dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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31.8.04

Mini 45

Correu muito, mais do que podia. Caiu. O joelho ralado, a roupa de festa suja, as mãos machucadas. Levantou, aborrecido e arranhado. Correu mais, o joelho doendo, o ritmo mais contido. Aumentou as passadas aos poucos. E mais e mais e mais. Caiu de novo. Levantou sem entender o que estava falhando. Afinal, no dia em que completava quatro anos deveria poder correr mais. Mas não: continuava caindo. Imaginou que talvez só aos cinco fosse conseguir. Que idade precisaria ter para carregar a enceradeira?



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27.8.04

Para fechar (e abrir) a semana com chave de ouro, fragmento hílário da narrativa de viagem do Albertão. No bar do aeroporto:

pergunto:
- garçon pode fumar aqui?
o garçon:
- não senhor, mas todo mundo fuma.
eu:
- então, por favor, traga outro velho oito e um cinzeiro.
e o cara, cheio de pompa:
- "pos" não.




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Quais foram os maiores males de São Paulo? O que fez desta cidade o caos que é para se viver?

São tantas coisonas graúdas que ninguém pode responder ao certo. Mas eu tenho cá minhas opiniões. Como este veículo de comunicação tem por editor eu mesmo, vou aqui dar uma de historiador. Barato, mas é o que temos.

São Paulo merece ser conhecida pelas narrativas de Mário de Andrade, por exemplo, que, acho, conseguem mostrar um lugar alegre, agradável, com mazelas típicas de uma cidade de médio porte, uma capital de burgueses e nouveaux-riches (talvez nuovi-ricci fosse mais adequado), com história e identidade por baixo de seu desenvolvimento. A Mário de Andrade, eu contraporia o prefeito Prestes Maia. Muitos têm Maia como o Fiorelo La Guardia de São Paulo. Eu tenho cá minhas dúvidas. Foi em sua gestão que o Rio Pinheiros e o Tietê foram retificados - o maior crime ambiental que esta cidade ambientalmente arrasada sofreu. Como La Guardia, Maia era um homem de direita, rancoroso, surfando no autoritarismo getulista. Tinha a visão urbanística de sua época, herança de Haussmann e Agache, com suas avenidas radiais e perimetrais e suas belas e salubres praças. Em São Paulo, não passaram de idéias, enquanto a retificação dos rios e a inversão do curso do Pinheiros tornaram-se uma verdade cruel.

O arquiteto Paulo Renato Mesquita Pellegrino demonstra que a retificação isolou o Rio Pinheiros do convívio com a população, antes mesmo de suas águas estarem contaminadas pela poluição. Segundo o pesquisador, os moradores de São Paulo perderam sua identidade com seus rios, preferindo, mesmo, ignorá-los. O Pinheiros e o Tietê eram parte da vida da população. Nadava-se ali. Até 20 anos atrás, mantinha-se, no terreno onde está o Clube Pinheiros, parte do que havia sido o leito do rio que lhe deu o nome.

Maia, portanto, é, para mim, o primeiro dos males de São Paulo. Depois dele, vem uma combinação doentia de administradores locais e políticas federais que tornaram crônicos o caos e a decadência. O símbolo deste momento histórico é o novamente candidato a prefeito Paulo Salim Maluf. Áulico do Marechal Costa e Silva, dado a presentear a mulher do ditador, Dona Yolanda, com mimos de muitos quilates, Maluf foi guindado à diretoria da Caixa Econômica Federal e depois à prefeitura biônica de São Paulo. Sucedeu o Brigadeiro Faria Lima, um prefeito muito popular e realizador. Aproveitou para inaugurar várias obras do antecessor como se fossem suas e resolveu cometer a sua própria: o Minhocão, não à toa chamado de Elevado Costa e Silva, um monstrengo construído em meio a três bairros da cidade que simplesmente acabaram em completa decadência depois da obra.

A política federal dos militares propiciou um formidável movimento migratório do campo para a cidade. Em 1964, algo como 70% da população do Brasil morava no campo. Hoje, são menos de 20%. Isso ajudou São Paulo a chegar ao caos atual, em que algo como 6 em cada 10 habitante moram em cortiços ou favelas. Em 1971, foi nomeado prefeito da capital um de seus mais notáveis urbanistas, José Carlos de Figueiredo Ferraz. Contrapôs-se à política de urbanização da época, que poderia ser sintetizada na frase "São Paulo não pode parar", repetida o tempo todo por gente como o governador de então, o bancário caipira Laudo Natel. Natel não suportou o realismo de Ferraz e o demitiu por carta, recolocando em curso o urbanismo do "quanto maior melhor".

Daí para a frente, nada mais se fez em SP que contribuísse para reverter o caos. Desde Faria Lima, tramita um projeto de Plano Diretor que não sai do papel. A cidade está quebrada e sua prefeita atual dedica tempo e dinheiro a construir túneis caros e absolutamente inócuos, como já o haviam feito Janio Quadros e o crônico Paulo Maluf. O que resta para nós paulistanos, além de mudar daqui? Acho que ainda é possível mitigar vários dos males da cidade. Mas para isso é preciso que mude uma geração inteira de políticos ineptos, acovardados e/ou corruptos na Capital.

Usufruirão das mudanças os meus bisnetos.



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23.8.04

Falando em Olimpíadas, no futebol eu torço pelo Iraque. Como já torci para o Bangu, o Guarani, o 15 de Jaú - no futebol, todo mundo torce pela zebra. Torcer pelo Iraque é mais controvertido. Afinal, alguém pode dizer que esse é o time montado por Udai Hussein, o filho mais sádico de Saddam, com métodos um tanto peculiares. Outros poderão dizer que qualquer vitória dessa equipe endossa o Bush e sua política doente. "Vejam, amigos do Texas, Florida e adjacências: os meninos do Iraque já estão se integrando ao nosso maravilhoso mundo de liberdade e sacarose".

Mas o fato é que me emociona ver esses caras, que vêm de um lugar que é o exato meio do caminho entre a cruz e a caldeirinha, jogando bola, fazendo gol de bicicleta, pulando de alegria. Principalmente pulando de alegria. Pergunto quantas vezes um jovem iraquiano pôde fazer isso em seus vinte e poucos anos de vida. Ok, é idealização, de perto ninguém é normal, todo mundo é igual quando o tombo termina, da pinga que se toma ao tombo que se leva há uma distância considerável. Mas o fato é que eu vi naqueles caras jogando bola um sinal, ainda frágil, de que talvez o século 21 não seja o caminho do apocalipse que pintava ser, com o surpreendente embate que mais se parecia com a luta entre o Jason Voorhees e o Freddy Kruger, a guerra entre o mal e o pior, a vitória do vilão realista e opressor num filme fadado a acabar mal.

Quero ver o Galvão Bueno narrando a final entre Iraque e quem quer que seja. Para quem o chato de galocha irá torcer? Fará ele alguma reflexão? Ou comprará fechado o discurso Condoleeza Rice, louvando a salvação atingida por aquele povo tão sofrido, amigo da Globo? Que disparates dirá aos constrangidos Arnaldo, Falcão e Casagrande a seu lado? Soltará um "Sai que é sua, Ali Ahmed!" para eletrizar o torcedor dorminhoco?

Torço pelo Iraque porque já chega. Chega de sofrer, chega de ser impiedoso, chega de indiferença, chega de ser triste, chega de saudade. Torço pelo Iraque porque, de certa forma, aqueles onze caras me dão a dimensão da simplicidade, a esperança de que um dia será possível, tanto para um molequinho rico do Maine quanto para um menino remediado do Quênia bater uma bolinha em paz. Quem sabe, juntos.

Torço pelo Iraque. Mesmo que não chegue a ser assim uma grande causa, é uma boa desculpa para refletir.



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18.8.04

A Patricia Oliveira, paciente leitora deste Dito, me pediu que publicasse um conto sobre a dor de cotovelo e sentimentos correlatos. Fui à gaveta buscar este que segue abaixo. Sem lágrimas, por favor.

Projetar

Ela era linda apenas porque não há uma palavra que designe a beleza na dimensão que a sua assumia. Alta, cabelos castanhos claros, quase sempre presos num rabo de cavalo (nas raras vezes em que os soltava, os pássaros nas árvores ensaiavam sinfonias, os padres jogavam livros para o alto, o governo assinava anistias, caía um avião no Oriente), olhos verdes, pescoço longo, seios pequenos como soem ser os seios lindos, pernas compridas, tudo envolvido sempre por uma elegância que fazia o entorno fazer sentido.

Não sorria. Não sorria nunca, embora tivesse os dentes mais lindos, e falava com precisão e propriedade, o que dava uma chance de compreendê-la mesmo durante o transe provocado pelo som de sua voz.

Todo dia, antes dela chegar, aquele lugar era um escritório de arquitetura, típico, com suas com suas pranchetas e réguas paralelas, suas centenas de tubos de papelão verde, suas mapotecas, seus projetos inacabados esperando o expediente recomeçar. Bastava ela entrar e tudo se transformava em um castelo encantado, uma casa de chocolate, um Theatro Municipal.

Como naquele dia em que o escritório receberia clientes importantes e tudo havia sido recomendado na véspera: manter a ordem, a limpeza e as aparências. Mas que aparências, se as aparências precisavam da presença dela para parecer?

Os clientes importantes, por exemplo, ao chegar, minutos antes dela, eram homenzinhos comuns, engravatados, que, assim que a porta abriu e ela entrou, se transformaram em nobres do tempo de Luís XIV, vestidos de acordo, fazendo jus a passar pela porta de ouro e marfim que levava à sala dela.

Saíram uma hora depois, ela não apareceu, ficou em sua sala, e parecia, por isso, que de lá saíam grãozinhos de ouro. Escureceu. As pranchetas vazias de novo, mas ainda pareciam teares, ela ainda estava por ali.

Ousei. Todo esse tempo a devotar-me em silêncio a ela parecia dar-me esse direito. Entrei em sua sala, ela estava de cabeça baixa. "Não se pode ganhar sempre", falei. Ela levantou lentamente a cabeça, até que seus olhos penetraram os meus e, levemente, sorriu. Eu havia conquistado a graça máxima. Levantou-se, chegou perto de mim, tomou-me as mãos com as suas e disse: "Você tem muito o que aprender, menino".

Aprendi, ao longo dos anos. Terminei o estágio em seu escritório, venci a terrível sensação de perda, formei-me arquiteto, em vinte anos tinha um escritório igual ao dela, apenas com computadores no lugar das pranchetas e das réguas paralelas. Aprendi. Mas acho que aprendi errado.




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16.8.04

Mini 44

Sabia o quanto queria aquele sujeito à toa. Sabia também como queria feri-lo. Tudo havia sido perfeito. Tinha-se regalado naqueles braços, minutos antes de colocá-los fora de combate. Tinha sorvido o beijo único, essencial. O último, para ele. Olhou-se no espelho, vitoriosa.



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12.8.04

De vez em quando eu gosto de repostar (ê neologismo brabo!) alguns textos mais antigos do Dito Assim. Um pouco de preguiça, mas mais do que isso, um tanto de orgulho pela forma da cria. O texto abaixo é um dos que mais gosto entre os que pus aqui - e faz um contraponto legal com o anterior, porque aposta na alegria.

Giornata

Saí com a pressa de sempre, tinha uma entrevista por um emprego. Não podia me atrasar e, se fosse esperar o ônibus para chegar ao metrô, não ia dar tempo. Vi o táxi, estendi o braço e ele parou.
- Bom dia, eu...
- Bun-di, respondeu, antes que eu tivesse tempo de dar o destino. Era um senhor grande, forte, perto dos setenta, sotaque napolitano que me deu uma ponta de saudade do meu avô.
- Eu vou até o metrô Clínicas, por favor.
- Medró?
- Sim, metrô, demora menos - menti.
- Bó, indáu vámo - conformou-se, contrariado.
O trânsito estava horrível, a Teodoro Sampaio parada. O pouco que andava, era aos tranquinhos, o taxista gostava de frear em cima do carro da frente.
- É uma gonfusó. Dambé, qüessa donamarta, essa breféta, essa durma do beté, ningué güenda - o trânsito congelado e o velho napolitano não parava de reclamar. Tudo bem, como neto de italiano, eu sabia que daqui a pouco ele ia falar do "barméra", dos "figlio", dos "nedo", ia ficar tudo em "famiglia".
- Agora, gadé os guarda? Gadé os amarelí? É isso, meu amig', num té ningué. Só pra mandá a ganeta, aí sí, bra murtá eles abarece.
O trânsito parado e o relógio andando, acelerando. O táxi, um tranquinho aqui e ali, no máximo.
- Olá o amareli sgundido, só qua ganeta, só qua ganeta! - e apontava o amarelinho atrás do poste.
Estávamos chegando ao cruzamento com a Henrique Schaumann, e a Teodoro Sampaio parada. Numa decisão desesperada, resolvi investir o que não tinha.
- Olha, amigo, vira à direita na avenida, esquece o metrô.
- Glaro, esse metró é uma inganassó. Eles fala que tem cinqüenta galómetro, má num té nin óto.
- Eu vou até o Paraíso, Alameda Santos com Brigadeiro Luís Antônio,
- Baraíso, vamolá.
- O senhor sabe um caminho bom?
- Gaminha? Gaminha? Eu tó na braça a mai de guarenta ano. Quasi cinguanta. Tudos gamin que tem bur aqui eu gunhés. Baraíso? Vambora.
- Então vamos - me conformei, tentando suportar a dor no bolso.
O trânsito também não ia bem na Henrique Schaumann, não melhorou na Avenida Brasil. Eu tentava ler o papel que falava da empresa e do cargo que ia tentar com a entrevista.
- Era bó andigamente - tirou-me da leitura. Desisti, resolvi enfrentar a conversa.
- Eu tive um tio que era chofer de táxi. Nos anos 50, ele tinha um fordão em Pinheiros, será que o senhor conheceu, era o...
- Binhêra? - interrompeu - Binhêra? Nó, eu dinha gáro no cendro, mio bonto era no Largadaróche, bonto bó, muido bó. Binhêra era birifiria - gabou-se, reduzindo meu tio e meu Pinheiros a suas insignificâncias.
Quando ele saiu da Brasil e começou a fazer seus caminhos, tentei ler o papel e confiar nos seus quarenta anos de praça. Entre freadas e comentários, íamos indo.
- Ogliassó o grime. A bulícia no brende ningué, o griminoso fá o gui qué.
E vira à esquerda, buzina à direita, freia à frente.
- Ningué rispeta nada.
E a ladeira íngreme, o farol vermelho, a freadinha.
- O Lula, só no avió.
E buzina de novo, e vira de novo, e freia de novo.
- Baraíso, bronto.
Olho as placas na esquina, rua Cubatão com Conselheiro Rodrigues Alves.
- Desculpe, era Alameda Santos com Brigadeiro Luís Antônio.
- Nu éra Baraízo?
- Era, Santos com Brigadeiro.
- Ah, nó, aí nué Baraíso, si é Baraíso é Rua Gubató, Lameda Santo é Cerquera Césa.
- Mas eu falei...
- Faló Baraíso.
Dez e quinze, a entrevista já tinha ido para o saco.
- Vintitchinco.
- E eu perdi minha entrevista.
- É, figlio, non guarda bé as cosa, agaba berdendo.



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10.8.04

Engano

Sempre teve tudo o que quis. Corrigindo: sempre achou que tinha tido tudo o que aparentemente queria.

Assim, quando era menino, na imensa casa de sua família, numa rua curva do Jardim América, aprendeu que queria uma bicicleta nova e a teve, ao que celebrou, ainda sem convicção. Foi crescendo, estudava em um colégio que descobriu ser exatamente o ambiente que deveria querer - e aprendeu a achar a instituição dos padres seu segundo lar. Como não havia percebido e sentido antes? Com o tempo, foi descobrindo os primos. Que sujeitos incríveis. Já ia lá pelos 16 anos quando aprendeu a admirá-los, principalmente o Álvaro, dois anos mais velho, já exibindo carteira de motorista e Studebaker novo, que saía à noite para jogar água nas putas ali pelos Campos Elísios. Custou a aprender mas aquilo de alguma forma foi-lhe parecendo engraçado com o tempo. E o Álvaro afinal era um grande sujeito, imaginativo e divertido. Costumava embaraçar senhoritas com fotografias constrangedoras, que mostrava orgulhoso à animada roda de amigos curiosos.

Tentou ser como Álvaro, assim que tirou a carteira de motorista. Àquela época causara muita aflição aos pais - mais ao pai, a mãe era de pouco se afligir, ocupada com suas festas, vestidos e afilhados - porque mencionara que poderia optar por estudar arquitetura. Ao fim, nada grave, convenceu-se (como havia demorado tanto?) de que sua vocação para medicina era inata, transparecia em seu semblante - era olhar para ele e já ir chamando de doutor. Ademais, o consultório do pai já tinha uma sala reservada para ele e o Álvaro só tinha grandes histórias para contar da faculdade que cursava no interior. Muita farra, muita mulher gostosa, namorada na capital, vagabundas no interior. Vagabunda. A palavra, no início, lhe soava muito mal, ofensiva. Mas nada como o tempo para aprender e se acostumar. Nunca dizia "vagabunda" com a boca cheia como os primos e o próprio pai, mas aprendeu e se acostumou a usar o termo quando parecia inevitável.

Deu-se melhor que o primo e não foi sem uma pontinha de frustração que se matriculou na Universidade de São Paulo - não teria a vida animada do interior, com suas farras e suas vagabundas. Achou graça ao ver que havia três mulheres em sua sala - seu pai sempre lembrava que mulher em escola de medicina perdia um tempo precioso, que faltaria mais tarde em frente à criadagem. Entre as três havia uma que o perturbou. Foi num intervalo entra duas aulas, ela conversava em uma roda de amigos e inventou de sorrir bem no instante em que ele resolveu olhar para ela. Aquele sorriso tirou-lhe o sono ao longo do primeiro ano. Só no segundo conseguiu um pretexto para puxar assunto. No terceiro, admitiu que ela era uma boa amiga. No quarto, resolveu abrir o coração, mas desistiu bem na hora. No quinto ano, o pai notou algo de sombrio no quase doutor da casa. Descobriu, em poucos minutos, a existência da amiga. Em mais algumas semanas de dedicação, convenceu o filho de que a graça da amiga era quase vulgaridade, que suas sensações eram motivadas por um vazio interior e que isso precisava ser resolvido rapidamente para que a paz e o diploma chegassem sem turbulência: Celita Amaral de Macedo Peçanha aceitaria com entusiasmo um convite. Qualquer convite. Inclusive o de casamento.

Tiveram filhos, herdaram a casa do sogro, o velho Macedo Peçanha, desembargador enérgico e formador, garantia de netos de bem. O consultório ia de vento em popa, depois que o pai morreu, ele assumiu a clientela e passava a vida a ministrar receitas e contar filhos, depois netos. Tudo na mais previsível e confortável rotina. Até que a próstata não agüentou a monotonia e resolveu dar o ar da graça. Diagnóstico para lá de atrasado, casa de ferreiro espeto de pau e o toque era humilhante demais mesmo (ou ainda mais) para um médico de linhagem como ele.

Recebeu a visita da filha e do neto caçula, que, aos seis anos, dizia que queria ser médico como o vovô. Naquele dia, ele chamou o garoto até o escritório, abriu uma gaveta e dali tirou uma grande caixa de madeira. Deu-a ao neto, que a abriu e ficou fascinado com as dezenas de lápis de côr que deviam estar ali há décadas. Olhou comovido para o menino, pensando se ele aproveitaria aquela pequena chance de escapar.




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6.8.04

Notas à toa

Pequenos partos. É essa a sensação que dá escrever um texto mais longo. E "Sobrevivente", meu "conto longo" ainda não chegou a 30 laudas (apenas como referência, os contos que posto aqui são de mais ou menos duas laudas). Sinal de que, nesta vida, não conseguirei escrever meu próprio Karamázovi, muito menos meu Guerra e Paz. Mas vale o treino para a próxima. Afinal, gosto da idéia de ser um aprendiz transgeracional.

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Tanta gente boa com RJ na placa do carro passeando por aqui. O Rio de Janeiro continua lindo e os amigos de lá ainda mais (serra incluída, é claro).

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Disponibilidade: se há, há algo, se não há, nada há. Simples assim. E pensar que eu tive de gastar um insight com isso.

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Henri Salvador é que sempre soube viver.

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Não dá para perder a análise das patas no Banheiro Feminino. Aproveitando o ensejo, nossa homenagem ditoassiniana à querida Cisna Elza Soares.

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Já o Henri Cartier-Bresson, dautre fois, sempre soube adicionar vida. Deus o tem.

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O querido Piá Curitibano anda de mau-humor. Logo ele, sempre tão carinhoso. Alguém deveria castigar os políticos do Paraná por causa disso.

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Pérola Negra: os fatos têm mostrado uma mulher de coragem.

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Detesto reticências. Acho recurso pobre, covarde, apelativo. Pois bicudo e invocado assim, vi, relendo meu predileto Fernando Pessoa, que ali elas (as reticências) dão como amora na temporada. Desmistifico meus ídolos ou idolatro as colegiais? Mudo meus valores e idiossincrasias e adoto o enfeite ou vou para a clandestinidade?

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Paulão Whitaker é pai. Oba! Mais alguém pra reforçar o time das pessoas legais.



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4.8.04

Mini 43

Desabalada carreira. Decúbito dorsal. Recolhido ao nosocômio. Acompanhando o féretro. Inolvidável efeméride. Adentrando o recinto. Vitrina de cristais.

Tornou-se assunto para os reis do rádio.



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2.8.04

Mini 42

De manhã bem cedo - mudar ainda com o friozinho do orvalho cansa menos. A pequena mala dava a dimensão do tempo da viagem. Malas pequenas servem para fins-de-semana e para viagens permanentes - o que era o seu caso. Não avisou ninguém. Isso era o único desconforto a impedir aquela manhã de ser perfeita. Parecia uma criança aterrorizada e eufórica. Saiu, saudando o medo e os nove graus centígrados.



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