dito assim parece à toa |
|
|
Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. |
30.6.05
Soneto ao limite Matar e esquartejar um ditador, mimar a terra-crosta do Brasil, cuspir na cara do seu malfeitor, fazer inflar o peito juvenil. Dispor do mundo como achar melhor: pra Groelândia o mau, o puto, o vil! Pra minha gente, o poderoso Thor! Na minha cama, o mais cigano cio. Eu mudaria o mundo ao meu soneto. Eu estraçalharia todo o mal -- mas sempre chega a hora do real: à doce luz do sonho de um quarteto não falta a sombra funda do terceto que insiste em despertar-me no final. | 28.6.05
Fragmento de "O Preço do Peixe", 7* Aquilo sim era uma dupla de criação. Experientes o suficiente para entregar um grande trabalho na agência, jovens o bastante para encarar todas as baladas fora dela. E juntos, porque quando uma dupla dá certo, continua dupla fora do escritório. Um tinha carro, o outro andava a pé. Por isso, no fim das baladas, o diretor de arte levava o redator para casa. Um dia, a caminho de casa, o redator contou que decidira se casar. Foi aquela confratenização meio ébria mas emocionada, com o carro em movimento e os postes se esquivando. Logo depois, o redator aponta: -- Vai ser naquela igreja. Lá estava o templo majestoso, mais pelas duas ou três doses do que pela arquitetura. A partir daí, era todo dia: -- É aquela igreja. -- Eu sei, você já me contou. -- Você vai no meu casamento e vai sentar na frente, hem? -- Claro, claro. Dias, baladas, semanas, o tempo passa a jato: chegou o dia do casamento. O diretor de arte enfeitou-se todo, terno, gravata, perfume e toca para a igreja. Avenida, passa o primeiro viaduto, primeira à direita e lá está -- não, lá não está a igreja. Caramba, era ali, avenida, viaduto, primeira à direita. Voltas no quarteirão, procura daqui, procura dali, nada. Dez para as sete. Cinco para as sete. Sete. Tudo bem, a noiva sempre atrasa. Sete e cinco. Ele muda o método de busca. Volta sistematicamente para a avenida e tenta começar o caminho do zero. Nada. Sete e dez. Avenida, viaduto, primeira à direita, segunda à direita, terceira à direita, sete e quinze. Suor no colarinho engomado. Cadê a igreja? Quarta à direita, nada. De repente, o insight: um boteco na esquina. Pára o carro, entra apressado, sete e vinte, dois frentistas no balcão olham estranho para o ser engravatado. -- Conhaque. Duplo. Vira o copo de uma só vez, franze o rosto todo, devolve o copo vazio, deixa o troco para o balconista e volta para o carro. Sete e vinte e cinco. Sete e vinte e sete, a igreja. Ele conseguiu chegar antes da noiva e acenar para o parceiro que, nervoso, esperava a doce amada. Sentou ao lado de uma convidada, possível parente do amigo, que puxou assunto: -- Já conhecia a igreja? -- Sóbrio, ainda não. E foram felizes para sempre. * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. | 27.6.05
Fuçando numa velha pasta de escritos passados e muito papel amarelado, achei uma poesia que escrevi há décadas, acho que nos tempos do collor. Verso livre, mas com ritmo que o justifica. Sem ponto, sem maiúsculas, enfim, diferente do que faço hoje. Coloco aqui por conta do tema, tão apaixonadamente discutido nos últimos tempos. Brasil país do futuro país do futuro sogro do mel e do logro país dos uirapurus dos ratos, dos urubus país da desgraça pouca da história da esposa louca do fico, do fisco e do falo terra de tanta cruz de chope, vinagre e fel terra da doce princesa isabel -- para alguns, ela não existiu -- da bela mulher mestiça anteontem assassinada por um engenheiro coitado pátria-mãe do ciúme confeitos e brigadeiro terra de advogado festa do cozinheiro alucinando o soldado | 24.6.05
Preocupado com o tamanho da crise que se avizinha, leio lá no Hormoniosas uma nota que me fez tremer na cadeira: o deputado João Herrmann, um cara de Piracicaba, que já foi do Partidão e do sucedâneo PPS, e agora está no PDT, propõe o fim da crase na língua portuguesa. Simples assim. Seus argumentos são inteligentes como "isso só serve para humilhar muita gente" e "a população brasileira se divide em aqueles que sabem usar a crase, a minoria, e a maioria que tem um medo existencial a esse sinal". Bem se vê que ele pertence à metade que não sabe, afinal a crase não é o sinal, mas o nome que se dá à contração entre duas vogais idênticas, como no caso da preposição "a" e do artigo "a" em "fui à feira, não se se volto", que compõem uma crase, sinalizada pelo acento grave. Embora resista sobre-humanamente, não consigo evitar que me passem pela cabeça idéias estapafúrdias, como por exemplo investir o que se gasta com deputados em escolas primárias para evitar deputados como esse. Mas é apenas um impulso espúrio, logo a razão me mostra que sem deputados agora, não teremos deputados melhores depois -- e a história tem mostrado isso com insistência e clareza. Tenho vontade de sugerir ao parlamentar emendas que venham a completar sua idéia de facilitar o uso da língua portuguesa. Poder-se-ia emendar seu projeto, por exemplo, eliminando as mesóclises. A partir da promulgação, a forma acima, "poder-se-ia", seria substituída pelo mais simples e direto "ia pudeh". Aliás, esta seria a forma do condicional, na nova e simplificada língua portuguesa. "Seria" passaria a ser "ia seh". Na linha de eliminar regras que humilham o povo (me comove a solidariedade do parlamentar), pensemos bem, para quê os plurais? Para quê obrigar a população ao malabarismo mental e lingüístico de distingüir "aluguel" de "alugueres"? Chega disso, agora que prevaleça para qualquer uso a forma singular. Afinal -- alô! --, há um número na frente mostrando que é plural. Dois palito não pode ser um palito só. Outra coisa: quantas vezes o deputado terá perguntado a sua senhora: "Meu bem, 'acender' é com dois esses ou com cê-cedilha?" Ora, seus problemas vão acabar. A reforma ortográfica deve eliminar todas essas ambigüidades inúteis. Assim, tudo o que se pronuncia como "ss" será grafado com "ç". Tudo o que se escreve com "qu" será substituído por "k" (o que já de quebra elimina os humilhantes tremas). "G" passa a referir apenas o que hoje se pronuncia "guê", e o que se pronuncia "gê" será grafado por "j". "Ch" vira "x" e "x", na pronúncia "ks", vira "kç". Pronto. Querem ver como fica mais fácil? "Eçtimado deputado, kero me çolidarizar kom çua iniçiativa de reformah a liingua portugesa. Axo que agora a jente vai fikah menaz anaufabeta porkeh naum tem maiz oz açentu patrapaiah nóiç na ora de escreveh. Ia goçtah de çoliçitah o obzekio de fazeh uma lei ke elimine az pontuaçaum ke tambem atrapalia demais a noça kabeça jah taoum okupada kom koisa mais importante ke eças regra fikça. Gradeçido". Vá lá, deputado, continue a servir o Brasil e ajudá-lo a resolver seus problemas mais urgentes. | 23.6.05
Mini 66 Passou devagar uma camada de creme sobre a coxa esquerda, até ver o branco sumir pele adentro, sob o vai-vem dos dedos. Parou a mão sobre o joelho e olhou bem: as mãos não conseguem esconder a idade. Pena: suas pernas pareciam as de uma mulher uns dez ou quinze anos mais moça. Talvez obra do salto alto, anos contraindo a panturrilha, desavisada musculação. Antes de passar à coxa direita, parou os olhos na revista ao lado da cama. Incrível: como existiam mulheres mais livres do que ela e como havia homens para todas elas. Foi só um pensamento breve, não se lembraria dele um minuto depois. No espelho, se viu bonita, pronta para sair à rua, ouvir eventualmente uns assobios e, lépida, continuar a construir o mundo. | 22.6.05
Tive a pachorra de ligar a TV no canal do Senado e assistir a umas duas horas do depoimento do cara dos Correios, aquele que levou gorjeta de R$ 3 mil. Ele sabonetou todas as perguntas, menos uma: em resposta ao deputado ACM Neto, acusou peremptoriamente o favorecimento, em um processo licitatório, de uma empresa chamada HHP, segundo ele "é voz corrente, ligada ao Silvio Pereira". Ainda deve ter mais ventilador e provável aspersão de matéria fecal. Recomeçou agora às 9 da manhã. *** Tenho um problema sério com tempo cinzento e chuvoso. Deve ser isso o que me põe apreensivo e pessimista com relação aos rumos da nação. *** Notáveis as acrobacias de Roberto Jefferson. Apenas deveriam trazer selo de recomendação: "desaconselhável para menores de 21 anos desacompanhados dos pais". *** Molto bene trovata a história "Stalker", contada em capítulos lá pelo Pecus Bilis. Se você ainda não começou a ler, corra lá, já vai pelo capítulo 4. É legal ler de um em um, então tire o atraso. Vale lembrar que o Machado também escrevia em capítulos. *** Alguns telefonemas curam. *** Ainda na TV Senado, CPI mista, ACM Neto: vaso ruim não só não quebra como ainda cria vasinhos-prodígio. *** Em tempo: você sabia que o ACM avô tem um pedaço de coração de boi a sustentar-lhe coeso o músculo cardíaco? Não, não é metáfora, é literal -- e talvez a maior mágica do mago do coração Adib Jatene. Credo! *** Como ela consegue? Projeta aqui, projeta na Bahia, tem o Zé, tem as crianças (sempre são, sempre são) e não falha um dia em nos presentear com delícias e até mesmo com furos de reportagem: foi ela que revelou, em furo mundial, que Dilma Roussef e Zé Dirceu são a mesma pessoa. Confira e veja que é irrefutável. *** Zé Dirceu não respondeu. Não achei que o faria. Mas muita gente mais legal me respondeu, aqui e no e-mail, me fazendo primeiro avaliar -- minha "carta aberta" estava um pouco pueril, faltou-lhe algum equilíbrio entre a pimenta e o açúcar -- depois acreditar que é possível compartilhar uma idéia e fazê-la crescer, se fizer sentido. Então vamos lá: vamos juntar nossas social-democracias? Dilma Roussef, quer namorar comigo (politicamente, claro)? | 20.6.05
Carta quase aberta ao deputado José Dirceu Caro Zé (falemos mais adiante por que considero que possa e talvez deva chamá-lo assim), Quero lhe falar aqui de duas imagens recentes que trago de você, as duas do sábado, 18 de junho. Uma, que vi logo de manhã, era sua foto no Estadão, tomada durante seu discurso no ato de desagravo do PT. A outra, já à tarde, era você mesmo, ali a poucos metros de onde eu estava, durante a festa junina da escola em que nossas filhas estudam. Uma o mostrava bravo, discursando com a energia de sempre, fustigando e advertindo "a direita representada pelo PFL e pelo PSDB". A outra mostrava um homem mais suave, conversando com dois amigos, ao lado de uma menina linda, alta como minha filha, talvez até um pouco mais. O que essas duas imagens me mostram, caro Zé, é que há uma profunda contradição a ser corrigida, e seria melhor para o Brasil que o fosse já. Você e eu escolhemos a mesma escola para nossas filhas. Sinal de que compartilhamos valores importantes, afinal é nisso que se baseia a escolha da escola dos filhos. Mas vou além. Tenho certeza de que você e eu faríamos ou -- por que não? -- fizemos muitas escolhas semelhantes. Eu e meus amigos mais próximos temos uma visão de mundo que traz uma herança profundamente democrática, humanista e voltada para a construção de uma sociedade mais justa. Eu e meus amigos mais próximos temos curiosidade pela psicanálise, respeitamos minorias, apoiamos os movimentos feministas e o movimento negro, abominamos violência policial, execramos a politicagem mais corrupta. Enfim, o básico. Apoiamos e defendemos valores muito próximos dos que você e seus amigos mais próximos apóiam e defendem. Isso quer dizer que, se dependesse só das coisas em que acreditamos, dos nossos gostos e convicções, nós poderíamos ser muito amigos. Já de Waldemar Costa Neto, eu tenho certeza de que não conseguiria ser amigo. Sei que a gente da política sabe ser encantadora, poderia ter com ele até uma relação cordial, mas amigo, nunca. O mesmo eu digo de Pedro Henry ou Roberto Jefferson. E digo o mesmo também de Antônio Carlos Magalhães. Eu não me lembro de ter nenhum amigo que milite no PP, PFL, PTB, PL. Agora, caro Zé, eu tenho um monte de amigos do coração que são petistas. E eu voto com os tucanos desde que se articularam em um partido. Já fui simpatizante e até já votei no PT (aliás, a única cédula eleitoral de que me lembro de cor é a do meu voto em 82: Lula, Jacob, Bom, Breda e Caterina; traduzindo, Lula, Jacob Bittar, Djalma Bom, João Batista Breda e Caterina Koltai, uma candidata a vereadora que propunha a descriminalização da maconha e tinha por slogan "Desobedeça"). Não votei em você, embora o admirasse, porque quis votar num operário. Na verdade, daquela cédula, só sobrou na vida pública o Lula, o que mostra que eu era um jovem de limitado tirocínio político. Talvez seja essa deficiência que não me permita entender, Zé, por que é que tucanos e petistas insistimos em nos bater forte. Você certamente mencionaria as palavras do sempre áspero, quase desagradável, deputado Alberto Goldman, e eu, em troca, poderia mencionar mais meia dúzia de trancos verbais de petistas, naquela cadência de nos chamar de reacionários, conservadores, conspiradores (aliás, leia sobre isso artigo do cientista político Sérgio Fausto, no Estadão de domingo, pág. 2). O fato é que a atual situação lembra o Batman combatendo o Robin, este unindo forças com o Coringa, o Senhor Gelo e o Pingüim, enquanto aquele reafirma seus laços com o Charada. Ambos disputam a simpatia da Mulher Gato. Fala sério! O Brasil precisa de que suas forças progressistas trabalhem lado a lado, no mesmo sentido. Para isso, é preciso ter a decência e a humildade (sei que você tem alguma dificuldade nesta virtude, mas, naquela, é um mestre) de dar uma longa marcha-à-ré e curar as feridas fundas que essa relação carrega há décadas. Podemos, tucanos e petistas, tirar do bolso do colete milhares de páginas de argumentos provando que somos inconciliáveis. É "reacionarismo" daqui, "atraso" dali, "ravanchismo" dacolá, "empáfia" donde seja. Mas é só olhar de onde vêm nossos amigos, onde estudam nossos filhos, o que gostaríamos que lessem, o que queremos que não repitam, qual mundo queremos para eles: o argumento a favor logo aparece. Zé, pode ser que demore, pode ser que demore muito, pode ser nunca aconteça. Mas fica cada vez mais claro -- e acho que, no fundo, você pensa a mesmíssima coisa -- que o país só vai andar quando tiver, de um lado, PT, PSDB, PPS, PSB, PV, e, do outro, PFL, PP, PTB, PL (PMDB e PDT estão sempre dos dois lados, não há muito o que fazer). Para que isso aconteça, é preciso aproveitar um momento de crise como este. Crises facilitam descer do salto, despir armaduras e conversar. Ah, sobre essa intimidade, chamá-lo de Zé: me deixou enojado ver o Roberto Jefferson chamá-lo assim. É urgente, meu caro, que você reencontre os amigos do passado mais remoto. É importante, para você e para todos nós, que você volte a ser chamado de Zé por quem lhe tem o apreço que credencie para isso. Só assim você recupera seu nome. Um abraço forte e solidário do amigo Jayme Serva (pode me chamar de Jaimão) | 17.6.05
Tenho fascínio por poesia bem metrificada -- e medo de verso livre. Medo de falar bobagem de forma empolada, medo de parecer inflado. Acho que a métrica faz do versejar um jogo, traz um desafio lúdico, ao mesmo tempo em que obriga ao rigor. No caso abaixo, são redondilhas -- versos de sete sílabas (poderiam ser de cinco) ordenados em estrofes de quatro versos, com rima no esquema "a-b-b-a". Colocadas as regras, conte-se a história. Às vezes, toma ares de paródia. Mas não terá sido toda a poesia uma espécie de paródia, um musical da Metro em que, no meio da conversa, Kelly olha fundo nos olhos de Reynolds e, coreografando, canta? Seja como for, é um exercício que eu recomendo, ludoterapêutico. Sirva-se. Do salão Redondilhas em seqüência, temperadas à Vicente Celestino, bem ao gosto popular Voltei correndo ao salão -- quem mandou sair tão cedo? As musas do meu segredo, pare-as antes que se vão. Voltei a ser como era, errei ao tentar mudar, entrar em jogo de amar. Voltei, sei que alguém me espera. A mera expectativa de ter lá fora algo novo, sair da boca do povo para os braços de uma diva me fez perder a memória, tirou-me o discernimento. Achei que era, então, momento de refazer minha história. Qual! Mudar não é assim fácil como gargalhar ou como trocar de par no bailado de um festim. Já distante do que tinha a alegrar-me o coração pensava ter dado a mão à mão que queria a minha. Mas a tal mão, não se iluda, queria outros acenos ou, os meus, queria menos. Fêz uma mímica muda: 'stancou o gesto no ar, a mão entre eu e ela (como ela sabe ser bela) dizendo: é melhor parar. Entendi, dissimulado, sem ter entendido aquilo: por que quem me deu asilo agora me põe de lado? Por isso volto ao salão, às musas do meu segredo, polichinelo do medo. Pare-as antes que se vão. | 16.6.05
Mini 65 Caminhava pisando duro e remoendo mágoas. Do outro lado da rua, um homem com uma mangueira na mão e um cigarro no canto da boca espirrava água farta sobre a calçada, pernas da calça arregaçadas, sandália de borracha já sem cor. Parou para ver aquilo. Alguém lhe havia dito que, em vinte anos, não haveria mais água potável suficiente para a sede do planeta. Atravessou a rua e chegou perto do homem, já molhando os sapatos. "Posso?". O homem cedeu-lhe a mangueira, após um segundo de hesitação. Ele então lavou cada palmo pelo menos umas quatro vezes, até ter certeza de que aquele pedaço de calçada jamais ficaria limpo de verdade. Um fio de água salgada invadia-lhe o lábio. Em vão: não havia muito mais o que limpar por ali. | 15.6.05
Batuta Musical Recebi, lá da Guanabara, desta querida, e continuo a Batuta: Volume total de músicas em meu computador: Nunca tinha contado, contei agora: exatas 97 canções, todas garimpadas no Altavista (faz parte da brincadeira). O último CD que comprei foi: "Canções curiosas", de Sandra Peres e Paulo Tatit Música tocando no momento: "Eu ontem esperei às sete em ponto / Ainda dei uma hora de desconto / Os ponteiros do relógio pareciam me dizer / Vá embora, meu amigo, ela não vai aparecer / Será que ela não veio porque se zangou / Ou o bonde Alegria descarrilhou". É, Wilson Batista. Cantores que ultimamente tenho gostado muito de ouvir: Bebel Gilberto Astrud Gilberto João Gilberto (notaram algo parecido com Marina W.? Eu também) Luciana Souza Bob McFerrin John Pizzarelli (que, além de cantar, toca uma guitarra maravilhosa, ou vice-versa) Ella & Louis cantando Cole Porter Músicas que, de alguma forma, significaram muito pra mim: "You do something to me" (Cole Porter) "João Sabino" (Gilberto Gil) "Sugar cane fields forever" (Caetano Veloso) "An American in Paris" (George & Ira Gershwin) "I can't stop lovin' you" (Don Gibson), Ray Charles na veia. Cinco pessoas pra quem eu passo a "Batuta Musical": Bruno, Agenor, Arlindo, Pecus e Dudi. | 14.6.05
Capitulação Há de se reconhecer sem delongas a inutilidade da poesia. Sonetos, haicais, quadras de milongas são quadriculados de fantasia pueril, esquemática, ingênua. Quando tento escrevê-la grandiosa -- que bobagem! --, aí mesmo apequeno-a a ponto de me desculpar em prosa. Por que me dedicar a tantos versos? Com quem conversarão métrica e rima? Ouvintes e leitores são dispersos, a eles interessa mais o clima em que a prosa sabe pô-los imersos do que um métrico confessar da estima. | 13.6.05
Passei um fim-de-semana daqueles: trabalhei no sábado e no domingo, o que eu não fazia há muito tempo, pelo menos com essa intensidade de período integral. Mas como um dos caras que exploram minha "mais valia" sou eu mesmo, saí contente, embora cansado. Só que houve, além do cansaço, uma sensação a mais, que me deixou aflito: parecia haver algo grave acontecendo e que eu não tinha idéia do que fosse. Lembra do livro do Marcelo Paiva, aquele dos três caras que vão a uma caverna no Vale do Ribeira e, quando saem de lá, o mundo havia acabado? Pois é, saí do escritório me sentindo um pouco como eles. Tudo porque, justo naquela hora, em pleno domingo, a CBN estava entrevistando políticos, repercutindo a crise. Sim, num domingo se falava da crise política, esta que explodiu com o affair Roberto Jefferson et caterva. No caso do deputado, reprise. Acho que essa crise está sendo super-dimensionada. Estranhamente super-dimensionada. Um editorialista medíocre do Estadão, um certo Mauro Chaves, traçou, no sábado, um perfil do vice-presidente José Alencar, expondo sua história e suas virtudes, e dizendo que certos defeitos, o vice não tinha -- e desfiava então justamente aqueles que a direita velha tenta tatuar no presidente Lula. Uma escrotice mal-escrita -- mas preocupante, considerando o clima geral. O fato é que a mídia parece estar fazendo de um problema grave um problema capital. Os jornais (não ando vendo TV) estão cobrindo a atual crise como fizeram em 1954 e em 1964. Há um cheiro horroroso de conspiração. Isso só me lembra, mais uma vez (desculpe a insistência), que há alguma coisa errada -- embora inteiramente explicável -- no fato de que o PT majoritário e o PSDB majoritário, embora com pensamento político muito semelhante, lutem de morte como estão fazendo agora (o PT minoritário -- sectário e velho -- e o PSDB minoritário -- oportunista e fisiológico -- não devem contar nessa conversa). É imperativo parar com isso. Há um clima que é preciso estancar. É preciso que, juntos, tucanos e petistas originais chutem para outro planeta esses usos e costumes da política brasileira. Separados, seremos muletas alternadas desses caras -- eles não têm imagem midiática, valem-se vampirescamente da imagem alheia, como o Alencar com o Lula ou o Maciel com FHC. Juntos, tucanos e petistas podem ser alguma coisa. Uma nação, por exemplo. Ou, no momento que parece se avizinhar, podemos ser a muralha da legalidade. Separados, seremos, de novo, a platéia queixosa que sequer saberá a quem vaiar. É tempo de parar e pensar. | 10.6.05
O pessoal na grande sala de redação do Dito Assim insiste, todo mundo aflito: "Jayme, não faz isso de novo". "Puxa, Jayme, leitor é artigo raro, você vai falar nisso de novo?" "Ó, Jayme, eu tenho um convite para trabalhar no Carne Crua e soube que a Franka andou pedindo meu telefone lá no Observador". Até dona Helga, nossa secretária trilíngüe, veio reclamar, mas estava tão nervosa que fez toda a queixa em alemão, o que me impediu de entender exatamente o que ela queria. O fato é que, mesmo com tantas advertências, não resisti a falar de novo daquele assunto. É, aquele. Mas espere, não desligue. Márcio, segure seus radicais. Anna, é a última vez. Laura, você acabou de chegar ao Dito Assim, não se vá. Prometo, é só uma cronicazinha, política entra mais como, digamos, tema gerador. Pois é, sentamos à mesa eu e dois casais de amigos da categoria mais queridos. Vinhozinho, conversa vai, conversa vem, falou-se de mais uma perigosa contaminação nos alimentos, rapidamente tocou-se no 3 a 1 engolido da Argentina e, então, o assunto do momento: política. Ih, a essa hora já devo estar falando sozinho por aqui, mas vamos lá. O ponto era: veja só o tipo de gente com que o PT teve de se juntar para governar. E mesmo assim tem CPI. Eu logo levantei o meu ponto, de que não dá para fazer coligação com um grupo onde você não tem amigos. Sei, ingenuidade minha, mas o vinho e o acolhimento generoso, que os amigos sempre me dão, fizeram o assunto continuar. -- É verdade -- disse G. -- eu tenho até um amigo malufista, do tempo do ginásio, mas do PFL eu não conheço ninguém. -- Pô, isso é o mínimo, né G.? -- colocou, peremptória, sua consorte A. -- E quem é esse malufista? -- E do PTB? -- perguntou Z. a todos. -- Deus me livre, Z. -- foi a sentença de C., sua mulher sempre atenta -- você acha que alguém tem amigo no PTB? O fato é que todos à mesa concordaram com o fato básico de que tucanos têm amigos petistas, petistas têm amigos tucanos e, por obra do acaso, alguns têm um raro amigo do tempo do ginásio que bandeou depois para o malufismo. Eu já ia continuar meu proselitismo a favor da urgente retomada das conversas pela base, entre tucanos e petistas, da necessidade de chegarmos a um entendimento pelo bem do Brasil e pela purgação dos escrotos, quando G. tomou a palavra. -- É muito estranho mesmo. Para gente como nós, um pefelista na turma é tão bizarro quanto o tal enterro de anão. -- Ou eleitor do PDT -- sugeriu Z. -- Esse tem um! -- lembrei animado -- O João Papaterra não vota no PDT? -- Não, Jayme, você está fazendo confusão, o João torce para a Portuguesa de Desportos -- clareou Z. -- Ah, é! Depois de um pequena pausa, G. ponderou: -- Pensando bem, é quase a mesma coisa. As garotas balançaram a cabeça ao mesmo tempo, como quem pensasse: "no fim, sempre acaba em futebol". | 8.6.05
Mini 64 Cada cabeça uma sentença, dizia-lhe a mãe nos tempos de guerra, a velha agindo sempre como árbitro, cruz vermelha e vítima. Aprendeu a aplicar esse aforismo, mas com o sinal trocado. Enquanto na casa da infância ele era repetido sempre para pôr panos quentes, agora ela o usava como óleo fervente a ser despejado sobre quem ousasse mesmo olhar para dentro de suas muralhas. Não contemporizava. Até o dia em que o conheceu e foi, por fim, tocada. Demorou, deu trabalho, conseguiu livrar-se dele só a muito custo e com métodos impublicáveis. Agora, estava tudo bem. Cada cabeça uma sentença. | 6.6.05
Descobri: o cara que quer mudar o nome da Vila Buarque para Chico Buarque se chama Sérgio Gomes e dirige uma ongue chamada Oboré (ele é mesmo bom de nomes, como se vê). Disse no Estadão de sábado, ante a discordância do homenageado sobre sua proposta, que "não interessa se ele (Chico Buarque) não entendeu o espírito da mudança. Queremos homenagear sua obra e não a ele". Bom, já que nem o Chico conseguiu demovê-lo, decidi embarcar no entusiasmo do Gomes da Oboré. Vamos revitalizar a cidade dando nomes novos a seus bairros para curá-los de suas mazelas -- como numa imensa pajelança metropolitana. De início, já faço uma proposta, em nome da precisão. Seguindo o que declara o Gomes da Oboré sobre o verdadeiro foco se sua homenagem, sugiro que a Vila Buarque seja rebatizada, não de Chico Buarque, mas de Vila Obra de Chico Buarque. A partir da maior compreensão da proposta do Gomes da Oboré, resolvi fazer as minhas próprias, com a certeza de que, levadas a cabo, transformaremos esta cidade em uma mistura de Paris com Carmel. Basta que coloquemos os nomes certos nos bairros certos. Mãos à obra, pois. Começo pelo bairro em que moro. É bom, mas meio caidinho. Pinheiros poderá brilhar mudando para algo mais cosmopolita: Ciprestes. O simpático bairro vizinho tornou-se um caldo de cultura, mas da cultura mais popular. Toca-se muito samba na Vila Madalena. Proponho que se eleve o nível musical do local, mudando-se-lhe o nome para Vila Magdalena Tagliaferro. Os botecos naturalmente passarão a tocar Bach ou Stravinsky, em lugar daquela música barata sem nenhum valor. Pouco adiante, temos a Vila Beatriz. Ora, exemplo claro de nome que não tem foco. Assim, há casinholas humildes postas ao lado de edifícios majestosos. Rebatizado de Vila Rainha Beatriz, o bairro ganharia novo garbo. É próxima, também, a simpática Vila Ida. Não é óbvio que lhe falta algo? Proponho imediata mudança para Vila Ida e Volta, livrando o lugar deste traço de inconseqüência. Mas vamos além, há muito o que mudar na cidade. Consolação, por exemplo, traz um ar de coisa antiga, espírito velhinho. Muito melhor será agora, com o novo nome de Auto-ajuda. Ali, às margens do Tietê (precisamos pensar em um nome digno para este rio), há o pitoresco bairro da Freguesia do Ó. Pitoresco, sim, mas, com esse nome, não vai. Proponho apenas uma adequação. "Freguesia" é vulgar e "O" é apenas a décima quinta letra do alfabeto. A mudança, necessária, salta aos olhos: a partir de agora, chamaremos o sítio de Clientela do A. E a Moóca? Tão simpática e com nominho tão esquisito. Vamos propor que passe a ser Moolegal, rejuvenescendo a região. O Brás tem de deixar de ser tão provinciano. Será Euró. Mais chique e cosmopolita. Há nomes que remetem a situações incômodas ou desagradáveis, por vezes constrangedoras. Por que chamar o bairro de Saúde? Vamos chamá-lo de Tim-tim, para deixar claro que não nos referimos à acepção hospitalar da palavra. Analogamente, por que dar o nome ao nosso centro máximo da gastronomia de Bexiga? Pâncreas é muito mais apropriado. "Vamos comer um macarrão lá no Pâncreas?". Digestivo, como se vê. E, falando em saúde, não podemos esquecer do bucólico bairro da Previdência, com suas casas e árvores acolhedoras. Progredirá, com nome tão retrógrado? Claro que não. Precisa se chamar, no mínimo, Golden Cross. "Lúcia, estou pensando em me mudar, vou procurar um bangalô em Golden Cross". Fino, não é? Mais um lugar que toca no assunto: Socorro. Isso é lá nome de bairro? Coisa mais alarmista! Ainda mais ali no sul da capital, onde se deve acalmar os ânimos, e não acirrá-los. Sugiro convocarmos o Gomes da Oboré para organizar um plebiscito no local e decidir se, de Socorro, mudaremos para Tobém, Tolegal ou Calmaí Mano. Mas o caso mais sério de nome equivocado é o daquele lugar onde estão alguns dos prédios e sobrenomes mais caros da cidade, o lugar onde 1 por andar é o padrão pobrinho, o médio é apartamento ocupar três andares, com piscina no terraço. Semi-olímpica. Pois como se chama o bairro? Vila Nova Conceição! Vila? Nova? Conceição?? Por favor! Granfino não mora em vila, prefere antigüidade a coisa nova e não tem Conceição, tem no mínimo Jarbas. Ou melhor: Alfred. Vamos mudar tudo. A partir de agora, o lugar vai se chamar Village Antique Alfred. Funciona em inglês e francês e é muito mais apropriado, muito mais daslu. Por fim, é preciso abordar o tema mais delicado. Não incomoda a você o nome da cidade? Sinceramente, abrindo o coração: São Paulo? Não se engane, é por isso, por causa do nome, que somos chamados de túmulo do samba. Jamais, com esse nome de santo, ainda por cima romano, conseguiremos ter carnaval, sambódromo, mulatas rebolantes e globelezas como as do Rio. Cogitei, inicialmente, mudar o nome da cidade para "Paulo", uma coisa mais laica. Mas é um nome tão comum e tão pouco musical. Pensei então: o que o Gomes da Oboré faria? Bendita inspiração! Eureca! A partir de agora, São Paulo assume seu destino de glória e passa a se chamar Paulo Vanzolini. Não, não precisa me agradecer. | 3.6.05
Para animar o fim-se-semana, um sonetinho. Diferente, alíás, por colocar uma situação quase insana, dois personagens neuróticos, um desfecho com cara de thriller. É por essas e outras que eu gosto de escrever. Soneto à mulher perto demais (falta uma citação de Poe) Ela me olha aflita, eu a acolho. Ela ainda me fita, já em meus braços; sei o que procura o rabo do olho: ela sabe que alguém lhe segue os passos. Eu lhe ofereço a proteção amiga de um abraço firme, de dois conselhos, menciono uma piada meio antiga, tento tirar-lhe os ares sobrancelhos. Mas ela sabe que há alguém que a encara, sente no ar o olhar, já percebeu, e me pergunta o que é que ele prepara. Faço parecer que ela enlouqueceu, enquanto oculto a minha própria cara, a cara de quem a persegue: eu. | 2.6.05
Fragmento de "O Preço do Peixe", 6 Bem antes da popularização de Orlando e de Canal Street, no tempo em que se fazia escala em Dacar para pousar em Paris, e as senhoras de boa família falavam francês, ela encerrava uma temporada em Nova York. Senhora da melhor sociedade paulistana, quase avó, resolve ir a uma das boas lojas da cidade para comprar os últimos presentes. Quando o vendedor se aproxima com seu "may I help you", ela devolve o que sabe: AI-DONTS-PI-QUINGLISH. Até aí, pouca novidade, em lugar tão cosmopolita. Ela então continua: -- Por isso, vou falar beeeeeem deeeevaaaaagaaaaar. Acompanha a frase com gestos muito precisos. O vendedor tenta não mudar de expressão. -- Eeeeeeeuuuuu... Bate os dois indicadores no peito, ele arregala os olhos, tenta buscar algum significado naquilo. -- ...teeeeenhooooo... Ele, paralisado. -- ... trêêêêssss... Ela agita três dedos, isso ele entende. Três o que, meu Deus? -- ...gêêêêênnnnnnn-rroooss. Geléia, mangueira, ele tenta buscar uma pista no que ela fala, montar um quebra-cabeça. Ela segue didaticamente ajudando com as mãos. -- Um é aaaaaalllllll-tô. Todo dedão? -- O outro, maaaisss-ooouuuu-mênos. Camundongos-coruja-ameaça? Ela baixa um pouco mais a mão, palma para baixo. -- E o outro, baaaaai-xiiiiiiin-nhô. Compre-lustro-bocejo. O que essa mulher quer? Ela faz uma pausa, sorri e conclui, abrindo os braços com estilo: -- Cashmere para todos! Na volta a São Paulo, o suéter do genro baixinho acabou ficando grande e o marido nem chegou a notar sua fluência em inglês. | 1.6.05
Ouvi um pedaço da entrevista. Só um pedaço, na CBN, rádio do carro, trajeto curto, humor matinal. O entrevistado, com voz típica de presidente de associação de amigos, falava da Vila Buarque. Eu, que adoro a Vila Buarque, aumentei o volume e prestei atenção. Quem sabe ele falasse, finalmente, de um movimento amplo pela dinamitação do Minhocão, medida que São Paulo pede com a máxima urgência? Quem sabe fosse lembrar a velha Norton, a agência onde eu mais gostei de trabalhar? Do saudoso Parreirinha, da Sociologia e Política, do SESC Vilanova, ele falou, bem como dos prédios da Santa Casa e do Mackenzie (este, para mim, já não é Vila Buarque, em todo caso...), duas das nossas três grandes edificações em alvenaria aparente -- a outra é a Pinacoteca, no bairro da Luz. Esqueceu o La Licorne, mas falou, como não poderia deixar de falar, do abandono do bairro, do pouco caso a que vinha sendo relegado aquele pedaço antes tão aprazível da cidade, a ponto de as paredes cegas dos edifícios não atraírem mais a sanha dos publicitários, hoje pouco afeitos a colocar suas empenas em lugar tão desanimado. O cara falava, falava -- e nada da dinamite no Minhocão --, falava de gente famosa que havia morado, trabalhado, estudado ou mesmo apenas passeado por ali. Mencionou, entre tantos, até o Chico Buarque de Holanda, que, segundo ele, gostava de comer bauru no Ponto Chic e estudava na FAU velha, ainda ali na antiga mansão dos Penteado, na rua Maranhão (epa, a Vila Buarque do cara já estava quase do tamanho de Campinas!). Bem, amigo, fala logo da bomba no elevado, estou chegando no escritório e até agora só blá-blá-blá. -- É por isso, Pioto -- diz ele ao repórter --, que começamos esse movimento, e não vamos parar até mudar as coisas por aqui, até recuperar a imagem da Vila Buarque. Oba! Só podia ser a dinamite, o monstrengo posto abaixo, como uma espécie de muro de Berlim a levar em sua queda, não o stalinismo, mas a cracolândia e o malufismo que lhe deu origem, num só "bum!". O Pioto perguntou ainda quais seriam os próximos passos. -- Ah, um plebiscito. Que líder! Que democrata! Qual é o nome dele? Onde é que eu voto? Não moro na Vila Buarque, mas meu amor pelo bairro me dá uma espécie de usucapião de cidadania, uma carta branca para ir lá dizer sim. Sim para a derrubada do Minhocão! -- Sim, Pioto, só um plebiscito para referendar uma mudança tão importante. E? -- Tenho certeza, Pioto, de que todo o povo consagrará nossa proposta, que vai fazer renascer o bairro. Vamos mudar o nome de Vila Buarque para Chico Buarque. Nisso, cheguei ao escritório, o dia puxado me chamava, nem tive tempo de ouvir o nome do entrevistado para tentar descobrir-lhe o e-mail. Pena. Eu tinha ótimas sugestões para enviar a ele, inclusive umas propostas muito interessantes relacionadas a mudanças no nome de sua veneranda mãe. | |