dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
30.12.04
Cinema. Nesta semana em que trabalhei pouco, vi dois filmes brasileiros: "Contra Todos", de Roberto Moreira, que comentei com brevidade logo abaixo, e "Entreatos", o badalado documentário de João Moreira Salles, sobre a campanha de Lula à presidência. Em comum, ambos trazem a captação digital das imagens. "Entreatos" tem razões óbvias para isso: agilidade, mobilidade. "Contra Todos", não sei dizer. Mas seja por custo, seja por opção estética (?), o resultado é sofrível. "Entreatos" não chegou a ser uma grande surpresa, pelo tanto que a imprensa falou no assunto e pelo tempo que demorei para conseguir vê-lo. Quase tudo já havia sido comentado. Mesmo assim, trouxe ainda revelações saborosas e conta muito sobre Lula. Mostra o perfil de um líder natural, um mistério para mim: o que faz alguém ser líder? Ponto alto é o registro de Lula falando, no avião que o conduzia na campanha, sobre o PT, sobre ele mesmo, sobre liderar. A notar, também, o momento em que recebe de Serra o telefonema de reconhecimento da vitória petista. Pela primeira vez, Lula aparenta ser presidente. Presidentíssimo. Um grande e histórico documentário. *** Em tempo: votei no Serra. *** Cinema. A Folha de S.Paulo deu 4 estrelas (nota máxima) a "Contra Todos" e uma estrela (segunda pior nota) a "A Dona da História", de Daniel Filho. Vi os dois. Já comentei "Contra Todos", esse conjunto de cacoetes que se repetem quando os diretores de cinema de classe média alta tentam escancarar a seus pares o quanto a vida é cruel na periferia, gerando uma nauseabunda estilização da miséria. Roberto deveria assistir de novo a " Cidade de Deus" ou aprender algo com "O Invasor", de Beto Brant, e "Capão Redondo", da Teca Eça. "Contra Todos" é "cinema-denúncia" pueril. Mas parece que isso ainda pega bem. E o que explica a cotação baixíssima atribuída a "A Dona da História"? O filme de Daniel Filho é baseado em peça de João Falcão e tem roteiro do próprio Falcão, com Daniel Filho e João Emanuel Carneiro. É uma história romântica, água com açúcar, mesmo. Mas é muito bem dirigido, montado com competência e com fotografia que não deve nada ao bom cinema internacional. Some-se a isso uma atuação magistral de Marieta Severo. Só ela já valia duas estrelas. No entanto, parece haver uma antipatia natural e antiga da crítica de elite a tudo o que possa significar indústria de cinema. Como se entretenimento e lucro fossem pecados mortais. Pior: esses mesmos críticos dão 5 estrelas (merecidas, aliás) a "Singin´ in the Rain". Nossa elite é cronicamente caipira. *** Cinema. Acabei de ler " O Caderno de Cinema de Marina W.". Acabei, não: li até o fim. Esse é um livro que não se acaba de ler. Dá vontade de começar de novo e ir alugando filme a filme para poder conversar com o livro. Na verdade, o "Caderno" é mais que um livro. É um interlocutor. *** Cinema. "Cidadão Kane". Tenho, como todo mundo que gosta de cinema, minha lista dos dez mais. "Cidadão Kane" sempre está nela, mas fazia uns dez anos que eu não o via. Vi ontem, acho que pela sexta ou sétima vez. Surpreendeu-me de novo. Como um filme pode durar tanto? *** Cinema. O pior filme que eu vi não foi nenhuma das obras de Ed Wood. Não foi Godzila. Não. Não há nada pior do que "Gabriela", de Bruno Barreto (1982), com Sônia Braga e Marcello Mastrioani. Ao contrário dos citados acima, esse filme se leva a sério, apesar do roteiro risível, da direção de atores tacanha e da tentativa escancarada de exportar a idéia do Brasil sensual, malemolente e levemente alcoolizado. Parati passando por Ilhéus é apenas mais uma parte do embuste. Um horror do começo ao fim, onde nem Tom Jobim se salva. Quantas estrelas ganharia na Folha? | 28.12.04
Se esse ano tivesse um nome, bem poderia ser Tsunami. *** As frases mais cafonas da história: "Saudade é uma palavra que só existe em português" e "Pena que a TV não seja a cores" . Acho que as duas são de dona Hebe, nos tempos da TV Record, ainda em preto e branco. *** Esta época do ano não deixa ressaca. Ela é a própria ressaca. Olhe em volta, confira. *** Fui, finalmente, ver "Contra Todos", de Roberto Moreira, cujo trailer berrava "dos mesmos produtores de 'Cidade de Deus'!". De fato, é contra todos. Contra mim, inclusive. *** Em tempo: digital demais, a câmera nesse filme. Trash gratuito, esteticamente irrelevante e pueril. *** Pensando bem, não deixa de ter um final feliz. | 23.12.04
Não ando mesmo com muita sorte. Ligo a TV à noite, ao chegar em casa, e lá está a bela Ana Paula Padrão -- justamente no momento do "daqui a pouco", aquele que precede o intervalo comercial. Eu deveria ter desligado enquanto era tempo. Entra um comercial de cerveja que, por uns segundos, me fez pensar que eu estava bêbado. Mostra dois jovens rapazes com calor. Um propõe ao outro tomarem uma cerveja. Na seqüência, aparecem hordas de velhinhas (!) perseguindo os dois, que fogem até alcançar um bar, onde se jogam dentro da geladeira de cerveja (!). Deu pra você? Pois tem mais. A geladeira se abre de novo, os dois saem e, magicamente, tudo tinha se transformado numa praia com belas mulheres, entre elas a Ivete Sangalo (!). Agora deu? Deu pra você? Pois tem ainda mais: os dois rapazes saídos da geladeira acomodam-se em duas cadeiras de praia, cada um com uma caneca espumante de cerveja na mão. Um deles olha o parceiro e diz algo como: "Mas o que falta, o que mais a gente podia querer?" Pra que! Na mesma hora, o coitado se transforma na Ivete Sangalo (!!) Não, ainda não acabou. Pra acabar, a Ivete Sangalo, depois de ver o sorriso entusiasmado do amigo, diz alguma coisa inteligente como "Fala sério!". Com voz de homem (!!!). Desliquei a TV me achando sóbrio demais. Fui à cozinha atrás de algo para beber. Tinha uma cerveja na geladeira. Desisti, peguei o jornal, a Veja velha, acabei ligando a TV novamente. Jô Soares anuncia que vai entrevistar Danuza Leão. Oba! Achei que o boot na maquininha de fazer doido (era assim que o Stanislaw Ponte Preta chamava a televisão) tinha dado bom resultado. Espero o intervalo, ele volta com uma piadinha de lascar mas finalmente anuncia Danuza. Ela entra, está mais velha, traz os efeitos de uma ou duas plásticas, mas o charme, a postura, a graça continuam. A entrevista promete. Não há o que o gordo possa estragar. Não há? Ora, eu sempre subestimo as pessoas. No primeiro minuto do jogo, ele pergunta sobre uma festa em Paris, fim dos anos 50, na qual Danuza teria estado, já como modelo do costureiro francês Jacques Fath. Ela se lembra, vai comentar -- e é interrompida pelo gordo com a seguinte pérola: "Ah, eu tava nessa festa com a minha mãe, era menino, ainda". Gafe inacreditável, mas Danuza sai-se com classe, diz algo como "Ora, Jô, eu também era quase uma menina". Parecia que tudo estava contornado. Jô, então, faz uma pergunta sobre Samuel Wainer, o grande amor de Danuza, algo na linha do "Como tudo começou?". Ela contou como havia sido apresentada a ele numa situação inusitada: um amigo comum a levara à cadeia onde Samuel estava preso pelos militares de 64. Fala, então, da primeira conversa que tiveram depois, como havia se encantado com o jeito com que ele conduzia a situação. O gordo interrompe de novo, com outra pérola: "É, o Samuel era conhecido por fazer o interlocutor acreditar que era mais inteligente do que ele". Quem mandou? Eu é que inventei de ligar de novo a TV. Ainda mais no canal do cara. Pedi, recebi. | 22.12.04
Uma grande surpresa do segundo semestre foi "Adriana Partimpim", o último CD de Adriana Calcanhoto. Motivado por uma das faixas, "Oito Anos", de Paula Toller e Dunga, que retrata a fase em que a criança tem um "por que?" para tudo, resolvi colocar aqui alguns de meus "por ques". Quem sabe me ajudem a crescer e ficar um pouco mais perto dos meus oito anos? 1. Por que cantoras gaúchas cantam com sotaque carioca? 2. Por que as pessoas põem zeros na frente de numerais "solteiros" (por exemplo, "02" em vez de "2")? 3. Por que muitas vezes o jeito mais complicado de falar impera sobre o mais simples ("ao invés de" em lugar de "em vez de", "aguardar" no lugar de "esperar", "a nível de" em lugar de "")? 4. Por que eu abaixo o volume do rádio do carro quando estou procurando um número na rua? 5. Por que as mesmas pessoas que são grosseiras no trânsito são gentis no elevador? 6. Por que paulistas dão um só beijo na face e cariocas, dois? Por que isso se inverte de tempos em tempos? 7. Por que todo mundo quer ser publicitário? 8. Por que os chatos, com toda a rejeição que enfrentam, não desistem? 9. Por que a gente fica amigo de alguém? Por que isso dura tanto e é tão bom? 10. Por que uns mandam e outros obedecem? 11. Por que todas as mulheres do mundo acham o Chico Buarque de Holanda um tesão? 12. Por que o Rio de Janeiro atrai tantos governantes asquerosos? 13. Por que os boatos e as piadas se espalham? 14. Por que a Nara Leão some e a Simone de vez em quando aparece? 15. Por que São Paulo ainda cresce, se não cabe mais? 16. Por que o mundo ainda tem tantas dúvidas? 17. Por que há pessoas tão mais lindas do que outras? 18. Por que ainda existem fanáticos? 19. Por que há gente que mente muito? 20. Por que os homo sapiens sobreviveram? 21. Por que os outros planetas não falam mais rápido? 22. Por que o mundo não é governado? 23. Por que dói? 24. Por que uma mulher como a Luana Piovani faz plástica? 25. Por que a gente gosta tanto de falar da vida alheia? 26. Por que os preconceitos duram? Por que os conceitos não são suficientes para extingüí-los? 27. Por que uns têm ouvido musical e outros não, se todos temos ouvido? 28. Por que chove exatamente na hora em que eu decido sair de casa? 29. Por que as buzinas são estridentes? 30. Por que o celular sempre toca quando a gente está fazendo cocô? 31. Por que ela não telefona? 32. Por que eu não telefono? 33. Por que sorriso encanta? 34. Por que nós não ouvimos mais Pixinguinha, enquanto os americanos ouvem mais e mais George Gershwin? 35. Por que se pergunta separado e se responde junto? | 20.12.04
Meu amigo Gilberto Franco, um dos pioneiros da arquitetura de luz no Brasil, colocou em nossa comunidade de ex-alunos da FAU o seguinte comentário: Quando foi feito o Memorial JK, dizia-se que a escultura era uma alusão ao símbolo do PC. Não se pode dizer que seja igual, nem que seja diferente. Agora, temos pronto o Auditório do Ibirapuera. Pode ser uma alusão à empresa que patrocinou o auditório? Não se pode dizer que seja igual, nem que seja diferente. Não costumo publicar fotos por aqui, economia de peso, sei lá se o Google um dia desses não vai implicar com essa presença de favor que eu vou levando com a barriga e os dedos. Mas aqui, eu achei que valia ilustrar a curiosa coincidência que o Gil, com sua costumeira perspicácia visual, nos aponta.
Que lembra, lembra, né não? | 17.12.04
Mourato Coelho com Teodoro Sampaio, sinal em que passo todo dia, vindo para o trabalho. Fica amarelo, vermelho e então, mais que depressa, dois garotos esticam uma faixa à frente dos carros. Em vez de pedir contribuições para alguma criança pobre com doença terminal, como é o padrão deste tipo de ação, a faixa traz, bem impresso em material plástico, um anúncio. Isso mesmo, um anúncio. Uma lavanderia fez uma promoção e achou essa maneira de comunicar. Mal o sinal começa a mudar, os dois recolhem a faixa e, pacientes, esperam mais um break, ou melhor, mais um sinal fechado. Engatei a primeira e fiquei o resto do caminho matutando. Será que a propaganda está num grau de pindaíba tal que precisa se apropriar da mídia dos desvalidos? Depois de uma manhã cheia de jobs a terminar, acabei saindo já depois da uma da tarde para comer alguma coisa rápida perto do escritório. Ia atravessar a Faria Lima quando me dei conta de que vinha em minha direção, a mais ou menos cinco quilômetros por hora, um Ford Fiesta que parecia muito ter sido fabricado em 1975. Ok, não havia Ford Fiesta em 1975, mas, não fosse por esse detalhe, eu juraria que aquele era o ano do carro, tão acabado ele estava. No teto, dois alto-falantes mal presos anunciavam aos berros, para os passantes indiferentes, os preços incríveis de uma certa loja de varejo. Detalhe: é uma das cinco maiores da cidade. Voltei do sanduíche -- que aliás desceu meio torto -- sem conseguir esquecer do carrinho estridente. Olhei, ali pouco mais de cem metros adiante, o Largo da Batata. À esquerda, outdoors, todos muito feios e muitos deles vazios, mostrando suas horrendas estruturas de madeira e metal. Prédios com painéis imensos ajudavam a gritaria visual. Dei-me conta de que mais da metade do que se via em volta era ou havia sido propaganda. Ninguém conseguiu disciplinar isso em São Paulo. As pessoas vão se acostumando com essa saturação e vão tolerando, sem perceber o mal que isso lhes faz. Do jeito que a coisa vai, em poucos anos, todos vão aceitar com certa docilidade o fato, consumado, de viver em um imenso Largo da Batata. | 15.12.04
Mini 52 (influenciado pelo espírito natalino) Tinha dez olhos no lugar dos dois que perdera ainda jovem. Via com as pontas dos dedos. Divertia-se adivinhando a origem das tensões de seus clientes. O toque lhe revelava a alegria de uma venda feita, o relaxamento de um amor novo, a meia trava de uma rotina enfadonha, os nós -- diferentes, os da mera fadiga e os da dor verdadeira. Tocou na cliente da segunda de manhã. O óleo facilitou o passeio dos dedos. Apenas por um segundo. Tirou as mãos como se a pele desse choque. -- O que foi? -- ela perguntou. -- N-nada. -- Você sabe! -- N-não, eu fico assim no inverno. Ele sabia. Ela entendeu. Foi a última sessão antes dele aparecer estatelado sobre a calçada. Dez andares. Um para cada olho. | 13.12.04
É a última vez que falo nesse assunto. Sei que já estou passando do limite mas as fotos que vi e as entrevistas que ouvi falaram alto demais. Estou convencido: Marta Suplicy vive um enorme dilema pessoal. Só isso explica a forma como ela anda (mal)tratando a própria imagem pública. Eu já disse aqui que achava que havia algo nela, um pulso no subconsciente, disposto a perder a eleição para poder viver um grande amor em período integral. É como o cara que exercita tendências suicidas superando limites em uma asa delta. No fundo, ele não rejeita a queda, namora-a. Marta tem flertado a queda de um jeito sistemático e progressivo. Parou de administrar São Paulo. Você dirá que é fim de mandato, que ela quer jogar o maior abacaxi possível no colo do Serra (a atuação de seus vereadores revela isso). Ok, pode ser isso, mas político que quer continuar político faz isso com mais habilidade. Perder e ir para Milão, fantasiar-se de princesa (ou de madrasta da Cinderela, como definiu uma jornalista italiana) na frente de lentes ávidas e flashes inclementes é viver muito perigosamente sua vida pública. Parece ser justamente esta vida que ela submete a riscos que são como vôos de asa delta na chuva, motocross sem capacete, surf na ressaca. Há uma Marta-íntima que quer matar a Marta-pública que a inferniza roubando seu tempo, demandando sua energia, exaurindo sua libido. Mas não é fácil, a Marta-pública reage, articula vendetas com seus edis, planeja a volta por cima, muito acima, em 2006. As duas estão aos tapas e estão ferindo uma à outra. Olhando daqui da geral, parece que vai dar empate, a não ser que uma das duas mude a tática e se subordine à outra. Mas isso significará renunciar a um ou outro projeto de final feliz. Eu disse aqui que uma das razões para a derrota de Marta era o fato de que não dá para tentar ser Maluf e Montoro ao mesmo tempo impunemente. Com relação aos últimos fatos e a esse conflito interno que parece se desenhar, eu acrescentaria que é impossível, também, ser Margaret Thatcher e Jackie Kennedy no mesmo corpo. É preciso escolher. E essa é a maior dificuldade por que passam os enfants gâtés. | 10.12.04
Continua e se intensifica a discussão sobre a interrupção da gravidez em caso de anencefalia do feto. Gostaria de colocar algumas questões para os inflexíveis senhores da igreja. A primeira: quando é que se considera morto um ser humano? A medicina diz que é quando ocorre a chamada morte cerebral. Não há volta deste estado, muito embora seja comum se detectar ainda alguma atividade muscular involuntária, aí incluídas pulsações do coração. Ora, o que dizer de um feto ao qual falta o cérebro? Desde logo, é um ser em estado de morte cerebral. Morto, portanto, sejamos claros, segundo os critérios correntes que definem esta dura fronteira. Se está clinicamente morto -- apesar da pulsação do coração -- a interrupção da gravidez é legítima inclusive se levados em conta os critérios dos inflexíveis senhores da igreja. Já se eles insistirem em sua inflexibilidade, terão de alegar que, mesmo em morte cerebral, um ser pode estar vivo e, portanto, deve permanecer intocado. Bem, a se acatar este critério, os inflexíveis senhores da igreja devem, desde já, e por obrigação de coerência, iniciar uma campanha pública pela proibição de transplantes de órgãos vitais de doadores mortos para receptores vivos. Simplesmente porque, a se aceitar a tese de vida sob morte cerebral, a lógica mais simples nos leva a concluir que, enquanto houver uma célula viva e em atividade num corpo humano, este ainda está vivo e é, portanto, inviolável. Pode-se, então, ir além -- e deve-se, por questão de coerência. Se um ser morto com células vivas não pode ser retirado do corpo onde está alojado, por representar esse ato uma criminosa afronta à vida, os inflexíveis senhores da igreja devem, desde já, acrescentar a sua posição contra a interrupção da gravidez em casos de anencefalia do feto, outras contra a lipoaspiração, as diversas formas de cirurgia plástica, a remoção de tumores, a quimioterapia, a radioterapia, enfim, tudo o que implique remover ou eliminar tecido humano vivo. Mesmo tecido que não sobreviva ao ser retirado do corpo que o hospeda. É lógico, primariamente lógico. Não chega à sola do sapato da sofisticação filosófica de Santo Tomás de Aquino. No entanto, é incompreensível para os católicos fundamentalistas de hoje. Simplesmente porque são como todos os fundamentalistas: vale mais a ordem do que a lógica, mesmo que isso cause sofrimento, provações e riscos. Os inflexíveis senhores da igreja, se Deus quiser, não passarão. | 8.12.04
Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 3 Acordou com dia claro, aproveitando aquela primeira noite dormida em sua cama, depois de quase um mês sendo ninado pelo espocar de tiros e rajadas de metralhadoras. Ninguém na casa, as filhas deviam estar na escola, a mulher, na aula de inglês. Preparou seu café da manhã com calma e sem muito capricho. Depois do primeiro gole de leite com nescafé -- mania de infância lá do Brasil --, não pôde evitar um sorriso. Havia voltado ileso de uma empreitada de altíssimo risco: a cobertura in loco da renhida e sangrenta guerra da Bósnia-Herzegovina. Tinha sido, junto com outro brasileiro, um dos dois primeiros jornalistas latinoamericanos a entrar em Sarajevo. Nunca -- e observe-se que já havia coberto outras guerras -- nunca tinha visto nada tão intenso. A cultura não escrita dos correspondentes de guerra dá conta de que as batalhas se acirram ao amanhecer e no pôr-do-sol. Em Sarajevo, não. Era tiro, bomba, metralha o tempo todo, dia e noite sem parar, estivessem sol e lua onde estivessem. Mudara-se com a família para Londres pouco menos de dois anos antes, para assumir o cobiçado cargo de correspondente de um dos mais importantes jornais do país na terra de Sua Majestade. Ganhara, no jargão irônico dos jornalistas, uma embaixada. Na época, não imaginava que suas matérias de maior repercussão seriam relacionadas à guerra. Moçambique, Angola, Somália, Kwait, Iugoslávia -- tinha estado nas fronts mais importantes dos anos 90. Xícara meio vazia na mão, passeou o olhar pela casa até parar na cadeira onde havia acomodado seu grande companheiro de batalha. Lá assentado, como um convidado especial, escarrapachava-se o leal amigo de todas as horas: o colete à prova de balas. Levantou-se, foi até lá e arrumou-lhe a posição. Quanto aquela pequena armadura moderna tinha facilitado a sua vida de repórter. Já na chegada a Sarajevo, num carro dirigido por um rapaz nativo em frenético zigue-zague, pudera perceber que escapar de balas era preocupação permanente por ali. Chegando ao hotel -- o único que ainda funcionava com alguma estrutura na cidade deflagrada --, foi logo abordado por um sujeito esquisito que sem muitas delongas reforçou a ameaça das balas e expôs a solução -- o colete -- e o preço -- escorchante. No volume, lembrava um pouco as roupas que os fotógrafos usam para carregar seus cacarecos, só que não tinha bolsos. Exibia uma estampa daquelas de camuflagem que se vê em filmes de guerra antigos. Era pesado, parecia ter uns cinco quilos. Mas isso, curiosamente, trazia conforto, era como que a concretização da proteção. Daquele dia em diante, tirava o colete apenas para dormir e tomar banho. Depois de reverenciar o companheiro, tomou um longo banho e preparou-se para o almoço. Um amigo recente, jornalista inglês, o havia convidado para almoçar, curioso com os fatos quentes da guerra, e ia apanhá-lo em casa. Quando chegou, o brasileiro, gentil, o convidou entrar e conhecer sua casa. Ali mesmo começou o assunto tão esperado, as histórias da guerra. Não demorou para que o jovem correspondente mostrasse ao colega inglês seu grande troféu: o colete. O já veterano companheiro pegou-o, apalpou, chacoalhou, como que a descobrir-lhe o peso, e afirmou: -- Muito bom... -- É, foi muito útil para mim. -- ...para proteger de tiros de calibre 38. -- Como? -- É, 45 já machuca bem. -- Mas em Sarajevo... -- É, Kalashnikov, não é? Essa, atravessa o colete, o usuário e o colete de novo e só pára quando encontra a próxima parede. -- Então? -- Ora, é um belo souvenir, de qualquer jeito. -- É. Belo souvenir... Não reclamou quando voltou do almoço e percebeu que a mal-humorada faxineira havia tirado o colete do sofá e guardado no armário dos guarda-chuvas, ao lado da escada. * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. | 7.12.04
Mini 51 Sobre uma pilha de livros de dois palmos, pousava o copo depois de cada gole, deixando "O" após "O" cor de vinho marcar a capa da grossa edição de "O Mundo Segundo Garp", que ele tinha lido nem a metade e parado, desconfortável com a beleza dos anti-heróis. Percebeu o dano quando já havia um colar de marcas redondas, que ele tentou, em vão, limpar com a manga da camisa. Devolveu o livro à pilha, admirado com a própria capacidade de fazer zeros. | 3.12.04
Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 2 (já publicado neste sítio, em novembro de 2003, com o título "Limites") Doeu. Agora, tinha mesmo de ir ao dentista. Ligou, apenas para saber que o próximo horário disponível era dali a dois meses. Conseguiu cavar um encaixezinho, quinze minutos na disputada agenda. Tempo suficiente para ouvir que a dorzinha era apenas a ponta de um iceberg de descuido, cuja dimensão só poderia ser avaliada com um diagnóstico mais amplo, a começar por uma radiografia completa e uma moldagem das duas arcadas. Saiu do consultório com uma guia que o encaminhava a uma clínica especializada em diagnóstico odontológico. No mesmo dia, lá estava ele. Era um casarão na Avenida Brasil onde certamente haviam morado vários quatrocentões desdentados e felizes. Ali começou a quebra de seu sigilo bucal: raio X das duas arcadas, dois a dois dentes. Sua dificuldade maior era a mal confessada gastrite, que parecia aumentar muito sua sensibilidade a objetos estranhos colocados na boca. Cada chapinha de filme colocada sob a língua ou junto ao palato lhe deixava no limite de uma golfada. Terminada a sessão de radiografia, mudou de sala para a segunda parte: moldagem. Nada fácil o procedimento: uma massa finíssima é colocada em um molde, uma fôrma de metal em forma de ferradura que se encaixa na arcada com a massa ainda mole e, assim que ela endurece e é retirada, lá está, carimbado, o formato exato dos dentes. A solícita e simpática técnica se aproximou com a forminha e ele logo avisou: - Eu tenho gastrite, eu enjôo muito fácil. A moça, piedosa, enquanto aplicava uma primeira camada de massa geladinha em seus dentes, antes de colocar o molde, explicou: - Eu tenho prática nisso, pode deixar. O indicador com a luva plástica passeava por sua boca, enquanto ele tentava explicar: - Oflha, eu flenho gasflifle. - Pode deixar, eu tenho prática nisso. - Maf gleu flenho... - Eu sei, o senhor tem gastrite. Bem. Colocou a primeira fôrma na arcada superior. Com um dedo sustentou-a por uns segundos, enquanto tentava acalmar o tenso paciente. - Tá tudo bem, né? Tá sentindo alguma coisa? - Glflh. - Viu? Daqui a pouquinho termina. Vai pro trabalho depois? - Glhvlhh. - Tá tudo bem, né? - Glh. - Sabe como eu faço com pessoas mais sensíveis que nem o senhor? - Glh, glh. - Eu ponho menas massa. - Gl-gl-Bgloeaaaaarghhhhhhh! - Não deu para segurar. Fôrma, molde e sua última refeição foram todos parar no colo da solícita e aterrorizada enfermeira. Ele tinha tentado se conter, mas naquele momento, "menas" foi mais. Na rua, voltou a dorzinha no dente. Só para lembrar que tudo aquilo era apenas o começo. * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. | 2.12.04
Fragmento de "O Preço do Peixe"*, 1 Era um fotógrafo experiente e apaixonado pelo ofício, mas a vida o havia levado a outra atividade profissional, tão mais rentável quanto enfadonha. Por isso, ficou encantado quando recebeu o telefonema de um conhecido produtor de gravadora multinacional. --Tenho uma foto para você. Dinheiro pouco, mas é para fazer a capa do disco do R. Havia anos que R. não lançava discos. Ele adorava o som de R. e adorava fotografar. -- Faço até com pagamento em guaranis. Negócio fechado, fez algum malabarismo para conseguir chegar, dias depois, à locação da foto, com assistente, equipamento, lentes e a mesma fluência de anos atrás. Uma vez lá, não demorou mais do que cinco minutos para se lembrar de tudo e comandar a cena. Começou puxando assunto com o astro, o ídolo veterano tantos anos longe da mídia. Achou engraçado: a cada pergunta, o pop star respondia com um sorriso. Concordava com tudo, falava pouquíssimo, e sempre sorrindo. Vendo que a conversa não evoluiria, o fotógrafo começou a armar o set, fruindo cada segundo, concentrado e dedicado a produzir a melhor foto. Não conhecia a locação: era a sala de uma casa chique de um bairro muito chique. A graça do espaço era uma lareira. Num instante imaginou a foto: o velho astro sentado placidamente em uma cadeira de espaldar alto, com ou sem um violão na mão, testaria as duas possibilidades, e, atrás dele, o fogo, fogo intenso obtido na foto como efeito de um tempo de exposição maior. O contraste entre a excitação da chama e a placidez do astro faria a alma da capa. Insight digerido, começou a montar a cena, comandando sua produção. Lenha! Quem sabe fazer fogo? Cadeira. R., pode sentar. Tochas. Rebatedores. Posicionem a câmera. Não, depois eu faço sem tripé. Deu ordens, tomou decisões, logo armou o set para os primeiros cliques, o fogo mais intenso, o músico na cadeira ao lado, sorrindo. Depois de meia hora, tempo record, tudo pronto. O músico na cadeira ao lado do fogo. Sorrindo. Estava chegando a hora do primeiro clique. Faltava a última afinada na luz. O fotógrafo, então, reclamou para si mesmo da intensidade do fogo -- era uma fonte de luz fora de seu controle -- e só então se lembrou de que, além de iluminar, aquilo devia ser quente. Bem quente. Olhou para o rosto sorridente do veterano pop star e observou: -- Me avise se estiver muito quente aí. Um fogo assim pode queimar suas costas. -- Já queimou -- respondeu, alegre e com inabalável sorriso. No fim, a foto saiu bem, com o velho músico sorrindo e outra camisa no lugar da chamuscada. Os produtores evitaram maiores problemas com picrato de butesim e dois dedos de prosa. A amnésia do astro faria o resto. O fotógrafo matou a saudade, ainda que por pouco tempo. * "O Preço do Peixe" é um livro que pretendo escrever para registrar em preto no branco histórias, "causos" mesmo, que ouvi relatados por amigos, sempre como tendo acontecido com eles. É isso que tento fazer: vender o peixe pelo preço que comprei. Ou com umas moedinhas a mais. | 1.12.04
Logo agora que tanta gente nova está passeando por aqui, eu estou atolado de trabalho e não consigo postar novidades. Há um mini no forno e a retomada de uma série que é projeto antigo, nome provisório "Fragmentos de 'O Preço do Peixe'", coleção de casos que ouvi e repasso pelo preço que comprei. Espero postar o primeiro amanhã. *** Estou encantado com o disco novo de Adriana Calcanhoto, Adriana Partimpim. É um passeio cuidadoso pelo universo infantil. Sempre achei Adriana uma cantora de qualidade, mas um pouco afetada. Neste CD, ela está precisa, quase joaogilbertiana. Destaque para as canções "Fico Assim Sem Você", da dupla carioca Claudinho e Bochecha, e "Saiba", de Arnaldo Antunes, além da bela releitura da "Ciranda da Bailarina", de Chico Buarque e Edu Lobo. *** Quem gosta de arquitetura põe o dedo aqui. Guga Alayon expõe, despretensiosamente e com muita foto, seus projetos. O resultado é um delicioso passeio por lugares onde a gente gostaria de morar, jantar, dormir, brincar. Depois de anos desfiando e desafiando conceitos sobre o assunto, cheguei a uma definição do que é boa arquitetura: é aquela em que é gostoso estar dentro. *** Há dias em que o trabalho é, digamos, inglório. A gente martela, puxa, estica, dá dois pulinhos, finge que vai sair para enganar a modorrência e nada: produzimos mediocridades. Será que o Oscar Niemeyer tem disso? E o Chico? | |