dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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28.10.05

Destampei a pasta. Mais um soneto estava lá pedindo para sair. Como eu acho que devo uma compensação a quem passou por aqui e teve de ouvir proselitismo político por vários dias seguidos, agora pendo para o outro lado da balança. Antes de ficar meloso, vario -- não sei ainda em qual acepção.

Soneto do que fica e corre

Não bastasse mirar com olhos d'água,
quando atira sorrisos sempre atinge
um alvo em mim. Se porventura afago-a,
devolve um enigma no olhar, esfinge.

Se a procuro, some, vai a Manágua,
Guarujá (não sei se viaja ou finge).
Se resolve chamar, lá do Aconcágua,
eu vou, sigo o caminho que me impinge

sem buscar atalhos. Vou, apenas.
Às vezes ela espera, às vezes some
e põe a culpa em mim, faz lá suas cenas.

Se exibe-se um leão, não há quem dome;
mas se aparece gata, são dezenas
as vidas que entrega. Depois, me come.



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26.10.05

Hoje é dia de mais poesia. Soneto, como tem sido habitualmente. Este abaixo é uma homenagem. Eu o escrevi há tempos e tenho tido um ridículo pudor de publicar. Mas tenho de vencer esta barreira. Libertar-me.

Bom, vou atravessar o Rubicão. Tirem as crianças da sala. O soneto que publico homenageia um poeta notável, um dos grandes nomes vivos da poesia brasileira. Justamente pelo perfil do homenageado, é mais "hardcore" do que aquilo que normalmente publico aqui. Muito menos, no entanto, do que os sonetos que ele faz -- brilhantes, rigorosos e surpreendentemente obscenos.

Recomendo que, depois de ler o que cometo abaixo, leiam o turbilhão que o homenageado produz. Está nas boas casas do ramo. Em tempo: ele produz recitando, pois ficou cego há alguns anos, vítima da doença que lhe inspirou o pseudônimo (haja capacidade de rir de si mesmo).


Soneto suculento

Se eu não fosse tão fino, tão garboso,
se eu fizesse sonetos do caralho,
pensasse o texto mais que o cabeçalho,
menos lirismo, mais foder gostoso;

se eu permitisse ao verso dizer "gozo",
se não me importasse com o que valho
e descrevesse o pinto, o sinto, o malho
em vez de fazer pose de amoroso,

teria, então, quem sabe, uma estatura.
Não seria este anão, palhaço, Bozo,
Cheio de estilo e sem embocadura.

Dissesse: trepo, chupo, fodo, ouso,
podia motivar a pica dura
e o sempre livre do Glauco Mattoso.



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25.10.05

Day after: só quem já tomou gin em hectolitros sabe o significado destas palavras.

Ou quem vive no Brasil pós-referendo. As últimas da turma do tiro, que liderou as massas no domingo, são: 1) mandar a conta da campanha (R$ 900 mil) para a Taurus e a CBC (para quem não sabe, Companhia Brasileira de Cartuchos) racharem (tá na Folha de hoje); 2) propor outros plebiscitos para referendar delicadezas como a prisão perpétua, a redução da maioridade penal e a proibição do aborto (tá na Folha de hoje).

Vamos lá, pra frente, Brasil!



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24.10.05

Há algo que me consola no resultado do referendo: é o que ele revela sobre o Brasil. Com ele, cai por terra o discurso lamurioso segundo o qual somos vítimas seculares de um ente difícil de identificar, e que só quer o nosso mal. Ora o chamamos de "governo", ora de "elites", por vezes de "os políticos", por outras "as instituições".

Fica mais claro, agora, que não somos vítimas de nosso destino, mas agentes dele. Somos o que somos por obra e graça de nós mesmos. Somos o que somos porque escolhemos. Durante anos, mantivemos, por um discurso artificioso de certa parte da nossa elite, a idéia de que havia outra parte dela, reacionária, que enfiava, goela abaixo da nação, as opções conservadoras que "o povo" rejeitava, mas não tinha como evitar.

O plebiscito põe os pingos nos is. Mais de sessenta por cento da população adulta deste país tropical tomou uma decisão conservadora em uma eleição livre, sem desequilíbrios econômicos entre as partes, sem maiores pressões pendendo a um lado ou outro. A Rede Globo manteve equilíbrio, a imprensa se dividiu de forma virtualmente equânime, não houve cabresto de lá ou de cá. E o que vimos foi prevalecer a opção conservadora. Este é, pois, o grande divisor de águas.

A partir de agora, fica ridículo colocarmos a culpa por nossos atos em quem quer que seja. Quando elegemos Jânio Quadros, em 1960, culpamos o populismo e seus conservadores ocultos, quando sofremos o golpe de 64, culpamos os conservadores explícitos, quando elegemos o Collor, culpamos a Globo. Sempre apareceu algo ou alguém para culparmos. Sempre houve um desavisado a atribuir o erro ao sujeito do lado e, imediatamente, pintar a cara de verde-e-amarelo, espantar o cabrito de sobre os ombros e berrar "tira esse bicho daqui!".

Agora é diferente. Não há a quem culpar além de nós mesmos. Nós decidimos manter tudo como está em uma questão crítica ligada à violência. Nós decidimos que não devemos interferir no quadro geral, que mostra civis armados matando outros civis, dentro de casa, no trânsito, no bar da esquina, no campinho de futebol. Nós decidimos que foda-se.

Tudo bem, somos espertos, não é? Somos criativos, não é? Somos rápidos no gatilho, não somos? Pois é, o que quer que sejamos, agora somos mesmo. Depois de 23 de outubro de 2005, chegamos à maioridade. Escolhemos livremente, e temos de enfrentar as conseqüências dessa escolha. A partir de agora, boyzinho atirando em boyzinho sábado à noite em Moema, garoto mandando bala no amigo da escola, marido fuzilando a pobre da gorda por corno demais ou sal de menos, é tudo problema nosso, não mais "dos político (sic)", "dos governo (sic)", "dos rico (sic)".

Somos agora um povo guindado à maioridade. Somos senhores do nosso destino. Escolhemos. O futuro, a Deus pertence. E que Ele proteja os mais perto de mim, que agora é o que me interessa.



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21.10.05

Eu digo sim
Eu digo não ao não

E o resultado é depressão.

É preciso repensar este país e esta nação. Não passamos incólumes pelo trauma da ditadura, da urbanização desordenada, da cultura de massa. Não nos tornamos adultos, ainda deixamos o medo do bicho-papão sobrepujar a razão -- e chamamos isso de criatividade, e a louvamos. Somos menos criativos que os ingleses, que os japoneses, que a média do primeiro mundo. Nos enganamos. Somos, no fundo, grandes bananas, africanos sem tradição, classe média baixa do mundo. E contamos vantagem, exatamente como aquele bundão da escola. Vamos continuar bundões. E os mais bundões entre nós vão continuar gabando-se do 38, prótese do falo que lhes falta, instrumento talvez único de um coito estúpido e mortal. Não somos assassinos -- na média, ainda não temos competência para tanto. Somos apenas bundões gordos e, agora, armados, simbolicamente armados, o que quer dizer armados na alma, o que ainda não éramos. Pobres. Cada vez mais pobres.

Eu digo sim. À toa, mas digo.



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19.10.05

Menos de 5 dias até o plebiscito/referendo, e a última novidade que vejo é a posição "cortina de fumaça", assumida por pessoas até então incapazes de compactuar com gente como o deputado Fleury (lembra dele? Não? Melhor para você), o treinador Antonio Lopes ou a loiruda Hebe Camargo.

Explico: "cortina de fumaça" é como eu chamo a posição pelo "não" ou pela omissão, justificada por uma suposta falta de cabimento do plebiscito/referendo, face a mazelas de maior prioridade no país, como a fome, a corrupção, o crime organizado, o "mensalão" e por aí afora.

O argumento vai da severidade dos que queriam ou apurar tudo ou economizar a grana investida no pleito até a pura paranóia dos que alegam que a convocação teria sido uma forma maquiavélica de acobertar os descalabros do governo. O fato é que, com a instituição desses argumentos, instalou-se a tal "cortina", e mais e mais gente se diz indecisa ou opta pelo "não".

O problema desse "não" é que ele é o "não" errado. Se a forma ou a abrangência deste plebiscito está inadequada, o fato é que ele coloca uma questão objetiva, à qual devemos responder objetivamente e com coragem: queremos ou não queremos o cidadão comum armado? A todas as perguntas não feitas, devemos agora uma jura de fidelidade, vamos cobrá-las nas ruas, vamos fazer abaixo-assinados, vamos pressionar nosso deputado. Agora, a pergunta que está colocada é a do referendo. Eu vou votar "sim", apertando o botão número 2. Para quê? Para ajudar a evitar mortes sem motivo que não seja a presença de uma arma acessível. Por que? Porque me é dada a oportunidade de fazer isso. Simples assim.

E o resto, como esquecer do resto? O resto, de duas uma: ou esperamos alguém nos convocar para o plebiscito definitivo, o referendo de todos os referendos, o Armagedon do sim ou não, ou vamos nos organizar para exigir mudanças. O que não dá é para criar uma cortina de fumaça, um álibi para votar em algo que todos sabemos ser espúrio e pior para a Nação, que é o tal do "não" ou a anulação.

Vamos voltar à racionalidade mais chã: arma na mão de cidadão só mata mulher, amigo ou irmão. Não vamos perder a chance de salvar algumas dezenas de vidas por semana. Nós não vamos salvar todas as vidas que precisariam ser salvas, mas isso não pode ser motivo para deixarmos de salvar as que podemos salvar. É uma questão humanitária que não pode ser deixada de lado por tergiversações.

Em nome de quem a gente gosta: domingo é dia de salvar vidas.



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18.10.05

Ontem, um garoto de 15 anos matou outro garoto de 15 anos em uma escola do Parque Anhangüera, periferia de São Paulo. Ambos tinham família. Um deles tinha dois revólveres na mochila. As circunstâncias não ficaram claras na notícia do telejornal noturno. Só uma coisa é óbvia: não houvesse revólver, não haveria a morte.

A propósito: você viu alguma notícia sobre heróica defesa de civil armado contra bandidos, no telejornal de ontem? E no de anteontem? E nos da semana passada? Anos 90, talvez? Não lembra, não é? Pois é: não há. Arma na mão de cidadão só mata mulher, amigo ou irmão.



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17.10.05

A sensação foi mais ou menos a mesma, guardadas as devidas proporções, que teve o japonês da piada, quando apertou a descarga e, bem naquela hora, explodiu a bomba de Hiroshima. Pois é, eu falei aqui, bestamente, que ia deixar o assunto do referendo de lado, e -- pimba! -- lá vem o Ibope mostrar que o resultado virou e agora o "Não" está na frente.

É duro de acreditar. A que atribuir isso? À propaganda mal feita do "Sim"? Mas a do "Não" é igualmente mal feita e cheia de argumentos risíveis. Ao medo da população? Ora, se o medo é de tiro, como votar contra o desarmamento? Há quem diga que o apoio do presidente Lula, publicado na Folha de S.Paulo há alguns dias, tenha gerado a reação. Duvido, por pior que esteja o inferno astral do presidente, não parece ser capaz de provocar mudança tão radical -- afinal, nem sua rejeição mudou tanto e tão rápido.

Na busca besta de achar uma explicação, tento pegar algumas pistas aqui e ali, e me lembro do surto social que foi a eleição de Fernando Collor para presidente da República. Um cara jovem, rico, atlético e boa-pinta, governador de um estado paupérrimo, que havia sido posto na mídia como "o caçador de marajás", por ter se recusado a pagar algumas aposentadorias e salários de servidores, embora pagasse fortunas a usineiros em forma de perdões de dívidas e indenizações. O tal "caçador" virou uma espécie de lenda urbana (algo como a "loira do banheiro" e os "ladrões de rins", só que com apoio da Rede Globo), uma virose civil, e se elegeu com um caminhão de votos.

Passada a febre, a farsa ficou evidente, a medusa foi defenestrada e o episódio, curiosamente, quase esquecido, como se tivesse ocorrido em um ano distante, entre a abdicação de Pedro I e a instalação da primeira Regência Trina. Sucedeu a quimera uma espécie de "arrependimento social", e, em seguida, o país se entendeu, do jeito que foi possível, governo Itamar à frente, e esse pacto amuado nos trouxe, finalmente, alguns anos de estabilidade.

O que se vê agora, às vésperas do plebiscito de 23 de outubro, é um fenômeno semelhante. De certa forma, coloca-se um 38 no lugar de Collor de Melo e "os bandidos" no lugar dos "marajás". Figuras que já eram lamentáveis à época, como o deputado Fleury Filho, do PTB de São Paulo (lembra? Foi governador. Não lembra? Melhor para você) voltam à cena com discursos sem pé nem cabeça, mas com um ponto comum: constróem o mesmo tipo de lenda e se aproveitam de um estado de comoção nacional para apontar uma solução milagrosa e infalível. Lá, era o bonitão anti-marajás, hoje é o tresoitão anti-criminosos.

É inútil tentar prever quantos collors-de-melo e fleurys precisaremos eleger, a quantas histórias da carochinha vamos dar crédito até descobrir o conto de terror nas próximas páginas. Algumas pessoas lúcidas dizem que tudo isso é normal em uma democracia tão jovem, faz parte do ciclo de aprendizagem da sociedade. Não sei se eu quero aprender tanto.

É completamente previsível o que vai acontecer com uma vitória do "Não". Será consagrado o arsenal, o direito individual de se armar, em detrimento da segurança coletiva. O banditismo e a criminalidade seguirão seu curso normal, como seguiriam de qualquer modo, e ouviremos os fleurys de sempre proferir, junto com seus perdigotos, cinismos como "Viu só? Se tivéssemos desarmado a população seria ainda pior". Enquanto isso, toda vez que um boyzinho matar um homem de bem em uma lanchonete do Itaim Bibi (lembra? É fato real), toda vez que um garotinho de quatro anos matar o irmãozinho de três (lembra? É fato real), toda vez que o marido drogado matar, por desconfiança, a mulher (lembra? É fato real), toda vez que o adolescente matar o amigo que lhe deu um tapa na cara (lembra? É fato real), toda vez que essas armas funcionarem para o único fim em que de fato funcionam -- matar os que supostamente protegeriam --, os mesmos fleurys dirão que é o preço a pagar pela "segurança" conquistada.

Não tenho ilusões, já vi muita eleição e sei, pelo andar da carruagem, que o "Sim" está no bico do corvo. Se perder (e eu ainda tenho um fio de esperança de que a racionalidade prevaleça e nos salvemos desta piada de mau gosto), tenho uma triste e convicta certeza: na noite da eventual vitória do "Não", vamos ver na TV gente de revólver na mão atirando para o alto para comemorar. Será apenas o primeiro dia. E aí, já teremos perdido a chance de desarmar estes imbecis.



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13.10.05

Sim, pusilânime: pode me chamar, pode me execrar. Eu havia prometido ficar quarenta dias sem sonetos e outros tantos falando só do plebiscito/referendo. Mas acontece que o assunto se esgotou. Não tenho argumentos novos (ah, tenho um, de que só falei nos comments: proibir posse de armas é atentado ao direito individual tanto quanto obrigar uso de cinto de segurança; mais uma falácia boboca da turma daquele gordinho, o tal Fleury, lembra dele?), não quero repetir os velhos, pelo menos agora, senão não tenho o que falar na última semana. Bom, além disso, houve pedidos, você sabe, veementes. Ok, sou um fraco. Leiam o soneto abaixo com os devidos achincalhes. Eu mereço.

Da janela

A moça da janela é tema antigo,
é lido em todo canto, em verso e prosa,
Bandeira, Chico, Oswald, Sergio Endrigo,
ensaio, quadra, samba, mote e glosa.

Dali, ela fascina o olhar amigo,
no mais das vezes, nem é tão vistosa.
Intriga, quase oculta em seu abrigo:
será tão simples ser misteriosa?

A moça da janela é sexy e pura,
não há como enxergar qualquer defeito.
Fugaz, quando se enquadra na moldura,

não mostra humor enquanto mostra o peito,
não tem mania, depressão, tontura;
exibe, no que falta, o que é perfeito.



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11.10.05

Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 14

Os antigos chamavam o álcool etílico de "o espírito do vinho", mas houve tempo em que se poderia chamá-lo "o espírito do Rio". Sem embargo do talento acumulado, da poesia que brotava, da revolução sob a epiderme, pronta a rasgar, o álcool moveu uma ou duas gerações de inteligências, e parece ter sido fator importante para a poesia, a música e a literatura que nasceram naquela cidade cercada de morros, matas e mar.

Um tanto à margem da produção cultural, mas no epicentro do consumo etílico, havia uma pequena multidão de jovens de classe média que fazia a alegria e o balanço azul de um punhado de bares, cuja lista era muito bem encabeçada pelo Antonio's, na rua Bartolomeu Mitre, a lenda desse tempo e que, mais recentemente, depois de ter melancolicamente fechado as portas, havia sido transformado em uma lanchonete de estilo mexicano, como que a escancarar o mais cruel dos sinais dos tempos.

Quase todo dia (melhor seria dizer quase todo dia seguinte), ele chegava em casa em frangalhos, trajando um sorriso fixo e rescendendo aos vapores do etanol. Numa dessas madrugadas, sua mulher -- sim, ele tinha uma linda mulher de olhos azuis -- esperou acordada, vestida e atenta. Quando ele abriu a porta, as duas imagens que viu eram de uma deusa enfurecida. Curou o porre -- ou o essencial dele -- em menos de dois segundos. Outros doze segundos passados vieram encontrá-lo no sofá, cabisbaixo e todo ouvidos.

-- Tem razão, meu amor -- repetiu esse grupo de quatro palavras umas oito vezes, enquanto ela desfiava todo seu prontuário de chefe de família sofrível e marido relapso, e inseria nele ameaças, ora veladas, ora explícitas. Não se furtou a um par de lágrimas. Ao fim e ao cabo, ele também emocionado e, mais do que tudo, exausto, prometeu, quase soluçando:

-- Meu amor, acredite: a partir de agora, eu sou um novo homem.

Desse dia em diante, o casal parecia ter voltado aos tempos de namorados. Já no dia seguinte, ele faltou ao trabalho apenas para ficar o dia inteiro com ela, jantaram à luz de velas à noite, foram a Búzios no fim-de-semana, voltaram só na segunda-feira à noite.

Na terça, ele pôs o paletó e a gravata, pronto a curar cicatrizes, agora com o chefe, e saiu, deixando-a com um sorriso de encanto que só as mulheres felizes sabem dar. Às quatro e meia da manhã, o sorriso já tinha ido embora e, quando a porta se abriu, ela imediatamente foi até ali, apenas para ver o marido cambaleante sorrir encabulado.

-- Seu crápula, você não me disse que era um novo homem?
-- Ô, meu amor! É que o cara novo também bebe.

* O Preço do Peixe é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais.



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10.10.05

Antes do texto, o contexto. Estava eu voltando para o escritório, quarta-feira, começo da noite, quando toca o celular. Eu estava na rua, embarcando em um ônibus na rua Cardeal Arcoverde (cujas rampas fazem daquilo um playcenter a doi'real). Atendi, era a Lucia Carvalho, voz que de imediato trouxe cor àquele p&b chuvoso das seis e meia. Passada a surpresa, ela me diz: "A Revista da Folha tá precisando de um texto, acho que você é o cara para escrevê-lo, tá afim?". Claro que eu estava, ao que ela emendou: "Então precisa ser para agora". Perguntei se havia algum tema. E não é que havia mesmo? "É o seguinte, eu vou escrever sobre os peitos e você sobre os pelos". Como assim? "Eles querem que uma mulher fale sobre como foi lidar com o aparecimento dos seios e um homem fale sobre seus primeiros pelos". Ah, tinha tema. Mas que tema! No caminho já fui pensando no que escreveria, o tempo era muito apertado. Quando apertei o botãozinho para descer, já tinha o conto inteiro na cabeça. Mas desci sobre uma poça d'água e esqueci tudo. Ainda bem, porque saiu uma coisa mais simples, que é o que segue abaixo. Caso você não tenha a Revista da Folha, clique aqui para dar uma olhada no texto delicioso que a Lucia mandou. Além de texto, é cinema puro. Como sempre.

Os primeiros

Confesso que eu nem esperava por eles. Me ocupava com um time do Santos, feito de capinha de relógio, que tinha tudo para ser campeão brasileiro de futebol de botão. Desprevenido, cheguei à rodinha que conversava num canto atrás da quadra velha de basquete. Lugar para brigas com hora marcada, revista de mulher pelada ou assuntos ultra-secretos.

-- Mostra aí.

Já ia puxando o Manoel Maria do bolso, quando o Antena interrompeu:

-- Esquece esse jogo de botão, que saco. Mostra aí, mostra aí.

E, ato contínuo, abaixou as calças e exibiu os vastos pelos pubianos, uma verdadeira floresta. Doze olhos me encaravam. Gelei. Eu não tinha o que mostrar. Na verdade, sabia que os pelos estavam para chegar, mas era mais ou menos como a bicicleta do meu irmão ou o apartamento novo: não tinham uma data muito certa. Agora, eram de máxima urgência. Soltei um esfarrapado "não baixo as calças pra homem" e sumi dali. Vaiado e humilhado.

As férias de verão chegaram como um bote salva-vidas. Deram três meses ao meu corpo para que os hormônios fizessem sua parte. Em fevereiro, tinha carnaval e pentelhos. Na volta à escola, me pus outra vez falante, contando vantagem da temporada na fazenda e dos meus craques em miniatura. Esperava pelo Antena, que era grande mas não era dois, para mostrar logo que, nos pelos, eu também me garantia.

-- E aí, moleque, debaixo do braço, você já tem?

Emudeci de novo. Como demoraram a chegar, as férias de julho.



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6.10.05

Ontem conversei com amigos lúcidos sobre o referendo, assunto do mês. Todos concordavam, basicamente, que o "Sim" é a opção. Mas algumas questões importantes foram colocadas, sobre regulamentação, excessões etc.

O que mais me surpreendeu foi a crítica unânime à campanha eleitoral na TV. Confesso que pouco vi, como pouco tenho visto TV. Mas, do que vi e do que me disseram os amigos, o que parece é que os publicitários (ou "marqueteiros", como a imprensa prefere chamar quem faz propaganda política) estão irremediavelmente presos a uma fórmula estreita e burra de fazer campanha, que é centrada no chamado "apelo emocional".

Quero crer que, se o que há para ser mostrado é fraco ou limitado, explica-se que o publicitário enfeite a peça com câmeras lentas, scripts chorosos, fundos musicais melados e celebridades inclinando a cabeça a quinze graus com uma flor na mão.

Não é o caso. A campanha pelo "Sim" tem duas peculiaridades que precisam ser entendidas pelos fazedores de campanha, sob pena de gerar um enorme mal-entendido no eleitorado, com uma profunda decepção depois (coisa que o povo não agüenta mais, depois do choque de realidade envolvendo o governo Lula e sua fábula de retidão esterilizada). Quais sejam: 1. Há argumentos de sobra para expor ao eleitor, que são mais necessários e úteis do que o rame-rame "publicitês" a que a campanha nos expõe, jogando pelo ralo minutos preciosos para a conscientização geral. 2. A proibição de posse/porte de arma de fogo pelo cidadão comum não tem e nem pretende ter o objetivo de afetar a ação da bandidagem, salvo no que se refere à utilização de armas roubadas e às conseqüências funestas do enfrentamento de bandidos por cidadãos comuns. O que se obterá com ele é a profilaxia contra crimes comuns cometidos por cidadãos comuns (uma imensidão, conforme as estatísticas demonstram). Ou se explica isso ao eleitor e se elimina a fantasia de uma panacéia condutora da paz universal ou se aprofundará o niilismo que já grassa perigosamente em nossa classe média tão cheia de hematomas.

A consciência do eleitor é inversamente proporcional à intensidade decorativa da publicidade eleitoral. É preciso perceber isso e agir enquanto é tempo. Mudar o teor dessa propaganda adocicada pode fazer a diferença entre ganhar, fazendo um país melhor, e ganhar criando uma nação de desapontados.



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5.10.05

Faltam 18 dias para o referendo e, ao contrário do que eu imaginava, a discussão parece estar pegando fogo (sentido figurado, pelamordedeus). Isso é bom, havia um certo temor de que as pessoas fossem votar meio burocraticamente, sem que houvesse uma verdadeira discussão na sociedade civil e nas ruas, até pelo excesso de mídia motivado pelos recentes escândalos. Mas sem dúvida é uma discussão que, às vezes, acaba mostrando muito do que há por trás do pensamento de quem defende armas em mãos do cidadão comum. Como neste caso ocorrido comigo.

Dia desses, um velho e bom amigo que, como tantos, está em dúvida sobre que botão apertar no dia 23, mandou um e-mail para parte de sua lista, com uma série de argumentos a favor do "não", ou seja, de que se conserve o direito de civis comuns terem posse e/ou porte de arma de fogo. A lista estava aberta e eu mandei um "reply all" com outra fiada de argumentos a favor do "sim". Hoje, recebo de volta um e-mail irado de uma das pessoas da lista que, após dizer que não me conhecia -- o que, a bem da verdade e da qualidade dos meus amigos, é certo --, me esculhamba violentamente (não aos meus argumentos, mas a mim, que não o conheço) e coloca, em meio a uma confusa lista de proto-argumentos, a seguinte pérola: esse chumbo que está no seu crânio te fez muito mal. Pena que ele não liquidou de vez com vc..

Sem dúvida, um excesso. Mas não é o que importa. O problema é: o que é que faz gente de bem, inserida plenamente na vida social, provavelmente sem nenhum histórico de violência além de um xingamento no trânsito ou um palavrão numa topada, subitamente se tornar um siderado, a ponto de desejar que o amigo do amigo seja liqüidado por uma bala? Qual é o mecanismo psicológico ou psicossocial que faz uma pessoa perder completamente o senso de civilidade, de liberalidade, de convivência humana, apenas pela possibilidade de que se proíba outras pessoas de ter arma de fogo em casa? A não ser que este cidadão(ã) que me desejou tão severa sentença já tenha sido acossado(a) por diversas vezes e, em todas, tenha precisado reagir a tiros para sobreviver, não há explicação possível para reação tão destemperada. E aí é que fica a minha pergunta: será que chegamos a um ponto do nosso estado psicossocial em que consciente e subconsciente se confundem e misturam, trazendo mitos e fantasias ao mesmo estado de concretude que têm os fatos reais do dia-a-dia? Será que o mito infantil da arma que defende plenamente (ligado à formação da sexualidade) deu para permanecer na mente de adultos maduros?

Dá muito medo ver uma discussão que, de resto, é civilizada, pertinente e racional, suscitar acessos de fúria dignos de vítimas secundárias de seqüestro (parentes da vítima, por exemplo). É como se todos e o coletivo assumissem uma espécie de comportamento pós-traumático sem ter de fato sofrido trauma. É extremamente preocupante e indica que o nosso tecido social se esgarça mais rapidamente do que imaginamos. E o que é pior: talvez a idéia de combater a violência de forma racional e conseqüente venha a chegar tarde demais. Em nome das minhas filhas e de meus futuros netos, espero estar errado.



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3.10.05

10 razões para votar "Sim" no referendo do dia 23

1. A Veja é a favor do "não".

2. O deputado Luiz AntonioFleury (lembra dele, um gordinho que foi governador de São Paulo, fez um presídio em plena Marginal do Pinheiros e, na semana em que deixou o cargo, mudou para uma mansão cujo aluguel era mais alto que toda sua renda mensal declarada? Não lembra? Ok, dá para entender.) vota "não".

3. Nos EUA, para cada morte justificável por arma de fogo (legítima defesa, confronto policial), ocorrem 185 homicídios dolosos, acidentes ou suicídios*.

4. No Japão, onde a posse e porte de arma por civis são proibidos, o índice de homicídios é de 0,03 por 100 mil habitantes, 1/800 da taxa brasileira*. Em tempo: no Japão também tem policiais aposentados e mafiosos na ativa.

5. Desde que começou a campanha de desarmamento em São Paulo, o número de homicídios caiu 18,5%.

6. Em São Paulo, mais da metade dos homicídios são cometidos por pessoas sem histórico criminal e por motivos fúteis. Uma arma na mão foi o fator decisivo do desfecho trágico.

7. 80% das armas apreendidas no Rio de Janeiro são brasileiras e de calibre permitido. Ou seja: armas que um dia foram legais.

8. Doca Street, lembra? Só fez o que fez porque sua trip estava acompanhada de uma arma carregada. Todos os dias acontecem centenas de casos análogos, mas menos notórios, no Brasil. As mulheres são vítimas constantes do brasileiro de classe média armado -- este a quem o deputado Fleury quer franquear a aquisição de armas "com as restrições da lei". Não lembra? Aquele gordinho.

9. É bom votar ao contrário do que vota Jair Bolsonaro.

10. É bom votar como vota Fernanda Montenegro.

*Dados confirmados na internet (confira, entre outros, os sites da Prefeitura e do Governo de São Paulo). Recebi-os originalmente em carta escrita pela filha adolescente de uma amiga. Fiquei orgulhoso e esperançoso na turma que vem chegando.



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