dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
28.5.04
Um país e seus sonhos. Por que falar nisso logo agora? Confesso: faz dois dias que não mexo em "Sobrevivente", meu conto longo que, modéstia à parte, está tomando jeito e, mais dia, menos dia, aparecerá em capítulos por aqui. Enquanto isso, comento. E como os temas escasseiam, eu vou rompendo barreiras e falando de coisas que não deveria. Sou publicitário. Abracei (epa!) essa profissão quando me dei conta de que aquela que eu exercia antes e adorava - professor de pré-escola - não me daria os proventos necessários para sustentar sequer este corpinho, quanto mais uma eventual família. A publicidade, durante anos, me deu esse sustento e algum destaque - mediano -, além de momentos de realização. Digo tudo isso para afirmar o respeito que tenho pelo ofício. Portanto, o que direi daqui em diante entenda-se como manifestação de preocupação com a nossa terra, não como espinafração do meu meio de vida. Fico meio inquieto cada vez que ouço dizer que a carreira mais procurada nos vestibulares do Brasil é a de publicitário. Sempre achei cruel o sistema da Universidade no Brasil que, de forma geral, impõe a jovens de 17 anos uma escolha cabal sobre a carreira que deverão seguir. Não tenho vergonha de dizer que, aos 17 anos, eu tinha uma idade emocional de uns 14. Computado o stress emburrecedor, devo ter feito minha escolha com uma maturidade próxima dos 11 anos. Claro, escolhi errado. Porém, quando escolhíamos errado, nos meus distantes tempos de estudante, acabávamos engrossando fileiras de médicos - a profissão mais cobiçada pela molecada -, engenheiros, advogados, arquitetos, psicólogos, dentistas, agrônomos, um ou outro músico, alguns corajosos artistas plásticos. Ao olharmos essa lista, vemos que, com essa gente, se forma um país, mesmo que com algum índice de frustração profissional pela precocidade da decisão - o dentista que um dia se percebeu mais arquiteto, o médico que descontou no chuveiro o cantor que teria sido, o advogado dado a devaneios com hortaliças. A impressão que se tem hoje é que a metade dos jovens de 16, 17 anos quer se formar em publicidade. É leviano tentar apontar as razões. Há quem fale na imagem do dinheiro fácil, há quem mencione o atalho para a fama, há ainda os que falem da "descontração" (não gosto dessa palavra, por isso as aspas) do ambiente de trabalho, como motivadores para esse surpreendente fenômeno coletivo. O fascínio geral provoca um movimento impressionante. Multidões de jovens preparam-se tenaz e ferozmente para tentar uma profissão que, de resto, é muito simples do ponto de vista do conhecimento acadêmico demandado para sua prática - esta sim, mais penosa. Ao mesmo tempo, o campo de trabalho em publicidade é cruelmente finito e inelástico, o que faz com que a boa colocação profissional seja uma espécie de loteria, do ponto de vista estatístico, acrescida de uma dose pesada de ação entre amigos. Tudo isso acaba por gerar legiões de profissionais com uma sólida e bem formada frustração. Isso é preocupante, mais ainda para quem é pai. Como minhas filhas ainda não deram sinais de pender para a carreira do pai, o que mais me preocupa é ver que, em um país que precisa ser construído e, para isso, precisa de jovens dispostos e preparados para cumprir essa missão, o que se vê - e de certa forma se estimula - é que metade daqueles que deveriam compor a cena do país, o roteiro da nação, o grande filme do Brasil, sonham mesmo é com o intervalo comercial, trocando um sonho de longa metragem por um de trinta segundos. A hoje tida como mais moderna agência de publicidade do Brasil se chama África. Que não seja uma profecia. | 26.5.04
Lula em Pequim: pronto, hoje realmente passei dos limites ao pautar isso aqui. Sequer sou original. O tal conto precisa ficar pronto o quanto antes. O arquiteto paulista João Paulo Beugger (pronuncia-se "Bóiguer", complicações tedescas) cunhou, ainda nos anos 80, e com precisão ferina, o termo "moemização". Profetizava: "O Brasil está se moemizando em uma velocidade que preocupa". Por "moemizar", entendia-se tomar a forma, o estilo, a estética de Moema. Moema, para o leitor menos familiarizado com São Paulo, é um bairro da zona sul da cidade, um daqueles com melhor qualidade de vida, segundo os que medem isso, habitado por gente de classe média alta, às vezes bem alta, com uma vibrante atividade comercial, inclusive com uma animada vida noturna. Tudo num bairro só. Até meados dos anos 70, o bairro se caracterizava pelas casas de classe média, simpáticos sobrados que preenchiam todos aqueles quarteirões, monótonos pela cartesiana ortogonalidade, simpáticos pelo sossego, pela arborização e pelos nomes de pássaros ou de tribos indígenas de suas sossegadas alamedas. Mas - e sempre tem um mas, como diria o saudoso esquisito Plínio Marcos - eram tempos de especulação imobiliária, Marcos Tamoio tentava exaustivamente demolir o Rio de Janeiro (falhou por pouco), não demorou para que a invasão de prédios chegasse a São Paulo. Nessa época, um grupo de incorporadores percebeu que não fazia sentido uma cidade como São Paulo ter apenas um grande Shopping Center. Vão a Moema, com seus terrenos não tão caros e sua população tão disposta a consumir como a da rua Iguatemi, derrubam meio quarteirão e lá fazem o Shopping Center Ibirapuera. Foi a conta para que ocorresse a maior corrida imobiliária de que esta cidade tem notícia. Em poucos anos, os quarteirões quadrados de Moema mudaram completamente sua cara. O que antes era um conjunto de casas de diferentes idades, compondo a heterogeneidade harmônica que conta a história de uma cidade ou bairro, de uma hora para a outra virou uma floresta de prédios altos exibindo as arquiteturas da novidade. Dezenas de milhares de famílias de classe média foram para lá entre o fim dos anos 70 e o fim dos anos 80. Isto deu a Moema uma característica peculiar: é o único bairro da cidade, solidamente estruturado e de razoável extensão territorial, que traz tanta homogeneidade em seu referencial cultural: todas as raízes dessa nova Moema verticalizada podem ser entendidas nos limites de vinte anos de história. É quase a história de uma única geração. Moema traz, por isso, a cara da classe média urbana que emergiu dos tempos do milagre econômico: por um lado, bem-sucedida, por outro, pouco crítica - conseqüência de uma época em que a livre informação era uma utopia distante. Esse grupo simboliza uma geração para quem os shopping centers ocupam um espaço em suas vidas muito mais importante do que a universidade, os livros, a busca da autonomia crítica. Na esteira da ascenção desse grupo, um outro ascendeu, longe de Moema, mais ao sul, quase nas beiradas da Serra do Mar. Os operários do ABC, metalúrgicos à frente, foram alçados, pela combinação de farta oferta de trabalho com bem-formada organização sindical, à condição de classe média. E o Lula com isso? Sempre o vi como um representante dessa vigorosa classe média gerada no operariado industrial, com todos os seus méritos e mazelas. Quando ele, na China, presidente do Brasil, declara que aquele país, com toda a sua história, suas tradições, suas imensas contradições, é "uma espécie de shopping de oportunidades", o que me vem imediatamente à cabeça é que, passados tantos anos de transformação, com tantos cientistas políticos fazendo suas análises e tentando registrar a história, o verdadeiro profeta é o arquiteto paulista e sua profecia da moemização. Sagazes esses arquitetos de São Paulo. | 24.5.04
Se eu conseguir terminar este texto sem pieguice, já terá sido um feito. Caetano Veloso proferiu: "dizem que a poesia está para a prosa como o amor está para a amizade; e quem há de negar que esta lhe é superior?" Conheço dois ou três amigos de Caetano, não conheço seu amor. Esses amigos são pessoas especiais, inteligentes e inquietas, cada um à sua maneira. Pela dimensão dos amigos, creio que cabe em sua vida um grande amor. Grande o suficiente para manter sua poesia melhor do que sua prosa. Mas esta menção ao chato mais genial que o Brasil já teve é só um pretexto para tratar de um assunto que me tem tocado especialmente: os amigos. Não conheço nem ouvi falar de estudo científico que explique a amizade. Sobre o amor, se não há ciência, há os romances, os poemas, as canções. Sobre a decorrência mais arrebatadora do amor, o sexo, há toneladas de literatura e outras tantas de subliteratura. Sobre amizade, não há quase nada (publicações como "Quem mexeu no meu queijo" são consideradas nada por aqui). O que explica que, num grupo social, algumas pessoas se juntem por razões tão subjetivas como "ir com a cara dele" ou "que menina legal" ou ainda "que sujeitinho esquisito"? Uma afirmação comum é a de que amizade é o amor sem libido. Acho isso quase um disparate. Amor sem libido é solidariedade. Os meus amigos e amigas são todos uns tesões. O que há entre amigos é o amor além da libido, é a superação dela, é mais, não menos. Essa coisa de sexo, maravilhosa, aliás, é algo que habita os territórios mais primitivos e básicos do ser humano. Basta se lembrar da última vez que você ficou apaixonado. Não é uma situação de quase demência? Não se trata, por acaso de séria privação de sentidos? Quantas vezes não serviu de atenuante para réus acusados de crimes hediondos? Amigos não compartilham suas secreções, mas também não se infernizam mutuamente, como muitas vezes os amantes fazem. Com amigos, não fazemos sexo, embora acabemos falando muito sobre o assunto. O que é mais uma indicação de superioridade, de olhar elevado, de visão crítica. O amor, se é bom, nos faz sofrer, se é ruim, nem se fala, até porque sequer percebemos que é ruim. A amizade, quando boa, é sempre uma delícia. Quando ruim, termina sem maiores conseqüências. Quem já ouviu falar de alguém que tenha sofrido porque deixou de encontrar um chato? Onde se encontra um caso de dor de cotovelo pelo fim de uma amizade? No máximo um travo amargo, no caso de uma injustiça. Caso raro. Às vezes, deixamos de ver um amigo por muito tempo (freqüentemente porque o desavisado está amando). No mais das vezes, quando o reencontramos, o assunto continua. Já a pessoa amada não pode ficar quinze minutos longe que o estômago já aperta. Se ficamos muito tempo longe, o amor acaba - e muitas vezes dá lugar a rancores ou, mais freqüentemente, a ressentida indiferença. E com quem é que destilamos essas mágoas primitivas? Claro, com amigos. E, quase sempre, são eles que nos curam e, em certas condições, são capazes de fazer a fossa virar uma noite de gargalhadas inesquecíveis. Quem há de lhes negar a superioridade? | 21.5.04
Vou ao Senado. Vou pular da galeria. Quem sabe assim alguém me ouça. Afinal, os dois últimos que subiram na muretinha, os desempregados Edivaldo e Francis Luna - esta uma cantora desempregada, quase uma redundância - saíram em foto colorida de página ímpar da Folha de S.Paulo, com fio em volta e texto de três quartos de lauda. Edivaldo e Francis inventaram uma nova modalidade de manifestação que logo vai se colocar ao lado dos caras-pintadas e dos panelaços no rol das manifestações populares brasileiras. Mas com uma diferença: a sua manifestação é individual e solitária. Não depende de reunir, abaixo-assinar ou mobilizar. É subir na mureta e pronto: tenho dito. É por isso que decidi aderir a essa nova mídia, a mureta do Senado. Como toda mídia, ela tem suas características próprias, suas abrangências e limitações, sua segmentação. Não serve, por exemplo, para divulgar novos produtos de consumo de massa. Estes precisam de mídias mais consagradas e de maior cobertura - se bem que a nova maionese Hellmans com pote de plástico poderia muito bem pular de lá de cima só para mostrar que chega ao carpete do plenário ilesa. Mas e eu, que não sou maionese? Bom, eu poderia ir até lá, debruçar-me na mureta - jamais poderia subir nela e ficar em pé, meu labirinto não é tão evoluído - e desfiar minhas queixas. Afinal, sob certo aspecto sou desempregado. Como o Banco Central, em sua imensa sabedoria e prudência, manteve os juros referenciais em 16%, posso representar um grupo que cresce muito. Quem sabe não posso até ir do muro a uma cadeira de senador com votos desses milhões de coleguinhas? Em vez de pular lá para baixo, pularia para cima. Bom, mas além de desempregado, sou empresário. Pequeno, mas sou. Como lidar com o dilema de ser um desempregado empregador? Como enfrentar a família e dizer "acho que esse mês o Circulino (o boy) vai ganhar mais do que eu. Mas tudo bem, meninas, papai é empreendedor". Ora, a solução está ali, na mureta do Senado. Preciso agora ensaiar o discurso e providenciar o figurino. Como será que arrumo uma carona até Brasília? | 18.5.04
Hoje, fui eu que acordei invocado. O tal do conto vai ficando comprido e nada de acabar. O trabalho está pegando - por enquanto, ainda sem o merecido retorno financeiro. Aí, passa pela minha frente aquele monstrengo pink brilhante. Há quem agüente? Pois bem, a conseqüência para este espaço é séria: depois de ter versado sobre os mais variados assuntos, com ostensiva impropriedade, vou quebrar mais um tabu. Vou falar sobre arquitetura. E falar de arquitetura implica falar de política. E falar de política leva a xingar um e outro. Lá vou eu de novo. Tudo porque acordei invocado. São Paulo foi muito maltratada durante setenta ou oitenta anos. Perdeu seus rios - referências fundamentais em qualquer cidade do mundo e esgoto a céu aberto por aqui -, perdeu vários de seus bairros para viadutos, avenidas, monstrengos em geral, perdeu muito daquilo que dá identidade a uma cidade. Ganhou alguns marcos importantes, vale dizer. O Parque do Anhangabaú e o Parque do Ibirapuera, por exemplo, melhoraram a cidade e sua identificação. No entanto, ganhamos - e celebramos - aquele furúnculo arquitetônico que é o badalado e incensado prédio do MASP. Toda vez que eu olho para aquilo, me lembro da história do Palácio de La Moneda, em Santiago. Reza a lenda que um mesmo navio, vindo da Europa para cá, trazia as plantas de duas importantes edificações, o Palácio do Governo do Chile e a Casa da Moeda do Brasil. Consta que, na hora de entregar a seus destinatários, trocaram um projeto pelo outro, o que fez Santiago exibir aquele cofre enfeitado como sede do governo e o Rio de Janeiro mostrar a mais agradável e ajardinada Casa da Moeda do mundo. Quando olho o MASP, sempre penso que trocaram a planta. Isso sem falar no que havia antes ali, o Parque do Trianon, uma das lindezas dessa cidade, demolida sem dó nem senso de preservação. Não quero me estender no assunto MASP, o foco da minha invocação é outro, mas fazer um museu verticalizado, com aquela quantidade de vidro, em um país no qual o sol bate forte como o nosso, com sua mania solar de desbotar tinta, é uma idéia no mínimo pouco ortodoxa. Mas o que me deixa realmente invocado é a obra (tantos sentidos há para o verbo obrar) do dito arquiteto Rui Ohtake, que deu para brincar de inventor de paisagens na cidade. Perto de minha casa, há um projeto dele, aquele prédio horroroso que tem placas espelhadas pink na fachada, a refletirem sua cafonice cor de rosa por todo o bairro. No térreo, um monumento à carambola, perpetrado pela senhora mãe do dito arquiteto. Poucas coisas são tão feias e interferem tão mal na paisagem quanto aquilo. Outra mostra da visão urbanística de Ohtake é sua intervenção na favela de Heliópolis, a maior do Brasil. Com toda a aparência de salvador da humanidade, Ohtake pôs-se à frente de um magnífico projeto: pintar a favela. Colorir a miséria. Quem conhece Heliópolis - e eu conheço - sabe que é preciso reurbanizar aquilo o quanto antes e que os baldes de tinta não são solução nem refresco para a comunidade. São, na verdade, assunto para a bem-sucedida assessoria de imprensa do arquiteto. Questionado sobre sua vibrante atuação, Ohtake diz que a cidade carece de marcos e que ele quer criá-los. Ohtake é filho de japoneses. No Japão não há Código de Obras, há apenas três regras básicas de conduta. Entre elas, uma diz que uma construção não pode tirar o sol da construção do vizinho. Outra diz que um telhado não pode ser construído de forma a jogar água no vizinho. Ohtake faz muita sombra para parte dos vizinhos e joga sol indesejado para outros. São Paulo não precisa de marcos, já é uma imensa cicatriz. Precisa de planejamento urbano sério, precisa de uma arquitetura mais voltada à coletividade do que a projetos pessoais inconseqüentes. São Paulo não precisa de Rui Ohtake. Precisa de um japonês. | 13.5.04
Já falei de política aqui. O que mais faltava falar? Esta história que estou escrevendo, "Sobrevivência", bem mais longa, e que será publicada em 6 ou 7 capítulos, está me fazendo abusar da paciência de quem incautamente passa por aqui. É que, enquanto gasto uma ou duas horas por noite no conto, fico depois com ganas de fazer comentários não ficcionais no resto do tempo. Daí, o resultado é isso: até poesia nordestina pousou por aqui, na pessoa do eloqüente Martagão Gesteira, espécie de Ezra Pound da caatinga, Camões do sol a pino. Esta casa, que tinha disciplina e regularidade, publicando pequenos contos e minis, eventualmente uma ou outra nota sobre um fato relevante, agora põe de tudo no ar. Até de política, assunto antes evitado (e que eu adoro), já falei aqui. Só faltava falar de mulher pelada. Ah, isso não. Aliás, as fotos da Juliana Paes na Playboy estão gerando esperado frisson, dada a visibilidade da moça na TV e o conteúdo do que lá se vê. Há anos eu procuro entender o que é que gera o fascínio de mulheres bonitas, famosas e bem sucedidas por aparecer nuas na Playboy. Não, não é só grana, disso eu tenho certeza. Existe algo mais, um fetiche. Mas qual? O mero exibicionismo não explica. Ganância, em boa parte dos casos, também não. A liberalidade quanto a nudez e sexo dos dias de hoje tampouco induz necessariamente ao ímpeto de publicar a pele em rede nacional. O que, então, gera esse impulso nas mulheres do Brasil? A mulher independente e resolvida que emergiu com o novo século provoca no antigo ser dominante do cafofo, o homem, uma sensação que contém temor, fascínio, impotência (epa, não aquela, a outra, mais imaterial) e, então, paralisia. O homem se infantilizou na mesma proporção em que a mulher amadureceu. Funciona hoje por golfadas de machice. Voltou ao repertório afetivo da adolescência e o perpetua. Não é outro o motivo para a imensa proliferação, nas nossas grandes cidades, de casas de moças que vendem favores sexuais. Os puteiros são a rota de fuga que permite aos homens, não a prática do sexo livre, mas o livre exercício da superioridade perdida. Com homens assim, como ficar pelada sem assustar? Com homens assim, como exercer a feminilidade arquetípica e essencial? Com homens assim, como ser mulher? Há duas maneiras de protegê-lo: uma é tornar-se um pouco homem - de certa forma, o que determinou um padrão de comportamento nos anos 90. A outra, resgatando a mulher, é adotar uma barreira transparente (a mídia) e dar-se ao homem idealizado, o homem-conceito, o homem primordial e abstrato a quem as angústias dos tempos novos não atingem. A mulher que se põe nua em público está, de certa forma, apaziguando o macho acuado ao declarar que continua sendo mulher. As famosas da Playboy, expondo-se, estão propondo um tratado de paz. De certa forma, essa nudez não é transgressão, é quase recato. | 12.5.04
Um dia de cão, hoje. Os jornais, o entorno, o trânsito, tudo um caos. Escrevi e ia postar uma nota sobre o Lula, mas não deu tempo. Apenas digo que não tem sentido expulsar o jornalista americano do Brasil. De vítima de um pequeno idiota - o que lhe conferiria algum lustro, ou no mínimo solidariedade geral - o presidente passa a revelar seu lado Hugo Chávez, usando um instrumento legal criado pela ditadura em sua pior fase - tempos de A!-5 e Decreto 477 - e usado pela última vez em 1970 - tempos de Garrastazú Médici e "Eu te amo meu Brasil". Que pena. Parece que o advento do "governo-escola" se estabeleceu definitivamente. | 11.5.04
Ganhei um daqueles presentes que subiu diretamente para o panteão dos inesquecíveis: minha queridíssima amiga Deyse Dias Leite me surpreendeu ontem com o livro Design Visual 50 Anos (Editora Cosac & Naify), que traz a obra do Alexandre Wollner, um dos dois grandes nomes do design gráfico no Brasil - o outro é o inesquecível Aloísio Magalhães, fundador do escritório carioca PVDI. Ver a obra de Wollner é ver a evolução do design gráfico brasileiro - infelizmente, até hoje pouco valorizado, apesar da profusão de talentos que temos por aqui. Recomendo vivamente a todos uma passada de olhos pelo livro. | 10.5.04
Muié do Mei do Mato totalmente repaginado e reestruturado, com visual novo, novo sistema de posts, diagramação chiquérrima e novidades da Serra, mais precisamente da morada de Andréa Cals. Dê uma olhada lá, tá bonito. | 7.5.04
Hoje vou cometer um pecado. Vou falar sobre política. Corro o risco. Muitos de nós, quando vemos o governo do PT manter uma política econômica que replica - e às vezes radicaliza - a forma Malan-Armínio de tocar a economia, identificamos aí ou um empulhamento ou uma rendição ou ainda uma admissão tácita de incompetência. Afinal, o que o PT sempre declarou e defendeu foi a diferença inconciliável entre sua forma de pensar e as dos outros grupos originados da oposição à ditadura. A eles, o PT sempre atribuiu - ou insinuou - uma postura que ficaria entre a conivência, a tolerância e a capitulação. Desta forma, o partido jamais se dispôs a unir forças no sentido de compor um pacto nacional, um Moncloa brasileiro. Por que? Por uma razão simples e profunda: o PT desenvolveu, desde sempre, um projeto de poder, negligenciando ou menosprezando um projeto de nação. O PT - e aí eu falo do PT hegemônico, que pode ser sintetizado na figura de José Dirceu - entendeu como ninguém a lógica do processo de redemocratização do Brasil e seus reflexos na expectativa popular e no que podemos chamar de consciência coletiva. O PT percebeu o valor de dizer não - o jeito mais fácil de obter coerência sem risco. Com isso, disse não a tudo, até ao que fazia algum sentido em sua visão de país ou sociedade. Recusou coligar-se para preservar sua marca. O caso emblemático desta postura foi o da eleição para prefeito de São Paulo em 1985 - ano crítico para o país, que vivia os delicados primeiros meses de poder civil. Seria a primeira eleição direta para prefeitos das capitais em vinte anos. Qualquer um reconheceria ali a oportunidade e a conveniência de compor. Afinal, ganhar dos conservadores, herdeiros do regime militar, nas principais cidades do país seria apontar para um projeto de mudança coeso. Quem compôs? Os filhotes da ditadura, todos em torno do Jânio Quadros. O PT veio com o famigerado "Experimente Suplicy". Roubou uma montanha de votos que iriam para o candidato Fernando Henrique Cardoso, líder apertado nas pesquisas, e elegeu o ultraconservador ex-presidente, caricatura de si mesmo, para governar a maior cidade do país. Os petistas eximiram-se da culpa alegando entre outras coisas que haviam apresentado um projeto de lei para eleição em dois turnos e os "conservadores", os "oportunistas" o haviam recusado. Na noite da derrota, Fernando Henrique , em uma entrevista para a TV, profetizou o que viria: uma radicalização desnecessária, que inviabilizaria a união de centro-esquerda, empurrando mais à direita alguns, mais à esquerda outros, cindindo irremediavelmente o que seriam as bases de um pacto. Parte da profecia se cumpriu, ironicamente por ação do próprio FHC, no momento em que saiu candidato à presidência da República, turbinado pelo Plano Real, e, imediatamente, a gravitação política da época o obrigou, para ter um projeto de governo viável, à coligação com os herdeiros da ditadura agrupados sob a Frente Liberal. A outra parte, a que se refere à inviabilidade de um pacto de centro-esquerda, está se cumprindo agora. Em 85, o PT queimou o primeiro navio. Foi, ao longo de seu projeto de poder, queimando os outros. Agora não há mais retorno. Os "social-democratas" do PSDB reconhecem a "social-democracia" do PT não como evolução, mas como capitulação. Os "social-democratas" do PT vêem a "social-democracia" do PSDB como conspiração. E assim vão o PT e seu governo aprendendo a lição mineira do "quem pranta cói", enquanto nós vamos como Deus quer. Resta parafrasear os Paralamas, com o sinal trocado: FHC falou, FHC avisou. | 6.5.04
Mini 34 Caro P., Achei na gaveta da cômoda uma lista. O que pode significar "terreninho para Vanessa"? Não deve entrar no inventário? Quem é Juca do Pandeiro? Não basta ter sido o corpo encontrado em um bar tão suspeito? Onde fica Catanduva? Quem é Vanessa? Eu acho que tenho direito, depois de sete filhos. Por favor, responda. Sua, M. | 5.5.04
Mini 33 Séria, compenetrada. Sabia mandar. Sabia fazer, também. Não suportava falhar. Adorava chegar de manhã, detestava sair no fim da tarde, teria de esperar uma eternidade e mais uma noite de sono para chegar de novo de manhã. Era vaidosa, vestia-se com elegância, dentro dos limites de sobriedade que suas funções exigiam. Acolhia como forma de exercer o poder. Há dois anos tinha desistido de ter envolvimento afetivo com homens. Não conseguia manter a altivez, dar a tornava insuportavelmente igual, além de sujeita a sorrir sem controle. Gastava uma boa parte de seu salário com garotos de programa. Pagar esterilizava. | 3.5.04
A crônica especializada registrou o alvoroço que tomou a prefeitura de São Paulo ao saber da iniciativa do consórcio administrativo Rocinha Garotinho de colocar placas bilíngües para facilitar o turismo no Rio de Janeiro. De imediato, a prefeita da capital que não pode parar - consta que perdeu o freio - determinou a seu secretário de turismo que tomasse providências. Alertada de que São Paulo não tem secretaria de turismo, tomou, ela mesma, não uma providência, mas duas. A primeira foi ordenar a imediata implementação das placas bilíngües. Aqui, em furo de reportagem, as primeiras placas, esclarecendo ao turista estrangeiro em que bairro da exuberante metrópole ele se encontra: Tatuapé - Walking Armadillo Butantã - Crazy Boo Santo Amaro - Holly Bitter Sapopemba - Frog Dick Santana - Big Old Car Pinheiros - Pine Trees Alto de Pinheiros - Tall From Pine Trees Bexiga - Bladder Vila Ida - Gone Village Interlagos - Between Lakes Largo 13 - I Let 13 Go Campo Belo - Beautiful Field Faria Lima - Would Make Lime Faria Lima Nova - Would Make New Lime Vila Carrão - Big Car Village Capão Redondo - Round Castrated Capela do Socorro - Help Chapel Barra Funda - Deep Bar Várzea do Carmo - Tranquil's Riverside Freguesia do Ó - Clientele of the Look At Casa Verde - Green House Casa Verde Alta - High Green House Parada de Lucas - Lucas' Parade Quarta Parada - Calm Wednesday Moema - Huge Brazilian Ostrich Largo do Socorro - I Give Up The Help Largo da Batata - Potato Square Vila dos Remédios - Medicines Village Tamanduateí - Ant Eater I.T. Bela Vista - What a Sight Sacomã - Bag Mom Cerqueira César - Caesar's Yard Shop Bairro do Limão - Lemmon District Jaguaré - Cougar Is Granja Julieta - Juliet Grange Granja Viana - Grange I've seen Anne Feitas as placas, a segunda providência já está sendo tomada: dado o caráter internacional da nova medida, a Taxa da Placa será indexada ao dólar. | |