dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. |
28.7.05
Eu hesitei bastante em falar deste assunto aqui, mas a atuação inconfundível do deputado Arnaldo Faria de Sá me encorajou. Poucos espetáculos são tão degradantes quanto a sessão de uma CPI do congresso brasileiro. Se pensarmos em princípios universais bem básicos, como o direito de defesa e a presunção de inocência, o que vemos na CPI mista ora em curso é nada mais nada menos do que um linchamento. Põe-se lá pessoas com diferentes graus de suspeição -- nenhuma com culpa formada -- e, sem nenhum critério ou pauta, dá-se aos parlamentares presentes o direito a dez minutos para sua inquirição. Ele inquire se quiser. Muitos deles gastam seus dez minutos apenas para montar um espetáculo de auto-promoção, no qual exibem em cadeia nacional sua indignação, achincalhando o cidadão que está ali apenas para ser inquirido -- como, aliás, o próprio nome diz. O inquirido é sistematicamente tratado como réu. No entanto, não há juiz ou advogado de defesa. O interrogatório da tal Renilda, mulher do tal Marcos Valério, foi um espetáculo deprimente. A única interferência do presidente da mesa, relacionada à postura de um membro da comissão, foi a advertência ao citado deputado Faria de Sá, depois de vários minutos de perguntas em um tom muito agressivo e um tratamento absolutamente inadequado por parte do parlamentar, a uma mulher, de resto, sem culpa formada. Ontem, um amigo me dizia que, sem as CPIs, tudo iria para baixo do tapete, porque o nosso judiciário é ineficiente, moroso e burocrático. Não há como negar, é mesmo. No entanto, acreditar que as CPIs substituem a contento as imensas falhas do judiciário é acreditar na obsolescência dos direitos fundamentais da pessoa. Mais ou menos o que o coronel Charles Lynch fêz, lá pelos anos 1770 para impor a ordem durante o caos da guerra de independência americana*. Explica-se a criação e prática do linchamento patrocinado pelo coronel. Tapando o nariz, é possível até dizer que, naquele momento, era a única alternativa. Mas justificar tal ato, não é possível, se acreditamos em princípios bem básicos de civilização. Assim, podemos até entender o papel deste espetáculo dantesco -- mesmo sabendo que raros deram resultado além da exibição midiática dos inquisidores -- mas não dá para gostar disso. Não dá para aplaudir massacres, da mesma forma que não dá para se regozijar com linchamentos. Dá para olhar a cena e rezar para que este país consiga construir um sistema judiciário que funcione e que reduza esse tipo de comissão à merecida insignificância. Até lá, o coliseu permanece aberto e a turba vai baixando os polegares. * Durante alguns minutos, a guerra de independência americana foi estapafurdiamente chamada "guerra de secessão", posterior à primeira coisa de uns 90 anos. Voltei do almoço e achei a bobagem. Bom, não foi a primeira, não será a última. Perdoem este digitador pretensioso. | 27.7.05
Arlindo pediu, Dito Assim publica. Por isso, hoje vamos de poesia. Um soneto um pouco diferente, com versos de onze sílabas (endecassílabos). Traz um cacoete, o da auto-referência temática, poesia falando de poesia. Mas tem lá sua graça. É soneto ainda sem título, para o que aceito, acato e adoto sugestões. Como as mães antigas e os velhos feirantes, os poetas antes iam ao assunto. Simples como elas, como eles, bem-falantes: não havia uma elegia sem defunto. O poeta antigo não chorava à toa nem para engendrar um engenhoso pé. Ou da tal sancta princesa vinha a loa ou fingia -- e em si mesmo tinha fé. No átimo japonês, a nova boa, no épico de Camões, Goa e Guiné. Já na ponta do meu lápis o que soa é à toa, construção do que não é. A falar da terra, falo do que voa; o soneto sobre o mar não tem maré. | 26.7.05
Fragmento de "O Preço do Peixe", 12 Quem vê um comercial de TV daqueles de trinta segundos não imagina o trabalho que dá. Normalmente é um meio minuto que leva pelo menos uma semana para ficar pronto. Não raro, bem mais. Num desses mais fáceis, a diretora do filme recebeu da agência a tarefa de mandar uma mensagem muito importante: uma fábrica de móveis dedicada ao segmento mais popular dava um ano inteiro de garantia em qualquer peça vendida durante a campanha. Para contar isso bem contado, a tal fábrica resolveu mostrar o maior número possível de produtos naquele exíguo tempinho. Um ano de garantia, proeza difícil de igualar, era bom mostrar que a oferta valia para todo tipo de móvel oferecido. O anunciante queria exibir sua variedade de produtos e, com uma locução séria, reforçar tão corajosa garantia. Como a quantidade de peças era enorme, a produtora do comercial decidiu usar uma praça ampla da zona oeste como locação. Aquilo não caberia num estúdio. Ainda mais com um ano de garantia. Filmagem rolando, a diretora vê que, de um sofá que não estava em cena e esperava tedioso a sua vez, saía uma fumacinha. Não, aquilo devia ser pura imaginação, dias quentes podem gerar esse tipo de miragem. Um ano de garantia. Esse era o espírito da coisa e o foco a se concentrar. Um minuto depois, ela não resistiu e olhou de novo para o sofá. A fumaça durava mais do que o normal para um simples laivo de imaginação. Começava a ficar mais densa do que o esperado para uma troça da atmosfera em dia de sol. A diretora fixou o olhar, pegou no braço do assistente de produção que passava e pediu, como quem se belisca em pesadelo: -- Não parece que aquele sofá preto imitando couro tá fumegando? Me arruma um copo d'água? O garoto, já rindo do disparate, olhou para o sofá. -- Ih, é fumaça mesmo! Correram todos até o estofado e, a tempo, conseguiram apagar a combustão espontânea sem maiores danos ao andamento do trabalho. Não conseguiram evitar um buraco do tamanho de um prato grande nem a sentença final do contra-regra: -- Um ano de garantia, sim. Mas na sombra, na sombra. | 25.7.05
Estou com pouquíssimo tempo para escrever hoje. Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar. Não gosto de começar a semana assim, mas às vezes é inevitável. Apenas como ponto de reflexão: o que aconteceu com o PT era previsível. O que está acontecendo com o Serra também. E pela mesma razão: projeto. Amanhã, se não houver nada mais poético, volta a política, fazer o que? | 22.7.05
Fragmento de "O Preço do Peixe", 11 Rotweiller é cão de luta. Forte, troncudo, olhar frio, é leal ao dono e implacável em sua defesa. Por ser de tradição militar, não é dado a atacar indiscriminadamente. Mas como saber os critérios de um cão? Ele era dono de três desses mascotes e estava uma tarde no jardim com o maior deles. Era um sábado de sol e a brincadeira era jogar um bastão ao outro canto do gramado, para o amigão trazê-lo de volta na boca, para então repetir a operação e repetir e repetir. De repente, aparece, no alto do muro que dava para o vizinho do fundo, um gato. Um segundo depois, ele salta para o gramado, sem cerimônia. Nada pior, na visão de um rotweiller, do que alguém pulando o muro para dentro de sua área de influência. Sendo esse alguém um gato, é um ultraje imperdoável. O cão avançou, um só rosnado curto, passo decidido, sem ouvir os pedidos de clemência de seu dono. O gato, a esta altura, estava crispado, congelado. Quando a fera chegou a dois palmos da presa imóvel, virou-se de lado, levantou a perna traseira e serenamente descarregou a bexiga no bichano. Marcado o território, saiu em busca do bastão para recomeçar a repetitiva diversão. Afinal, era sábado à tarde. O gato, molhado e humilhado -- mas vivo --, foi como veio. São os critérios de um cão. | 21.7.05
Mini 69 Por que aceitei aquela ligação a cobrar? A musiquinha, sempre igual, ali me pareceu inusitada, original. Quem era tão íntimo a ponto de ligar a cobrar? Deixei passar o tempo, ninguém disse nome ou local da chamada. Atendi. Não o conhecia. Não sei se conhecia o que ele pedia. Tentei perguntar por que. Não perguntei. Fiz, apenas. Hoje eu tento desaparecer. Consigo amanhã. Não sem custo. Não sem perguntar: por que aceitei, e a cobrar? | 19.7.05
Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 10 Por pouco não perdeu o avião. Teria sido imperdoável. Afinal, ir a Porto Alegre a serviço de seu novo patrão, tão jovem e com tão pouco tempo de casa, era uma conquista que confirmava o talento que lhe atribuíam os amigos. Segundos após a decolagem, ele já dormia o sono dos justos, que só foi terminar quando a gentil aeromoça o acordou para recitar o script sobre o encosto da poltrona na posição vertical. Do Salgado Filho, desistiu de ir primeiro para o hotel, chegaria atrasado ao escritório do cliente. Achou que a pontualidade compensaria o ligeiro constrangimento de chegar à reunião com sua mala de viagem. Pensando melhor, seria até bom para sua imagem pessoal exibir a mala de rodinhas, passando aquela imagem de executivo globe trotter. O prédio era moderníssimo, um dos novos prédios de escritório, ali próximo ao rio Guaíba. Esperou não mais do que dois minutos pela simpática estagiária que o recebeu com um aperto de mão e um sorriso. Quando entraram no elevador, notou que era um daqueles panorâmicos, que permitia ver a paisagem através de um janelão de vidro. Fez-se o inevitável silêncio e, antes que um dos dois dissesse alguma coisa, o elevador parou no terceiro andar e um homem de terno e aparência de quarentão entrou. Mais silêncio, até que a estagiária, frente àquela paisagem mais exuberante a cada metro que subiam, perguntou: -- Você já conhecia o Guaíba? -- Só de nome. É um prazer conhecê-lo pessoalmente -- respondeu rápido, apertando a mão do atônito passageiro ao lado, que não soube o que responder quando o jovem simpático emendou -- Meu pai tem uns amigos Guaíba, será que são seus parentes? * O Preço do Peixe é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, causos mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. | 18.7.05
Um pouquinho dirimida a depressão causada pela conjuntura, acho que posso voltar a falar daquilo: política. Nem de Lula, nem de cuecas e malas, tampouco das conseqüências do flagra na sacolaria Daslu. O assunto é o instituto da reeleição. E, desde logo, a favor. Por quê? Antes de tudo porque um mandato de quatro anos é muito curto para se implementar um projeto para um país imenso e complicado como é o Brasil. Ao mesmo tempo, acho que um de oito anos, embora razoável, pode ser longo demais se o eleito se mostrar incapaz de governar (já pensou, lembrando aqui o que disse o Fernando Cals, se o Roberto Saturnino, homem de bem mas sem nenhum pendor executivo, tivesse sido eleito para oito anos?) Como, então, juntar a adequação administrativa de um mandato de oito anos à prudência política de um de quatro? Me parece claro que a solução é um referendo. No meio do mandato, o povo diz se a coisa vai bem e deve continuar ou se, desculpe, foi engano. Corre agora por aí o burburinho de que o governo e o PT gostariam de trabalhar no sentido de acabar com a reeleição e aumentar o mandato dos próximos presidentes para cinco ou seis anos. Antes de tudo, me parece casuísmo. Uma solução de última hora que juntaria a preservação política do presidente Lula a uma certa repreensão institucional ao presidente Fernando Henrique. Mas, mais do que tudo, me parece que acabar com a reeleição é jogar fora a oportunidade de avaliar um governo e, se for o caso, trocá-lo. Bem, pode-se falar que trata-se então de fazer um referendo popular e, se o governante for rejeitado, promover uma eleição -- algo como o que prevê a lei do estado americano da California. Será que temos tempo e dinheiro sobrando para pensar em duas possíveis eleições seguidas, mobilizando algo como cem milhões de eleitores em oito milhões de quilômetros quadrados? Não é óbvio que uma campanha de reeleição pode representar as duas avaliações -- a do referendo e a da eventual mudança -- e será paga uma vez só? Acho que a viúva, em suas condições nada californianas, agradeceria. Existe a alegação de que, com a reeleição, o presidente, no último ano de governo, se transformaria em candidato, tomando decisões mais eleitoreiras do que faria sem reeleição. Vamos lá: quem se lembra da sucessão do governador Quércia, quando este fabricou a canditatura de seu sucessor Fleury Filho? Ficou famosa a frase atribuída a ele (não se sabe se a atribuição corresponde à verdade, mas que se atribuiu, se atribuiu): "Quebrei o Banespa, mas elegi o Fleury". Quem não se lembra da fabricação de Celso Pitta, o cyborg político mais canhestro de nossa história? Seu fabricante, o então prefeito Paulo Maluf, terá administrado seu último ano sem pensar na sucessão? Não teremos aí dois casos de virtual reeleição? É ilusão achar que, sem reeleição, se produzem sucessões mais limpas. Sucessões mais limpas nascem de uma nação que saiba, primeiro estabelecer, depois vigiar seus valores éticos e os conseqüentes procedimentos institucionais. O Brasil engatinha nisso, mas dá mostras de que engatinha para a frente. A instituição da reeleição deve ser vista como parte da evolução da nossa democracia. É a forma menos penosa -- e talvez a mais barata -- de se obter continuidade administrativa, para um governo bem-sucedido, ou mudança, no caso de uma administração malograda. Criar um "mandatão" de cinco ou seis anos tira a oportunidade do referendo, ao mesmo tempo em que torna curto demais um bom mandato e longo demais um mandato desastroso. E o que é pior: um "mandatão" não evita continuísmos, na medida em que não impede um mandatário de, eventualmente, quebrar um banco aqui ou acolá para fazer seu sucessor -- forma vampiresca, por obscura, de, ao fim e ao cabo, reeleger. É melhor vivermos soluções mais claras -- e o instituo da reeleição, nos termos de hoje, nos dá essa possibilidade. *** Amanhã, volta a ficção ou a poesia. Desculpe o incômodo. | 15.7.05
Mini 68 -- Marília! Foi uma surpresa encontrá-la ali, repartição pública, e naquelas circunstâncias, ele tentando recuperar um resto de reputação. -- Desculpe? Ela não o havia reconhecido. Como podia não reconhecer seu primeiro homem? Como podia esquecer sua pele, seus sumos, seus gritos, sua juventude? Como podia se esquecer? Antes do segundo carimbo, olhou sua foto 3X4 e pensou: melhor assim. | 13.7.05
Ixe! A casa caiu para a Daslu! Sempre que a gente ouve notícias sobre esse tipo de operação policial, fica a pergunta: a quem a operação aproveita? Desta vez, parece que a resposta ainda é nebulosa. Não se elimina, é claro, a idéia de que tudo está sendo feito em nome do restabelecimento da ordem, no caso, fiscal e tributária (há possibilidades de a coisa superar o meramente fiscal e tributário). Mas já há quem fale dos ricocheteios disso em Nizan Guanaes (sua mulher é diretora ou gerente da casa) ou em Geraldo Alckmin (sua filha é uma das gerentes da loja). O fato que constrangidamente temos de admitir é: dá um prazerzinho ver que esse lugar que cobra R$ 30,00 pelo estacionamento e é tido como templo do consumo de luxo, com aquela arquitetura horrorosa, agora se equipara à Galeria Pajé. Vou ajoelhar ali no milho para purgar a maldade e já volto. *** Há certas frases que gosto de repetir. Algumas são minhas -- as mais toscas --, outras são ditos populares, outras ainda são citações de origem vária. Uma que me vem sendo cara reza: "Dizem que o amor está para a amizade assim como a poesia está para a prosa -- e quem há de negar que esta lhe é superior?" O que me intriga é: por que é tão raro conseguirmos trilhar o caminho de elevação deste patamar? Contamos nos dedos quem consegue evoluir do amor para a amizade verdadeira e franca. Darcy Ribeiro o fazia. O próprio autor da frase parece malograr neste trajeto. Eu ainda vou saber traçá-lo e o percorrer. *** Outra frase que eu sempre repito, e que me parece muito pertinente para o momento institucional, vem de Guimarães Rosa: "O trágico não vem a conta-gotas". Ou vem, Gushiken? *** Você gosta da ingenuidade midiática do senador Eduardo Suplicy? Não sei por que, eu gosto cada vez menos. *** É. Já fazia mais de uma semana que não se falava aqui de política e assuntos relacionados. É que tudo anda muito deprimente nessa área. Mas estou, enquanto escrevo, com a TV ligada na TV Senado. Devia ter ligado na TV Playboy, mas eu gosto mesmo é de sacanagem. *** Não achei graça nenhuma na piadinha acima. | 11.7.05
Mini 67 Chegou à página número dois mil de seu longo romance. Era o décimo caderno, os outros nove estavam no saco de estopa que ela levava consigo onde fosse. Depois do quinto caderno, a gerente da papelaria resolveu dar-lhe de presente os seguintes, munindo-a, ainda, de canetas esferográficas. Talvez fosse tempo de parar um pouco, mas não vivia sem escrever. Os cadernos resistiam ao tempo, à chuva, aos moleques zombeteiros e, com isso, a história ia evoluindo. Ninguém lhe havia contado nada sobre a Índia, no entanto, escrevia com fluência a saga do menino pária que iria chegar a rei. Na última página escrita, ele acabara de fazer catorze anos, bem na hora que uma senhora gordota, filho pela mão, lhe deixara cair uma moeda. Protegeu-se do frio e foi buscar mais um caderno. | 8.7.05
| 7.7.05
O vizinho Se tinha uma idiossincrasia mais acentuada, ela se relacionava às palavras. Tornava-se um velhinho ranheta sempre que colocado a certo tipo de inovação na língua. Como se fosse um veterano comunista, que aceitava o que era revolucionário e detestava o que parecia ser pequeno burguês, estrilava por dentro com tudo o que fosse ou soasse como neologismo ou invencionice. Coisa, mesmo, de velhinho. Tinha acabado de mudar de emprego, ia para um banco maior, prédio posudo na beira do Rio Pinheiros. Seu cargo, bom para um executivo ainda tão jovem, lhe facultava uma mesa com computador em um salão com uma dezena de módulos iguais, cada um com quatro postos de trabalho. No primeiro dia, colocou suas coisas sobre a mesa, um mouse pad, uma foto de família e um porta-lápis, e pôs-se a reconhecer o terreno. Tudo aparentemente bem, dos seus três vizinhos mais próximos, dois eram quase tão jovens quanto ele, e o outro, o que sentava bem ao lado, era um sujeito já quarentão, quase gordo, vasto bigode e gravata larga com o nó mal feito. Uma figura bem destoante por ali, como um repetente um palmo mais alto do que os outros garotos da classe. Chegou no dia seguinte de manhã às quinze para as oito. O vizinho já estava lá. Sorriso de dentes cerrados, que nem o bigode disfarçava. -- Aí, garoto, chegou cedo hoje, hem? -- É, eu gosto (cara esquisito, pensou, a que horas ele chega?). -- Olha você vai gostar daqui, a turminha é bacana. Turminha bacana. Sorriso cerrado. Você vai gostar daqui. Alarme! -- Você vai ver -- dentes cerrados sorrindo -- o pessoal aqui -- bigode abanando -- é bem descontraído. Descontraído. O limite do velhinho. Herança ridícula dos tempos de seu pai, invenção de Carlos Imperial ou Wilson Simonal ou ambos, vulgarizando uma besteira libertária dos anos 60. Para ele, uma das palavras vis. Bem ao gosto da choldra dos iguais ao seu vizinho. -- É? Legal -- respondeu. Os dias foram passando. Chegava cedo, mas o outro sempre estava lá. Em compensação, todo dia ficava até mais tarde. Óbvio: quem fica depois aparece mais do que quem chega antes. Habituou-se a ser o último a sair. Cedo, retribuía as efusividades do bigodudo. Certo dia, perguntou se tinha filhos -- sim, duas -- e conseguiu saber suas datas de aniversário. Pronto. Pelo jeitão do vizinho, tinha certeza de que conseguira sua senha de acesso. A partir daí, parecia mais amigável ainda com o colega mais velho, pedia conselhos, dava palpites. O bigodudo sorria com os dentes trincando, e ele mais feliz, leve, gaio. Na sexta-feira, foi para casa como quem sai para um cruzeiro no Caribe. De volta, na segunda, chegou mais cedo e encontrou o vizinho no térreo. Bem a tempo de ver quando dois seguranças de elegantes ternos pretos solicitaram delicadamente a ele que os acompanhasse. Nunca mais o viu. Soube que ele havia tentado hackear o banco, mas tinha sido tão imprudente que usara diversas vezes o próprio computador de sua mesa. O que tinha como senha o aniversário da filha caçula. Parece que usava um estranho login name: descontraido. Assim, sem acento. | 5.7.05
Soneto do nome Avatar, sina, o que os nomes são? Os nomes parecem compor pessoas, descrevem, atávicos, se são boas, suaves, duras, número, emoção. Tem gente batizada de Nação, tem quem se chame Bem; há Vis, há Loas, Martírios, Midas, Mortes, há Moncloas: todo nome, no fundo, é tradução. Mas também é sina de quem o traz (não são as Brancas um tanto incolores, as Maricotas, um tantinho más?) Se um nome pode revelar pendores, de que revelações será capaz seu nome, composto de dois amores? | 4.7.05
Fragmento de "O Preço do Peixe", 9 Quem mandava ali? Quem era o homem da casa? Ele, é claro. Quem decidia e decidiria os destinos da família? Ele, é claro. Foi isso o que o fez responder com firmeza ao homem do cartório: "Adélio!", assim, bem exclamado. Adélio era o nome que ele tinha escolhido para seu filho e Adélio o menino se chamaria. "Sim, com acento no e". O notário foi preenchendo a certidão com letra caprichada, enquanto ele olhava com ar de vitória aquele documento que atestava não só o nascimento de seu filho, como seu comando sobre os rumos da casa. Afinal, como é que sua mulher, ouvindo a mãe e a irmã, atrevia-se a vetar o nome que ele tinha escolhido para o primogênito? Como ainda ousavam lhe impor um mero e simples João? João coisa nenhuma, agora estava lá, oficial, carimbado, selado e certificado: Adélio de X. Voltou para casa seguro de ser o verdadeiro chefe da família. Mal entrou, a mulher perguntou: "Fez o registro?" Sentiu um leve arrepio antes de responder. "Fiz sim, ora, não fui lá para isso?" *** Mais um primeiro dia de aula. Depois que a última criança se sentou, com a mesma tensão no rosto que a maioria dos colegas da sala exibiam, a professora anunciou que faria a chamada e que, após dizer o nome, o aluno mencionado deveria responder "Presente". Coisa de outros tempos, em que pré-escola era luxo raro, começava-se a vida escolar como ali, no primeiro ano do primário. A professora fez então uma pausa, olhou devagar a turma sentada em silêncio, e começou: "Adélio". Nada. Repetiu: "Adélio". Silêncio. "Puxa vida, logo o primeiro da lista resolveu faltar". Continuou a chamada, ouvindo "Presente" após cada nome anunciado. Notou apenas que um dos alunos não tinha respondido. "Você", chamou com cuidado, havia percebido alguma tensão no garoto, "por que não respondeu a chamada?" "A senhora não me chamou". "Como é seu nome?" "João". Ela passou o indicador pela lista que, diferente de todos os anos anteriores, não tinha nenhum João, ia de Jarbas direto para Joaquim. "João de X.", tentou o pequeno ajudar. A professora releu nome a nome e algo lhe chamou a atenção. "Engraçado, é o mesmo sobrenome do Adélio, o que faltou". *** Não foi fácil para o pai explicar, depois de sete anos, que tinha tomado uma decisão diferente daquela que havia combinado em casa. Sofreu um mês de abstinência sexual e o castigo pior, de ver se espalhar sua pusilanimidade à boca pequena, primeiro entre a família e, dali, à cidadezinha. *** "Vote Adélio", gritava o cartaz ali na praça. O sobrinho perguntou: "Tio João, por que tem aquele nome embaixo do seu retrato?" | 1.7.05
Fragmento de "O Preço do Peixe", 8 Voltar da praia. Para quem mora em São Paulo, esse é um momento em que se põe em dúvida a ligação entre fim-de-semana e descansar. Voltar da praia sem stress era tudo o que ele queria. Por isso, renunciou até a umas horas a mais com a família e saiu mais cedo. Do lugar onde estava, tinha um quilômetro e meio de estrada a percorrer no sentido contrário para, então, fazer um retorno em nível. Retorno em nível é um daqueles balõezinhos na estrada, em que você entra à direita, toma um semicírculo que o leva a cruzar a pista, atravessa-a e percorre a outra metade, o segundo semicírculo, para, então, tornar à pista certa e seguir viagem. Como naquela hora havia pouco movimento, feito o primeiro semicírculo, ele olhou rapidamente para os dois lados. Nenhum veículo. Pronto: entrou direto na estrada sem completar o balão. Engatou segunda, terceira, ia desembraiar para a quarta quando viu a figura junto à pista. Alto mas não muito, não mais que três metros, três e dez no máximo. Casaco de couro, apesar dos 38 graus à sombra, quepe estilo "carabinero" e um braço que, ao sinalizar a ordem de parar, pareceu chegar até a faixa do meio do asfalto. Prudente, obedeceu a ordem do guarda, parou, abriu o vidro e esperou. -- Documentos do veículo. -- B-bom dia -- respondeu, apalpando o porta-luvas para, rápido e solícito, entregar a carteirinha de plástico. -- Habilitação. -- Minutinho... pronto. Meio velhinha, troco no ano que vem, o senhor sabe... Sabia nada, ficou mudo, granito. Em severo silêncio, foi examinando os papéis e balançando a cabeça como se o documento revelasse os registros ocultos de suas contravenções passadas, um sinal vermelho aqui, um 140 ali, a marcha-a-ré de duzentos metros do outro dia. E pausa, muita pausa depois, ele fala, baixo e grave como é dos homens de três metros. -- O senhor fez o retorno irregularmente. -- Fiz, mas... -- O senhor não viu a placa no acostamento? -- Vi. -- O senhor não viu a sinalização de solo? -- Vi. -- O senhor não viu a placa no outro lado do balão? -- Vi. -- Se o senhor viu, por que virou direto? -- Porque eu não vi o senhor. Acabou indo embora sem multa. O guarda sabia que o caminho de volta a São Paulo seria punição suficiente. | |