dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. |
28.1.05
Chamada na primeira página da Folha de hoje sapeca: "Novo teste valida o sudário". Abro a página de ciência vejo lá a chamada "Sudário pode ser contemporâneo de Jesus". A nota dá conta de que um pesquisador aposentado do Laboratório Nacional de Los Alamos, Raymond Rogers, teria feito testes que comprovariam a idade do sudário de Turim, a mais famosa relíquia mantida pelo catolicismo, como sendo algo entre 1,6 mil e 3 mil anos. Não fica claro o método utilizado, apenas se infere que não é o de datação pela presença de carbono 14, o método mais aceito e mais preciso para se atribuir a idade de peças arqueológicas. Em 1988, o pesquisador Paul Demon, da Universidade do Arizona, liderou estudos sobre amostras do sudário que terminaram por atribuir à relíquia uma datação entre 1260 e 1390. Dois outros estudos independentes citam datas próximas. Pouca margem a dúvidas restou, em função do rigor e da própria publicidade que esses estudos tiveram à época. Alguns especialistas apontam imprecisões anatômicas, como o tamanho exagerado dos braços e da cabeça. A fisionomia que se pode ver ali marcada lembra um europeu, nada a ver com o que se poderia encontrar em um homem da Palestina da época. Some-se a tudo isso o fato de que nenhuma menção à relíquia é conhecida antes do século 14, quando a viúva de um templário francês a doou à igreja de Lirey. Ou seja: basta um olhar rápido sobre o assunto para se ver que a probabilidade de ser a peça uma obra de arte, uma imagem para veneração ou uma falsificação da época da febre das relíquias é muito grande. No entanto, volta o assunto à baila, pelas mãos de um cientista, que insiste em dar novo ânimo à ilusão de que se teria uma prova concreta do martírio de Jesus, portanto de sua existência, justamente no seu momento mais dramático e simbolicamente rico. Acho interessante a proximidade da declaração de Rogers do discurso de posse de W. Bush. O presidente americano é sabidamente um fundamentalista cristão, ligado ao neoconservadorismo protestante. Sob sua gestão, diversos movimentos conservadores, como o que prega o ensino do criacionismo como ciência nas escolas ou o que propugna a virgindade pré-matrimonial, espalharam-se pelo país e pela mídia. Tudo isso dá uma pista do que parece caracterizar este século inaugurado pelo 11 de setembro e marcado desde cedo pelo pesadelo do Iraque, o surgimento de idéias que lembram o basbaque da Idade Média, a nova confrontação entre ciência e religião -- revisando conquistas fundamentais do século XX --, a tentativa de factualizar as narrativas religiosas, a visão messiânica de uma nação inequivocamente hegemônica. Tudo nos leva à conclusão de que estamos à beira de um perigoso "efeito estufa". Não o da atmosfera, que parece se avizinhar de forma inexorável, mas o que vai nublar e esfriar o pequeno facho de liberdade que o século passado parecia trazer e que não é a mesma liberdade de que W. Bush falou mais de quarenta vezes em seu discurso de posse. O mundo combina com este cinza de janeiro. | 24.1.05
Como é possível ver um filme sobre a vida de Cole Porter e ser parcial, crítico, ponderado? Como resistir se os papéis principais cabem a um inspiradíssimo Kevin Kline e a uma estonteante e não menos inspirada Ashley Judd? Em "De-Lovely", o diretor Irwin Winkler faz um híbrido de musical e filme biográfico que resulta bastante original, embora tenha este partido estético sido exatamente o telhado de vidro que a crítica achou para atirar seus pedregulhos. Há algo no filme que faz lembrar "All That Jazz", de Bob Fosse, talvez pelo fato de que o diretor ali tenha criado um personagem que era ele mesmo. No caso de De-Lovely, o personagem que representa Porter e um sujeito que é uma mistura de arcanjo com diretor de teatro (Gabe, vivido por Jonathan Price) repassam a vida do compositor, como se estivessem montando um musical. O filme passeia por essa diversidade de linguagens o tempo todo, com cenas de extrema estilização, como só se observa em musicais, e outras de realismo típico das biografias, que mimetizam o faz-de-conta. Destaque especialíssimo para a maquiagem. O Porter envelhecido é de uma verossimilhança assustadora e seu processo de envelhecimento é muito convincente. Enfim, espetáculo, Hollywood, entertainment. Ao contrário de "Contra Todos", não merece quatro estrelas da Folha de S.Paulo. | 20.1.05
Mini 56 As ondas batiam fortes, barulhentas, gelo borrifado nas costas espetadas pelo sol, agulha e linha de Copacabana. Entre as ondas no mar e suas caricaturas na calçada, havia uma travessia sobre areia em brasa. Ali ela se deitava frescamente, esteira e provocação ao pé do meu caminho. Imóvel, olhos fechados: quem mais conseguiria ser, mesmo assim, tão quente? Eu passava por ela torturado, pés e pensamentos em frangalhos. Perdi-me no dia em que a traiçoeira, sem ter avisado, postava-se ereta sobre os joelhos. A mão direita mexia no maiô, junto às costas. A esquerda estendia, egípcia, o bronzeador. Os olhos, enfim abertos, ordenavam. Nunca mais fui dono de mim mesmo. Nunca mais fui tão feliz. Se a vi de novo, não me lembro. | 18.1.05
Depois da tempestade do Blogs of Note, ficaram só os íntimos. Cheguem mais, meus queridos. Enquanto recolho os copos das mesas e dou uma primeira geral na bagunça que sempre fica depois da festa, vou pensando mais desconectadamente do que o normal. Me vem à cabeça uma coisa curiosa. Sempre prestei atenção em gente que tem no nome aquilo que faz. Não, não vale o seu Gilette, o seu Ford, o seu Dreher. Aí é o contrário, o objeto pegou o nome do cara que o inventou ou celebrizou. Falo de gente cujo nome é totalmente ligado ao seu ofício ou atividade. Em São Paulo, há um arquiteto conhecido, que se chama Artur de Matos Casas. Não muito longe de algumas das obras do dito cujo, há uma galeria de arte, antiquário ou algo do gênero, que pertence a um sujeito chamado Aldo Marchand. Quase duas gerações de paulistanos tiveram seus paladares afagados em alguma das casas do restaurateur Roberto Ravioli. Uma das principais empresas de design de embalagem do Brasil tem um diretor que se chama Sergio Guardado. Isso para não citar um exemplo um pouco mais, digamos, forçado, que é o do pintor Zélio Alves Pinto. Devaneios inúteis que resolvo dividir com meu jovem assistente Alex Senna. Que vira-se para mim e diz: "o seu nome também tem a ver com o que você faz". Como assim? "Só que está escrito errado". Errado? "Devia ser com 'c': Cerva!" Moleque atrevido, não tem amor pela vida não? Ora essa, não se fazem mais jovens respeitosos como antigamente. Já estou procurando um bom colégio interno. | 17.1.05
Para começar esta semana chuvosa, aqui vão alguns "re-clichês", intervenções que faço de vez em quando em ditados caquéticos e outros lugares-comuns. Uma espécie de vingança. *** (A partir da memorável releitura do mito Vicente Matheus) Depois da tempestade, vem sempre a ambivalência. *** Amor de praia não sabe a serra. *** Amar, verbo em transe e tiro. *** É melhor ser alegre que ser chiste. *** O hábito não faz. Já o monge... *** Quem tem boca vaia. *** Nada como um dia depois do nada. *** A verdade dói, mas tem xilocaína. *** Que seria do marron se todos gostassem do Green Peace? *** Gosto não se diz. Curte-se. | 14.1.05
Mini 55 Entrou na saleta e deu ao velho sentado na bergère um livro e um beijo na testa. -- Deviam acabar com a literatura. -- Ora essa, por que, papai? -- Porque livros são apenas lembretes de que a gente está decaindo. Livros são retratos da degradação. -- Imagine, que idéia! Há os grande romances, há as novelas ligeiras, as crônicas, os livros infantis. -- Lembretes da decadência. Cheguei a este estado porque gastei sessenta anos a ler. Deviam permitir somente os manuais e os dicionários. Se você se distrai e esquece do tempo, lá vem o próximo capítulo nos lembrar que o tempo corre. Aí, envelhecemos. -- Papai, se o senhor não tivesse lido... -- Estaria mais leve. Mais jovem, isso sim. Depois da visita, chegou em casa ainda intrigado com a cisma do velho. Encontrou o filho na sala, lendo com o contragosto dos 15 anos. Deu-lhe um abraço desajeitado e uma recomendação inútil. -- Vai, mas toma cuidado. | 13.1.05
O Mini abaixo é um pouco chocante. Não pude deixar de escrevê-lo depois que ouvi uma nota policial no rádio. Descrevia essa situação. Me chocou e fascinou. Esse desespero solidário, essa fratura no tempo. Poucas vezes me senti tão incomodado com uma notícia. | Mini 54 Abraçaram-se seminus. Ele sentiu finalmente que podia ter cura, mesmo para a tristeza. Ela o envolveu, forte embora trêmula, com braços e pernas. Vento nos corpos, cada vez mais forte. Até parar de uma só vez. Até inverter o movimento acelerado, tranformando-o em lenta flutuação.O barulho que eles não ouviram parecia o de uma pequena explosão. Um só corpo em queda. | 12.1.05
Sou econômico em colocar poesia aqui. Mais ainda quando se trata de verso livre, para mim mais difícil e arriscado do que poesia bem metrificada, até porque é mais sujeito a ilusões de grande obra: a gente faz, olha, diz "oh!" e sai pensando que é o próprio João Cabral de Mello Neto. É realmente arriscado. Mas é bom que sempre haja uma primeira vez. Com sua licença: Verso livre: exercício Até anteontem, um poeta podia morrer de tiro, tifo, tísica; tinha riscos reais, e cedo demais. Até ontem, morria poeta de moto próprio, espírito, picos, pitadas. Experimentava, livres, versos e esteróides. Até hoje, morre poeta de todo jeito, diabete-mélito, bala, sala, morro, tocaia, verso-canção-percussão. Até amanhã, há de morrer poeta até quem sabe o escriturário. Será bom, contando com que vivo fique o verso. | 10.1.05
-- Creio que o passar do tempo facilita o misticismo. -- Por que? -- É uma combinação: vai sobrando menos tempo, então a gente fica com urgência de entender o que será depois que o tempo acaba. Ao mesmo tempo, a memória se esmaece pelo excesso de carga e pela rarefação do recurso, então tudo vai ficando estilizado e com menos detalhes, o que faz a gente alargar a peneira da lógica. Isso, somado com boa vontade, faz acreditar. -- Mas se fosse assim não teria tanto garoto religioso. -- É diferente, aí. O fanatismo é uma das formas de saciar os arroubos do mais jovem. O menino gosta da igreja ou da Glorinha, da capoeira ou da maconha, da anarquia ou do sacrifício. Tudo sempre cem por cento e com um inimigo a ser batido. E vai desembestado até frear aos poucos no areião da idade. Uns nem chegam. Os que passam e sossegam só vão olhar para o céu de novo quando o tempo começar a correr demais. -- No que você acredita? -- Acredito em tudo o que não tem exceção. Ademais, acredito também que o homem não se deixa enganar. Também creio que ele procura sempre o que é mais fácil. Daí em diante, eu só tenho dúvida. -- Sobre o outro lado? -- Se o outro lado. -- Como? -- Só o que não tem excessão é a fatalidade, a morte, o fim, a virada naquela esquina escura. Se o homem -- não eu, não você: a espécie --, se o homem não se deixa enganar e se ele procura sempre o que é mais fácil, me parece que ele sabe que tem alguma coisa a valer a pena nesse trem expresso carregado de tanta coisa difícil. Por isso o esforço, por isso a evolução. Ele busca o prêmio do mais fácil que deve vir a seguir. -- Você acha? E se fosse o contrário, e se ele soubesse -- ele, a espécie, como você diz -- que é justamente o contrário, que não faz o menor sentido, que é um tremendo acidente químico, uma hecatombe de carbonos que deu nisso tudo e que do jeito que veio vai? -- Ora, ele trataria de buscar o mais fácil. Uma vida sem depois é difícil demais para um ser que procura o mais fácil. Se ele soubesse que tudo não passa do que a gente já vê agora, ia cuidar de acabar com essa história toda. Ia se auto-destruir. Ia inventar maneiras de ir para a breca. -- Como o que? -- Ora, não sei, como... -- Como criar explosivos poderosos? -- Talvez... -- Venenos mais rápidos e mais letais? -- Pode ser, mas... -- Ou como destruir o que o preserva e mantém vivo? Água? Ar? -- Você quer dizer que... -- É. Você não acha que ele descobriu? -- Quem? -- O homem, não eu ou você mas a espécie. Você não acha? -- Então... -- É, ele descobriu tudo. -- Então... -- Isso: ele decidiu que não vale a pena. Você não diz que ele procura sempre o mais fácil? Sua dúvida acabou. -- Então... -- Então, já que não tem dúvida, é melhor você ficar místico. E rápido. | 6.1.05
A tal da concorrência dos novos caças da FAB caducou. A pergunta é: por que uma compra de armamento estratégico vai a licitação pública? Não é mais ou menos a mesma coisa que narra a piadinha sobre a obrigatoriedade do uso de crachá no serviço secreto português? Piadinhas à parte, nada me tira da cabeça que isso tem algo a ver com a ruptura da relação de confiança entre militares e o resto da sociedade, mais uma das "conquistas" do golpe de primeiro de abril de 1964. *** Mais uma pergunta: alguém já cogitou parar para pensar qual é a atribuição desejada para as forças armadas brasileiras nos dias de hoje? Qual é o projeto que nossos militares apresentam para melhor servir à pátria? A quem vamos nos impor com a aquisição dos dez ou vinte caças sob a insólita licitação? Não será a ameaça da desigualdade social e do abandono de milhões de miseráveis à própria sorte muito mais grave e premente do que a eventual hostilidade de uma potência vizinha? Como os quartéis podem ajudar o Brasil a se defender dos verdadeiros perigos que o rondam? *** Neste sábado, completa-se a primeira semana dos progressistas liderando a câmara dos vereadores de São Paulo. Companheiro Timóteo, companheiro Mutran, companheiro Milton Leite, companheiro Toninho Paiva estão conduzindo a grande marcha da libertação municipal rumo a uma sociedade mais justa, sob a batuta do iluminado condutor Roberto Tripoli. E os caras do PT, Arselino à frente, juram que saíram vitoriosos. Ingenuidade, não é. Cinismo é pouco. *** Chega de reclamar. *** O lado bom mostra, de novo, um prodígio a ser colhido aqui: "A Serpente e a Córtepa". O Navegar Impreciso tem o que eu acho mais interessante entre as possibilidades que um blog traz a quem escreve, que é a versatilidade criativa, a possibilidade de publicar sem grandes amarras de pauta, aliás, tendo na pauta um dos pontos de surpresa e criatividade. Algum dia ainda vou escrever -- e pautar -- como o Arlindo. | 4.1.05
Acabo de enviar a seguinte carta ao vereador Roberto Trípoli, aquele que traiu sua bancada para ganhar a cadeira de presidente da Câmara Municipal de São Paulo. Senhor Vereador, O senhor já deve ter recebido todo tipo de manifestação de repulsa. Não quero, portanto, ser repetitivo ou mesmo mal-educado, não é minha vocação. Só quero fazer uma pergunta. Na boa: onde é que o senhor acha que sua carreira pública vai parar, considerando que seu feito político mais notório foi a traição perpetrada no sábado? Não lhe falaram de Silvério dos Reis na escola? A história pode até prover notoriedade a gente assim, mas popularidade? Que grau de depressão o assomou para tramar e perpetrar assim tão espetaculosamente seu suicídio político? Ou o senhor acha que essa presidência assim obtida, em uma casa de fama tão discutível, vai levá-lo a algum tipo de escalada política? É desnecessário dizer que o senhor, no sábado, bateu no teto de sua carreira. Daí, é uma queda mais ou menos longa, dependendo do quanto demorar para as pessoas que o cercam o abandonarem de vez. Pense em um por um. Que valor o senhor acha que os vereadores do PT lhe dão? Que valor o senhor acha que merece da parte de gente como Vadih Mutran? O senhor não se sente hoje a mais visível bucha de canhão da história recente da política brasileira? Que ingenuidade! Na boa, mesmo: só uma grave doença, com nenhuma perspectiva de sobrevida, justificaria tamanha gana por sentar nesta cadeira, nesta presidência de valor tão discutível. Sei que não é este o caso, que o senhor goza de perfeita saúde Só que essa saúde hoje só mantém longeva a sua pessoa física. A figura pública, lamento dizer, já está passando da UTI. Aproveite seus parcos dias de glória e compre um bom estoque de palavras cruzadas. É um bom meio de passar o tempo e driblar a consciência. Compungidamente, Jayme Serva Sei que pouco adianta, mas falar com esses pulhas pode ser um começo. | 3.1.05
Mini 53 Não percebi quando ela entrou em casa. Acho que ela também não percebeu que eu já estava lá. Eu estava entocado na salinha onde ficava a TV. Ela deve ter subido ao escritório. Na tela, a cena ridícula de um casal fingindo que trepava. Soft porn, Playboy TV. Eu não ia além disso, enquanto ela deve ter ligado para alguém antes de ir ao nosso quarto e fazer uma mala. Não eram 8 da noite quando a porta da frente bateu. Ela teve o cuidado de trancar ao sair. Eu não ouvi nada. Nem o barulho, plac-plac, dos quadris se batendo no filmete. Estava ocupado em pensar o que alegaria para propor a ela que fôssemos juntos embora dali. A moça da tela sabia parecer satisfeita, ao contrário de seu esforçado par. | Começa 2005. Que seja próspero como desejam os anúncios e feliz como acreditam as crianças. O ano começa com um mini, logo acima. | |