dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
29.11.04
O começo da semana mostra nuvens ao lado de raios de sol teimosos e fortuitos. É o fim do ano chegando e eu chegando a ele -- no meu estado habitual de progressiva exasperação. A cada ano que passa eu gosto menos do fim do ano. Não, nada a ver com expectativa de vida encolhendo ou angústia do tempo se esvaindo. O que me perturba é essa falta coletiva de comedimento, esse culto aos pernis e às fitas vermelhas, essa amazônia de pinheiros e castanhas, esse coro incessante de io-hô-hôs anunciando seus sacos de presentes e sua sublimação obesa e esterilizada. Eu não conheço um só adulto que, no fundo, não ache isso tudo um porre. Consola-me apenas ver as crianças regaladas com os doces e os mimos. No entanto, tenho para mim que mesmo elas, intimamente, também amargam alguma ressaca dessa orgia. *** Passei alguns anos acreditando na idéia de uma sociedade igualitária e no princípio rousseauniano de que "o homem é bom, a sociedade é que o corrompe". Com isso, durante boa parte da minha vida, me debati com a angústia de que a humanidade se dividia em três partes: os oprimidos-incompreendidos-explorados, os opressores-incompreensivos-exploradores e os incautos, que, sem saber, faziam o jogo do segundo grupo, servindo-lhe como massa de manobra. Com isso, ao longo de muito -- e precioso -- tempo, me vi inserido num mundo injusto, no qual os injustos é que venciam a surda batalha, enquanto os perdedores não conseguiam sair do jugo -- e não conseguiriam enquanto não promovessem uma autêntica revolução. Demorou para que eu deixasse de olhar todos ao meu lado como opressores ou como coniventes por omissão. O ser humano é tão mais do que isso, tanto no lado bom quanto no outro, que talvez a maior descoberta da minha vida tenha sido a do próximo logo ali. Hoje, mesmo pertencendo à mesma espécie que W. Bush e J. Stálin, eu adoro ser humano. *** Tive a felicidade de me encontrar com velhos amigos dos tempos do colégio, que não via há décadas. Adorei perceber que, com os mais próximos, simplesmente a conversa continua. Uns estão mais gordos, outros estão iguais, outros ainda melhoraram muito com a bem aplicada dose de tempo que lhes foi ministrada. Entre outras transformações, mudaram as musas. *** Comentário rápido: desabou a 9 de julho. Quem manda fazer malufices? | 26.11.04
A capa da Carta Capital anuncia uma entrevista de Celso Furtado, realizada há quatro anos, inédita, na qual ele prevê o andamento, digamos, estrito do governo Lula. Na minha opinião, ela vem procurando ser atenuante no julgamento que, desde 3 de outubro, já começou. *** A Folha de S.Paulo mostra o presidente Lula jogando um papel de bala no chão. A mídia começa, junto com a elite, a deslular. Pelo menos é o que dizem uns ali, insinuam outros acolá. O discurso é: se é para copiar o que havia antes, melhor é retomar o original. *** Neste ponto, merece atenção outra matéria da Carta Capital, que compara o governador de São Paulo e presidenciável tucano Geraldo Alckmin com os políticos da República Velha, mais exatamente com Washington Luiz, Campos Salles e Júlio Prestes. Acho um pouco pesado, embora não ache Alckmin nenhuma grande novidade do ponto vista político e administrativo. O que é de se pensar é que tal texto não faria sentido se não passasse pela cabeça do colunista a possibilidade de que Geraldinho, como ele chama o governador, tenha chances de emplacar. *** Escrotices da semana: insinuações de que pode haver "inquietação" dos militares, a partir do exército; novos assassinatos de sem-terra; PMDB; a prescrição da pena ou absolvição por decurso de prazo de Jáder Barbalho. *** Mereço esta sexta-feira. Mereço que amanhã seja sábado. | 24.11.04
Mini 50 Viu-se no espelho nua. Não sem susto. Percebeu que há anos não se dava conta de que todo dia ficava nua. Olhou-se nos olhos. Desviou o olhar para a pele distante. Mamilos, umbigo, esterno, pelos, pintas, costelas, esquecimentos. Lembrou-se de olhares e dedos e cheiros e jeitos. Mas tudo de outras pessoas. Olhou de novo. Tocou o mamilo direito com a mão esquerda. Elevou-o um pouco, quase posando. Quis uma foto. Não sabia quando ia ver-se de novo. | 22.11.04
Começa uma nova semana. Ainda bem, porque a passada não foi mole, não. Teve Condoleeza Rice guindada a chanceler, teve as cenas dantescas do Rio de Janeiro, com turista abatido a tiro, a polícia garotinha reativa, coletando e espancando os suspeitos de sempre, a polêmica capa d'O Globo, mostrando um desses suspeitos espancado, e a enxurrada de protestos que isso gerou (não contra o espancamento, mas contra a foto!), teve ainda o cinismo a toda prova do PMDB e seu teatrinho do gênero "agora zanguei". Mas o que me trouxe um azedume especial foi um e-mail que recebi de um amigo comentando uma nota do Marcelo Tas, publicada em seu site, espinafrando o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony. A razão da espinafrada? Cony teve ganho de causa em uma ação movida contra o Estado por perdas decorrentes de uma arbitrariedade cometida contra ele pela ditadura militar. Na época, os gorilas no poder determinaram que o jornal em que Cony trabalhava o demitisse sumariamente por conta de um editorial de conteúdo contrário aos interesses do governo. Quando li a nota, custei a acreditar que fosse do Tas, um cara de currículo tão ilustre quanto sua própria ascendência (ligada, parece, ao pensador católico Alceu Amoroso Lima), um desbravador que esteve presente e deixou sua marca em uma das grandes viradas de página da cultura de massa no Brasil, o momento em que a produção independente de TV e cinema impôs aos donos da bola novas regras e referências. A nota é rastaqüera. Se fosse mais um spam anônimo ou mesmo de atribuição falsa (quantos "veríssimos", "millôres", "jabores" você recebe por dia?), daria para digerir e dejetar. Sendo do Tas, é de parar, olhar e ficar constrangido. Mandei um comentário à nota, dizendo que ele deveria melhorar o salário do ghost writer ou reassumir. Gracinha sem graça, não adoça o azedume de ler uma coisa tão vulgar escrita por uma figura à primeira vista admirável. O que preocupa é ver alguém que, além de preparado e informado, viveu boa parte de sua vida adulta sob a ditadura, é testemunha ocular dessa farsa sangüinolenta e obscurantista que os militares, seus patrocinadores e seus seguidores tentaram transformar em modelo de nação. Condenar Cony por ter obtido ganho de causa nesse processo, alegando que o valor em dinheiro que o juiz arbitrou é muito alto é uma afirmação equivalente a lamentar a condenação do coronel Ubiratan Guimarães -- o que comandou a chacina do Carandiru -- por ter sido de quatrocentos anos e não de cinqüenta ou de seiscentos. Pondo as coisas nos devidos lugares: Cony foi vítima de uma arbitrariedade, uma ilegalidade cometida pelo Estado, que interferiu diretamente em sua carreira. Foi buscar o justo reparo -- que é o que todos nós deveríamos fazer sempre que nos fosse impingida uma ilegalidade. A justiça lhe deu sentença favorável e determinou o reparo que julgou cabível. É muito dinheiro? É pouco dinheiro? Isso, não cabe à vítima julgar, nem ao algoz. Parece bestamente óbvio? No entanto, a repercussão coloca o Cony como um aproveitador oportunista. E pior, parece que essa é a versão que tende a ficar na boca do povo. O que assusta é ver um formador de opinião importante emitindo uma opinião tão frágil e ao mesmo tempo tão virulenta e raivosa. Pior ainda é vê-la disseminada e apoiada. É um sintoma que lembra a degeneração dos valores coletivos que desaguou no nazismo, na Alemanha dos anos 30 do século passado. Condenar a vítima é algo que a gente vê com certo nojo nas notícias que vêm dos buracos mais atrasados do mundo, contando sobre moças estupradas condenadas por adultério à morte por apedrejamento. É algo que cheira a subdesenvolvimento, a indigência ética e intelectual. No entanto, é exatamente o que Tas faz com Cony. Pelo alcance das opiniões do jovem jornalista, acho que ele comete uma leviandade imperdoável. Resta torcer para que, ao menos, não seja irreparável. | 19.11.04
Não há heresia mais traiçoeira do que o fundamentalismo religioso. Tomem-se os exemplos mais conhecidos, os vértices do triângulo mitológico formado por judeus, cristãos e muçulmanos em torno do mesmo Deus. Não é preciso mais do que um olhar, a leitura de duas linhas, um minuto do som que emitem, para termos a exata sensação de que os fundamentalistas de qualquer das três doutrinas estão do lado do filme em que mora o bandido. Só para lembrar de exemplos mais vivos na memória, cito três, que ainda por cima fazem política do fundamentalismo religioso: Bush, Bin Laden, Bini Netanyahu (acreditem, Ariel Sharon é quase mocinha perto dele). O que os três inspiram? Ódio, medo, repulsa. No que os três baseiam sua popularidade? Na disseminação de ódio, medo e repulsa. E como medo, ódio e repulsa podem estar ligados ao que é divino, criador, iluminado? Só pela via da apropriação indébita. Os ditos fundamentalistas tomam para si o que não é seu nem de ninguém: a interpretação absoluta e definitiva do que se coloca como a manifestação do transcendente -- os textos sagrados. "Está escrito", rosnam. Sim, está escrito. Mas o que significa? Alguém escreveu, alguém representou, traduziu em uma linguagem, com todos os limites que uma linguagem tem e que a faz, desde que o mundo é um mundo escrito e retratado, passível de interpretações. O exemplo que gosto de citar é a primeira frase do primeiro versículo do Evangelho de João: "No princípio era o Verbo". Que verbo é esse, com maiúscula, e que se atreve a "se fazer Deus", e mesmo a "ser Deus"? Para mim, é extremamente claro: se o que foi dado ao evangelista para desenhar, designar, representar o infinito, era a palavra, o escrever, o que pode ser mais infinito do que o verbo? João constrói, com maiúscula, o verbo dos verbos, o infinitivo absoluto. Confessa, em três linhas, que propõe, no Verbo, a representação de Deus -- a mais grandiosa, na minha opinião. Pois bem, eu posso estar dizendo uma bobagem, conseqüência de uma alfabetização duvidosa. Ou posso ter tido o insight do milênio. Não importa: na visão dos fundamentalistas, por ter interpretado autonomamente, eu não li. E se eu perguntar a um deles o que quis o evangelista dizer, ele condenará a pergunta. O mundo, na entrada deste terceiro milênio, se vê sob a sombra da batalha movida por esses seqüestradores do sagrado, os que tomam como seu o que é de Deus. São, literal e etimologicamente, os sacrílegos -- aqueles que querem legislar o sagrado e, portanto, usurpar o que é de todos. O mundo está sob o domínio desta gente. Piorou com a reeleição de Bush. Os novos postos de Condoleeza Rice e Alberto Gonzales mostram para onde ele vai. E vai montado nos hereges vestidos de santos. Há quem fale em anti-Cristo, a figura mítica do apocalipse popular. Não. Esses caras não são tão espetaculares. Ao mesmo tempo, são equânimes: são anti-Cristo como são anti-Maomé, anti-Abraão, anti-todos-nós -- pelo menos aqueles entre nós que reconhecem a importância da paz, simples assim, em caixa baixa mesmo. O problema crucial é: nós, que somos da paz, só vamos vencer quando a palavra batalha não fizer mais sentido e a palavra tolerância virar clichê. Até lá, vai ser feliz Bush novo. | 17.11.04
Fui à FNAC atrás do "Tratado Geral dos Chatos", de Guilherme Figueiredo, o irmão do general. Como imaginava: esgotado. Em todas as filiais da FNAC. Desde março ninguém pede o livro, segundo me informa a prestimosa atendente. Sinal de que não há muita gente, como eu, interessada no tema. Não perdi a viagem. Estava com Aninha e, juntos, nos divertimos com a banca de livros em promoção. No fim, tomando um café expresso, chegamos à definição que provavelmente resume o livro de Figueiredo: "O chato é um psicopata carente". Temos dito. *** Depois da chuva, Michel Temer, presidente do PMDB, no Roda Viva. Incrível: é um político sem alma, um tecnoburocrata, sem paixão e, ao mesmo tempo, sem erudição no ofício. Um advogado enrolador, com pinta de defensor de bicheiro. É este sujeito que ocupa a cadeira que já foi do doutor Ulysses. Cadeira que hoje serve apenas para chantagear o governo federal. Que, por sua vez, montou-se convidando e encorajando esses caras a agir assim. Falaí, Dirceu. *** Me atrevo a fazer poesia, embora concorde com os versos de Caetano Veloso (observe-se, melhor poeta do que prosador): "Dizem que a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade. E quem há de negar que esta lhe é superior?" *** "Má educação" e "O Abraço Partido". Cada vez mais me convenço de que, nos dias de hoje, o cinema se supera em espanhol. *** "La Mala Educación" é um divisor de águas no cinema de Almodóvar. É menos cômico (ou será nada cômico?), é mais gay e, acima de tudo, é mais dramático. Ao mesmo tempo, é o que coloca o ambiente gay como cenário natural, quase sem caricaturas, "taken for granted". Menos teatral, mais gay: um paradoxo de novo. De novo, Almodóvar. *** "El abrazo partido": de início, achei velhuscos o tratamento - câmera na mão, sem prumo, edição nervosa, quebrada - e o tema - argentino em busca de uma saída para emigrar. Com poucos minutos, no entanto, o filme revela riquezas e sutilezas, ao mostrar a vida em uma galeria de lojinhas em Buenos Aires, com um elenco poderoso e um roteiro rico e cheio de enredos paralelos. Como com seus vinhos, os argentinos fizeram a opção de produzir seu cinema com capricho. Bebamos, pois. | 12.11.04
Lita Ela achava que, tirando Shakespeare e Cervantes, ninguém havia criado um personagem tão marcante quanto o conselheiro Acácio, do Eça. Nem Homero. "Onde mais você viu um coadjuvante virar arquétipo? Só em Shakespeare e no Dom Quixote, e olhe lá". Seu grande ídolo contemporâneo era uma mulher, a Pasionaria, a que gritava "no pasarán", mesmo com as evidências de que "se habían pasado". Seu grande vilão, depois de Hitler e Mussolini, era Carlos Lacerda. "Sorte que nasceu no Brasil". Explicava: "Se tivesse nascido nos Estados Unidos, faria Reagan e os dois Bush parecerem freirinhas da PUC". Quando o telefone tocou, num fim de tarde sem nada de especial além do solitário envelope embaixo da porta, atendi, esperando que, do outro lado, da linha, viesse mais uma oferta. - Seu Gregório? - Sim. - Pediram que eu avisasse: dona Lita faleceu. A pessoa do outro lado da linha não me conhecia, nem eu a ela. Ligou porque meu nome estava em um caderno que trazia lá em uma página mais uns oito ou dez nomes, sob a rubrica "amigos". Tudo com telefones atualizados e - pasmei - e-mails. Lita havia conseguido brigar com todos os amigos. Aliás, passara a vida fazendo isso, o que era parte de seu encanto. Mas depois dos quarenta, foi enrijecendo, ao contrário do que acontece com as pessoas comuns, e radicalizando seus filtros, estreitando a peneira. Era divertido ser vítima da ira de Lita. Tudo porque ela voltava, sempre sem pedir desculpas, e nós, os amigos, aceitávamos sua volta com prazer. Perdões tácitos e multilaterais. Só que, depois dos quarenta, ela parou de perdoar. Suas discussões sobre qualquer assunto eram tão ácidas que as pessoas menos próximas a evitavam e as mais próximas, como eu, tentavam relevar. Mas ela nos olhava como crápulas, como traidores vulgares ou como imbecis desinformados. E parecia exigir que confessássemos pertencer a uma escória mágica, porque ao mesmo tempo vilã e burra. Passei mais de vinte anos sem a ver. Me fez falta. Mas jamais a tive de novo em minha agenda. Saber que ela tinha meu nome na sua me fez mal. Me fez lembrar que pensei nela todos os dias de minha vida desde o dia em que a conheci. E que, ainda assim, fui capaz de passar mais de vinte anos sem a ver. Porque tive medo, porque não tive tempo, porque noblesse isso, noblesse aquilo. Vou vê-la. Vou à morgue indicada pela pessoa ao telefone. Não sei como voltar depois. Não sei se quero. Mas sempre tem alguém que se apieda. "É para isso que a natureza deu essa cara a quem tem noventa anos", ela dizia. Vou vê-la em breve. | 11.11.04
Semana cheia de trabalho. Não há melhor antidepressivo. Bem, há sim. Mal escrevo isso, já me lembro de pelo menos dois. E não incluo os químicos. *** Estou atrás do "Tratado Geral dos Chatos", do escritor carioca Guilherme Figueiredo. Sim, aquele, irmão do falecido general presidente de triste memória. Na Fnac tem. Preciso entender melhor essa categoria humana. *** Sou um cara mais feliz. Comecei a estudar história da arte com ela. Onde? Aqui mesmo, nesta telinha que acompanha meu calvário. Quanto? É a melhor relação benefício/custo da década (atenção jornalistas, se vocês se lembrarem dos rudimentos da matemática, verão que o certo é falar da "relação benefício/custo", não o contrário). Tudo pela internet, com direito a uma leitura deliciosa, fluida e um conteúdo abrangente e enriquecedor - e compreensível mesmo por mentes mais toscas como a minha. Em algumas semanas, não serei mais aquele cara que não sabe a diferença entre a Vênus Esteatopígea o PIS que já vem no extrato. *** Depois da carta ao deputado (alguns posts abaixo), mantive correspondência com a chefe de gabinete do homem, doutora Damares. Pois bem, ela me convoca, depois de tudo, a entrar na luta do pastor Ronaldo. Que devo fazer? Onde posso me alistar? *** O MASP, até anteontem parecia no caminho do brejo. Novidades? Esperanças? *** Eduardo Suplicy e Mônica Dallari podem ter sido o grande fato político de 2004, no lado esquerdo do espectro. O namoro reavivou a imagem de bom moço do Senador e desfez a de tadinho, que o acompanhava desde o pé na bunda desferido pela prefeita. Quem viver verá: Suplicy tem tudo para mirar alvos mais altos. Não me surpreenderia se ele embolasse a briga pela candidatura a governador de SP. | 9.11.04
Soneto curitibano Eu sabia -- e o tempo provaria: Paulo Leminski não tinha morrido, mas ido apenas pra voltar um dia e -- gozo fabuloso -- dar sentido às sendas que desbravou para nós, rebuscar as maravilhas de Alice, desconstruir o Mágico de Oz. Se Bashô também voltasse e o visse, refaria o poema na choupana, talvez virasse a senda para o sul (quem sabe a entendesse franciscana?). O sol nascente ficaria azul, o karatê seria mais bacana, a poesia a cantar, hai-kai-blue. | 5.11.04
Mini 49 Primeiro, ela me disse não. 1949, eu acho. Depois, ela me disse "quem é você?", duas ou três vezes, na metade dos anos 50. "Quem mesmo?" quando eu comemorava a copa de 62. "Ah, você. Eu não imaginava". Me disse "talvez" em 64, ambos com 30 anos, em um jantarzinho no Le Coin. Casamos em 66, quando finalmente ela me disse "sim". Falamos pouco, daí em diante. Quando perdemos a copa de 82, ela veio me dizer que teria sido diferente se tivéssemos tido filhos. Mas que assim, compensação, era mais fácil ir embora. Não consegui lhe dizer "não". De vez em quando ela liga. | 3.11.04
Não costumo ficar envolvido além de um certo limite com os acontecimentos que viram notícia. Exceção feita a tragédias como o 11 de setembro ou o 11 de março, costumo sempre me comportar como a caravana que passa pelos cães barulhentos. Mas estranhamente, fiquei muito perturbado com a vitória de George W. Bush na eleição americana. Talvez seja porque ela se deu um dia depois de um feriado em que a companhia das minhas filhas me fez um grande bem. Não posso evitar o pensamento de que esse jeito de pensar o mundo - conservador, religiosamente fundamentalista, arrogante, inconseqüente - pode influenciar o futuro delas. Não pude deixar de pensar em netos. Não consigo esquecer a nota solta que ouvi no rádio, sobre o aquecimento global, e que remete diretamente à atitude pseudo-pragmática da diplomacia americana de se afastar de todos os acordos que visam um controle maior dos impactos que a produção industrial impõe ao planeta. Foi reforçado neste 2 de novembro o equívoco que levou ao caminho sem volta da invasão do Iraque: a visão tacanha de que se pode moldar uma sociedade e sua história de acordo com uma visão auto-centrada do que seja a verdade. Repete-se, com cores mais trágicas, o que o imperialismo construiu na África, com suas pseudo-nações a macaquear regimes políticos europeus e a desprezar suas próprias tradições, com as conseqüências que todos conhecemos. É inútil discutir aqui se John Kerry seria melhor. Nunca saberemos. O fato é que W. Bush agora pode governar de acordo com suas convicções retrógradas sem mais a preocupação com as conseqüências eleitorais de seus atos. Pode se dedicar sem freios à megalomania que o faz crer que vai esculpir o que chama de liberdade na pedra bruta que considera ser o mundo além do Texas. Não consigo - nem quero - imaginar o que será do Oriente Médio, que será feito do flagelo palestino, a que ponto chegará a escalada do terror de dupla mão em torno de Israel. Não me atrevo a sonhar com a próxima década. Faço um enorme esforço para que algo em mim me faça acreditar que tanto faz. Devo conseguir, em dois ou três dias. Mas sei que uma pontada de aflição vai voltar ocasionalmente. Um uísque. Duplo, por favor. | |