montoro e Ulysses, depois PSDB), jamais conseguiram se unir em torno de um projeto mínimo. O resultado tem sido esse mesmo: mínimo. A centro-esquerda se divide, a direita também e o atual PMDB flutua no meio. Projetos, cada vez mais só os pessoais. Política, cada vez mais só a mais rastaqüera. Em vez de cultivarmos uma geração de líderes que preenchesse a lacuna deixada pela ditadura, vimos crescer uma floresta de cactos com profusão de valdemarcostanetos aceemestambémnetos, jpcunhas, delcídios e outros espécimes tão nanicos quanto. Resta a nós ainda alguma esperanças de que essa eleição no Chile sirva mais uma vez de lembrete. Duvido. | 13.1.06
Soneto sobre falta Há quem diga que saudade dói. Não. Saudade tem efeito de veneno, curare. Pára um dos dedos da mão, depois a palma, o pau, o duodeno, o corpo todo, menos o pulmão. Assim, a vítima respira a pleno, mantém-se viva, ela e a sensação de ter no peito um coração pequeno, bem pequeno: nele só cabe dor e, a cada hora, uma palpitação. Nada reage, seja lá o que for que tente lhe trazer consolação. A paralisia vira estupor, o doente morre, mas parece são. | 12.1.06
Por razões que o coração explica, ouvi repetidas vezes o disco "Eu não tenho onde morar", de Dorival Caymmi, lançado em 1960 pela Odeon, e que tenho em uma versão CD, lançada em 1993, que traz também as canções de "Caymmi e seu violão", LP de 1959. Chama a atenção, desde logo, a capa de César Villela, que eu considero o Reid Miles brasileiro (Miles, para quem não é Pecus Bilis, foi o notável artista gráfico que fez a maioria das capas do selo Blue Note). É uma pena que a reprodução no CD não permita ver a qualidade do design de Villela. Com produção esmerada de Aloysio de Oliveira, "Eu não tenho onde morar" é uma pérola da música popular brasileira. Pouco depois, em 1963, Aloysio fundaria seu próprio selo, o Elenco, que marcou época com LPs famosos, como o de Tom Jobim "The composer of Desafinado plays", "A bossa nova de Roberto Menescal" e o obrigatório "Caymmi visita Tom", quase sempre com capas notáveis dele: César Villela. Em "Eu não tenho onde morar", Caymmi dá uma virada impressionante (é bom ter o disco anterior gravado no mesmo CD, pode-se comparar com facilidade). Os arranjos do Maestro Lindolfo Gaya são precisos, na medida em que agregam uma inédita modernidade às canções, antes um pouco temperadas demais de "baianidade" e frufrus, sem tolher a personalidade do compositor e intérprete, ao contrário, aproveitando o que ela tem de melhor. Caymmi aceita e vence um desafio ao reler "O que é que a baiana tem" superando de forma original a versão consagrada de Cármen Miranda, com um andamento mais apropriado à descrição de uma malemolente mulher da boa terra. Mas é nas canções mais lentas que o disco traz o seu melhor. "Acalanto", estréia de sua filha Nana em disco, é uma peça definitiva da canção brasileira. O samba-canção "Dora", uma homenagem ao "Recife dos rios cobertos de pontes", é inesquecível, ao tratar com tanta suavidade uma musa que é "rainha do frevo e do maracatu". Em "Adeus", Caymmi dá um show de interpretação que justifica seu lugar na história como primeiro compositor importante da canção popular brasileira a ter destaque também como intérprete. Há quem diga que outro samba-canção é o grande destaque do disco: "Marina". Outros chegaram a cometer a burrada de tachar Caymmi de machista por este retrato singelo e delicioso de um amor à moda antiga: "Eu já desculpei tanta coisa, você não arranjava outro igual. Desculpe, Marina, morena, mas eu tô de mal." O resultado final de "Eu não tenho onde morar" é uma peça equilibrada, com delícias como a faixa título, os sambas "São Salvador", mais uma linda exaltação à Bahia, a brejeiríssima "O dengo que a nega tem", quase uma embolada, e "A vizinha quando passa", uma das canções mais inspiradas de Caymmi, que fala daquela mulher que, ao mexer as cadeiras, sem querer "mexe com o juízo do homem que vai trabalhar". O disco é uma realização primorosa de Aloysio de Oliveira e do maestro Gaya, que conseguem tirar o melhor de Caymmi, de forma talvez nunca mais repetida. Ali não tem "Saudade da Bahia". Isso, quem tem sou eu. | 11.1.06
Saiu ontem no Blue Bus, site carioca especializado em comunicação, uma notícia dizendo que a Fischer América, uma das maiores agências de propaganda brasileiras, estava extingüindo sua área de atendimento, e delegando o relacionamento com o cliente às áreas de planejamento e criação. Não quero aqui discutir decisão de gente tão graúda e sabida. Particularmente, acho-a burra. Mas acho que, além de burra, ela é reveladora de uma definitiva mudança de postura, não sei se da sociedade, dos agentes econômicos, da burguesia a ser enforcada nas tripas do último padre, da divina providência. O fato é que, até algum tempo atrás, havia certos pudores nas relações de trabalho, pelo menos naquelas pautadas por alguma civilidade (não contam o trabalho escravo, exploração de menores ou ser empregado do Nizan Guanaes). Hoje, não há mais. O bottom line, aquele traço embaixo da conta, é o que interessa. Ganhar a qualquer custo, é isso o que conta. Vem daí a extrema naturalidade com que todos nós aceitamos a existência do tal Big Brother, o programa de TV que é um verdadeiro strike em vários dos mais comezinhos princípios éticos e de convivência civilizada. A começar do próprio nome, baseado na figura onipresente da novela de George Orwell, tradução do mal a ser vencido ou evitado. Não foi nem uma coisa nem outra. Chegamos aos tempos do tudo pode ou, como bem diria o Pecus Bilis, ao próprio apocalipse. A mítica desorganização do mundo não é outra coisa senão a rendição completa da humanidade à própria desagregação. Milton Fridman disse, em entrevista recente, que uma virtude do liberalismo econômico era permitir que inimigos pudessem fazer convergir interesses comuns. O que se mostra, no entanto, é que, cada vez mais, interesses comuns parecem ser uma idéia em decadência. | 10.1.06
Não entendo bem o que se passa, não sei se entenderei. Milton Fridman e o MST falam de liberdade. Ferreira Gullar e Caetano Veloso vêm à mídia do mesmo lado -- do outro, Gilberto Gil. Lula é o presidente da República. Fernando Henrique, seu antecessor imediato. A esquerda esculacha a ambos, que se esculacham entre si, mesmo sendo todos de esquerda. O PT se junta ao ex-partido da ditadura, o PP, e esconjura o PFL, nascido do ex-partido da ditadura. Zé Dirceu elogia o Serra, que recebe o Zé Dirceu, que malha o PT -- e, depois, o Serra. Paulo Coelho recebe o Zé Dirceu, e é amigo do Sarney, que é amigo do ACM, que é do PFL, mas odeia FHC e gosta do Lula, que não gosta do PFL, mas gosta do ACM e do Sarney, que é presidente de honra do PMDB, mas foi o maioral da Arena, o partido da ditadura, que depois se chamou PP, e que adorava cassar (e caçar) gente do PMDB, então MDB. Chico Whitaker deixa o PT, representando os católicos, origem e maioria do partido -- que defende o ateísmo ou o agnosticismo, dependendo do manifesto que se leia. Whitaker agora diz que partidos políticos talvez não sejam uma boa idéia para mudar a sociedade. Marina Silva diz que tudo bem, Henrique Meirelles também. Garotinho diz "O que? Tira essa pacoteira das minhas costas!" e, com Quércia, radicaliza em direção à esquerda, sempre gritando que acredita em Deus. Já Ariel Sharon parece que não agüentou os movimentos bruscos. Talvez devesse ter feito um estágio por aqui. | 9.1.06
Fotografia, cenários, figurinos, direção de atores, montagem, tudo de primeira. E o filme é um pé no saco. Falo de 2046, do diretor chinês Wong Kar-Wai. A narrativa é centrada e mediada pelo personagem Chow Mo Wan, vivido por Toni Leung. Chow é um ex-jornalista que escreve histórias eróticas para uma publicação obscura de Hong Kong. O filme se passa nos anos 60 -- embora a caracterização dos personagens, combinada com a trilha sonora cool, lembre mais o clima dos filmes noir, portanto algo do começo dos anos 50 -- numa Honk Kong espremida pela dominação inglesa e os bafos da Revolução Cultural chinesa. O escritor é também um conquistador meloso e melancólico, que, às tantas, resolve escrever algo mais edificante do que os contos eróticos e começa uma ficção científica cuja narrativa se confunde com a do próprio filme. Para temperar ainda mais a trama, três mulheres cruzam a vida do misto de Don Juan e Humphrey Bogart, que muitas vezes se assemelha ao personagem cômico que protagonizava os comerciais das balas Kids Hortelã, lá nos anos 70, um cantor de boleros afetado e extemporâneo. Até a primeira hora de filme, o inusitado da história em dois tempos e o apuro técnico e estético nos dão a impressão de que estaremos, a seguir, diante de uma grande obra do cinema. Mas o tempo vai passando e nada. Caras, bocas, músicas, câmeras lentas, choros, risos, frases no melhor estilo "gafanhoto" (lembra do seriado Kung-Fu, em que um monge chinês cego sempre surpreendia seu jovem aluno com frases do tipo "Gafanhoto, nem sempre que a folha do sicômoro cai o ancião respira mais fundo"?), escritas em chinês na tela, entre um plano contemplativo e outro, e o cara lá, às voltas com sua pena e suas mal-caracterizadas mulheres. Depois da segunda hora, tudo o que você quer é que o filme acabe. Quando finalmente isso acontece, você tem a sensação de que só metade dele acabou, que essa metade é muito longa e que nem um saco de dinheiro o convencerá a ver a metade que falta. | 6.1.06
Piadas de caserna Resolveram fazer um concurso para avaliar qual era a polícia mais eficiente do mundo. Chamaram, então, o FBI americano, a Scotland Yard inglesa e a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. +++ No dia 8 de dezembro passado, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro prendeu uma jovem de 21 anos, acusada de ter participado de um atentado contra um ônibus, em uma favela da zona norte da cidade, em que cinco pessoas morreram queimadas. +++ Para manter a absoluta igualdade de condições entre os participantes, decidiram fazer o concurso fora de seus ambientes normais de trabalho. Foram, então, a uma floresta. As regras eram: para cada uma das polícias, um cão seria solto na densa mata, e seria dada a ele uma hora para fugir. Depois, os policiais sairiam à sua procura. Venceria a corporação que trouxesse o animal de volta em menos tempo. +++ A jovem presa havia sido reconhecida por uma menor de idade, participante do atentado, e que a havia apontado, em uma foto apresentada pela polícia, como sendo Brenda, a namorada do traficante. +++ O FBI foi o primeiro a ser chamado. Soltaram o cachorro e, assim que se completou a primeira hora, uma equipe da perícia científica e rastreadores de elite se embrenharam na mata. Uma hora depois, estavam de volta, com o cão devidamente dominado, de coleira e focinheira. +++ Havia um problema: a jovem reconhecida como sendo Brenda se chamava Sabrina, tinha endereço fixo, um filho de 6 anos, mãe viva. Seu álibi foi considerado frágil e, por via das dúvidas, a inspetora responsável pelas investigações resolveu mantê-la presa, mesmo com tantas discrepâncias. +++ Depois do FBI, foi a vez da Scotland Yard. Com a fleuma inglesa, passado o prazo de uma hora, consultaram radares e instrumentos de navegação para só então colocarem as equipes na floresta. Em 52 minutos, um treinador especializado trazia o cão em uma gaiola, e o chefe do grupo já tinha um relatório completo impresso. +++ A moça presa alegou, em sua defesa, o que lhe era mais evidente: ela era ela, e a outra era a outra. A alegação não calou. A zelosa inspetora achou que isso não bastava, que deveria mantê-la presa por um pouco mais de tempo para ter certeza. +++ Finalmente, chegou a vez da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Solto o cachorro, a equipe não estava no lugar combinado, e só conseguiu partir para a busca duas horas depois. Passadas mais quatro horas, o grupo chegou de volta, com um investigador à frente carregando um bicho-preguiça no colo. Quando a comissão julgadora se aproximou, o preguiça, que tinha um olho roxo, três dentes quebrados e uma pata torcida, berrava chorando: "Eu sou um cachorro, juro, eu sou um cachorro!" +++ Sabrina só foi solta anteontem, 27 dias depois de presa por engano. Passou o Natal e o ano novo na cadeia, longe do filho e da família. 27 dias foi o tempo que a polícia do Rio de Janeiro demorou para descobrir que Sabrina não era Brenda e vice-versa. Sabrina ainda declarou: "Eu sabia que um dia eu seria solta, afinal eu não sou ela." +++ Qual é mesmo a piada? | 5.1.06
É impressionante a capacidade luso-tupiniquim-carioca de criar novas expressões, mesmo sobre aquelas que julgávamos definitivas na perfeição de sua designação. -- E aí, meu caro, tudo bem? -- Tudo bem nada, meu querido. Já tô chamando cu de cobra de disco voador! Pode ser mais eloqüente? | 4.1.06
Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 16 Houve tempos em que se ensinava francês nas salas de aula -- e não apenas nas do Instituto Rio Branco. Tempos distantes, em que não havia computador -- sim, esta é a verdade nua e crua a enfrentar: vivia-se sem computador -- e em que o quadro-negro era a tela, e o apagador, o "control z". Um sisudo e renomado colégio de padres de São Paulo se orgulhava da qualidade de seus professores e alunos, no que se referia ao ensino de francês. Os meninos -- só havia meninos -- saíam lendo Balzac e recitando François Villon. Bem, nem todos. Um ou outro mostrava alguma dificuldade em aprender a língua de Victor Hugo, como era o caso do aluno novo, João, que tinha rapidamente conquistado a amizade de quase todos na classe. O garoto ficava especialmente tenso quando era chamado a falar em sala, ali em pé, frente aos amigos. Alguns professores o poupavam, mas naquele dia, Madame estava excitadíssima com o novo flanelógrafo colocado à sua disposição pelos padres, a ponto de chamar a classe inteira, um por um, para traduzir (ou decifrar) as figuras que grudava ali no pano verde, quase um passe de mágica. E o que é pior: valia para nota. Alegre e sorridente, Madame olhou na direção do apavorado João, mas acabou chamando seu colega ao lado. No flanelógrafo, via-se a figura de uma mesa de escritório, que ela apontou com a varinha negra, que sempre carregava, como uma batuta. Ao seu olhar sorridente e interrogativo, o amigo respondeu: -- Birô, Madame. -- Non, chéri! Cést "bureau", on dit "BUUU" -- e fez o inevitável biquinho -- "REAU". Repetez! -- Birrô! A professora resolveu se contentar e partiu para a próxima vítima. Desta vez, foi inevitável. -- Jean! -- era como ela insistia em chamar João. O pobrezinho, já pálido, se levantou. Quase desmaiou quando Madame colocou o dedo sobre a imagem da mesa que havia mostrado a seu colega e, dela, puxou sorrindo a figura de uma gaveta. Apontou orgulhosa e inquisitória a novidade, e fez sua carinha de interrogação. -- ... -- João apenas suava. Não tinha idéia de como seria "gaveta" em francês. -- Mon cher, allez, allez! -- ... Penalizado, o amigo ao lado resolveu ajudar. Mas sua pronúncia para "tiroir" conseguiu alcançar, com a tensão da hora, apenas um cochicho: -- Tiruá! João sentiu-se salvo. -- Gavéti! -- disse, quase orgulhoso, para espanto da professora e desepero do colega. -- Tiruá, tiruá! -- insistiu o leal amigo. -- Guivéti? -- tentou, já um pouco inseguro. -- Mais Jean, vous êtes fou?? C'est "tiroir"! "Ti-roir"! O pobre garoto, a ponto de chorar, ainda teve forças: -- Ah, 'fessora, essa não! Não tem mais "a" pra tirar. Só se "a" em francês for outra letra! O tempo provou aos pais de João que seria melhor para ele uma escola mais monoglota. E assim foi, a construir seu futuro com os "aa" e "bb" em muito bom português. * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. | 3.1.06
Mini 73 Sabia cantar. Cantar de verdade, nada a ver com os murmúrios, os berros ou os gemidos que ouvia nos rádios pela janela, nas fitas que não gravava, nos discos de alguém mais. Achavam que seria um contratenor. Cresceu, no entanto. Não chegou a ser um tenor lírico, era franzino. Cantando peças de câmera, conheceu a soprano que o arrebatou. Um pouco mais jovem. Ávida por um solo futuro. Na primeira noite em que foram para a cama, ele voltou a se sentir menino. Cantou como um castrato, lindamente. Ela entendeu. Não trocavam berros, murmúrios, gemidos. Cantavam, pianissimo. Ela não soube explicar como ficou grávida. Ele seguiu fecundo. | 2.1.06
Comecei 2006 com Danuza Leão. Não, não morram de inveja, eu falo de "Quase Tudo", o delicioso livro de memórias dessa que foi uma das mulheres mais interessantes deste país de pouco mais de 500 anos e tão cheio de gente desinteressante. "Quase Tudo" parece -- e é -- a história de uma dondoca. Mas é também, e antes, a história de uma personalidade originalíssima. Como é, ainda, a história de uma mulher de inteligência rara que soube viver em diversos mundos e transitar por eles com toda a desenvoltura e um charme que se sente até por escrito. Chega a soar inverossímil quando ela fala de agruras financeiras que são acompanhadas de temporadas em Paris, mas esse é um pouco o tom de um certo segmento que eu chamaria de o mais chique da nossa sociedade (perdão pelo pecado sociológico). Quando as pessoas deste grupo dizem que estão "duras", eles, na maioria das vezes, acreditam mesmo que estão. Aliás, nem sei se isso que eu chamo tão toscamente de "segmento mais chique" ainda existe. Se existe, seus membros mais novos já devem beirar os 60 anos de idade. O mundo hoje parece ser mais mesquinho, não dando espaço para quem não faz conta. Ninguém mais vê charme em "ficar duro", mesmo quando sobra para uma garrafa de Bollinger e uma temporada em um duas estrelas de Paris. É isso o que Danuza conta e viveu: um tempo em que o Brasil se transformava, concretizava a mudança ensejada pelo projeto de Getúlio Vargas, de um imenso cafezal para um emergente industrial; um adolescente urbano, uma mistura de Caribe, Côte d'Azur e Nova Délhi, uma terra de criatividade que recém nascia de um imenso fazendão, de pouca saúde e muita saúva. Ela e a irmã, Nara, foram, ao mesmo tempo, símbolo e concretização dessa nova terra. Vinham de uma família mineira de classe média bem-sucedida -- essa era uma idéia rara, se não impossível, antes de Getúlio -- e fizeram história a partir de seus próprios talentos, sem nenhum adicional em sacas de café ou alqueires de terra. Quando eu digo "fizeram história", não exagero. Nara foi, segundo todos os protagonistas do movimento, a catalisadora da Bossa Nova. Danuza havia sido a primeira modelo brasileira a desfilar para um atelier francês de renome na alta costura, o de Jacques Fath. Segundo ela mesma, foi conquistada pelo charme de Samuel Wainer. Do casamento dos dois, nasceu uma curiosa combinação entre o chique e o politizado da época, algo que, no meu modo tacanho de ver as coisas, interferiu diretamente na história recente do país. O casal Samuel-Danuza dava um toque de modernidade interessantíssimo, uma influência cultural ainda a ser lida com o devido cuidado (bem-vindo, aliás, o relançamento de "Minha Razão de Viver", livro que nasceu da iniciativa de Pinky Wainer de transformar as fitas que o pai gravara com depoimentos sobre sua vida em algo organizado e legível, o que foi levado a cabo pelo jornalista Augusto Nunes e publicado, em sua primeira versão, de 1987, pela editora carioca Record, e agora pela Planeta). Samuel era um batalhador, filho de uma família judaica vinda da Bessarábia, criado no Bom Retiro e levado, por seu próprio esforço, faro e charme, ao topo dos acontecimentos do Brasil dos anos 50. Criou um novo jornalismo e, talvez sem querer, foi um dos agentes de um modo novo de fazer política. Ver as fotos de Danuza com Mao-Tsé-Tung ou com Juscelino Kubitschek dá uma sensação de nostalgia e alento. Curiosamente, o livro, tão rico em detalhes de certas passagens da autora, omite, sem querer ou querendo, uma pequena conquista pessoal de Danuza: em 1985, quando Tancredo Neves já havia ganho a eleição indireta para presidente, e evitava entrevistas, pela delicadeza do momento de transição, ela conseguiu uma longa exclusiva com o presidente eleito, na qual ele não só respondeu, sem hesitar, a tudo o que ela perguntou, como ainda foi capaz de quebrar seu protocolo pessoal, dando-lhe dois tapinhas carinhosos na mão após cumprimentá-la. Ninguém mais conseguiu tal feito. Danuza transitava bem em todos os cantos. "Quase tudo" é um livro de memórias com tudo o que deve ter um bom livro de memórias. Danuza equilibra bons e maus momentos, enquanto aparenta apenas narrar, empilhar fatos -- isso é outra virtude do livro, algo meio bossa-nova, que, por trás de uma simplicidade aparente, traz um arranjo sofisticado, cheio de modulações e dissonâncias, complexo como uma partitura de Tom Jobim, simples como seu resultado. Termina com um acorde dissonante, de preparação. Danuza sabe mesmo conduzir uma noite e encerrá-la como ninguém. | |