dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
29.9.05
Eu deveria voltar atrás e fazer mais sonetos, mas agora é tarde, e eu vou falar de novo sobre fatos políticos. Só que, desta vez, falo de algo que começa político, mas vai muito além. Falo do plebiscito que irá referendar ou recusar a proibição do porte de armas por civis. Desde logo: sou a favor. Sem um pingo de dúvida -- o que é uma raridade para esta alma libriana, cheia de pingos e de dúvidas. Vou tentar ser curto e esquemático nos meus argumentos para não encher o saco dos estóicos e generosos leitores deste espaço. Vou falar mais do assunto, entre hoje e 23 de outubro, data do referendo. 1. Civis comuns -- entre estes eu incluo todos aqueles que não tiveram oportunidade de ter feito treinamento militar com pelo menos 90% de aproveitamento, que não são capazes de correr 100 metros em menos de 11 segundos, que não levantam mais do que trinta quilos com uma só mão, isto é, civis como eu e você -- quando têm armas em casa, costumam sempre obter os seguintes resultados: a) fornecem a arma ao ladrão; b) fornecem a arma como brinquedo para filhos pequenos que, quando não se matam ou se ferem gravemente, fazem o mesmo com o irmãozinho ou o filho do vizinho; c) na melhor das hipóteses, deixam a arma envelhecer e enferrujar, o que pode tornar menos prováveis as alternativas a) e b). 2. Sobre os possíveis resultados: depois de décadas de crescimento robusto e regular, o número de assassinatos por arma de fogo tem caído em São Paulo. Isto apenas com a campanha de doação voluntária de armas. Há uma correlação positiva entre a campanha e estes números animadores. Sim, não se pode estabelecer uma relação de causa e efeito, mas uma boa correlação positiva, escrita em corpo 12, sem pontos de exclamação e cores berrantes, já é algo bastante animador. 3. Gosto de destacar que, provavelmente, entre as pessoas com quem convivo, pessoal ou virtualmente, devo ser o único que tem chumbo nos ossos, mais precisamente, no crânio. A probabilidade de que o 38 que me atingiu tenha vindo do guarda-roupa de um ingênuo chefe de família que achava que era o Wild Bill Hickock ou o Eliot Ness é enorme. 4. Se você tem dúvida sobre o tipo de segurança a mais que se pode obter com uma arma em casa, pare para pensar e imagine, com frieza e racionalidade, o que um civil comum faria ante um assaltante que o abordasse em um noite escura, bem na hora do jantar. Pense, o homem lá, com a família na sala. Onde estaria a arma? No armário? No cofre sobre o armário? Na garagem? O que fazer com o ladrão? Talvez pedir licença para vestir algo mais leve e heroicamente apanhar a arma salvadora? E com ela na mão, o que é possível fazer? Atirar mais rápido que o ladrão, com fé em que ladrões são pouca-prática, lerdos e sem pontaria? Pense na situação do mesmo civil comum na rua, com a arma sagazmente oculta atrás da calça ou em um coldre sob o braço esquerdo (vi isso em vários filmes de Eliot Ness). Um civil comum faria o que? Com seu olhar frio, diria ao facínora "Saque!", apenas para levar a mão ao coldre e atirar, enquanto o lento bandido sequer teria tempo de apertar o gatilho? Pare e pense: civis comuns não têm tempo de ser atiradores. Na verdade, muito poucos têm interesse real nisso. Não é um contra-senso um homem assim portar ou possuir armas? 5. Ouvi dúzias de argumentos da turma que defende o "não" ao referendo. O único que pára em pé é o da deputada carioca Denise Frossard, que alega que, analogamente ao que acontece com drogas proibidas e com o álcool no tempo da Lei Seca, a proibição geraria um mercado negro, com o conseqüente aumento tanto dos preços quanto da bandidagem associada ao comércio ilícito. Eu só observaria que o comércio de armas no Brasil já é predominantemente ilegal, já é praticado por bandidos e mafiosos, até porque sua clientela, igualmente composta de bandidos e mafiosos (ao contrário dos uísques e baseados, consumidos majoritariamente por pessoas de bem), esnoba os velhos 38, coisa dos tempos de Jesse James. 6. Tenho convicção de que, quanto menos armamento circular na mão de civis honestos, menor será o número de vizinhos arrependidos, cornudos assassinos, motoristas presos e crianças de classe média baleadas. Já são motivos de sobrapara que eu não me estenda aqui em argumentos certamente aborrecidos. | 28.9.05
Fui muito bem recebido aqui. Imagine que colocaram um conto meu no site. Editores hoje são muito permissivos, você sabe. Se você cansou de sonetos, dê uma passadinha e canse-se também da prosa. | 27.9.05
Nessa onda de sonetos, achei, no fundo da gaveta eletrônica, um de que eu gosto muito e que eu tinha certeza de já ter publicado aqui. De fato, ainda tenho quase, mas quando fui tirar a prova dos nove, consultando o Altavista (os sites de busca funcionam para minha memória como um transplante de cérebro, só que sem cirurgia e sem efeitos colaterais, a não ser um pouquinho de rejeição, dentro das expectativas), vi que ele ainda estava inédito (pelo menos parece). Então aqui vai. Prometo, é o último nos próximos 40 dias. Preciso preservar minha reputação e a deste veículo. Já pensou ouvir por aí "O Jayme quem? Ah, aquele dos versinhos?". Ora, essa! Soneto do nome Avatar, sina, o que os nomes são? Os nomes parecem compor pessoas, descrevem, atávicos, se são boas, suaves, duras, número, emoção. Tem gente batizada de Nação, tem quem se chame Bem; há Vis, há Loas, Martírios, Midas, Mortes, há Moncloas: todo nome, no fundo, é tradução. Mas também é sina de quem o traz (não são as Brancas um tanto incolores, as Maricotas, um pouquinho más?) Se um nome pode revelar pendores, de que revelações será capaz seu nome, composto de dois amores? | 26.9.05
Mais um soneto, mais um exercício, desta vez passeando pelo terreno das citações e referências grandiloqüentes (ou seria metidas a besta?). Soneto da sentença Por que sempre eu corcunda e você musa? Por que meu aleijão e seu cetim? Por que, em cada lilás da luz difusa, reflete-se meu cinza e o seu carmim? É de inocência que você me acusa em sua sentença, no melhor latim. Impõe-me culpa e dolo, invoca a musa -- muito verbo pra tão modesto fim. O balanço do afeto que se encerra e leva o bom pendor que havia em mim, se pesa o meu amor, certo é que erra. Será que é justo acabar sempre assim, eu raso entre os famélicos da Terra, você no alto da torre de marfim? | 23.9.05
Sempre adorei a epígrafe de um poema de Fernando Pessoa: Falta uma citação de Sêneca. Desde que a li, ainda adolescente, passei a admirar o inesperado na poesia. O tempo, depois, me fez ser menos adolescente e entender que há mais a esperar do que surpresas. Mas esse tempo e o Pessoa me deram matéria-prima para exercer uma poesia rasgada, que até hoje às vezes cometo (adoro Pessoa, mas não há como negar que, em certos pontos, sua poesia é quase tão afeita à adolescência quanto "Cleo e Daniel"). Aviso: não se enganem, os versos abaixo são tão premeditados quanto o projeto de uma agência bancária, e não têm nada a ver com o citado e amado poeta português. Valem, os versos, pelos efeitos especiais, e a citação, pelo contexto. Memória do esquecer Sem nada merecer, por sorte apenas, fui brindado com sua beleza e graça. Ingrato, devolvi-lhe cantilenas, maus humores, meu hálito e pirraça. É claro que, afinal, chegou o dia, o prazo, mesmo tarde, se expirou. Você me deu o adeus que eu merecia, adeus que eu disse meu, fingindo enjôo. Agora, sigo rindo no festim enquanto busco, ávido, o garçom e um copo de esquecer, com muito gin. Perco a memória mas mantenho o tom, sei o que finjo, vou, até o fim, ruim: só nisso aprendi a ser bom. | 21.9.05
Estou andando mais a pé pela cidade. É bom ver o céu, as fachadas, o mundo ao vivo. Mas o que é isso? As vacas. Ah, que bonitinho. Eh, eh, arte beneficiente, que gente legal. Eh, eh. Quero que as vacas vão todas à vaca que as pariu. São engraçadinhas como os anúncios com trocadilho no título, fazem uma interferência na cidade que a cidade não precisa mais. No fim, a ongue que as promove vai obter uma renda porreta com a venda delas e beneficiar criancinhas em algum lugar distante. Eu continuo achando uma merda. As barracas. São como as vacas: dão renda adicional a pobres e interferem insuportavelmente na paisagem. Ah, mas os coitadinhos não têm outra forma de subsistir, além de tomar para si o espaço público, mandarem à merda a velhinha que se acotovela com o negão pelo espaço que sobra na calçada para que o coitadinho possa subsistir vendendo contrabando e roubo de carga. O problema é: tudo se acochambra. O poder público que faz vista grossa para a venda de produto pirata na Teodoro Sampaio e no Largo 13 é o mesmo que é incapaz de prover o que deveria pelos impostos que recebe. Concede, então, um pouquinho de pirataria, sonegação, receptação. Que mal faz? E ajuda os coitadinhos. Filhos da puta, de Brasília ao Largo 13. As fachadas. Ah, o sobrado é velhinho, o empresário investidor vai fazer uma farmácia, não combina com a fachada do sobrado, que é velhinho. Tudo bem colocar uma fachadinha falsa de alumínio. O açougue do lado e a loja de ferragem em frente já fizeram. Até puseram umas placas bonitas, pegam a fachada toda -- ou melhor, a ex-fachada, coberta agora pelo progresso do alumínio, uma beleza. Cuzões. Os outdoors. Ah, pode, né, tem tanta coisa criativa, bonitinha, tanto terreno quase vazio, tanto lugar para pôr as placas, ninguém liga, todo mundo até gosta, brasileiro, você sabe, é meio publicitário mesmo, além disso, a paisagem em São Paulo já é uma zona, uma placa a mais outra a menos não faz diferença. Podiam bem enfiar essas plaquetas no cu. Perdão, amigos, estou andando a pé pela cidade que eu amo. | 18.9.05
Nos últimos dois meses, deixei de assistir à TV. A quebra de um pequeno componente eletrônico em minha "maquininha de fazer doido" (era assim que Stanislaw Ponte Preta chamava o aparelho que tomaria o lugar central dos lares do Brasil) fazia com que a imagem fosse se degradando até sumir, em poucos minutos, tornando necessário desligar e ligar a TV para poder ver mais um pouquinho do que ela exibia. Antes de pedir socorro ao técnico, mudei meus hábitos, ouvi mais música, li um pouco mais. Em compensação, perdi o timing dos fatos. Como não sou dado a ler notícias na internet e não vinha cumprindo o beija-mão ao Jornal Nacional, passei a saber as notícias pela mídia impressa. A sensação é a mesma que, imagino, tinham os nossos antepassados quando recebiam, por carta, as novas de além-mar e dos familiares distantes. Amado Jayme, trago-te, com pesar, a notícia do falecimento da tão querida tia Das Dores; ou então: Meu prezado Jayme, espero que esta te encontre com a saúde que já a mim tem faltado. Te lembras do Ernestinho? Pois é. Lida a carta, o Ernestinho já era lembrado em missa de mês, e o inventário de tia Das Dores já causava fúrias. Pois bem, sem a TV, vi apenas neste fim-de-semana, com bons dias de atraso, que haviam morrido três personalidades de cujo passamento eu teria gostado de saber antes -- um deles, em plantão do Jornal Nacional. Fato é que, semana passada, morreram o general Octávio Medeiros, o cantor italiano Sergio Endrigo e o maestro Hans-Joachim Kollreuter. Tenho certeza de que a grande mídia deve ter berrado sobre os três, afinal, a TV Globo costuma ser um titã da pertinência histórica. Mas, com a TV fora de combate, vi apenas as atrasadas notas da imprensa escrita. Sobre o general Medeiros, outrora temido chefe do SNI, o onipresente serviço de arapongagem do não menos temido regime militar, a nota sobre sua morte serve apenas para dar a devida dimensão histórica às pessoas e aos fatos em torno delas. O poderoso general, um dia autoproclamado futuro presidente da República, não mereceu sequer uma materiazinha de duas colunas em página par na revista de maior circulação do Brasil. Talvez devesse merecer, apenas para lembrar profilaticamente um tempo de sangrenta tragicomédia. Os outros dois, Sergio Endrigo e Kollreuter, têm em comum o fato de serem dois estrangeiros que influenciaram a música brasileira. Um, incidentalmente, o outro, de forma estrutural, radicalmente transformadora. Cada um a sua maneira, ambos ajudaram-na a aparecer para o mundo. Endrigo, compositor popular e uma espécie de chansonneur à italiana, escolheu para interpretar sua composição Canzone per Te, no Festival de San Remo -- um santuário da música mais brega dos anos 60 --, o brasileiro Roberto Carlos. O ano era 1968, e o "Rei da Jovem Guarda", com seus anéis e madeixas, cantou e ganhou. Levou a taça e o primeiro degrau para uma carreira latino-internacional. Aliás, não fosse contraditório, seria possível dizer que o italiano do "Rei" era para lá de macarrônico. Gentil, Endrigo dizia que RC pecava apenas em duas palavrinhas. Já Kollreuter foi o catalisador de uma revolução musical. Deixou a Alemanha, como tantos, por causa do nazismo, e desembarcou no Rio de Janeiro em 1937. Em pouco tempo, se estabeleceu como professor, valendo-se de um conhecimento vastíssimo, que incluía as formas então pouco ou nada praticadas no Brasil do dodecafonismo. Ensinou todo mundo. Teve influência na modernização do chorinho, foi decisivo na concepção da Bossa Nova, que, por meio de seu aluno e sempre admirador Antônio Carlos Jobim, deu à música popular brasileira as dissonâncias e os recursos harmônicos que a universalizaram, bafejou a Tropicália, cuja ousadia harmônica tinha influências de Guerra Peixe, seu ex-aluno, e da própria Bossa Nova, com quem Caetano, Gil, Tom Zé aprenderam "para sempre ser desafinado". Atravessou os anos 80 e 90 ensinando e aprendendo. Luís Nassif conta, na Folha, que, já em meados dos anos 60, Kollreuter mergulhou na música oriental e, mais recentemente, colocava sua atenção na música eletrônica e na democratização que a tecnologia traria -- como traz -- à arte. Acho que parte da sensação de atraso que me veio ao saber, caravelicamente, destas três mortes vem do fato de que, na mesma semana, e ainda sem TV, eu sabia, com poucas horas de atraso, de detalhes da cassação do deputado Roberto Jefferson. Não há como não sentir uma ponta de raiva e um pingo de culpa. Afinal, num mundo de hiper-oferta de meios e veículos de comunicação, deve haver algum que tenha uma pauta mais equilibrada e relevante do que a Veja e o Jornal Nacional. Eu tinha o dever de ofício de encontrar. | 14.9.05
Barbara Aleatória. Leitura compulsiva, sem nenhuma conexão afetiva ou intelectual com o tema, o texto, o autor. Um texto transcrito de um jornal inglês. Não fala de nenhuma das tragédias do dia, não menciona o Iraque e seus mortos, não fala da enchente na foz do Mississipi, não menciona a fome, a volúpia ou os fracassos do Brasil. Motivação intestinal. Barbie foi roubada. As letras nem garrafais são. A famosa boneca adulta, a ambigüidade máxima, moralista e sexualmente estimulante, o brinquedo de peito e quadril é uma fraude. Foi uma idéia roubada, pelo casal Ruth e Elliot Handler, de um pequeno fabricante de brinquedos alemão, que, por sua vez, tirara a idéia de um cartum de um jornal. Ladrão que rouba ladrão fica milionário. A Barbie, dada para as crianças de três gerações é fruto de um pecado. Novela mexicana de alcance global e tempo real. Os Handler não foram punidos. Pelo menos, não como um ladrão deveria ser. Não há mais nada para ler e eu fico então matutando, pensando como punir os Handler. Batem na porta. Finjo que não ouço. Batem de novo. Já vou. Estou terminando. Detesto apressar a leitura. Batem de novo. Já vou. O pior é que, além de ter roubado a idéia sem nenhum pudor, o casal deu à boneca o nome que era apelido da filha Barbara. Anos depois criariam um boneco, um homenzinho, um adultinho. Deram-lhe, por nome, o apelido do filho. Incesto. Moralistas que roubam e incentivam o sexo entre irmãos não deveriam ser no mínimo alertados pelas autoridades? Batem na porta com mais força. Eu não acabei de ler ainda, por que eles não podem esperar mais um pouco? A voz do homem de fora atrapalha muito minha leitura, embora ela seja apenas uma leitura compulsiva, mas tem um papel combinado com o ambiente, preenche o tempo que, de outra forma, seria sufocante. Mas agora era preciso acabar, não passava de três páginas, mais um box informativo, uma breve entrevista com o alemão que havia feito a primeira boneca. Lili. Na foto, ele a segurava na mão. Nua. Loura como a Barbie, irmã, mesmo. Nua. Ferramentas. A porta está sendo arranhada pelo barulho. Eu estou terminando, será que o homem não percebe? O alemão se fodeu mesmo, vendeu a patente para a mãe de Barbara e Ken, que, então promoveu toda a imoralidade que quis, sem obstáculos. O homem me pegou. O outro o ajudou. Na cama, atado, não consegui entender o que fez o alemão ser tão tolerante. Tinha alguma coisa com Lili, culpa talvez. Resoveu deixá-la ir a Nova York tentar uma vida melhor. Eu deveria ter tentado ir a Nova York também. Vender algo. O homem vinha chegando com a agulha. A Barbie, ao contrário de Lili, estava vestida. | 13.9.05
Quando publiquei o último soneto aqui, alguém mencionou o fato de que ele era algo sambável, que tinha um ritmo que parecia assim meio tamborim. Fiquei com essa idéia passeando sobre a mesa, até que resolvi tentar entender o que um soneto pode ter de samba. Saiu a tentativa aí embaixo. Soneto com baticum Disseram que o samba vem lá do Rio, que é temporão do jongo e do maxixe. "Vixe!", disse o bahiano quando ouviu, "Samba é nosso, retinto de azevixe". "Pixe e dendê não fazem samba bom" -- é o carioca, que lembra Sinhô -- "nem ganham selo impresso da Odeon". "Não! Quem sabe mais samba que um nagô?" Bahiano e carioca têm razão, têm samba, Donga e Olga do Araketu, têm berimbau, cantinho e violão, têm música de raça, som de preto. Fica aqui a sobra, consolação: só paulista faz samba com soneto. | 9.9.05
Saco cheio deste blogger que nega o acesso a quem quer ler o Dito Assim e não sabe o segredinho do /index.html depois do endereço. Preciso mudar a sede deste clube. *** Comentar o que, a respeito das instituições? Severino é conhecido corrupto, deve cair e é justo que caia. Zé Dirceu será vítima de algo que me lembra aquele filme italiano, Esse Crime Chamado Justiça. Não há uma prova sequer contra ele, apenas indícios confusos e aquela frase corrente: Não é óbvio que ele sabia de tudo? Pois é, tais obviedades é que deram origem aos linchamentos e às execuções por atacado na China. Este país está cada vez mais africano. *** Severino recebe para um jantar em Nova York e, ao fim da refeição, serve café. Colombiano. Certo, é pouca prática e, pela cara do homem, pode-se imaginar como é o responsável por seu cerimonial. Mas é de chorar no cantinho, não é não? Dona Ruth deve ter rolado de rir. *** Fui ver ABC de uma greve, de Leon Hirzmann, no sábado. Quase sem querer. Passei pela frente do CineSesc, ali na rua Augusta, vi que tinha uma extensa mostra do cineasta, e o filme que ia passar naquela hora era aquele. Entrei e vi o Lula de 1980. De fato, ele já exibia na época uma capacidade de liderança impressionante. Era adorado pela peãozada do ABC, chacoalhava o Estádio da Vila Euclides, mesmo quando propunha encerrar uma greve. Isso é um mistério para mim: o que faz com que alguns homens tenham tal capacidade, de fazer os outros à sua volta confiarem nele e o seguirem de forma quase incondicional? É o tal carisma. Mas o que é o tal carisma? Quanto ao filme, é um bom documento, mas falta a ele qualidade de som (problema crônico do cinema nacional, ainda mais quando se trata de som direto) e, pecado mortal, não traz créditos dos personagens que mostra, obviamente esquecidos pelo passar dos anos. Mesmo assim, um filme para ver e comparar com os fatos e o Lula de hoje. *** No mesmo dia fui ver Alila, um filme do israelense Amos Gitahy. Surpreendente, começa com um plano-seqüência que deve ter bem uns cinco minutos e que já apresenta o que o diretor mostrará daí em diante: muitos planos-seqüência, que teatralizarão o filme, sem no entanto -- é bom avisar -- torná-lo aborrecido. Personagens do dia-a-dia de uma cidade bagunçada, sempre tangenciando o clima bélico, sem jamais colocá-lo em cena, dão a Alila alma e relevância. Uma linda mulher com um amante que parece um terrorista cujo lado não se adivinha, um microempreiteiro que mora em uma van e contrata chineses clandestinos, sua ex-mulher gordinha que tem um amante galã e morre de inveja da amiga que tem o amante misterioso, tudo se encadeia em torno do cenário de uma cidade que, segundo um dos personagens, tem lá sua ordem muito particular. O filme nos diz que há vida sob a poeira do conflito e da cidade caótica e com um medo apenas subjacente, camuflado pelo dia-a-dia, este sim o que o filme tem de mais interessante. Mais do que vida, há poesia. Realista, quase documental, mas lírica e misteriosa, como a poesia, mesmo a contemporânea, deve ser. | 8.9.05
Pátria, 505 Esta terra se exibe com orgulho, exalta-se com ares de Camões; esconde seu histórico de esbulho nas letras de pitorescas canções. Destaca-se nos rolos e no embrulho, gabola de seus duzentos milhões, histórica na produção de entulho e na reprodução de maganões. Por mais que se tente mudar a valsa, há sempre um vocalise mais sutil. O som que abafa a grita e que realça a ilusão do peito juvenil fada à moral de uma fábula falsa, formigueiro de cigarras, Brasil. | 6.9.05
Dada a precariedade da conexão e do talento do autor, repito aqui um continho leve, cronicoso, de que gosto muito, publicado há muito tempo, nos primórdios deste Dito Assim. Para quem lembra, um Alpino duplo. Para quem não lembra, espero que seja uma boa leitura. Pelo telefone - Vou ligar lá. - Ah, não. - Por que não? - Ah, é ridículo, nós dois aqui, ninguém na casa e você nem olha para mim, fica olhando esses anúncios ridículos na TV. - Ah, amor, é legal, é engraçado, a gente pode se divertir. Mmmmm, vem cá, minha gata, deixa eu te beijar toda. - Oba. - Vou ligar. - Saco! - Eu não decidi para qual delas. Olha. Esse parece bom. Não, essa mulher de peitão é dos anos 70. Ah, olha esse outro, parece bom. Zero, zero... Deve ser Filipinas, Malásia... Eba, tá tocando. - Aló? - B-b-boa noite. - Boa nóitchi, meu amór. É um prassér falar com bossé. Qui bocé quér, queridjinho? Qualé sua fantassia? - Que é que eu falo agora? - Bobão, sei lá. Põe no viva-voz, ménage-à-trois. Bobão. - Boa! Escuta, tudo bem se eu puser no viva-voz? - Bocé poen ondji quissér, gato. Até no bibabós. - Eu quis dizer conference call. - Ah, ah, ah. Bossé tem un amiguiño, bamos a conversar a trés. Claro, muito sexy! - Não. É minha namorada. - Ah... - É, sou eu, a namorada burra dele. Ele é que quis, viu? - Claro, só podjia sér. Bom, bamos ao bibabós? Xá estou ficando excitada com nossa conbersiña. - Então fala, cê tá pelada? - Ô, bobão, isso é jeito de começar? - Úuuuu, cariño, ela tem rassáu, náu é assi que se começa. Pregunta que rôpa eu tô ussando. - Cê tá de calcinha? Tá de sutiã? - Como é bobo. - Calma, querida, no coménço eles sáo assi, meio imaturos. - Eu sei, mas já tô há um ano com ele e não muda nada. - Íiii, com meu primero marido bossé nem imaxina, era uma crianza. Sáu todos garotos. - Ô, peraí! - Mmmm, cariño, djá tá pelado? - Peraí o que, bobão, não vê que a gente tá conversando? - Conversando?? - Conbersando, sí... áhn... conbersando nó... ó... estééé... bibabós... - Você! Você é argentina! - Peraí, eu nem comecei a falar. - Fica quieto. Você é argentina, tá fazendo o que aí na Ásia? - Bocé sabe, a críssis, a chéntchi fala ben portugués. Era professora de filossofia, miña bóz agradó y me chamáron. É un bon enprego. - Mas não é meio chato atender garotada? - Escuta e eu? - Bocé acostuma, són garotos de toda a América do Sul. - Mas você não quer voltar? - ... Claro... claro... Oh, perdón por llorar... - Imagina, pega meu telefone, liga quando quiser conversar. - Gracias, gracias. *** - Pô, maior rolo com a conta de telefone aqui em casa. - É, mas você que ligou. - Mas quem ficou conversando com ela foi você - Ainda bem. Já imaginou, você garanhãozão, fortão, bonito, ia ficar horas com ela. - É, pensando bem, você tem razão. - Homens. | 5.9.05
"O trágico não vem a conta-gotas". Sempre admirei e temi esta frase de Desenredo, do mestre Guimarães Rosa. Temi pela simplicidade implacável, admirei pelo mesmo motivo que admiro os que são capazes de cunhar frases definitivas. Eu mesmo tentei algumas, jamais consegui vê-as repetidas. *** "Bom é mesmo amar em paz". A bossa-nova sempre me co-move. Acho que o que caracteriza a importância de um movimento cultural é o sentido de perenidade, tanto futuro quanto passado. Assim, a bossa nova é como Mozart ou Cervantes: dá a sensação de que sempre existiu -- ou de que é condição sine qua non para a existência de seu ecossistema. Na ida e na volta. *** "You do something to me". Cole Porter fez alguma coisa a todos nós. Obviamente, a mim e a você também. *** "O povo, de quem fui escravo, não será mais escravo de ninguém". Getúlio valeu-se do suicídio para virar mito. Lula está se valendo do mito para virar cadáver. Político, é claro. Como pode uma turma chegar ao poder de forma tão precária? Como puderam perder a eleição do presidente da Câmara? Não era óbvio que metade dos deputados execravam o ilustre mas azedíssimo deputado Greenhalg? Ainda assim, deixaram uma quixotesca dissidência pôr tudo a perder de vez. Não é coisa de amador sonolento? *** "Quem foi que disse que eu era forte? Nunca pratiquei esporte, nem conheço futebol". Nunca me esqueço de Noel Rosa e Castro Alves. Acho demais quem consegue produzir uma vida em menos de trinta anos. Ainda mais vendo que ainda falta uma vida inteira para que eu produza trinta anos. | 2.9.05
Por alguma razão, o texto abaixo sumiu do blog durante o fim-de-semana. Aqui vai novamente. Zoado este espaço.Semana fraca, convalescente também nas letras (se é que as minhas um dia foram completamente saudáveis). É um saco quando pequenos percalços vão se acumulando e atrapalhando o andamento da vida normal. Falo de pequenas cracas no barco, que vão desde uma hospitalização inesperada por algo que nem trágico foi -- portanto, esteticamente é quase desprezível -- até um pau no blogger.br que faz com que quem tente entrar neste Dito Assim -- ou qualquer blog ali pendurado -- não consiga acesso, a não ser que o esperto internauta digite "/index.html" depois do endereço do site. Ontem me falaram da enchente horripilante em New Orleans. Dizem que, além da água, a tragédia trouxe às ruas alagadas tubarões, jacarés e outros bichos pantanoceânicos cheios de senso de oportunidade. O tiozinho tenta escapar da inundação e o alligator o puxa pela perna. New Orleans virou fast-food de crocodilo. Ou serve-serve, como diria meu amigo Walter Pereira. Ontem também recebi um desses e-mails-denúncia mostrando um suposto avião do Lula, com fotos, na verdade, de um desses imensos boeings de sheiks e emires árabes, com torneiras de ouro e camas king-size com colchão d'água e lençóis de seda. É inacreditável a vendeta que a classe média põe da boca para fora em relação ao operário que chegou à presidência. É como se cada um de nós dissesse: "viu, você é tão cheio de mazelas pequeno-burquesas quanto nós, seu otário pouca-prática!". Não voto no PT desde a eleição de 82. Acho a prática deles um perigo tão grande quanto o jeito pefelê de fazer as coisas. O caixa 2 foi só uma demonstração disso, do pragmatismo absoluto, de que já falei aqui. Mas o que dá medo é o teor das críticas. Baixando de nível a cada semana. Uma vantagem curiosa destes dias é que, em não podendo dirigir por algum tempo, estou andando a pé, de táxi e de ônibus. O resultado é que se vê a cidade. As visões são mais para horrores do que para belezas, mas estas, há também. Já aqueles, é importante ver para voltar a querer que a cidade mude. Chega de postes, chega de cartazes de propaganda, chega de outdoor, chega de mídia exterior. Chega de reclamar. | |