dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


E-mail

30.5.05

Fragmento de "O Preço do Peixe", 5*

Ia bem, a aula, como era mais comum lá no começo dos anos 50. Naquela sala, que ficava no lado ensolarado de uma das escolas secundárias mais respeitadas de São Paulo -- e era pública, acredite se quiser --, o professor dava sua geografia de outros tempos, que encantava justamente por ser, avant-la-lètre, multidisciplinar. Falava das bacias hidrográficas e temperava logo com os hábitos ribeirinhos. Descrevia o relevo da África Central e atiçava a imaginação de todos com os bichos da savana. Desenhava os movimentos dos ventos e logo vinha com uma fofoca do mistral.

Nesse dia, ele estava falando da Europa e de suas várias e diferentes regiões, o que era, para muitos alunos, uma revelação, algo comum nas aulas do velho professor, que, ao falar das terras, nunca deixava de falar das gentes sobre elas.

-- Um dos povos de maior influência em toda a Europa é o formado pelos eslavos. Do Mar do Norte aos Bálcãs, da Europa Central aos Urais, em diversas regiões do velho continente nós encontramos povos eslavos.

Fazendo uma pausa, após um olhar panorâmico pela classe, completou, com um gesto largo:

-- Aqui mesmo, vejam só: a nossa Marta é uma típica eslava.

Toda a classe olhou para a colega, agora sorridente. Tempo apenas suficiente para que, lá do fundo, se ouvisse o Joãozinho de plantão sentenciar:

-- Puxa vida! E eu estava de malas prontas para a Eslávia...

As gargalhadas mostraram ao velho professor que pouco adiantaria mandar o menino para a diretoria.

* "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais.



|
27.5.05

Publicitários são seres versados e fluentes em eufemismos. "Mídia exterior" é apenas um exemplo.

Este termo é um grande tapete, para baixo do qual se varre todo o lixo formado por placas, plaquinhas, placonas, back-lights, front-lights, outdoors, bus-doors e todo o tipo de doors que você possa imaginar. Sem contar as "paredes cegas" de prédios, com aquele anúncios gigantescos. Como chamaríamos aquilo? "Wall-door"? "Building-door"? "Paredoor"? Bom, a criatividade dos caras já deve ter inventado alguma coisa. Isso me lembra um americano com quem trabalhei em São Paulo que se divertia com duas palavrinhas, fruto de nossa criatividade sem fronteiras: "moto-boy" e "data-show". Essa mesma criatividade, mãe do "bus-door", inventou o nome mais comportado "mídia exterior", para vestir melhor a propaganda fora de lugar.

Numa cidade como São Paulo, estamos sujeitos a barbaridades no descontrole do uso do espaço urbano para propaganda. Da minha janela no escritório, vejo nada menos do que 19 (de-ze-no-ve) placas dessas, outdoors, back-lights, front-lights e similares. Isto sem contar as fachadas e sinalizações comerciais -- falo só de propaganda strictu sensu.

Agora, sob nova administração, o município de São Paulo volta a levantar o debate. Nas últimas gestões, foi só isso: debate no início do mandato do prefeito e da legislatura da câmara dos vereadores, e, logo em seguida, tome placas, plaquinhas, placonas, back-lights, front-lights, outdoors, bus-doors e todo o tipo de doors. Até quando, é só o que eu pergunto? Será possível que os grandes anunciantes e as grandes agências, com suas instituições (ABAP, ABA, ABP, abescambau, sem falar em FIESP, Associações Comerciais, Federação do Comércio e outras tantas) não poderiam começar a tomar providências e agir como entes civilizatórios, em vez de ficarem como que aproveitando a situação, na linha do "todo mundo faz, pô."? Se esperarmos a digníssima câmara dos vereadores tomar alguma providência, vamos ver alguma lei permitindo que anunciem na nossa roupa, no nosso muro, no carrinho do bebê. Sem a câmara, pouco pode a prefeitura fazer. No entanto, com pressão social bem calibrada, a chance de sensibilizar os vereadores pode aumentar.

Que tal, senhores anunciantes, deixar de comprar placas, plaquinhas, placonas, back-lights, front-lights, outdoors, bus-doors e todo o tipo de doors? Que tal propor, pelo lado de vocês, já que o lado dos poderes públicos está exaurido, uma cidade melhor? Que tal combinar direitinho e parar de gritar, todos ao mesmo tempo, em nome de uma serenidade visual que melhorará tanto a cidade? Nossos netos agradecerão. Cá entre nós: os avós deles também.



|
24.5.05

Somos todos -- isso mesmo, todos -- uns bundões.

A começar por mim, aqui sentado a escrever, usando as sobras, os restolhos de liberdade de expressão que escaparam da gamela. Não, não tente sair de fininho, você que chegou aqui por acidente, procurando no Yahoo! por "nomes de cães" ou "Cyro Monteiro": você é tão bundão quanto eu. O acadêmico, o editor, o ex-presidente, o ministro, os robertos, os bispos, meus irmãos, meus amigos, todos nós somos bun-dões.

Sim, nós estamos vendo, inertes, um juiz de Goiânia impor ao escritor Fernando Morais uma ilegal, inconstitucional e estapafúrdia lei do silêncio. Em ação movida pelo deputado da UDR Ronaldo Caiado (qual é mesmo o partido dele?), o juiz determinou que : 1) todos os exemplares do livro de Morais, "Na Toca dos Leões", sejam retirados das livrarias de todo o Brasil; 2) o autor está proibido de falar à imprensa, também de todo o Brasil. E cumpra-se!

Como assim?

Desde logo, escapa da categoria bundão -- e me afunda mais nela -- o próprio Fernando Morais, que cagou para a sentença e declarou à rádio CBN, alto e bom som, que, se ficasse quieto e cumprisse esse absurdo, não poderia olhar para sua filha no dia seguinte.

Mas como pode o tal juiz ser tão escandalosamente contra princípios básicos do direito e da própria lei brasileira, e essa sentença se manter? É o que eu chamaria de "direito trapaça" ou "jus sacaneandi". É simples: você dá lá uma sentença, sem se importar muito com bom senso ou rudimentos da lei. Como o recurso para derrubar a barbaridade corre em passo de tartaruga trípede, o pobre do sentenciado -- que eu prefiro chamar de vítima, cometendo aqui um pecadilho jurídico, mas um atalho semântico -- tem de sofrer as decorrências da tal "liminar" por semanas ou meses -- nada parecido com a idéia de "ad limine".

É. Há um problema objetivo: a lentidão do judiciário. Mas aí, eu me espreguiço, você se espreguiça e um de nós profere a frase: "é foda!" E é só. Nenhum de nós sai à rua, nenhum de nós grita, nenhum de nós tenta dar limite a esses caras. Ora, se foi assim no plano collor, quando enfiaram a mão no bolso de todos, e todo mundo reclamou só no almoço de domingo, por que acreditar que iríamos sair da condição crônica de bundões e propor algum tipo de protesto? Ok, é possível que alguns revoltados mandem à sua lista de e-mail aquele poema erroneamente atribuído ao Brecht, que fala qualquer coisa como "primeiro eles vêm e pegam a flor do seu jardim". Cabeças balançando, "um absurdo" dito entre dentes.

Caralho, que mais? Até quando vamos esticar a nossa imensa capacidade de agüentar humilhação e abuso? Esse juiz fez o que fez porque, ao fim e ao cabo, sai bem na foto: bem aceito, bem pago, bem aposentado e, como bem lhe convém, bem esquecido. Por quem? Por nós, bundões, que subsidiamos caras como ele. Sabe por que? Porque nós somos iguais a ele, só não lemos o papelzinho com as regras do joguinho até o fim.

Não somos vítimas. Somos bundões.



|
23.5.05

Soneto sem sei

Queria ter nascido japonês.
Queria enxergar letras nas figuras,
como eles, dominar as formas puras,
como eles, esperar a minha vez.

Tivesse eu vindo do extremo oriente,
tivesse trilhado as sendas de Oku,
talvez soubesse ser mais paciente,
talvez lograsse sair deste iglu.

Porém sozinho prossigo ocidente,
desagregando o que era integral,
desintegrando o antes consistente.

Se, dual, divorcio o bem e o mal
qual recomenda a lógica vigente,
é por ser branco, a bombordo e banal.



|
20.5.05

Fui lá aos Pensamentos Achados e Perdidos e tive a grata surpresa de ver que o Bruno havia abordado o mesmo assunto de que eu falei ontem, só que dois dias antes e, é claro, com um texto muito mais bem cuidado. Isto era de se esperar, afinal o Bruno sabe e vem escrevendo cada vez mais e melhor. Já os dois dias antes se devem a um fato mais prosaico: eu leio o Estado e o Bruno lê a Folha. Eu li a notícia do pianista no dia 18, ele leu no dia 17. Tá difícil continuar a ler o Estadão.

***

Reclamei, dois posts abaixo, da falta que sinto de coisas boas que eu tinha na hoje gasta Folha de S.Paulo, e qual não é a minha surpresa quando chega, como se fosse um doce farnel em uma cesta de palha, com uma jarra de limonada gelada, um e-mail da querida Anna com o último artigo do Contardo Calligaris, só para me saciar a saudade. Por enquanto, apenas do Contardo, mas já foi uma delícia.

***

Quando Marta Suplicy estava para completar um ano de governo em São Paulo, um leitor escreveu uma carta à Folha reclamando da falta de resultados na gestão municipal. Mandei então outra carta ao jornal -- que a publicou, quem tiver saco a achará -- dizendo que era extremamente injusto cobrar grandes resultados em tão pouco tempo, ainda mais para quem estava sucedendo uma administração desastrosa como havia sido a de Pitta. É por isso que me sinto aqui totalmente à vontade para dizer que não dá para negar um voto de confiança ao prefeito José Serra, que pegou um rojão igual ou pior do que o de Marta -- para ser justo, parte do rojão se deve ao estilo Marta, parte a antecede -- e está trabalhando feito um camelo, além de impor um ritmo igual a seus pares e assessores diretos. Ou seja: está fazendo o que deve fazer e, muitas vezes, mais do que parecia poder. É por isso que eu acho que esta gestão vai ser lembrada por São Paulo como foram as de Faria Lima e Olavo Setúbal.

***

Falando no assunto, aproveito para lamentar de novo: o que nós vamos conseguir, PT e PSDB, nos transformando em dois pólos opostos, cada um atraindo metade das cracas da política rastaqüera e, nas regras dela, disputando o poder? Eu repito, feito um imbecil ingênuo e com problemas de aprendizado: amigos do PT, vocês têm amigos filiados ao PP? E ao PL? E ao PTB? Não, né? Eu tenho pelo menos metade dos meus amigos simpatizantes do PT, alguns filiados. Meus amigos do PT têm um monte de amigos tucanos, como eu. Será que não dá para parar e conversar? Afinal, se um dia desses (toc, toc, toc) a direita resolve voltar por meios abruptos, a gente vai ter de se entender na marra. É melhor que vejamos antes o muito que temos em comum e tentemos compor. Afinal, quem consegue compor com o vice José Alencar e o ex-vice José Sarney deve ter aprendido alguma coisa nesse sentido.

***

Márcio, veja lá o que vai responder, há mulheres e crianças na sala.



|
19.5.05

Não ia escrever hoje, o tempo no trabalho está absurdamente curto. Mas não pude deixar de comentar uma notícia que li hoje no Estadão. Um homem foi encontrado vagando na praia, na ilha de Sheppey, condado de Kent, Inglaterra. Vestia um terno encharcado e, quando abordado, não foi capaz de dizer nada. Levado a um hospital, manteve-se em silêncio absoluto. Alguém teve a idéia de lhe dar lápis e papel, e ele desenhou um piano de cauda. Depois de uns dias, puseram-no junto a um piano, e ele começou a tocar com completa desenvoltura e em vários estilos. E é só assim que ele se expressa. Que tipo de choque, surpresa, trauma, leva um homem a esse estado? Que tipo de força sobrevive, que ainda permite que ele se expresse por música? Lembrei-me de um filme, K-Pax, em que Kevin Spacey vive um homem misterioso que é internado em um hospital psiquiátrico, e que garante vir de um planeta distante. Tive a mesma emoção neste filme que tive ao ler a notícia. Me fascina (acho que como a todo mundo) a loucura. Me assusta e me mobiliza esta espécie de morfina que ela representa, uma represa para a dor, que acaba represando outras sensações e sentimentos e, assim, remodelando a razão. O fato de ser ele anônimo só reforça o temor e o fascínio que nos causa a condição de anônima que reveste a dor ela mesma.



|
18.5.05

Troquei de jornal, depois de décadas lendo a Folha. Fui para o Estadão. Parecia melhor. Mostrou, pelo menos, mais conteúdo -- refiro-me a quantidade mesmo -- e uma vontade de mudar, com cadernos novos, visual mais moderno etc. Mas o mais atraente era o aparente compromisso com qualidade que a Folha parecia ter abandonado, lembrando cada vez mais, em suas manchetes, o extinto Notícias Populares, o jornal trash da família Frias.

Mudo dos Frias aos Mesquita e acho o que? Um jornal que quer ser contemporâneo, inovador, interessante como queria ser a Folha dos anos 80. Na visão panorâmica, parecia bom. Mas aí, chega a hora de ler. Bela viola. Ontem, por exemplo, depois de um dia extenuante, fui ler o jornal, já quase de madrugada. Paro numa matéria assinada por Beatriz Coelho Silva, do Rio, sobre a apresentação da maquete de uma escultura do arquiteto Oscar Niemeyer, que será instalada à beira do rio Sena, em Paris. Lá pelas tantas, tempos de Ano Brasil/França, a jornalista menciona, sem medo aparente de ser feliz, que Niemeyer faria ainda um monumento a Santos Dumont, "cujo centenário de nascimento se comemora este ano".

Nem vou fazer a piadinha óbvia, "ele já voava antes de nascer, rá, rá, rá". Prefiro voltar para a Folha assim que vencer a assinatura do Estadão. Ali, não sou amigo do rei, mas tenho os quadrinhos que eu quero, as melhores palavras cruzadas e, uma vez por semana, o Contardo Caligaris.

Pensando bem, dá pra assinar só o Contardo Caligaris?



|
17.5.05

Ao contrário do que ocorre no Rio de Janeiro, o paulistano parece não ter muito apreço pelo centro da sua cidade. Todo mundo acha o centro feio, mal-cuidado, tão perigoso quanto o Bronx dos filmes e, podendo, não vai lá. Mas isso parece estar mudando -- e não há como negar méritos à atabalhoada gestão de dona Marta Smith de Vasconcellos pelas melhoras visíveis, sem esquecer ações decisivas do governo do Estado e da iniciativa privada.

Pela segunda vez em um mês, fui passear no centro. De metrô, como se estivesse em Nova York. A primeira visita foi, com minha caçula querida, ao Museu de Arte Sacra, até onde eu sei, o prédio público mais antigo ainda em pé nesta cidade tão auto-destrutiva. Me surpreendi primeiro com ver tudo funcionando como um relógio. Depois, com o entusiasmo dos funcionários, da senhorinha sexagenária que nos vendeu os tickets ao jovem emocionado e orgulhoso que nos apresentou o enorme presépio italiano, que antes morava de favor no Ibirapuera, e agora está lá, iluminado, pomposo, em dia de festa, mesmo. Gente que visivelmente gosta do que faz e, por isso, faz bem.

A segunda incursão, em companhia de M., linda como sempre (e mais do que nunca), foi mais variada. Começou com a exposição do Henry Moore, na Pinacoteca. Completa, digna mesmo de casas maiores, traz um panorama do trabalho do escultor inglês que nos permite ver o todo de uma obra que, além de sempre inovadora, prima por uma coerência estética que, na arte moderna ou, mais largamente, na arte do século 20 para cá, não é comum ver.

Visto o Henry Moore e um pouco do acervo do museu, fomos ao café, no térreo, hoje integrado ao Parque da Luz. O lugar é uma prova básica de que o problema de recuperar a cidade passa mais por vontade política e discernimento do que por quantias para lá de polpudas. Passear pelo Parque da Luz nos dá o prazer de ver jaqueiras frutificando, coretos à espera paciente de alguém que fale e obras de arte à vontade, de Arcangelo Ianelli a Marcelo Nitsche, formando um delicioso jardim de esculturas.

Daí, é escolher. Da entrada da frente do Parque, vai-se à estação da Luz, uma construção de 1901, toda feita com tijolos, metais e arquitetura vindos da Inglaterra de navio. Já pelo portão do fundo, chegamos ao Bom Retiro, o bairro que teve mudado o perfil de seus habitantes, das moças que varejavam carinho e lhe deram o nome, até a comunidade judaica que lhe deu a personalidade, e, então, aos coreanos de hoje e sua escrita diferente de tudo o que jamais lembramos como alfabeto.

É um bairro que tem casinhas geminadas a poucos metros da majestosa praça onde está pousado o prédio antigo da Escola Politécnica. Na rua Três Rios, estão lá, frente a frente, as Oficinas Culturais Oswald de Andrade e o Colégio Santa Inês, bem conservados, este último mantendo um bafejo art-nouveau, embora sem romper a simetria herdada da tradição clássica.

Embora hoje coreana, com lojas de discos, revistas, comidas daquele pedaço do oriente, além de dezenas de jovens alegres de olhos puxados e mochilas de estudante às costas -- e era sábado, veja só --, a rua Três Rios ainda traz lá o velho TAIB, um teatro que marcou época, nos anos de chumbo e nos da "distensão lenta e gradual" que os seguiram, bancado pela comunidade judaica -- sempre uma usina de arte e cultura nos lugares onde se estabelece.

Foi num armazém de um comerciante remanescente da velha comunidade que consegui me informar e achar o objetivo final da incursão: o Acrópolis, restaurante de quase meio século que, dizem os entendidos, serve a melhor comida grega que se pode achar em São Paulo. M. e eu nos regalamos dividindo um só prato, escolhido lá ao pé da cozinha, orientados pelo cozinheiro nordestino orgulhoso de suas proezas helênicas. Não sou o Josimar Mello para fazer uma análise comparativa competente da comida. Atenho-me a garantir que o prazer que aquele prato rústico, um pato ensopado com batata cozida e arroz -- claro -- à grega, me trouxe é de guardar na memória e querer voltar. À falta de um vinho grego -- a simpática garçonete mencionou problemas com a importação -- tomei meia garrafinha de Santa Helena. No fim, a conta não ia além de duas estrelas.

De volta à praça, indo para a estação do metrô, ainda pudemos ver, nos bares daquele fim de tarde, alegres mesas de homens morenos, cuja fisionomia inconfundível mostrava serem de algum país andino. São a mão-de-obra dos coreanos, e os sucederão, como estes sucederam os judeus, que, por sua vez, vieram depois das moças do mercado do amor. É assim a vida da cidade grande.

De metrô, voltamos ao nosso mundo comum. Descobrimos, ou redescobrimos, que podemos achar em São Paulo encantos que pareciam só existir no Rio e na Europa (exatamente como achavam nossos bisavós). Eu recomendo essa redescoberta. A Pinacoteca e o Bom Retiro mostram que é possível conciliar desenvolvimento e evolução com conservação. É uma questão de combinar inteligência, respeito e amor à cidade. São Paulo merece.



|
16.5.05

Eu achei que abril estava quase acabando, que maio ia enfim começar. Nada. Lá vem um anúncio de cerveja na contracapa da Veja estragar tudo. Sim, fossem tempos normais, eu nem veria a bobagem -- o mundo anda. Mas não. Logo neste tempo incruado, este abril que não passa nem com a terceira semana de maio, vejo lá a peça da Bohemia, vendendo três produtos. Nem discuto a idéia de extensão de linha, às vezes é boa, às vezes não é. Discuto o texto. Cunha lá: "Você pode escolher a Bohemia Pilsen, a 1a. (sic) cerveja do Brasil, feita com uma receita exclusiva e secreta desde 1853". Exclusiva e secreta?! Exclusiva e secreta é receita de coca-cola. Exclusiva e secreta é receita de agrotóxico. Exclusiva e secreta é a receita bancária do tal diretor dos Correios.

Receita de cerveja boa é água + cevada + malte + lúpulo. Na Alemanha, é lei: se tiver qualquer coisa a mais ou a menos, não é cerveja, náo pode pôr esse nome no rótulo. Para usar os recursos "criativos" do segmento, diria que receita secreta e cerveja premium são coisas tão díspares quanto a Roberta Close e a Luana Piovani. Espero que a minha Bavária continue optando pela solução mais simples e que, desde o século 19, não tem em sua receita nenhum segredo a esconder ou acomodar.

Ô, maio, começa!



|
13.5.05

Dias de abril. Neste ano, este mês não quer passar. Xô, abril, vê a data ali em cima!

***

Juros: vão subir. Henrique Meirelles: sigilo bancário é quebrado. Aloízio Mercadante: projeto de lei de aumento dos funcionários do legislativo, relatado por ele, que é o líder do governo no senado, é vetado pelo presidente da república, isto é, pelo governo que ele lidera. Genoino: "maior feito do governo petista no ano foi romper com o FMI (?)".

***

Eu estou um pouco cansado de ser governado por essa mistura esquisita que habita hoje os palácios de Brasília. Também estou cansado de falar com jeitinho, para pessoas que eu adoro, do meu ideário social-democrata, embora não o conheça com a mesma profundidade com que alguns progressistas à minha volta conhecem o ideário socialista que, parece, rege o PT, o governo Lula, o Ciro Gomes, o Aldo Rebelo, o ministro da pesca, o Duda Mendonça, o Zeca do PT, e nos levará à redenção. Na verdade, sou tão tosco em meu ideário que não consigo ver a diferença entre o que aqueles caras do mal do PSDB, em quem eu acabo votando por alguma espécie de tara, propõem, e o que o atual governo socialista parece propor.

Sai no Estadão o Zé Dirceu dizendo que gente como eu é reacionária e gente como ele e os amigos é progressista. Mas no mesmo jornal, no dia seguinte, sai lá o Celso Ming (deve ser agente da reação, ainda mais com esse nome de vilão de filme B) ecoando a pergunta que não quer calar: como assim juros altos e estado gastão? "Ah", responderia o Dirceu, "isso é coisa dos retrógrados que não querem admitir a chegada do novo tempo".

Estou com o saco cada vez mais cheio desse governo híbrido e incompetente, que se atreve a me chamar de reacionário, e que ainda não aprendeu a lição de casa mais rastaqüera: faz todo tipo de negociação sórdida com a base parlamentar e, ainda assim, não consegue a maioria no final. Uma das (poucas) vantagens de ter mais de 40 é ter alguma visão sobre o tempo, lá do belvedere dos cabelos brancos. O governo do Lula parece cada vez mais com o do Sarney. Espero que acabe melhor.

***

Azedo? Eu?

***

Sim, azedo. Assim, é melhor aplicar o azedume completo e tentar não perder a ternura jamais no fim de semana. Percebo, para meu desencanto, que a turma do preconceito, a que analfabeticamente não consegue ver o significado histórico de um operário chegar a presidente do Brasil, aquela turma que não vê nenhum problema na concentração de renda -- afinal, seus fornecedores de blindagem, seus seguranças e seus shopping centers são todos de primeira linha -- agora gosta de FHC (como gostou do Lula na eleição passada, ou você não se lembra do sorriso alvar da revolucionária Eleonora Mendes Caldeira, outrora dos olhos d'água?). O tipo de elogio que fazem a um e de crítica que fazem a outro é de vomitar amarelo. Basta conferir a comunidade "Volta FHC!" no Orkut. O FHC deles não é o mesmo que o meu.

***

Eu não gosto do governo Lula. Eu não gosto de quem não gosta do governo Lula. Ah, acaba, abril!



|
10.5.05

Mini 63, um pouco à maneira de Jacques Tati

Era tudo muito grande. Papai tinha dito que era diferente, e para tomarmos cuidado. Tudo largo, muito largo. Muito longe, o mar. Papai apertava a direção do carro com muito mais força. Talvez fosse o mar, mais que o tamanho da cidade, a lhe meter algum medo. A mim, metia, mesmo longe. Os carros passavam pelo nosso, papai apertava a direção, mamãe a perguntar aondes. Do banco de trás, parecia bonito. Era diferente. Papai ia ficando mais à vontade. Já falava mal do Negrão de Lima, quase esquecendo o Ademar.



|
9.5.05

Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 4

Foram ao cinema. Quatro amigos de longa data. A proposta tinha sido de A. e o grande encanto era o horário: sessão das 6, salinha de cinema da Joaquim Floriano, em plena sexta-feira. Provavelmente, fazia uma década que nenhum dos quatro saía do trabalho numa sexta-feira antes das oito da noite.

Era uma estréia, um filme de guerra cheio de nazistas e bombas e tiros. Um pouco mais pesado do que esperavam, mas nenhum dos três rapazes -- A. era a única mulher do pequeno grupo -- poderia admitir um eventual abalo emocional. Foi de C. a idéia de jantar em uma casa próxima, especializada em bons hambúrgueres e bom chopp. L. e J. aceitaram na hora. A. -- garotas, garotas -- achou a associação do lugar com um filme alemão de guerra um pouco indigesta. Mas topou, com a habitual sabedoria feminina.

Sentaram à mesa já famintos e ainda excitados com a idéia de ter ido ao cinema em pleno horário de trabalho e da economia do país não ter sentido o impacto disso. C. sugeriu que, fiéis ao estilo da casa, pedissem, além de chopp, steinhäger, o forte destilado alemão que parece ter sido feito só para anteceder chopps gelados. A. preferiu uma coca-cola -- garotas -- e L. rapidamente acionou o garçom.

-- Por favor, três chopps, uma coca-cola...
-- Sim?
-- ... e três steinhäger -- puxou da garganta sua melhor pronúncia alemã.
-- ?
-- Três steinhäger. Sh-táin-ê-ga.

J. não resistiu a ajudar o amigo, cujo alemão parecia não se fazer entender.

-- Sh-tain-êga, amigo, shh-taaaiinnn-ê-ghhha. Não tem??

Incrível, uma casa daquelas, tão fina e cheia de chopp, como é que podia não ter steinhäger? Já iam colocar a questão em debate, mesmo com os sinais de preocupação de A., quando C., que não só tinha tido a idéia, mas era o único na mesa que falava alemão, esclareceu a coisa para o garçom:

-- A gente quer três estanhégue.
-- Ah, bom -- entendeu o solícito rapaz, que, em minutos trouxe a coca-cola -- garotas --, os chopps e três calicezinhos do destilado cristalino.

Tomaram o primeiro e mais forte gole, logo acompanhado do chopp apaziguador. Durante os segundos de silêncio, J. e L. digeriram a admiração pela espantosa proficiência de C. na língua de Goethe. Logo A. puxou o assunto do filme e emendou com o suposto novo namoro de um amigo comum, deslocando o foco do idioma dos germanos para o claro e bom português. Mas depois da sobremesa, sem que um e outro soubessem, J. e L. ainda gastaram algumas horas a tentar entender e reproduzir a peculiar pronúncia tedesca exibida pelo amigo. Estanhégue seria da Bavária ou da Renânia**?

* "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais.
** Danke schoen, herr Pecus.



|
6.5.05

Achei que ia ser uma sexta-feira como tantas, de publicar um texto leve e dar bom fim-de-semana a todos. Mantenho os votos, mas não posso deixar de registrar aqui um momento importante que vivi ontem. Fui à festa de inauguração da nova sede da Associação Rodrigo Mendes. Saí de lá com a certeza de que vi nascer uma referência nova ao relacionamento da sociedade com seus desiguais.

Rodrigo Mendes é um cara que está lá pelos trinta e dois, trinta e três anos de idade, inteligente, charmoso, com uma conversa envolvente, um senso de liderança raro e uma bem cultivada seara de amigos. Além de tudo, é um homem com projeto de vida -- para si mesmo, como muitos de nós, e para o mundo a sua volta. Esse homem de muitas qualidades tem uma dificuldade a acrescentar às tarefas que se propôs e cumpre: Rodrigo é tetraplégico, conseqüência de um tiro que levou em uma tentativa de assalto, quando tinha dezoito anos.

Pare já: nem tente pensar em melodrama.

Continuando: Rodrigo, que tinha projetos aos dezoito anos, foi obrigado a mudar. Preferiu mudar os caminhos, e não os projetos. Estes, ainda croquis, tinham por escopo contribuir no esforço geral de melhorar o mundo. Antes do acidente, queria ser médico. Depois, precisou encontrar novas possibilidades. Os novos limites eram bastante desafiadores. Como adaptá-los a um projeto de vida?

Começou por entendê-los. Uma tetraplegia severa oferece poucas alternativas de movimento. Entre elas, as dos músculos de ação voluntária mais sutis e complexos do corpo: os que comandam os movimentos da face e o hipoglosso, conjunto de músculos que compõe a língua. "Como é bom poder tocar um instrumento", disse a canção. Rodrigo descobriu que poderia manejar um pincel e pintar. Estabeleceu, assim, um epicentro. A partir daí, não demorou a retomar seu projeto de vida, sob uma ótica renovada.

Depois de descobrir que podia pintar, a ponto de fazer exposições bastante bem recebidas, Rodrigo descobriu que podia multiplicar sua experiência de superação. Mais do que isso, entendeu que estava aí o solo a cultivar para fazer vingar o que tinha em mente já nos tempos em que ia ser médico. Fez o que estava a seu alcance no momento: um cartaz. "Cursos de pintura com Rodrigo Mendes" ou algo parecido, que fez fixar em uma de suas exposições. Não tinha uma sala de aula, um curso estruturado, um método. Mas tinha uma idéia, uma boa idéia, e muita disposição de colocá-la na roda (quantas boas idéias nós temos, que se esvaem por pudores ou indecisões).

Com o cartaz, atraiu a atenção de um empresário, Armando Ferrentini, dono do jornal "Propaganda & Marketing". Ferrentini talvez tenha sido o primeiro a perceber que Rodrigo não tinha vindo ao mundo a passeio, e lhe deu o primeiro "coaching".

De lá para cá, Rodrigo fez valer sua competência e seus talentos. A competência talvez possa ser ilustrada pela graduação na FGV ou a atuação como consultor em uma gigante do setor, a multinacional Accenture. Os talentos aparecem vivos nas telas, mas acho que aparecem mais claramente no verbo. Conheço poucas pessoas que se expressam tão bem e que sejam tão convincentes ao defender posições.

A noite de ontem foi importante para mim. Primeiro, por ver Rodrigo mostrar uma imensa capacidade de trabalho e de aglutinação de pessoas e idéias. Depois, por ver esse potencial se concretizar em uma instituição que vai marcar os movimentos de inclusão de que tanto o Brasil precisa. Finalmente, por entender que há duas maneiras de encarar as dificuldades: a que nos soterra e a que nos fortalece. Na maior parte das vezes, a decisão é só nossa.



|
4.5.05

EX-LIBRIS DA TUGOSFERA

Continuo a corrente que vem lá de Portugal, com escala no Rio de Janeiro do Arlindo.

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

O meu seria "Memórias Póstumas de Brás Cubas", só para poder subir o tom de voz ao arrematar: "Não tive filhos. Não deixei a ninguém o legado da nossa miséria".

Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

Se bem entendo o sentido da palavra "apanhadinho", Capitu, quem mais?

Qual foi o último livro que compraste?

"Bandidos e Mocinhas", do Nelson Motta.

Qual o último livro que leste?

Depois de uma relação conturbada, "O Mundo Segundo Garp", de John Irving.

Que livro estás a ler?

"Maldita Guerra", de Francisco Doratioto, sobre a guerra do Paraguai, e "Crime and Punishment" de Dostoiévski, numa edição paper back da Penguin Books, que custou "oito-real" (mesmo!) na FNAC. Quero ver se não perco inteiramente o meu inglês por falta de uso e de grana para ter aulas.

Que livros (5) levaria para uma ilha deserta?

"Sagarana" e "Estas Histórias", de Guimarães Rosa
A "Odisséia", de Homero
"Os Irmãos Karamazóvi" de Dostoiévski
"A Cidade e as Serras", de Eça de Queiroz
"O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha", de Cervantes
"Dom Casmurro" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis
"Lolita", de Vladimir Nabokóv, para mim, um monumento.
"Tintim no Tibet", do Hergé.
Um Shakespeare, provavelmente o "Macbeth".
O Velho Testamento.

A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e por que?

Bruno Fiorentini, um leitor para quem o dia parece ter 36 horas.
Zé Geraldo, homem das artes, que lê e vê as figuras.
Luciana Mello, por ter sempre alguma coisa para contar.




|
2.5.05

Mini 62

Desceu a rua Augusta em direção ao centro. Estava ansiosa por revê-lo. Tanto tempo longe deveria ter levado embora alguns detalhes, escala, ele na verdade certamente seria menor do que ela imaginava agora. A calçada estava muito cheia de gente. Ela se sentia ainda fraca, e desviar da aglomeração a afligia e cansava. Parecia diferente a rua Augusta naquela tarde. Não era feriado, não havia festa, mas havia algo fora do comum. Caminhou os quarteirões que faltavam, foi ao encontro dele. Nada mais. Será que tinha esquecido o caminho? Seria um quarteirão ainda abaixo? Resolveu perguntar a um menino que passava apressado. Havia alguma coisa errada. Ele nunca tinha ouvido falar do Cine Marachá.



|