dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


E-mail

29.7.04

Ainda São Paulo: como este Dito Assim prima pela inovação (ou pela inconsistência), vamos, pela primeira vez, retomar o tema da última nota na nota seguinte.

A nota abaixo dá a impressão de que tenho repulsa pela cidade de São Paulo. De certa forma, tenho mesmo. O Rio Tietê e sua marginal são repulsivos. Os lixões são repulsivos. O Minhocão é repulsivo, bem como seu autor, Paulo Salim Maluf. A câmara dos vereadores é repulsiva. O transporte coletivo é repulsivo. As margens do rio Tamanduateí são tão repulsivas como erisipelas que jamais se curam. As madames e os madamos que jogam lixo das janelas de seus carrões importados são repulsivos. O trânsito, conseqüência direta e inarredável da ação inepta e/ou desonesta de sucessivas desadministrações (embora os cínicos no poder o atribuam à mania desses paulistanos ingratos de comprarem carros), causa repulsa até a quem vem de Caracas ou Nova Délhi. A avenida Luís Carlos Berrini é tão repulsiva quanto cocô de cristal.

No entanto, não acho São Paulo apenas repulsiva ou mesmo predominantemente repulsiva. Ao contrário. Com todas as mazelas, malufes e martas, eu amo esta cidade. Amo a ponto de ficar transtornado ao ver a demolição da Vila Olímpia. Amo a ponto de me emocionar a ver, em volta do Minhocão, pérolas de arquitetura (Rino Levi incluso) abandonadas, mas ainda deixando entrever suas linhas. Amo a ponto de me encantar ao ver fotos da concha acústica do Pacaembu (demolida para que ali fosse colocado mais um lance de arquibancada). Amo a ponto de me angustiar ao ver o que virou a Avenida Santo Amaro. Amo a ponto de espumar quando o tal Mário Garnero tentou trazer aqueles paquistaneses para empreender aqui o edifício mais alto do mundo, em estilo indiano, no centro de São Paulo.

Amo São Paulo e tenho prazer de tomar caju amigo no Pandoro, olhar a fachada do Instituto Biológico, me embasbacar com o Teatro São Pedro restaurado, levar as crianças para conhecer a Casa do Bandeirante (a do Butantã, onde minha avó morou na infância). Amo morar em Pinheiros, o mais agradávei bairro feio do mundo. Amo correr pelas ruas do Jardim Europa de manhã, aquele bairro projetado para acomodar a elite paulistana em bucolismo e isolamento. Amo o Parque do Ibirapuera, projeto inacabado de Oscar Niemeyer para o Quarto Centenário.

O Pandoro, bem, foi comprado e deverá passar por um processo de modernização. Não me surpreenderá se introduzirem gatorade na receita do caju amigo. Quanto ao Teatro São Pedro, aquelas casinhas em volta - integradas à fachada e usadas inclusive pela administração do teatro - estão em vias de dar lugar a um arranha-céu, estando ainda a salvo apenas pela ação responsável de uma juíza que sustou o processo antes da primeira picaretada. A Casa do Bandeirante está praticamente abandonada, com mato crescendo. Parece que o monjolo que havia ali há tempos não funciona (se é que ainda está lá). Pinheiros está coberto de pichações em andares inacreditáveis e exibe, envergonhado, o monstrengo côr-de-rosa do Ohtakinho. O Jardim Europa, depois de décadas de preservação, vive uma época de demolições que o vão, aos poucos, descaracterizando. O Ibirapuera, coitado, está imundo.

Amo esta cidade. O problema é que ela gera sempre a sensação de "eu era feliz e não sabia".



|
26.7.04

- São Paulo é a cidade mais feia do mundo.

Ouvi isso - e já falei por aqui - de um americano, velho funcionário da área de marketing da Philip Morris, hoje já levado desta para melhor por força do produto que com tanta eficiência comunicava e consumia. Estávamos a caminho do aeroporto para tomar um avião para Curitiba quando, entre uma tosse e outra, ele lançou o olhar pela janela do táxi e proferiu a frase.

Hoje, olhei pela janela do escritório novo - em escritório novo a gente sempre gosta de olhar pela janela - e me lembrei do velho executivo. Do meu ângulo de visão, num mero quarto andar na Faria Lima, pude contar, numa olhada rápida, mais de 30 peças "de mídia exterior", para usar a pataquada do ofício que escolhi para meu sustento. Outdoors, backlights, frontlights, luminosos, placas, tudo gritando para os olhos do consumidor desatento que transita obrigado por ali. Sua vingança é justamente a desatenção.

O que me vem à mente ao assistir à sufocante poluição visual das ruas de São Paulo são aquelas fotos dos arrabaldes de Nova Delhi, onde crianças, velhos, trabalhadores, mulheres transitam, com placidez, junto ao rios fétidos e em meio a moscas que insistem em posar em seus rostos. É a mesma coisa aqui, só que com outra matéria-prima.

O mais trágico disso tudo é que entra prefeito, sai prefeito e a coisa só piora. Dona Marta, bem no comecinho, bradava (ela brada, não fala) contra a poluição visual e mencionava uma certa "Operação Belezura" (esse Duda Mendonça é o cão). Com o tempo, tudo ficou como era e só não piorou porque as verbas publicitárias encurtaram. Aliás, só o espetáculo das placas vazias é pior do que a sua presença anunciando. Aumenta a sensação de Bangla Desh urbanístico.

Não, o problema não está no prefeito, ou pelo menos, não apenas nele (nela, por ora). Há uma cultura em São Paulo que mistura um pseudo-progressismo de sua elite com a falta de sensação de pertença de sua população mais humilde. Uma grande parte dessa elite disse "São Paulo não pode parar", a frase-símbolo do antiurbanismo e da caipirice entranhada de gente como Laudo Natel, Paulo Maluf (sim, caipira, apesar da gravata Hermès, da casa no Jardim Europa e do Porsche na garagem - ou talvez, por causa deles: só caipiras saem dizendo por aí que avenidas, viadutos e túneis são soluções para metrópoles como São Paulo, papagaiando o urbanismo desastroso da Detroit dos anos 30, ombreante em feiúra com as cidades da Alemanha Oriental; caipira, pois, e não apenas um bandido), Reinaldo de Barros, Salim Curiati, e tantos outros. Já uma boa parte desse povo diz: "eu vou fazer o meu pé-de-meia e picar a mula". Alguma razão eles têm, a cidade é bem inóspita para quem é pobre - mas o fato é que não se criam vínculos perenes, que sejam sentidos como percorrendo gerações.

E o(a) prefeito(a)? Trata de colocar mais outdoors na cidade, gabando-se, aos gritos, de seus furafilas, ceus e outras belezuras. Os de Marta são rosinhas. Os de Maluf, vermelhos. São parecidos em muitos aspectos. Cada vez mais são ton-sur-ton. Vão passar juntos para a história por mostrar à população de São Paulo que Nova Delhi não é um lugar tão ruim assim.



|
23.7.04

Mais um soneto para finalizar a semana, desta vez à moda (e só à moda) de Fernando Pessoa.

Soneto amador

Quando eu lhe falo, tento ser perene.
Busco um dizer que cale, cabal - qual:
Sempre falta uma citação de Sêne-
ca entre aspas, um clássico aval,

sempre sobra uma sílaba ao final,
a rima pobre impede que eu encene
um grande trovador de Portugal -
sequer consigo parecer solene.

Condenado a revelar o que sou,
incapaz de pôr a cena montada,
transformo-me, de poeta, em piada.

Pudesse ouvir as bobagens que entôo,
talvez as abatesse ainda em vôo
e pudesse esconder o que sou: nada.



|
22.7.04

Mini 41

Feminino. Muito feminino. Talvez feminino demais.

Ao tentar rever o que era, ele achou que era quase uma mulher. Inútil. Um homem não pode ser uma mulher.

Pegou o telefone. Apertou os botões, exceto o último. Desligou.

Procurá-la àquela hora seria feminino. Muito feminino. Talvez feminino demais.



|
20.7.04

Abaixo, o mini de número 40. Para um ser desorganizado como eu, foi uma idéia produtiva fazer este blog.



|

Mini 40

- Ora sús
- Pués que ansin és
- Ah Toríbio
- Que quiés Brás?

Quatro tenores. A música da renascença da Espanha era o que mais gostava de reger. Bastava ser bem cantada. A partir daí, se podia, passo a passo, conferir alma.

E o maldito tenorzinho semitonava no "...Brás" agudo. Toda vez. Ia arruinar sua regência.

Antes da festa, convidou o tenor para um lanchinho.

O menino desistiu de cantar. O regente foi ovacionado. Foram felizes, depois, para sempre.



|
17.7.04

Mini 39

- Perdoa.
- O que?
- Perdoa, eu não tive intenção.
- Intencão de?...
- De cometer aquela grosseria. E em público.
- Você é um cavalheiro sempre.
- Você também é um cavalheiro, o que me deixa mortificado.
- Você seria incapaz...
- Mas...
- Será que...
Não terminaram as frases. Disseram até logo assim que deu. Nunca mais se falaram.



|
14.7.04

Depois do soneto de ontem, fui despertado por (ou despertei) meu heterônimo, que alguns aqui já puderam ler, o poeta Martagão Gesteira, cujo perfil ainda não defini bem, mas cujas palavras já muito revelam. O homem do seco Nordeste, com sua sabedoria calejada, resolveu contrapor ao soneto suas impressões em redondilha. Seguem abaixo os versos quase líricos do Martagão.

Da moléstia

Um grande amor é doença
De curioso sintoma.
Ataca o cabra que pensa,
Impede que beba e coma

Faz troça co'a medicina,
Transforma o normal vivente,
Domina-o totalmente
Sem que se ache vacina.

E o pior é que o doente,
Em vez de querer a cura,
Sorri, parece contente
Quanto mais o mal lhe dura.

Ao prescrever a receita
O inconformado doutor
Vê o paciente, com dor,
Preferir ter a maleita.

Pois bom, se o sujeito aceita
Sorrir ao que é dolorido,
Chorar à conquista feita,
Parece desentendido.

Mas o que ocorre de fato
É que a doença devasta,
Não poupa estamento ou casta
Nem usa de fino trato:

Acomete com vigor -
É moléstia perigosa
Que causa prazer na dor
E quase dor a quem goza.

É preciso, então, e urgente
Descobrir qual é a cura
Deste mal que tanto dura
E que afeta a tanta gente.

Mas não sei, sou pessimista.
P'ra fazer essa vacina
Nem Pasteur, como cientista,
Teria o mapa da mina.

Permaneço, então, doente,
Na fila de algum transplante
Que me cure e, logo adiante,
Me deixe serena a mente.





|
12.7.04

Fui ao blog do Arlindo, o Navegar Impreciso e lá descobri que o autor faz sonetos, com graça e talento. Completa a boa impressão que eu tenho daquelas paragens. Coincidentemente, neste fim-de-semana de chumbo em SP, pus-me a escrever sonetos, coisa que não fazia há muito tempo. De início, decidi que ia poupar você, meu estimado leitor, desses ensaios arriscados de poesia. Ou talvez poupar minha reputação, sei lá. Mas o fato é que o soneto do Arlindo me encorajou, então publico um dos meus aqui. Lá vai.


Só em soneto

Vou preparar as palavras cruzadas,
avisem os livros que estou voltando.
Para a paciência e os contos de fadas,
baralho novo, chazinho pelando.

Cartas - até abarrotar o correio.
Google - até as buscas mais avançadas.
Passar o tempo mantendo-me feio
mas limpo - durarão, as chuveiradas.

Atento, saberei quem foi, quem veio,
jamais admitirei o saco cheio,
tratarei a mim mesmo a pão-de-ló.

Chamarei minha solidão de esteio,
me bastarei, de hoje até ser pó.
Chegou mais um grande dia: eu, só.



|
11.7.04

Este é um texto escrito de ouvido, confessadamente fundamentado apenas nesta memória peneirosa. Aos fatos eventualmente afrontados, minhas desculpas.

Ouço Max de Castro, filho de Wilson Simonal e irmão de Wilson Simoninha. Max e sua Orquestra Klaxon fazem o fino biscoito da fusão samba-funk-soul, além de fazer também samba, funk e soul de primeira qualidade. Max canta contido, econômico e preciso nos efeitos, com personalidade e estilo próprios, sem embargo de uma pitada de Simonal enriquecendo o tempero. Elegância, referências, precisão, inovação, Max faz um dos trabalhos mais interessantes entre os nomes que apareceram no aflorar do XXI.

Não dá para ouvir Max de Castro sem pensar em Wilson Simonal. Coisa curiosa o que aconteceu com esse cara. É uma história tão surpreendente de ascensão e queda que nos induz mais uma vez à reflexão sobre tudo o que passamos neste Brasil em que uma ditadura rastaqüera carimbou (ou tatuou? ou mutilou?) uma geração e meia.

O pai de Max era um cantor de sucesso que escapava dos padrões de sua época. Imperou entre 1966 (mais ou menos) e 1972 (mais ou menos de novo, eu disse que estou escrevendo de ouvido) como um dos melhores cantores populares de seu tempo. Encantava auditórios enormes, eletrizava a multidão, unia um swing iressistível a um carisma único, tudo sob uma qualidade musical surpreendente, que fazia de Simonal uma espécie de Midas da canção popular. Qualquer sambinha bobo - e na época da censura brava era o que mais havia - virava ouro em sua voz. O exemplo maior talvez tenha sido um horroroso samba que começava com os edificantes versos "vou dar bolacha em quem mexer com a minha nêga". Ou então, o "Meu limão, meu limoeiro", que Simonal fazia parecer um soul ou um rithm-and-blues de primeira. Em suma, cantava muito.

Um belo dia, pleno auge da ditadura, milicos e seus DOI-CODIs, OBANs, DOPSs e demais odiosos instrumentos de repressão ilegal dando choques no saco a torto e à esquerda, vem a notícia-boato: o Simonal era "rato". Tradução: um dedo-duro da ditadura infiltrado na classe artística, dedicado a delatar colegas que tivessem atividades ditas "subversivas".

A pecha colou. Simonal passou a ser visto pelos formadores de opinião, notadamente os da imprensa e da classe artística, como um roedor oportunista. Em menos de um ano, passou de ídolo a pária, daqueles em quem ninguém sequer encosta. Os programas de TV pararam de convidá-lo, os colegas artistas o puseram na geladeira, do dia para a noite o ídolo negro virou a barata de Kafka, com a divisa fascista na pata direita.

Simonal, parece, não era santo. Consta que, de fato, tinha amigos na polícia. Teria, com eles, dado uma prensa em alguém que lhe devia algum valor em dinheiro ou algo mais. Exorbitância, sim. Não, não era santo, mas em geral, e variando o tamanho dos pecados, nenhum de nós é. Quanto aos amigos na polícia, desde que o samba é samba, os cantores do rádio acabavam ficando amigos de gente do establishment, polícia aí inclusa.

Vê-se que ligações mais ou menos comuns - embora em algum nível condenáveis -, no caso de Simonal, compuseram, por meio do "boca-a-boca", um personagem, um vilão, o Grande Dedo Duro. O paradoxo da censura é que ela deixa fluir como verdade qualquer coisa relacionada aos assuntos que reprime, mesmo que sejam mentiras ou fantasias - não havendo a intermediação da imprensa, tudo vira fato.

Ao que parece, vendo os fatos com o distanciamento devido, Simonal era, além de um grande cantor, um tanto infeliz na escolha dos amigos. Pagou mais do que devia. Muito mais. Viu sua carreira acabar. Depois, deixou-se acabar. Mas criou os filhos.

Hoje, a serenidade dos anos traz Simonal de volta às lojas de discos, com uma caixa contendo sua obra completa em CD. É o resgate de um grande cantor. Vale ouvir e comparar com o trabalho dos filhos. Há uma seqüência, progressiva, mas clara, além de rara. Simonal está vivo e aprimorado em Max e Simoninha. Talvez aceite as nossas desculpas.



|
6.7.04

Breve

Saí tarde do escritório. Hamburger no Balcão, casa. Ligo a TV para me narcotizar. Roda Viva na TV Cultura entrevista o Maluf. Hm, por que fui ligar a TV? Sei que o masoquismo vai me manter vendo o porco cínico falando. No ápice, ele defende o minhocão. E eu vendo. Finalmente acaba. Antes que comece um programa experimental com o Abujamra, mudo de canal, ponho no Jô. Chato, mas às vezes tem uns entrevistados interessantes. Quem aparece? Galvão Bueno. Quase tive um choque anafilático. A Anatel deveria proibir que Galvão e Maluf fossem ao ar com menos de 24 horas de intervalo.

Ligo pouco a TV: quebrou, pela segunda vez, o controle remoto da TVA. Efeito colateral: voltei a ouvir música. Chico Buarque, a caixa. João Gilberto, o disco branco (que tem como engenheiro de som o mesmo Walter Carlos, que fez a trilha sonora de Laranja Mecânica, e que mudou de sexo e de nome, virou Wendy Carlos; no disco de João, os créditos fazem menção a W. Carlos). Slow Motion Bossa Nova, do Celso Fonseca e Ronaldo Bastos. Duke Ellington. Cyro Monteiro. Cartola. Ella Fitgerald & Louis Armstrong. John Pizzareli.

Tudo tem seu lado bom: com Maluf e Galvão na TV e os feras acima na "vitrola", creio que posso deixar para consertar o controle remoto no ano que vem.



|
1.7.04

Ontem, tive a alegria de celebrar os 10 anos do Bar Balcão, deliciosa contribuição de meus amigos Ticha Gregori e Chico Millan, com o valoroso apoio de Beto Guedes, Tenório Oliveira Lima e Ignácio Zatz, à cidade de São Paulo. Os sócios resolveram homenagear os freqüentadores mais antigos e fiéis (nós é que deveríamos homenageá-los, na verdade) publicando um livro com colaborações desta turba. Entre textos, fotos, pinturas, desenhos, colocaram ali - certamente por engano - um conto que publiquei no Dito Assim em algum lugar do passado. Em homenagem ao Balcão, aqui vai ele de novo.

Volta

Evelina quis, enfim, conversar. Era tudo o que eu queria, mas naquela hora - e ela sempre quer tudo na hora - eu não estava nada bem. Depois, ela dizia, seria tarde. Marcou o horário - apertados quarenta minutos depois - e o lugar - um bar na esquina da rua Melo Alves com alameda Tietê. Com a água do balde de gelo, tentei reanimar minha mente embriagada, mas apenas congelei o nariz.

Me vesti e pedi um táxi ao porteiro do prédio. Melo Alves com Tietê. Quando entrei no bar, achei que havia mesmo bebido demais. O imenso balcão fazia curvas na minha frente, certamente era a vodka. Evelina já me esperava. Me sentou numa cadeira alta e me interrompeu com os olhos quando eu já estava para pedir mais vodka - talvez assim aquele balcão ficasse reto.

"Eu te chamei para repensar nossa separação e você vem aqui nesse estado", cravou sem dizer nem alô.
"Mas você nem me deixou marcar para amanhã", tentei argumentar. "Se eu não aceito vir, você acaba comigo, se eu venho, você acaba comigo. E nem me deixa tomar uma vodquinha."
"Não se faça de vítima. E você já tomou umas catorze vodquinhas. Carlinhos, a conta." Mulher decidida. E piedosa, acabou me levando para sua casa. Percorreu todo o caminho como se fosse o moço da DHL e eu uma encomenda pesada e molenga. Silêncio. Chegando à porta, olhei para ela com cara de mendigo, ela me olhou com cara de noviça e acabamos nos beijando.

Fiquei uma semana em seu apartamento, que um dia foi nosso. A seco e alternando as poucas roupas que havia deixado lá (acho hoje que eram um fetiche de Evelina), duas calças, duas camisas, duas cuecas, três pares de meias - brancas.

Fim de tarde, toca o telefone. Era Evelina. "Amor, vamos ao Balcão", ordenou. Que balcão? Por que não mesa? "Amor, Balcão é o nome do lugar onde a gente se encontrou na semana passada. Você não pode ter esquecido." Podia.

Melo Alves com Tietê. Cheguei uma hora antes do combinado. O balcão era mesmo cheio de curvas. Sentei junto a uma delas e chamei o garçom. Perguntei se faziam cuba libre. Não, em geral não era pedido na casa. Mas se eu quisesse? A princípio nenhum problema.

"Daqui para a frente, então, quando eu pedir 'aquela coca', você já sabe, eu quero uma cuba." Ele arregalou os olhos e assentiu.

Quando Evelina chegou, abri os braços e a recebi com o carinho que ela merecia. Sorriu, enigmática. Pediu uma sopa fria e um suco, eu pedi minha coca. Ela me olhou longamente antes de falar.

"Engraçado, eu pensei em vir aqui para falar com você fora de casa, sobre uma sensação."
"Que sensação?"
"Não sei como falar, você está diferente. Nesses dias em casa, você tem sido atencioso, carinhoso, mas não sei, um pouco triste. Como se faltasse alguma coisa em casa, em mim."
"Faltar, só falta mais tempo de você comigo", respondi, completando com um beijo na boca e um sorriso apaixonado. Encantada, ela mencionou velhos tempos.

Voltamos para casa nos amassando nos sinais vermelhos, mãos correndo loucas por baixo das roupas, redescobertas, tesão dos vinte anos. A partir desse dia, as idas àquele lugar viraram rotina, até porque eu não podia ficar muito tempo sem coca-cola.

Com o passar dos meses, eu percebi que ela sabia. Mas relevava. Entendeu minha coca-cola pálida e dava a ela o crédito das noites boas que sempre vinham depois. E a ressaca, afinal, era só minha.




|