dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. |
31.3.05
| O consultor Cadu Lemos, amigo dileto, especialista em projetos de capacitação corporativa e, nas horas vagas, em charutos cubanos, entrou para o mundo dos blogs pela porta da frente. Seu Manifesto Corporativo promete. | 30.3.05
Sonetos, aí vai mais um. Gosto muito de fazer poesia assim, estruturada, metrificada, rimada. No fundo, não passa de temer o verso livre. Soneto da mulher que volta e vai A mulher que passou e sempre volta volta norte, sempre mexe a agulha; ao contrário de mim, vem leve e solta. Pouco se lhe dá, se acaso me empulha com promessas que, suponho, me faz ou com amostras do que me daria, se um dia chegasse a me ver capaz de merecer-lhe tanta regalia. A mulher que sempre volta não tem razão aparente para voltar, a não ser que o que a faça sentir bem seja bem a minha falta de ar, o peso que perco com seu vai-vem, os anos que se vão com seu negar. | 28.3.05
Des fabliaux contemporains (I)* Quero contar-vos uma história que há pouco se deu, e em paragens vizinhas, a menos de uma légua deste burgo. Estava o jovem Hugo a padecer de solidão, não aquela crônica, que acomete os velhos solteirões, as viúvas sem filhos ou os padres de pouca fé, mas a solidão intermitente dos indecisos, daqueles que ora se gabam, casanovas, ora reclamam da falta de um grande amor. Pois bem, numa sexta-feira à noite, bem depois do pôr-do-sol, Hugo percebeu que estava só. Nem vos preciso dizer que isto era fruto -- e ele sabia -- de seu desdém por companhias que se lhe ofereceram calorosas e a que ele, achando sempre que teria melhores, não dera a devida atenção. Em tempos como os de hoje, em que grassam telefones celulares e não faltam rapazes de boa vontade, a fila andou e Hugo viu-se sem quem se havia oferecido e sem quem ele presumia oferecer-se. Lançou-se, pois, ao telefone. Ah, mas era uma sexta-feira à noite, não havia ninguém que o atendesse. Já ia desistindo quando as últimas páginas do caderninho o lembraram de uma linda moça, senhorita V., a quem ele havia descumprido uma promessa, ou talvez nem isso, só uma expectativazinha. Ligou. Quatro toques. Uma voz não muito entusiasmada lhe diz "alô" e completa a frase com um ambíguo "quem é vivo sempre aparece". O jovem Hugo, senhor de si e aliviado por ter achado alguém, relata alguma saudade e propõe a srta. V. um jantarzinho, um cineminha, até teatro ele aceitaria. Ela recusa, educada e verossímil, pelo em cima da hora e por alguma obrigação familiar. Ele nem insiste, despede-se mais cortês do que de hábito -- afinal, quem sabe para a semana? Desliga, agora achando que a moça, mais cedo ou mais tarde -- mais cedo, por certo --, viria docemente ter a ele. De qualquer forma, sua sexta-feira estava arruinada: já se ia além das 9 e meia da noite e da letra W de sua agenda. Ligou a TV. Entretenimento básico, combinação de sanduíche e Discovery Channel. Toca o telefone. -- Oi, tudo bem com você? -- era a srta. V. -- Tudo maravilhoso! -- sentiu-se ganhando a loteria e resgatando o poder. -- Quer fazer alguma coisa? -- Puxa, quero muito. -- Então: eu estou com o Olavo, meu namorado, e a Dulce, prima dele. A gente vai a um forró e eu pensei que talvez você gostasse de ir também. O jovem Hugo, após um segundo de hesitação, preferiu ficar onde estava, dedicando-se ao muito que ainda tinha a aprender. Fosse este contador suficientemente hábil e fluente, traria em versos a moral da historieta. Que, no entanto, parece já mostrar-se de per si. (*) Para entender um pouco mais dessa nova modalidade ora inaugurada por aqui, leia a nota logo abaixo. Em tempo, para os exigentes da língua portuguesa: não resisti a colocar a última frase deste fabliau da forma como está. Entre a correção e a melodia (que, admita, mimetiza bastante bem erudição), fiquei com a última. | Já falei aqui dos fabliaux. Foram uma das (poucas) descobertas prazerosas que as livrarias me deram em 2004, ano muito mais dedicado aos desbravamentos da profissão e do ofício. Descobri os fabliaux em um livrinho da Coleção Gandhara, da Martins Fontes, "Pequenas Fábulas Medievais". Esta Gandhara é uma coleção que, na minha visão de leigo ou mal informado sobre os desígnios de um editor, busca reunir obras que tenham em comum um pezinho no esotérico e uma datação no máximo medieval. Seja qual for o critério, a coleção nos traz uma ótima versão do "Romance de Tristão e Isolda", a "Correspondência de Abelardo e Heloísa", os "Romances da Távola Redonda", de Chrétien de Troyes, junto com coisas tão diversas como "As Aventuras de Sindbad o Marujo", "A Epopéia de Gilgamesh" e "A Canção dos Nibelungos". Nunca havia lido nada sobre esse gênero literário, o fabliau. Comprei o livro porque achei interessantes o título e o jeitão. Acabei me deparando com um trabalho maravilhoso e uma tremenda injustiça: a capa do livro não traz o nome da autora, Nora Scott. "Como assim, autora?", me perguntará a Hanna, como sempre com uma certa razão. Sim, minha querida, autora. Um livro como esse pressupõe um esforço tão grande de pesquisa, classificação, seleção, ordenação dos textos e, depois, um maior ainda de tradução e adaptação, que quem o faz é, de fato, autor. Para se ter uma idéia, cada uma das 39 histórias narradas ali estava escrita originalmente em verso (ficção era escrita assim até pelo menos o século 15) e em diversas formas de francês arcaico. A autora ainda nos brinda com um prefácio que é um verdadeiro curso sobre o assunto. É uma pena que a editora brasileira a tenha escondido. No post acima, você lerá, se tiver paciência e um pouco de tempo sobrando, uma experiência transpondo o gênero para os dias de hoje. | 23.3.05
Mini 60 Virou a chave e entrou de sopetão, buscando surpreender sabe-se lá quem. Ninguém na sala. Nem ela nem o fantasma que lhe havia assombrado a viagem, o homem que o motivara a voltar um dia antes. Um homem que ele apenas supunha, mas que era capaz de sufocá-lo como se o estrangulasse, como se tivesse braços e músculos e ganas. Ela não estava ali. Melhor assim. Esperaria por ela refestelado na poltrona, com as narinas prontas para sentir os cheiros dos sumos em que ela agora se lambuzava. Nem concebia a possibilidade de ela ser inocente. Não era forte o suficiente. Postou-se, pronto para recebê-la. | 21.3.05
Em tempo: começou hoje e promete. O cara entende das notas, acordes, dissonâncias e consonâncias. Vida longa! | Falta de tempo é um ótimo pretexto para escrever obviedades. *** E quando mesmo as obviedades nos faltam? *** Não fui ao cinema no fim-de-semana, não fui ao teatro em 2005, há dias não encosto em "O mundo segundo Garp", que eu minto a mim mesmo que estou lendo. Escrevi alguns quilômetros de publicidade. *** Vegetais são ótimo alimento quando se quer ver o corpinho mais limpinho por dentro. *** Vocês viram o presunto de Parma que passou voando logo ali? Não viram? Passou bem em cima da picanha tagarela. Puxa, que falta de atenção. Ops, cuidado, você quase pisou na maminha. *** Detesto aqueles textos americanos que nos propõem a salvação em suas diversas e óbvias formas, sempre no imperativo. Detesto aquele texto que começa com "Use filtro solar", e que os publicitários todos fingem que choram quando ouvem. Os americanos dominam o mundo porque são óbvios e mandões. E não seremos os demais complicados e subservientes? *** Releiam 1984. *** Viram? | 18.3.05
Que o Brasil caminha a passos largos, sabe-se há muito tempo. Para onde é que variam as especulações. Os otimistas asseguram que o destino é a completa esculhambação. Os pessimistas já fazem mesuras para recepcionar a barbárie. Não há realistas. Há um terceiro grupo que jura que não vamos a lugar nenhum, que o lugar é que vem até nós, qualquer que seja ele. O fato é que as notícias que vêm dos dois Brasis -- o de censura livre e exibição franqueada, dos homens de gravata, dos discursos, das peruas, dos carrôes, dos carros populares, das gostosas, da suposta classe média, e o de mostra restrita, proibido para menores não-infratores, sujo, feio e acima de tudo malvado -- nos mostram um lento, seguro e gradual esboroamento, não das instituições, mas das normas de convívio segundo ditames comezinhos da civilização ocidental. Na mesma semana, o presidente da câmara, um moralista carola de nenhum refinamento político ou filosófico, debate-se entre promover benesses a seus pares menos ideológicos ou idealistas -- os tais 300 picaretas -- e emplacar no ministério um cabra de seu partido e de seu "estrato" político, enquanto diz que é contra as bichas, mas põe em votação a causa delas. Em São Paulo, uma rebelião de presos mata dois funcionários do cadeião de Pinheiros e arranha mais uma vez a instituição que deve fazer cumprir a lei, mas permite que lá dentro valha uma lei peculiar e própria. Aliás, o cadeião de Pinheiros é uma de duas pérolas penitenciárias encastoadas na Grande São Paulo pelo ex-governador Fleury, uma -- a dita cuja -- próxima ao CEASA, região já bastante integrada à cidade e completamente inadequada para receber uma cadeia, e a outra exatamente na saída do aeroporto de Guarulhos. Genial: a primeira coisa que um estrangeiro que chega a São Paulo vê é uma penitenciária com rolo de arame farpado no muro e tudo. Tudo isso na mesma semana em que centenas de menores internos da FEBEM fogem, enquanto os servidores da instituição e o governo disputam animados torneios de braço de ferro, colocando suas fichas na mesa, cacifes de corporativismo contra madrepérolas de incompetência, marfins de corrupção contra os feijões da reformulação, promessa eterna, bem ao gosto do gigante adormecido, país do futuro. Do futuro sogro, talvez. A semana vai terminando e a sensação que fica para a segunda-feira é que vêm mais surpresas por aí. Domingo tem festa de aniversário do PT. Segunda tem reforma ministerial. Terça vai ter medida provisória. Quarta tem vernissage de algum desavisado. Quinta, cai o técnico do Santos e a vedete se divorcia, depois de desmentir que está grávida do deputado. Sexta eu reclamo mais um pouco, sem saber que o pior não passou. Sábado, a gente hiberna de novo. Domingo, com sorte, sonhamos que aqui se faz um país. Só até o despertador mostrar que o que se faz sequer será aproveitado para reciclagem, o que já seria um consolo. Bom fim de semana. | 17.3.05
Quinta-feira de uma semana muito cheia, que tem me impedido de completar os textos, quanto mais colocá-los aqui. Tenho chegado em casa sempre depois das 11 e meia da noite e tento me inteirar do mundo a partir do jornal. Volto para o trabalho de manhã e o mundo continua parecido, só um pouco mais caótico, como é de se esperar. Na semana que vem, a bailarina, enfim, já me jurou que faz um show pra mim. | 14.3.05
Mini 59 Estava certa de tê-lo ouvido dizer que chegaria mais tarde. Por isso, tinha relaxado o rigor costumeiro de horário e deixado a mãe contar velhas histórias, de tempos de mini-saia, de liberdades, de formas novas -- de que, no entanto, passara ao largo. Saiu deixando a mãe satisfeita com a fartura de ouvidos recebida. Pensou, no caminho de volta, que deveria fazer aquilo mais freqüentemente. O marido entenderia uma pequena alteração da rotina, uma ou duas vezes por mês. Ficou surpresa ao encontrá-lo já em casa. -- Onde você estava? -- ríspido. Olhou serena, foi para a cozinha sem responder. Serviu o jantar, a sobremesa, o jornal, a rotina calmante. À cama, depois, ela se desdobrou, gueixa rara. Depois de saciedade e silêncio, ele insiste, agora suplicante: -- Onde você estava? -- Estive aprendendo. | 11.3.05
Outros discos, um de memória, outros dois da gaveta. *** O Arlindo, comentando o post logo abaixo, mencionou um disco magistral, que há anos não ouço, e receio não tenha sido republicado em CD: "A Bossa Eterna de Elizeth e Ciro" (sic). Pode-se dizer que é uma gravação "quase ao vivo". Ali, Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro, acompanhados pelo Regional do Caçulinha (sim, esse mesmo que toca no Faustão), cantam delícias de Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Ismael Silva, Ataulfo Alves, Mario Rossi e Roberto Martins, entre outros tantos. Elizeth e Cyro brincam, improvisam, se divertem e divertem os que estão no estúdio. Há três pot-pourris que marcaram época. Destaca-se no disco a melhor versão de "Se acaso você chegasse" (Felisberto Martins e Lupicínio Rodrigues), entre todas as que Cyro gravou. Um pouquinho mais lenta no andamento, dividida com astúcia e graça, a levada compensa a voz já não tão límpida, um tanto maltratada pelo tabaco, mas mais sábia do que nunca. Em outra faixa, tal qual Ella Fitzgerald e Louis Armstrong em "Let's call the whole thing off" ou Ray Charles e Betty Carter em "Baby it's cold outside", Elizeth e Cyro fazem uma conversa na língua do samba, na canção "Você tem que rebolar", de José Batista e Magno de Oliveira, que não fica devendo nada em charme e malícia aos quatro supracitados. Esta canção criou um bordão: à época, "você vai ter que rebolar" virou expressão para descrever uma tarefa ou circunstância mais difícil pela frente. Sozinha, Elizeth canta dois sambas-canção de Denis Brean, "Franqueza" ("Você passa por mim e não olha / como coisa que eu fosse ninguém", parceria de Brean com Oswaldo Guilherme) e "Melancolia". Fica sempre óbvio por que ela era chamada de "Divina". *** A mesma sensação de "quase ao vivo" que Elizeth e Cyro nos deram lá nos anos 60, Chico Buarque consegue em "Uma palavra", um disco de releituras, de 1995. Tendemos a achar que esse tipo de disco é para cumprir tabela, respeitar contrato em ano de pouca inspiração. Não é o caso de "Uma palavra", um verdadeiro "acústico Chico Buarque", no qual quinze canções são reapresentadas com uma levada de "pocket show", com pequenas faltas ou sobras de sons, como num show ao vivo. "Samba e amor" é levado com a simplicidade original; "A Rosa", primoroso samba, gravado antes com Djavan, também ganha uma versão mais contida. O resultado, embora à primeira vista pareça perder um tanto em Caetanos e Djavans, ganha no resgate de um Chico sambista e camerístico dos primeiros tempos. É nessa levada que a gente é transportado para a beira de um pequeno palco onde ele revisita canções como "Ela desatinou" e "Quem te viu, quem te vê", que ganham um delicioso ar de mais do mesmo. Mas o destaque do disco é "Ela é dançarina", na qual Chico ousa umas sílabas percussivas entre os versos, dando um tempero inovador à preciosa simplicidade do arranjo, mostrando um jeito de cantar que ele não tinha tentado até então. Grande disco para tirar da gaveta. *** Em 1961, o visionário Aloysio de Oliveira, ex-Bando da Lua, criador do selo Elenco, uma espécie de Blue Note em miniatura e brasileiro, foi o diretor artístico de um disco-pilar dessa construção cheia de puxados e balanços que é a música popular do Brasil: o LP "Caymmi", de 1961, lançado pela Odeon. São doze faixas, as doze consagradas (não conheço outro disco, a não ser de coletânea, onde 100% das faixas são primorosas). É um disco que valoriza o Caymmi sofisticado, que rompe e revela, ao mesmo tempo. Rompe com a redução "bahiano-folclórica" que se imprimia à imagem do compositor até ali, e revela a exuberante -- e universal -- riqueza da música e da poesia desse mestre. Os arranjos do maestro Gaya ajudam a virar a página Cármen Miranda da biografia de Caymmi, o que fica claro no todo, mas é particularmente visível na faixa "O que é que a baiana tem?", antigo sucesso na voz de Cármen e Bando da Lua. Ali, o mestre mostra o seu jeito de fazer as coisas, pista dupla entre a Bahia e o mundo. Num disco dessa importância, é difícil destacar uma ou outra canção. Particularmente me comovem "Acalanto", dueto de Caymmi e a filha jovenzinha Nana, uma já voz desde tão cedo, e "A vizinha do lado" ("ela mexe com as cadeiras pra cá/ Ela mexe com as cadeiras pra lá/ Ela mexe com o juízo do homem que vai trabalhar"). É um samba delicioso, à primeira vista pouco a ver com o verbo comover. Mas há algo da minha memória de infância que faz ver/ouvir uma melancolia ali no fundo do retrato da moça, talvez relacionado à perda do juízo do homem que vai trabalhar, que ela, sem querer, provoca. Não dá para ouvir esse disco sem lembrar que Aloysio de Oliveira esteve perto dos dois Caymmis: o baiano pitoresco e o artista universal. O que se ouve no LP (e o que se vê, na capa ousada de César Villela) é uma obra que, ao mesmo tempo, liberta e consagra Dorival Caymmi. | 9.3.05
Sobre música (viva o fim do acento diferencial): uma visita à estante. *** Luciana Souza é uma cantora de linhagem. Filha de Walter Santos, um dos pioneiros que estiveram no célebre show da bossa nova no Carneggie Hall, em 1962, e Tereza Souza, parceira do marido não apenas nas filhas encantadoras, mas também em várias canções, Luciana é uma das grandes cantoras brasileiras contemporâneas, ao lado de Bebel Gilberto, Ana Caram, Vivi de Farias, Lisa Ono e outras tantas que viram brilhar suas carreiras antes fora do Brasil, para depois chegar aqui. Luciana tem a precisão que não falta a Bebel, unida a uma versatilidade que lhe permite ir do baião de Luiz Gonzaga ao lirismo de Edu Lobo, passando e arrasando pela bossa nova, com uma consistência e técnica que a colocam bem lá no alto. Quem sai aos seus sai bem. *** Cyro Monteiro, eu conheci. Eu tinha uns oito ou nove anos de idade. Ele era amigo do meu tio Beto e, num desses almoços de família, uma feijoada no Bolinha, lá estava em outra mesa o velho sambista, com seu sorriso de fumante e infinita simpatia. Meio assustado, ganhei um autógrafo e uma frase afetuosa. Pouco tempo depois, ele iria rever Noel na Lapa lá de cima. Outro dia, achei, num desses saldos, um CD do Cyro, "A Bossa de Sempre", reedição do LP de 1966, que era já uma coletânea de gravações em 78 rotações feitas na RCA, entre 1938 e 1950. Uma delícia que começa com "Se Acaso Você Chegasse", de Lupicínio Rodrigues, e traz pérolas como "Oh! Seu Oscar", de Wilson Batista e Ataulfo Alves ("...o bilhete assim dizia:/ não posso mais, eu quero é viver na orgia"), "A Mulher que eu Gosto", também de Wilson Batista, agora com Cyro Souza, e um samba de autoria do mesmo Cyro Souza e de Augusto Garcez, chamado "Beijo na Boca", gravação pouco conhecida, de 1940, que, com uma letra despojada e uma melodia elaborada, prenuncia, de alguma forma, uma sem-cerimônia elegante que vimos em Mário Reis e veríamos depois na bossa nova. Uma preciosidade do disco é a faixa "Rosinha"(Heber Bôscoli e Mário Martins), em que Cyro canta com Orlando Silva e Sílvio Caldas, estes dois considerados, junto com Francisco Alves, os "bel-cantores" da música popular brasileira. A faixa mostra, se não o contrário, um outro lado: as três vozes, ali, são precisas, exatas, sem excessos. Ali se entende por que João Gilberto diz que sua grande influência foi Orlando Silva. Do trio de "Rosinha", eu arriscaria dizer que o que envelheceu melhor (musicalmente falando, entenda-se bem) foi o amigo Cyro. *** João Gilberto e Stan Getz. Sempre achei um disco definitivo, bem feito, caprichadíssimo. Mas não sabia explicar o que havia ali que sempre me incomodava. Demorei anos, mas descobri: o que sobra ali é o Stan Getz. Sem ele, o disco ficaria perfeito. Mal comparando, as entradas do saxofone de Getz nas canções, entre as vozes de João e Astrud, soam mais ou menos como derramar leite condensado sobre lima-da-pérsia. | 7.3.05
Quem passa com alguma freqüência por aqui deve ter percebido que eu evito publicar poesia e, quando o faço, evito o verso livre. Hoje, vou pisar na jaca: segue um poema em verso livre e, ousadia maior, baseado num tema do momento. Na verdade, a idéia inicial era só falar do tema, mas tudo acabou se traduzindo na experiência que segue. O beijo Estava lá o Rio. Corria, roía-se. Rio tenso, teso, triste, imenso, imerso na sombra que submete seus azuis. Um par de olhos vira-se, azul, e mira; menino, admira a amiga ao mar, água à cintura, composto de azuis. Olhos fechados, acha os lábios, lança um beijo. O mar encapela. O Rio pára. Abre o céu. Saltam aos olhos: lá vêm os azuis. O céu, ali, abriu, seguiu o beijo bem nos segundos mudos. O mundo parou para ver o beijo, ensejo dos azuis. Mas a pausa passa e começa a grita pela satisfação do azul. De quem é? Todos querem possuir os azuis. E tudo então volta, desbota teso e triste. Disputam sem olhar o azul. Rasgam-no. Corre, rói-se o Rio. Velados azuis. | 4.3.05
Mini sem número Chega uma carta. Mágica, como se fosse a primeira. À noite, como se flutuasse do balcão ao chão. Uma carta com papel, caligrafia, assunto. Uma carta de verdade. Ao ler, passeio pela letra desenhada e fluente, a descrever plásticas e métricas, a dispor verdades em sonhos. Ler é re-conhecer. Chega uma carta de verdade. Daquelas que ninguém lembra, dos tempos em que uma carta mudava um país. Forte, bem escrita, vistosa, se é que se pode chamar assim às palavras. Escrita, é a carta dos meus sonhos. Postada, não trouxe o direito de resposta. Agora espero remetente. | 3.3.05
Não é fácil, não sei se ainda é oportuno, mas promessa é dívida. Na frente da TV, vibrei como um menino em jogo do Santos quando "Menina de Ouro", de Clint Eastwood, ganhou o Oscar de melhor filme, Eastwood levou o de melhor diretor, Hilary Swank emplacou melhor atriz e e o monstro (atenção: no sentido que os argentinos dão à analogia) Morgan Freeman papou melhor ator coadjuvante. Por que este obscuro redator publicitário, ex-quase-trotskista, fã de François Truffaut, ouvinte das músicas do Rumo e de Itamar Assumpção, apreciador de vinho argentino e cinema espanhol -- as provas de que o mundo sempre pode ter um jeito novo -- e eleitor de José Serra se comove com um filme como esse, um diretor como esse, um elenco como esse? Eu passei anos odiando "Magnum 44" (1973) sem nunca ter assistido. Vi os policiais de Clint Eastwood por acidente, nas madrugadas insones à frente da TV. Torcia o nariz, esnobava. Para mim, Eastwood e Charles Bronson estavam na mesma categoria de incitadores da violência e arautos da pior direita americana (ok, me divertia com cenas como a do "Go ahead, make my day", mas não contava para ninguém). Qual não foi a minha surpresa quando os jornais começaram a comentar "Bird". O filme, de 1988, mostrava a vida (?) do saxofonista Charlie Parker, o que, para mim, era tão non-sense quanto Hebe Camargo fazer o prefácio de um livro do Haroldo de Campos. "Bird" demoliu todos os meus preconceitos. Era um filme de profissional e ao mesmo tempo de enorme sensibilidade. De quem entende de cinema, de dirigir ator (Forrest Whitaker faz o grande papel de sua vida ali), de dirigir equipe, e, importantíssimo, de quem entende de jazz. Aquele filme teve um papel importante na minha capacidade (ainda meio tosca) de me livrar de preconceitos. Eastwood é filiado ao Partido Republicano, pelo qual foi, inclusive, prefeito da paradisíaca Carmel. Isso, para mim, era algo inadmissível. Por isso, não sabia nada da história e dos talentos do cara. Sempre o preconceito causando ignorância. "Menina de Ouro" me surpreendeu novamente. A primeira coisa que notei no filme foi a luz. Arrisco dizer que a luz e a narrativa of de Morgan Freeman contam logo de cara de que se trata o filme. O fotógrafo Tom Stern ("Sobre Meninos e Lobos") resgata uma luz de fortes contrastes, de claro-escuro, que lembra a atmosfera do "film noir", embora seja mais sofisticada com suas sombras longas e nos vários momentos de quase escuro ou de quase preto e branco. A referência a outros grandes filmes de boxe é clara no trabalho de Stern. Mas o próprio Clint Eastwood disse que "Menina de Ouro" não é um filme de boxe. É um filme sobre uma relação entre pai e filha. É exatamente isso. E pelo lado mais triste em que isso pode se desenrolar. Hoje, depois de alguns dias passados desde que vi o filme, percebo que a direção de Clint Eastwood é ainda melhor do que havia me parecido na hora. Afinal, quando me lembro da história e a reconto a mim mesmo, me pergunto como é que eu pude gostar e me comover diante de um melodrama quase tão meloso quanto uma canção de Vicente Celestino. Logo eu, que execro Hans Christian Andersen e seus finais melancólicos. Pois Eastwood consegue fazer dessa sucessão de improbabilidades (pense bem: um filme de boxe, com uma lutadora mulher, um treinador meio covardão, uma história triste sem final feliz, uma heroína sacaneada pela própria mãe; só falta o campônio e sua amada!) um filme primoroso, preciso, sem excessos, com lirismo e dramaticidade na dose exata. Para falar a verdade, só uma cena para mim é exagerada, aquela em que a mãe da personagem tenta convencê-la a assinar uma procuração. "Menina de Ouro" tem um parentesco com Hans Christian Andersen, sua "Sereiazinha", sua "Menina dos Fósforos". O argumento vem da mesma visão da vida como um drama inescapável, inexorável, cruel. Curiosamente, no filme, a própria personagem vitimizada é capaz de descrever a seu técnico surpreso sua trajetória vitoriosa, seu desdém pela fatalidade. "Menina de Ouro" é como "Menina dos Fósforos", só que com a personagem mostrando o dedo médio em riste no final. | 2.3.05
Quase 5 da tarde e não consegui parar um minuto para escrever sobre "Menina de Ouro", conforme prometido. Vai ficar para amanhã. Mas arrumei um tempinho apenas para lembrar o bode que desenvolvi com o tal Pedro Bial. Deu uma entrevista pro Estadão defendendo aquele lixo que apresenta. Melhor se agisse como puta, que assume que dá por dinheiro e preserva o beijo na boca. Ele resolveu defender a cafetina. Poucas coisas são tão arrasadoras do ponto de vista ético do que aquilo. Exibe-se ao Brasil a cena deprimente de gente que sequer vende sua dignidade, coloca-a a sorteio. Bom, registrado o bode, ficam as desculpas pelo atraso e a promessa de que amanhã este Dito Assim será mais generoso. | |