dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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29.9.04

* Existem momentos na vida em que a gente decide voltar para casa mais cedo e pôr a leitura em dia. Como os livros são capazes de envolver. Quando se pega um livro novo, se entra num mundo novo. Como o mundo do "Rei Lear", em que entrei agora, e que me faz renovar a admiração pelo bardo lendário. Shakespeare é eterno, universal (quem não se lembra do "Trono manchado de sangue", o "Macbeth" do Kurosawa, tão verossímil em sua versão oriental?), seus personagens têm perfis com os quais nos identificamos, nos quais nos reconhecemos ou nos recriminamos. O rei senil, suas três filhas, com a inevitável caçula injustiçada, seus genros, seus áulicos, toda essa gente desfila em frente aos olhos da nossa imaginação como sósias de alguém no fundo da nossa memória. Só os autores brilhantes conseguem esse efeito, resultado da fusão da simplicidade e universalidade dos arquétipos com a complexidade e a imprevisibilidade do ser humano. Poucos, como Shakespeare, conseguem fazer isso de forma a durar tanto.

* Existem momentos na vida em que ela decide tirar a gente de casa e pôr-se em dia. Para isso, ela coloca à nossa frente suaves armadilhas. Um riso, por exemplo. Um riso renovado, que, ao se reencontrar, parece que está mais riso do que nunca, com um brilho maior do que aquele que os risos habitualmente já têm. E então, quando se nota que o riso causa uma sensação de alegre pacificação, já é tarde demais. Shakespeare fica para mais tarde, espremendo um pouco as horas de sono. Vale a pena dormir um pouco menos.



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Por que eu não voto na Marta? Ora, são muitas as razões.

A primeira é que eu voto no Serra, que considero um dos mais brilhantes executivos que a administração pública do Brasil conheceu e um político de consistência e coerência. Portanto, não voto nele como anti-Marta. Só isso já bastaria para encerrar o assunto por aqui. Mas, se me permitem, quero continuar.

Não voto na Marta porque acredito que ela reproduz um jeito de fazer política que o PT sempre combateu ferozmente. A forma pela qual são aliciados os vereadores de outros partidos lembra os melhores tempos do "é dando que se recebe", franciscana ironia cunhada vinte anos atrás pelo então deputado Roberto Cardoso Alves. O tipo de promessa que a prefeita fez em sua primeira campanha, e faz novamente agora, lembra muito o jeito Maluf de prometer.

Do ponto de vista administrativo, Marta, para mim, também lembra os governantes da linhagem de Laudo Natel ("São Paulo não pode parar") e, novamente, Paulo Maluf. Forçou a demissão do ex-deputado Eduardo Jorge da secretaria da saúde, loteando os cargos de sua pasta e preferindo implementar projetos semelhantes aos de sempre, em lugar de colocar em prática as idéias mais novas, mais baratas e mais eficientes - embora menos barulhentas - de seu então secretário.

Por fim, nos últimos meses de seu mandato, priorizou obras cuja relação custo/benefício é desastrosa, como os túneis sob a Avenida Faria Lima, reforçando um estilo de administrar antiquado, perdulário e ineficiente.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque quero deixar claro que meu voto não tem nada a ver com a preferência da prefeita por um argentino, em detrimento do senador Suplicy, não tem nada a ver com as roupas que ela usa, não tem nada a ver com seu sotaque, sua maquiagem, seu filho Supla, sua irmã de voz abaritonada. Aliás, os momentos em que a figura da prefeita me desperta alguma simpatia são justamente aqueles em que ela é criticada por fatos de sua vida estritamente pessoal.

Não voto na Marta porque não voto em gente que administra como ela. E só.



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27.9.04

Eu me irrito profundamente com o fenômeno das pichações, doença grave desta cidade tão doente. Fico imaginando o que leva jovens desocupados a sujar tudo o que podem com aqueles garranchos ininteligíveis, a ponto de não se encontrar um espaço público sequer que não esteja emporcalhado por esses vândalos.

Hoje, no entanto, a resposta ficou clara, evidente: percorrendo o trecho das avenidas Brasil e Henrique Schaumann da rua Atlântica até a conversão da Artur de Azevedo, vi, à esquerda, pouco antes do cruzamento com a avenida Rebouças, uma casa com a fachada inteiramente pichada. Bufei. Menos de duzentos metros depois, paro no sinal da Artur de Azevedo, esperando o verde, tão remoto e tão avarento, para dobrar à esquerda. Naquela eternidade de sinal fechado, olho em volta e o que vejo é um caos visual inacreditável. Aos cartazes e banners de candidatos a vereador, somam-se faixas as mais variadas (inclusive fazendo propaganda das próprias faixas, numa espécie de metalinguagem da porcaria), placas de todos os tipos, com destaque para algumas acorrentadas aos postes de sinalização e às grades de orientação a pedestres, anunciando lançamentos imobiliários. Nas fachadas dos pontos comerciais, tudo berra, tudo é garrafal. Pudera: para competir com os imensos painéis de back-light, os outdoors, os bus-doors, os front-lights, só mesmo aos gritos.

Ora, se tudo isso pode, por que não pode pichar? Se todo mundo coloca o que quer, dizendo o que quer, em todos os cantos do espaço urbano, por que a molecada, tão cheia de coisas a dizer, tão pronta para aparecer, tão eloqüente, não pode fazer rigorosamente o mesmo que todo mundo faz? O que diferencia aqueles hieroglifos pintados com brocha do painel que ocupa toda a lateral de um prédio com um anúncio de cueca? O que há na faixa de pano anunciando a promoção da manicure e no outdoor anunciando a promoção do puteiro chique que seja mais edificante do que os caracteres pontiagudos que os meninos traçam em todo lugar que conseguem alcançar? Pode-se dizer que eles não contam com a autorização do proprietário do suporte de sua comunicação. E os outros? Ora, o espaço urbano também é meu e eu não autorizei ninguém a entupi-lo de propaganda. Além disso, em lugar onde tudo pode, pedir autorização torna-se irrelevante. É essa a mensagem que a cidade passa e que os garotos decodificam e põem em prática. Eles não fazem nada - repito: nada - diferente do que é feito pelos candidatos, pelos comerciantes, pelos publicitários que emporcalham igualmente a cidade, apenas dando ao que fazem a denominação hipócrita de "mídia exterior".

Nada indica que a cidade vá disciplinar essa questão. A prefeita, quando em campanha, prometeu belezuras a respeito, mas a situação só piorou sob sua gestão. Justiça seja feita, boa parte disso se deve à câmara de vereadores, essa caixa-preta mal-cheirosa que legisla por aqui.

Do jeito que as coisas vão, só resta radicalizar. Proponho que os pichadores, em lugar de pintar suas mensagens em fachadas de casas e prédios, o façam nas peças de mídia exterior. Diretamente. Que pichem os back-lights, os front-lights, os outdoors, os painéis. Que ponham bigodinhos nas modelos sensuais e mamilos nas modelos-mães-de-família. Que agreguem seus "logotipos" às marcas berrantes e deixem suas marcas nos logotipos delas. Afinal, se a intenção é aparecer, que aproveitem a expertise dos especialistas.

Na hora em que o caos ficar insuportável, quem sabe a administração pública resolva administrar o que é público?



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23.9.04

Três peças de teatro me impressionam muito. Escritas por homens, falam da mulher: A Casa de Bernarda Alba, de Federico Garcia Lorca, A Herdeira, de Henry James, e A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt. As três descrevem mulheres que se tornam implacáveis como reação ao que a vida lhes oferece. Falam também, notadamente em James e Dürrenmatt, de homens fracos e pusilânimes. A Visita, depois vertida para o cinema com Ingrid Bergman no papel principal, é um retrato tão cruel quanto rico da condição feminina. Ao contrário do que reza a tradição macho-centrada, de que a mulher é o mal inevitável, a história a mostra como essencialmente generosa, tornada implacável pelas circunstâncias. No caso, a canalhice atávica do homem ao lado.

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A deportação de Cat Stevens é o assunto do dia. À primeira vista, parece bizarro, parece burrice e péssima política de mídia do bushismo. Eu, com esta alminha vagamente paranóica, já tendo a pensar diferente. Parece que essa turma que tungou o poder no grande irmão do norte quer tornar suas barbaridades normais pela repetição. Começaram tirando sapatos dos passageiros estrangeiros que chegam a seus aeroportos, mesmo gente com passaporte diplomático e fisionomia conhecida, além de caucasiana. Pode ser que no ano que vem, se reeleitos, eles placidamente expulsem do país alguém como Michael Moore, para garantir a proteção do pobre povo ameaçado. Difícil esquecer o velho poema: "Primeiro eles vieram atrás dos comunistas / e eu não disse nada porque não era comunista. / Depois vieram atrás dos judeus / e eu não disse nada porque não era judeu. / Depois vieram atrás dos católicos / e eu não disse nada: sou protestante. / Aí vieram atrás de mim / e já não havia ninguém para falar em minha defesa". Não, não é Brecht. Este poema é de um padre alemão, prisioneiro em Dachau, chamado Martin Nietnöller.

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A primavera começa quente, com sua brisa empurrando meu inferno astral um ano inteiro para diante e me trazendo uma paz tépida.



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21.9.04

Embora o nome deste sítio seja inspirado em uma letra de música, costumo ser econômico em citar tais versos por aqui. No entanto, fiz isso há poucos dias e agora me vejo quase obrigado a fazer de novo. Isto porque ouvi, depois de anos, a canção que segue, do compositor e jornalista pernabucano Fernando Lobo (1915-1996), que entre outros feitos, teve a felicidade de ser pai do Edu Lobo. Cunhou Fernando, em 1949:

Podemos ser amigos simplesmente
Coisas do amor nunca mais
Amores do passado no presente
Repetem velhos temas tão banais

Ressentimentos passam como vento
São coisas de momento
São chuvas de verão
Trazer uma aflição dentro do peito
É dar vida a um defeito
Que se extingue com a razão

Estranha no meu peito
Estranha na minha alma
Agora eu tenho calma
Não te desejo mais

Podemos ser amigos simplesmente
Amigos simplesmente
Nada mais

O que há de mais interessante na canção é que ela admite o "ser amigos simplesmente" depois de uma relação de amor, coisa que os sambas-canção de então não entendiam. Coisa que talvez não sejamos capazes de entender até hoje. Embora se possa ler na letra de Fernando uma ponta de ironia, uma leitura subjacente de mágoa, prefiro a leitura que indica uma proposta original, ao desfazer uma dicotomia e colocar o afeto acima dos ressentimentos, redesenhando os caminhos do coração por meio da razão e - o que é mais notável - vice-versa. Aí mora a genialidade de seus versos: na manifestação de que se pode construir uma relação que sobreviva ou renasça da ruptura, desde que se permita que os ressentimentos passem como vento, como coisas do momento, como chuvas de verão.

"Chuvas de Verão" traz uma das letras mais felizes da canção popular brasileira. Gostaria eu de ter a mesma grandeza que pode ser lida ali.



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17.9.04

Lá vou eu de novo falar de assunto amanhecido. Mas é que só agora consegui parar dois minutos para escrever.

Ainda outro dia, a colunista social da Folha, Mônica Bérgamo, publicou um "furo", na minha opinião mais requentado do que esse meu modesto textinho: uma nota de um jornal argentino ou uruguaio, não me lembro, em que o diretor de cinema Héctor Babenco manifestava, entre outras coisas, reclamações sobre o Brasil. A colunista reproduzia a matéria - já de meses de idade - como sendo a justificativa do ataque que outro diretor de cinema, Claudio Assis, de "Amarelo Manga", fez recentemente a Babenco durante a cerimônia de encerramento do Prêmio TAM.

Babenco é brasileiro por escolha. Naturalizou-se, fala português, viveu os grandes momentos de sua vida aqui. Como se atreve a falar mal do Brasil? Ora essa, eu e você falamos todo dia coisas mais pesadas sobre a pátria mãe do que as que ele falou, meses atrás, para um jornalzinho que deve ter três ou quatro exemplares de tiragem. Acho que há uma azeda e nauseabunda mistura de oportunismo com cinismo tanto no cineasta exaltado quanto na colunista solidária.

Assis mostrou ao Brasil um filme cuja maior ousadia é uma xoxota exibida. Todo o resto do filme é um pot-pourrit de déja-vus (nossa, como estou galicista hoje) cuja referência estética mais nova talvez fosse "Rainha Diaba", filme de 1975 do diretor Antonio Carlos da Fontoura. "Amarelo Manga" é mais um daqueles filmes que nos fazem sair do cinema exercendo a capacidade de perdoar, em nome, afinal, dos pobres e esforçados realizadores da pátria mãe, com suas câmeras velhas na mão e suas idéias igualmente velhas na cabeça.

Babenco é responsável por vários dos grandes momentos do cinema brasileiro, tão rarefeito de grandes momentos. Tornou-se uma estrela aqui, aqui viveu os capítulos mais difíceis de sua biografia e teve também suas grandes vitórias, pessoais e profissionais. Conheci-o apenas superficialmente, ainda nos anos 80, logo quando ele estava vencendo sua batalha contra um daqueles cânceres que só a combinação de força de vontade, fé na vida e sorte é capaz de vencer. Ele venceu. E seguiu sua carreira, conquistando um lugar de inegável destaque. Justamente o destaque que atrai o tipo de gente que Assis mostra ser: nada original, pouco educado e muito oportunista.

A intervenção de Assis me lembrou exatamente a entrada do irlandês de saiote a agarrar nosso maratonista. A motivação pessoal de ambos é a mesma. O irlandês, no entanto, foi mais criativo. Digo mais: ao contrário de Assis, talvez tenha prestado algum serviço ao Brasil e seus tão esquálidos esforços de propaganda internacional.



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16.9.04

Mini 46

Por que o atraso? Se tivesse chegado a tempo, tudo seria completamente diferente. Não sofreria como agora. Por que o atraso? Tivesse nascido em 1940, certamente seria tudo mais fácil.



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14.9.04

Dito e feito: a Folha de hoje traz na primeira página, com o título "Trânsito de carro piora na Rebouças com túneis", matéria sobre o congestionamento de ontem à tarde no túnel sob a Faria Lima. Era óbvio. R$ 97,4 milhões só o túnel, fora o entorno. Quero saber quantos quilômetros de metrô se pagariam com o dinheiro gasto nestas obras malúficas. Se fossem apenas quinhentos metros, já seria mais negócio. Alegarão os martufistas que metrô é atribuição do governo do Estado. Mesmo argumento que Maluf usou quando a administração Mario Covas propôs uma atuação conjunta governo do Estado e prefeitura exatamente para comporem forças em torno do metrô. Mais da Folha: Maluf poupa Marta e ataca Serra em debate no auditório do jornal. Quero ver o palanque da Marta no segundo turno afagando o ex-prefeito e ex-desafeto. O amor remove montanhas (ou é a fé que é linda?).

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Estou lendo um livrete delicioso chamado "Pequenas Fábulas Medievais", uma coletânea de contos, "fableaux", para usar a expressão dos críticos literários, que trata de assuntos mundanos, via de regra ligados às relações de amor - ô teminha recorrente - e, o mais interessante e raro, contando no mais das vezes histórias de personagens plebeus, normalmente ausentes da literatura da época. Uma grata surpresa. O opúsculo faz parte da coleção Gandhara, da Editora Martins Fontes, que tem outras pérolas da literatura antiga, tanto do ocidente como do oriente (Gandhara: região a meio caminho entre Oriente e Ocidente). Vale dar uma passada de olhos.

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Falando em livros, um indispensável nos dias atuais, de tanta discussão sobre Fome Zero e distribuição de renda, é "O banqueiro dos pobres" de Muhammad Yunus, com Alan Jolis (Editora Ática, 2000). Conta a história da bem-sucedida experiência de micro-crédito realizada por Yunus com o Grameen Bank, de Bangladesh. O Grameen é responsável direto pela inclusão social de uma horda de miseráveis, vítimas não apenas do abandono, mas da ação de desgovernos e (pasme) agiotas. A narrativa de Yunus é comovente e sua história um exemplo a ser conhecido e seguido.

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Eu não me conformo com a revista Veja. Semana sim, semana não, tratamentos de saúde na capa. Como se nada de mais importante estivesse acontecendo no Brasil e no mundo.

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Conversava outro dia com um amigo que chegou à mesma conclusão que eu: o mundo, apesar de tudo o que vemos, de Bush à África, está melhor e melhorando. Bush e as misérias são passageiros, têm hora para acabar.



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10.9.04

Para ilustrar o fim-de-semana, um frevo rasgado. Bem rasgado.

FREVO RASGADO
Música e letra de Gilberto Gil
Música de Bruno Ferreira
1967

Foi quando topei com você
Que a coisa virou confusão
No salão
Porque parei, procurei
Não encontrei
Nem mais um sinal de emoção
Em seu olhar

Aí eu me desesperei
E a coisa virou confusão
No salão
Porque lembrei
Do seu sorriso aberto
Que era tão perto, que era tão perto
Em um carnaval que passou
Porque lembrei
Que esse frevo rasgado
Foi naquele tempo passado
O frevo que você gostou
E dançou e pulou

Foi quando topei com você
Que a coisa virou confusão
No salão
Porque parei, procurei
Não encontrei
Nem mais um sinal de emoção
Em seu olhar

A coisa virou confusão
Sem briga, sem nada demais
No salão
Porque a bagunça que eu fiz, machucado
Bagunça que eu fiz tão calado
Foi dentro do meu coração

Porque a bagunça que eu fiz, machucado
Bagunça que eu fiz tão calado
Foi dentro do meu coração

© Musiclave Editora Musical Ltda.




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9.9.04

Assuntinho besta, mas que me incomoda cada vez mais: por que as pessoas resolveram escrever números simples, como 2, 3 ou 4, com um zero na frente? Sim, um zero na frente. Olhe os classificados nos jornais, preste atenção às faixas na rua, entreolhe o bilhete do colega ao lado. Até na TV de vez em quando isso aparece. "Compre e pague em 03 vezes sem juros". Zero-três vezes sem juros? Como assim? "A cada dez discos comprados, 01 é de graça". Zero-um? Que graça?

Esse é mais um dos fenômenos esquisitos da língua popular brasileira, a língua das telefonistas, essas heroínas que nos agüentam, a nós neuróticos, com galhardia e altivez, e que também sabem se defender. Este quase idioma trocou o verbo "esperar", fluente e corrente, pelo "aguardar", mais empoladinho. Trocou o "de nada", com que o Brasil respondia ao "obrigado", pelo "por nada", sutil mudança, também na linha do empolado.

Mas a língua popular brasileira, a das telefonistas, adotada depois pelas secretárias e hoje já corrente na média gerência, é de tradição oral. Já o zerinho na frente do numeral solteiro é, pela própria natureza, de tradição escrita. Não parece, portanto, ter a mesma origem. De onde vem, então?

A minha primeira hipótese é: vem do comércio. Neste país não há o hábito de escrever. Há, sim, o hábito e a rotina de preencher lacunas com letras e números. Como nos livros-caixa. Ao se preencher diagramas com números, não se pode deixar quadradinhos vazios, o que leva a preenchê-los com zeros. Como essa é a cultura, ao se produzir textos - o que nada mais é do que reproduzir cultura - reproduz-se o universo conhecido: tasca-se um zero na frente do 1 para completar o campo.

Outra hipótese, também na lógica do comércio, é a de utilizar o zero como uma vacina contra a adulteração e a falsificação: é mais fácil fazer um 1 virar 31 do que fazer o mesmo com um 01. Ninguém pensou no 301, mas é melhor não levantar a lebre. Aceitando esta hipótese, a da precaução, a do seguro que morreu de velho, vem a próxima pergunta: quando alguém coloca 03 em um comercial de TV, está se protegendo do que? Como seria possível adulterar o vídeo? Enfim, o mistério permanece.

O fato é que o cacoete hoje cresce mais que as exportações e a auto-estima do Zé Dirceu. E o que é pior: parece ser crescimento sustentado. Coisas de um país onde a educação básica jamais foi suficiente e hoje vai decididamente para o saco, depois de um fio de esperança dado pelo gaúcho Paulo Renato. Assim, a mais perigosa tradição oral predomina.

Um otimista poderá dizer que ao menos o hábito do zerinho denota algum senso de responsabilidade. Dá-lhe otimismo.



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8.9.04

Achei que ia conseguir escrever algo entre ontem (7/9) e hoje. Impossível, como se pode notar. Semana curta faz acumular as atividades e a demanda. Mas qual não é a minha surpresa quando descubro agora à noite que o meu amigo Bruno Fiorentini - um dos cariocas que ajudam São Paulo a crescer e, no caso dele, melhorar no uso da língua portuguesa - está no ar com um blog que, a refletir o espírito do autor, já é para ser colocado direto nos favoritos de todos. Anotem - http:laranjeiras.zip.net - e cliquem. Quanto ao Laranjeiras ali colocado, tenho certeza de que homenageia o ilustre e nobre bairro carioca onde já morou minha tia-avó Branca, lá pelos anos 30. Não consigo enxergar qualquer insinuação ludopédico-esportiva em tão bem-apanhado nome.

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Falando em Bruno Fiorentini, que consegue conciliar uma vida de executivo atarefadíssimo com uma sanha pela leitura digna de um Paulo Francis - e agora debuta como escritor - gostaria de adiantar que vou tratar aqui de um tema que pode interessar, mesmo sendo simples, a todos os que apreciam o bom uso da língua. No caso, quero falar dos números. Ou melhor, dos numerais. Levantarei hipóteses sobre por que hoje as pessoas estão colocando um zero na frente de todo número simples. Por que 01 em vez de 1? Amanhã falamos.



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3.9.04

Vou viajar neste feriado. Enfim. Vou "enforcar" a segunda-feira, coisa que não faço há anos. Tudo em ótima companhia. Por isso, deixo aqui algumas notas esparsas para satisfazer a multidão que passeará por aqui nos próximos quatro dias. Não, não é uma multidão numérica, é uma multidão afetiva, na qual a qualidade das pessoas faz com que cada clic represente um Maracanã. Um dia eu faço a lista.

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Ontem (quinta-feira) à noite, vi, de cabo a rabo, o discurso do Bushinho no encerramento da convenção republicana, em plena Nova York, cidade que lhe deu a maior tunda na eleição roubada que o levou à presidência. Horror imaginar que aquele discurso sórdido e cínico poderá ser a tônica de toda esta década.

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Estou com um problema de excesso de trabalho (ou de permanência no local de trabalho). Confirmo a impressão de que é muito difícil, para alguém que trabalha fazendo textos para estimular pessoas, exercer sua profissão sem ver o mundo lá fora.

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Se bem que não tenho muito o que reclamar dos meus raros momentos no mundo lá fora.


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Hoje (sexta-feira) minha filha caçula me ligou para tirar dúvidas da lição de matemática. Eu adoro quando isso acontece. Adoro. Opa, hoje este Dito Assim está mais blog do que nunca.

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Andei revendo gente do tempo do colégio. Como? Coisas da internet.

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Eu recuperei nas minhas caixas de livros (ainda sem numerário para montar o escritório que os acomodará, mantenho meus livros em toscas caixas de papelão) uma peça indispensável para quem gosta e/ou faz artes gráficas: Blue Note - The Album Cover Art , uma coletânea das melhores capas do grande selo do jazz. Quase todas as capas são de um só artista gráfico, Reid Miles, que consegue, ainda assim, ser surpreendente. Coisas que vistas hoje continuam boas de ver.

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Gostaria de projetar uma catedral.



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1.9.04

Esta minha São Paulo, que tanto espinafro por aqui, talvez não mereça esse azedume todo.

Pior: alguém pode achar que eu moro em uma cidade que odeio, com se vivesse sentado em um colchão de pregos. Não, eu amo esta cidade e as coisas que só ela tem. Me irrita o que ela vem fazendo a si mesma, auto-destruindo-se, como uma vítima de doença auto-imune, perdendo justamente o que só ela tem.

Mas São Paulo tem encantos próprios, únicos, originais. Para ilustrar o que digo e para - santa pretensão - preservar uma fração da memória, para o caso de a doença auto-imune progredir, faço cá mais uma lista de 100: desta vez, apresento 100 coisas boas de São Paulo - e só de São Paulo. Ordenação, apenas a do repente: todas empatam na liderança. A ver.

1. O Theatro Municipal, com tê-agá.
2. O Bar Balcão.
3. A Freguesia do Ó e seu largo antigo.
4. O Instituto Butantan.
5a. A Estação da Luz.
5b. A Pinacoteca.
5c. O Parque da Luz.
6. As roupas de Tana Millan e as roupas de Bel Paoliello.
7. As artes e ofícios de Carlos Matuck.
8. O que restou das obras do arquiteto Gregori Warchavchik.
9. As esculturas de Victor Brecheret.
10. Os cemitérios vizinhos (Consolação, Araçá, Redentor e São Paulo) e seus curiosos detalhes de arquitetura.
11. A voz de voz de Suzana Salles e a voz de Ná Ozzetti.
12. A Mercearia do Conde.
13. O Cine Belas Artes, esse fígado de Prometeu.
14. O Museu do Ipiranga.
15. O bairro do Ipiranga.
16. O prédio da Faculdade de Sociologia e Política, na rua General Jardim.
17. O Next.
18. La Casserole
19. Livraria da Vila.
20. A praça da FNAC.
21. O prédio da FAU na Cidade Universitária.
22. O prédio velho da FAU, na rua Maranhão.
23. As duas edificações que, junto com a citada Pinacoteca, formam o trio da alvenaria aparente na cidade: os prédios originais da Santa Casa e da Universidade Mackenzie.
24. Zé Simão.
25. Os fotógrafos da cidade, magistralmente representados pela obra do trio Cristiano Mascaro, João Luiz Musa e Raul Garcez, este já registrando imagens mais cândidas, lá do outro lado.
26. O Mercado Central.
27. Pinheiros e Vila Madalena, se devidamente peneirados.
28. O Museu de Arte Sacra.
30. O Ritz.
31. O (que restou do) Parque Trianon.
32. O Jardim Botânico.
33. O bairro da Liberdade.
34. A praça Coronel Fernando Prestes e o Buraco da Sarah.
35. Di Cunto.
36. Andar de trem.
37. O Largo de São Francisco.
38. A Sala São Paulo.
39. As muitas faces da Rua Augusta.
40. O Brás.
41. A Moóca.
42. O Bexiga.
43. Os caras que desenham moda e seu estranhíssimo São Paulo Fashion Week.
44. Mercado Mundo Mix.
45. Os alemães de Santo Amaro.
46. Os carrinhos de cachorro-quente.
47. A incessante vontade de dançar.
48. Os bairros projetados pela Companhia City.
49. A Serra da Cantareira.
50. O metrô (ainda que pouco)
51. Livraria Cultura, no Conjunto Nacional.
52. Galerias: Arnaud, Millan, Kohn, Brito-Cimino, Val e tantos outros movimentando as artes por aqui.
53. O Parque da Aclimação.
54. O Largo da Memória.
55. O Prédio Martinelli.
56. Anhangabaú, de cabo a rabo.
57. O Oficina.
58. O pão italiano da Basilicata (ou a Basilicata do pão italiano).
59. O Ponto Chic.
60. Sim, aquela esquina cantada, Ipiranga com São João.
61. Sushi: Kiyo, Guen, Yassu, Jun Sakamoto e mais um monte - talvez só Tokyo tenha mais restaurantes japoneses que São Paulo.
62. O MAM.
63. O acervo do MASP (eu disse o acervo).
64. A Bienal e sua pulsação.
65. Os arquitetos: Paulo Mendes da Rocha, Joaquim Guedes, Rino Lévi, Vilanova Artigas, Gregori Warchavchik, Fábio Penteado, que tentaram pôr ordem e graça nesta imensa bagunça.
66. As Casas dos Bandeirantes.
67. O Largo de São Bento, agora com as fachadas originais.
68. O Instituto Biológico.
69. Sim, o Parque do Ibirapuera.
70. Os cariocas de São Paulo.
71. Turko Loko.
72. Paulo Lima e sua Trip.
73. O Parque da Água Branca.
74. Avenida São Luís.
75. O Edifício Itália, que era o rei da Avenida Ipiranga.
76. Tom Zé (baiano? Não, paulistano de quatrocentos costados).
77. Titãs (incluindo o Nando).
78. Concretos: Décio Pignatari, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Geraldo de Barros, Sacilotto.
79. Antônio Cândido.
80. Lygia Fagundes Telles.
81. Goffredo da Silva Telles.
82. Companhia das Letras.
83. Edifício Esther.
84. Interlagos e suas curvas.
85. Vila Maria Zélia.
86. Casa das Rosas.
87. Largo do Café.
88. A musicalidade da ECA.
89. O Sesc Pompéia.
90. A Casa da Marquesa.
91. Biblioteca Mário de Andrade.
92. As sinagogas.
93. As mesquitas.
94. Os Mesquitas, os Frias e os seus jornais - com todos os defeitos que têm, o saldo é sobejamente positivo.
95. Os adivinhos.
96. Os argentinos.
97. A 25 de Março.
98. O profissionalismo quase obsessivo.
99. O Carnaval quase em silêncio.
100. O delicioso sotaque italiano que todos nós temos (peça a qualquer paulistano, quatrocentão ou carcamano, para falar as palavras "tempo" e "intenso").

Alguns de vocês perguntarão: "e o MASP?" O MASP entra em outra lista, a das teratologias, os monstrengos que a cidade gerou. Vem logo abaixo da estátua do Borba Gato da Avenida Santo Amaro. Ou vocês pensam que isso aqui é só carinho?




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