dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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30.6.04

Desculpem, caros leitores e leitoras, não pude resistir a mais uma lista.

100 pessoas que eu gostaria de conhecer:

1. Uma Thurman
2. Nelson Mandela
3. Uma Thurman
4. Hillary Clinton
5. Uma Thurman
6. Zeca Pagodinho
7. Uma Thurman
8. Marieta Severo
9. Uma Thurman
10. Ana Teberoski
11. Uma Thurman
12. Francis Ford Coppola
13. Uma Thurman
14. John Pizzareli
15. Uma Thurman
16. Torben Grael
17. Uma Thurman
18. Philippe Starck
19. Uma Thurman
20. Dorival Caymmi
21. Uma Thurman
22. Danuza Leão
23. Uma Thurman
24. Kofi Anan
25. Uma Thurman
26. David Hockney
27. Uma Thurman
28. Pina Bausch
29. Uma Thurman
30. Telê Santana
31. Uma Thurman
32. Fidel Castro
33. Uma Thurman
34. Hermano Vianna
35. Uma Thurman
36. Joe Pytka
37. Uma Thurman
38. João Câmara
39. Uma Thurman
40. Rita Lee
41. Uma Thurman
42. Walter Salles
43. Uma Thurman
44. Jaime Lerner
45. Uma Thurman
46. André Lara Resende
47. Uma Thurman
48. Nicole Kidman
49. Uma Thurman
50. Neville Brody
51. Uma Thurman
52. Guga Kuerten
53. Uma Thurman
54. Harvey Keitel
55. Uma Thurman
56. Maitê Proença
57. Uma Thurman
58. Martin Scorsese
59. Uma Thurman
60. Jodie Foster
61. Uma Thurman
62. Martina Navratilova
63. Uma Thurman
64. Henri Salvador
65. Uma Thurman
66. Steve Jobs
67. Uma Thurman
68. Sebastião Salgado
69. Uma Thurman
70. David Blaine
71. Uma Thurman
72. Anthony Hopkins
73. Uma Thurman
74. José Sarney
75. Uma Thurman
76. Oscar Niemeyer
77. Uma Thurman
78. Maria Esther Bueno
79. Uma Thurman
80. Celina do Amaral Peixoto
81. Uma Thurman
82. Antunes Filho
83. Uma Thurman
84. Steven Spielberg
85. Uma Thurman
86. David Letterman
87. Uma Thurman
88. Jimmy Carter
89. Uma Thurman
90. Stephen Hawking
91. Uma Thurman
92. Nelson Piquet
93. Uma Thurman
94. Contardo Caligaris
95. Uma Thurman
96. Drausio Varela
97. Uma Thurman
98. Paulinho da Viola
99. Uma Thurman
100. Quentin Tarantino



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28.6.04

Mini 38

Enquanto comia o nhoque, ouvia o Chico. Na vitrola, mesmo: orgulhava-se do velho pick-up e da imensa coleção de long-plays, bem cuidados, mimados pela flanela e pela dedicação. Pesava muito, mais de 130 quilos. E engordava mais e mais. Trinta e tantos anos atrás, havia cometido um erro. Desde então, aprendera. Dedicou-se aos discos e a comer. Música, só ouvia "Desencontro", a faixa 4 do terceiro LP do Chico. Era para lembrar do que havia sobrado do erro. Até o fim do ano, chegaria aos 150.



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25.6.04

Mini 37

Voz rouca, não muito extensa, mas afinadíssima. Palavra após palavra, nota após nota, "why not take all of me". Olhou para a platéia, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro, a banda atacou, e ela procurando de novo. Enfim, achou. Lá estava ele, numa mesa do fundo, cigarro na mão que não tinha copo. Igual. Onze anos atrasado. Ela não ouviu a deixa, perdeu o tempo, entrou errado - "you took the part that once was my heart" - no exato momento em que ele pediu a conta.



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24.6.04

É uma coleção de belezas. Melhor: duas. O fotógrafo e artista plástico Paulo Gil publica desde o mês passado dois blogs de fotos (não são fotologs, são blogs de fotos), com um dos melhores trabalhos que tenho visto nos últimos tempos. Um fica aqui, o outro acolá.

***

Brizola despede-se hoje, lá em São Borja. Vai com ele uma página da história do Brasil. Olhando em volta, não dá uma certa sensação de que a próxima página vai dar o cano?

***

Pode ser cansaço. Pode ser o simples passar do tempo. Pode ser o frio. O fato é que me acomete um banzo digno de um exilado iorubá. Banzo de que? Sei lá.

***

Voltando ao assunto a que eu não deveria voltar: o presidente disse em Nova York que "o Brasil deve deixar de ser mole", que "o Brasil resolveu deixar de ser mais um país no mundo e se tornar um ator no mundo globalizado", que até o fim do ano toda a América do Sul será "participante" do Mercosul, que "estamos fazendo o sacrifício de pagar o preço de dar ao Brasil a oportunidade de um crescimento sustentável (...)". Esse tipo de bravata vai se folclorizando e calcifica a imagem de que o presidente é café-com-leite no jogo político. Diz o dito popular que em tempo de muda, jacu não pia. No mínimo, não deveria se gabar da plumagem rarefeita.

***

Amanhã tem minis.



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23.6.04

Chegou a minha vez de aparecer no Blogs of Note. Decuplicou a audiência por aqui. Semana que vem, tudo volta ao normal. Descobri que, preservadas as devidas proporções, ser citado no BON é mais ou menos como participar do Big Brother.



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Preciso ser um homem público. É a única maneira de salvar minha biografia.

Nesta segunda-feira, trabalhei até mais tarde. Dei aula e ainda voltei ao escritório para terminar um trabalho urgente. Lá pelas onze da noite, sentei no meu potente Ford Ka (de zero a cem, só na descida) e, a caminho de casa, liguei a CBN, apenas para ouvir a má notícia: Leonel Brizola havia morrido. Fiquei chocado e triste. Brizola foi um destes símbolos que o Brasil às vezes produz, um dos melhores. Cheio de ambigüidades, incoerências, espertezas, getulianamente autoritário e centralizador, era capaz de liderar como poucos. Mandou no seu PDT até o último dia, expelindo todos os novos expoentes que apareciam, reinando como Cronos, que, por via das dúvidas, comia seus filhos logo que nasciam.

Passado o primeiro momento de choque, fui ver o noticiário aa TV e, ontem, o dos jornais. Uma das formas de os veículos preencherem os espaços vazios - fartos quando a notícia chega perto da hora do fechamento - é publicando as inevitáveis repercussões: o que é que gente de variável celebridade tem a dizer sobre o morto público. No caso de Brizola, deve ter acabado o estoque de aspas em boa parte dos veículos do país.

E aí é que vem o mais impressionante: o que se diz entre os pares de aspas. Todos ou quase todos os famosos ouvidos pelos repórteres discursavam emocionados sobre a coerência de Leonel Brizola. "Uma vida de coerência", dizia um, "retidão de pensamento, coisa rara", bradava outro, "este, ao contrário de certos políticos por aí, jamais fez concessões", resmungava um terceiro mirando no Lula.

Ao todo, ouvi e li dezenas das tais repercussões, todas unânimes em destacar a coerência do último líder remanescente da era Vargas. Já com a emoção arrefecida pelas horas, resolvi botar minha esburacada memória para funcionar. Com o perdão dos buracos, me lembrei de alguns momentos da história política de Brizola. Não teria sido ele a defender a expansão do mandato do General Figueiredo? Não teria sido ele, em seu segundo mandato no governo do Rio, a ser Collor desde criancinha? Não teria sido ele a abrigar, no PDT de São Paulo, uma animada e predominante turma vinda da Arena? Não teria sido ele, dois ou três meses atrás, a articular pessoalmente alianças à direita, com PFL, PP et caterva?

Há dezenas de exemplos semelhantes,e, no entanto, Brizola é lembrado pela coerência. Percebi: só me resta ser célebre. É o único jeito de ter uma biografia, ou pelo menos um simples epitáfio, que me louve.

Do jeito que as coisas vão, se eu morresse amanhã de manhã, meu necrológio seria algo como "Vai, Jayme, quem mandou ser gauche na vida?" Com alguma fama, isso poderia ser diferente. Já com fama das boas, daquelas de provocar autógrafos, tudo seria diferente. Haveria algum vereador a louvar minha ação social, algum fã seria filmado chorando, outro revoltado com os desígnios da vida, de repente, até uma bandeira a meio pau, ao menos em Fernando Prestes - SP.

Além dos depoimentos sobre minha operosidade, haveria de sobrar um artigo em uma página de destaque, assinado quem sabe por um subeditor. Algo como:

"Vai - mas fica em nossos corações - o empreendedor Jayme Serva. É dia de lamentar? Não! É dia de lembrar a retidão de propósitos, a coerência, a incansável dedicação à cultura nacional. Construiu um pequeno império, enfrentando todo tipo de dificuldade. Não vergou jamais. De sua perseverança, nasceu o conglomerado Dito Assim. Começou do nada - na verdade, de uma generosa contribuição intelectual à família Marinho, ao iniciar o Dito Assim no Blogger.com.br, motivo de gratidão unânime entre os irineus. O Dito Assim influenciou a mídia brasileira, principalmente pela atuação firme e incansável de seu fundador - homem de coragem, tino, desvelo e consciência cidadã.

"A retidão pitagórica de Jayme Serva há de ser sempre lembrada."

Do jeito que as coisas vão, estou longe, ainda, de tais reverências. Portanto, preciso descobrir o caminho da fama. Agnaldo Timóteo começou como motorista e, pelas mãos de Brizola, chegou a deputado federal. Quem sabe eu não arrume uma boquinha no PSOL? Motorista de Helô Helê, tradutor e intérprete, suplente de vereador. Qualquer coisa. Eu aprendo rápido, com duas ou três semanas de treino posso até me tornar ghost writer e escrever discursos tocantes, valentes e coerentes.

Faço tudo o que for preciso. Urge romper o anonimato.



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21.6.04

Já que essa é uma mania da internet, vou aderir. Aqui vai a minha lista de alegrias de bolso.

Além das grandes felicidades - filhos, amigos, amores, sexo, realizações, revelações, beleza enfim - há outras alegrias mais ligeiras, mais compactas, que, juntas, nos fazem navegar melhor nesta bola que nos foi dada como lar. As minhas 100 primeiras alegrias de bolso seguem, sem ordem de valor, todas empatadas em primeiro lugar. Pois:

1. Pousar no Aeroporto Santos Dumont.
2. Ouvir John Pizzareli.
3. Lembrar de um certo amor antigo.
4. Chegar em Visconde de Mauá.
5. Cozinhar - e acertar.
6. Cantar no chuveiro.
7. Tocar de ouvido.
8. Ler Bashô, As Sendas de Oku.
9. Surfboard, de Tom Jobim, por Roberto Menescal.
10. Pisar descalço na grama de manhã.
11. Dar uma gargalhada, qualquer que seja o motivo.
12. Entrever um seio no verão.
13. Vender um texto.
14. Provar comida nova.
15. Contar uma boa notícia.
16. Zapear.
17. Dar um palpite que funcione.
18. Desenhar.
19. Batucar.
20. Música predileta inesperada no rádio do carro.
21. Feriado em São Paulo.
22. Tirar uma música no piano (simples que seja).
23. Desenhar um rosto querido.
24. Pagar uma conta justa.
25. Estar na arquibancada que canta "SAN-TÔS".
26. Lembrar da fazenda.
27. Feira da Praça Benedito Calixto.
28. Momentos de entender as coisas.
29. Mulheres lindas desconhecidas.
30. Acordar cedo e descobrir que é sábado.
31. Céu 100% azul.
32. Jornal na porta.
33. Beijo inesperado.
34. CD novo.
35. Receber carta.
36. Pisar em outro país.
37. "Satisfaction" no meio da festa.
38. Brigadeiros de D. Raquel Pimentel.
39. Mimos de irmãs.
40. Madiba.
41. Rever o rolo da W/Brasil.
42. Supor uma telepatia.
43. "Puxa, eu te dava no máximo 37".
44. Um pacote de Bis e eu. A sós.
45. Irmão arrasando na TV.
46. 15 minutos de fama.
47. Algumas horas de conveniente anonimato.
48. Gnocchi do Buttina.
49. Ser agraciado por um sorriso de P.
50. Chorar mais uma vez durante a cena da Marselhesa, em Casablanca.
51. Ouvir, um a um, os CDs da caixa do Chico Buarque.
52. Cantar "Night and Day".
53. Fugir da festa e refugiar-se no Frevo.
54. Goiabada com queijo na proporção exata.
55. Não ter patrão.
56. Os sambas em francês de Nancy Alves.
57. Saber mais uma coisa nova.
58. Conhecer um já amigo.
59. Cony na Folha (como a idade lhe fez bem).
60. O Largo do Boticário.
61. Ray Charles. Notadamente com Betty Carter.
62. Eldorado FM na hora do rush.
63. Ter a cabeça lavada com água fria no SoHo (não o bairro, o cortador de cabelo).
64. O SoHo (o bairro de NYC).
65. Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.
66. Descobrir "Bossa Nova Lounge", a série de CDs.
67. Degustar, refinadamente como um viking, 8 garrafas de vinho. Sozinho, não - com Albertão.
68. Vencer as palavras cruzadas de "A Recreativa", as cabeludas de Poços de Caldas.
69. Dizer mais o quê?
70. Descobrir que, mesmo sendo penta, você continua tri.
71. Sobrinhos.
72. Acordar de manhã e descobrir que a curiosidade continua.
73. Conversar sobre arquitetura e urbanismo.
74. Declamar "Liberdade", de Fernando Pessoa.
75. Cantar para ninar. Não só os filhos.
76. Ter visto um operário tomar posse como Presidente da República Federativa deste Brasil.
77. Wilson Batista por Christina Buarque de Hollanda, Paulinho da Viola e Roberto Silva, além de um talentoso irmão da cantora.
78. Norton Malbec.
79. Paulo Leminsky.
80. Luiz de Camões.
81. Super Interessante.
82. Alheiras da mãe do Zé Alberto.
83. Pinturas de amigos.
84. Polpettone do Jardim de Nápoli.
85. Conversar com Almino Affonso.
86. Cabelos brancos.
87. Descobrir a diferença entre a terapia e o dentista.
88. Achar um livro esgotado.
89. Ler os desenhos do Millôr.
90. Shakespeare.
91. Capão Redondo, o documentário da Teca Eça.
92. Pátio do Colégio.
93. Quadrilha (a junina).
94. Mãos dadas.
95. A vista do 17o. andar.
96. Tintin et Milou chez Monsieur Matuck.
97. O Museu do Ipiranga.
98. Lembrar dos tempos da Escola Vera Cruz.
99. Chamar uma filha grande de "meu bebê".
100. Ver o número esperado aparecer no Bina.




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18.6.04

Mini 36

Serviu sete anos de pastor, comprou gato por lebre, resignou-se, serviu mais. Cansou, a certa altura. Gatos têm seu sabor e uma rebeldia que falta às lebres fugidias. Do pastoreio, nem lembrança.



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Mini 35

- Ele vai ver só.
- ...
- Isso não fica assim.
- ...
- Me deixar nessa situação.
- ...
- Coisa humilhante.
- ...
- Hoje eu acabo com isso.
- ...
- Sério, de hoje não passa.
- Vai mais uma?
- Vai. Dupla.



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16.6.04

PSOL. E não é que conseguiram aprofundar a superficialidade?

Eu me lembro bem dos tempos em que o PT apareceu na cena brasileira. Uma daquelas discussões infinitas embora datadas: era fruto da cortina de fumaça divisionista lançada pela ditadura ou era real alternativa de poder para a esquerda do Brasil, de certa forma, então, aprisionada a seus compromissos com o MDB? O mais fascinante ao estudar a história é que se vê que ela jamais responde perguntas, a não ser com outras perguntas ou, como as pitonisas, em linguagem cifrada. O PT respondeu com ambas, muitas perguntas e alguns enigmas. Mas respondeu também com organização. De uma forma, eu grosseiramente diria, quase stalinista, foi onde respondeu melhor. O PT, em muito pouco tempo, conseguiu substituir a utopia pelo pragmatismo. O projeto de poder superou o projeto de nação (um dos defeitos da democracia é esse: ela favorece, pela necessidade essencial de ciclos curtos de poder, a prevalência de projetos de efeito rápido sobre aqueles que impliquem amadurecimento mais longo).

Mas vamos voltar ao PT das origens. Lá nos tempos da redemocratização, o PT apostou na idéia de que a união das oposições era menos eficiente do que uma oposição mais claramente operária, trabalhista, com um discurso e uma aglutinação mais definidos em detrimento de uma frente ampla que se orientasse pela idéia mais simples e abrangente da redemocratização.

O PT percebeu que podia ganhar e entendeu o espaço que havia para isso: descrédito na política tradicional, enorme heterogeneidade e desorganização ideológica da oposição mais estabelecida. Posicionou-se. Como fazem as gelatinas e as roupas esportivas. Descobriu seu "unique selling proposition": combater o governo (não a burguesia, o capitalismo ou o poder - apenas o governo; taticamente sempre deu bons frutos).

Como combater o governo aglutina, o PT, enquanto oposição intransigente, sempre demonstrou uma grande capacidade de unir esquerdas. De Dirceu a Babá, de Helô-Helê a Dom Paulo, de Marta a Suplicy. O projeto de poder deu certo em pouco mais de 20 anos. Do início ao topo, um record, se considerarmos que o PSDB é uma dissidência, não um partido original.

Mas e daí? Poder na mão, o PT radicaliza a política do PSDB e governa como antes. Para os puristas do partido, isso é um escândalo. Mas quem são os puristas do PT? Há muito tempo que os obreiristas radicais já não estavam mais ali. Saíram, não sem resistir, e acabaram formando agremiações nanicas, como o PCO e o PSTU. Ambos são ideologicamente claros e se originam de grupos políticos historicamente definidos. Ambos se decepcionaram com o PT de Zé Dirceu e resolveram assumir seus trotskismos, suas radicalidades, suas internacionais. Ponto para eles - e para o PT.

Depois dessas brigas, quem ficou no PT, ficou porque quis. Helô-Helê, Babá e Luciana Genro fizeram campanha junto com Lula, foram co-participantes da cena "paz-e-amor". No entanto, assim que viraram governo, precisaram virar oposição. O mundo real sempre foi mais complicado do que o das conjecturas, afinal, papel e tribuna aceitam tudo. É um fenômeno que sequer é original.

O que é mesmo patético é o quarteto (os três citados e o amorfo deputado João Fontes, que até pelo PFL já andou) vir à mídia para anunciar o seu PSOL, um novo partido de esquerda a defender as utopias afrontadas pelo governo traidor. É um partido que se diz socialista, mas não tem base sindical (tudo bem, há outros com esse pecado, mas nenhum composto por integrantes que se arvoram paladinos da revolução). Pretende lançar candidata à presidência da república em 2006. Representando quem? O eleitorado dos quatro mosqueteiros não chega a constituir, digamos, um grupo social homogêneo e organizado. A própria atividade dos quatro em termos de organização das massas é heterogênea - não dá para comparar Luciana Genro com João Fontes nesse aspecto, por exemplo. A única coisa que eles têm para apresentar é o fato de terem desistido do PT. Portanto, sua razão de ser não é propor, é contrapor. Se considerarmos que há no PT uma fragilidade ideológica, vamos enxergar no PSOL a radicalização dessa fragilidade, um projeto que caminha para aprofundar a superficialidade. Sua plataforma é reafirmar que não são petistas.

É um caso curioso na história da democracia e dos partidos políticos: o PSOL está inaugurando, no ocidente, a democracia desrepresentativa. É sua grande e talvez única novidade.



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Parece que a cura se deu. Bendito doutor técnico que recoisou tudo por aqui. Lá vem catilinária. Doucement, doucement.



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15.6.04

Tá feia a coisa! Pareceu que tudo ia se resolver, mas de repente ela apareceu de novo: uma janelinha avisando que vai restartar o computador em 1 minuto, por ação de um certo "AUTORIDADE NT\SYSTEM", devido a um problema chamado 1073741819. Consigo entrar por períodos breves. Como agora. Ah, que saudade da Olivetti Lettera! Bom, com Olivetti Lettera, só fazendo blog de papel. É a lei das compensações. Espero curar-me logo.



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14.6.04

Milhões de desculpas a vocês que têm vindo aqui e não encontram novidades. Aos meus problemas com rede somaram-se outros com virus. Estou fazendo parte do movimento dos sem máquina. Vou tentar publicar um texto com a ajuda de um disquete (alguém lembra o que é isso? Há fotos em revistas do século passado). Me aguardem. Ah, é por isso, também, que não tenho visitado os blogs amigos já há uns dez dias. Mas eu volto, eu volto.



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7.6.04

Eu tenho medo, muito medo, do Botox.

Algumas das melhores lembranças que eu tenho da vida vêm de momentos de gargalhada. Gente querida usando os músculos da face para desenhar expressões de pura alegria. Os traços desse desenho? As rugas de expressão.

Eu tenho um problema crônico, motivado por um acidente: tenho uma paralisia facial no lado esquerdo do meu rosto. Não é total, mas é severa. Foi total durante cerca de um ano. Ao longo desse ano, eu ia ao espelho e forçava as contrações daquela metade do meu rosto, que ficava ali inerte. Tudo o que eu queria eram rugas. Me lembro da imensa alegria quando a primeira delas apareceu, saí exibindo-a a todo mundo, telefonei para os mais queridos apenas para anunciá-la. Ainda cultivo minhas rugas: elas contam a minha história.

Outro dia, liguei a TV na Globo. Estava escrevendo, portanto sem muita atenção à telinha, apenas pegando pedaços do que passava, uma chatice. Às tantas, vejo Aracy Balabanian, essa linda mistura de tupi com armênio, uma das grandes figuras femininas da TV brasileira. E cadê a expressão? Nada. Botox. Curare. Aracy jogou no lixo as rugas de sua testa. E como elas contavam histórias!

Dois ou três dias depois, fui ao aniversário de uma amiga querida, onde encontrei outra amiga, atriz e bailarina. Uma das mulheres mais lindas que eu já conheci. Claro, sua beleza, como de resto as belezas de todos nós, vinha em boa parte de suas expressões faciais, a manifestar sentimentos, pensamentos, sonhos. O idioma da expressão facial é falado pelas rugas. Pois bem, minha linda amiga havia aplicado curare em sua beleza. Ficou bonita. Mas, de certa forma, ficou muda, perdeu a linguagem das expressões faciais, reduziu-a a um tati-bitati, um repertório restrito e pobre.

A ilusão do curare não é a mesma que acometeu Michael Jackson, que tentou se parecer com uma outra pessoa, uma imagem feminina que ele adorava, e mandou esculpir um rosto sobre sua face original. A fantasia de Jackson era semelhante à de alguém que muda de sexo, implicava uma abrupta e radical mudança de identidade (segundo os que a praticam, é um resgate, não uma mudança). A fantasia do curare é outra, é ligada ao antigo sonho de dominar o tempo, de fazê-lo parar ou mesmo recuar. As pessoas cultivam a idéia de que de que podem ser de novo como eram há dez anos. Aracy Balabanian hoje não se parece com a Aracy Balabanian de dez anos atrás. Ela se parece com Aracy Balabanian de hoje, acometida de uma paralisia na testa.

O que me causa medo do curare é a possibilidade real que se apresenta de que se torne convenção renunciar à expressão facial própria em nome da beleza média. Corremos o risco de nos transformarmos, fisionomicamente, naquelas criaturas em que os seres humanos se transformavam no clássico do terror "Os vampiros invadem a Terra". Estes, capturados por estranhas criaturas extra-terrestres (que nada tinham a ver com vampiros, apesar da viagem do tradutor brasileiro), eram "absorvidos" de sua forma humana e depois devolvidos a ela, sem alma. No caso do botox, preserva-se a alma, mas renuncia-se à sua forma mais viva de expressão, o que pode acarretar efeito semelhante.

Não quero que alguém me tome por conservador ou ou reacionário, contra as novas tecnologias. Não tenho, por exemplo, preconceito com relação à cirurgia plástica. Há as bem-feitas e as mal-feitas. Minha aflição é específica com o botox, pela renúncia que seus usuários aceitam fazer em nome de recuperar a juventude: dão, em troca dela, uma fatia de sua identidade. Ficam bonitos na fotografia. Mas e o filme?



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Meus caros amigos, estou pouco assíduo na publicação por aqui - mas apenas na publicação, continuo a escrever. O problema é de conexão. Estou sem internet em casa e acabei de mudar de escritório. Uso uma precária linha discada, compartilhada com mais três pessoas. A Telefóóóónica não entregou o que prometeu. Voltei a usar disquetes e é com um deles que tentarei fazer uma gambiarra literária e publicar, ainda hoje, o próximo texto. Grato pela paciência e pela freqüência. A partir da semana que vem, espero despejar uma enxurada de letrinhas por aqui.



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1.6.04

Obra

- É, meu caro, semana passada meu carro ficou no congestionamento.
- Como? Só agora? O meu está no congestionamento já faz quatro meses.
- É que eu pegava umas quebradas, sabe? Conseguia ir de casa para o trabalho em menos de cinco horas, dava pra trabalhar dia sim, dia não. Um record, fui até promovido. Mas aí quebrou uma Kombi numa vielinha maneira que eu usava e pronto: tive que cair na Faria Lima. De ré, ainda por cima.
- Ah, você tem sorte, eu tô na Paulista. Quatro meses. De vez em quando eu vou lá, dou partida no carro, vejo se os pneus não estão murchando, tiro um pouco da poeira. Outro dia me deu uma saudade, fui lá às sete da matina só pra ouvir a CBN no rádio do carro. Quase acabei com a bateria.
- Ah, eu tento não me envolver tanto. Só fui lá uma vez, quando me avisaram que eu tinha que andar. Foi anteontem. Andei um metro e meio, os caras em volta tavam eufóricos. Disseram que o trânsito não andava ali há dois meses.
- Na Paulista andou uma vez só nesse tempo todo que o meu carro tá lá, e não foi nem um metro.
- É, ali a coisa pega.
- E como. O Serjão, lembra dele? Perdeu a sogra por causa do congestionamento. A dona teve um treco, chamaram a ambulância, o motorista era esperto, chegou em menos de oito horas. Mas na hora de ir pro hospital, o cara vacilou e caiu na Paulista. Ah, a coitadinha não agüentou.
- Morreu do coração?
- Não, não, morreu de sede. Cinco dias no trânsito, sem água, a coitada apitou. Sequinha.
- Quando ainda dava pra usar a mobilete, eu tinha uma alternativa, agora nem isso.
- É, aquele vãozinho entre os carros travou feio. Também, todo mundo resolveu andar de bicicleta, de moto, bastou a primeira gordinha entalar entre dois carros que a coisa pegou.
- Agora, só na calçada.
- Mas é uma canseira, aquela coisa de todo mundo espremido, se encostando. Outro dia, uma velha fez um escândalo, me cobriu de bolsada berrando que eu tava encoxando ela. Depois ainda me pediu o telefone.
- Eu tô tentando trabalhar de madrugada quando o congestionamento na calçada é menor. Mas não tá fácil. Eu saio de casa em Pinheiros, à uma da manhã, e tento chegar antes do rush das seis horas na Consolação. Mas tá todo mundo descobrindo essa alternativa, tá congestionando a madrugada.
- Bom, pelo menos tem o celular, né?
- É, mas também tá congestionado. Essa semana eu só consegui completar cinco ligações.
- Puxa, cinco? Vou mudar para a sua operadora.
- Não adianta, eles tão fechando.
- Por que?
- Ninguém tá pagando a conta. Você sabe, é o congestionamento. Congestionou também o atendimento deles, milhares de pessoas ligando para pedir prorrogação do vencimento. Ninguém consegue receber o salário, aí ninguém paga conta nenhuma.
- Falando em conta, eu preciso ir embora, faz uma semana que eu não vejo a minha mulher. Cê vai também?
- Não, não, eu me mudei.
- Pra onde?
- Aqui pro boteco, mesmo. A Estela e as crianças também vieram pra cá. Foi o jeito que eu achei pra ir acertando o pendura e pagar menos aluguel. É bom, viu? É quentinho.
- Mas se você tá nessa situação, vende o carro.
- Ninguém compra, tá travado lá há quatro meses. Mas talvez eu consiga uma outra coisa.
- O quê?
- Botei uma faixa na janela: "Aluga-se". Já recebi três propostas.
- Puxa, boa sorte.
- Pra nós.

Dois meses depois.
- E aí, como é que vão as coisas?
- Nada bem, nada bem.
- O que houve.
- Eu tinha quase conseguido alugar o meu carro para um casalzinho novo, recém-casados. Caminhamos até a Paulista para eles conhecerem o novo lar. Quando eu cheguei, foi um banho de água fria.
- Por que, o carro não tava mais lá?
- Tava sim, mas já tinha uma família de sem-teto morando nele.



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