dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
29.10.04
Li no Carne Cruanota sobre projeto de lei de deputado gaúcho proibindo que se dê nomes de pessoas a animais de estimação. Diante da relevância do tema e do patriotismo do parlamentar, mandei-lhe a missiva que segue. Excelentíssimo Senhor Deputado Federal Pastor Reinaldo Câmara dos Deputados Brasília-DF Estimado Deputado, Foi com a alma banhada em mirra e o coração coberto de júbilo que li a notícia de seu projeto de lei visando coibir o nefando hábito de usar nomes de pessoas para chamar animais de estimação. Confesso que, depois de ler a referida nota, não parei mais de pensar no assunto. Evidentemente, não pude adquirir a profundidade que Vossa Excelência já atingiu no tema, mas posso lhe dizer que avancei, a ponto de me permitir ¿ correndo o risco de ser redundante ou óbvio ¿ dar sugestões para o aperfeiçoamento de sua tão relevante e humanitária tese. O primeiro ponto que levantei, depois de vencida a euforia, foi uma questão de ordem prática que, à primeira vista, poderia comprometer a causa. Refiro-me ao fato de que todos os nomes de cães de que pude me lembrar são também nomes ou apelidos de pessoas. Totó é o famoso ator italiano. Lulu é o nosso querido cantor brasileiro. Rex, quem não se lembra?, era o afamado ator americano que viveu Júlio César no cinema. Bolinha ¿ saudoso Bolinha ¿ era o dono de um dos mais famosos restaurantes de São Paulo. Bimbo, não conheci, mas tenho uma amiga que conheceu um e mantinha-lhe um afeto até exagerado. Comecei a me preocupar. Afinal, se todos os nomes de cães são também nomes de gente, sempre haveria alguém a ficar irremediavelmente traumatizado por ter um xará canino. Mas, como Vossa Excelência certamente sabe, não é o primeiro obstáculo que detém um firme propósito. Por isso, mais algumas horas de intensa concentração trouxeram-me uma solução que, pensei, seria o aprimoramento definitivo de sua humanitária tese: o projeto deveria não apenas proibir dar nomes aos animais como determinar que se lhes dessem apenas números. Sim, números ¿ não há, com eles, o risco de gerar-se homonímia humilhante com quem quer que fosse. Já ia começando a lhe escrever para enviar esta sugestão, quando a memória me advertiu: sim, há pessoas que portam números como prenome. Lembrei-me da ilustre e ilibada família Rosado, de Mossoró, na qual toda uma geração foi batizada por números. Em francês, está bem, mas eram números. O risco da homonímia e seus traumas irreversíveis permanecia. O que fazer? Pois bem, meu querido Deputado, cheguei à forma que ora quero sugerir para que sua santa intenção se configure norma, entronizando-se no arcabouço legal desta Nação. Sugiro que o projeto tenha dois artigos: o primeiro proibirá a atribuição de toda e qualquer denominação a todo e qualquer animal irracional ou todo e qualquer vegetal (vejo este aperfeiçoamento como imperativo, não queremos ver nenhuma criança se sentindo uma alface), exceto uma. No parágrafo primeiro do referido artigo, definir-se-á a exceção: todo e qualquer animal irracional ou vegetal ao qual se queira atribuir nome deverá ser chamado de Pchiu. Prosseguindo na normatização, o artigo segundo proibirá terminantemente que seres humanos nascidos em território brasileiro ou de nossa nacionalidade sejam batizados com o nome de Pchiu. Pronto. Separa-se assim o joio do trigo ¿ ou o cão de seu patrão. Não, nobre Deputado, não me agradeça. Foi inspirado em seu magnífico espírito público que cheguei a esta solução legislatória. Na remota probabilidade de Vossa Excelência não ter chegado já à mesma conclusão, por favor, sinta-se à vontade para encaminhar a idéia à tramitação devida. Sequer precisa citar meu nome. Eu me satisfaço com o anonimato das consciências tranqüilas, apenas por poder ajuda-lo a restaurar a dignidade do cidadão brasileiro. Com meus votos de sucesso e vida longa, despeço-me, Respeitosamente, Jayme Serva P.S.: Ficou-me a dúvida, Deputado: Pastor Reinaldo refere-se a pastor alemão ou pastor belga? Apenas para constar, a menção ao pastor alemão e ao pastor belga, eu roubei do Albertão. | 28.10.04
Falta pouco para o segundo turno. Bons votos a quem vota. Aqui em São Paulo, acho e repito que é um privilégio termos Serra e Marta no segundo turno. A tradição paulistana e paulista vinha sendo, depois da volta das diretas para governador e para prefeito de capitais, algo parecido com um filme do Ed Wood. No Estado, Quércia contra Maluf em 86, Fleury contra Maluf em 90. Em 94, Mário Covas nos salvou do Francisco Rossi e, em 98, do Maluf outra vez. No município, tivemos Jânio Quadros por três anos. Depois, foi a vez de Erundina nos salvar de Maluf. Na seqüência, não deu para segurar e tivemos oito anos com a dupla metralha Maluf-Pitta. Marta Suplicy, em 2000, foi quem teve a vez de desbancar essa turma. Vemos, facilmente, que 2004 nos dá outro cenário. Pena que os dois candidatos se ataquem um tom acima do que deveriam. Mas é do jogo. Minha melhor e mais antiga amiga, Aninha Inoue, compara bem: estamos escolhendo entre cerejas da China e cerejas do Japão. Antes, as disputas eram entre cerejas e jilós, quando não eram entre jilós e pepinos. Não, para mim, não tanto faz. Prefiro Serra (note bem, prefiro Serra, não rejeito Marta). Por que? 1. Serra e Marta têm a mesmíssima origem política, a esquerda católica, de onde, aliás, vieram alguns dos melhores quadros políticos que temos hoje. 2. Serra tem uma experiência administrativa mais consistente (não, não acho que isso deva prevalecer sobre a posição política, mas é um ótimo critério de desempate). Sua gestão à frente da secretaria do planejamento de Montoro foi histórica. No ministério da saúde, fez do limão uma limonada: o grande mico da administração federal virou vitrine pela qualidade de sua gestão. 3. Serra é obsessivo, como, de resto, eram Roosevelt, Churchill, De Gaulle, ou são os grandes líderes. Os obsessivos, quando têm bons propósitos, costumam melhorar o mundo. 4. Serra é careca, feio, pouco carismático e tem uma eloqüência, digamos, peculiar. E tem 50% do eleitorado de São Paulo. Isso, para mim, representa um dos grandes ganhos dessa eleição para a política brasileira: sai a figura do bom-de-boca, do fingidor eloqüente, do cínico abaritonado, entra o cara que tem proposta e mostra a cara. Mesmo essa cara. 5. Marta se rendeu ao hibridismo, aos túneis, aos CIEPs (ou CEUs, em sua versão atualizada pela prefeita). Tentou ser Montoro e Maluf ao mesmo tempo. Não dá. 6. Marta sairá uma política melhor da derrota. A vitória reforçará uma faceta voluntariosa e autoritária. 7. Se Marta perder, perde Duda Mendonça. Se Duda Mendonça perder, ganham as pessoas normais, ganha a noção de que os eleitores querem votar no que o candidato é, não no que os publicitários querem que ele seja. Que vença São Paulo. PS: Sobre Duda Mendonça, Cora Rónai dá o tom, definitivamente, no InternETC. | 27.10.04
É sempre um prazer e fonte de boas surpresas navegar por lá. De vez em quando, o administrador do local, Arlindo Almeida, coloca um soneto esparso, quase com ares de sem querer, e consegue arrancar os aplausos deste modesto bloggeiro e escriba eventual que vos fala. Depois, ataca de prosa, faz citações, lembra belezas de outros tempos, enfim, promove um festim para as mentes dos visitantes de seu Navegar Impreciso. E, é claro, motiva o pé quebrado do poeta bissexto aqui a claudicar. Achei nos alfarrábios o soneto que, com vossa permissão, publico a seguir. Eu fui feito pra cantar pra você e pra tomar conta dos seus perfumes. Sou o amante que você não vê ou sente, que não provoca ciúmes, palpitações, líqüidos ou gemidos. Eu nasci para suprir agulha e linha, com limites bem estabelecidos: tão seu quanto eu sou, você é não minha. Conforto-me, me ocupo, vale a pena: minha alma, afinal, é tão pequena e meu corpo, talvez, não queira tudo, conforma-se e, assim, faz-se de mudo. Aceita ser figurante na cena, me trai bem no momento em que me iludo. Cometi o dito cujo há muitos anos, inspirado, como todo poeta mediano, em uma mulher. Tem curiosos efeitos colaterais essa moléstia chamada paixão. Seqüelas já são mais raras. | 25.10.04
A suprema corte do meu país obriga mulheres grávidas de fetos anencéfalos a levar a gravidez até o fim. A suprema corte do meu país obriga essas mulheres a passar nove meses gestando o que sabem ser um cadáver. A suprema corte do meu país as obriga a nove meses enchendo de leite seios que não vão alimentar ninguém. A suprema corte do meu país decidiu impor o pesadelo e proibir o despertador. A suprema corte do meu país vive dias de Afeganistão. Sua decisão despreza a mulher e submete-se ao fundamentalismo dos bispos católicos - esses mesmos seres que chegam a admitir a pena de morte "em casos extremos" e o aborto em caso de estupro. A suprema corte do meu país sonegou. Deixou de exercer seu papel mediador. Cedeu aos fundamentalistas. Estes estão no seu papel, o de defender seus dogmas. Já a suprema corte do meu país decidiu abdicar de seu dever. Por covardia, comodismo ou inépcia, renunciou à Justiça. | 22.10.04
Duda Mendonça, o grande mito do "marketing político" brasileiro foi preso em uma rinha de galos de briga no Rio de Janeiro. Teria sacado do celular e ligado ao ministro da justiça. Teria, também, alegado que este era o seu "hobbie". Fico me perguntando o que leva homens inteligentes e esclarecidos a se deixar levar pelo sadismo mais tosco e apreciar o espetáculo dantesco de dois animais se trucidando (você já viu uma briga de galo? É um horror). É incompreensível, salvo pela presença de uma forma de psicopatia moderada. Fico também me perguntando o que leva tanta gente inteligente a comprar a idéia de que um sujeito como Duda Mendonça é um mago da propaganda eleitoral (chamada incorretamente de "marketing político"). Duda é um publicitário de destaque e competente, não há dúvida, a começar da forma como vende a si mesmo. Fundou, nos anos 80, a agência de publicidade mais criativa fora do eixo Rio São Paulo, a DM9, de Salvador, depois comprada por outro titã baiano da propaganda, o assustador Nizan Guanaes. Duda se destacou na propaganda política ao conseguir, depois de algumas tentativas, levar Paulo Maluf a vencer diretamente uma eleição majoritária, a de prefeito de São Paulo, sucedendo Luiza Erundina, e indiretamente outra, a de Celso Pitta, seu sucessor e, ironicamente, a esfinge que o devorou. A lenda passou a rezar que Duda era o fator decisivo sob a vitória de Maluf. Evidentemente é uma avaliação bastante distorcida. Propaganda, sozinha, não determina um sucesso eleitoral. Mal-feita, pode atrapalhar bastante. Feita corretamente, é mais um entre vários fatores que determinam a história de um pleito. Maluf foi eleito pela desilusão popular - justa ou não - causada pela administração Luiza Erundina, cheia de equívocos no começo e o tempo todo pouco interessada na classe média conservadora da Paulicéia e em uma política de RP eficiente. A reação do eleitorado foi voltar-se à direita. O mesmo se passou, com conseqüências históricas mais interessantes, com o fenômeno Fernando Collor. Não dá para atribuir o sucesso do farsante apenas a sua propaganda - tão bem-feita quanto as de Duda, diga-se de passagem. Um garotão com discurso de direita e fantasia de novidade pareceu a melhor resposta ao fracassado governo do PMDB de José Sarney. O bom da história é que o boyzão foi devidamente desmascarado e defenestrado, num teste impressionante da saúde democrática do Brasil. Duda agora é o tudo-enfim de Marta Suplicy. O mais engraçado é que, aparentemente, se Marta perder - o que parece mais provável a cada dia - será uma derrota pessoal dela. Se vencer, será mais uma façanha do "mago". Basta, no entanto, olhar a campanha para ver que Marta está sendo puxada para baixo pelo padrão de propaganda que Duda produz. Primeiro, a estética "cor-de-rosa" faz as peças parecerem com uma embalagem da Barbie. Marta é diferente, é enérgica, forte, vermelha rubicunda (não ideologicamente, mas como comportamento pessoal). Depois, o conteúdo dos programas. O publicitário criou mais um de seus "fura-filas" (o meio de transporte que nunca saiu das telas de computação gráfica e que ajudou a trazer votos para Celso Pitta) para Marta, um tal de CEU-Saúde. Pôs a candidata a falar da fantasia e esqueceu que ela tinha uma imensa obra realizada para mostrar. Enfim, se há influência de propaganda em eleição, acho que o furo no barco de Marta se chama Duda Mendonça. E que tem isso a ver com os galos de briga? Acho que o que fica é uma lição: não dá para acreditar que quem maltrata animais seja capaz de fazer ou pensar boa política para seres humanos. A campanha de Marta já vinha mostrando isso, só que de forma mais sutil. O flagrante do publicitário baiano deixa agora tudo mais claro. Que sirva de lição. | 21.10.04
Mini 48 Estancou. Parou ali mesmo. Avenida Paulista com rua Augusta. O pé esquerdo já tocando a faixa de pedestres, o direito ainda na calçada. Imóvel, apesar do difícil equilíbrio, com uma perna quase reta, a outra dobrada. Quatro horas se passaram até que alguém avisou alguém que avisou a polícia. Catatonia. Interrompida apenas pelos dois segundos em que desferiu um tapa no rosto do guarda que tentou pegá-lo pelas pernas. Daí em diante, congelou de novo, aparentando viver quase sempre em paz. Sob as aparências, que enganam, escondia a angústia, o curare que lhe embebia a alma. | 19.10.04
Há algum tempo, costumo, às golfadas - repentinas e irregulares -, cometer aforismos. Costumava guardá-los para mim mesmo, mas esse negócio de escrever na internet vai fazendo a gente ficar quase sem-vergonha. Por isso, sem muito pudor, exibo algumas dessas peças. * A virtude da privação é permitir que se dê valor ao que foi privado. * (Para arquitetos e designers) O que é feio atrapalha e o que atrapalha é feio. * Amar é reconhecer que "amar é" é o pior início de frase jamais escrito, mesmo quando ele é escrito pelo seu amor. * Poucos estados mórbidos têm sintomas tão alarmantes quanto o estado de apaixonamento. * Quem busca só resultado encontra sempre problema. * Prefiro frases feitas a frases não feitas. * O mundo se constrói com as virtudes dos maus alunos, as maldades dos bons alunos e os aplausos dos demais. * Só quando se chega ao fundo do poço é que se entende a idéia do poço sem fundo. * Precisão é o nome da aproximação que nos convém. * Guardados os casos extremos, ser bonito ou bonita é quase sempre resultado de uma decisão pessoal. * (Pronunciado pela mulher que espera em casa) Se a verdade está no vinho, cadê aquele canalha que me disse que era só mais uma tacinha? | 15.10.04
Viu o debate ontem na TV? Eu vi. 1. Os debates estão tão "profissionalizados" que ficaram chatos de ver. Às tantas, me pilhei avaliando o quanto a fleuma aparente do Serra daria um retorno mais positivo do que a exasperação premeditada da Marta. Me vi enxergando e avaliando a turma dos bastidores. Era melhor no tempo do canastrão Ferreira Neto, quando, sem a evolução disso que parece ser a "debatologia aplicada", o pau comia solto. Com franqueza e emoção, sem ensaio geral. 2. Serra parece ter aprendido. Embora sua fisionomia não ajude, mostra-se menos professoral do que há oito ou dez anos. Me pareceu mais focado (efetiva ou aparentemente, a saber), ao puxar o debate para os problemas da cidade. Operação de certo risco, pois, aplicada em dose errada, pode passar à audiência a impressão de cortina de fumaça. 3. Marta cometeu um pecadilho, ao ler as perguntas que fazia a Serra, em vez de enunciá-las de memória. Como deixava aparecer o papel que tinha em mãos, com a ajuda das luzes do estúdio e de certa transparência da folha, via-se, em letras garrafais, o tema escrito no alto do papel, antes que ela começasse a ler. Reforçou a impressão de que o debate é tudo menos a expressão espontânea dos debatedores, além de expor certa insegurança da candidata e/ou de seu staff. 4. Aliás, tudo ali parecia ensaiado. Quando o debate terminou, a câmera pilhou o casal Marta-Favre aos pulinhos, como se comemorasse a vitória num jogo de queimada. Em seguida, toda a trupe do PT ao redor parecia querer mostrar uma euforia conduzida pelo rapaz do ponto. No caso, Duda Mendonça - que, aliás, bradava ao microfone: "queremos debate toda semana, queremos debate toda semana". 5. Já no lado tucano, igual homogeneidade. Todos falavam como se tivessem ensaiado a fleuma britânica, com sorrisos generosos mas com uma superioridade premeditada a sobrepujar a euforia. A José Aníbal, só faltava um cachimbo à mão direita. 6. Grande momento do debate, para mim, foi quando descobri qual é a grande referência que Marta Suplicy adotou para o segundo turno. Ficou claro no tom de sua fala de encerramento. O timbre, a inflexão, a postura corporal, tudo mostra a fonte onde Marta foi beber para compor sua nova persona televisiva. Margareth Thatcher? Não, muito contida. Indira Ghandi? Um pouco exótica demais. Golda Meir? Muito sisuda. Não, das expressões de Marta, do tom de sua voz, do olhar penetrante, aflora uma aguda e marcante influência: doutora Havanir. | 14.10.04
Mini 47 (a Otto Lara Rezende) Pôs-se de cócoras debaixo da jabuticabeira e, para inventar alguma coisa para fazer, abriu o canivetinho em busca de idéias. Enquanto não vinha nada melhor, pôs ponta no graveto grosso, depois do outro lado. O pai chegaria da cidade à noitinha, com novidades e, tivesse sorte, algum doce. Até lá, acharia umas saúvas para cortar no meio, sem ninguém para desconfiar que o colo fresco de Lúcia, que seus olhos haviam roubado àquela tarde, não lhe saía da cabeça. Espetou o canivete no tronco. Nada. Ficou com pena da jabuticabeira como não tinha das formigas. | 11.10.04
É a quarta ou quinta vez que falo sobre ela aqui. É que, cada vez mais, Marta Smith de Vasconcellos Suplicy se configura, para mim, como um enigma a decifrar. Cada vez mais, surge das imagens que a mídia exibe uma personagem complexa, em camadas, como são, de resto, as grandes personagens. Um fato que me intriga é a ousadia política que ela tem demonstrado nos últimos dois anos. Tomou decisões sempre as mais próximas do limite de risco, em sua estratégia para a reeleição. A mais notória, no plano político, foi a inflexibilidade na negociação com o PMDB - aliado incondicional no âmbito municipal, mas cheio de truques nas esferas estadual e federal, leia-se Quércia e Temer. Marta não lhes deu nada além da promessa de secretarias em caso de sucesso no pleito. Os dois não deram o braço a torcer e acabaram na malfadada candidatura de Erundina. Em relação à imagem pessoal, já havia feito a maior das ousadias: deixara o marido, um homem que é a tradução acabada da idéia de um homem bom, para se entregar a uma paixão avassaladora por um francês naturalizado argentino, por sua vez, a tradução acabada da idéia do aventureiro, com seu sobrenome incerto e sua história vaga. Mais: casou-se com o maganão e fez publicar as imagens do convescote em toda a mídia da mundanidade. Como pôde? Pausa: o parágrafo acima é um retrato, ou melhor, uma colagem feita a partir da imagem pública dos personagens envolvidos, e não a imagem que faço deles. Não acho que Marta seja pérfida, Favre, aventureiro ou Suplicy, santo. Ou se são - o que não creio, repito -, não são apenas isso. São três seres humanos, sempre mais complexos e imprevisíveis do que são as personagens, mesmo as vividas por eles próprios. Das referências que tenho, me vem a impressão de serem, os três, gente de bem - ou do bem, como dizem, sempre mais precisas do que nós, as crianças. Onde, afinal, Marta quer chegar, agindo assim, de forma tão imprudente? Age assim quem não tem nada a perder. Quem busca preservar um dos cargos públicos mais importantes e cobiçados do país deve ponderar mais, correr menos riscos. O que explica tamanha ousadia? Pode-se dizer que é um traço de personalidade. Nascida em família tradicional da refinada elite paulistana, tendo freqüentado os melhores colégios, os melhores clubes, as melhores festas, Marta desde cedo mostrou-se voluntariosa e decidida - consta que, para chamar a atenção do jovem Eduardo Matarazzo Suplicy, igualmente de boa família e freqüentador dos mesmos meios, por quem se havia enamorado, ela o teria jogado em uma piscina com um empurrão. Numa época em que ainda havia em São Paulo um grupo autodenominado Mulheres de Santana a defender a moral, os bons costumes e a castidade, Marta tinha um programa matinal na TV Globo de orientação sexual, no qual encorajava as telespectadoras a conhecer seus pontos G de A a Z. Enfim, uma mulher que sempre soube dizer "eu quero". Mas isso não explica os riscos que correu. Afinal, é de se supor que entre os seus "eu quero", a reeleição esteja no topo da lista. Perdê-la pode ser fatal para seus planos futuros. Pode? Depende de quais são os seus planos futuros. Todos sabemos que ela tem a veleidade de ser a primeira presidente mulher do Brasil. Tem como segunda opção suceder Geraldo Alckmin no Palácio dos Bandeirantes e, de lá, voar para o Planalto. Mas para tudo isso, precisa vencer José Serra aqui. Justamente o que ela pôs em alto risco. Por que? Acho que existe uma explicação em um lado de Marta que poucos estão vendo: a mulher apaixonada. Acredito que não é consciente, mas há algo em seu íntimo que lhe diz que, perdendo a eleição, há um plano B. Ela pode buscar a vitória exatamente nas condições que deseja, sem concessões, fazendo valer seus mínimos desejos políticos, porque, se perder, poderá satisfazer um desejo pessoal, do coração. Derrotada nesta eleição, Marta joga suas preocupações eleitorais para 2006 ou 2008 e pode, ao menos por alguns meses, viver inteiramente para o homem que ama. Parece loucura, mas basta olharmos em volta. Quem conhece uma mulher apaixonada sabe ver a intensidade com que ela vive isso. Mais: quem conhece de fato uma mulher sabe como ela é capaz de renunciar em nome do que dita o coração. Certo, essa mulher que eu descrevo, de alguma forma mudou muito de trinta ou quarenta anos para cá. Não é à toa que temos hoje as Martas, Marluces, Christinas, Dilmas e Luizianes mandando no país. Mas há, em todas, uma mulher essencial. Penso que é essa mulher essencial que, subconscientemente, influencia o atrevimento político de Marta Suplicy. É ela que enxerga uma compensação na derrota, quase uma atávica atração por ela, como que a desejar uma espécie de vitória do próprio amor. Algo só possível dentro da alma feminina. Acho apenas que alguém deveria avisá-la de um detalhe cruel e recorrente que há nisso tudo. Algo que as mulheres não vêem ou só costumam ver tarde demais: via de regra, a pessoa por quem se apaixonam é um homem. | 6.10.04
*** Desde 22 de setembro, o Catarro Verde parou. Sim, Sergio Faria, o pioneiro, o cara que deixou o ACM de bunda de fora, o conhecedor máximo desta cidade, o multitalentoso escriba capaz de falar tanto de escatologias as mais diversas quanto de planejamento urbano, tanto de amor como de livros, tanto de genitálias como de pupilas, sumiu. Tomara que sejam apenas férias merecidas. *** Mônica Fiorentini, mui querida e mulher do não menos querido Bruno Fiorentini - já leu lá? - inaugura hoje mais uma filial do GlitzMania, uma deliciosa invenção dela que é um misto de cabeleireiro infantil com parque de diversão. Tem filhotes? Pois leve lá. É na Bela Cintra, 2175. *** Eu preciso parar de fazer essas notinhas rápidas, vou acabar achando que sou o Boechat do bairro. A partir de amanhã isso aqui volta a ser uma usina de idéias inusitadas. Ou seja: o esculacho ficcional de sempre. *** O blog voltou ao normal! Sumiram as janelinhas de erro, reapareceram os comentários, reina a paz. O que eu fiz para isso? Absolutamente nada. Simplesmente aconteceu. Como os gols olímpicos ou os acidentes de percurso. Será que o blogger br é mal assombrado? Será que o Doutor Roberto veio puxar o pé do Dito Assim? | 5.10.04
*** Que fazer? Enquanto eu não consigo reparar as irritantes janelinhas e a falta do comentador principal, vamos assim mesmo. *** Eleições, de novo. Passado o primeiro turno e antes do pau começar a comer no segundo, vale lembrar a jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha de S.Paulo que disse mais ou menos o seguinte: "é um luxo para São Paulo ir ao segundo turno com dois candidatos como Marta e Serra". Rompeu-se o longo período em que eleição em SP ou era briga de mocinho e bandido ou era briga de bandido com bandido mesmo. Só de lembrar que eu já votei no Quércia ................ (ops, desculpem, parei para vomitar) para evitar o Maluf, que eu já votei no Fleury ............. (amarelinha essa bílis) contra o mesmo Maluf, já me dá a sensação de ter ganho essa eleição. *** E a câmara dos vereadores? Nabil Bonduki, seu melhor membro, não foi reeleito. Em compensação, agora teremos Agnaldo Timóteo (caçoava do Rio, papuda? Agora tome!). Tudo isso é um teste. Fazem com a gente como o Criador fez com Jó. *** Sobre a bancada eleita do PT, vale ler artigo de Leão Serva aqui. *** Emergiu desta eleição um novo destaque no jornalismo brasileiro. Prestem atenção neste nome: Pedro Dias Leite, protagonista na boa cobertura que a Folha fez com o caderno especial das eleições. Fez barba, cabelo e bigode, com um texto preciso e uma cobertura equilibrada dos fatos. Vai longe. *** Eu vou lembrar sempre deste domingo, 3 de outubro. Eleição? Que eleição? | 4.10.04
É o seguinte: tentei até mesmo extirpar um post que achei suspeito, o que falava do Shakespeare. Debalde. Tenham, pois, paciência com esta falta de tecnologia e se quiserem manifestar solidariedade, ira ou mesmo amor e carinho, usem o halloscan (aparelhinho de mensagens logo abaixo, aquele que pede "Diga Assim" com letras maiores e logo atrás de um misterioso "trackback"). Scusi. | Caros leitores destas maltraçadas, como eu sou semianalfabeto em coisas da computação, tenho apanhado bastante de um fenômeno internético que me aporrinha bem. De tempos em tempos, ao abrir este Dito Assim, aparecem dezenas de janelas de erros consecutivas. Ao cancelar a última, descubro que o espaço dos comentários não funciona. Um belo dia descobri que bastava apagar algumas das mensagens, lá na sede do Big Blogger, e o problema se resolvia. Bom, não se resolve mais. Apaguei um monte de mensagens e nada, continuam os alarmes, continuam as mensagens em coma. Por isso, peço, rogo a vocês, especialmente àqueles mais versados em maquininhas, que me dêem dicas para que eu possa restabelecer - e manter - a paz e a ordem por aqui, preservando as tão carinhosas mensagens. Receitas, recomendações, preces, simpatias, podem ser enviadas a jayme_serva@hotmail.com. May day, may day. | |