dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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28.2.05

Há mudanças na vida da gente que inquietam e mobilizam, despertam sentimentos múltiplos e inesperados, influenciam o dia, alteram o sentido da noite. Estou passando por uma dessas. Depois de semanas matutando, colocando pesinhos nos dois pratos da balança, lembrando momentos de forte emoção, contrapondo-os aos de decepção, comparando o que aprendi ao que lamentei, o que me surpreendeu ao que me irritou, o brilho ao mais ou menos, decidi: troquei a Folha pelo Estadão.

Nesta segunda, pelo quinto dia seguido, o jornalão dos Mesquita pousa na soleira da minha porta, tomando o lugar do jornal que leio desde que aprendi a ler. Jaymão, meu pai, lá do alto do céu dos socialistas, deve estar me repreendendo. Mas fazer o que, paizão? Tu também cogitarias esta troca se visses a Folha rala e superficial que me chagava aqui todo dia. Ademais (é difícil acreditar, eu sei, mas é fato), os Mesquita, embora acionistas, não participam mais da gestão ou do rumo editorial do jornal. Acho que mudarias também.

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No Estadão, o crítico Luiz Carlos Merten espinafra Martin Scorsese e "O Aviador". Justamente o filme que eu, sem a mesma capacidade do jornalista, ia comentar aqui, e com alguns elogios. Desde logo me senti como um daqueles personagens babacas que terminavam ouvindo, nos deliciosos comerciais de TV do jornalão, a frase "É melhor você começar a ler o Estadão". Já comecei, mas acho que ainda não fez efeito. Pagarei o mico de falar bem de um filme com Leonardo di Caprio.

"O Aviador" é o que a gente chamava de um filmão. Primo do carrão, do mulherão, do jogão. É Scorsese, o que lhe dá um pedigree. Antes desta superprodução sobre um supermilionário, Scorsese tem uma filmografia a apresentar, que inclui os indispensáveis "Touro Indomável", "Taxi Driver", "O Rei da Comédia" e "Cabo do Medo". Trilha o caminho inverso de Clint Eastwood, que foi do cinemão de "Magnum 44" a um cinema mais elaborado de títulos como "Bird" e "As Pontes de Madison". Na estrada que separa o espetáculo do cinema de autor, os dois se cruzam no pedágio.

"O Aviador" é como um De Lorean, que era um carrão e um grande carro. Dentro dos limites do cinema de entretenimento (e talvez dentro dos limites de Leonardo di Caprio), Scorsese monta um personagem e o conduz bem. A crítica de Luiz Carlos Mertem coloca essa composição como simplista, alegando que Howard Hughes era uma figura mais complexa, com componentes que iam de suposto homossexualismo a colaboracionismo com as espionagens do governo. Mertem ainda compara Scorsese/"O Aviador" a Orson Welles/"Cidadão Kane". Sacanagem. É como comparar Rembrandt com Basquiat. Um tem a consagração do tempo. O outro ainda não teve tempo para isso. Quanto ao que se omite no personagem, há que dizer o óbvio: aquilo não é um documentário do History Channel, é um filme. Não precisa mostrar tudo se tiver o que mostrar.

Di Caprio encarna um Hughes que me parece mais alegre do que as fotos de que me lembro do verdadeiro. Tem uma atuação irregular. Em alguns momentos é exuberante, em outros, limitada, insuficiente, não sei se por atributos físicos ou por cacoetes, a ponto de não conseguir fazer o personagem envelhecer.

Enfim, um filmão, com os limites que os filmões trazem.

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Ray. O que é ver um filme sobre um cara que você adora? Passei por isso há algumas semanas quando fui ver "Delovely", uma cinebiografia de Cole Porter. Saí encantado do cinema. Depois percebi que o encanto era masi com Porter do que com o filme (que merece, diga-se, uma citação para a atuação exuberante de Kevin Kline). A história, no caso. é, por si só, boa literatura.

Ray é uma biografoa autorizada. É conhecido o fato de que o roteiro, à medida que evoluía, ia sendo copiado em braille para que Ray Charles pudesse acompanhá-lo. Isso poderia gerar um filme morno, adocicado ou laudatório, como foram "Night and Day", a primeira biografia de Cole Porter ou "The Glenn Miller Story". Mas não: o resultado é bastante equilibrado, ao distribuir os talentos e as mazelas da personalidade do músico ao longo do filme. O diretor Taylor Hackford e o roteirista James L. White compõem um personagem definitivamente envolvente. Mas eles têm um sócio majoritário: Jamie Foxx, no papel de Ray. Um papel de altíssimo risco, se nos lembrarmos da figura de Ray Charlese suas peculiaridades, o sorriso largo, o movimento desengonçado, os óculos, as roupas, a própria condição de cego. O risco de um ator descambar para o canastrão ou o esquemático seria enorme. Mas Foxx incorpora Charles de uma forma que lembra algo entre Stanislawsky e Chico Xavier. Sem exageros, com precisão, ora com humor, ora com carga dramática, enfim, um ator superior que faz de um papel de alto risco um marco da atuação em cinema. É um bom filme, bem dirigido, bem montado, bem fotografado, roteiro dentro do esperado. O que o faz realmente grande, o peso que faz pender o prato do inesquecível é Jamie Foxx.

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Adorei "Menina de Ouro". Comento depois.



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25.2.05

Será melhor. A lembrança fotográfica de um par de olhos claros com um sorriso restaurador em volta me garante isso.

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Buñuel falava do alívio que sentiu quando a idade levou-lhe a libido. Por enquanto, tenho preferido o transtorno.

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A idéia de estar só quando muito acompanhado tem-me assombrado nos últimos dias. As manias vão nos acossando com o passar dos anos. Cada vez fica mais difícil descrever o que é realmente satisfatório. Pedrinhas.

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A idéia de empreender me divide em dois. Dois contendores.

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A idéia de escrever me multiplica.

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Me assalta a memória da fazenda. Quero me render à meninice, o que é de todo impossível. E não consigo avançar à senhoridade. Que espécie de velho serei? Terei netos que esconderão o avô dos amiguinhos?

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Faltam-me idéias mais objetivas, aquelas que resolvem problemas. Têm-me faltado, também, ideais.

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É em Heidelberg que se cultivam cicatrizes?

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Adoraria uma carta embaixo da porta.



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23.2.05

Conforme prometido, um comentário novo, depois de dois dias de quase deserto.

Dia desses, estava comendo uma pizza na boa companhia de Alberto Lima e seu primogênito Martim, quando tocou o telefone. Era um amigo querido que disse: "Jayme, você me deve 28 reais." "Por que?" "É o que eu paguei para ver aquele filme que você disse que era bom." Ele falava de "Whisky", filme uruguaio de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, sobre o qual eu havia, de fato, feito um comentário positivo, embora não exatamente entusiasmado. Após uma pausa, meu amigo arrematou: "Você devia estar com alguém especial quando viu o filme".

Pois bem, pode ser que eu ouça o mesmo comentário depois de dizer aqui o que achei de "Sobre café e cigarros", de Jim Jarmusch. Pois é: gostei. Alguém especial pode ter influenciado, mas acho que teria gostado mesmo se visse sozinho (como, aliás, acho que todos deveríamos fazer em pelo menos metade de nossas idas ao cinema).

Jarmusch faz uma "cuccina d'autore" cinematográfica. Tem um estilo marcado, rígido, quase estrito. Há grandes diretores de estilo, monstros mesmo, como Buñuel ou Fellini, nos quais se pode reconhecer claramente uma marca pessoal inconfundível. Outros, como Kubrick ou Truffaut, exibem uma versatilidade mais evidente, cada um a seu modo. Jarmusch, radicalmente estiloso, é parte da "movida" pós-moderna típica dos anos 80 que o faz consangüíneo ou pelo menos contra-parente de gente como os pintores Julian Schnabel ou Philip Guston. É datado. Portanto, vê-lo agora, pleno 2005, todos engatinhando em um milênio complicado, tem por si só um sabor retrô, se posso assim dizer, um retrô-vanguarda ou ainda um trans-retrô, apenas para lembrar ainda a transvanguarda dos coleguinhas de Schnabel e Guston.

O filme é composto de onze curtas filmados pelo diretor ao longo de 17 anos, entre 1987 e 2004, seguindo o tema que o título evidencia. Há café, cigarros, fumaça, xícaras, mesinhas, cinzeiros vazios, cinzeiros repletos, bules e aquilo que tudo isso sugere: conversa, muita conversa. Mas nunca conversa fácil de boteco. Ao contrário. Os episódios mostram interlocutores que não se entendem, jogam um xadrez de palavras que se reflete no cenário -- pelo menos 8 dos filmetes trazem muito xadrez no cenário.

É um filme-teatro, desses que a gente gosta de adorar ou de meter o pau (quem lembra de "Six degrees of separation", com Will Smith e Donald Sutherland?). Mas vai além do Jim Jarmusch que vimos nos 80. Há referências a valer, de Jacques Tatit a Spike Lee. Aparentemente, há uma busca de conectar a estética PB datada a um cinema universal. Vemos lá pequenos fragmentos de Kurosawa, Godard (é inesquecível a xícara de café de "Duas ou três coisas que eu sei dela", um dos filmes mais chatos já produzidos), Coppola.

É mais longo do que deveria. Seria um grande filme de uma hora -- o que é proibido na indústria do cinema. Por isso mesmo, é um filme que é arriscado recomendar. Mas eu corro o risco. Apenas sugiro que você procure assistir em boa companhia.



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22.2.05

Nem todo dia tem horas vagas suficientes para escrever algo que valha a pena, o que acaba deixando um buraco na seqüência de meias laudas que uns poucos estóicos têm a paciência de ler, dia sim, dia não. Pois bem, hoje não consegui ter tempo de colocar aqui minhas impressões a respeito de "Sobre café e cigarros", filme do Jarmusch em cartaz, ao que parece, por pouco tempo. Meio máquina do tempo, meio colcha de citações, mas interessante e saboroso. Amanhã, mais.



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18.2.05

Mini 58

Não parecia mais querer nada. Quando atravessou a porta e entrou na imensa nave, sentiu o peso do ar frio. Procurou um santo, qualquer um, e pôs-se ajoelhado a sua frente. Não queria rezar ou rogar, não tinha pedido nenhum a fazer, seus desejos haviam acabado. Fechou os olhos e deixou o tempo passar, gotejando segundo a segundo, escorrendo devagar. Tateou o peito, achou a gravata, desatou-a, inútil. Tirou de si o peso da roupa, mas ainda assim permaneceu pesado. O santo, com olhar piedoso, velou por ele. Perdoou-lhe a nudez e o protegeu. À noitinha o encontraram e o levaram dali, enrolado num lençol branco como o manto do seu protetor, branco como aquilo que ocupara o lugar de sua memória.



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15.2.05

Como havia prometido no domingo, hoje é dia de poesia. Confesso que estou perdendo o acanhamento de publicar o gênero aqui. Mais: me aproximo do verso livre, embora com cuidado. Não há rimas regulares, embora elas apareçam aqui e ali. No entanto, a métrica é rigorosa. Particularmente, gostei do resultado. O assunto? Mais ou menos o mesmo que Ravel usou para compor o Bolero.

Tempo fugido

Tive-a e a perdi.
Como gastar o resto do tempo?
Que desimportância hei de eleger?

Tive-a e a perdi
porque não soube não a perder.
Fui oblíquo (sou, como se vê)

quando não podia,
bem na hora em que tinha de ser
a menor distância entre eu e ela.

Perdi-a por medo
de ser homem. Como poderia
ser dela, ela sendo tão mulher?

Temendo ser homem,
quis ser o garoto a conquistá-la.
Vi que ela sorriu antes de ir.

Garoto, deixei.
Pulei a etapa que não podia,
fiquei, da noite pro dia, velho.

Velho, desde então,
procuro pretexto, profissão,
justificativa e passatempo,

palavras cruzadas,
batalha naval, xadrez, gamão,
guerras para envelhecer em paz.

Perdi, desde logo.
Preciso correr atrás do tempo,
há desimportâncias a eleger.



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14.2.05

Mini 57

Abriu os olhos para o teto branco. Percebeu, primeiro, a meia luz. Depois, viu-se deitado e percebeu-se ligado a fios e tubos. Baixando os olhos, deu com um pano verde a mal e mal cobri-lo. Mais ao longe, um vidro, uma vitrine com o rosto dela, olhar preocupado, incomodado mas com uma ponta de amor. Que alívio.

Pensou então até onde teria de chegar da próxima vez.



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13.2.05

Semana de um texto só? Esse tal de carnaval faz até coisas assim, como estimular a indolência deste já modesto escriba. Mas passou, passou. Amanhã, tem mais, tem mini e, depois, uma poesia bem apanhada, já na terça, para compensar. Para este domingão, fica a recomendação: vale ler a entrevista do professor Roberto Romano na Veja, aquela revista semanal que se parece com a Caras, lembra?



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9.2.05

Quarta-feira de cinzas, tão decantada em prosa e verso (normalmente de qualidade duvidosa), para mim ainda significa uma espécie de réveillon sem alarde, a hora em que o ano começa, o momento em que as esperanças são postas à prova, a verdadeira hora da onça beber água. É na quarta-feira de cinzas que as decisões de ano novo têm seus primeiros testes, que as decisões tardias ainda podem se integrar às demais para, então, trilhar todas o caminho da realização ou -- como é o caso da maior parte delas -- derrapar para o barranco do adiamento, eufemismo que usamos no lugar de malogro.

Quarta-feira de cinzas. Agora chega de ensaio, acabou o treino, varra-se o confete. Agora é para valer. Pelo menos até o fim de novembro. Aí, recomeça o transe de festas e entre-festas que toma conta do espírito coletivo, embebido em euforia, superstição e medo. Da foto dos patins do Rockefeller Center à foto dos peitos da rainha da ocasião, sabemos, há um generalizado não-sei-bem-o-que-fazer, que só acaba com estas benditas cinzas. Não é à toa que as inundações vêm nesta época, que de Noel a Momo há mais furacões e terremotos do que em todo o resto do ano, sem contar as celebridades falsas que, entre-camarotes, inventam de invadir, às lufadas, as casas daqueles que, ao largo da prudência, esquecem suas TVs ligadas.

Agora, o ano começou. As celebridades se esvaem, novidades, só as de verdade, samba, só quando for por vontade própria e manifesta. Confete, sempre sobra algum, mas só para animar o aspirador de pó. É bom começar o ano de cabelo cortado, bolso comportado e coração domado. Também vale levá-lo a caminhadas, muitas caminhadas, seja só, seja bem-acompanhado. Quando puder, a risadas. Se precisar, a palavras, as necessárias ao menos.

Este ano não vai ser igual àquele que passou -- como de resto não foram todos os outros. Que, de fato, comece, bem e em boa hora: que a quarta-feira de cinzas cumpra o seu desígnio e nos traga o melhor que puder, seja isso um ano novo ou pelo menos um pré-carnavalesco comedido, embora longo.



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4.2.05

Recebi um texto boboca atribuído ao Augusto Nunes. Fui pesquisar e descobri que é mesmo dele. Mandei então ao jornalista o texto abaixo.

Alô, alô! É você mesmo, Augusto Nunes?

Recebi o texto "Paulo Francis tinha avisado" por e-mail, e logo pensei que era mais um daqueles apócrifos normalmente atribuídos ao Veríssimo, ao Jabor ou ao Mário Quintana. "É a vez do Augusto Nunes", pensei, e fui ao Google tentar resgatar o verdadeiro autor. Quase caí da cadeira quando vi que era você mesmo. Leio seus textos -- e os admiro -- desde os tempos de Veja. Confesso que há tempos não os via. Foi uma surpresa me deparar com este.

Não tenho maior admiração pelo governo Lula ou mesmo pelo presidente, se apartado de sua história anterior. Acho que fazem um arremedo do arremedo, ao copiar o governo do PSDB, ainda mais contando com quadros tão parcos como tem o PT.

Existem, no entanto, formas e formas de se manifestar a insatisfação ou a crítica. De um jornalista com sua história, espera-se no mínimo originalidade na abordagem e destreza na forma. O que se vê, no entanto, é o eco da geral, a crítica infantil da calçada. Não é dado jornalístico objetivo a indolência que você atribui ao presidente. Ademais, você sabe, como poucos, quão pouca diferença isso faria, tivéssemos uma máquina bem azeitada. Falar do "novo-riquismo" de Lula e senhora, tendo testemunhado de perto o advento Collor- Rosane é falta de memória preocupante num jornalista consagrado.

Lula é um presidente mediano, um tanto deslumbrado (não o foram também JK, Jânio, Itamar, FHC, enfim, quase todos os que chegaram ao primeiro cargo da Nação? Puxe pela memória), que governa com quadros pobres, mas governa com prudência e com lógica -- uma lógica surpreendente, por liberal demais -- e com encenação -- como todos os líderes políticos da história, incluídas aí as monarquias.

Confesso que esperava descobrir que o tal texto era apócrifo. Ainda resta uma esperança. Alô, alô, Augusto Nunes. É você mesmo? Se for, um abraço. Se não for, um alívio.

Com respeito,

Jayme Serva




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3.2.05

A origem dos festejos de carnaval está associada aos ciclos da natureza, que o homem agrícola precisava entender e, até o ponto em que pudesse, dominar. Os ritos da igreja têm, em grande parte a mesma origem. Não sei por que, desde pequeno tenho uma rejeição pelos festejos pagãos do carnaval igual e simétrica à que tenho pelo jeitão da Igreja -- não pela religião em si, que me fascina, me impõe respeito, embora não me chegue a conquistar, mas pelo jeitão mesmo, a estética, as rotinas, o sotaque.

Há uma falsa alegria no carnaval, como há uma falsa compunção na carolice. Existem, é claro, os santos, os abnegados, os fiéis determinados, os momos. Esses são o tempero que dá sabor à massa insossa. Não raro chegam a Joãosinho Trinta ou a arcebispo (ou arcebispa, como há de vogar em algumas "denominações" pentecostais). Comovem alguns coroinhas, lideram grupos de foliões, diante dos quais o resto da massa apenas mexe os lábios cá ou agita os indicadores acolá.

Me aflige o tipo de arte que se vê na avenida e dentro das capelas. Falo de arte visual, de pintura, escultura. Em ambas, o que se vê são objetos que não têm o menor valor artístico. No entanto, tampouco trazem o sabor primitivo da manifestação popular. Imitam as respectivas academias, seus padrões de bela-arte. A esfinge de isopor e a ceia de pó-xadrez rescendem a bom comportamento, guardados os devidos contextos. Ao contrário da arte, não procuram transgredir. Ao contrário do artesanato, não procuram ser autênticos.

Todo ano é a mesma coisa. Procuro escapar do carnaval, fico deprimido no Natal. Enquanto isso, haverá em São João da Boa Vista ou na Ponte da Cadeia, em São João del-Rei, um grupo de estudantes vestidos de mulher experimentando uma transgressão primária ou um maluco a brandir seu canivete em torno de algum toco de madeira que vai virando cara. Estes são ainda os que sobraram dos tempos em que tanto carnaval quanto religião estavam visceralmente ligados à natureza, à criação, à fertilidade. Hoje, cultuam, à moda de Onan, apenas a si mesmos.



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1.2.05

Nesta minha exploração eventual do estranho e misterioso mundo da poesia, cometi uma experiência que mostro logo abaixo. É o que eu chamei de "tangram de palavras". Como no jogo japonês em que, a partir de um quadrado formado por outras formas geométricas básicas, se compõem figuras diversas, pensei num conjunto em que, a partir da interferência de diferentes pontuações, se vão esculpindo sentidos diversos ao verso. Vejamos:

Poema de um verso só

Sorvo de tudo um pouco contrariado apenas pela fidelidade à verossimilhança minto faço crer creio e refuto convicto posso ser contraditório prevalece a norma só é aquele que sem terminou põe os pontos no lugar já os pingos e os is e eu o sorvo

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