dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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28.12.05

Prometi a uma pessoa muito querida que não me queixaria de dezembrite. Pelo menos não neste ano. Portanto, não vou me queixar. Vou apenas descrever superficialmente do que se trata. Dezembrite é uma sensação de abandono institucional, motivada pelas festividades natalinas e todo o frisson quase histérico que as sucede na busca geral por opções de onde e/ou como passar o ano novo. Tudo pára. Tudo fica para depois -- menos você mesmo. Claro, a não ser que você tenha coragem, posses e suporte científico para tomar algo que o ponha a dormir de 23 de dezembro a 3 de janeiro. Ou que você vá passar esse período em um lugar onde não se celebre o Natal e o ano novo cristão, e nem se fale deles. Do contrário, você, mesmo longe, não escapará de uma retrospectiva do ano -- disfarce mal-acabado da folga à redação e do requentamento de tudo o que foi mais ou menos notório no ano que acaba.

A dezembrite acomete a todos: o cliente, mesmo o mais exigente, pára de telefonar, o fornecedor, até aquele bem cdf, não atende o telefone, a imobiliária esquece de cobrar o aluguel (esquecerá da multa em janeiro?), o bar da esquina tira uma semaninha de folga, o trânsito não comparece, nem uma buzinadinha para animar o dia a gente ouve. Por que seria diferente aqui no Dito Assim? Ainda mais considerando que o seu autor é particularmente sensível à dezembrite (ok, não vou me queixar)? O resultado é essa vergonha: uma só nota numa semana inteira. Bom, não é de todo mal -- mas há frase mais acovardada do que esta? "Não é de todo mal." Ora essa, só um sujeito acometido de uma dezembrite em sua modalidade cínica (das mais graves que a ciência descreve) pode dizer algo semelhante.

Bom, fica aqui a esperança de que essa moléstia passe assim que passar também 2005. E para você que teve paciência e, mais do que tudo, tolerância de vir aqui e ler estes disparates, um 2006 cheio de recompensas. E com uma dezembrite apenas moderada no final.



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23.12.05

Faltou Pecus Bilis no número 9 da lista abaixo. "O Stalker", novela contemporânea de raiz folhetinesca, muito bem engendrada e bem escrita, mereceria ser terminada -- isto é, ter sua segunda metade escrita, após a remoção das últimas oito ou dez linhas-tampão do que foi publicado em seu blog -- e impressa em bom papel. Será um best-seller, tenho certeza. Relerei o que já li e devorarei a segunda parte. É texto para, depois de uma pequena polida que lhe aperfeiçoe a fluência entre capítulos, mimetizando a estrutura de folhetim, morar um tempo nas listas das revistas semanais e nas mais ilustradas estantes e mesas de cabeceira.

Pecus, coragem, meu caro.



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21.12.05

Planos de ano novo

1. Vou colocar os links de blogs amigos que ainda não coloquei.
2. Vou começar a correr.
3. Vou finalmente publicar meu livro de contos.
4. Vou estudar música.
5. Vou fazer algum curso superior relacionado a programação visual.
6. Vou começar a ginástica.
7. Vou ser capaz de passar pelo menos 36 horas tranqüilo (seguidas ou não).
8. Vou conhecer Bebel Gilberto (a cantora, não a obra).
9. Vou aos lançamentos dos novos livros de queridos que 2006 nos dará de presente (Anna Beia, Albertão, Ledusha, Leão, Carlos Carvalho, Sérgio Guardado, mais um da Silvinha Meirelles, Paulo Gil, Carletto, Arlindo, Gianetti, Rui Affonso, Sérgio Pompéia, Gláucia, Caloca, Quentin, Aninha, Roberto Pompéia e quem mais chegar).
10. Vou voltar a desenhar e pintar.
11. Vou fazer uma viagem com minhas filhas.
12. Vou fazer muitas viagens ao encontro do meu amor.
13. Vou muitas vezes ao aeroporto esperar a chegada do meu amor.
14. Vou voltar ao Rio e vê-lo mais pacificado e civilizado.
15. Vou rever os Estados Unidos.
16. Vou à Bahia, lá tem vatapá, lá tem caruru, lá tem mungunzá, lá tem as sacadas dos sobrados da velha São Salvador.
17. Vou ver mais as pessoas que eu amo.
18. Vou fazer política e sentir orgulho disso.
19. Vou ver a posse do presidente Alckmin.
20. Vou fazer algo pelo bem de pessoas que têm menos condição de fazer seu próprio bem.
21. Vou fazer algo pela cidade de São Paulo.
22. Vou escrever mais.
23. Vou voltar a fazer canções.
24. Vou à praia pelo menos cinco vezes.
25. Vou provar comidas que nunca provei.
26. Vou conhecer o Peru.
27. Vou pagar todas as contas em dia.
28. Vou comprar um carro compacto vermelho.
29. Vou reler os poetas que me impressionaram na primeira juventude.
30. Vou ler Saramago, que nunca li.
31. Vou confessar minhas lacunas intelectuais.
32. Vou tentar sanar minhas lacunas afetivas.
33. Vou reconhecer quem merece ser reconhecido.
34. Vou saber perdoar.
35. Vou saber me perdoar.
36. Vou entender mais de economia e finanças.
37. Vou projetar uma casa.
38. Vou ser um pai melhor.
39. Vou ser um filho melhor.
40. Vou aprender a gostar da chuva.
41. Vou a pelo menos 10 concertos.
42. Vou a pelo menos 26 filmes.
43. Vou a pelo menos 2 peças de teatro (serei capaz de tanta provação?).
45. Vou ler todos os Shakespeare, os que já li e os que ainda não li, e reviver o prazer de cada um.
46. Vou pensar mais no que significa a espiritualidade e onde eu e ela podemos nos encontrar mais.
47. Vou a quantas exposições de fotografia eu puder.
48. Vou perder a vergonha de ser feliz e vou adquirir vergonha de ser relapso.
49. Vou encarar o fim de ano com mais paciência e tolerância, com menos irritação e melancolia.
50. Vou perder a mania de achar que o melhor de um texto é o seu encerramento.



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20.12.05

É, alguém tirou o bode da sala: o blogger.br voltou a funcionar normalmente e dar acesso a quem procura seus variados conteúdos. Este hóspede de favor agradece.

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Comprei o jornal logo de manhã, o que me revelou algo decisivo: preciso voltar a comprá-lo à noite.

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Bolívia elegeu Evo Morales no primeiro turno. Ele já fez discurso dizendo que vai lutar pela liberação do plantio de coca. "Não é possível que a coca seja usada para a fabricação de Coca-Cola e esteja proibida para nós". O que ele diria sobre o RaboBank?.

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Por la liberación de la macueña!

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Por la liberación de la catchaza!

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Por la liberación de las garuetas!

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Por la liberación del roquenruél!

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Como se vê, o espírito do Natal está se espalhando pelo ar desta kitchenete virtual, vindo diretamente de Los Andes.



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19.12.05

Não gosto de Natal e não gosto de chuva. Rabugice sem tamanho, afinal, um traz a periódica oportunidade de as famílias se juntarem como nunca fazem ao longo do ano, e a outra é a sagração da fertilidade, além de lavar o ar da cidade e as calçadas da Fradique Coutinho. Com sua licença e as minhas desculpas, acho ambos um saco. Moraria facilmente no Marrocos caso tivesse recursos para transplantar minha vida para lá.

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Flores partidas, de Jim Jarmusch, é um filme que não se deve perder. Jarmusch tem uma obre fora da curva do cinema americano. É um cineasta de ares montenegrinos em plena terra de Tio Sam. Neste último filme surpreende já com o casting. Bill Murray, o comediante quase B de Ghostbusters e Feitiço do Tempo, tardiamente revelado como ator de primeira linha em Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, vive Don Johnston, um comerciante de computadores que é uma espécie de Don Juan caipira, incapaz de manter uma relação estável com uma mulher. Um dia, ele recebe uma carta anônima de uma ex-amante que conta ter tido um filho dele, e que o garoto, agora já com seus quase 20 anos, teria saído à sua procura. Don tem um vizinho etíope, Winston (Jeffrey Wright) que, nas poucas horas vagas, é um detetive amador. Ele acaba aconselhando Don a procurar as ex-namoradas que tivera no suposto ano do nascimento do também suposto filho. Ao longo da viagem, ele revê e se revê. Jarmusch retrata o que o americano médio chamaria de looser e o que nós outros chamaríamos de americano médio. Assim é Don Johnston, assim são os cenários onde vive, assim é o tempo chuvoso que o cerca. Mas é justamente daí que vêm as pequenas surpresas do filme, a cada buquê de rosas cor-de-rosa que ele leva, em busca da notícia de um filho que ele não sabe se tem ou se quer ter. Flores Partidas não chega a ser um "road-show". Tampouco é uma viagem para quem o vê. Mas vale justamente porque pára no médio e o retrata com graça e cruel precisão.

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O ministro Luís Gushiken dá uma longa entrevista ao Estadão de ontem. Gushiken é um samurai. Sabe manter silêncio quando o silêncio deve ser mantido, sabe estocar quando a luta se faz aberta, sabe fazer política, embora tenha se afastado dela por vários anos. -- Lula o trouxe de volta, quase o convocou em 2002. Para quem não se lembra, Gushiken era o presidente do sindicato dos bancários de São Paulo à época em que Lula liderava os metalúrgicos de São Bernardo. Na entrevista, Gushiken diz, com todas as letras, que buscará, em um eventual segundo mandato de LUla, uma aliança, não com o balouçante PMDB, não com o PTB, o PL, o PP, não com os microfisiológicos, mas sim com o partido que tem um discurso e um programa que se identificam muito com aqueles defendidos pelo PT hoje: o PSDB. Parece óbvio, não é? Mas é preciso que alguém pense além das paixões de momento e diga. Alguém como um samurai. Pergunto só quem será o samurai do lado dos amigos de bico longo.

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O governador Geraldo Alckmin também dá uma longa entrevista, à Folha. Como Gushiken, sabe a hora de falar e a hora de calar. É um político de Pindamonhangaba, e você sabe: Pindamonhangaba já é quase Minas. Entre hoje e março ele pavimentará, quase quieto, o caminho para a candidatura tucana à presidência. Eleito, deveria ter em Gushiken um interlocutor. Samurais e mineiros têm muito em comum.



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15.12.05

Vocês já tiveram a experiência de aprovar um texto simples em um comitê de marketing de uma corporação? É mais ou menos assim:

A reta é a menor distância entre dois pontos.
--Tá meio negativo.
A reta é a relação mais otimizada entre dois pontos.
--E o CONAR?
A reta pode ser uma relação otimizada entre dois pontos
--Tá excludente.
Retas podem relacionar pontos.
--Podia ser mais vibrante.
Retas! Pontos! Uma super relação!
--Tá impessoal.
Retas! Pontos! Só para você!
--Olha o jurídico...
Retas! Pontos! Só para você!*
* Sujeito a análise de crédito.



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14.12.05

Não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão. Anda assim minha relação com o blogger.br, esta casa em que me hospedei de graça, em outubro de 2003, e que agora parece estar querendo me desalojar. Sim, já faz mais de uma semana que, digitando o endereço deste estabelecimento, você encontra uma janelinha antipática que diz algo como "Nada feito, este número de telefone não existe, o rapaz que morava aqui se mudou, volte outra hora, tente o Exército da Salvação." No entanto, digitando o mágico "/index.html" depois do endereço, o acesso se dá normalmente. Mistérios do desconhecido, vassoura atrás da porta. A audiência caiu pela metade. Tudo bem, ficou uma coisa mais intimista, uma conversa em torno de uma pequena mesa, aquilo que nem chegou a ser churrascaria agora virou bistrot. Mas não há como negar que uma das finalidades de se fazer um blog é ter os textos lidos pelo maior número de pessoas possível. Quando os leitores novos batem à porta e a encontram lacrada, vão embora e levam a memória de uma casa abandonada, uma ruinazinha sem móveis, sem água, sem luz. Sinto que é hora de mudar de endereço. Se você tiver alguma sugestão que não seja desistir ou mudar para o blig, por favor, me mande.



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12.12.05

A longa entrevista do presidente Lula na revista Carta Capital mostra alguma coisa além do discurso repetido e repetitivo do primeiro mandatário da nação. Primeiro, mostra uma revista semanal que pode-se ler sem medo de ser chamado de idiota. Segundo, mostra que ainda existe um jornalismo que foge do esquemático. Terceiro, mostra um entrevistador que, embora visivelmente mais a favor do que a média do jornalistas que falam de e com Lula, é capaz de fazer perguntas que suscitam respostas originais e mesmo reveladoras.

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Já a veja, que não li e não leio, por previsível e partidária do que há de pior, traz em chamada de capa algo como "Nossos repórteres vão à Venezuela e mostram como Chávez está acabando com a democracia". Cacilda, durante o governo Chávez, a única coisa não democrática que aconteceu foi o golpe que o derrubou por uns dias e que foi tão pouco apoiado que teve de devolver-lhe o poder dias depois. O resto, gostemos ou não -- e eu não gosto, acho o cara um escroto neopopulista que governa com caras e bocas, gritos e sussurros, como o que havia de pior nos anos 50 -- foi sempre votado pela população. Ele pássou por dois referendos. Agora, a oposição, esfrangalhada mais por sua própria incompetência do que pela ação do presidente, e à beira de uma derrota acachapante, resolve boicotar a eleição parlamentar. Quem é antidemocrático nessa história?

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A longa entrevista da ex-prefeita Marta Suplicy no Estadão mostra uma disposição impressionante. Quem se lembra de Marta como apresentadora -- ousadíssima para a época -- de programa sobre sexo na TV Globo, como candidata e deputada federal defendendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo -- o que ninguém tinha coragem de fazer escancaradamente, pelos riscos eleitorais que podia representar em eventuais pleitos majoritárias --, como mulher decidida, disposta a dar um pé na bunda de um quase santo para ser fiel a sua felicidade, vai encontrar nesta entrevista uma personagem um pouco mais suave na forma. Mas o conteúdo continua o mesmo: ela defende tudo o que fez com uma garra que está saindo de moda. Com isso, parece que deixa de ser azarão na disputa para a indicação do PT em março. O senador Aloísio Mercadante vai precisar rebolar para fazer dar a lógica.

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E quem será o candidato tucano ao governo do Estado? Eu não me surpreenderia se fosse o Serra. Acho que é, de fato, a única alternativa, do ponto de vista do peso eleitoral. Embora ache difícil que ele tope deixar a prefeitura para algo que não seja a presidência, não se enxerga no cenário ninguém com peso eleitoral para enfrentar Aloísio ou Marta. Para se ter uma idéia, o vereador José Aníbal é o mais bem colocado nas pesquisas. Não lembra? Pois é, a coisa está complicada.



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9.12.05

Acabo de passar por uma experiência curiosa. Escrevi ontem um soneto, nada muito especial, algo repisando a idéia do poeta falando de si mesmo, da indolência métrica dos versos que cometo. De manhã, dobrei o papel, coloquei-o no bolso da calça e saí para uma longa reunião de trabalho. Voltando, fui procurá-lo para colocar aqui, e nada. Tinha sumido. Provavelmente caiu em algum ponto do trajeto, entre minha casa, o escritório do cliente e o meu local de trabalho.

Não tenho nenhuma cópia do dito cujo (não que isso vá fazer muita falta para a humanidade), o que significa que ele se perdeu, morreu sem nunca ter sido lido. Ou será que ele vai ser achado por alguém no meio da rua, ou na hora da faxina, pela funcionária da limpeza da multinacional onde estive exibindo minhas (parcas) habilidades? Será que ele vai ser lido assim, anônimo, dez versos num pedaço de papel, sem autor, mas com caligrafia e com a personalidade que só os papéis amassados no bolso sabem ter? E o que será que o também anônimo leitor vai pensar daquilo, fora de contexto, sem destinatário ou remetente, sem conclusão ou introdução, sem indicação de intenção?

Fico imaginando que o papel pode tanto ter sumido, como que evaporado, ou pode ter causado uma estranheza em alguém, quem sabe até meio profunda. Tenho um amigo artista plástico, Vado Mesquita Sampaio, já há uns anos morando em Londres, que faz haicais, embrulha-os e pendura em árvores, para serem colhidos e lidos, saboreados como frutas. Mas é diferente, existe uma intenção. No caso do meu soneto solteiro, há simplesmente um acidente.

De repente, um pensamento me toma: e se ele por acaso voltar, como aqueles cachorros de filme de criança, que se perdem dos donos em um lado dos Estados Unidos e, depois de muita aventura, voltam ao lar na costa oposta? Poderia um soneto ser assim fiel?



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7.12.05

Mini 72

Tudo bem, adorava aquela canção, mas três dias seguidos acordando e indo dormir com Eu não tenho onde morar, é por isso que eu moro na areia estava além de qualquer limite. Já havia perdido a paciência com um aluno e quase batera o carro no caminho de volta para casa. Tentou esquecer mudando a música. Mozart. O trecho galopante do primeiro movimento da sinfonia 41. Parecia dar certo. O telefone tocou. Ela. "Oi", respondeu. "Você está frio." "Não é isso..." "Você está de mau humor?" "Não, é que..." "Olha, eu tô cansada, sabe?" "Amor, é um momento difícil. Entenda!", enfático. "Eu não, você tem momento difícil e quem paga o pato sou eu?" -- E-e-e-e-u não tenho onde morar, é por isso que eu moro na areia... -- "Merda!" "Hm, não falei?"



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6.12.05

Mini 71

Desferiu um murro na mala vazia sobre a cama. O sobressalto do colchão de molas desarrumou um pouco as pilhas de roupas cuidadosamente ordenadas, e fez pular um dos pares de meias ao chão. Colocou-o no lugar. Fechou as portas do armário agora vazio, o que fez aparecer o espelho velho, com os reflexos já comidos pelas bordas e por duas marcas redondas e escuras quase ao meio. Nele, via, em terceiro plano, a janela entreaberta; mais próxima, a cama ocupada pelas pilhas bem dobradas; no primeiro plano, viu-se por uns segundos e saiu pisando duro, buscando o chuveiro, nu. Voltou dois passos. As toalhas estavam todas sobre a cama. Apanhou uma com raiva. As demais foram ao chão. Ia começar tudo outra vez.



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5.12.05

Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 15

Nada como ter 16 anos. Em qualquer outra fase da vida, a mistura de medo e onipotência em proporções garrafais é desastrosa. Aos 16, é pura aventura.

Quatro desses seres medrosos e onipotentes participavam de uma festa na escola. Dezenas, centenas de alunos, numa festividade esportiva, passavam o dia a competir ou a assistir aos colegas que competiam. Tempos de tempo abundante.

Entre um jogo e outro sabe-se lá de qual esporte, os quatro caminhavam entre as diversas quadras do grande colégio, olhando uma falta aqui, uma bola na trave ali, uma cortada mais adiante, um par de pernas perturbador na quadra ao lado. Às tantas, notaram uma rodinha em um dos campos cimentados que serviam para vários esportes diferentes. Parecia que algo passava ali, o burburinho indicava problemas.

Os rapazes correram até lá e um deles abriu espaço entre os colegas que formavam a roda. Pôde ver, no meio da moderada confusão, uma colega de classe, deitada e com uma expressão de dor intensa. Ele queria fazer medicina e viu ali uma ótima oportunidade de unir o útil ao galante. Olhou para os amigos por um segundo e sinalizou com os olhos que iria fazer alguma coisa. Em seguida, ajoelhou-se junto à garota e perguntou onde doía. Ouviu um gemido como resposta. Olhou de novo os amigos e sentenciou: "Cãibra".

Ato contínuo, agarrou o pé direito da moça -- era o lado que parecia doer -- e começou a empurrá-lo com força, como se quisesse fazer os dedos encostarem na canela. A pobrezinha, então, urrava, ao que ele, sem parar o procedimento, consolava: "É assim mesmo, dói mas tem que esticar". Ela gritava mais, ele punha mais força. Quando ela ficou pálida e pareceu perder o ar, ele parou. Olhou para os amigos, olhou para a moça de novo e decidiu: "Vamos buscar gelo, rápido". Saíram a passos rápidos o suficiente para se afastar da cena, mas sem denotar desespero. Nem ouviram o choro convulsivo da colega, que agora já atraía uma pequena multidão.

No dia seguinte, os inseparáveis amigos estavam sentados no banco do pátio, comentando os eventos da véspera, quando viram a garota passar, agora com uma expressão muito mais serena, de muletas e uma bota de gesso que ia do pé até logo abaixo do joelho direito. Um dos meninos foi até o grupo para saber o que havia acontecido. Voltou com a notícia fresca: "Pé quebrado. Parece que ela fraturou os tais ossos do carpo, cê sabe o que é?"

O então futuro médico balançou a cabeça e disse, depois de uma pausa professoral: "É, fratura no carpo... Isso às vezes engana". Anos depois, tornou-se um brilhante fotógrafo.

* "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais.



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1.12.05

Pronto. Rolou o linchamento. Dirceu não parece ser o mais bacana ou o mais agradável dos seres humanos, mas tem um lugar importante na história do Brasil. Merecia algo mais parecido com um julgamento justo. Não o teve, foi trucidado politicamente por uma instituição que não se dá ao respeito e não corresponde aos anseios da Nação, no que se refere a produtividade e representatividade. Exemplos são muitos, mas basta lembrar dois: o nosso entulho legislativo, em que ninguém se digna a mexer, e a desfaçatez com que parlamentares eleitos por um determinado partido mudam para outro. De tempos em tempos, essa turma lança um dos seus aos leões, para dar algum sabor à galeria, com o mais cínico critério "vão-se os anéis", sem muito embasamento legal ou jurídico, mas com uma bela gritaria para a torcida. Ecoa a frase: "Foi-se Dirceu. Antes ele do que eu".



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