dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
30.11.05
Viver no Brasil é padecer de uma constante ciclotimia. Há momentos em que olhamos em volta e, triunfantes, assistimos ao emergir da nova terra, à concretização de nossos hinos, ao vislumbre do fututo. Em outros, vemos apenas a África. Não chego a nenhum dos extremos, mas me lembro de já ter afirmado, com convicção, que os tempos negros do Rio de Janeiro tinham acabado e que a cidade, em poucos anos, recuperaria o encanto dos anos 50. Hoje, leio no Blue Bus uma nota falando da morte de cinco pessoas, passageiros de um ônibus atacado e explodido em uma operação de guerrilha no bairro da Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Os guerrilheiros são, segundo a nota, traficantes. As armas, ainda segundo Blue Bus, referindo a Reuters, eram africaníssimos coquetéis molotov. Ainda no Rio de Janeiro, uma juíza deu sentença favorável ao ex-governador, secretário de estado e marido da governadora, Anthony Garotinho, devolvendo-lhe direitos políticos suspensos por abuso do poder econômico. A magistrada alegou que a quantia era pequena diante dos grandes montantes envolvidos na atual onda de corrupção atribuída à dinastia petista. Inaugurou a era do crime-café-com-leite. Estou na ponta de baixo da minha ciclotimia. Ainda outro dia, conversando com um querido amigo carioca, ouvi as últimas novidades sobre balas perdidas, estado paralelo, inação e inadequação do governo. Sobrou então uma ponta de esperança, meio na linha do "vá lá, isso é apenas o resto de um tempo que vai acabar". Os jornais mostram que nada vai acabar, a coisa está apenas começando. Por coincidência, a Folha de ontem, ainda largada no sofá de casa quando saí hoje pela manhã, trazia uma foto de Saddam Hussein em julgamento. As duas referências combinadas -- a foto e a nota -- me dão a sensação de que a barbárie tem sido mais eficiente do que a esperança na formação desta nação e das outras em volta. É triste olhar o ex-ditador sangrento e não resistir a pensar que, comparado a Bushinho, ele não deixa de ter uma dosezinha de razão. Quem sabe, amanhã, a ciclotimia me coloque em outro estado de espírito, mais bobamente otimista. Pode ser meio abobalhado, mas dói menos. Alguém conhece um remedinho abobalhante que me possa recomendar? | 29.11.05
Ando trabalhando demais. *** Ariel Sharon sai do Likud e procura liderar de vez o processo de paz. Você leu direito: paz. *** Bushinho está sendo derrotado nos bastidores pelos falcões que elegeram seu pai. Parece final de filme de terror B: Jason Vorhees contra Freddy Kruger. A platéia gosta, fazer o quê? *** Sarney, na Carta Capital, tenta justificar o conventozinho do século 17 que, tadinho, tomou para si ("estava abandonado"), o feudo que construiu no Maranhão ("minha família é muito grande", por isso tantos Sarney na administração pública), o culto a sua personalidade lá no seu estado natal ("o que é o nome num prediozinho de dois pavimentos depois de 40 anos de vida pública?"). E o filho da puta escreve muito bem. Como são mal-formados os personagens da vida real. *** Danuza Leão lança suas memórias. Continua linda, continua sendo o Rio de Janeiro, fevereiro e março. *** Lula, nas pesquisas, cai pelas tabelas. No entanto, quem entende diz que ele ganha em 2006. Também acho, gostando ou não. *** Dilma Roussef deve ter sido uma mulher bonita. *** Alô, Albertão, vamos refazer a viagem de "A Cidade e as Serras"? Você fotografa, nós escrevemos e o Eça abençoa. | 25.11.05
Fui ver Arnaldo Jabor falar sobre o Brasil. Uma dupla satisfação. Primeiro pelo lugar, a sede de uma produtora de filmes, a Villas Boas. A dona, Suzana, resolveu usar e ceder o espaço privilegiado de sua empresa -- um galpão reformado no lugar onde antes funcionava uma fábrica da Bic -- para discutir o Brasil. Há alguns dias, falei aqui do incômode que me causava a imensa capacidade de reclamar associada à total incapacidade de atuar organizadamente do povo de classe média do Brasil. Tudo é culpa de alguém mais. Pois há uns quatro ou cinco meses, Suzana Villas Boas resolveu criar um jeito de fazer a sua parte. Cede o espaço, organiza os eventos, convida as pessoas a assistir e a falar. Já trouxe à produtora, além de Jabor, o monge budista Gustavo Corrêa Pinto e o jornalista Gilberto Dimenstein. A todos foi pedido que falassem sobre o Brasil. Gustavo Pinto -- uma das figuras mais inteligentes e carismáticas que eu conheço -- falou, entre outras coisas, de seu projeto de construir no Brasil uma imensa escultura em pedra de Buda, e fazer dessa iniciativa um contraponto à dinamitação da milenar estátua, ocorrida no Afeganistão, pelas mãos do Taliban. A idéia, à primeira vista bizarra, se faz acompanhar de um projeto abrangente de ocupação equilibrada da floresta, de integração de seus povos, enfim, algo para se ouvir com a devida atenção. Dimenstein, um mês depois, falou sobre a retomada do progresso social que São Paulo vive de seis anos para cá, como conseqüência de ações de governo associadas à atuação de entidades não governamentais de diversas origens. Nesta semana, Arnaldo Jabor apresentou uma visão panorâmica do Brasil e do que ele espera deste "imbroglio" que vivemos. Jabor é, como eu, um admirador do projeto e da gestão de FHC, sem deixar de reconhecer os enganos cometidos. É também um crítico severo da gestão do PT -- também ccomo eu, embora discorde dele em alguns pontos não exatamente estruturais, como por exemplo a cassação do deputado José Dirceu que eu acho injusta, por mal embasada, e ele, justíssima e necessária. Mas, sem entrar nas minúcias, o fato é que Jabor fez uma análise do Brasil -- que, em certo ponto, chegou a buscar fundamento na história mais remota de Portugal, no Condado Portucalense do rei Afonso Henriques ("um fazendão") -- que prima pela independência de pensamento, associada a um vastíssimo conhecimento histórico, filosófico e literário e por uma infinita capacidade de tecer relações entre os fatos que expõe e discute. Mas o mais importante não é a visão de Jabor, mas a oportunidade que foi criada para que ele a dividisse com gente interessada e atenta, a favor ou contra. O que Suzana Villas Boas tem conseguido promover é algo de que todos estamos carentes: a troca ativa de idéias. Faz isso às suas expensas e contando com a boa vontade dos palestrantes, que nada cobram. Mobiliza, dissemina conhecimento e a inquietação saudável que o pluralismo provoca. "No mínimo, estamos nos reciclando", diz Suzana. Para mim, não há dúvida de que ela já foi, e irá bem mais, além do mínimo. Precisa ser imitada com urgência. | 23.11.05
Termina aqui a semana de poesia, de amanhã a sexta, volto a falar língua de gente. O soneto abaixo cospe para cima, fala mal de poetas, especialmente os mais recentes como eu. É uma pequena crise de neurastenia transformada em autocrítica coletiva. Nem era para vir para cá, mas como a caixa estava aberta e as traças, de garfo e faca na mão, resolvi passá-lo a limpo e maltraçá-lo para vossa apreciação. Ah, cessa também essa veadagem de nomes em francês. Não sei onde eu ponho a cabeça, ora essa! À soi même Poeta tem agora dois assuntos: (o que ele crê ser) amor e ele mesmo. Na verdade, os dois temas andam juntos e o versejador os aborda a esmo. Culpa as amantes pela rima pobre, debita à rima suas más amantes. Depois, encrava aqui a palavra "nobre" e a acha boa, digna de Cervantes. Para valer as sílabas que conta, para justificar que seja lido, o rimador precisa de uma afronta: que de qualquer amor seja banido, que nenhum bom leitor o leve em conta, que saiba sentir dor sem ter fingido. | 22.11.05
Já disse aqui que tenho um misto de dificuldade, severidade e acanhamento com verso livre. Há um desafio no poema metrificado que requer uma ginástica estimulante. Ao mesmo tempo, há uma espécie de grade sobre a qual se constrói com segurança de que a peça não desaba à primeira chuvinha. O verso livre permite usar mais a plasticidade dos sons, criar uma sonoridade única em cada poema, vestir as palavras com alta costura. É bem mais difícil -- embora pareça o contrário. O poema abaixo é uma tentativa. Au tour des yeux alta alvura reflexa cristalinidade mas tanta cor ao redor branco do sol e xadrezes simples que daltônico decifro e sigo | 21.11.05
Fabliau Daria boa fábula, o Brasil, ou mesmo contos, de autor ou de fadas. Há bruxas e anões, há príncipe vil, dezenas de bestas desencantadas. Nenhum gigante na história infantil, mas há gnomos*, sempre às gargalhadas, fadas-madrinhas de lindo perfil, feitiçarias, encantos, ciladas. O que ainda ninguém ouviu ou leu é a lição, a conclusão no final: "a rã virou gente", "a bruxa morreu". Nada se acaba na vida real. Já, já, dirá o guri à noite, ao breu: "Uau, mamãe! Essa maçã é legal!" (*) Contado como três sílabas, "gh+no+mos" (ou, se preferir, "hág+no+mos", incorporando a ligação com a palavra anterior), mais próximo da pronúncia corrente em português do Brasil. O verso alternativo seria: "há muitos gnomos, sempre às gargalhadas", com a contagem correta "gno+mos". | 18.11.05
Mal du siècle Senhor poeta, diga trinta e três. Agora, respire fundo e segure. Solte, sopre. Suave. Outra vez. Por auscultação, não há o que se apure. Parece bem, boa cor, fina tez. Aliás, que mal há que se lhe cure? Nos livros que li, mesmo em francês, nada achei. Penso mandá-lo ao Missouri. Não quer? Mas olhe-se bem, não definha, e, no entanto, não se acha o seu mal. Testes, exames e nenhuma linha, nenhum efeito do amor, tão letal, nem mesmo uma tuberculosezinha. Século besta, de poeta sem mal! | 16.11.05
Feriado: jornal na mão. *** Pode-se dizer que ou Lula governa de forma bastante original ou a imprensa continua a exercer sua criatividade. Segundo os jornalões, Lula teria estimulado a ministra Dilma a cutucar o ministro Palocci, por estar o presidente (chefe do ministro) insatisfeito com a política econômica. *** Superávit primário é "a economia do setor público para pagar juros", segundo a definição nada ortodoxa do jornalista Kennedy Alencar, da sucursal de Brasília da Folha. *** A Visanet, segundo os jornalões, seria uma espécie de departamento ou subsidiária (dependendo da página em que a notícia é publicada ou talvez da meteorologia do dia) do Banco do Brasil. *** E o B.V. das agências de publicidade, que virou escândalo nos jornalões? A prática é mais antiga do que a expressão "nas boas casas do ramo", e é exercida pelos próprios veículos em que os esforçados rapazes trabalham. Há quem discuta, com carradas de razão, se o B.V. é uma prática adequada aos novos tempos. Mas daí a dizer que é ilegal, há muita centimetragem. Até porque B.V. paga imposto. Quando é por dentro, claro. *** Vale lembrar também a Veja, a defender a idéia de que Cuba teria mandado uma caixa de rum cheia de dinheiro para a campanha de Lula. Piada pronta e jornalismo infame. *** Afinal: não deve ser tão difícil para um jornalista profissional saber que não faz sentido o presidente da República puxar o tapete de seu ministro mais próximo, qual é a definição correta de superávit primário, o que é a rede mundial Visanet, como se remunera publicidade no Brasil, como se transferem grandes quantias em dólar entre países -- por cima ou por baixo do pano. Por que, então, eles escrevem, os editores aprovam e os jornais publicam tanta bobagem? Só mesmo uma boa teoria conspiratória para a gente continuar lendo os jornalões e revistões com alguma motivação. | 14.11.05
Feriadão? Eu não. Cá estou ajudando o Brasil crescer. *** "O Jardineiro Fiel" é um grande filme. Digo isso sem patriotada. Gosto de cinema a ponto de dizer que o desempenho histórico do cinema brasileiro é mais ou menos o mesmo que o do nosso boxe. Sim, exagero. Mas sempre haverá alguém para dizer que, no boxe, pelo menos, tivemos Eder Jofre. O filme de Fernando Meirelles é de primeira grandeza -- considerando, para a correta avaliação, que o diretor e sua equipe fizeram do limão (um argumento baseado em texto previsível do ex-espião e escritor B de sucesso mundial John Le Carré) uma limonada. A produção é impecável, a fotografia é de tirar o fôlego (César Charlone é o mesmo de "Cidade de Deus", e aqui deixa entrever algo da luz e da câmera daquele filme) e a direção, o roteiro e a montagem fazem de uma história comum, do bem e do mal modernos se digladiando, um filme que vai muito além do cinema-denúncia-descartável que o argumento parecia sentenciar. Meirelles mostra a África sem cair em nenhuma das armadilhas postas à empreitada: não é sensacionalista, não é piegas, não é mistificador. No fio da navalha, mostra um retrato ao mesmo tempo eloqüente no que revela e equilibrado no que usa para revelar. Também mostra uma Europa, esta sim, que talvez não exista mais: aquela que foi, em um passado recente, o repositório da solidariedade, que produziu lideranças jovens que pareciam tentar compensar, com inteligência e independência, o que seus avós haviam perpetrado mundo afora ao longo da colonização imperial. Uma Europa que logo começou a acabar, com Thatcher, e a revelar-se, com a ironia Tony Blair. Não parece haver mais gente como Justin (Ralph Fienes) ou Tessa (Rachel Weisz). Parece que o último deles foi o embaixador Sérgio Vieira de Mello, explodido no Iraque que tentava pacificar. Isso, talvez, seja o que o filme tenha de mais bonito: resgatar e dar forma de heroísmo a algo que acabou mas deve ser lembrado. É tudo muito recente, no entanto já nos dá uma impressão de "arturismo", de "ciclo de cavalaria" ou mesmo de tragédia shakesperiana, na lida atrevida que dá ao previsível fim. Em suma, "O Jardineiro Fiel" nos mostra uma África sem retoques e uma Europa idealizada -- e talvez esteja aí, nessa inversão, sua grande originalidade. Já ouvi, de amigos comuns, que Fernando Meirelles teria remontado o filme, depois de vê-lo pronto, e que este arroubo seria o fator decisivo para a qualidade que se obteve no produto final. Acho difícil, pelo ritmo que uma produção como essa deve seguir. Prefiro acreditar que a qualidade de "O Jardineiro Fiel" já era previsível para a equipe que o realizou. Sem romantismo. *** Só para lembrar, "O Jardineiro Fiel" é um filme anglo-americano. | 11.11.05
Soneto ao ar que chega Um médico, se fosse consultado, falaria logo em fenoterol. Mesmo com o coração disparado, teofilina é melhor que mentol. Eucalipto, dizem, também funciona -- os cientistas são céticos, no entanto. Os antigos falavam de malvona, há os que recomendam aulas de canto. Todos os sais que terminam em ato, esses que os médicos sabem de cor, são só placebo, não dão nem barato. Nem mesmo uma taça de Don Melchor logra causar este efeito imediato: você aparece, eu respiro melhor. | 9.11.05
Tempos sem ver TV, vou direto a duas entrevistas auto-intituladas históricas, com duas figuras, à sua maneira, marcantes. *** Ontem à noite, Paulo Maluf ressurgiu das cinzas -- ou melhor, da cana -- e deu uma entrevista ao sagaz e vivaz jornalista "latu sensu" Amauri Júnior, o grande injustiçado do prêmio Pulitzer. Muito instrutivo. Pude, por exemplo, descobrir que o túnel Ayrton Senna custou quase nada, foi o túnel mais barato da história de São Paulo, quiçá do mundo. A avenida Jacu-Pêssego custou menos do que o recapeamento do Largo da Batata. São Paulo não inunda mais nos lugares onde ele pôs a mão. Como ele diz que "paulistano não anda um metro sem pisar numa obra do Paulo Maluf (ele se refere a si mesmo como um terceiro)", infere-se que São Paulo não inunda mais. Soube também que ele foi preso sem nenhum motivo. Pura vingança contra seu sucesso. Ainda foi revelado que ele continua na vida pública. Não falou sobre suas assinaturas nos documentos de contas de paraísos fiscais, nem foi perguntado: o brilhante Amauri Júnior tinha outra linha de investigação. *** Vi um bom pedaço da entrevista do presidente Lula no Roda Viva, na segunda-feira. De modo geral, o presidente foi bem, vencendo o desafio de encarar uma dezena de cobras criadas da imprensa brasileira, situação que sua assessoria evita ao máximo, sabendo que ele não tem a agilidade verbal (e talvez o cinismo) que sobra em gente como Maluf, por exemplo. Lula usou aqui e ali o fragmento "...sabe?", que lhe serve de ganha-tempo desde que dava entrevistas lá no sindicato, atrapalhou-se visivelmente algumas vezes e enrolou bem em outras. Foi capaz, em duas ou três situações, de tomar posições firmes, até de inesperada coragem, como nas defesas de José Dirceu, de seu próprio filho e do avião presidencial que substituiu o Sucatão. Até onde eu vi, defendeu bem a camisa. Ou melhor, a faixa. Mas o que me surpreendeu na entrevista foi a postura dos jornalistas. Interrompia-se o presidente a todo momento, de forma flagrantemente indelicada e inadequada. Heródoto Barbeiro e Augusto Nunes agiam como se estivessem entrevistando o Escadinha ou a Jeany Mary Corner. Nada que lembrasse a placidez e o respeito vistos no Roda Viva com FHC então presidente, gravado no Alvorada. Ok, Fernando Henrique tem uma enorme experiência em situações sob esse tipo de pressão e tinha Ana Tavares como assessora de imprensa. A assessoria de Lula parece ter sido frouxa. Mas isso não justifica a falta de educação do grupo de jornalistas, tentando se travestir de corajosos. O presidente foi, no mínimo, magnânimo ante tal tiroteio, chegando a elogiar a imprensa, em certo momento, e em outros, a distribuir simpatias. A imprensa é o reflexo do país. Naquela sala, todo mundo, com talvez duas exceções, posava de Pulitzer mas gerava um conteúdo não mais do que Amauri Júnior. | 7.11.05
Não sei se devo, mas vou gastar metade deste texto retomando o anterior. A segunda metade será uma declaração de amor, na proporção devida em que possa este sentimento ser dedicado a uma figura pública por um admirador. Algo meio tietagem. Explícita. *** Retomando: Caetano. O meu problema não é com ele -- possivelmente o compositor popular brasileiro de que mais gosto, ao lado de Noel, Caymmi, Gil e Chico. Caetano é, como boa parte das figuras públicas, gabola e auto-referente (basta ver a parede ao lado da qual ele posa na foto da Folha). Até aí, osso do ofício. O problema é o que a imprensa faz disso, transformando tudo o que é dele em referência. Daí a colocá-lo junto a ensaístas de primeira linha, é só um passo a mais. O problema, repito, não está em Caetano, está no Brasil. Este é o país do latu sensu. O latu sensu compensa nossas falhas e mazelas. Assim, um cara inteligente e que escreve bem, de forma criativa, prenhe de referências e colocações surpreendentes, é guindado à condição de ensaísta. Não é bem, mas, latu sensu, é. Como os meninos que saem das ralíssimas escolas de publicidade e colocam em seus currículos que são designers. Latu sensu, são, embora strictu sensu, sejam apenas versados em um ou outro software gráfico. Não é Caetano, aliás, que diz que Djavan faz blues? Ora, latu sensu, faz. Como um antigo chefe que tive, que se atribuía um título de M.B.A. (Master of Business Administration). Apertado a falar mais do curso que lhe dera o título, alegava que não tinha esse nome, mas era mais ou menos a mesma coisa. Pois é isso o que se faz com Caetano: não tem as qualificações todas, mas é mais ou menos a mesma coisa. Como este país, que, olhando bem, é uma nação. Latu sensu, é claro. *** Estou apaixonado pela vereadora Soninha Francine. Confesso que já a olhava com piscadelas -- que obviamente, ela nunca pôde ver, sendo a TV transmissor de mão única -- nos tempos de MTV, depois quando ela se revelou versada e fluente nas coisas do futebol -- normalmente monopólio de marmanjos -- e ainda mais pela coragem que demonstrou ao longo da moléstia de sua filha, tornada pública por ser a mãe uma figura não menos pública. Pois bem, Soninha vem agora, numa carta para a Folha de S.Paulo publicada neste domingo, criticar com veemência um editorial do jornal que, por sua vez, espinafrava o Fumcad, Fundo Municipal da Criança e do Adolescente. Ocorre que Soninha é vereadora eleita pelo PT, membro destacado de sua bancada na Câmara paulistana, e o Fumcad é um projeto implementado pela administração José Serra, à qual o partido de Soninha faz oposição. Diz ela: Eu também fui cética no começo, achando que vinha aí mais um slogan para enfeitar uma estratégia sem profundidade, mas como deveria fazer, busquei informações (será que a mídia também o faz para valer?) e descobri que a SMADS [Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social] sabe o que está fazendo. Minha função é fiscalizar para ver se funciona bem, e não "secar" só porque vem de um governo que, para "completar", não é do meu partido. Há quanto tempo você não via isso? Um parlamentar defender uma medida que considera correta simplesmente porque a considera correta, mesmo sendo de um governo de partido diferente? Soninha inaugura o que, se for seguido por outros parlamentares, poderá ser uma nova era na combalida política brasileira. É um exemplo, uma forma de atuação que rompe com o cacoete de jogar um jogo que perdeu o foco na representação popular e passou a ser uma briga (às vezes um quebra-pau, como se vê em Brasília) que se retroalimenta, esquecendo completamente o eleitor do lado de fora, arfando por soluções que nunca chegam. No mínimo uma coisa a vereadora já conquistou: o voto deste tucano na próxima eleição que ela disputar, seja para a reeleição em 2008, seja para vôos mais altos já em 2006. | 4.11.05
Um pouco de prosa, senão enjoa. Eu mesmo ando enjoado de tanta coisa de que gostei. Se não fosse homem, diria que é prenúncio de menopausa. Caetano Veloso é o objeto deste mal-estar. Deu na Ilustrada de ontem, 4/11, que um tal de Eucanaã Ferraz juntou textos de Caetano feitos desde 1960 e os organizou em um livro, "O mundo não é chato" (Companhia das Letras, 368 páginas). Há uma pequena resenha do jornalista Luiz Fernando Vianna e uma grande entrevista, que re-revelam um Caetano cabotino e tão cheio de trejeitos que é possível reconhecê-los mesmo num texto impresso. O que mais soa fora de lugar ali é tratar-se Caetano Veloso -- um excepcional músico popular -- como intelectual, é atribuir-se à coleção de textos que compõe o livro coerência suficiente para que sejam mais do que uma pilha de papel impresso, para que constituam o que se chama por aí de um pensamento, na acepção intelectual da idéia. Pelas amostras que o jornal traz, pela entrevista e pelo que Caetano já publicou antes, parece faltar estofo intelectual suficiente para que se torne necessária uma compilação como a feita em "O mundo não é chato". Me parece um trabalho ao mesmo tempo tardio e prematuro. Caetano não acabou sua obra intelectual, por uma razão simples: jamais a começou. Por outro lado, sua obra artística já foi exaustivamente publicada e reproduzida em todo tipo de mídia. Nenhum demérito em tudo isso. Caetano sempre produziu um trabalho finíssimo em canções e alguns poemas. Também sempre manifestou opinião sobre quase tudo, de sexo a afazeres domésticos, de maternidade a política, de forma quase sempre original e inteligente. Mas daí a atribuir a essas manifestações a qualificação de trabalho intelectual, há uma baía de Todos os Santos de distância. Primeiro porque uma obra intelectual precisa ter e apresentar contexto, fundamentação. Ela é sempre fruto claro do conhecimento humano produzido até ali; dele parte e a ele reflui. Este é o engano fundamental do jornalista e, creio, do autor da compilação, como também da própria editora (ou de sua assessoria de imprensa): chamam de trabalho intelectual o que é, no máximo, um trabalho inteligente. O segundo ponto a observar é o da construção de um pensamento ao longo do tempo. Tenho sérias dúvidas sobre o sucesso do organizador Eucanaã Ferraz em encontrar um fio condutor, um pensamento central que percorra os escritos produzidos por Caetano entre 1960 e os dias de hoje. É difícil encontrar tal coerência, ao longo de 45 anos, e partindo dos 18 anos de seu autor, mesmo em intelectuais mais reconhecidos. Que fases podemos distinguir no intelectual Caetano Veloso? Que correntes construiu ou ajudou a construir? De quais ao menos tomou parte? Se de nenhuma, com que fundamentos as negou a todas? Adoro "olhar colírico/lírios plásticos do campo e do contracampo/telástico cinemascope" e por aí afora. Adoro cantarolar e ouvir Caetano. Mas acho um porre ler aquelas entrevistas que ele dá, gabolas e sempre preocupadas em sacar do elemento-surpresa, um truque sub-intelectual, uma jogada para a torcida. Acho ainda surpreendente que esses subterfúgios continuem a render chamada de primeira na Folha e capa da Ilustrada. Já lá se vão quase quarenta anos desde "É proibido proibir". Será que já não deu tempo de aprender nada de novo? | 3.11.05
Reclamos Noel Rosa morreu com vinte e seis, Castro Alves viveu um pouco menos. Sem um olho, Camões fez o que fez, sem os dois, Ray Charles leva-nos a Vênus.* Stephen Hawking não se mexe mas pensa, Luís Inácio não parece, mas mexe. O câncer de Darcy lhe deu licença, nem parkinson faz com que Ali se avexe. Já eu, tenho miolo e quatro patas, comi, fui vacinado e escapei dos traumas, das tragédias, das bravatas -- o tempo me deu anos, como a um rei. Aproveitei gerando só erratas, legados de "será?" e de "não sei". (*) Decisão difícil: preferi contar em "Charles" uma sílaba só, como a pronúncia em inglês, algo como "Tcháls", indicaria. Fiz outro verso para o uso da fala brasileira, "Tchar-les" ou "Char-les", que seria: "sem os dois, Ray Charles nos põe em Vênus". Mas, definitivamente, prefiro a que ali está, até pela aliteração malemolente em "Charles leva-nos", "Tchals leva-nos". | 1.11.05
Odeio "tendências". Explico logo: "tendências" entendidas aqui como modas que os praticantes têm vergonha de admitir que são modas. Exemplo presente: as fotos publicitárias desbotadas e azuladas. De uns tempos para cá, você olha os anúncios nas revistas e vê quase todas as fotos com um ar acinzentado, azulado, meio metálico e desbotado, ligeiramente parecidas com as fotos colorizadas do começo do século 20 ou com alguns filmes de terror do começo dos anos 90. Produtos tão díspares como plano de saúde, telefone celular, iogurte diet apresentam lá as fotos com aquela luz estranha, meio fantasmagórica. Se você perguntar a um publicitário o que é que o iogurte tem a ver com as calças, ele trará no rosto uma expressão entre o piedoso e o profundamente sábio e lhe responderá: "É uma tendência". Se ele for muito íntimo, continue a conversa com "É uma moda?". Você perceberá uma indignação contida, seguida de uma condescendência magnífica e um balançar de cabeça, a expressar "Esse não entende nada, mesmo". "Tendência" é algo que flutua entre entre os extremos "moda" e "cena", sendo "moda" o efêmero, adotado por quem é desavisado ou mesmo vulgar, e "cena", a consolidação de uma "tendência", sua transformação em modo de vida de uma comunidade, com desdobramentos estéticos múltiplos e abrangentes. Por exemplo, nos anos 90, "new age" era tendência e virou "cena", com pessoas e grupos de pessoas vivendo e convivendo inteiramente sob seus ditames, com roupas, objetos, vocabulário, "atitude", tudo coerente, compondo "a cena new age". Por enquanto, as fotos desbotadas são "tendência", mas daqui a pouco podem virar "cena". Basta que a elas se agregue uma "atitude" e, a esta, se junte uma turma. Em pouco tempo, a turma receberá um nome. Vamos supor, "blue-faded". Pronto. Com nome consagrado, você logo verá a "cena blue faded" amadurecer e passar a proferir verdades próprias, envolvidas em roupas desbotadas em tons de azul e cinza, acessórios em prata, um ou outro adereço verde-claro, dois ou três heróis e, com o tempo, dois ou três traidores. Estes, de integrados completamente à "cena blue-faded", em certo momento, como por encanto, aderirão a uma nova "tendência". Depois de esnobarem a "moda" subseqüente, assumirão a nova "cena" que ajudaram a criar. Para o "blue-faded", dedicarão uma frase piedosa, como "Os caras não entenderam nada" ou "Como pode? Pararam em 2003", enquanto consolidam sua "tendência", compondo a "cena" que dará ao mundo sua cor certa e definitiva. Que, como tal, durará até a próxima. | |