dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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31.8.05

Fulanos

Lúcio esperava paciente, sem se importar com o tamanho da fila nem com o fato de chover. Chuva leve, garoa, mas desencorajadora, a não ser para os loucos por cinema, como os que estavam à sua frente, ou para os simplesmente loucos, como ele próprio. A fila andou em direção à bilheteria, Lúcio atrás.

***

A caminhada de Marli repetia, quase passo a passo, a caminhada de ontem, a de anteontem e a de quase todo dia. Só mudava as passadas se um transeunte mais afoito a desviasse, se o encerado do camelô mudasse de lugar ou se fosse domingo. Ia entrando no prédio de escritórios, crachá à mão, quando ouviu o impacto, como o de um saco pesado batendo no chão, do corpo que acabara de cair. Quinto andar, soube depois.

***

Enfiou a mão na buzina. O sinal estava verde, a madama da frente nada de acelerar. Gesticulou. Terminou por pôr meio corpo pela janela. "Ô, Dona Maria, eu trabalho!". Espantou-se ao ver que a cabeça de Dona Maria pendia para a esquerda. Buzinou, desta vez quase com vergonha, e desceu do carro em seguida. Deu cinco ou seis passos até chegar a ela. "Dona Maria?". Ela não respondeu, nem ligou, parada ali, cabeça pensa para a esquerda. Pegou o celular, já assustado, e, enquanto explicava à atendente a emergência, pensou ter visto um movimento na mão direita de Dona Maria.

***

-- Fala, Zé Lingüiça!
-- Zé Lingüiça é a mãe!.. Ôxe, desculpe, dona Odete, essa molecada, a senhora sabe.
-- Claro, seu José Cipriano, eu entendo.
-- E o que é que a senhora manda?
-- Ah, eu trouxe aqui dois do Chiquinho, criança parece que mói os sapatos, e esse aqui do meu marido para ver se tem jeito.
-- Jeito sempre tem.
-- Pois é, seu José Cipriano, bem que o meu marido disse: "Odete, esse sapato tem jeito, é só levar no Zé Lingüiça".
-- Ô, dona Odete, perdão, mas a senhora pode mandar lá um recado a seu marido?
-- Claro, seu José Cipriano.
-- Diga lá a ele que Zé Lingüiça é a mãe. Se me faz o favor. E para o caçula, nenhum reparo?
-- Para hoje, não senhor.

***

Desembargador Elias Marinho da Costa Pires. Esse era o nome na placa logo abaixo do bronze solene que mostrava aquele homem estático, mão esquerda fechada sobre a barriga ligeiramente proeminente, mão direita ao alto, num gesto congelado, espalmada, como a querer convencer alguém além das pombas. Joãozinho chacoalhou as últimas gotas de mijo ali mesmo ao pé do desembargador, e correu de volta ao jogo de bola desarrumado e cheio de heroísmos. O que seria um desembargador?

***

Leu atenta cada linha do escândalo que envolvia o Tércio Alado, galã da novela anterior, e dona Izaura, mulher do deputado Telles de Moura, e vinte anos mais velha que o Tércio. Não entendia o que ele vira naquela matrona. Dinheiro não era, ele não precisava. Ela devia ser uma devoradora de homens, além de ter parte sabe-se lá com quê. Já tinham visto dona Izaura enterrando canjica em pé de muda nova e saindo de casa depois da meia-noite. Coisa que o Tércio devia saber, afinal todo mundo sabia. Queria ver o Tércio pessoalmente um dia desses.

***

-- Mudar de nome para que, Zé?
-- Meu nome não era Zé.
-- Como não, Zé?
-- Olha aqui a carteira velha, olha só.
-- Josicleide?
-- É, minha mãe queria menina, meu pai queria José Carlos, ela não parava de chorar, e ele chegou num acordo em Josicleide e uns vestidinhos para as primeiras fotos.
-- Zé!
-- Agora mudei, o juiz já deu a sentença.
-- Mudou para que nome, Zé?
-- José Cleide. Mais organizado.
-- É, Zé. É mesmo.



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30.8.05

Quem olha o panorama político pensa logo que 2006 trará resultados muito previsíveis nas eleições -- ao menos na eleição do presidente da república: com o morro abaixo do Lula, abre-se a porta para o PSDB reassumir o Planalto, bastando definir o nome entre o prefeito de São Paulo José Serra e os governadores Geraldo Alckmin e Aécio Neves. Barbada.

Será? Em 88, um ano e pouco antes da eleição para o sucessor de Sarney, Brizola era a barbada. De repente, do nada, surgiu o caçador de marajás Fernando Collor e papou o pleito com folga. Nas primeiras pesquisas para o sucessor de Itamar Franco, em 94, Lula aparecia com expressiva liderança. Em poucos meses, FHC comeu essa vantagem e ganhou no primeiro turno.

As duas eleições seguintes foram mais previsíveis: a reeleição de FHC e a vitória de Lula em 2002. A retrospectiva nos mostra três surpresas contras duas vitórias esperadas, sendo uma delas uma reeleição. Isso faz pensar em 2006. É possível prever que Lula não sairá fácil do atual atoleiro para a recondução à rampa do Planalto. Mas daí a dizer que Serra, Aécio ou Alckmin já podem disputar a faixa no "dois ou um" é abusar do direito à futurologia. Há obstáculos ainda ocultos, que vão dar bastante trabalho aos tucanos. Desde logo, o próprio PT, sempre fênix, com sua militância aguerrida -- hoje combalida, mas até o fim do ano que vem, tem chão.

Outra surpresa que começa a mostrar as asinhas -- e não é de hoje -- é o PSOL, o micro-partido de alguma coisa parecida com ultra-esquerda-católica (se é que esse cruzamento é possível), fundado por Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro. Heloísa Helena tem, já há alguns meses, algo como 3% das intenções de voto nas pesquisas que a imprensa vem divulgando. Um estoque à primeira vista desprezível, face aos caminhões de porcentagem exibidos por Lula e Serra, por exemplo. Mas alguém lembra quanto tinha FHC na primeira pesquisa em 94? Alguém lembra como foi o crescimento de Lula em 89, passando Brizola por fora e ganhando um lugar no segundo turno? Mais: alguém lembra qual era, então, o discurso de Lula?

Neste fim-de-semana, da moleza de minha convalescença, me pus a ler a Revista da Folha que trazia a senadora na capa. Sua entrevista a coloca como um paladino da justiça, com um rigor franciscano com o que quer que pareça ser corrupção. Fala de um sonho de liberdade que ainda é o mesmo dos anos 60 e que não olha para essa coisa conservadora a que chamam cofres públicos ou ainda superávit das contas públicas. Atribui a desigualdade a vilania. Portanto, encontra a solução na qualidade das intenções. Um discurso e uma visão que podem muito bem conquistar multidões.

Não sei se Helô Helê terá cacife pessoal para tanto, ela não me parece capaz de magnetizar as massas. Mas é, no mínimo, um ponto dos espectro político que não se pode desprezar. Particularmente, vejo nela, senão um lugar no segundo turno, pelo menos um papel importante em 2006. A conferir.



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29.8.05

Mais um pouco de poesia, talvez a primeira vez que publico duas seguidas. É preciso escoar a produção, afinal. Sempre será tempo de falar sobre convalescer e sobre política. Aliás, eu já comentei aqui sobre os vaticínios políticos que vêm me acometendo? Não? Pois amanhã comento. Desde já, tirem as crianças da sala. Voltemos aos sonetos.

Soneto do abstinente

Diz-se que Baco é boa companhia,
que alguns trocam por ele a própria Vênus.
Não sei se o quero assim, e a ela menos,
mas ele é quem me mostra o fim do dia.

Se acaso ele se perde na folia
ou eu me faço mouco a seus acenos,
e os tintos, argentinos ou chilenos,
não correm a prover-me fantasia,

o dia simplesmente continua,
o sol a pino forte permanece
quarenta e oito horas sobre a lua.

Sob tal luz, o sono se esvanece
e, mesmo que o poema se conclua,
manda a lira que a noite não comece.



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26.8.05

De volta, com poesia. Poesia, aliás, adora falar de poesia. Esta, modesta, fala de um poeta maior, que me surpreende sempre. Depois, falo um pouco de convalescer e mais um não tão pouco sobre política, sobre o apodrecimento e o renascimento do Brasil -- de que também falou o poeta, com propriedade e alguma clarividência.

Soneto à boca célebre

Queria ser um Gregório de Matos
Matusalém da poesia e da lira.
Ira à parte, lirismos, recatos,
Cato-os e lanço-os à pira.

Piramidal, o poeta baiano:
ano após ano, descreve a Bahia,
Ia ainda além, ao gênero humano,
manuseando sua algaravia.

Via na sílaba duplo poder.
Poderia ser um facho de luz,
delusão, talvez, sem nem o saber.

Saberia, a sílaba, o que a conduz?
Com dúzias de razão, ao responder
ponderaria: alma e corpo nus.



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25.8.05

Nem caso, nem descaso. Tive um pequeno percalço de saúde, já superado, que me tirou do ar por estes dias. A partir de amanhã, novos textos à toa para celebrar a convalescença.



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19.8.05

Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 13

Ainda terminavam os anos 50, e a cidade do Rio de Janeiro ia coroando seu esplendor. Estava em pleno andamento a obra que resultaria no Aterro do Flamengo, talvez a maior intervenção urbana já realizada em uma grande cidade desde que Haussmann redesenhara Paris.

Naqueles dias, o Aterro ainda não passava de um canteiro de obras, o morro de Santo Antônio sumindo e dando sua terra em sacrifício ao grande parque que ali surgiria. O governo da Guanabara já havia feito ali o que era um arremedo de caminho transitável, que já abreviava o trajeto entre a praia de Botafogo e o centro da cidade.

Pois foi por ali que ela resolveu voltar para casa depois do casamento, a que tinha ido como convidada e, com o sucesso de seu vestido quase branco, longo e bem cortado, tinha se tornado coadjuvante. Ela já ia lá pelos quarenta, era ousadíssima para a época, não só por seu hábito de guiar o próprio carro, mesmo de vestido longo, mas por todos os hábitos que tinha, do de trabalhar como um homem ao de namorar como poucas mulheres. Cortar caminho, ao voltar para casa, pilotando seu DKW Vemag pelo ensaio de Aterro, já noite alta, não era nada demais para ela. A não ser pelo fato de que DKWs quebravam, e o dela resolveu quebrar bem no trecho mais afastado do caminho, ali de onde se viam os prédios da Praia do Flamengo quase como maquetes.

Desceu do carro e tentou manter a calma. O que fazer? Impossível alcançar os prédios atravessando o extenso e escuro canteiro de obras. O único jeito era seguir caminhando pela avenida provisória e mal iluminada, em direção à zona sul, e torcer para passar um carro -- algo difícil, àquela hora, perto da meia-noite. Decidida, começou a caminhada a passos largos, largos até demais para quem estava de longo quase branco e saltos altos. Achou melhor tirar os sapatos, deixá-los no DKW, e seguir descalça.

Andou por tempo suficiente para não ver mais o carrinho, sumido na escuridão, quando viu duas figuras se aproximando. Parou. Estava sob um dos pouquíssimos postes de luz por ali, luz fraca e amarelada, mas luz. Os dois rapazes se aproximaram. Era o que ela já imaginava: o que aparentava ser mais velho, ou menos novo, visivelmente nervoso, mostrou um estilete e balbuciou: "Passe o dinheiro, todo o dinheiro!". Ela, depois de uma fração de segundo, desistiu de se assustar. Com toda a placidez, mirou o garoto, com seus olhos muito azuis, seu rosto empalidecido pelo pó compacto, o vestido quase branco e os pés descalços. Sorriu e, em voz pausada e grave, falou: "É a primeira vez que sou assaltada depois que eu morri". Sorriu, olhou fundo nos olhos agora arregaladíssimos do garoto e arrematou: "Aceita o abraço que vem do Além!". No tempo que levou para levantar os braços, os dois garotos já haviam sumido, apavorados, noite adentro.

Caminhou ainda uns bons quinze minutos, até que passou um carro com os faróis bem acesos e um motorista que não acreditava em fantasmas. Bonito, aliás.

* O Preço do Peixe é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais.



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18.8.05

Chegando agora à minha mesa, depois de um dia cheio de tarefas, me pus em frente ao teclado, pronto a comentar causticamente as coisas que ouvi no rádio do carro: Delúbio Soares falando à CPI. Mas aí achei que era chover no molhado, só que com chuva ácida. Poucas coisas são tão dantescas quanto esta CPI, esse espantalho jurídico, esse arremedo de inquisição sem fogueira, essa coleção de mediocridades trocadas em frente às lentes cansadas da TV e aos microfones brochados do rádio.

***

Amanhã tem Preço do Peixe. Hoje foi impossível escrever mais do que isss...



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17.8.05

Não gosto de colocar aqui poemas que tenham aparência hermética ou que soem "indecifráveis". Mas depois de uma discussão deliciosa que tive ontem sobre a poesia lírica moderna, em que o condutor do grupo versou, entre outras coisas, sobre a sonoridade inseparável do significado, resolvi colocar aqui este soneto, resgatando-o da gaveta que teria sido seu destino original.

Filologia

Caminho, corredor, embora estreito --
ao menos é o que aponta o dicionário.
Filologia à parte, deu-se um jeito:
agora, nosso encontro tem horário.

Na origem de nós dois havia verso,
mas outro verso, não o que há agora:
era livre, descuidado, disperso,
era lindo, fugaz, era sem hora.

Se é remota a origem de nós dois,
se remonta aos etruscos, aos judeus,
os étimos que fiquem pra depois.

Hoje em dia, meus semas já são teus.
Corruptelas, eu peço que perdoes,
pois sabes: falo a língua dos plebeus.



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16.8.05

Quando Lula ganhou a eleição de 2002, derrotando com alguma folga o candidato em quem votei, José Serra, uma pessoa muito próxima e muito querida me disse: "Preste atenção, é histórico, é emocionante. Nós temos um operário eleito presidente do Brasil". Esta frase me consolou e terminou de dissolver uma tristeza que, de resto, não era tão grande assim. Afinal, quem cresceu sob a influência da esquerda não podia lamentar este final feliz, apesar de, particularmente, achar que o Brasil tinha perdido a oportunidade de colocar no comando um administrador habilíssimo e incansável.

Quando Lula fez, semana passada, seu pronunciamento à Nação, vi esvair minha emoção histórica pelo presidente operário. Torço agora para que acabe logo a crise, que se conceba e se vote uma pauta mínima no Congresso e que 3 de outubro de 2006 chegue a tempo de suceder Lula, e não José Alencar, Severino Cavalcânti ou algum general façanhudo.

Até a semana passada, eu, intimamente, desculpava as bobagens de Lula e seu governo: o "Fome Zero" e o correspondente desmanche do que o governo anterior vinha fazendo, sem alarde e com resultados, a propaganda mal-acabada e auto-laudatória, o tal do "Primeiro Emprego" e seus risíveis resultados, os ministros canhestros e a completa incapacidade de trocá-los, o incômodo do tal "núcleo duro" e o não menos incômodo do "baita conselho", ambos cheirando levemente a um certo desprezo pelas instituições tradicionais de nossa democracia engatinhante. Tudo isso parecia desculpável porque havia a sensação de que prevaleceria a idéia de que é possível governar com integridade, mesmo pagando o preço do amadorismo. Depois de alguns anos, se chegaria à integridade profissionalizada.

Não foi desta vez. Essa gente que assumiu, primeiro o PT em nome do poder, depois o poder em nome do PT, o fez com a mesma torpeza e leniência que sempre marcaram a conquista e o exercício do poder por aqui. Há o lado bom: se, com a queda de Collor, aprendemos que não há solução fácil e bonitinha para problemas difíceis e horrorosos, com a decepção que tivemos com Lula aprendemos que não há mocinho ou bandido a priori. Bandidos e mocinhos optam pelo lado em que vão ficar e têm de atuar no lado escolhido, sob pena de ser arrebatado pelo outro. Dirceu, aparente mocinho quando presidente do PT, embandidou-se inexoravelmente agora. Lula, mocinho não é mais.

E agora? Como se faz, se não sabemos mais reconhecer o vilão? Como lidar com a ameaça, agora mais plausível do que nunca, de que a Madre Teresa de hoje venha a ser o Beira-Mar de amanhã? As pessoas tendem a reagir da pior maneira: o niilismo. Este é o grande risco que o Brasil corre: ter o niilismo como "pensamento" predominante na população e na sociedade. E isso, com o tempo, vai nos levar a um vale-tudo que fará a Libéria e Ruanda parecerem aprazíveis locais para viver.



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Amigos, me desculpem. Este traste do blogger nao reproduz os acentos na hora de publicar. Por isso o texto abaixo vai assim, depois eu vejo como corrigir. Se alguem souber como, me avise.

Bom, agora consegui e nem sei como ou por quê. Shit.



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12.8.05

Homem da lei

Ninguém havia servido tão bem ao propósito de sua corporação como ele. Renunciara a muita coisa pelo serviço à lei, seus afetos, seu hábito infantil de largar o pensamento aos vôos mais livres e distantes, seus sentimentos mais primários, que no início eram um entrave ao ofício. Seu desprendimento o tornara um pau para toda obra, um depositário valoroso da confiança dos muitos chefes que tivera.

Com ele, não havia quem não entregasse incondicionalmente qualquer forma de altivez. Era capaz de arrancar confissões de qualquer um, mas isso não bastava. A vitória contra os delinqüentes que tratava (assim chamava seus serviços) só era total quando o império da lei prevalecia na sua forma mais explícita: a submissão humilhada do infringente, como paga carnal pelo delito, fosse qual fosse.

Corria o tempo, mudavam os chefes, e ele mais próximo da perfeição. Descobria novas fragilidades no ser humano, novas portas de entrada para a lei, brechas que, em minutos, levavam um homem aos níveis mais absolutos de subserviência. Uma unha podia pôr a perder a empáfia de um crioulo de dois metros. O ajuste correto da voltagem tornava frade o mais cínico dos vigaristas. No tempo dos comunistas, era ainda mais fácil: não lhes encostava a mão, tratava de suas mulheres e, às vezes, de seus filhos, o que bastava para que chorassem como porcos sendo castrados e o tratassem por senhor. Inventava novos horários, experimentava novas técnicas de tratamento, passava às vezes dois dias sem ver um deles, só para que recuperasse a esperança, e então agia.

Quando pararam de chegar os comunistas, sobraram ainda todos os outros, assaltantes, trombadinhas, vigaristas, putas, travestis, e sempre sobrava algum filhinho de papai chorão que se deixava pegar, babaca, com uma carinha de maconha e acabava sob seus cuidados, antes que o papai chegasse para fazer os pagamentos que a lei manda e os juízes não sabem, e levasse o pilantrinha para casa.

Os problemas começaram quando chegou o chefe novo. O homem era estranho e pôs todo mundo ali para responder perguntas. Seus colegas de trabalhos pareciam incomodados. Não conversava muito com eles, mas notava que estavam diferentes, como que meio acuados. Imaginou que o novo chefe devia ser mais linha dura, mais exigente, e quando foi sua vez de responder, relatou toda sua dedicada folha corrida de serviços à lei, contou tudo de que era capaz quando lhe entregavam um ladrão, como havia sido duro vencer as viradas de estômago nos primeiros tempos e como, com seu próprio esforço, tinha aprendido o verdadeiro significado da palavra lei. Deixou o homem sem palavras.

Alguns dias depois, veio a notícia do afastamento. A princípio, não conseguiu entender. Era capaz de jurar que ninguém ali poderia ter servido tão bem quanto ele, sabia que era o melhor, o verdadeiro homem da lei.

Precisou pensar muito para perceber o que realmente acontecia. O tempo havia posto, no lugar dos sentimentos a que ele renunciara, uma forma muito especial de inteligência, que o fazia juntar as peças de um problema e entendê-lo por completo. A resposta estava clara: de todos os seus chefes, aquele era o único que lhe havia feito perguntas. O único que havia percebido que ele era o verdadeiro homem da lei, que sabia demais e poderia tomar o lugar de qualquer dos empetecados que, a cada mudança de governador, iam parar ali. Por isso o haviam aposentado. Por isso iam querer matá-lo. Era a lei -- e ele a conhecia como ninguém.

Passou a andar armado e ficava o menos possível em casa, certamente o local mais visado por seus perseguidores. Vagava pelo centro da cidade com um olho na nuca para enxergar quem o seguisse. Vários tentaram, homens, mulheres e até um rapazola de uns quinze anos. Facilmente os despistara. Não era qualquer um que poderia segui-lo pelo centro da cidade. Ele era um homem da lei, poderia despistar os melhores.

Numa tarde, passava pela frente do Teatro Municipal, quando notou atrás de si um negro forte e alto, usando um sobretudo e carregando pela alça um desses estojos para violino. Pela primeira vez ficou tenso. Eles agora estavam pondo gente da pesada atrás dele. O homem seguiu-o por uns vinte metros de calçada e depois sumiu. Sentiu que estava prestes a ser emboscado e correu para o viaduto para dificultar a pontaria. Sumiu do outro lado, meteu-se pela rua Direita e só parou quando sentiu o perigo longe. Mais calmo, pensou que a arma dentro da caixa de violino poderia não ser uma sub-metralhadora. Não usariam uma em lugar tão movimentado. Isto o punha em condição de enfrentar seu caçador. Resolveu mostrar força e voltou à porta do teatro.

Esperou num bar próximo, de onde podia observar a escadaria do Municipal sem ser notado. Quando já escurecia, viu o negro com a malinha acompanhado de outro homem, também negro, que portava um estojo um pouco maior. Eles queriam mesmo a sua pele, mas agora pecavam pela distração, comum em agentes que trabalham em dupla. Por certo, consideravam-no perdido. Não eram tão bons assim, o despiste havia sido fácil com o primeiro. Resolveu, então, inverter as posições e passar a caçador. Com cuidado, pôs-se a segui-los, até que, dois quarteirões depois, um deles entrou num táxi, e o que levava o estojo menor seguiu a pé. Continuou atrás dele mais um bom tempo, até que se viu notado: o negro, num relance casual, o havia visto e, alguns passos depois, olhou novamente e se apressou, apertando a malinha contra o peito. Chegava a hora da captura.

Mais duas esquinas e os dois já estavam bem próximos. O negro parecia apavorado, os papéis se tinham invertido com muita facilidade. Às tantas, o agora caçado virou-se, com o medo marcado na cara. A malinha estava próxima demais do peito. O próximo passo seria o duelo. O homem da lei foi mais rápido e atirou na testa do outro antes que ele levasse a mão ao fecho do estojo. Correu muito, ouvindo o burburinho atrás de si.

Acordou com o sol batendo forte nos olhos. Estava longe de casa e do centro da cidade, para onde haveria de voltar para pegar o outro homem. Dormiria ao relento quanto tempo fosse necessário até acabar de caçar seus caçadores. Ele conhecia os melhores lugares, os mais escondidos matagais, as favelas hospitaleiras, os baixos de ponte. Sobreviveria a seus algozes.

Esse era o primeiro dos dias seguintes, especial para ele, comum para a cidade e suas tragédias. Uma delas amanhecia no título que tentava gritar ali num canto da capa do caderno de cidades: "Morto a tiros o spalla da Sinfônica de Nairóbi". Restaurava-se o império da lei.



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10.8.05

Três segundos

Guito César desceu à garagem e já ia pondo a chave no jipe europeu impecável cujo desenho parecia recém-saído de um banho, como ele, Guito, e seus cabelos molhados, quando sua memória passou pelo tema que há dois dias vinha sendo mais freqüente e que o deixava entre fascinado e incomodado como era de se esperar num sujeito auto-suficiente, rico e tido como bonito entre mulheres e rivais, o bastante para estar no limite do cafajeste, com suas pequenas grosserias na prática da corte, quase sempre bem-sucedida e absolutamente inútil com Kika, o tema de seus pensamentos mais recentes, tanto por seu ar distante como pelo rosto bonito, de olhos pretos e penetrantes ou pelos seios que entrevira sob o cetim branco na festa em que a conhecera, seios peols quais poderia trocar cinco anos de sua vida apenas para tê-los entre os dedos por uns minutos, seios, porém, que se empinavam em outra direção, sob a prisão relaxada e agradável da camisa de linho branco que Kika vestia, recostada no sofá, enquanto, sob o testemunho de uma revista abandonada em suas mãos e a quilômetros de seus olhos, não tirava de sua cabeça o rosto terno e bem-feito de Augusto, o homem mais bonito que já vira ou pensava ter visto, apenas visto, tão arredio ele lhe parecera nas três vezes em que tentara dar-se a conhecer e o moço apenas lhe dedicara quatro frases frias e formais, afastando-se e deixando-a por morrer de uma curiosidade com tal tempero que nestes dias já se havia transformado num tesão crescente misturado com a angústia moderada que assalta uma mulher pilhada nesta situação de mistério e contrariedade a que um homem desconhecido e deliberadamente distante a leva, sentimento que em Kika era mais grave, por ser sentido como se fosse pela primeira vez, e logo por um homem tão diferente dos que conhecia, e que a fascinara, ela podia mesmo ver seu cabelo castanho emoldurando a cara bonita e viva, a refletir a energia de um corpo bem cuidado que ela queria explorar, acariciar, aquecer, olhar de perto, e que estava tão longe agora, largado sobre o assento de um avião da ponte aérea, envolvido por um terno preto bem cortado e pela sonolência com que alguns reagem à altura e que torna pesadas as pálpebras e leve o pensamento, planando de uma dessas grutas da mente até o foco exato de uma imagem agradável sem relação alguma com o trabalho que esperava Augusto, mas mobilizadora o suficiente para tomar conta das horas vagas de seu espírito como um desejo distante e talvez por isso divertido que podia ou não caminhar para ser obsessivo sem que isso importasse muito agora, estava bem como estava, e de toda maneira cada um de seus desejos era sempre guardado, muito bem guardado, fosse leve ou pesado, sério ou pueril, nunca era revelado a quem quer que fosse, passeava sempre dentro dos limites de seu próprio pensamento, apesar de Augusto ver-se desconfortável na maior parte das vezes em que nutria essa forma tão própria de desejar as pessoas internamente como agora mais uma vez acontecia e mais uma vez era guardada com todo o cuidado enquanto a mente passeava devagar pelos cabelos do peito de Guito César.



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8.8.05

O clima de agosto de 1954 não passa. A capa da Veja, este veículo que tenta compensar a decadência com sensacionalismo, exagera, mas dá o tom: chama o Lula de Collor. Lá dentro, chama o Zé Dirceu de Pinóquio. Na subleitura das fotos, pode-se dizer que, se não absolve, pelo menos arrefece a carga a Bob Jefferson.

Nada de novo, apenas mais do mesmo. Novo, quem traz é o caderno Mais! de ontem, lá na Folha, com três artigos que dão outra qualidade à discussão, embora não aliviem (ao contrário, aprofundam) as críticas ao presidente Lula e ao PT.

São três artigos, três autores: Paul Singer, César Benjamin e Ricardo Gonçalves. Singer é um quadro histórico do partido. Benjamin e Gonçalves são ex-petistas, sendo aquele um de seus fundadores e este um economista presente já na fase "Lula presidente", iniciada em 1989. Enquanto estes dois decretam a morte do PT e o melancólico fracasso de Lula e seu grupo, Singer não consegue manifestar além de uma nostalgia do tempo em que havia debates teóricos de alto nível na casa de Antônio Cândido e de uma mal-disfarçada melancolia pelo pragmatismo de hoje.

Fiquei particularmente surpreso com o artigo de Reinaldo Gonçalves, economista carioca da UFRJ, filiado ao PT em 1990, logo após ter dado suporte teórico à campanha de Lula em 89, perdida para Collor de Melo, e desfiliado em 2003, após defender sem sucesso os dissidentes Heloísa Helena, Luciana Genro e Babá nas instâncias internas do partido.

Gonçalves coloca algo de que já falei aqui e que vinha repetindo, meio neurastenicamente, desde 1985: o fato de o PT não ter desenvolvido um projeto de país, mas apenas um projeto de poder. Transcrevo um pedacinho: "Ao longo dos anos, fui me convencendo de que parte expressiva dos dirigentes do PT, com destaque para Lula, não tinha um projeto de sociedade para o Brasil. Havia quase que exclusivamente um projeto de poder. Portanto, atualmente, não há espaço para surpresa ou decepção".

Recomendo vivamente os dois textos (não consegui fazer o link com a Folha de ontem, se alguém me ajudar, agradeço). Benjamin e Gonçalves fazem uma leitura mais severa -- por mais fundamentada -- do que a de Veja e sua bobajada sensacionalista. Pessoalmente, fico timidamente alegre (não se deve ficar alegre com o malogro alheio, a não ser que seja o malogro do Maluf, claro) de ver gente de esquerda e de formação consistente dizer e publicar algo que me parecia fazer sentido quando eu era um jovem idealista animado com a restauração democrática no Brasil e a conseqüente possibilidade de se construir um país melhor, pelas mãos de todos. Em 1985, o hoje senador Eduardo Suplicy foi candidato do PT a prefeito de São Paulo, disputando com Fernando Henrique Cardoso (então no PMDB, o PSDB ainda não existia) e Jânio Quadros (PTB/PFL). Suplicy e FHC, além de amigos pessoais, defendiam o mesmo campo político. Estavam separados por questões táticas, conjunturais. Juntos, detinham bem mais de 50% dos votos dos paulistanos. Seguiram divididos, simplesmente porque, se se juntassem em torno de FHC, que tinha mais votos e, portanto, a prevalência para ser cabeça de uma chapa de coalisão, o PT poderia perder espaço. Ganhou Jânio. Criou-se uma cisão quase incicatrizável entre duas tendências quase irmãs.

À época, Fernando Henrique previu, de forma geral, boa parte das dificuldades que enfrentamos nos últimos anos, e que agora se aguçam. Tudo isso apenas para lembrar que, quando se tenta analisar o equívoco do PT, o pragmatismo exacerbado, a idéia de poder massacrando qualquer idéia de sociedade, não se pode debitar isso apenas a quem pôs a mão na merda -- Dirceu, Lula e os chefetes do campo majoritário. Há que se olhar nos olhos ilibados de Eduardo Suplicy ou Aloísio Mercadante e perguntar com clareza: você tem coragem de dizer que não tem nada a ver com isso?

Têm a ver, sim. Não como ladrões, longe disso, mas também não como ingênuos enganados. Compartilham, ambos, da sonegação de um projeto de sociedade e da prevalência de um projeto de poder. Gostam dele. Apenas não põem a mão no esterco. Mas eu garanto que nenhum dos dois tem certeza de que, sem o esterco, seria capaz de chegar ao poder.

Não são ladrões, definitivamente, mas não sei se são inteiramente honestos como lideranças sociais. Nem sei se o são como porta-vozes de uma utopia -- acho que não.




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5.8.05

Pois é, poesia. Brincando de novo com as tais "formas prontas" (libf, querida, adorei essa designação genérica), eu vou de novo aos sonetos, só que tentando uma brincadeira de continuidade, de encadeamento. Meio como os haikaizistas originais, meio como a formulação de mote-e-glosa inchada, ou ainda brinacando com a idéia de poesia circular, combinada ao rigor do soneto(rigor relativo, no meu caso, pouco afeito e pouco hábil que sou no manejo de pés e tonicidades).

Quanto ao tema, não terá sido mera coincidência se alguém se lembrar de Lindonéia ou Domingo no parque, retratos de uma urbanização precoce que, com mais ingenuidade ou menos engenho, os dois sonetos acorrentados procuram tocar. À esquisitice, pois:

Soneto encadeando

Sinal verde. O homem grande caminha
emburrado na faixa de pedestre
a ruminar mazela comezinha.
A moça espera por quem a adestre:

é dona do automóvel popular,
irrita-se acelera, enfim buzina.
Não percebe que recebe um olhar
de pena, da babá com a menina.

As duas, na calçada, tomam sol.
Enquanto a que conduz pensa distante,
a infante está a sonhar sob o lençol --

é seu o tempo, do carrinho em diante.
A pajem tem a mente em um paiol;
lá está seu homem -- com a nova amante.


Soneto encadeado

O homem no paiol e a nova amante
se olham sem sinal de saciedade.
Ela esperava um garanhão flamante,
Ele temia a patroa, já de idade.

Na casa da fazenda, o bom marido,
mau patrão, nem podia imaginar
onde a frígida mulher tinha ido,
que tanto demorava a tomar ar?

Levou um tempo até se convencer
de que era bem fogosa sua velhinha
e que o lacaio era o arrefecer.

Devia colocar os dois na linha:
mandou matar e o pistola esconder.
Sinal verde. O homem grande caminha.



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4.8.05

Mini 70

Olhou para aqueles olhos negros e teve certeza de sua própria culpa. A mulher não o fitava com raiva, seu rosto não expressava vingança. Mostrava apenas tédio e indiferença. A indiferença de quem sabia que a punição já estava em curso. A partir daquele dia, ele ia se esquecer, paulatinamente, dos motivos que a levariam a submetê-lo às maiores humilhações. Ela sabia que, enquanto ele se lembrasse, atribuiria alguma justiça ao sofrimento. Queria que ele se sentisse apenas vítima. Queria vê-lo perguntar por que e ter só desprezo como resposta. Queria-o cem por cento inocente. Não ia demorar muito.



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2.8.05

Seis da tarde, pouco mais. Mais uma vez, as circunstâncias (alvissareiras, diga-se) me impediram de escrever a nota de hoje, ficando ali embaixo os poeminhas para seu (amanhecido) deleite. Eu ia falar das expectativas sobre o depoimento de Zé Dirceu, mas nem sei o que está acontecendo por lá. De qualquer maneira, já imagino que deva ser um espetáculo dantesco, com um homem acuado, sem nada a perder e de melífluo talento com a palavra, de um lado, e, do outro, um ex-exilado, treinado, entre outras coisas, para guerrilha, para a política e para o exercício do poder (a qualquer custo?), que deve estar agora de faixa na cabeça e bazuca apontada para a multidão. Boa coisa não vai dar. A contenda é um ventilador com imensa capacidade de borrifo. Os céus nos ajudem e evitem cair sobre as nossas cabeças. Por Belenos e por Tutatis.



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1.8.05

Quadras a agosto

São verdes ou são azuis?
Nunca sei, você esconde
quando sorri, não sei onde,
os olhos -- mas não a luz.

***

Saudades, existem duas:
aquela que a gente mata
e outra, menos sensata,
que vem por mãos como as suas.

***

Às vezes, pareço chique,
às vezes você também.
Pergunto: o que é que tem
às vezes termos chilique?

***

Um dia, vim da Bahia,
não sei se volto pra lá.
Raiz demais, hoje em dia,
acaba virando chá.

***

Careço de erudição,
eu sei que me falta estudo.
Se me der o coração,
prometo que fico mudo.

***

Hoje, escolhi não jantar.
Tirei do forno o meu prato,
comprei um vinho barato;
durmo melhor sem sonhar.



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